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L E S L E Y

L I V I N G S T O N

A PORTA ENTRE OS MUNDOS SE ROMPE

tradução

Angela Tesheiner e Cláudia Santana Martins


Copyright © 2011 Lesley Livingston Copyright © 2011 HaperTeen, um selo da HaperCollins Publishers. Copyright © 2016 Editora Gutenberg Título original: Tempestuous Todos os direitos reservados pela Editora Gutenberg. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja cópia xerográfica, sem autorização prévia da Editora. editora

revisão

Silvia Tocci Masini

Camile Mendrot Vanessa Spagnul

editores assistentes

Felipe Castilho Nilce Xavier

capa

Carol Oliveira (sobre projeto gráfico de Marina Ávila)

assistentes editoriais

Andresa Vidal Branco Carol Christo

diagramação

Larissa Carvalho Mazzoni

preparação

edição de texto

Silvia Correr

Ab Aeterno Produção Editorial

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil

Livingston, Lesley A tempestade / Lesley Livingston ; tradução Angela Tesheiner e Cláudia Santana Martins. -- 1. ed. -- Belo Horizonte : Editora Gutenberg , 2016. Título original: Tempestuous ISBN 978-85-8235-368-4 1. Ficção norte-americana I. Título. 16-01362

CDD-813.5 Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura norte-americana 813.5

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Para John. E para Jack.


Sonho de uma noite de verão William Shakespeare

HIPÓLITA: Como é possível o Luar sair de cena antes de Tisbe voltar e encontrar o amante? Tisbe retorna. TESEU: Ela o encontrará à luz das estrelas. Lá vem ela, e com sua dor a peça acaba.


Sexta-feira, 9 de abril Presente

A carruagem negra em estilo antigo corria dentro da noite, as rodas grandes e raiadas rangiam, deslizando sobre a superfície do rio como se o cavalo espectral que a puxava estivesse andando sobre uma trilha pavimentada. Ao longe, perto das margens, as luzes da cidade tremulavam, mas ali, no meio da vastidão do rio, tudo era escuridão. À medida que a carruagem se aproximava da silhueta negra e curvilínea de uma ilha, acelerava ainda mais, precipitando-se pelo arco em ruínas de um cais – que fora usado outrora para o carregamento de carvão, mas agora estava abandonado – como se fosse um portal para outro mundo. Apontando para o céu e projetando-se além das copas das árvores, havia uma longa chaminé coroada por um ninho de passarinhos, que, de repente, saíram em revoada quando os cascos do cavalo retiniram nos destroços do píer e em uma alameda coberta de folhagens. Folhas caídas, remanescentes do último outono, dançavam no rastro da carruagem que passava. O cocheiro puxou as rédeas, fazendo o cavalo parar diante do portão aberto das ruínas de uma construção de pedras. Anos de abandono permitiram que a vegetação ao redor ficasse densa e exuberante, subindo pelas paredes quase até o telhado. A profusão de trepadeiras e musgo suavizara os contornos da construção, mas não conseguia disfarçar as linhas elegantes do projeto original. 9


Assim que os pés do cocheiro tocaram o chão, uma onda de iluminação iridescente emanou da carruagem, transformando a construção abandonada, alterando, como uma miragem, sua aparência rústica. Quando o cocheiro abriu as portas da carruagem, foi recebido por várias figuras que trajavam longos mantos. O único filho sobrevivente do Homem Verde jazia no banco de veludo como um brinquedo quebrado que havia sido jogado contra uma parede. Seus braços e as pernas estavam dispostos em ângulos estranhos. Manchas de sangue esverdeado tingiam-lhe a pele nos cantos da boca. Havia uma marca de queimadura negra no formato de um trevo de quatro folhas na base de seu pescoço, e ele parecia respirar com muita dificuldade. O cocheiro fez um breve gesto de cabeça na direção dele. “Levem-no para dentro.” Enquanto dois assistentes se aproximavam da carruagem, o cocheiro se virou para a construção de pedra e os degraus de entrada – que agora, sob a luz que emanava das janelas abertas de ambos os lados das portas de carvalho entalhado, pareciam lisos e reluzentes como mármore. As figuras sombrias ergueram o corpo inerte e o carregaram para o saguão de entrada. Sons de diversão e festejos vinham lá de dentro, e o perfume de flores impregnava o ar, sedutor e convidativo. Entretanto, antes de subir os degraus, o cocheiro ergueu os olhos para o céu noturno e murmurou, em tom similar ao de quem profere uma sentença de morte: “Encontrem a Magia Verde. E tragam-me aquele que carrega o seu fardo…” O ar escuro encheu-se com as sombras mais negras enquanto as figuras que trajavam mantos entravam em ação freneticamente: jogando os mantos para trás, libertaram os corpos esfumaçados que se ocultavam sob eles. Asas começaram a surgir às suas costas, suas penas escuras se unindo como se estivessem se formando da própria escuridão da noite, e um bando de garças de olhos vermelhos alçou voo, guinchando. 10


I

A maior parte da multidão de curiosos já havia se dispersado quando o Corpo de Bombeiros de Nova York conseguiu, após um bom tempo, controlar o incêndio, embora todo o quarteirão permanecesse cercado pela fita amarela da polícia e as sarjetas estivessem cheias de água enegrecida pela fuligem. Felizmente, a estrutura do prédio era isolada, diferentemente das lojas e edifícios de apartamentos dos arredores. Dessa forma, os danos ficaram restritos ao Teatro Avalon Grande – embora “danos” fosse uma palavra inadequada para descrever a devastação que a antiga igreja convertida em teatro havia sofrido em virtude do incêndio que se iniciara ali nas primeiras horas da manhã. Logo antes do amanhecer. Logo antes… do quê? Sonny Flannery, sob as sombras da entrada de um prédio do outro lado da rua, lutava desesperadamente para se lembrar do que acontecera. Sabia que estivera dentro do Avalon momentos antes do prédio ser consumido pelo fogo – escondendo-se, esperando pelo amanhecer, acuado por seres mágicos malignos – e sabia que houvera uma batalha. As cruéis Donzelas Verdes e seus irmãos, os leprechauns. Sonny e seus amigos estavam em desvantagem. E então… algo acontecera. Algo ruim. E, mesmo se sua vida dependesse daquilo, ele não conseguia se lembrar o quê. Tudo o que ele sabia era que estava lutando pela sobrevivência e, no momento seguinte, acordara em seu apartamento sentindo-se como se a cabeça estivesse cheia de algodão e pregos 11


para logo descobrir que o único lugar em todos os mundos que Kelley Winslow, a garota que ele amava, chamara de “lar” desaparecera. Fora destruído. Agora, postado diante dos restos fumegantes do teatro Avalon Grande, na rua 52, Sonny tinha a sensação horrível e angustiante de que aquilo tudo havia sido sua culpa. Em uma das paredes de tijolos, ainda havia cacos de vidro da cor do arco-íris nas molduras das janelas, mas quase todo o resto do prédio havia sido reduzido a escombros quando a torre do sino desmoronara. Junto ao beco lateral, onde a porta para o palco ainda estava pendurada de um jeito estranho no batente desconjuntado, Sonny viu os estilhaços de espelhos e suportes de cabides cheios de fantasias queimadas e enegrecidas. Na extremidade de um dos suportes, um par cintilante de asas de fada, levemente tostadas, pendia de um cordão. Sonny se virou abruptamente e seguiu aos tropeços pela calçada, sem olhar para onde ia – e quase derrubou uma mulher de meia-idade de macacão e óculos que estava parada fitando os destroços do teatro, com lágrimas correndo-lhe pelo rosto sem que ela desse atenção.

O Começou a chover, poucos respingos que rapidamente se transformaram num aguaceiro. Com a cabeça baixa e os ombros curvados, Sonny caminhava sem destino. O vento que soprava a chuva contra ele, ensopando sua camiseta e deixando-a colada ao tórax, era frio e penetrante. Mas também havia um toque – apenas um leve aroma – de verde, de plantas crescendo e botões de primavera chegando às narinas de Sonny, e ele respirou profundamente o ar, quase engolindo-o, tentando se acalmar. Verde… e fumaça? Não. A fumaça estava em sua cabeça. Uma lembrança do… do quê? De uma luta da qual não se recordava. Uma batalha que ateara fogo no teatro de Kelley, pelo jeito. Era isso, pelo menos, o que ele deduzira das imagens na televisão – cenas 12


filmadas mais cedo naquela manhã mostrando o Avalon Grande desabando, desaparecendo em uma grossa coluna de fumaça preta como tinta, destroçado. Exatamente como Sonny se sentira após Kelley Winslow ter dito aquelas palavras: “Eu não amo Sonny Flannery”. Verde e fumaça… Sonny olhou em volta; o desejo de correr, se esconder, fugir era quase esmagador. O peito lhe doía – por dentro e por fora – como se tivesse água do mar nos pulmões ou houvesse sido jogado contra rochas traiçoeiras, açoitado pelas ondas. Provavelmente é assim que se sente um náufrago, pensou Sonny. Agarrando-se à esperança de um resgate que não vem… Sonny se virou e recuou aos tropeções, saindo do meio-fio para a rua, ignorando os protestos furiosos das buzinas de carros e de freios guinchando. “Eu não amo Sonny”, foi o que ele disse. E disse aparentemente sem saber que ele estava bem ali. Atrás dela. Perto o bastante para entrar na sala. Para estender a mão e tocar-lhe os cabelos reluzentes. Ele não compreendia por que ela havia dito tal coisa, mas sabia que só podia ser verdade. Uma das verdades supremas no mundo de Sonny era esta: os seres mágicos não conseguem mentir. Kelley era um ser mágico. “Nunca amei e nunca vou amar”, ela disse. A lembrança das palavras dela queimava Sonny por dentro ao mesmo tempo em que as garras do vento gelado o rasgavam. Ele crescera na corte do rei do Inverno e raramente sentia frio, mas agora tremia tanto que os dentes batiam. À sua frente, a boca escancarada da entrada do metrô na esquina da rua 50 com a Oitava Avenida o chamava. Cambaleou cegamente em direção ao abrigo que a escadaria lhe oferecia e desceu, viajando pelo subterrâneo como Orfeu em busca de sua amada no inferno. Só que Sonny sabia, com amarga certeza, que a sua Eurídice não o queria. Ela mesma o dissera. 13


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A tempestade - 3º ato  

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