Page 1

ÚLTIMAS PALAVRAS

O QUE VOCÊ DIRIA NA HORA DA MORTE? As últimas palavras de grandes personalidades

O AU TO R

Formado pelo Instituto de Estudos Políticos de Paris, Philippe Nassif é professor, escritor e um apaixonado por filosofia que procura desenvolver reflexões e traçar caminhos para entender e interpretar, teorizar e compartilhar com seus contemporâneos a experiência humana. É consultor da redação da revista Philosophie Magazine e autor dos livros Bienvenue dans un monde inutile, La lutte initiale e Pop philosophie, obras em que explora os recursos que temos para imprimir um sentido, uma forma, um impulso para as nossas vidas.

De Sócrates a Proust. De Leonardo da Vinci a Kurt Cobain. De Jesus Cristo a Jane Austen. Descubra o que as mais renomadas figuras da História disseram antes de seu último suspiro. Como já diziam os antigos, a única certeza que temos na vida é a morte. Coragem, aceitação, arrependimento, insatisfação... Um brevíssimo resumo de toda uma trajetória de vida e seu caráter se reflete nas derradeiras palavras ditas por alguém prestes a embarcar em sua última viagem. A morte é a anfitriã do único encontro inevitável dessa existência e nunca marca hora para chegar, mas os moribundos das 78 citações reunidas neste livro estavam prontos para recebê-la com frases que revelam medo, esperança, humor negro, surpresa, reverência ou simplesmente uma brilhante idiotice, deixando um memorável adeus. Últimas palavras é um delicioso obituário literário; o legado final de mentes excepcionais e de grandes personalidades que “saíram da vida para entrar na história”. R.I.P.

ISBN 978-85-8235-450-6

9 788582 354506

ÚLTIMAS PALAVRAS O QUE VOCÊ DIRIA NA HORA DA MORTE?

PHILIPPE NASSIF

PHILIPPE NASSIF “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”As palavras finais mais conhecidas do mundo são as que foram ditas por Jesus em seu suplício na cruz, mas várias outras personalidades importantes deixaram seu adeus a este mundo cruel registrado para a posteridade. Você sabe quem disse estas palavras?

“ Só há três coisas na vida: a amizade, o amor e...” “ Não chore, preciso de toda a minha coragem para morrer aos vinte anos.”

“Não sei o que

o amanhã trará.”

“ Por que estão chorando? Acreditaram que eu fosse imortal?”

“ Diga a eles que tive

uma vida maravilhosa.”


PHILIPPE NASSIF

ÚLTIMAS PALAVRAS O QUE VOCÊ DIRIA NA HORA DA MORTE? As últimas palavras de grandes personalidades

t r a d u ç ã o Fernando Scheibe


A

cena é célebre: enquanto morre em seu domínio de Xanadu, o magnata da mídia Charles Foster Kane pronuncia, num último suspiro, a palavra “Rosebud”. Assim tem início, com a palavra final, o filme Cidadão Kane de Orson Welles. Após a morte do protagonista, um jornalista tenta descobrir o sentido desse “botão de rosa”. Todo construído com flashbacks, o filme mostra a investigação do enigma, o qual não se desvendará para os protagonistas, mas sim para o espectador, que descobre, na última imagem do filme, que “Rosebud” é a palavra inscrita no trenó com que o pequeno Kane brincava quando, após herdar uma mina de ouro, é arrancado de sua mãe para ser criado por um banqueiro. O segredo de seu apetite insaciável pelo poder era uma infância abortada. Podemos então chamar isso de síndrome de “Rosebud”: essa fascinação pelas últimas palavras das grandes mulheres e dos grandes homens. Elas surgem para nós como estranhas revelações arrancadas in extremis à ÚLTI M AS PALAVRAS

[4|5]


invasão do nada: verdadeiros fragmentos de poesia bruta. Se essas palavras incitam nossa curiosidade e excitam nossa imaginação, isso se deve provavelmente ao fato de que esperamos descobrir nelas um pedaço da verdade subjacente a um destino ou a uma obra excepcionais. Verdade que pode sempre nos escapar – à maneira do “Rosebud” de Kane –, mas que talvez seja possível evocar, vislumbrar, tocar de leve, cruzando a biografia do (quase) defunto e as circunstâncias de sua morte. Trata-se de um frágil exercício de interpretação, mas que nos oferece um material riquíssimo para meditação: Leremos nestas páginas 78 últimas palavras – expressões de pavor ou de esperança, rasgos de humor ou de estupefação, grandes momentos de inconsciência, por vezes atitudes que flertam com a santidade, visões proféticas ou, simplesmente, as manifestações brilhantes de uma personalidade singular. Além disso, cada uma delas corresponde mais ou menos a um dos “cinco estágios da morte anunciada” descritos pela psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross: a negação, a raiva, a barganha, a depressão e a aceitação. São palavras que nos remetem naturalmente à relação inquieta que mantemos com nossa própria morte, e é por isso que elas nos fascinam. Mas é preciso esclarecer em que morte estamos pensando. Talvez não se trate apenas de nosso desaparecimento futuro: parece um pouco tolo, ao ler esses relatos, perguntarmo-nos o que nós mesmos poderíamos dizer em nosso leito de morte – ou até preparar uma boa frase, como quem redige seu epitáfio. De maneira mais profunda, acredito, essas palavras ecoam todas as mortes que encaramos


desde nosso nascimento. Todos esses lutos incessantemente recomeçados: o afastamento da mãe, o adeus à infância, à adolescência e à juventude, os momentos de humilhação ou de vergonha, a perda dos seres amados ou dos lugares que habitamos, os amores mortos ou as amizades que se vão, as esperanças frustradas, as certezas que desmoronam. É sobre as nossas respostas – raiva, negação, barganha, depressão, aceitação – a essas mil e uma perdas que a descoberta dessas últimas palavras projeta sua luz: aí reside sua força inspiradora. Como uma incitação a abandonarmos de vez aquilo que já está morto em nós, mas continua a nos assombrar, e a nos abrirmos ao que está ali, à nossa frente e sempre novo, em estado nascente.

ÚLTI M AS PALAVRAS

[6|7]


Anton Tchekhov

“Fazia muito tempo que eu não bebia champanhe.” † 15 de julho de 1904, Badenweiler (Alemanha), 44 anos


O

escritor russo nunca concedeu repouso a si mesmo durante toda sua vida. De Platonov a O jardim das cerejeiras, passando por A gaivota, concebeu uma obra prolífica, sem jamais negligenciar seu engajamento social como médico, atormentado pelo sofrimento universal e imbuído do amor ao próximo. É por isso que ele passa um verão na ilha de Sacalina: para denunciar as degradantes condições de vida da colônia penal. Também não cobra nada para tratar dos camponeses que vivem perto de sua casa de campo e faz doações a várias escolas populares. No entanto, Tchekhov tem tuberculose: desde os 23 anos cospe sangue e, apesar de ser médico, só decidirá se consultar 12 anos depois. No verão de 1904, parte para a Alemanha, com sua esposa Olga Knipper, a fim de repousar numa estação termal da Floresta Negra. No meio de uma noite, acorda e manda chamar um médico – “pela primeira vez na vida”, contará Olga. E pede a ele... champanhe. Tchekhov é um dramaturgo de estilo lacônico e minucioso, capaz de ir do cômico ao trágico com a mesma eficácia. E é assim que, erguendo-se em seu leito, declara solenemente em alemão ao médico: “Ich sterbe” (“Estou morrendo”). Vira-se então para sua esposa, pronuncia suas últimas palavras, esvazia tranquilamente sua taça, deita-se sobre o lado esquerdo e se cala para sempre.

ÚLTI M AS PALAVRAS

[8|9]


Luís XIV

“Por que estão chorando? Acreditaram que eu fosse imortal?” † 1º de setembro de 1715, Versalhes, 76 anos


L

uís XIV está sofrendo há vários dias de uma dor insuportável na perna esquerda quando uma gangrena senil finalmente é diagnosticada. Atravessa então uma agonia de mais de uma semana. Suas últimas horas impressionam pela dignidade demonstrada na censura a dois de seus criados, que soluçam ao vê-lo expirar, por não terem se preparado para perdê-lo. É no mínimo interessante essa evocação de sua condição mortal. Como se ele perguntasse: vocês acabaram acreditando nessa ficção do Rei Sol, do monarca absoluto, de direito divino, nessa ficção que me dediquei a encenar ao longo de todo meu reinado, no coração dessa microssociedade do espetáculo que o castelo de Versalhes se tornou? Mas se Luís XIV se sente livre para falar assim é porque, naquele momento, já não se considera mais rei. Chama já seu bisneto, o futuro Luís XV, de “o jovem rei”. E quando evoca uma lembrança, sempre usa a fórmula: “quando eu era rei...”. Não é ele, portanto, que é imortal, mas a linhagem real: o espetáculo pode continuar.

ÚLTI MAS PALAVRAS

[ 10 | 11 ]


Emily Dickinson

“Devo ir para lá, pois o nevoeiro está aumentando.” † 15 de maio de 1886, Amherst (Massachusetts), 55 anos


A

grande poetisa norte-americana escolheu uma existência monástica e excêntrica. Emily Dickinson vive enclausurada na casa familiar em Amherst, Massachusetts, sai raramente e sempre se veste de branco. Quase nunca recebe amigos. Guarda a maior parte de seus poemas num cofre que sua irmã Lavinia só descobrirá depois de seu falecimento. Compõe assim uma obra misteriosa, livre, brilhante, que incessantemente se confronta com o enigma da morte – “a dobradiça da vida”, ela escreve –, com as possibilidades do nada que nela se abrem, com a figura de Cristo, com a magnificência tranquila das flores e com a exaltação do amor. Um dia, no verão de 1884, estando na cozinha, ela vê “uma grande escuridão se aproximar” e desmaia. A partir de então, a passagem para um além se torna uma obsessão em suas cartas e notas. Fica doente no inverno de 1885 e não sai mais da cama. As últimas palavras que escreve são perturbadoras: “I must go in, for the fog is rising”. Em Emily Dickinson, a poesia e a espiritualidade andam juntas, correspondem-se, educam-se reciprocamente e, no final, inspiram-lhe esse corajoso gesto de abandono à morte.

ÚLTI MAS PALAVRAS

[ 12 | 13 ]


www.autenticaeditora.com.br www.twitter.com/autentica_ed www.facebook.com/editora.autentica

Últimas palavras - O que você diria na hora da morte?  

De Sócrates a Proust. De Leonardo da Vinci a Kurt Cobain. De Jesus Cristo a Jane Austen. Descubra o que as mais renomadas figuras da Históri...

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you