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A GRANDE MÃE

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ÍSIS Túmulo de Tutmés IV; Tebas, XVIII Dinastia.

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Erich Neumann

A GRANDE MÃE Um Estudo Histórico sobre os Arquétipos, os Simbolismos e as Manifestações Femininas do Inconsciente

Tradução Fernando Pedroza de Mattos Maria Sílvia Mourão Netto

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Título do original: Die Grosse Mutter – Eine Phänomenologia der Weiblichen Gestaltungen des Unbewussten. Copyright © 1974 Walter Verlag AG, Olten (Primeira Impressão) 1974. Copyright © 1959 Bollingen Foundation Inc. Copyright da edição brasileira © 2021 Editora Pensamento-Cultrix Ltda. 2a edição 2021. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou usada de qualquer forma ou por qualquer meio, eletrônico ou mecânico, inclusive fotocópias, gravações ou sistema de armazenamento em banco de dados, sem permissão por escrito, exceto nos casos de trechos curtos citados em resenhas críticas ou artigos de revistas. A Editora Cultrix não se responsabiliza por eventuais mudanças ocorridas nos endereços convencionais ou eletrônicos citados neste livro. Editor: Adilson Silva Ramachandra Gerente editorial: Roseli de S. Ferraz Gerente de produção editorial: Indiara Faria Kayo Editoração eletrônica: Join Bureau Revisão: Adriane Gozzo

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Neumann, Erich A Grande mãe: um estudo histórico sobre os arquétipos, os simbolismos e as manifestações femininas do inconsciente / Erich Neumann; tradução Fernando Pedroza de Mattos, Maria Sílvia Mourão Netto. – 2. ed. – São Paulo: Editora Pensamento-Cultrix, 2021. Título original: Die Grosse Mutter – Eine Phänomenologia der Weiblichen Gestaltungen des Unbewussten Bibliografia. ISBN 978-65-5736-075-0 1. Arquétipo 2. Mitologia 3. Psicologia I. Mattos, Fernando Pedroza de. II. Netto, Maria Sílvia Mourão. III. Título. 21-54625

CDD-150

Índices para catálogo sistemático: 1. Psicologia 150 Aline Graziele Benitez – Bibliotecária – CRB-1/3129

Direitos de tradução para a língua portuguesa adquiridos com exclusividade pela EDITORA PENSAMENTO-CULTRIX LTDA., que se reserva a propriedade literária desta tradução. Rua Dr. Mário Vicente, 368 — 04270-000 — São Paulo, SP Fone: (11) 2066-9000 http://www.editoracultrix.com.br E-mail: atendimento@editoracultrix.com.br Foi feito o depósito legal.

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AO AMIGO E MESTRE C. G. JUNG

“Todos somos forçados a continuar investindo nos nossos objetivos, enquanto assim nos permitirem as nossas forças, para que no final não desfrutemos nada além daquilo que elas nos permitam.” (Bachofen, Prólogo e Tanaquil)

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Sumário

R Prefácio ...............................................................................................................

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PRIMEIRA PARTE Introdução à Primeira Parte .............................................................................

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1. A Estrutura do Arquétipo ............................................................................ A natureza do arquétipo; Dinâmica, simbolismo, componentes materiais, estrutura; O grupo simbólico; O arquétipo primordial e o aspecto genético; A percepção mitológica

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2. O Grande Feminino e a Grande Mãe .......................................................... Esquema I: Ouroboros, Grande Feminino, Grande Mãe

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3. O Duplo Caráter do Feminino ..................................................................... Caráter elementar e caráter de transformação; As esferas funcionais do caráter elementar; Gravitação psíquica como fundamento do caráter elementar; O elemento dinâmico do caráter de transformação; Os mistérios de transformação do Feminino; Anima e o caráter de transformação; Esquema I (continuação): A diferenciação: Grande Mãe e anima

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4. O Simbolismo Central do Feminino............................................................. O vaso: mulher – A comparação: corpo = vaso – O mundo externo como mundo-corpo-vaso; A fórmula da era primordial: mulher = corpo = vaso = mundo; Esquema II: simbolismo do vaso; O simbolismo do caráter elementar: ventre e útero; O seio e o caráter de transformação; O Feminino matriarcal e o simbolismo da criança; O simbolismo da planta e do animal

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5. Os Mistérios da Transformação ................................................................... Céu noturno e lua; Esquema II (continuação): Renascimento; O Feminino como o criativo

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6. As Esferas Funcionais do Feminino .............................................................. Esquema III: caracteres elementar e de transformação como eixos; Os polos positivo e negativo; Os círculos funcionais e os pontos de intersecção; Os polos do círculo da transformação no círculo da mudança espiritual como os quatro precintos do mistério

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7. O Fenômeno da Reversão e a Dinâmica do Arquétipo ................................. Esquema III (continuação): os polos como figuras arquetípicas; Os polos como pontos de transição; A unidade dos polos e a unidade dos eixos; As deusas nos pontos dos polos; Fases psíquicas e eventos históricos

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SEGUNDA PARTE Introdução à Segunda Parte ..............................................................................

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A. O Caráter Elementar 8. As Deusas da Antiguidade............................................................................ O significado sagrado da Mãe da Idade da Pedra; O caráter elementar como vaso da abundância; O significado da esteatopigia; O trono; Acentuação da fertilidade e da sexualidade; A união dos opostos; Abstração e o caráter de transformação; A deusa de braços erguidos

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9. O Caráter Elementar Positivo ...................................................................... O caráter vaso; Boca e olhos; O simbolismo do seio no vaso; Aspectos superior e inferior da nutrição; O simbolismo numinoso do corpo; A relação mãe-filho: o nutrir; O vaso-ventre: gerar; O umbigo; A preparação do vaso; O vaso protetor; O útero; A deusa mãe e a menina; O vaso receptivo e a serpente; A ambivalência da deusa

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10. O Caráter Elementar Negativo .................................................................... O simbolismo negativo do Feminino e o inconsciente; A Deusa Terrível como terra devoradora; Kali, Coatlicue, Górgonas, Rangda; O Terrível como fantasma psíquico; O mundo inferior, terra dos mortos, solo, oeste: caverna, portão, pilar, dólmen, cerca; Os portões do mundo inferior e sua deusa; O vaso da morte: pithos, urna, caixão; A ave dos

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mortos: corvo, urubu, abutre; Medo da decadência; A Mãe Terrível como ouroboros: a Górgona; Os atributos masculinos destrutivos do Feminino: serpente, dentes, presas, língua; A deusa do portão e do caminho; O vaso da morte do mundo inferior: inferno, goela; Magia

O Simbolismo do Feminino Terrível na Melanésia ...................................... O mundo matriarcal: espírito guardião; A terra dos mortos, labirinto, viagem noturna pelo mar; Aranha, mulher caranguejo, rato, concha gigante, a pança da morte; lua, altar de pedra

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O Mundo Matriarcal na América ................................................................ Céu noturno, mundo primordial; Mitologia lunar e a Grande Mãe no Peru; A deusa da noite como Górgona e a morte dos heróis da luz; O cânone simbólico da Mãe Terrível no México; Terra, noite, morte, mundo inferior; O fundamento matriarcal da cultura asteca; A religião da obsidiana; A unidade da Grande Deusa; O ritual de fertilidade; O simbolismo feminino do Masculino; Deusa mãe e filha; O filho-amante; Sacrifício e nascimento; Quetzalcoatl: o herói, a transformação, a regressão

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B. O Caráter de Transformação 11. O Grande Círculo ......................................................................................... A Grande Deusa como Grande Círculo; Unidade do superior com o inferior: céu noturno, terra, mundo inferior, oceano primordial; As trevas urobóricas originais; Tiamat e a era primordial; A deusa vestida – Egito: mar, ovo, vaca; Hathor, Nut, Ísis, Mehurt; Bast, a deusa de Saïs; Nut e Naunet; A deusa do céu noturno

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A Deusa do Destino...................................................................................... A deusa fiandeira: Egito, Grécia, países germânicos, maias; O moinho; A roda da vida; O círculo

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12. A Senhora das Plantas ................................................................................. O simbolismo do Egito; Nascimento: oceano primordial, colina primordial; Serpente primordial e lótus – A deusa como árvore; Sicômoro, pilar djed, árvore que gera o sol; Ninho, berço, manjedoura, caixão; Árvore do céu; Árvore das almas; Árvore do destino; O duplo significado da madeira feminina: árvore da vida e árvore da morte; Cruz, leito, navio, berço; A Mãe Terra: água, pântano, montanha, pedra; A senhora das plantas; Magia para fazer chover; A deusa das flores e das frutas; A abelha

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13. A Senhora dos Animais ................................................................................ Da psicologia do matriarcado; Totemismo; Magia para a chuva; Exogamia; O feminino e o grupo dos homens; A Grande Deusa e as feras; Formas animais e humanas da Deusa; Sacrifício; O significado psicológico da Senhora dos Animais

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14. A Transformação Espiritual ......................................................................... Os mistérios primordiais do Feminino; Mistérios da preservação, da formação, do nutrir e do transformar: vaso, caverna, casa; Túmulo e templo; Pilar e clausura; Dissimulação e vestimentas; Magia para a caça e o alimento; Armazenagem de alimentos e preservação do fogo; Transformação dos alimentos; Venenos e medicamentos

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A Mulher como Figura Mana ...................................................................... O Feminino como vaso da transformação; Sacerdotisa, xamã etc.; A Figura mana feminina e a anima; Profecias, poesia, dança; Medicina, drogas e venenos; Bersekerismo e o Feminino; A Deusa do destino

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A Vivência da Mulher por Ela Mesma e os Mistérios de Elêusis .................. A relação mãe-filha; O casamento da morte; O nascimento do filho: fogo e luz; A Lua Maternal e o Sol; A virgem, o Hieros Gamos e a espiga de milho; Da psicologia matriarcal dos Mistérios de Elêusis; Os Mistérios de Elêusis e o Masculino

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Sofia ............................................................................................................. O vaso da transformação espiritual; O alimento do coração; Formas vestigiais de Sofia no Ocidente; Kwan-yin e Tara

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Índice das Figuras do Texto ..............................................................................

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Índice das Ilustrações ........................................................................................

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Bibliografia ........................................................................................................

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Ilustrações ..........................................................................................................

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Índice Remissivo................................................................................................

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Prefácio

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ste livro surgiu, originalmente, da proposta do Prof. C. G. Jung e da sra. Fröbe-Kapteyn para que eu escrevesse um prefácio à primeira publicação do material do Arquivo Eranos para a Pesquisa do Símbolo, em Ascona, na Suíça. Este volume seria dedicado às manifestações, na arte e na cultura, do arquétipo da “Grande Mãe”. Ao fundar o Arquivo Eranos, a sra. Fröbe-Kapteyn realizou, pela primeira vez, o significativo trabalho de localizar, reunir e organizar o material arquetípico que havia encontrado na arte uma forma de expressão fecunda. Minha gratidão não é somente pela proposta original, mas também pela generosidade da sra. Fröbe-Kapteyn ao concordar com a ampliação do primeiro projeto. Verificou-se de imediato que o trabalho estava passando por uma transformação em minhas mãos e que, para mim, o texto escrito – a descrição do arquétipo do Feminino na totalidade – estava ganhando uma importância muito maior. Tendo em vista sua correlação, as gravuras do Arquivo Eranos – das quais provêm aproximadamente a metade das utilizadas neste volume – foram utilizadas para a ilustração do texto. No entanto, não se deve pensar que a fascinação exercida pelas gravuras do Arquivo Eranos tenha sido apenas uma primeira centelha da inspiração para o texto; pelo contrário, durante todo o tempo em que trabalhei neste livro, foram elas que mantiveram vivo meu interesse e determinaram todo o conteúdo e ritmo de minhas ideias. Nesse sentido, este livro, na forma como está publicado, pode ser considerado uma apresentação do Arquivo Eranos. Meus agradecimentos à Fundação Bollingen, que possibilitou a realização deste empreendimento. Aos vários assistentes, que me ajudaram na composição e na correção dos textos e preferiram não ter os nomes mencionados, minha gratidão. E. N.

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PRIMEIRA PARTE

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INTRODUÇÃO À PRIMEIRA PARTE

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ma das tarefas principais da Psicologia Analítica são a análise estrutural de determinado arquétipo e a apresentação de sua constituição interior, de sua dinâmica, do conjunto de seus símbolos – como se manifesta através das imagens e dos mitos da humanidade. A dificuldade prática e teórica de compreender o que a Psicologia Profunda entende por arquétipo mostra-se extraordinariamente grande para aqueles que ainda não vivenciaram, numa análise, a realidade dos arquétipos. Nossa exposição utiliza vasto material mitológico e estético; apesar disso, o mesmo necessariamente se ateve a um aspecto da interminavelmente complexa constituição da humanidade. Nosso critério de seleção consistiu propositadamente em que cada ilustração pudesse ser substituída por outra e que cada mito permitisse sua substituição por outro semelhante ou correspondente a ele. Entretanto, não foram arbitrárias – acreditamos – a disposição, a montagem e a diferenciação do material que tentamos apresentar na segunda parte, pois esta se baseia na psicologia e na análise estrutural do arquétipo cujo teor será desenvolvido na primeira parte deste trabalho. O leitor que não tiver interesse pela natureza densa e teórica do trabalho de pesquisa da Psicologia Profunda poderá, sem receio, iniciar sua leitura pela segunda parte, onde a abundância da matéria e das ilustrações literárias e visuais talvez facilite sua compreensão do mundo arquetípico. Aqueles que, não obstante, buscam aprofundamento de sua experiência e orientação essencial perante a riqueza do inconsciente coletivo não podem prescindir da leitura da primeira parte, mesmo que o façam depois de terem lido a segunda. Essa observação, porém, não deve ser mal interpretada como se a primeira parte fosse unicamente dirigida a um círculo restrito de psicólogos ligados à pesquisa científica. Nosso empenho objetivou, ao contrário, possibilitar àqueles seriamente interessados uma introdução ao mundo dos arquétipos e facilitar a compreensão da matéria como ocorre em todo início de aprendizado. Por esse motivo, incluímos alguns esquemas na apresentação da primeira parte, o que a experiência nos mostrou ser de

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extraordinário proveito para a maioria das pessoas – mas não necessariamente para todas – no sentido de lhes facilitar a compreensão do contexto. Nosso trabalho não trata de um arquétipo em geral, mas de um muito especial, o do Grande Feminino, ou, mais especificamente, o arquétipo da “Grande Mãe”. Este livro, que foi precedido por um pequeno volume com outros trabalhos sobre o mesmo tema e por um comentário sobre o conto de Apuleio, “Amor e Psiquê”,* é a primeira parte de uma “Psicologia Profunda do Feminino” (cuja edição o autor aguarda ansiosamente). A investigação das peculiaridades da psique feminina é tarefa das mais necessárias e importantes a que se propõe a Psicologia Profunda, a quem compete o fecundo labor do restabelecimento e desenvolvimento criativos de cada ser humano. A problemática do Feminino tem exatamente o mesmo significado para os psicólogos da cultura, que reconhecem que a ameaça à humanidade atual assenta-se, em grande medida, no desenvolvimento patriarcal unilateral da mentalidade masculina, que não é mais compensado pelo mundo “matriarcal” da psique. É nesse sentido que a apresentação de um mundo psíquico-arquetípico do Grande Feminino, que tentamos com nosso trabalho, é também uma contribuição para o estabelecimento de uma futura terapia da cultura. A sociedade ocidental precisa, a qualquer custo, chegar a uma síntese que inclua o mundo feminino, igualmente unilateral quando isolado. Somente assim o ser humano individual poderá desenvolver a totalidade psíquica urgentemente necessária para que o homem ocidental possa estar psiquicamente atento para os perigos que ameaçam por dentro e por fora sua existência. O modelo ideal da Psicologia Profunda do futuro é o desenvolvimento do indivíduo até que ele atinja a totalidade psíquica, na qual o consciente esteja criativamente unido ao conteúdo do inconsciente. Somente essa integração total de um indivíduo pode tornar possível uma qualidade de vida melhor para a sociedade. Se, num determinado sentido, o corpo são é a base de um espírito e de uma psique sadios, mais ainda um indivíduo sadio serve de base a uma sociedade igualmente saudável. É o fato básico da vida humana coletiva, tão frequentemente ignorado, que confere ao trabalho psicológico com o indivíduo seu significado social e sua relevância para a terapia da cultura humana. Apesar da aparência anacrônica, distante da realidade cotidiana, o trabalho com o mundo arcaico dos arquétipos serve de fundamento a qualquer tipo de psicoterapia e abre ao homem uma visão de mundo a partir da qual não só ele pode se modificar como também lhe oferece uma nova perspectiva da vida e da humanidade como um todo. A assimilação do universo arquetípico leva a uma forma interior de humanização que, por não ser um conhecimento da consciência, mas, sim, uma vivência do ser humano total, se mostrará ainda mais confiável que a forma de humanismo que conhecemos, desprovida de bases psicológicas profundas. Parece-me que um dos sintomas decisivos dessa nova humanização é o desenvolvimento, no indivíduo e na comunidade, de uma consciência psicológica sem a qual é impensável uma futura evolução da humanidade ameaçada. *

Publicado pela Editora Cultrix, São Paulo, 1990.

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Capítulo Um

A ESTRUTURA DO ARQUÉTIPO

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uando a Psicologia Analítica se refere à imagem primordial ou ao arquétipo da “Grande Mãe”, não se refere à existência de uma imagem concreta existindo com tempo e espaço, mas a uma imagem interior em operação na psique humana. A expressão simbólica desse fenômeno psíquico são as figuras e as imagens da Grande Deusa, reproduzidas nas criações artísticas e nos mitos da humanidade. O aparecimento desse arquétipo e seu efeito podem ser observados ao longo de toda a história da humanidade, porquanto estão presentes nos rituais, nos mitos e nos símbolos desde os primórdios do homem, e igualmente nos sonhos, nas fantasias e nas realizações criativas de indivíduos enfermos e sadios do nosso tempo. Para esclarecer o que a Psicologia Analítica compreende por “arquétipo”,1 devemos estabelecer a diferença entre seus componentes dinâmicos ou emocionais, seu simbolismo, seu componente material, sua estrutura. A dinâmica, o efeito do arquétipo, manifesta-se, entre outros, por processos energéticos no interior da psique, processos esses que operam tanto no inconsciente como entre o inconsciente e a consciência. Esse efeito aparece, por exemplo, em emoções negativas e positivas, em fascinações e projeções e também no medo; além disso, no sentimento de que o ego está sendo subjugado e nos estados maníacos e de depressão. Cada um desses estados, quando se apodera da personalidade como um todo, representa o efeito dinâmico de um arquétipo, independentemente do fato de esse efeito ser aceito ou rejeitado pela consciência humana, de permanecer inconsciente ou de alcançar a consciência. O simbolismo do arquétipo é a maneira como ele se manifesta sob a forma de imagens psíquicas específicas, que são percebidas pela consciência e peculiares a cada 1

Jolande Jacobi, “Komplex, Archetyp, Symbol”, in: Schweiz. ZS für Psychologie, Berna, 1945, vol. IV (Edição comemorativa). [Complexo, Arquétipo, Símbolo. Editora Cultrix, São Paulo, 2a ed., 1991.] (fora de catálogo)

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arquétipo. Há que notar que os vários aspectos de um arquétipo aparecem também em imagens diferentes. Dessa forma, o aspecto assustador do arquétipo manifesta-se através de outras imagens que não correspondem às de seu aspecto vivificante e “bondoso”. Contudo, o aspecto assustador de um arquétipo, por exemplo a Mãe Terrível, manifesta-se também nos símbolos de algum outro arquétipo, por exemplo, um aspecto negativo do animus. Compreendemos por componente material do arquétipo seu conteúdo significante apreendido pela consciência. Quando, porém, dizemos que um conteúdo arquetípico do inconsciente é elaborado ou assimilado, essa elaboração – se descontamos o teor emocional do arquétipo – diz respeito ao seu componente material. A estrutura do arquétipo, por outro lado, é a complexa estrutura da organização psíquica, que abrange seu dinamismo, seu simbolismo e seu conteúdo significante, cujo centro e fator unificador inapreensíveis são o próprio arquétipo.2 A dinâmica do arquétipo manifesta-se principalmente pelo fato de ele determinar o comportamento humano de maneira inconsciente, mas de acordo com leis e independentemente das experiências de cada indivíduo. “Como condição a priori, os arquétipos representam a instância psicológica especial que os biólogos chamam de ‘padrão de comportamento’, que confere a cada ser vivo sua natureza específica.”3 Esse componente dinâmico do inconsciente exerce no indivíduo, que é guiado por ele, uma pressão irresistível e sempre vem acompanhado por um forte componente emocional. Portanto, aliado à constelação de um arquétipo sempre existe um estado de comoção biopsíquica. Esta pode desencadear uma modificação das pulsões e dos instintos, e também da paixão e da afetividade, e, num nível mais elevado, da tonalidade afetiva da personalidade – sobre a qual atua o arquétipo. A atuação dinâmica do arquétipo estende-se mais além da reação instintiva inconsciente e desenvolve-se como determinação inconsciente da personalidade, que vai influenciar de maneira definitiva sua disposição, suas inclinações, suas tendências e, por fim, suas opiniões, suas intenções e seus interesses, bem como sua consciência e a forma e direção específicas do seu intelecto.4 Quando o conteúdo atuante do inconsciente é reconhecido, impõe-se à consciência, assumindo a forma simbólica de uma imagem. Pois, “qualquer coisa anímica pode ser um conteúdo consciente, isto é, pode ser representado, mas somente se for capaz de representação e se possuir a qualidade de uma imagem”.5 2

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Essa formulação não é uma definição, pois o paradoxo “natureza dos arquétipos” é indefinível. Para esse fim, vale o mesmo simbolismo aplicado à divindade que, descrita como um círculo que abrange o centro e sua periferia, não pode ser definida. Carl Gustav Jung, “Versuch zu einer psychologischen Deutung des Trinitätsdogmas”; in: Symbolik des Geistes, Zurique, 1953, p. 374 – nota. Não nos ocuparemos aqui com o fato de que este efeito dinâmico do arquétipo determinante desempenha um papel na enfermidade psíquica, especialmente na psicose, mas também na neurose. Jung, “Geist und Leben”; in: Seelenprobleme der Gegenwart, Zurique, 1931, p. 334.

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