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VOLTANDO A AMAR – Olivia Gates

A reconquista! Naomi Sinclair fora completamente apaixonada por Andreas Sarantos. Casar-se com o poderoso grego enchera sua alma de prazer… e de desespero. Ela logo descobriu que seu marido era incapaz de amar, por isso, o fim do casamento foi a única solução. Mas Andreas retorna decidido a reconquistá-la. E saber que Naomi adotara a filha de sua melhor amiga lhe dá a vantagem para atraí-la novamente. Reaver a única mulher que realmente desejou seria suficiente para curar as cicatrizes de seu passado, ou Andreas perderia Naomi para sempre? DESTINOS CRUZADOS – Kathie DeNosky

O despertar da paixão! T.J. Malloy não pensou duas vezes antes de salvar uma mulher com um bebê de uma enchente violenta e abrigá-los em seu rancho. Até perceber que Heather Wilson era a vizinha com a qual tinha uma contenda. Mas não havia como ignorar o quanto era bela, e também seu desespero pelo tipo de ajuda que só um cowboy como ele poderia oferecer. Conforme o volume da água aumentava, o desejo entre os dois se tornava mais forte… E T.J. fará o que for preciso para Heather ficar ao seu lado!


Olivia Gates Kathie DeNosky

DESTINO & AMOR

Tradução Michele Gehardt Cydne Losekann

2015


SUMĂ RIO

Voltando a amar Destinos cruzados


Olivia Gates

VOLTANDO A AMAR

Tradução Michele Gehardt


Querida leitora, Conheci Andreas Sarantos em Voto de confiança, publicada em Desejo ed. 221, no qual é narrado o romance de sua irmã. Enigmático e obscuro, nem mesmo sua família o compreendia ou se aproximava. Assim, soube que Andreas tinha uma história sombria e complexa que eu precisava explorar e contar. Contudo, não esperava que ele me levaria por caminhos tão profundos e inacreditáveis, nem que eu ficaria tão tensa enquanto escrevia. Sem falar que a paixão entre Andreas e sua heroína, Naomi Sinclair, foi incrível desde a primeira página. É verdade o que dizem sobre icebergs: vemos apenas a ponta. E quando um homem de gelo como Andreas derrete, produz um volume de água incontrolável. Como em seu interminável duelo passional com Naomi, até mesmo ao tentarem construir uma família ao redor da pequena menina que virou o centro de suas atenções. Espero que goste da história como eu adorei! Divirta-se! Olivia Gates


CAPÍTULO 1

NAOMI SINCLAIR ficou estarrecida ao ver aquele rosto na TV do escritório de seu sócio. Uma avalanche de memórias inundou-a, sentindo-se exatamente como o Titanic. Afinal, chocara-se ao avistar Andreas Sarantos, seu iceberg pessoal. A frieza daquele homem saía da tela congelando-a e fazendo seu sangue ferver. Apesar de todas as advertências, seguira em rota de colisão. Não uma colisão catastrófica e breve. Foram dois anos tumultuados. O único resultado possível eram os destroços. Estremeceu ao ver Andreas após quatro longos anos. Com o som desligado e ele fitando-a diretamente, imaginou-o falando o que lhe dissera na primeira vez em que o procurou. Você não vai querer se meter comigo, srta. Sinclair. Desista enquanto pode. Ela ainda ouvia sua voz, sombria e ameaçadoramente sensual, com o leve sotaque grego tornando-a ainda mais atraente. Ainda sentia seu olhar frio e sua luxúria lancinante. Não obedecera ao aviso antes da comprovação de que ele estava certo. Suas palavras não eram uma advertência, mas uma promessa de destruição. Promessa cumprida. Ela não tinha ninguém além de si para culpar. – Para seu governo, ele está de volta à cidade. O comentário, surpreso e indiferente, trouxe Naomi de volta à realidade.


Desviando o olhar do rosto lindo, porém proibido, olhou para o sócio. O comentário de Malcolm Ulrich a fez perceber que Andreas estava de volta à cidade após quatro anos. Mesmo sabendo que ele possivelmente estava na sala ao lado e não tentara vê-la, seu coração batia só em pensar. Malcolm fitou-a, ansioso. – Eu tinha praticamente desistido de fazer negócios com Andreas, ele só negocia ao vivo quando está aqui. – Seu sócio olhou para a TV. – Aí está ele. Ela fez o mesmo, encontrando o olhar fuzilante de Andreas quando ele encarou a câmera com a tolerância de um lobo por um coelho. – Ainda não acredito que não conversamos depois que ele salvou nossa pele em Creta, então vim pessoalmente saber como ele resolveu o problema com Stephanides. Antes tarde do que nunca. Desta vez, vou fazer o que for preciso para que ele leve nosso plano de expansão a sério. Ela quase deixou escapar uma piada. Andreas não a tinha “levado a sério”, nem na cama. Nem mesmo o sexo quente o fizera se envolver em algo que não considerasse financeiramente viável. Ele afirmara que seus métodos de desenvolvimento sustentável causavam muitos problemas logísticos e geravam muito pouco lucro para que os considerasse. Era o resumo da conversa de negócios que tiveram durante seu envolvimento. Duvidava que Malcolm desistiria de procurar Andreas se contasse a ele. Poderia fazê-lo suspeitar de que houvera algo mais entre ela e Andreas do que todos sabiam. Apenas Nadine, sua única irmã, e Petros, o único amigo dele, sabiam a verdade. Para todos, ela e Andreas eram dois profissionais que se encontravam esporadicamente, ele como o multimilionário grego capitalista cujo toque mágico para negócios todos almejavam, e ela como sócia de uma empresa de desenvolvimento imobiliário lutando para deixar sua marca em um ramo cada vez mais competitivo. Quando tudo acabou, ela ficou grata. Ninguém sabia de sua loucura, o que possibilitou que fingisse que o calvário nunca acontecera, e ela queria que continuasse assim. Por mais que doesse, teria de deixar Malcolm se espatifar contra Andreas Sarantos. Malcolm sabia que aquilo era inútil. Tentara o financiamento antes de


Malcolm sabia que aquilo era inútil. Tentara o financiamento antes de se tornarem sócios há sete anos. Foi quando Andreas finalmente respondeu a um dos convites de Malcolm que ela conheceu o grego, um ano após Malcolm, Ken e ela criarem a Sinclair, Ulrich & Newman, ou SUN Empreendimentos. Andreas viera inspecionar um de seus primeiros projetos, Malcolm esperava convencê-lo a financiar seu ambicioso plano de expansão fora do país. Vendo fotos, Naomi o achara o homem mais incrível que já vira. O encontro a balançara. Seu olhar e aperto de mão eram frios, indiferentes, mas também invasivos. Em quinze minutos, ele a fascinara e a intimidara como ninguém. Fizera alguns comentários sobre pontos fracos do negócio que nem ela nem seus sócios haviam percebido. Então, abruptamente pediu licença, não dando indicação se ficara interessado ou não, nela ou no plano de negócios. Isso não a impedia de pensar nele. As imagens na tela mudaram, interrompendo suas lembranças. Seu olhar se fixou nele indo para a limusine. Mesmo de costas, parecia o sedutor indiferente que conquistava sem querer, devastava sem esforço e não se preocupava com seu rastro de destruição. A repórter, uma mulher evidentemente nervosa com o encontro com o deus grego, lamentou não ter conseguido tirar o bastante do sr. Sarantos. Caso ela pudesse dar um conselho à mulher, diria que ninguém tirava nada de Andreas Sarantos. Nada além de mágoa, sofrimento e humilhação. Malcolm pegou seu celular. – É melhor eu ligar logo, reservar sua primeira hora disponível enquanto estiver aqui, antes que toda a cidade comece a persegui-lo. – Estou indo – comunicou Naomi se levantando. – Ei... – reclamou Malcolm. – Nem começamos nossa reunião. – Podemos deixar para amanhã. – Naomi parou na porta. – E eu, de qualquer maneira, seria inútil preocupada com Dora. Era verdade. Deixara Dora com febre, não conseguindo se concentrar o dia todo. Passara a maior parte do tempo ligando para Hannah, apesar de


a babá insistir que estava tudo bem. Agora, o retorno inesperado de Andreas, ainda que Naomi estivesse certa de que só o veria pelos noticiários, acabara com qualquer possibilidade de pensamento coerente. Ela tentou sorrir. – Ainda bem que encontrou algo mais importante para hoje. – Nada é mais importante do que você! O sorriso de Naomi permaneceu inalterado, e não respondeu quando fechou a porta. Malcolm sempre fizera galanteios, mas ultimamente ela notara algo mais em suas observações. Esperava estar enganada, odiaria se alguma coisa estragasse seu relacionamento profissional e a amizade. Começara a sociedade com ele e Ken, porque os dois eram muito bem casados. Depois, a esposa de Malcolm morreu de câncer, e ela começou a perceber vibrações diferentes nele. Tornaram-se mais perceptíveis desde a morte de Nadine e Petros, há três meses. Naomi temia que Malcolm pensasse nela como objeto de seu programa de monogamia. Quando entrou em seu apartamento em Manhattan, sua mente transbordava com a possibilidade perturbadora e com o retorno de Andreas. Jogou a bolsa na mesa e pendurou o casaco quando ouviu passos. Virou-se encontrando Hannah, que fora sua babá e agora de Dora, parecendo ansiosa. O coração que batera forte durante todo o caminho disparou alarmado. – Dora está com febre novamente? Por que não me ligou? Eu teria voltado logo para levá-la ao médico! Hannah pareceu momentaneamente surpresa antes de acenar. – Ah, eu já falei que ela não teve mais febre depois que você deu o remédio. Tivemos um dia maravilhoso e ela dormiu. – Fiquei preocupada quando você veio correndo. – Depois do que você passou, é natural que fique exaltada. É incrível como superou bem. Mas não precisa se preocupar com Dora. Baixinhos fortes como ela suportam muito mais do que uma febre. Depois de criar quatro filhos, você e Nadine, mais Dora, meu sétimo bebê, acho que aprendi. – Enquanto eu não sei nada – lamentou Naomi. – Semana que vem,


– Enquanto eu não sei nada – lamentou Naomi. – Semana que vem, Dora faz dez meses, e eu ainda me sinto despreparada. Eu me preocupo cada minuto que ela está longe de mim. Acidentes acontecem, como o de Nadine e Petros. As palavras engasgaram na garganta, a ferida não parara de sangrar nos últimos três meses. Hannah deu-lhe um daqueles abraços que sempre melhorava a pior das situações. – Ser paranoico faz parte, querida. E você tem razões de sobra para as suas ansiedades, mas nunca vamos deixar que nada aconteça à nossa Dora, ela vai crescer segura e amada, e tornar-se uma mulher bonita e excepcional como sua mãe e sua tia. A Agonia voltou quando o rosto exuberante da irmã invadiu a mente de Naomi. Antes que as lágrimas escorressem, ela aconchegou a cabeça nos ombros de Hannah, deixando seu toque e cheiro acalmá-la. Hannah sempre fora parte da sua vida, preenchendo o vazio que sua mãe deixara ao morrer quando Naomi tinha 13 anos. Fungando e tentando sorrir, ela se afastou. – Então, por que veio correndo? Pensou que era um intruso só porque cheguei um pouco mais cedo? Não deveria ter vindo armada? Se suspeitar de qualquer coisa do tipo, se tranque em um quarto com Dora e chame a polícia. Hannah levantou ambas as mãos. – Você está realmente muito nervosa hoje. Este edifício é à prova de intrusos, e você tem trancas contra um exército de invasores. Qualquer um que vem aqui precisa ser convidado. – Ela parou, hesitante, um mal-estar percorrendo seu rosto novamente. – Eu vim interceptá-la. – Interceptar-me? Por quê? – Antes que você entrasse na sala e me encontrasse. Naomi virou-se, com uma pontada no coração. Aquela voz. A voz que nunca deixara de atormentá-la, Andreas. Ficou pasma, lá estava ele. Andreas Sarantos. O homem do qual escapara quatro anos atrás, com a sua alma e psique em frangalhos. Era impossível e absurdo ele estar ali, em seu apartamento, aonde nunca o levara ou muito menos colocara os pés durante os anos em que estiveram


juntos, embora não realmente juntos, mas lá estava ele. Sua presença a envolveu, engoliu, afogou. Sobrenatural, forte, sinistra. Ele fitou-a através do clima pesado. Ele aproximou-se como avançando nas trevas, sua aura envolvendo-a, fazendo seu íntimo estremecer com uma confusão de reações que nunca pensou que experimentaria novamente. O tempo se encarregara de desvanecer a memória de seu impacto, ou estaria ele ainda mais avassalador? Ele não poderia estar ali. Sua mente gritava, enquanto seus batimentos cardíacos disparavam. Ela olhou-o de cima a baixo, o cabelo dourado de sol, a pele cor de madeira, o rosto perfeito. Vestia um terno que parecia moldado nele. Ela sabia bem que o corpo por baixo fora esculpido por mãos divinas. A perfeição física nunca a afetaria se não fosse imbuída de um carisma e caráter aos quais todos se curvavam. Aquele homem infernal comandava milhares, suas decisões afetavam milhões. E ele já a tivera em suas mãos, para fazer o que quisesse, como um dia ela pedira. Também pediu que ele a deixasse ir embora, temendo que mesmo assim não tivesse forças para fazê-lo. Prometera que nunca mais voltaria depois do que ele fizera para atormentá-la. Ela acreditara que não precisava se preocupar e que ele desaparecera de sua vida para sempre. Depois de sua última e mais terrível transgressão, ela tivera certeza de que nunca colocaria os olhos nele novamente. Mas lá estava ele. Por quê? – Que diabos está fazendo aqui? – Quando ele chegou, achei que você tivesse dito ao porteiro para mandá-lo subir. Já que o conhece, eu o deixei entrar. – Até mesmo Hannah pensava que Naomi e Andreas apenas se conheciam de quando a irmã dela se casara com o amigo dele. – Ele me fez acreditar que você o convidou, disse que precisava chegar cedo, mas insistiu que eu não a perturbasse no trabalho, que esperaria por você. Naomi virou-se para Hannah, mal processando suas desculpas, só ficando furiosa. Antes que ela pudesse culpá-lo, ele falou de novo, dirigindo-se à mulher mais velha. – Obrigado por ser uma anfitriã perfeita, sra. McCarthy. O chá estava


– Obrigado por ser uma anfitriã perfeita, sra. McCarthy. O chá estava ótimo, mas agora que Naomi está aqui, pode voltar ao seu trabalho. Ele a estava dispensando, e Hannah uma das pessoas mais fortes que Naomi já conhecera, o obedeceu sem hesitar, nem mesmo checou com ela, o que aumentou sua indignação. Ela rangeu os dentes quando se virou para ele, se aprumando, embora ainda ficasse meio metro mais baixa. – Agora que eu estou aqui, você pode ir. Andreas esperou até que Hannah se afastasse, então virou-se para Naomi. – Vamos voltar para a sala, ou prefere que este encontro seja em outro lugar? Outro lugar. Suas palavras destilavam outras intenções. Não que significassem necessariamente o quarto. Certa época, onde quer que se encontrassem virava lugar de intimidade. Sexual, claro. O fato de ele propor tal coisa só manchava mais sua personalidade já sombria. – O único lugar que você vai é para fora. Seja lá por que veio, é tarde demais. Tudo e todos estão há muito tempo mortos e enterrados. O Andreas que conhecera encararia sua repreensão com um olhar vazio. A única reação verdadeira que ela vira além da avassaladora paixão, da última vez que estiveram juntos, fora seu ódio. Ela o enfurecera por terminar seja lá o que havia entre eles, provavelmente, só porque ainda não tinha uma substituta. Mas agora ela percebia alguma reação em seu olhar cinzento, haveria um toque de surpresa, diversão? Achava a morte e enterros divertidos? Provavelmente. Também devia estar maravilhado com a humana insignificante que ousou desafiar o deus que era. Furiosa, Naomi pegou o celular na bolsa. Digitou três números. Com um dedo pairando no botão de chamada, virou-se para ele. – Saia agora ou vou chamar a polícia e dizer que forçou a entrada e que está aqui contra minha vontade. Parecendo totalmente despreocupado com a ameaça, ele pronunciou


Parecendo totalmente despreocupado com a ameaça, ele pronunciou com calma: – Quando ouvir por que estou aqui, vai me pedir para ficar. – Prefiro que um tubarão me devore. – Falando em devorar, minha última refeição foi a comida horrível no voo para cá. – O que aconteceu? Agora se juntou aos meros mortais nos voos comerciais? Ele deu de ombros, uma vez que obviamente o multibilionário Andreas Sarantos tinha a sua própria frota de jatos. – Até em jatos particulares a comida pode ser ruim, ainda mais depois de ser atormentado por 30 minutos pelo aroma da cozinha da sra. McCarthy. Aposto que ela contou com minha presença. Vamos honrar seus esforços e conversar durante o jantar. Naomi balançou a cabeça, como se pudesse fazer o pesadelo desaparecer, mas estava realmente acontecendo. Ele estava ali, ignorando sua raiva e ameaças, convidando-se para jantar. Era tão arrogante que a anestesiava. – Eu sei que você acredita que todo mundo seja uma peça de xadrez, mas se acha que ainda pode me movimentar, está sonhando. Ele escutou o que ela dizia com olhar frio. Ela estalou os dedos em seu rosto. – Viu isso? Eu realmente existo e cansei de fazer papel de coadjuvante. Agora, pela última vez, vá embora. Ela quase podia ver sua fúria se espatifar na impenetrável armadura de indiferença dele. Se um anjo caísse do céu, se pareceria com Andreas. Escandalosamente bonito, sinistro e sublime ao mesmo tempo, impossível desviar o olhar. Ele inclinou a cabeça, fazendo seu cabelo, agora nos ombros, cair para o lado. Ela suprimiu um arrepio. Então ele respondeu debochado. – Depois de quatro anos de separação, isto é maneira de falar com o seu amado marido?


CAPÍTULO 2

MARIDO. – Ex-marido! Sua constatação não teve qualquer impacto sobre ele, que apenas deu de ombros. – Tecnicamente. A indiferença a que ele reduzia alguns dos piores momentos de sua vida exacerbava sua fúria. – Tecnicamente se chama divórcio. E não fora fácil e rápido como ela acreditava que seria. Foi o inferno antes que ele permitisse acabar com a farsa do casamento. – Por que o drama? Qualquer um que ouvisse você pensaria que foi uma mulher desprezada, quando na verdade me deixou. – Este seu egocentrismo atingiu o estágio terminal, não é? Você realmente é incapaz de considerar qualquer coisa além de seus próprios interesses ou qualquer pessoa além de si mesmo. – Existe um ponto aonde quer chegar, ou só teve um dia ruim e precisa desabafar? Seu queixo caiu. Um ser humano normal, com emoções normais, ficaria seriamente frustrado e decepcionado com seu total desapego. Estava além de qualquer coisa, era o nirvana da indiferença. Ele prosseguiu. – Se você alimentou queixas imaginárias contra mim nos anos que estivemos separados, eu não me importo de ficar aqui enquanto abusa do seu vocabulário. – Só seria abuso se não fosse verdade. E eu não tenho palavras para


– Só seria abuso se não fosse verdade. E eu não tenho palavras para descrever a terrível verdade. – Eu não tenho nenhuma experiência, mas tem gente que acha bater nos outros muito catártico. Ela finalmente percebeu como pateticamente se encaixava em “gente”. – Basta, eu não vou tolerar você aqui mais um minuto. – Você quer dizer que até agora foi tolerante? – Vá embora, Andreas! Ele a encarou com aquele olhar gélido por alguns instantes tensos, até que a atingisse. Então virou-se e entrou. Ela o observou se afastar até desaparecer. Então, voou atrás dele, querendo impedi-lo de invadir sua vida novamente. Seus dedos transformaram-se em garras no braço dele, que era tão espesso e rígido que teve de agarrá-lo com as duas mãos e segurá-lo com toda sua força e não conseguiu virá-lo. Ele finalmente parou, provavelmente por vontade própria. Ele mostrava que ela não tinha qualquer efeito em suas ações ou decisões. Como se ela já não soubesse. Ela ficou furiosa quando ele se virou na maior tranquilidade, acabando com sua paciência. Atingiu-o com ambas as mãos em seu peito, com toda amargura há muito guardada dentro dela. Ele apenas ficou ali, recebendo sua agressão, com a expressão indiferente, deixando-a “desabafar”, como se ela fosse uma pessoa estranha e desequilibrada. A falta de reação dele deixou-a arrasada, toda sua perda e sofrimento jorrando e deixando-a agoniada agora que perdera o pouco controle que ainda lhe restava. Então, de repente, suas duas mãos estavam atrás das costas, presas por uma das mãos dele, e ela, encurralada entre a parede fria e o corpo quente dele. Antes que pudesse ter outro ataque de fúria, um dos joelhos dele separou suas pernas, a mão em sua nuca enredando o cabelo, protegendo a cabeça, prendendo-a. Depois de um último olhar em seus olhos, cheio de intenções, ela ficou em choque e ele a beijou. Lembranças dolorosas do passado invadiram-na. Aconteceu exatamente assim, quando ela foi até a suíte de hotel dele


Aconteceu exatamente assim, quando ela foi até a suíte de hotel dele pela primeira vez, exigindo que ele tomasse seu corpo. Ela instintivamente sabia que a aspereza fazia parte da natureza dele. Percebeu quando ele forçou a barra, tentando assustá-la. Como não funcionou, forçou um pouco mais, testando o quanto ela permitiria. Ela permitiu tudo, se deleitando com o desenfreado poder da paixão. Desde aquela primeira noite, ele lhe dera prazer além da imaginação. Extraíra de seu corpo respostas e êxtases que ela não sabia ser capaz de sentir. A cada encontro, aumentava a selvageria e a ferocidade de sua satisfação. Mas a falta de resposta emocional dele, além da intensa satisfação sexual, desgastou seu sentimento, como um viciado que experimentava altos e baixos indescritíveis. Os sussurros dele invadiam-na conforme ele a beijava mais profundamente. Sua língua deslizava sensualmente contra a dela, inundando-a de sensações, cada uma delas lembrada e ardorosamente desejada. Sua rendição, mesmo que pelo choque e não por desejo como antes, fez sua sensualidade alcançar outro nível. Ele entrelaçou a mão em seu cabelo, causando pontadas de prazer dentro dela. Em seguida, pressionou o pênis em sua barriga, fazendo-a derreter. Mas foi o grunhido dele de prazer que fez suas pernas bambearem. – Seu gosto é ainda mais inebriante do que eu lembrava. E você é exatamente como me lembro. Impressionante... indispensável... Não. Ela já caíra naquele abismo duas vezes. Nunca mais. Sentindo-se sugada, se afogando, tentou desvencilhar-se, lutando não só contra o desejo dele, mas o seu também. Só conseguiu prender-se mais ainda. Sua única esperança seria se ele a deixasse escapar. Ele só a soltou aos poucos, arrastando os lábios em sua boca ofegante e no rosto, mordendo a orelha no caminho até a nuca. Por minutos de disparar o coração, chupou seu pulso, como se quisesse roubar seus batimentos cardíacos. Em seguida, com um gemido final, soltou suas mãos e ergueu a cabeça. Ele não se afastou, manteve seus corpos unidos. Ela ficou parada, sem respirar para não se aproximar mais dele, não que pudesse se mover. Era o


que podia fazer para conter a tremedeira que ameaçava fazê-la desmoronar. O corpo dele a mantinha em pé. Foi ele quem finalmente se afastou, com um cuidado que parecia que um pedaço de sua pele seria arrancado com a separação repentina. Não estava muito longe da verdade. Cada centímetro que ele tocara parecia sensível, cada nervo exposto. Ainda sentia seu cheiro, não conseguia se refazer. Por fim, ele deu um passo para trás. Ela respirou trêmula, esperando que o ar a refizesse. – Não vou pedir desculpas por bater em você – murmurou ela. – Aposto que era a reação que você queria, foi uma desculpa para fazer o que fez. Você me manipulou para fazer exatamente o que queria, como sempre. Parabéns. Agora vá embora. Ou não será seu peito meu próximo alvo. Seus olhos frios se estreitaram, ainda com o fogo. – Eu gosto deste novo fogo. Você era muito acomodada. – Você quer dizer submissa. – É assim que você se vê? – Eu era assim. – Não do meu ponto de vista. Mas você deixou claro que acha que eu invento minha versão distorcida da realidade. O que importa é que eu a achava dócil, mas nunca submissa. – A mão dele subiu para o rosto dela, deslizando lentamente, passando a parte de trás do dedo indicador em suas têmporas, rosto, pescoço e ombros, antes de chegar no decote. – Você não só sentia prazer em se submeter às minhas exigências e desejos, também exigia e conseguia o que queria. O calor lhe subiu com cada lembrança das inúmeras vezes que ele a deixara fazer a festa em cima dele até se perder de prazer. Ela o odiava por ser o único capaz de brincar com ela tão facilmente, se odiava por permitir e ser ainda tão suscetível a ele. – Eu acho que você não está aqui para discutir nossa ligação funesta... Ele arqueou a sobrancelha ao escutar a palavra. – Você está certo – continuou ela –, mas não consigo pensar em uma palavra melhor. Enfim, não quero relembrar o passado com alguém com quem eu nunca deveria ter me envolvido. Ele enfiou as mãos nos bolsos, atraindo o olhar dela para o pênis ereto.


Ele enfiou as mãos nos bolsos, atraindo o olhar dela para o pênis ereto. Ele acabara de ser pressionado contra seu corpo, lembrando-a de todas as vezes que a invadira, levando-a ao êxtase, fazendo-a ignorar todo o senso de autopreservação. – Vou me sentar, vem comigo? Sem esperar, ele foi para a sala de estar, como se os minutos explosivos que balançaram a estabilidade precária do mundo dela não tivessem acontecido. Desta vez, ela se conteve para não persegui-lo e atacá-lo. Não porque a raiva diminuíra, mas porque sabia que ele reagiria da mesma maneira. Ela não podia suportar outro ataque. Sabia que ele poderia ir mais a fundo, pressionando-a até fazê-la implorar que não parasse. Ela ainda temia que ele a convencesse a fazer o que ele quisesse. Com as pernas bambas, seguiu-o até a sala. Ela não só tinha deixado o lugar à prova de crianças recentemente, mas também redecorado o espaço, para tornar mais agradável para Dora e espantar a melancolia do lugar desde a morte de Petros e Nadine. Agora Andreas estava lá, e sua presença fazia o lugar se tornar sombrio e pequeno, como sempre fizera com seu mundo. Ele foi até a poltrona vermelha ao lado do sofá floral em L, onde deve ter esperado por ela. Depois que ele se sentou, colocou para trás o cabelo que caíra na testa durante a luta, atraindo novamente o olhar dela. As madeixas mais longas o tornavam mais másculo, deixando o rosto mais robusto. Cada linha, cada característica tinha aparência mais austera. Maldito. Mas era só fachada. Era tão monstruoso por dentro quanto divino por fora. – Sua reação não foi nada agradável. Parece que sua animosidade foi fermentada pelo tempo. – Se eu não soubesse que tem uma família, pensaria que foi criado em laboratório, uma experiência de um humanoide assustadoramente desprovido de sentimentos ou escrúpulos. Sua expressão não demonstrou nenhuma ofensa ou diversão. Nada, como sempre.


– É um direito seu me ver assim. Mas não acha que a pessoa que descreve teria tentado evitar que você a deixasse? – Eu acho que não tinha mais nada a fazer para manter seu domínio. Você foi um cachorro quando se recusou a assinar o divórcio. Nunca se casou comigo de verdade, só assinou um monte de papéis para que eu não terminasse nosso relacionamento, só para ter o rótulo de casamento. – E eu tentei impedi-la de me deixar duas vezes só para afirmar meu domínio? Você não acha demais? – De maneira alguma. Acredito que você superaria todos os limites para manter sua marca. – Como assim? – Ter todos à sua disposição, de acordo com suas regras e sob seu comando. – Interessante. – Ele coçou a barba, como se considerasse uma nova perspectiva. – Isso para mim é meta. Mas ali, eu só esperava que sua birra passasse e você voltasse para mim. – Birra? Foi assim que enxergou? Então por que cedeu? Acordou um dia e pensou: “Quem precisa de uma pirralha?” Você não se preocupou em me procurar, só enviou seu advogado para tratar de negócios. – Você deve ter uma teoria por que eu desisti. – Provavelmente porque acabou se cansando. Ele não concordava com sua explicação, mas não explicou por que decidiu assinar os papéis do divórcio depois de seis meses. Provavelmente ficou entediado ou encontrou uma substituta satisfatória, ou muitas. – Você estava certa. – Ele admitia? – Não estou aqui para falar do passado. Mesmo que você diga que não, parece que está muito presa a ele. – Meu desgosto com você não tem nada a ver com nosso passado. – Então com o quê? – Você realmente não faz ideia, né? – Nenhuma, esclareça. – Petros chamou você no leito de morte. Você nem se preocupou em voltar, deixou que morresse sem fazer o menor esforço para vê-lo. Nem compareceu ao funeral. Ele só piscou. – Todos vieram, até mesmo os rivais nos negócios e inimigos. Todos


– Todos vieram, até mesmo os rivais nos negócios e inimigos. Todos sabiam que Nadine era meu mundo, e que Petros havia se tornado o irmão que eu nunca tive. Deixaram tudo de lado e vieram ao menos para me consolar. Você não. Ele piscou de novo e finalmente entendeu por que a sua ausência a machucara tanto. – Seu desrespeito de alguma forma fez tudo que aconteceu entre nós parecer ainda pior. Eu me envergonhava por ter me jogado em você, me culpava por tudo que aconteceu, mas naquele dia eu me desprezei por ficar com alguém tão pervertido. Quando você não respondeu ao pedido do seu único amigo à beira da morte, nem mesmo concedeu algumas palavras, eu finalmente percebi a magnitude do crime que cometi contra mim. Nunca odiei ninguém na vida. Nunca odiei você, mesmo depois de tudo o que me fez passar. Mas quando você provou ser pior do que um estranho, ou inimigo, eu o odiei. Então ele fitou-a com a habitual frieza. – Eu não sabia se gostaria de me ver naquele momento. – Você está fingindo que não veio ou telefonou em consideração aos meus sentimentos? Conta outra. – Estou dizendo o que eu pensei, mas não foi por isso que eu não vim nem liguei. Ela esperou ele contar o motivo. Logo percebeu que ele não diria nada para saciar sua curiosidade ou indignação, jamais justificaria suas ações ou esperaria compreensão e tolerância. Todo mundo invariavelmente mentia, ou dava suas desculpas para poupar os outros, ou seus sentimentos, mas não Andreas. Parecia que decepções e desilusões não combinavam com Andreas. Subitamente ela ficou muito cansada. Lutava há muito tempo para ser forte e parecer inabalável. Primeiro por sua mãe, em seguida por Nadine, finalmente por Dora e Hannah. Mas não podia mais fingir que estava ao nível de Andreas, estando no limite de sua fragilidade. Ele era um aborrecimento que não podia encarar, uma batalha que não conseguiria lutar. Precisava de toda a força que lhe restava para Dora. Reunindo todas suas forças, ela aproximou-se, já não se importando se ele percebesse o quanto estava frágil.


– Quaisquer que tenham sido suas razões para não vir ao funeral, foi melhor. Eu só me sentiria pior com sua presença. O pior foi voltar agora. O que trouxe você aqui, não importa. Vá embora, por favor. Em resposta, ele pegou sua mão, e puxou-a para seu colo. O celular dele tocou e ela o empurrou, mas ele só apertou mais e sussurrou: – Não, omorfiá mou. Ela estremeceu quando a magnífica voz chamou-a de “minha linda”, como sempre acontecia quando um elogio em grego saía daqueles lábios. Segurando-a com um braço, ele pegou o celular para silenciá-lo, mas resmungou quando viu o nome no visor. – Eu preciso atender. – Abraçou-a mais forte enquanto ela se contorcia, imobilizando-a com seu olhar hipnotizante. – Recomeçaremos exatamente de onde paramos. Ela conseguiu se livrar de seu abraço e caiu no sofá. – Não vamos recomeçar. Seus olhos queimavam olhando para ela com intenção de fazer exatamente o que prometera. Então ele atendeu à chamada, e o nome que proferiu... Stephanides. Poderia ser? Em seguida, ele falou Christos. Era ele. O homem que um dia a ameaçara. Foi como tudo começou entre ela e Andreas, há seis anos. Fora a Creta com Malcolm para abrir uma filial de sua empresa. Estavam prestes a fechar um negócio quando, um dia, bandidos os abordaram, com uma ameaça de Christos Stephanides, o ícone do desenvolvimento imobiliário local. A mensagem era sucinta, ou abriam seu negócio em outro lugar ou não sairiam vivos de Creta. Antes que os bandidos pudessem lhes dar uma amostra do que os esperava caso não obedecessem, Andreas apareceu do nada e disse apenas: “Sumam”. Os bandidos quase desapareceram no ar. Sucinto como sempre, Andreas informou que lidaria com o chefe dos bandidos, e os aconselhou a deixar Creta até que lhes ordenasse que era seguro voltar. Eles obedeceram sem questionar. Em casa, embora ainda abalada, Naomi ficara decepcionada. O único homem em quem já se interessara era o único que não tentara se


aproximar dela. Nadine achara que sua aparição no instante em que precisaram tinha de significar alguma coisa. Decidira que quando se reencontrassem, ela mesma faria alguma coisa. Dias depois, Naomi ficou encantada ao encontrá-lo no escritório de Malcolm. Ele fuzilou-a com o olhar de novo, mas não fez nenhum movimento. Ela acabou aceitando o conselho de sua irmã e convidou-o para jantar. Foi quando Andreas fez sua famosa advertência. Indignada com sua rejeição, ela declarou a Nadine que o tiro saíra pela culatra. Sua irmã ainda insistiu que talvez ele realmente acreditasse que não era bom para ela conhecê-lo. Talvez estivesse sendo gentil, dispensando-a. Afinal, o que Naomi sabia sobre Andreas? O suficiente. Todos asseguraram que ele era um iceberg, um homem sem sentimentos, cujos relacionamentos serviam apenas para acumular mais sucesso e dinheiro. A presença de mulheres em sua vida era somente em casos de uma só noite. Nada que a desanimasse. O que ela mais queria era estar com ele e aplacar o desejo que sentia. Então o procurou novamente. Desta vez, Andreas aceitou o convite. Como se para testar seus limites, insistiu que ela fosse à sua suíte no hotel. Certa de que não representava nenhum perigo, ela foi até lá. Sem rodeios, ele lhe revelou que nunca desejou tanto algo como a desejava. Mas deixou-a sozinha, sabendo que não seria capaz de resistir. Suas palavras ameaçadoras eram evidência de sua insaciabilidade, bem como o que ela percebeu só depois, seu total desrespeito e insensibilidade. Mas não podia culpá-lo. Ele expôs claramente suas intenções: se ela ficasse, a devoraria. Ele não tinha nada que ela pudesse querer em um homem. Além de paixão e prazer, não tinha nada para oferecer. Inebriada de desejo, falou que era exatamente o que queria. Desde a morte da mãe, tomava conta da irmã mais nova, amadurecendo prematuramente. Naomi não dava um passo antes de analisar cada consequência. Até sua vida profissional fora pautada em estudos de viabilidade e cálculos de risco. Mas desejava Andreas como nunca desejara nada, não


podia se aproximar desse desejo com cautela. A partir daquela noite, deixou que ele a varresse como um tornado em um turbulento caso apaixonado muito além do que sonhara. O sexo era incomparável, com prazer crescente e luxúria insaciável. Mas logo ela envolveu-se emocionalmente, mas obrigou-se a aceitar os termos dele de não envolvimento. Além de sua incapacidade de sentir, Andreas era tudo o que admirava e amava em um homem. Brilhante, impetuoso, disciplinado, empreendedor e tantas outras coisas. Além de um amante fenomenal. A forma como fazia amor com ela a iludia de que eram sinais de carinho. Até que ele saísse da cama e voltasse para a função de iceberg. Foram apenas quatro meses até que a falta de envolvimento emocional a fizesse confessar que estava errada em pensar que poderia lidar com as condições desse relacionamento. Ela não podia esperar que as coisas se deteriorassem, era melhor se afastar enquanto tinham apenas boas memórias. Em resposta, ele só olhou quando ela se afastou, não tentando impedila. – Christos manda lembranças. Seu coração disparou quando a voz calma arrancou-a do passado, trazendo-a de volta ao presente. – Diga a ele que eu dispenso. – Ele vai ficar chocado por uma dama como você ser tão dura. Especialmente agora que enxergou seu talento. É, e ele tinha tentado “adquirir” sua “beleza dourada” como se fosse parte do negócio. – O sentimento não é mútuo, obviamente. – Isso só a torna mais atraente para ele. Homens não esperam que uma deusa como você demonstre interesse, e sim que seja arrogante e inalcançável. Ele sempre fora exagerado nos elogios, o que a manteve alienada por dois anos. Isso e química perfeita entre eles. Ele largou o celular. – Agora entendo a fonte de sua antipatia por mim. Mas por que Christos ainda é alvo de sua ira? Isso foi resolvido faz tempo.


Estranho ele não assumir os créditos por fazer Stephanides ceder e depois até fazer negócios com a empresa dela. Participaram de vários projetos muito lucrativos juntos antes que as coisas decaíssem de novo, amigavelmente desta vez. Não que ela estivesse prestes a agradecer a Andreas por isso ou qualquer outra coisa. Reunindo o que parecia ser sua última centelha de energia, ela se aprumou. – Escute, eu tenho certeza de que você não veio aqui para conversar sobre sua fortuna e lavagem de dinheiro com seus companheiros de negócios, ou exercer sua irresistível proeza sexual. – Eu não tinha intenção de tocar você, não durante este encontro, mas parece que nada mudou. Continua impossível não pegarmos fogo quando estamos juntos. Sua resposta calma a arrepiou. A alegação que o afetava tanto quanto ele a afetava foi demais. – Chega, Andreas, desembuche. – Como quiser. Estou aqui para pedir a guarda de Dorothea.


CAPÍTULO 3

NAOMI SE viu em pé, encarando Andreas. Ele chegou para trás quando reconheceu seu olhar espantado, firme e sério. Ela explodiu. – Que piada de mau gosto é essa? Ele levantou-se com a máxima discrição e compostura, foi elevando-se sobre ela antes que ela pudesse respirar ou dar um passo para trás. – Não é piada. Quando Petros me chamou... – Você não voltou. – Eu não precisava. Ele estava me chamando para... – Eu não dou a mínima por que ele chamou, ou qualquer coisa que vá dizer. Dora é minha. – Dorothea é de Petros. – E da minha irmã. Ela perdera Nadine recentemente, uma perda tão avassaladora e recente que ainda não havia iniciado o processo de adoção de Dora. Estava certa de que não havia pressa, que a guarda de Dora era incontestável. – Com Petros sendo filho único, e seus pais mortos, Dora não tem outra família, a não ser a mim. Ela é minha. – Petros queria que ela fosse minha. Naomi balançou a cabeça, tentando parar o mundo que de repente girava. – Deus, cada vez que eu acho que sei até aonde pode ir, descubro que não há limites para a sua insensibilidade. Mas isso é baixo demais, mesmo


para você, é diabólico. Ele passou por ela, congelando-a e fazendo seu sangue ferver ao mesmo tempo. – Como eu afirmei, o que você pensa de mim é problema seu. Isso não muda o fato de que Petros, o pai de Dora, queria que eu ficasse com ela. Com medo de desmaiar caso se movesse muito rápido, Naomi virou-se para encará-lo. Ele não estava brincando. Era pra valer. Ela soltou uma risada histérica. – Eu posso entender seu choque. Eu esperava poder tocar no assunto de uma maneira melhor, aos poucos. Mas não podemos conversar com você sendo tão hostil e pouco cooperativa. – Claro, eu sou culpada por isso. Fui eu que atormentei você por seis meses, me divertindo, antes de conceder sua liberdade. Fui eu que ignorei o apelo de um amigo à beira da morte para estar com ele em suas últimas horas e fico fingindo que estou disposta a assumir um bebê, quando deixei muito claro que nunca quis uma criança. – Não importa mais o que eu quero. Mesmo que sua vontade fosse arrancar os olhos dele, ela precisava usar toda a sua diplomacia para acabar com aquilo. – Ouça, Andreas, se está com complexo de culpa por não estar presente quando Petros precisou de você e acha que deve fazer algo por sua filha, quando nunca fez nada por ele, não se incomode. Petros está morto e enterrado, e nada mais do que fizer ou não fizer poderá atingi-lo. Se algum sentimento de dever em relação a Dora despertou dentro de você, basta deixar de lado até sumir, como eu tenho certeza de que acontecerá assim que esta missão equivocada terminar e você for embora. Dora não precisa da sua tutela e está perfeitamente segura, feliz e protegida comigo. – Não tenho dúvidas de que você é uma tia exemplar. – Eu sou mais do que a tia de Dora. Eu dei à luz a ela! Será que ele não sabia? Ela se apressou em explicar: – Nadine e Petros queriam muito um bebê, mas ela não podia engravidar. Então fui a barriga para o bebê que fizeram juntos, Dora é a minha carne e sangue em todos os sentidos.


– Eu sei. Suas palavras tranquilas a balançaram. Ele prosseguiu. – Não faz diferença o que você é para ela. É o que Petros queria que eu fosse que é a discussão aqui. Segurando-se para se controlar, ela perguntou: – Quando é mesmo que ele fez o último desejo? Ao telefone? Naquela ligação que você diz agora que não foi para pedir para que você voltasse antes de ele morrer? – Eu tentava dizer isso quando você me interrompeu. Ele não me pediu para voltar por ele, mas por Dorothea. – Uau, está ficando cada vez melhor. Ele pediu há três meses, e você só teve tempo agora? Se Dora tivesse que contar com você, estaria perdida. – Eu sabia que ela estava segura com você. – Então, não havia pressa, hã? E nunca haverá, então pode voltar para onde estava nos últimos quatro anos e nunca mais apareça. – Eu não posso e não vou fazer isso. – Não supervalorize. Foi apenas algo que Petros disse. – Foi algo que ele escreveu em seu testamento. Aquilo soou como uma sonora bofetada em seu rosto. Um minuto se passou antes que ela gaguejasse: – Eu não posso acreditar que Petros tenha escrito um desejo desses. Se escreveu, devia estar em pânico após o acidente, quando suspeitou que todo mundo evitava contar que Nadine estava morta, e percebeu que morreria também. E além do mais, não faz sentido ele pensar que você seria um tutor melhor do que eu para Dora. – Ele não pediu para eu ser seu tutor. Ele queria que eu lhe desse meu nome. Ela ficou boquiaberta, ele parecia falar muito sério. Ela cambaleou e caiu na poltrona que ele acabara de desocupar. – Isso é um absurdo. Eu sei que Petros me amava, mas ele amava muito mais a você, só Deus sabe por quê. Como ele poderia pensar que Dora ficaria melhor com você do que comigo, que tenho sido sua segunda mãe o tempo todo? Como ele podia acreditar que você seria um bom pai? Eu entenderia ele querer que você fosse seu tutor financeiro, mas ele também


sabia que eu não precisaria de ajuda nessa área. Embora ele nunca tenha se importado com dinheiro, talvez fosse diferente quando se tratasse da filha. Talvez ele quisesse que você garantisse seu futuro além de qualquer coisa que eu pudesse pagar. Mas pedir a você para ser seu pai? Alguém que nunca criou um ser vivo, nem mesmo um animal ou planta? Você, que odeia crianças? – Eu não odeio crianças. Nunca declarei isso, só que nunca teria uma. Por minha escolha, eu não teria. Mas agora não é mais uma questão de escolha. Petros foi específico em seu testamento. E eu vou cumprir sua vontade. – E eu digo mais uma vez, não se preocupe. Vou contestar seu testamento. Ele estava à beira da morte quando o escreveu. – Ele elaborou seu testamento sete meses antes do acidente. Assim que Dorothea nasceu, na verdade. – Eu não acredito em você! Se é que existe um testamento, seu advogado deveria ter me informado, deveria ter me avisado de seus direitos, uma vez que se chocam diretamente com os meus. – Petros usou o meu advogado para elaborar o testamento, e mandou entregá-lo diretamente a mim. Ele me pediu para não informar a você, até que pudesse vir pessoalmente. Andreas aproximou-se enquanto falava, como se fosse uma onda prestes a quebrar em cima dela. Uma vez na sua frente, abaixou-se devagar. Ela cambaleou incapaz de suportar sua proximidade, sentindo que se descontrolaria, se a tocasse. Não a tocou, só pegou a maleta a seus pés, de onde tirou um documento, que entregou a ela. Ela desviou o olhar, sua visão se embaralhou, como se para escapar das provas. Em seguida, concentrou-se, e cada palavra que lia a machucava. Era tudo verdade. Tirando o “juridiquês”, era uma carta de Petros, em sua inimitável voz. Datada dois dias após o nascimento de Dora. Incontestavelmente assinada por ele. Subitamente ela sentiu uma pontada no coração, Petros a ignorara em favor de Andreas, dando-lhe seu bebê, Dora. Ela fechou o documento trêmula, empurrou-o para a mesa como se a


Ela fechou o documento trêmula, empurrou-o para a mesa como se a queimasse, e olhou para ele. Andreas a observava atentamente, analisando cada reação. Ele já não sabia que seria um golpe duro? – Você pode verificar a autenticidade do testamento. – Quer dizer, se você quisesse falsificar um documento, eu teria de rezar para provar que era uma falsificação? Ele tinha de admitir seu passado duvidoso de frequentes fraudes. – Não há falsificação desta vez, é autêntico. – Por que eu deveria acreditar em você? – Que outra razão eu teria para fazer isso? – Como eu poderia saber? Ninguém neste mundo tem ideia do que se passa na sua mente. Pelo que sei, pode estar fazendo isso para me irritar. – Diferente do que pensa, eu nunca quis fazer isso. Muito pelo contrário. Obviamente falhei. – Por quê? Por que Petros além de amar e confiar em você, também deixou a filha dele para você? – Então você acredita que é o testamento dele? – Eu daria tudo para não acreditar, mas acredito. – Só consigo imaginar que Petros tenha feito isso por precaução, achando que nunca fosse precisar. Ele era novo, tinha todos os motivos para pensar que viveria mais cinquenta anos. – Na verdade, dois anos após se casar com Nadine, Petros descobriu que tinha um problema cardíaco inoperável. – O quê? – Foi diagnosticado com a doença que matou o pai e o avô com cerca de 40 anos. Temendo a hereditariedade dessa condição, que atinge somente homens, quando ele e Nadine decidiram recorrer à fertilização in vitro através de barriga solidária, eles garantiram o sexo do bebê para evitar a possibilidade de passar o problema. Na verdade, ele não queria ter um filho depois que descobriu a doença, odiava pensar que morreria e deixaria Nadine e seu bebê. Mas ela queria muito um bebê, então ele fez tudo que estava ao seu alcance. Você sabe como era impossível não dar a Nadine o que ela queria. – Mas ele nunca contou, caso contrário ela não teria insistido.


– Ele revelou a ela, só não contou a você. Ela insistiu que a doença não ameaçava a vida dele e que não deixaria isso impedi-los de aproveitar a vida. Ela estava certa. Não foi isso que os matou, mas um motorista bêbado. Naomi ficou em pé novamente, indignada por ter sido deixada no escuro. – Eu não posso acreditar que ela escondeu isso de mim! Andreas se aproximou. – Não se sinta mal que a irmãzinha que você acreditava compartilhar tudo com você tenha escondido algo assim. Era uma forma de negar a coisa toda e não deixar que envenenasse a vida deles. Ela sentia que já impusera o suficiente a você ao engravidar por ela, não queria sobrecarregá-la com um medo que decidiu ignorar. Fingindo que a doença não existia, eles conseguiram viver plenamente a vida que queriam. Naomi olhou para ele, sentindo-se em um universo paralelo. Nunca ouvira Andreas falar tanto. As próprias palavras deixaram-na perplexa. Também havia uma expressão verdadeira em seu rosto e voz enquanto falava, como se estivesse preocupado, tentando amenizar seu choque. Era a coisa mais improvável em toda aquela situação. – Tem algo mais? Prefiro que conte tudo de uma vez e acabe logo com isso. Dando de ombros, ele alegou que não tinha nada a contar. Ela não acreditou. Havia mais, mas ele só contaria o que lhe convinha. Havia muitos pontos de interrogação mesmo no que ele se dignara a contar. – Então Petros acreditava que poderia não viver o suficiente para ser o pai de Dora, mas não havia nenhuma razão que ele temesse também pela vida de Nadine. Como ele poderia querer que você fosse o pai de Dora, quando sua mãe estava por perto? – Ele queria que Dorothea tivesse mais do que só a mãe. Ele queria que ela tivesse uma família. – Ele não me considerava família? – Ele achou que seria demais para você ser a família de Nadine e Dorothea.


– Eu sempre fui toda a família de Nadine, e ela, a minha, como Dora agora. Como ele poderia pensar que era demais para mim? Que diabos ele pensou, decidindo do que eu sou capaz, tomando decisões por mim? – Petros conhecia Nadine, sabia da dependência que sempre teve de você e que apenas transferiu parcialmente para ele quando se casaram. Ele temia que, se ele morresse, Nadine ficasse arrasada demais para cuidar de Dorothea. Ele acreditava que ela não poderia criar um bebê sozinha, e dependeria totalmente de você. Ele também sabia que você aceitaria e apoiaria as duas totalmente, prejudicando sua própria vida. Ele não achava justo. – Ele revelou tudo isso a você? – Sim. – E ele considerou você qualificado para segurar a carga de Nadine e Dora? Achou que você estava preparado para lidar com uma mulher enlutada e um bebê órfão? Que você poderia ser o pilar de uma e padrasto da outra? Tem certeza de que o problema dele era no coração e não no cérebro? – Eu não quis discutir com ele sobre o papel que queria me dar caso morresse. Eu sempre fiz e farei o que ele queria, sem perguntas. – Você só pode estar fora de si achando que pode fazer o que ele pediu. Você não está preparado para sentir nada por ninguém, muito menos por um bebê, uma menina ainda por cima. E espere um minuto! Ele queria que você fosse o pai dela, para que ela pudesse ter uma família? Como acha que vai fazer? – Como você pronunciou, eu não fui criado em laboratório, eu tenho uma família, e bem grande. – Uma família que não tem nada a ver com você e da qual nunca fez parte. Família no nome, mas não na realidade. Família que você nem sequer informou que se casou e divorciou. – Pelo amor de Petros pela filha, estou disposto a mudar isso. – Você não tem de se preocupar em estabelecer uma relação com a sua família por Dora. Ela já tem uma família, eu, Hannah, a família de Hannah, meus amigos e colegas. Ela vai crescer rodeada por pessoas que gostam dela, e certamente não precisa de alguém como você em sua vida,


que não sabe nada sobre as emoções, nem se importa com outras pessoas, ou crianças órfãs. – Terminou? Eu posso ficar aqui e ouvir você enumerar meus defeitos mortais até quando você quiser. – Muito gentil de sua parte. Suas palavras são apenas mais uma demonstração da sua enorme insensibilidade, mas já terminei, e você vai embora. Leve esse testamento com você e esqueça que Petros escreveu. Esqueça de nós. – Não posso, e não vou. Petros era meu único amigo, e seus desejos são sagrados para mim. Vou realizar seu último desejo e testamento, Naomi. Não há nada que você possa fazer para me impedir. – Não tenha tanta certeza disso. Eu não me importo se o testamento é autêntico. Vou contestar. Vou contestar o estado mental de Petros na época. Ele pensou que morreria, a validade de suas decisões é questionável. Pode apostar que vou contestar você. Qualquer tribunal, analisando você, vai perceber que não serve para ser pai. Nenhum juiz lhe daria a custódia de Dora em meu detrimento. – Então você não tem ideia de como os tribunais de família funcionam. Sou muito mais rico e poderoso do que você, ou quase qualquer um. Não tem conversa. Qualquer tribunal me daria a guarda. – Vamos ver se eles vão levar mais em conta dinheiro e status ou a prova de laços afetivos, estabilidade e relacionamentos saudáveis anteriores. – Comparando prós e contras, eu tenho a balança a meu favor. O endosso direto do pai de Dorothea. Você tem algo de sua irmã? O coração de Naomi disparou, antes de ficar apavorada. Elas nunca tinham sequer pensado em se prevenir para uma situação como aquela. Mesmo depois que Nadine se foi, Naomi nunca pensou que a guarda de Dora pudesse ser contestada, e que seu rival fosse Andreas! Era tão absurdo que parecia um pesadelo. Mas ela lutaria até seu último suspiro. Não porque ele levaria a única coisa pela qual vivia, mas por Dora. – Você pode ser capaz de ganhar a guarda de Dora, mas já pensou no que vai fazer, quando ela for sua? Você, o maior exemplo de disfunção emocional? Dora ficaria melhor em um orfanato do que com você. Em resposta, ele inclinou-se, pegou o testamento e guardou-o na pasta.


– Mais uma vez, Naomi, sua opinião sobre mim é irrelevante. Pelo que sei, Dorothea já é uma Sarantos, o resto é apenas formalidade que podemos concluir com o mínimo de conflito pelo bem dela. Embora ela seja muito nova, eu tenho certeza de que sentiria a discórdia se você transformar isso em uma batalha desnecessária. Virando-se, ele afastou-se, deixando um rastro de destruição, como sempre. Antes que ele desaparecesse, lançou-lhe um olhar gélido. – Caso opte pela maneira mais difícil, estou preparado para uma batalha longa e cara. Você vai acabar perdendo de qualquer maneira.


CAPÍTULO 4

– NÃO HÁ dúvida alguma, srta. Sinclair. Naomi olhou para o homem impecável, o pesar no rosto e na voz fazendo seu coração doer. – Tem certeza, sr. Davidson? – Positivo. O pedido do sr. Sarantos é muito mais forte. Ele tem um testamento do pai de Dorothea, e você não tem nada similar a seu favor. Sendo quem ele é, não importa citar seu nível superior ou que seja a mãe substituta, a reivindicação dele terá prioridade. A única coisa que podemos fazer é uma petição para que você possa continuar a ser presença regular na vida da criança, mas também seria decisão do sr. Sarantos e do juiz. Conquanto eu não tenha dúvida de que conseguiríamos generosos direitos de visitação, não vejo por que o sr. Sarantos contestaria, já que não há disputa, como depois de um divórcio. Naomi quase fez uma piada. O sr. Davidson deveria saber que, com Andreas, tudo era uma disputa. Ele desafiava seus adversários por princípios, mesmo que não tivesse nada a ganhar. O divórcio foi a prova sólida de como ele era perverso. Seu advogado, porém, não fazia ideia, ele não cuidara do divórcio deles, e sim sua filha, Amara. Antes de se tornar advogada, Amara já era uma boa amiga, Naomi confiara que ela manteria em sigilo total o processo do divórcio. O advogado de Andreas fizera o mesmo, já que não houve uma palavra sobre casamento ou divórcio na mídia. Não que ela estivesse prestes a contar ao sr. Davidson. Àquela altura, achava que qualquer informação poderia ser combustível para queimar


todas as pontes para ter Dora em sua vida. – Assim, em uma disputa, eu não teria a menor chance de ficar com Dora? – Como sua tia, com o testamento que descreveu, e com a enorme influência do sr. Sarantos, infelizmente, não. Sentindo-se agoniada, murmurou: – Algum conselho? – Só um, mantenha isto fora dos tribunais, se puder. Sua melhor esperança é não desafiar o sr. Sarantos, mas apelar para ele. Só pode contar com sua boa vontade. UMA HORA depois, ela se olhava no espelho do elevador do seu prédio. Seu reflexo estava pior do que depois que deixara Andreas, há quatro anos, ou até mesmo depois da morte de Nadine. A pele manchada, o azul dos olhos enevoado, até mesmo o brilho do cabelo loiro desaparecera. Duas pessoas que a encontraram no caminho ficaram alarmadas achando que ela estava doente. Uma delas tentou convencê-la a deixar levá-la para o pronto-socorro. Tropeçou ao sair do elevador. Parou na porta do apartamento apertando as chaves até a mão doer. O delicioso som de bebê vindo de dentro, que sempre consolava seu coração, mesmo quando mais despedaçado, agora só o despedaçava mais ainda. O pensamento de perder Dora era inimaginável, insuportável. A vida sem ela para amar, cuidar e se preocupar não valia a pena. Encostando a testa suada na madeira, Naomi suspirou, tremendo, tentando conter as lágrimas. Precisava se refazer, não podia andar por aí como se o mundo tivesse acabado. Sua angústia após a morte de Nadine afetara Dora, que tinha apenas sete meses na época. Agora, estava muito mais consciente e extremamente sensível aos humores. Sempre que Naomi ficava arrasada, Dora ficava mal. Não exporia seu bebê à sua condição naquele momento. Deus, tudo era culpa sua. A bola de neve começara quando permitiu que seu desejo por Andreas anulasse sua lógica e amor-próprio. E não escapou ilesa da primeira vez em que foi embora. Quando ele acabou vindo atrás dela, oferecendo o que ela achava


Quando ele acabou vindo atrás dela, oferecendo o que ela achava impossível, o casamento, voltara para seus braços. Incapaz de curar seu vício por ele, aceitou a proposta. Ela convenceu-se de que era quase uma confissão de envolvimento, era o que poderia esperar dele, e concordou com suas condições absurdas. Nem contestou quando ele estipulou que o casamento seria um segredo que só eles, Nadine e Petros saberiam, assim sua complicada vida empresarial não invadiria a particular. O dia do casamento consistiu na assinatura de alguns papéis e uma refeição com sua irmã e Petros, da qual Andreas saiu antes que começasse. Naomi não se importara, especialmente porque a noite de núpcias a levou ao delírio. Depois disso, ele manteve-se insaciável, mas fiel às suas condições. Manter o casamento em segredo era uma obsessão. Racionalizar seu comportamento tornou-se a base de seu pensamento, acreditando que era natural proteger sua vida privada a todo custo. Faria sentido se ela estivesse incluída na vida dele, mas não estava. Assim como quando eram apenas amantes, ele não a deixava entrar em seu mundo particular. Nunca a levava à sua casa. Encontravam-se em hotéis, nunca iam juntos a lugares pessoais nem saíam juntos. Ele a mantivera longe de tudo o que ele fazia, não lhe contava nada de seu passado e nunca mencionava o futuro. Tudo o que admitira sobre sua família é que Aristedes Sarantos era seu irmão. Foi como ela descobriu pelas poucas informações de Aristedes online, que Andreas tinha uma grande família, que incluía quatro irmãs, muitos sobrinhos e sobrinhas. Ele encerrou o assunto sobre família afirmando que não mantinha nenhuma relação com eles. Provavelmente, dissera só para acabar com qualquer possibilidade de ela pedir para encontrá-los. Seja qual fosse a verdade, ela estava certa de uma coisa. Sua família não sabia que ela existia. Enquanto ela e Andreas levavam vidas separadas, exceto durante as sessões de sexo às quais ele parecia tão viciado quanto ela, Nadine e Petros tornaram-se inseparáveis, e logo se casaram. Foi o exemplo de verdadeira intimidade e vínculo emocional que quebrou o transe em que Naomi se colocara para aceitar as condições de


seu não casamento com Andreas. Não que fosse fácil. Sempre que a necessidade de compartilhar com Andreas algo próximo do que Nadine e Petros compartilhavam tornava-se insuportável, lembrava-se de como ela e sua irmã eram diferentes, e como Andreas e Petros eram opostos, sendo assim seus relacionamentos eram obrigatoriamente muito diferentes. Então, um dia Nadine lhe contou dos esforços fracassados para engravidar e que eles procuraram ajuda profissional. Mais tarde naquela noite, Naomi contou a Andreas. Ela nunca se esqueceria de sua reação. Ele virou-se, mais frio do que ela jamais vira e disse que se ela estivesse insinuando de que era hora de terem um bebê, poderia esquecer. Ele nunca teria filhos. Sua declaração fria finalmente a forçou a encarar o vazio patético de seu relacionamento. Ele ressaltou que, se ela permanecesse com ele, não deveria esperar mais nada. Mais uma vez era culpa dela. Deveria saber que não seria capaz de resistir a esse acordo pouco natural por muito tempo, muito menos para sempre. Não só não havia qualquer esperança de algo mais entre eles, como nunca tiveram nada. Ela nunca se sentira sua esposa, e ele certamente nunca fora seu marido. Era só sexo. No dia seguinte, ela pediu o divórcio. Achando que ele seria tão passivo como da primeira vez que ela tentara acabar com o relacionamento, ficou chocada com sua ira. Ele se enfureceu, dizendo que não seria coagido a dar a ela o que ela queria. Ela ficou tão enfurecida quanto ele. O que pensava que ela queria? Um casamento de verdade? Ele respondeu que ela sabia exatamente o que esperar e que concordara. Não faria dele um vilão. Com o coração partido, pediu só uma coisa, a primeira e a última. Um divórcio rápido e sem brigas, para acabar com o que nunca deveriam ter começado. Quando ele novamente observou-a sair em silêncio, ela teve certeza de que ele não viria atrás dela desta vez, e não foi. Só enviou seu advogado para arrastá-la por seis meses de luta e ansiedade antes que ele se dignasse a deixá-la partir. Se não fosse por sua perseguição a Andreas, em primeiro lugar, e depois sua volta quando deveria ter fugido, Nadine não conheceria Petros. Nenhuma das catástrofes em cadeia, culminando com a atual, teria ocorrido.


Dora também não existiria, e só por ela, Naomi nunca desejaria nada diferente. Agora precisava descobrir como mantê-la fora das garras de Andreas. Recompondo-se respirou fundo. O mergulho no passado humilhante e a autocondenação tiveram um bom efeito colateral. Afugentara seu desespero e a acalmara. Suspirou e entrou no apartamento. Ao entrar na sala, onde os ecos de Andreas ainda pairavam, encontrou Dora sentada no chão, brincando com Hannah. Loki e Thor, seus gatos, estavam encolhidos no sofá, assistindo. Embora não tenha feito nenhum ruído no carpete que instalara em todo o apartamento para a fase de engatinhar de Dora, o bebê virou-se, logo que ela entrou. Encontrar os olhos azuis de Dora ao longe, e imaginar novamente que olhava para Nadine, foi o suficiente para tirar seu fôlego. O prazer imediato, a total confiança e dependência que viu neles descontrolaram-na. As lágrimas encheram seus olhos quando Dora soltou um grito, jogou seus brinquedos e disparou engatinhando em sua direção. Os gatos seguiram mais devagar. – Querida, ah minha querida... O amor incondicional que sentia por Dora, o bebê que carregara durante nove meses em seu ventre, cujo coração e chutes sentira dentro de seu próprio corpo, o foco de sua vida desde seu primeiro choro e tudo o que restava de sua amada Nadine vinham à tona. Ela correu para abraçála. Dora berrou afundando o rosto em seu ombro enquanto os braços roliços agarravam o pescoço. Naomi afundou o rosto no cabelo sedoso de Dora, inalando a doçura do perfume de bebê, tremendo de emoção. Depois de dar-lhes tempo para desfrutarem seu encontro, Hannah levantou-se com seu sorriso largo, até ver os olhos de Naomi. Hannah encheu a voz de doçura para os ouvidos sensíveis de Dora, mesmo com palavras ansiosas. – O que há de errado, Naomi? Aconteceu alguma coisa no trabalho? – Em seguida, pareceu fazer a conexão. – Tem algo a ver com a visita do sr. Sarantos ontem?


Naomi vacilou em dizer a verdade, decidindo não contar. Não fazia sentido preocupar Hannah quando não havia nada que ela pudesse fazer. Tentando eliminar sua angústia, tentou sorrir. – É só que ao vê-la tudo pareceu voltar, o acidente, a morte deles. Parecia que acabara de acontecer. Hannah suspirou, acariciando suavemente as costas de Naomi. – Isso vai atormentar você por muitos anos. Pela minha experiência com a perda de entes queridos, especialmente depois da morte de meu Ralph, posso assegurar que vai melhorar com o tempo. Algum dia as boas lembranças ficarão mais fortes e quando pensar em Nadine, ficará feliz. O sorriso de Naomi quase desapareceu, ao acariciar e balbuciar para Dora, que colaborou por um minuto antes de se contorcer, exigindo ser colocada no chão. Naomi deu um último beijo e apertou sua bochecha antes de obedecer. Dora afastou-se rapidamente, os gatos atrás. Parou depois de alguns metros, sentou-se para verificar se Naomi a seguia também, fechando e abrindo sua mão gordinha, exigindo que ela se apressasse. Naomi caiu na gargalhada com a expressão séria do bebê. Ela correu para obedecer à sua ordem, e por duas horas, se deliciou com tudo que era naquele instante o centro de seu universo, seu sustento emocional, as brincadeiras, a alimentação e o banho de Dora. Depois de colocá-la para dormir às oito, Naomi recusou o convite de Hannah para assistir a um filme com a desculpa de que ela tinha trabalho para terminar. Ela sentou-se em sua mesa, olhando para o nada pelo que pareceu uma hora, as palavras do advogado ecoavam em sua cabeça. Sua maior esperança é não enfrentar o sr. Sarantos, e sim apelar para ele. Tudo com que pode contar é sua boa vontade. Era muito tarde para o conselho. Ela já enfrentara Andreas. Apelar para sua boa vontade? Estava condenada se era tudo o que poderia fazer. Pegou seu celular em um impulso, digitando o número dele. Poderia não ser o mesmo depois de tantos anos, mas era o único que tinha. – Naomi. Após um único toque ouviu sua voz penetrante. Como ele sabia que era ela? Seu número era novo, apenas as pessoas mais próximas conheciam.


Provavelmente não havia nada sobre ela que ele não soubesse. Deus, por que ligou? Deveria desligar, pegar Dora e Hannah e embarcar no primeiro voo para qualquer lugar. Sumir até que ele se cansasse e as deixasse em paz. Como se ele desistisse de algo sem primeiro tirar tudo o que queria. Então, depois de destruir tudo, seguiria em frente como um furacão. – Pode ligar de novo quando estiver pronta para falar. Sua sugestão paciente a fuzilou, provocando sua ira. – Desculpe se interrompo algo importante. Assim que falou imagens malignas atormentaram-na novamente, como quando o deixou. Imagens de Andreas com outras mulheres... – Estou na verdade entre coisas importantes. O que poderia significar que estava entre uma morena e uma ruiva. Afinal, ele admitira que antes dela, nunca fora atraído por loiras. Não que pensasse que ele estivesse no meio delas, ele teria dito. Estava apenas sendo ele mesmo, o homem que nunca fazia galanteios, como afirmar que nada era mais importante do que ela. Saber que ele sempre falava a verdade sem rodeios era o que a desesperava. Ele não dizia nada que não quisesse contar, se mencionasse que levaria Dora embora, o faria. – Eu estava entrando no banho. – Pode ir. – Ela quase sugeriu que ele enchesse a banheira e se afogasse nela. – Eu posso ficar na linha até que você decida dizer por que me ligou. – Eu liguei para dizer que você é um monstro, Andreas. Não me diga que é problema meu enxergá-lo assim, isso não é um ponto de vista, é um fato. – Como quiser. Algo mais? Havia muito mais a dizer, protestos, apelos, injúrias. Ela se viu dizendo em voz alta: – Então, onde está se escondendo em seu retorno para Nova York? – Você sabe onde estou. Ela tinha certeza de que sabia. No Plaza. A primeira noite deles fora lá na suíte real. Pela lembrança daquela noite, uma vez ela confidenciara que preferia aquele ambiente a todos os


hotéis. Daquele dia em diante, eles sempre se encontravam lá quando ele estava em Nova York, mesmo quando ela insistia que o lugar era muito caro. Ele ignorava seus protestos. Mais tarde, ela descobrira que ele era dono de uma grande parte do hotel e não pagava. Ela teria apreciado a explicação, para que não se sentisse tão mesquinha. Não ouvira nenhuma, como sempre. Não que ele pudesse estar lá por razões sentimentais, muito provavelmente, era pelo anonimato que o lugar garantia. – Ainda como Thomas Adler ou Jared Mathis ou algum outro pseudônimo? Quando descobrira que ele usava pseudônimo, ele explicara brevemente que inevitavelmente as pessoas o reconheciam em público, então queria ter certeza de que ninguém o seguiria. Tais desculpas meticulosas nunca fizeram sentido para ela. Entenderia suas medidas de segurança obsessivas, se ele não andasse por aí sem nenhuma. – Estou aqui como eu mesmo. Ela sentiu uma pontada no coração com a resposta inesperada. Sua segurança era uma preocupação, seria um alvo ainda maior agora tendo mais inimigos por estar muito mais rico e bem-sucedido. Isso deixou suas antigas suspeitas como única explicação. Todo aquele sigilo era por sua causa. Ele nunca quis uma mulher ou mesmo uma amante fixa, fora longe demais e para manter sua imagem de mulherengo intacta, não se expora. Sem dizer mais uma palavra, ela desligou. Não havia nada mais a dizer, era hora de agir. QUINZE MINUTOS depois, olhava para a porta dolorosamente familiar da suíte real do Plaza. Era como se tivesse estado lá na noite anterior para mais um encontro com Andreas. O concierge a recebera correndo, o mesmo de quatro anos atrás. O único em quem Andreas confiara seu segredo. A recepção foi calorosa parecendo verdadeira, ele entregou-lhe um cartão-chave para acessar o andar exclusivo e a suíte. Parecia que Andreas nunca se preocupara em restringir a ela seus privilégios.


Deixando de lado o cartão-chave, ela tocou a campainha. Logo a porta se abriu. Ela quase desmaiou. Ali estava Andreas com o cabelo reluzente, camisa branca aberta e jeans desbotados de cintura perigosamente baixa. Tudo o que vira dentro do terno na noite anterior e sentira contra seu corpo, estava exposto. Ele parecia ainda mais alto descalço, os ombros largos fizeram seu mundo desabar. Seu torso escultural e elegante era de dar água na boca. Musculoso e com pele perfeitamente bronzeada. Uma perfeita combinação de puro poder e masculinidade. Olhou-a friamente ao chegar para o lado. Logo ela estava na entrada oval que levava a vários lugares. Então, caminhou para a sala de estar, mal notando sua rica decoração, tecidos suntuosos e mobiliário requintado. Só sabia que cada centímetro do lugar ecoava com memórias de quando ele fazia de tudo para agradá-la, em todos os sentidos. Na enorme sala, ela virou-se para encará-lo, encontrou-o olhando para ela com a mesma intensidade que sempre a derretia. Sentia-se assediada, cercada, mesmo na suíte de quase cinco mil metros quadrados. – Calculei que esperaria um dia antes de vir – disse ele. – Quando você ligou, eu reconsiderei uma hora. Veio mais cedo do que todas as minhas estimativas. Que bom que não entrei no banho. Ela lhe deu um tapa. Tão forte que a palma da mão ficou dormente. Horrorizada com seu ato, viu a marca da sua mão sumir no rosto escultural. A única resposta dele foi: – Não me bata de novo, Naomi. – Ou o quê? Seu olhar respondeu exatamente o quê. Fora de si, em câmera lenta, anunciando sua clara intenção, levantou a outra mão e deu um tapa na face direita. – Eu vou sair do seu alcance, Naomi. Apenas no caso de você não saber o convite que está fazendo. Ela bateu de novo, e foi como se atingisse uma parede, com um milhão de volts de puro magnetismo e masculinidade. Ela puxou sua camisa,


tentando provocá-lo. Ele apenas fitou-a, demonstrando que não daria o que ela queria... ainda. Aprofundando sua investida, ela procurou seu cabelo, afundou os dedos e os puxou. Um pequeno assobio escapou dos lábios dele, um testemunho da agressividade dela e de seu prazer. Na ponta dos pés, ela puxou sua cabeça para baixo com os lábios ofegantes, incapaz de suportar os últimos segundos antes de ele saciar anos de sua sede. Parecia que ainda precisava de mais. Ele não aceitaria meias demonstrações. A oferta dela não era suficiente ainda para seu gosto. Contendo-se, ele mostrou que não assumiria a responsabilidade, como de costume. Seu papel era seduzir e provocar. Até ela se jogar em seu inferno. Como na primeira vez, e todas as outras. Sem pensar, com o corpo em chamas, ela estava pronta para tudo, independente das consequências, apenas para que ele a tomasse, expondo todo o poder de sua paixão. Não sabendo o que o satisfaria, esfregou os seios doloridos contra seu peito, ansiosa que a possuísse, ansiosa pela invasão, pressionando sua ereção. Subitamente foi como se todo o corpo dele crescesse ao puxar sua cabeça para trás pelo cabelo. – É assim, Naomi, exatamente assim. Era como se uma represa estourasse, inundando-a com o que só experimentara com ele. Era único, um desejo dilacerante que a fazia implorar por tudo. Sua sensibilidade disparou como fogos de artifício com o deleite da reconexão pela qual estava sedenta. Seus gemidos se tornaram incessantes quando ele mordeu seus lábios, e sua língua invadiu sua boca. Ele pressionou-a contra a parede, suas mãos percorrendo o corpo dela em chamas, rasgando suas roupas, cada movimento com a crueldade precisa de um predador faminto por uma presa mantida muito tempo fora de alcance. Suas pupilas queimavam, os olhos negros reviravam com os seios dela em suas mãos. Sua homenagem a eles foi breve, mas devastadora antes que ficasse de joelhos, arrancando sua calcinha, enterrando os lábios em seu ventre. Ela foi à beira do orgasmo; mais uma lambida ou mordiscada acabariam com ela. Mas ela não queria descanso, desejava ele.


– Por favor. Ele entendeu seu desejo, como sempre. Levantou-a de forma que o abraçasse com as pernas e libertou o pênis. Outro gemido escapou quando seu pênis brincou com a carne inchada, flechando seu ventre de prazer. Deslizou a ereção ardente através dos lábios de seu íntimo só na abertura, apenas uma vez. Na investida seguinte, penetrou-a bem fundo. A investida rude e selvagem foi um choque tão grande que seu coração falhou e ela desmaiou em seus braços. Ele resmungou algo feroz, que ela achava ser “muito tempo”. Ele mordeu seu ombro como um leão segurando sua companheira para um passeio. Em seguida, tirou. Era como se levasse sua vida com ele, e ela o abraçou forte segurando-o, implorando que voltasse. Ele obedeceu, respondendo com um mergulho ainda mais profundo, tirando seu fôlego com plenitude abrasadora, levando-a além de seus limites. Em seguida, a fez pegar fogo com estocadas ritmadas. Cada retirada era enlouquecedora, cada mergulho um êxtase excruciante. Seus gemidos se tornaram lamentos, rendeu-se totalmente à sua invasão. Ele murmurou o nome dela, cada impulso acentuado pelo som de seus corpos batendo. Os aromas do sexo e abandono eram como um afrodisíaco, o escorregar de sua carne dura dentro dela atiçava o prazer infernal até ela se sentir em chamas. Ela precisava. Como sempre, percebendo o quanto e quão rápido ela precisava, ele martelou seus quadris entre suas coxas abertas, sua ereção batia dentro dela com cadência e força para libertar o êxtase que a consumia, até que um impulso violou seu ventre e saciou seu desejo. Seu corpo aflorou das profundezas, foi inundada por ondas de prazer, apertou-se contra ele, sufocando seus gemidos. Sussurrando o nome dela, alimentou suas convulsões com seu próprio clímax, juntando seu prazer ao dela, preenchendo-a a ponto de transbordar, aguçando os espasmos, até que ela caísse em seus braços, saciada, repleta, realizada. Antes de retornar plenamente a consciência, ela o ouviu gemer. – Não é suficiente, agapi mou... Completamente mole dentro de seu abraço, como uma marionete com


Completamente mole dentro de seu abraço, como uma marionete com suas cordas cortadas, virou a cabeça quando o carinho ecoou dentro dela, meu amor ou minha querida. O que ele só dizia durante o sexo. Então, o mundo girou rápido. Ela afastou-se por segundos ou horas, saindo do estupor sensual enquanto sentia que ele a colocava na cama onde ele uma vez a possuíra. O cheiro dele saía da seda, pairando ao redor dela, compensando sua ausência. Ele recuou apenas para livrar-se das roupas, antes de voltar para ela, impactando-a com seu desejo. Abrindo suas coxas trêmulas, ele ajoelhou-se e apoiou-se na beira da cama caindo sobre ela, prendendo-a pelos ombros. Então, inclinando-se enfiou a língua em sua boca ofegante, penetrando-a ardentemente. Ela achara que ele saciara todas suas necessidades, que nunca mais ia querer nada. Mas, conforme ele se encaixou nela com suas dores e tecidos inchados, a urgência bateu mais uma vez, seu corpo despertou clamando por mais. Após o primeiro acoplamento frenético, ele a possuiu ainda mais gloriosamente. Explorou cada centímetro de seu corpo com as mãos, lábios e dentes, ah! e o jeito que a observava... Seu foco feroz tornou tudo mais primal e alucinante, fazendo de cada toque um êxtase, cada mordida um prazer. Incapaz de suportar mais estímulos, ela chegou ao clímax novamente depois de quatro anos de privação, explodindo em sensações torrenciais, ainda mais ferozes do que da primeira vez. Em seu clímax, ele se movia mais forte e mais rápido, até alcançar suas entranhas, gemendo quando seguiu-a pelo abismo do abandono. Todo o seu corpo estremeceu em êxtase enquanto seu pênis pulsava dentro dela, atirando sua essência, os músculos mais sensíveis dela vibravam em torno dele, ordenhando com avidez cada gota de satisfação. Dessa vez, enquanto sua consciência falhava, ele mergulhou em cima dela com a respiração tão ofegante quanto a dela, com o coração disparado, dominado por ela. Por fim, saiu de cima dela, colocou-a sobre os travesseiros e a envolveu com seu corpo enorme. Depois de longos minutos deitados ali, cobrindo o corpo dela com


Depois de longos minutos deitados ali, cobrindo o corpo dela com carícias, ele apoiou-se no cotovelo e fitou-a com um olhar másculo, supremo e possessivo. – Agora que eu a saciei duas vezes, é hora de saborear você. Ela piscou zonza, chocada ao sentir seu corpo se preparando para ele novamente. Esta doença nunca fora curada, na verdade se intensificara. Ele estendeu a mão para pegar o celular na mesa de cabeceira, sugou um mamilo suavemente enquanto oferecia o telefone a ela. – Diga a sra. McCarthy que você não vai dormir em casa esta noite. – Eu tenho de ir para casa. – Não tem não, e não vai. Estou só começando. Ela o empurrou debilmente, desistindo enquanto ele terminava de sugála e acariciá-la. – Andreas, pare. Temos de conversar. – Conversar definitivamente não é prioridade hoje. Amanhã talvez, ou depois. – Andreas, por favor, primeiro precisamos conversar. Ele levantou a cabeça de seu seio com um sorriso complacente. – Sobre isso? – Sobre Dora. O calor de seus olhos desapareceu, em dois segundos, estavam frios como ela jamais vira. Então, sem mais uma palavra ou olhar, ele a soltou e se levantou. Trêmula, ela puxou as cobertas ao vê-lo vestir seu jeans. Em seguida, ele voltou o olhar insondável para ela. – De que se trata tudo isso? De Dorothea? O que você acha que estava fazendo? Subornando-me? – Não era essa a sua chantagem. – Eu não me lembro de nenhuma chantagem. – Estava implícita, bem evidente. – Então você não me conhece mais, ou nunca conheceu. Eu nunca imponho nada, se eu quisesse chantageá-la, eu daria meu ultimato em alto e bom som. Sem esperança de uma saída rápida, ela suspirou. – Você deixou bem claro seu interesse sexual, depois que me falou que


– Você deixou bem claro seu interesse sexual, depois que me falou que levaria Dora. Sabendo que eu faria qualquer coisa para ficar com ela. – Mesmo se jogar na cama do tubarão, é? Então, qual foi sua conclusão? Que eu estava aqui para extorquir sexo por vingança, e uma vez que fizemos um sexo incrível, eu iria embora e esqueceria de tudo sobre a vontade de Petros, que eu nunca o considerei de verdade, foi o que passou por sua cabeça? – O que mais eu poderia pensar? Você não pode estar pensando em levar Dora de verdade. – Naomi chorou, sentindo seu mundo desabar enquanto o olhar de Andreas dizia que ele não levaria mais nada em consideração. – Pelo amor de Deus, Andreas, você sabe que não quer um bebê, e não será capaz de proporcionar a ela o lar e a família que ela precisa e merece. – Provavelmente. É por isso que não tenho a intenção de tirar Dorothea de você. Seu coração disparou esperançoso. – Não? Ele aproximou-se, então, voltando para onde ela estava sentada estática e emaranhada nas cobertas. Ajoelhando-se, afundou o colchão fazendo-a rolar em sua direção e sussurrou: – Não. Antes que ela rolasse de volta aliviada, a mão dele escorregou debaixo dos lençóis e segurou seu seio, dando-lhe um delicioso aperto. – Mas tenho a intenção de levar você. Com o peito inchado em sua mão quente, ela gemeu: – Isso não está invertido? Eu já dormi com você. Ele tirou o lençol, tomou conta do mamilo invejoso de seu gêmeo em sua boca quente e puxou com força, fazendo-a gemer e arquear-se. – Você achou que uma noite na suíte real seria o suficiente? Resignada porque acabaria cedendo às suas condições e tentação, indagou ela: – Quantas seriam necessárias? Ele levantou a cabeça e uma sobrancelha. – Eu posso citar um número qualquer? Quantos acha? Considerando o meu recorde de insaciabilidade com você? Devo ter tido você mais de mil


vezes durante nosso tempo juntos, e não conseguiu me saciar. – Com certeza não será nem perto disso. – Você não vai considerar um acordo de uso ilimitado? Que pena. – Ah, tudo bem. Como quiser. Taciturno, ele retirou-se, levantou-se da cama e ficou sobre ela, estudando a sua pose. Em seguida, com os polegares enganchados em seu jeans, e olhos enigmáticos, suspirou. – Naomi, o fato é que eu quero algo um pouco mais significativo do que seus serviços sexuais ilimitados. – O que seria? A minha alma? Ele acenou com a mão. – Pode manter sua alma. Eu só quero todo o resto. O que vai me dar quando se casar novamente comigo.


CAPÍTULO 5

ONDE ESTAVA o outro pé do sapato? Naomi mancava, procurando-o freneticamente. Onde o maldito o atirara? Poderia estar olhando para ele e não vendo, não estranharia. Tudo transformara-se em um borrão desde que Andreas fizera sua proposta ultrajante. Após um período interminável boquiaberta, ela pulou da cama e correu para pegar suas roupas. Só faltava um sapato para fugir daquele lugar e disparar em busca de alguma maneira de manter aquele algoz bem longe. Casar-se novamente com ele, que piada! Sua sanidade e autoestima mal sobreviveram da primeira vez. O que mais a chocou foi que ele nunca quis se casar com ela. Casara-se apenas como um meio de manter uma parceira sexual adequada para que ela não fosse embora. Ele não via o casamento como outras pessoas. Então, por que ele... – Está debaixo do divã. Ela virou-se ao ouvir sua voz calma, encontrando-o só de calça jeans, apoiado na entrada do quarto. Praguejou ao pegar o sapato que só viu quando ele lhe informou onde procurar. Em um instante, estava com ele, no seguinte, pegava sua bolsa no mesmo divã onde a jogara há o que parecia ser uma vida. Xingando novamente, dirigiu-se para a saída que ele bloqueava. Ele deixou-a chegar perto antes que se espalhasse. Seria impossível


Ele deixou-a chegar perto antes que se espalhasse. Seria impossível passar por ele sem contato físico. Ela sabia muito bem aonde isso chegaria. – Afaste-se, por favor, não vamos transformar isso em uma confusão maior. – Acho que é sua maneira dissimulada de dizer inferno, não? – Dissimulada! – Ela ficou indignada. Ele estava se revelando um especialista em provocações, uma qualidade que nunca demonstrara, mas parecia ter muito prazer em fazê-lo agora. Sendo tão inesperado, ela fora alvo fácil, fazendo-a chegar aonde ele queria. Mas ela acabaria com aquilo. Suspirando, ela tentou se controlar, esmigalhada como estava, tentando fazer o que não fizera até agora, tirar suas emoções da equação e falar com a razão. – Ouça, Andreas, nós compartilhamos um nível saudável de afinidade sexual, como acabamos de provar. Foi por isso que o nosso passado aconteceu. Assumo total responsabilidade, eu era jovem e inexperiente, e você, a minha primeira aventura, minha primeira paixão. Você foi o mais transparente possível, e eu misturei meu desejo intenso com expectativas que não cabiam entre nós. O foco dele era total, conforme ela falava, era como se estivesse memorizando suas palavras. – Como deixou claras suas expectativas desde o início, não aceitou quando fui embora. Você, sem dúvida, achou justo tentar me proibir já que eu estava renegando os termos do acordo. Sou a primeira a admitir, e por isso eu acabei com ele. Agora você tem um trunfo para me pressionar e me fazer retomar o acordo tão conveniente para você, mas eu não posso mais. Estou pronta para sexo sem compromisso, como você quer, em troca de não perturbar a vida de Dora. Nós dois ganhamos com esse tipo de acordo. Qualquer outra coisa está fora de questão. – Por quê? Era tudo o que ele tinha a dizer? Depois de tudo que ela argumentara? Contendo a raiva, ela obrigou-se a responder. – Porque eu não vou entrar em outra farsa com você, não com Dora no meio. – Não houve nenhuma farsa esta noite. Foi tudo muito real. – Tão real quanto podia ser. Você sabe que era só sexo.


– Não há nada de só nesse assunto. Depois de todos esses anos, eu ainda desejo você. – E você pode me possuir. Só não gosto disso. – Mais uma vez eu interrogo, por quê? Se você me quer tanto quanto eu a quero? – Porque desejo nunca fez a diferença. Eu desejei você, às vezes mais do que respirar, e ainda assim estar com você foi o pior capítulo da minha vida. Considerando que eu vivi a tristeza de perder minha mãe muito jovem, depois Nadine, imagine o quão miserável eu estava com você. O vazio nos olhos dele se intensificou. E de repente ela percebeu algo. Aquele vazio era o único indício de suas emoções. Quanto mais surpreso ou consternado estivesse, mais vazio seu olhar se tornava. O que não fazia diferença no momento. Só uma coisa importava. Fazer com que ele tivesse sua demanda de volta. Lutando para manter o nível da voz, ela continuou. – Concordar com algo tão perturbador prejudicaria a mim e a minha capacidade de cuidar de Dora. Isso eu nunca vou deixar acontecer. – Se você está disposta a dormir comigo com a frequência que eu quiser, porque chamar isso de casamento é mais perturbador? – Porque seria. Rótulos, formalidades e os ajustes de vida complicam tudo. Sexo sem compromisso é tudo o que posso lhe oferecer. É tudo que você quer. – Eu já comuniquei a você o que quero. Casamento. Agora era a vez de ela perguntar. – Por quê? – Porque eu não estou mais no mercado para sexo casual. Tenho Dorothea agora. – Não, Dora não é sua, ela é minha. – Não segundo a vontade de Petros. Andreas era um tubarão, e o cheiro de sangue, sua vulnerabilidade e desespero, o provocariam ainda mais. Apelar para a sua compaixão, como seu advogado aconselhara, também não levaria a lugar algum. – É evidente que você não pensou nisso, Andreas. Você pode supor que


– É evidente que você não pensou nisso, Andreas. Você pode supor que ter um filho, com seu poder e riqueza, seria fácil. Mas não há nada mais perturbador do que ter uma criança consumindo sua vida, mesmo com alguém que cuide diariamente. Você sabe que não pode assumir a responsabilidade de uma criança. – Eu sei que eu não posso, e já admiti. – Então o que você faria se levasse Dora, a deixaria com uma babá e um monte de professores particulares, depois a mandaria para um colégio interno, quando tivesse idade suficiente, e ficaria cuidando de seus negócios como se ela não existisse? – Eu já garanti, não é o que eu pretendo. Eu nunca considerei não ter vocês duas. Ela ficou boquiaberta. A intenção dele era se casar o tempo todo? Um “pacote de conveniência” que lhe permitiria tê-la e Dora também. – Bem, considere agora. Você tem a minha oferta. Ele inclinou a cabeça, como se aceitasse sua recusa. Em seguida, afastou-se para deixá-la passar. Como se a porta da prisão tivesse sido aberta, ela saiu correndo. Ele seguiu logo atrás. Ela estava quase na porta, quando ele declarou: – Meu motorista vai segui-la até em casa. – A área é segura, são só cinco minutos. – Mesmo assim. Algo a fez virar-se, mas logo arrependeu-se. Fitar a grandiosidade seminua, lembrando-se do que fizeram, deixou-a sem fôlego. – Eu mesmo iria, mas já discutimos o bastante por hoje. De repente, ela foi envolvida pelo corpo quente, e seu coração disparou com os beijos. Seu sangue fervia de desejo, estando prestes a implorar-lhe para tomá-la novamente quando ele murmurou algo. Quando absorveu as palavras, ela escapou de seus braços. – Você é um monstro. E saiu correndo. DEPOIS DE uma das piores noites de sua vida, Naomi chegou ao escritório na manhã seguinte, as últimas palavras de Andreas ainda ecoando em sua


cabeça, enlouquecendo-a. Independente dos seus sentimentos em relação ao nosso casamento, ou que acha que sente por mim agora, você vai acabar concordando com minhas condições. Eu não vou deixar você ir embora novamente. A primeira coisa que ela fez foi chamar seu advogado. Ele assegurou-lhe mais uma vez que ela não tinha nenhuma muleta, que Andreas seria o único a ter vantagem. Ela apostava que se lhe contasse sobre o ultimato de Andreas, ele acharia uma oferta fantástica e que ela deveria aceitar antes que Andreas mudasse de ideia. Não que ela achasse que ele desistiria. Quando Andreas colocava algo na cabeça, não desistia. Mas ela estaria acabada se o deixasse agir como um rolo compressor. Tinha de haver outra saída. Depois de passar uma hora pensando, teve uma ideia. Quanto mais pensava, mais parecia sua única esperança. Ganhar um aliado poderoso, que tivesse poder sobre Andreas. Apenas um homem na Terra tinha ambas as qualidades. O irmão mais velho de Andreas, Aristedes Sarantos. UMA HORA mais tarde, Naomi entrou na sede da Sarantos Shipping, atordoada com a velocidade com que a reunião fora marcada. Não conseguira encontrar o número pessoal de Aristedes, então ligara para seu quartel-general, passando pelo cardápio automatizado até que, finalmente, um homem chamado Dennis lamentou não haver maneira de ela fazer contato com o próprio Aristedes. Algo dentro de sua mente agitada inspirou-a a dizer que era extremamente urgente, a respeito do irmão de Aristedes. O silêncio que se seguiu fez com que ela pensasse que o homem desligara. Em seguida, Dennis dissera que o irmão do sr. Sarantos morrera há muito tempo. Ela ficou atordoada ao saber que Aristedes não sabia que seu irmão estava vivo. Mas Dennis apressou-se em se desculpar. Ela provavelmente quis pronunciar o sr. Andreas, não sr. Leonidas. Ele não a ouvia falar dele há tanto tempo, que não se lembrou de imediato. Era novidade para Naomi, que Andreas tivesse um irmão chamado Leonidas, que estava morto. Ele nunca tocara no assunto, nunca ouvira


isso de Petros, sua única outra fonte de informação. Era claro que Petros fora instruído para não contar nada sobre Andreas, mesmo para sua esposa. A única maneira pela qual soubera sobre sua vida familiar fora investigando Aristedes. Além de uma busca fugaz na Internet, não se aprofundara no que Andreas não queria que ela soubesse. Quando tocou no nome de Andreas, ela foi encaminhada para a assistente pessoal de Aristedes. Em minutos, a mulher voltou. Aristedes poderia vê-la em meia hora. Seria breve o suficiente? Ela quase deixou escapar que era cedo demais. Pensando que seria difícil conseguir uma reunião com Aristedes, achou que teria tempo para se preparar. Andreas era osso duro de roer, ela encolheu-se ao pensar que seu irmão mais velho poderia ser também, o homem que todos sussurravam espantados dizendo ser a crueldade em pessoa. Ela não podia adiar a reunião com o único homem no mundo capaz de conter Andreas. Lá estava ela, no lobby do seu arranha-céu imponente, sem saber para aonde ir ou o que fazer. Enquanto olhava à sua volta, uma morena linda veio em sua direção. – Srta. Sinclair? – Naomi assentiu silenciosamente em resposta ao sorriso questionador da mulher, percebendo que ela era mais velha do que supôs. Talvez 30, assim como ela, mas intocada por tragédias. O sorriso da mulher se abriu, mostrando dentes impressionantes, ela estendeu a mão. – Sou Cora Delaney, assistente do sr. Sarantos. Por favor, venha comigo. Ele espera por você. Cora conduziu Naomi até um elevador privado, parecendo apressada. Ah, Deus, ela estava atrasada? E se estivesse começando tudo com o pé esquerdo? Como poderia começar com o pé direito? O que estava fazendo ali, afinal? O que diria a Aristedes? – Relaxe. Olhou para Cora e só então percebeu que ela apertava o corrimão do elevador, as articulações brancas contrastando com as paredes de mogno. Os olhos da secretária se encheram de compreensão. – O sr. Sarantos pode ser realmente assustador quando quer, admito, mas isso é raro atualmente. Hoje, com certeza, você não corre o perigo de ser mordida.


– Por que hoje é um dia especial? O sorriso de Cora se abriu. – Ele está esperando a sra. Sarantos, sua esposa. Naomi já fora sra. Sarantos. Não que alguém soubesse. Agora estava lá na esperança de nunca se tornar aquilo novamente. A porta do elevador abriu-se devagar. Estavam na cova dos leões. Ou o domínio do diabo? Um minuto depois, Cora conduziu-a até o que deveria ser o santuário de Aristedes. Estava acostumada a interagir com magnatas, mas pelo que ouvira falar deste homem, especialmente, por quem ele era para Andreas, a deixava nervosa, e ela ainda nem o vira. Então ela o viu na extremidade do escritório elegantemente austero, levantando-se de uma mesa tipo nave espacial. Mesmo de longe, seu impacto quase a fez tropeçar. Nas fotos, ele parecia fotogênico, mas, ao vivo, era muito mais incrível. Como Andreas, nada além de sua figura ao vivo poderia fazer-lhe justiça. Bonito seria um insulto para ele ou Andreas. Eram lindos, transcendiam a boa aparência, eram a personificação de puro poder e masculinidade. Além disso, tinham a mesma cor dos olhos e pele, mas o cabelo de Aristedes era mais escuro, com têmporas grisalhas, enquanto o cabelo de Andreas tinha o toque dourado do sol. Não havia dúvida, aqueles dois rolos compressores eram irmãos. Mesmo com oito anos entre eles, as diferenças eram leves, fisicamente falando. Em outro nível, ela sentiu uma grande diferença, mas não conseguia apontar. Quando Aristedes ficou em pé, parecendo da mesma altura que Andreas, parou com as observações. Ele estava sério caminhando em volta da mesa, o olhar frio, tão penetrante e inquietante quanto o de Andreas, mesmo que a sua perturbação tivesse um ar diferente. Podia senti-lo penetrando em sua mente para extrair a verdade sobre ela e sua alegação de assuntos urgentes a respeito de seu irmão distante. Antes de chegar a uma distância de aperto de mão, ela ouviu uma batida suave, seguida por uma porta se abrindo suavemente, roçar de roupas e passos leves no tapete de pelúcia. Devia ser sua esposa.


Sentindo-se uma intrusa, Naomi manteve os olhos fixos em Aristedes. E ficou surpresa com a mudança em seu rosto. Era como se do fundo de sua alma aflorasse toda paixão e emoção ardente no olhar. A alegria em ver sua esposa era ofuscante. – Selene, agapi mou. Agapi mou. Um dos elogios vazios de Andreas apenas no auge do clímax. Mas pelo tom de voz baixo de Aristedes, ela não tinha dúvida de que ele era sincero. Sua esposa era seu amor. Com uma breve desculpa, ele passou por Naomi. Ela não queria testemunhar o cumprimento daquele homem que provavelmente deixara sua esposa naquela manhã, e ainda assim, já estava tão feliz e ansioso por vê-la. Mas ali de pé, de costas para a mulher, poderia ser vista como rude. Então, forçou-se a virar-se e pegou o final do beijo apaixonado do casal. Os lábios de Aristedes renunciaram os da esposa, só para voltar imediatamente para outro breve beijo apaixonado. Então, depois de um último olhar cheio de segredos, ele voltou sua atenção para Naomi. Ela percebeu a principal diferença entre ele e Andreas. Podia sentir os demônios do começo duro no cais de Creta, mas percebia que Aristedes os dominara, relegando-os ao canto mais profundo de seu ser. Este homem se afastara da escuridão. Algo que Andreas nunca fizera e jamais faria. Ele estava sereno, realizado, feliz. E estava claro que não era apenas por Selene, mas com sua ajuda e apoio incondicional. Um homem do calibre de Aristedes não desenvolvia esse nível de envolvimento emocional, dependência e confiança total em alguém que não lhe oferecesse um comprometimento de igual profundidade, alcance e força. A partir da demonstração inequívoca que testemunhara, Naomi não tinha dúvida, Aristedes daria sua vida pela esposa, e sua devoção era integralmente recíproca. Sua intuição uma vez dissera que ela poderia compartilhar esse nível de fidelidade com Andreas. Mas ele provara ser exatamente o que ele mesmo avisara que era, um homem incapaz de envolver-se emocionalmente e indigno dela. Então, como poderia dois irmãos tão parecidos geneticamente, na prática, mesmo na inteligência, determinação e sucessos, serem tão


diferentes? Como era possível um ser tão sentimental, enquanto o outro era incapaz de sentir? Aristedes colocou sua esposa à frente, para ser a primeira a cumprimentar Naomi. – Srta. Sinclair, esta é minha esposa, Selene. Selene Sarantos era a personificação do nome. A deusa da lua, alta e voluptuosa, cabelo como uma cascata negra e olhos do azul mais vivo que Naomi já vira. Era mais do que bonita, era amadurecida pelo culto apaixonado do viril e poderoso Aristedes. Selene estendeu a mão para Naomi com o sorriso de alguém que não fazia ideia com quem se encontrava, mas era muito aberta a fazer um novo conhecido. Estava claro que não se importava em encontrar o marido com uma mulher desconhecida. Que estava bem com isso, e com mulheres como a linda Cora trabalhando tão perto dele, um testemunho da segurança em sua fidelidade e no domínio de seu coração. Naomi apertou a mão dela com um sorriso que esperava não ser frágil. – Prazer em conhecê-la, sra. Sarantos. Selene soltou uma risada espontânea. – Selene, por favor. Eu sou a sra. Sarantos em todos os lugares. Para os íntimos sou apenas Selene. – Você é Louvardis-Sarantos em qualquer lugar – zombou Aristedes. Selene riu de novo, piscando os olhos para Naomi. – Será que você jogaria fora um nome como Louvardis se pudesse mantê-lo? Naomi balançou a cabeça, fazendo a ligação. – Se você quer dizer Louvardis das famosas Empresas Louvardis, eu certamente não o faria. Além da elegância e singularidade do nome. Selene lançou um olhar significativo para o marido. – Entendeu? – Ah, entendi. E Naomi concentrou-se em um homem incapaz de lhe dar um olhar como aquele, de valorizá-la ou precisar dela, considerá-la perto do modo como Aristedes fazia com Selene. A sensação familiar de futilidade a corroeu novamente quando Aristedes virou-se para ela.


– Vamos sentar, srta. Sinclair? – Naomi, por favor, sr. Sarantos. – Ele abriu a boca, e ela correu para se antecipar a ele. – Mas, por favor, não espere que eu o chame de qualquer outra coisa. – Vamos ver, srta. Sinclair – afirmou ele pausadamente, com a astúcia invadindo seu olhar enquanto sentavam-se. – Assim que descobrirmos sobre o que você quer falar. – Depois de um minuto de silêncio, ele acrescentou: – Por favor, relaxe. – Srta. Delaney aconselhou-me o mesmo no elevador. Ela me garantiu que eu não preciso ter medo de você, especialmente porque a sra. Sarantos está aqui. – Tenha certeza de que veio em um ótimo momento, srta. Sinclair. Selene é tão ocupada com nossos filhos e sua própria empresa que raramente me visita no trabalho. Sua chegada me faz feliz, então vai encontrar-me mais receptivo a tudo o que precisa dizer. Embora se for sobre Andreas, tenha certeza de que eu não vou gostar de ouvir. Parece que você também não gosta de ter de falar. A melhor maneira de contornar isso é dizendo logo. Então, vamos lá. Naomi olhou desconfiada para Selene. Aristedes acenou. – Você pode falar qualquer coisa na frente da minha esposa. Vou contar-lhe tudo, de qualquer maneira, e isso me poupa o trabalho. Selene lançou-lhe um olhar repreensivo, em seguida, virou-se para tranquilizá-la. – Você não precisa dizer nada na minha frente. Vou sair, se isso deixá-la mais confortável. Naomi impediu Selene quando esta levantou-se. – Ah, não, por favor, fique. Eu só não tinha certeza de como o sr. Sarantos preferiria. Na realidade, gostaria que você ficasse. – Para amortecer qualquer mau humor, sem dúvida. Selene sorriu para ela, depois para o marido, pegou sua mão, sorrindo em resposta, acariciando-a, obviamente sentindo extremo prazer e conforto com a atitude. A visão deles sentados inconscientemente entrelaçados era requintada. Duas entidades poderosas que se fundiram em algo muito maior e mais


forte. Era mais do que o amor, era união. Cada segundo na companhia deles realçava o quanto Andreas era limitado, e que futuro terrível a aguardava e a Dora se Aristedes não pudesse ajudá-la. Tomou coragem e contou-lhes tudo. Ambos ouviram atentamente, mesmo que suas reações fossem completamente diferentes. Selene parecia cada vez mais aflita, como se imaginando-se no lugar de Naomi, sendo forçada a tal escolha emocionalmente traumática, com o futuro de seus filhos na balança. Aristedes só parecia cada vez mais irritado, enfurecido. Ele era, evidentemente, um protetor, tinha problemas graves com a coerção dos mais fracos, especialmente mulheres. Seu irmão ser o culpado exacerbava sua indignação. Era como se sua própria honra fosse manchada por essa intimidação vir de alguém de seu sangue. Quando ela terminou, Aristedes parecia tão frio quanto seu irmão, mas ela podia sentir o vulcão por baixo. Foi tão assustador que ela quase defendeu Andreas, mas se conteve. Não poderia arruinar seu próprio pedido para proteger Andreas da ira do irmão, agora que estava certa de que conseguira. Ela só queria sua salvação e de Dora, não queria ferir Andreas no processo. Mesmo que ele não tivesse se incomodado em feri-la. Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, Aristedes apertou as mãos de Selene, que estavam agarradas às suas, e as soltou para levantar-se. Naomi aproximouse dela, com explicações e desculpas. Aristedes não lhe deu chance de falar, pegou suas mãos com um aperto reconfortante. – Srta. Sinclair, Naomi, não precisa se preocupar. Petros era como um irmão mais novo para mim. Quando ele chegou aqui, nós nunca reatamos o relacionamento, já que sua amizade com Andreas o levava aonde quer que ele estivesse, ou seja, longe de nós. Mal consigo expressar o quanto lamento não ter sabido sobre todos vocês, seu casamento ou sua morte. Agora que sei de sua filha, eu lhe asseguro que ela é tão preciosa para mim quanto qualquer um dos meus sobrinhos. Eu nunca deixaria ninguém atrapalhar a vida dela, ou a sua, muito menos Andreas. Deixe-o comigo. Depois que agradeceu e recebeu o reforço de Selene, Naomi foi embora


Depois que agradeceu e recebeu o reforço de Selene, Naomi foi embora desequilibrada. Tudo o que ela esperava era não ter causado um confronto que levaria a uma ruptura intransponível entre os irmãos. Não que eles tivessem uma relação para preservar, ela não podia suportar a ideia de que fosse sua culpa. Estava feito, Aristedes mandaria Andreas recuar. Duvidava que Andreas aceitasse. Ele era muito poderoso e conhecido, não se importava com perdas. Foi como se tornou tão poderoso, era destemido e não se apegava a nada. Ainda assim, Aristedes era agora um aliado. Pouparia seu tempo ou conseguiria negociar as condições com as quais ela pudesse conviver. Como obrigar Andreas a aceitar sua oferta em vez de insistir em suas condições. Ou tudo poderia dar errado. Incapaz de pensar nas consequências dos acontecimentos que ela desencadeara, só esperava que tudo se resolvesse com o menor dano possível, e que ela e Dora fossem salvas de Andreas.


CAPÍTULO 6

ANDREAS PAROU em frente ao prédio por onde passara tantas vezes nos últimos anos e nunca entrara. O edifício de seu irmão mais velho. O irmão que o telefonara uma hora atrás ordenando que fosse até lá. O rosnado de Aristedes “agora” ainda ecoava em seu ouvido. Sua primeira reação foi dizer a ele o que fazer com sua ordem. Teria ignorado se não tivesse certeza quase absoluta do que se tratava. Naomi. Não havia outra explicação. Aristedes o telefonara apenas quatro vezes em dois anos. Para o funeral de Leonidas, para seu casamento e para o primeiro aniversário do filho de sua irmã mais nova, e também seu casamento. Andreas fora apenas para o casamento de Caliope, porque a situação permitira. Outro evento importante na família seria muita coincidência um dia depois de Naomi fugir dele chamando-o de monstro. O telefonema agressivo de Aristedes devia ter sido incentivado por ela. Ela deve ter pensado que seu último recurso era colocar Aristedes no pé dele. Não por ser seu irmão mais velho. Ela deveria saber que isso não o influenciaria, mas por ser Aristedes. Aristedes era formidável. Se alguém pudesse chegar em Andreas, seria ele. Ela deve ter calculado que ele, pelo menos, o acalmaria, enquanto ela continuava procurando uma saída que não incluísse a rendição. Uma leoa selvagem e astuta. Mas se rendera na noite anterior. Viera até ele furiosa e descontara toda sua agressividade e paixão. Ela bateu, mordeu e se esfregou nele até ele lhe


dar o que pedia. Fora alucinante como sempre, ou até mais, como se o tempo separados aumentasse tudo o que compartilharam: a intimidade mais lancinante, o prazer mais excruciante. Mas assim que ele percebeu o que a conduzira a seus braços, tornou-se frio, por alguns instantes. Sempre tivera certeza de que Naomi sofria da mesma aflição. Sabia que ela faria qualquer coisa para acabar debaixo dele, ele também. Ela podia ter uma desculpa legítima como Dorothea, mas fora apenas uma desculpa, ela o desejava, e por isso se oferecera. Fosse por Dorothea ou qualquer outra coisa, ela certamente nunca iria para a cama de outro homem. O pensamento fez seu sangue ferver. Uma trombada em seu braço acabou com a onda de fúria. Estava literalmente cego. Esbarrou em um homem ao entrar no prédio como um touro. Ajudando o homem, Andreas desculpou-se, ignorando a curiosidade de todos em volta. Ficou claro que todos o reconheceram, como ele mesmo ou por sua inconfundível semelhança com Aristedes. Deviam estar indagando-se que incidente trouxera de volta o irmão pródigo: a noite com Naomi. O que aconteceu entre eles foi espantoso e verdadeiro. O que compartilhavam era algo que sabia que era verdadeiro. A química era inegável, a satisfação, explosiva. Como ela chamara? Um nível nada saudável de afinidade sexual? Substituir “nada saudável” por “viciante” e “escravizante” seria mais adequado. A preocupação surgiu depois que ela o deixou, quando não podia mais usufruir de sua dependência e escravidão. Durante anos, seu corpo enrijecia apenas com a lembrança de estar em seu interior, ficava constantemente agitado com a sensação de sua pele aveludada, seu perfume e feminilidade avassaladora. Só encontrando alívio frágil e rápido ao relembrar seus incontáveis encontros do passado. Após anos de tormento, estava tão irritado quanto Naomi, embora por um motivo diferente. Por seu domínio sobre ele. Voltara com a intenção


de recuperá-la, mas tinha esperança que fosse diferente, que estivesse curado do vício. Mas então a vira, tocara, e sua febre alcançara a intensidade anterior, excedendo-a. Tudo nela, a textura da pele, os suspiros, a voz, o beijo, a respiração, a magia dos olhares e gestos, era como se cada nuance sua fosse uma droga alucinante e afrodisíaca, formulada por um impiedoso deus especificamente para ele. E então veio aquela noite. Theós, que noite. Pensara que satisfazendo seus desejos acalmaria seus sentidos, mas só os aguçara. Agora estavam desenfreados e o consumiria se não a tivesse novamente, e mil vezes mais. E lá estava ele, de pé no saguão de um dos edifícios mais movimentados na Quinta Avenida, debaixo de curiosos olhares e prestes a discutir com seu irmão mais velho. E tudo em que conseguia pensar era nela, debaixo dele, sexy e úmida com incoerente luxúria, braços macios em volta dele, seu interior aveludado envolvendo-o enquanto ele a penetrava inundando-a com prazer e derramando seu sêmen dentro dela. Seu coração disparou, todo o sangue correu para seu pênis, forçando-o a parar. Dekará, droga. Estava excitado. Pelo menos o jeans apertado tinha um lado positivo. Era apertado o bastante para disfarçar sua ereção. Não de acordo com os olhares masculinos, que tinham essa empatia de reconhecer a sua situação, antes de olharem em volta para verificar quem a causara. Eles entenderiam que seu estado era mais grave do que parecia se soubessem que o instigador não só não estava por perto, mas também armou a armadilha em que ele estava se metendo. Precisava acabar logo com aquilo. – Sr. Sarantos. Virando a cabeça, viu uma mulher vindo em sua direção. Com um sorriso hesitante, ela estendeu a mão. – Cora Delaney. O sr. Sarantos me enviou para acompanhá-lo até seu escritório. Cumprimentando-a, observou como seus olhos brilharam. Tinha certeza de que ela não olhava para Aristedes dessa forma. Em seguida, um


sorriso mais largo e contato visual direto demonstraram seu interesse. Olhando reto, sem retribuir o sorriso, ele caminhou, em uma mensagem clara de que ele não estava interessado. Ela era lindíssima, há alguns anos seria seu tipo. Morena, vistosa e esbelta. Ele teria de deixá-la saber do seu interesse fugaz, para aceitá-lo ou recusá-lo. Uma vez que ela concordasse com suas condições, ela o teria ao menos por uma noite. E então Naomi aparecera. Um anjo voluptuoso com o sol refletindo em seu cabelo e um mar azul-turquesa em seus olhos vulneráveis e valentes, inocentes e insaciáveis. Desde então, era ela ou ninguém. As mulheres, por outro lado, continuavam interessadas. Toda vez que uma dispensa como a que dera a srta. Delaney não bastasse, acabava com o problema dizendo ser comprometido. E era. Naomi o fizera seu prisioneiro, um gênio na garrafa que só ela podia chamar. Ela agora estava desencadeando outra coisa. A ira de Aristedes. Seria melhor Andreas se preparar. Assim ele fez, e finalmente olhou à sua volta. Tudo no edifício tinha o cunho de Aristedes, ao menos seu lado profissional, austero, destacado com classe e poder, inegavelmente distinto e de vanguarda. Em questão de minutos, chegaram ao destino. Caminhando rapidamente, cruzou a sala de espera, virou uma esquina e viu Aristedes. Ele estava de pé como um monólito no meio da enorme sala, refletido na madeira polida dando a ilusão de ele ser de outro mundo, como um deus da vingança. Algo mudou profundamente em Andreas ao ver o irmão. Algo elementar, inexplicável e poderoso. Por suas escolhas, ele nunca conhecera verdadeiramente Leonidas, seu irmão mais novo. Preferia ficar com Petros. O sentimento tardio de ter feito muito pouco por eles nunca parou de atormentá-lo, enchendo-o de arrependimentos. Ambos se foram trágica e prematuramente, em acidentes de carro. Leonidas por sua própria culpa. Agora Aristedes era o único irmão de Andreas. A única pessoa próxima dele. Com certeza não eram próximos, o que também era culpa sua. Mas


Com certeza não eram próximos, o que também era culpa sua. Mas havia esse vínculo fundamental, esse inexorável laço sanguíneo que reconhecia em Aristedes um parente seu, sua natureza calma, reforçada pela pureza e poder. E apesar de a referida entidade olhar para ele como se quisesse esfolá-lo, Andreas estendeu a mão e puxou-o para um abraço. Aristedes ficou como uma pedra em seu abraço, não fez nenhum movimento, nem mesmo para respirar. Seu coração estava em choque. Não que Andreas esperasse uma reação diferente. Ele nunca demonstrara a Aristedes ou qualquer outra pessoa qualquer manifestação espontânea de carinho, física ou verbal. Suspirando, ele afastou-se, libertando-o. Não queria que seu irmão sufocasse ou tivesse um ataque cardíaco. Aristedes fitava-o como se em transe. Depois, balançou a cabeça para sair dele e seu olhar vazio procurou por Andreas. – O que foi isso? – Acho que as pessoas chamam de abraço fraternal. – Desde quando abraços fraternais se aplicam à sua espécie, Andreas? – Tive vontade, e dei. Esqueça. – Como posso esquecer? Você me abraçou, Andreas. É como chover peixe do céu. – Tenho certeza de que aconteceu algo nebuloso. E, sem dúvida não acontecerá novamente, como este abraço. – O que aconteceu foi um conjunto de circunstâncias bizarras para fazer o impossível acontecer. O que aconteceu para você me abraçar? Suspirando, Andreas abraçou Aristedes novamente, mais forte, e então afastou-o. – Pronto desfiz, devolvi, ou coloquei você de volta ao seu estado anterior, antes de acontecer a anomalia. Melhor agora? – Se você acha que eu posso ser o mesmo, que qualquer coisa pode ser a mesma depois disso, está tramando algo. O que está acontecendo com você, Andreas? Você está doente? – Acha que estou morrendo ou algo assim? Que estou arrependido por tudo o que perdi, não fiz ou disse e vim fazer as pazes antes que seja tarde demais?


Seu sarcasmo evidentemente não afetou Aristedes, que o olhava exasperado. – Você está bem? Se há algo de errado com você, me diga agora. – Foi apenas um abraço, Aristedes, e eu desfiz. O que mais posso fazer para restaurar a nossa pacífica convivência com expectativas abaixo de zero? A emoção no olhar de Aristedes sumiu, o vazio que Andreas sempre via no espelho tomou seu lugar. Andreas há muito aperfeiçoara esse olhar indecifrável como uma arma e mecanismo de defesa, até tornar-se uma parte dele. Perdia o controle só quando muito irritado ou perturbado. Em outras palavras, com Naomi. Nascido antes dele no mesmo inferno, Aristedes desenvolvera sua própria gama de olhares perturbadoramente vazios, muito antes de a vida ensinar a Andreas a razão deles. Sendo um especialista em todos, ele reconheceu a importância deste. Era o que seu irmão usava para colocá-lo de joelhos. Depois de certificar-se que o atingira em cheio, Aristedes virou-se e foi para a área de estar. Assim que Andreas juntou-se a ele, quis saber: – Você quer consertar? – Nossa convivência? Você quer dizer que nós realmente a modificamos? Agora temos convivência pré-abraço e pós-abraço? – Só responda. E se ele dissesse não? Estava tão acostumado com a segregação que não fazia ideia se poderia lidar com qualquer outra coisa, ou se estava mesmo preparado para aquilo. – Nada precisa mudar. – Eu acho que tudo precisa mudar. Você precisa mudar. – E você acha que porque é meu irmão mais velho sabe mais? – Sei porque eu era você até poucos anos atrás. – Até Selene aparecer e salvar você de si mesmo? Ainda parecia irreal para Andreas que Aristedes tivesse se apaixonado pela filha de seu pior inimigo. Claro, o começo fora conturbado e a união inicial terminara em separação durante a qual ela tivera um filho dele, mas achou que ele não merecia saber. Uma vez que ele se arrependeu, ela o fez


pular miudinho para ter o privilégio de outra chance com ela e de conhecer seu filho. Sendo um perseguidor de metas, Aristedes superou a si mesmo, e nunca mais pararia de fazê-lo. Estavam casados, e com uma filha, vivendo mais felizes do que em qualquer conto de fadas. – Ridicularizar não torna isso menos verdadeiro. Selene me salvou de verdade. Ela arrancou de mim tudo o que valia a pena, e me deu uma segunda e real chance na vida. – Então eu estou condenado, já que, segundo você, eu não tenho nada digno dentro de mim para ser arrancado. – Eu era tão mau quanto você ou pior. Acontece que não é importante se você acha que você é digno de redenção. O importante é que alguém acha que é, e você é estúpido demais para deixá-la se aproximar de você. – Você nunca foi tão mau como eu, Aristedes. Estou em um nível só meu, lembra? Não posso acreditar que estamos conversando sobre um abraço. Não foi a primeira vez que abracei você. – Na última vez que me abraçou você tinha 7 anos. – Ne. Trinta anos atrás. Ele voltou ao passado, lembrou-se de como se sentia em relação a Aristedes na época. Seu irmão fora sua âncora, o único farol de esperança e força em uma existência obscura e turbulenta. Ele amava a mãe e as irmãs mais velhas, como uma criança que se importava com aqueles que cuidavam dela. Reconhecia-os como vítimas, desprezadas por sua impotência, assim como ele desprezava a si. Ele só admirava Aristedes, cuja determinação trilhara seu destino, sua força o encorajava a lutar. – Eu nunca confessei, mas eu idolatrava você naquela época, você era meu exemplo. – Nisso eu acredito, seu modelo maior. No meu caso, era uma ferramenta necessária para sobreviver na época, mas para você, parece um componente fundamental. Parece que a entidade responsável por sua criação na fábrica cósmica deixou seu pacote emocional na linha de montagem. – Você é o segundo em dois dias a me dizer que não tenho tal elemento essencial. Só posso ser grato por essa ausência, não imagino o que seria de mim se tivesse isso estando perto do nosso pai ou dos outros merdas do meu caminho. Eu teria desperdiçado tempo e energia me importando com


eles quando não valiam nada. Você, por outro lado, sempre teve minha admiração verdadeira. – Eu não fazia ideia que você sequer notava que eu estava vivo, me olhava com o mesmo desdém que olhava tudo e todos. – Ah, eu notava, e admirava, quando estava presente para ser admirado. Aristedes franziu a testa, com a dor da lembrança. – Você sabe que eu não podia estar presente já que precisava sustentar vocês. Andreas dispensou sua justificativa. – Eu estava lá, lembra? Ele estivera presente de uma forma que Aristedes não fazia ideia. Enquanto seu irmão trabalhava vinte horas para colocar comida na mesa, Andreas fora deixado para trás, como o “homem da casa”. As coisas que precisava fazer para preencher esse papel... – É sobre Petros? Andreas piscou com a pergunta de Aristedes, o nome de Petros balançou seu coração. – Eu sempre achei que você não sentia nada por ninguém, exceto Petros. Sua morte, embora você não tenha se dignado a nos informar, deve ter atingido você em cheio, mesmo que não admita. – Por que não admitiria? Eu admito, ainda estou em choque. Foi a vez de Aristedes ficar surpreso. – Você em choque? É normal que alguém fique, mas você? – Não é normal? Provavelmente, mas ele era a pessoa mais próxima de mim. Mais próximo do que qualquer um de vocês. – O que não conta muito, já que você não estava próximo de nenhum de nós de qualquer maneira. Parece que foi só você completar 13 anos e se afastar de todos. – Isso, vindo do homem que deu dinheiro e trabalho à família no lugar de convivência. Nossa mãe costumava dizer que você vendeu sua alma pelo toque de Midas. E por falar em abraços, ela revelou que ficaria feliz em trocar tudo o que você deu a ela por um abraço. – Não estamos discutindo qual de nós era o desgraçado mais frio, Andreas. Andreas fez uma careta.


– Theos, me desculpe, foi golpe baixo. Eu não concordo com o que ela disse ou sentia. Na verdade, eu realmente a desprezava por isso. Você nos apoiou em uma situação insuportável, nos tirou de Creta, construiu uma nova vida para nós nos Estados Unidos, que ela não viveu para ver, porque se matou com o coração partido pelo desgraçado do nosso pai. Nossa mãe estava doente, com uma depressão que a levou a fazer todas as escolhas erradas possíveis, nos marcando para sempre. Ela adorava nosso pai, que dizia suas doces mentiras, enquanto a enganou a vida inteira, ela não apreciava os milagres que você fazia por todos porque não realizava com um sorriso ou um abraço. É de se admirar que tenhamos crescido desprezando sentimentalismos baratos? O olhar de Aristedes se aguçou, como se estivesse vendo suas vidas sob uma nova luz, vendo Andreas por um ângulo inesperado. Por fim acrescentou: – Nossa mãe foi ferida, como nosso pai, o relacionamento deles era doentio. Deixamos eles e seu legado há muito tempo, e não devemos deixar seus erros e deficiências envenenarem nossas escolhas. Você não precisa ir na direção oposta e não ter emoções, você viu o que isso fez com ela. Há muitos sentimentos equilibrados, você pode experimentar sem que o dominem. – Como aqueles que você sente por Selene e seus filhos? Eu acho que você está muito além de dominado. – Isso só é ruim se os sentimentos forem prejudiciais, degradantes ou deprimentes. Meus sentimentos por Selene e nossos filhos me resgatou e agora me sustenta e rejuvenesce. – Aristedes de repente deu um grunhido impaciente. – Você nos levou a outro assunto. – Você que começou a relembrar meu afastamento. – O que eu perguntei foi se o seu comportamento estranho era por conta da perda de Petros. – Eu nunca vou ter o final deste abraço, vou? – questionou Andreas o interrompendo. – Agora Caliope vai me enviar uma mensagem para discutir meu potencial emocional. – Ele o encarou, a ideia realmente o deixava ansioso. Caliope vinha tentando resgatá-lo ao círculo familiar desde que ele cometera o erro de assistir a seu casamento. – Faça o que


quiser, mas não conte isso a Caliope. Eu farei qualquer coisa, se você prometer que não conta. – Que tal você deixar Naomi em paz? – A hora da verdade, o objetivo de tudo isso. Então, ela recorreu a seus serviços para me dissuadir. O que ela contou? Eu deveria ouvir a lista de acusações, antes de continuar. E por dez minutos, Aristedes relatou em detalhes sua própria versão das “exigências” de Naomi e o que pensava dele e de suas ações. Suas repreensões ainda ecoavam como um trovão quando Andreas finalmente suspirou. – Acabou? – Sim, e você também, agóri. – Já faz tempo que alguém não me chama de menino. – Não me faça mostrar que em comparação a mim, você ainda é um menino. – Comparamos idades agora? Aristedes o encarou. Andreas tinha certeza de que qualquer outro homem teria recuado. – Você vai deixar Naomi em paz. Essa é a minha última palavra. – Eu não sabia que isso era um leilão, mas aqui está minha última palavra, para acabarmos com isso. Não vou fazer isso de jeito nenhum. – Andreas! Sua mão levantada interrompeu a ameaça de Aristedes. – Passei os últimos quatro anos sem pensar em nada além de tê-la de volta, e agora que eu posso, não vou deixá-la ir embora. – Você usaria a vontade de seu amigo e seu bebê para coagi-la? Você não se importa com o fato de ela não querer? – Não há nada que ela queira mais. Confie em mim. – Eu confio na palavra dela e no transtorno que senti. Se você acha que ela quer você, e é assim que justifica tudo isso, está se iludindo. – Você não sabe nada sobre a nossa história, Aristedes. – Eu sei tudo. Ela me contou. Isso o surpreendeu e o intrigou. Não achou que ela chegasse tão longe. O que ela teria dito, exatamente, para que Aristedes ficasse a um fio de brigar fisicamente?


– Pode ser impossível você levar algo em conta, além de si mesmo – falou seu irmão, obviamente se esforçando para conter a raiva. – Mas considere que ela recentemente perdeu sua única irmã e ainda esta lidando com a perda. Ela herdou a responsabilidade de criar sua sobrinha. – O que ela não vai fazer sozinha quando se casar comigo novamente. – Ela não pediu ajuda, muito menos sua. Tenho a impressão de que sua vida gira em torno de Dora. – O que não está certo. Sua vida não devia se resumir à criança. É ruim para as duas. – E o que é bom? Você? O homem que não conseguiu ter o mínimo de consideração e respeito com Naomi em sua farsa de casamento? Você quer magoá-la mais ainda fazendo sua filha refém? E Dora é sua filha de qualquer maneira. Você é tão sem sentimentos ou honra? – Eu vou fazer o que tenho de fazer. Você não faria qualquer coisa para conseguir Selene de volta se a perdesse? – Eu nunca coagiria Selene e impediria suas escolhas como você está fazendo com Naomi. – Eu não estou coagindo Naomi, estou perseguindo. Ela precisa de mim, antes que possa se permitir fazer o que realmente quer, que é voltar para mim. Aristedes estava incrédulo. – Você acha que ela está se fazendo de difícil? – Não exatamente. Parece que ela tem vergonha por ter me perseguido no passado. E pesa o fato de que eu mantive o nosso casamento em segredo. Acredito que seja uma das principais razões para ela procurar você, para consertar um erro do passado. Estou restaurando sua dignidade indo atrás dela agora. E se ela não tivesse se antecipado, eu contaria a vocês sobre nós no momento que ela concordasse. Então, não a estou coagindo, eu estou dando a oportunidade que ela precisa para que possa ter a fatia que sente que devo a ela. Mas suas razões em resistir não incluem não me querer. Ela me quer tanto quanto eu a quero. Confie em mim. – Você está falando de desejo físico, isso nunca é suficiente para superar aversão mental e emocional. Se você conseguir fazê-la se casar de novo com você, uma mulher que não o suporta fora da cama, o que acha que


você vai fazer quando não estiver fazendo amor? Para que tipo de guerra sem sentido você a arrastou? Andreas acenou como se para afastar as preocupações de seu irmão. – Este conflito inicial acaba logo. – E se isso não acontecer? Por ela, só vai aumentar. Você arriscaria esse tipo de inferno pessoal e doméstico? Só porque quer tirá-la de seu íntimo? – Eu não posso tirá-la do meu íntimo E eu não quero. – Trata-se apenas de sexo. Uma risada sem alegria escapou de Andreas quando ele lembrou-se das palavras exatas de Naomi na noite anterior. E da resposta dele. Apenas sexo, certamente. – Para isso, o arranjo que ela sugeriu é a solução perfeita para ambos. – Eu não quero um acordo, quero algo definitivo. – Você tem ideia do que significa definitivo, Andreas? A única pseudorrelação que você já teve foi com ela. Acha que isso é casamento? Essa farsa que você está pedindo para repetir? Mesmo que suas emoções sejam diferentes, você nunca perde tempo com algo que não funciona. Por que insiste em repetir algo que falhou como casamento? – Eu não acho que tenha falhado. – Claro, o divórcio é indicação de um casamento perfeito. – Ele indica um problema. Ela deve ter contado, mas não se aplica mais, não será o mesmo agora. O rosnado de Aristedes teria feito qualquer um se esconder. – Por que não admite que está atrás dela porque ela se atreveu a ir embora? Aposto que faria ela se curvar à sua vontade, só para que você a deixasse quando quisesse. – Vejo que você aceitou a análise dela de minhas ações e motivações. – Ela se encaixa no que sei de você. – Chega, não serei repetitivo. Aristedes levantou-se e agarrou seu ombro. – Mesmo se eu aceitasse sua análise, você ainda estaria envolvendo-a em uma relação patológica. Eu poderia aceitar se só se tratasse de vocês dois, mas não se trata, há uma criança envolvida. Será que você não pensou nem um pouco na menina? Caso receba Naomi de volta desta forma desonrosa, a vida de vocês será um inferno ainda pior, e afetará Dora.


– Quem disse que a vida entre nós era o inferno? – Naomi, é claro. – Não era um inferno – murmurou ele, – e não seria. – É sua palavra e previsão contra a dela. E mesmo que você tenha razão, o que acontecerá quando se cansar de Naomi? Como acha que Dora vai se sentir quando você abandoná-la com Naomi depois que ela já considerá-lo como pai? Não pensara em tal possibilidade, uma vez que nunca aconteceria, ele nunca se cansaria de Naomi. Jamais abandonaria a filha de Petros. – Vou deixar claro para Dorothea desde o início que não sou o pai dela. Não tenho ilusões de que poderia ser. – Eu sempre soube que você era frio, mas nunca sonhei que não tivesse coração. Estou avisando, Andreas, continue com isso e eu vou impedi-lo, não importa o que eu tenha de fazer. – Terminou agora? – Aristedes o segurou mais forte. Andreas removeu sua mão com a maior calma. – É assim que vai ser. Vou cumprir a vontade de Petros. Ele queria que Dorothea fosse uma Sarantos, e é o que eu estou fazendo. Eu quero fazer Naomi minha esposa novamente, e é isso que ela vai se tornar. – Andreas! Ele levantou ambas as mãos para conter a explosão de seu irmão. – Se durante esse processo você tiver qualquer indício de que os medos de Naomi procedem, se eu estiver magoando uma delas, pode me impedir como achar melhor. – Você acha que eu vou esperar até que você as magoe? – Por que está tão certo de que vou fazer isso? Você não é o defensor da segunda chance? Não acabou de me passar um sermão sobre redenção? Ou acredita que é possível para todos, menos para mim? A incerteza invadiu o olhar de Aristedes, dissipando sua raiva com um piscar de olhos. – Se eu achasse por um instante que é o que você deseja... Andreas colocou a mão no ombro do irmão e confessou. – É.

UMA HORA depois, sentado na cama onde estivera com Naomi, Andreas


UMA HORA depois, sentado na cama onde estivera com Naomi, Andreas fechou os olhos pensando nas maravilhas que compartilharam. Gemendo, caiu para trás entre as cobertas em que ela enrolara seu corpo perfumado e sensual, virou o rosto para inalar mais profundamente seu cheiro, deixando o persistente cheiro e sensualidade envolvê-lo. Sua excitação fora deflagrada depois que ela fora embora, ele se obrigou a dormir em outro quarto. Ainda estava em agonia, mas sua outra perturbação interrompia tudo. A turbulência não tinha nada a ver com o seu encontro com Aristedes, na verdade, ficou satisfeito com o confronto. Mesmo que seu irmão tenha passado 90 por cento do tempo repreendendo-o como o pai que ele, ou eles, nunca tiveram, e expressando sua decepção, ele apreciara. No meio de toda desaprovação, algo que achava impossível se tornara claro. Aristedes se importava. Enquanto seu irmão havia se tornado um exemplo na vida particular, permanecendo como um trator só profissionalmente, Andreas nunca pensara que aquilo se estenderia a ele. Não que Aristedes tenha lhe dado alguma chance. Ele comprometeu-se a pegar Andreas de jeito, se sua suposta oferta de segunda oportunidade revelasse qualquer toque de exploração. Longe de estar incomodado pelas ameaças de Aristedes, estava realmente se divertindo com suas táticas de pai-urso, mesmo que aliviado que Naomi e Dorothea agora tivessem mais outro protetor feroz. Além disso, Aristedes não poderia machucá-lo, ele não poderia ser ferido. O que o perturbava era o que Naomi revelara a Aristedes, que seu casamento fora um inferno. Ela lhe dissera que nunca estivera mais miserável do que quando a seu lado, mas inicialmente não acreditara. Ele sempre acreditara que o casamento, embora não ortodoxo, fosse fantástico. Bem, tão fantástico quanto possível, dadas as restrições impostas por ele. As coisas entre eles em geral iam bem, e de forma explosiva na cama, até a noite em que ele lhe informou que não queria ter filhos. Ele acreditava que ela o deixara por essa razão. No dia seguinte, ela pediu o divórcio. Agora, ele não tinha mais certeza. Sua intuição dizia que falara isso para fazê-lo recuar, e em seguida a


Sua intuição dizia que falara isso para fazê-lo recuar, e em seguida a Aristedes para invocar sua proteção. Caso as reclamações não fossem totalmente inventadas, ela provavelmente se convenceria de que fora sempre infeliz com ele. Ela poderia se ressentir por não ter um filho seu, algo de que a privara enquanto estiveram juntos. O ressentimento tem o poder de entortar memórias e reescrever histórias. Sua intuição lhe dizia algo diferente. Sua feroz resistência a qualquer compromisso, mesmo depois de fazer amor daquela maneira, fora muito real e perturbadora. Agora relembrando o que ela mencionara, o jeito que parecia e soava, será que era realmente como se sentira naquele momento, e não algo inventado? Ele seria o primeiro a admitir que sua relação fora instável. Quando ele pediu-lhe em casamento, queria uma continuação nas mesmas condições de um caso, apenas com a garantia de que ele era dela e que não teria fim. Ele pensou que resolveria seu descontentamento e incerteza, já que acreditava que sua necessidade de permanência e exclusividade fora o motivo pelo qual fora embora da primeira vez. Ele sabia que não era o marido ideal, mas sua situação de vida não acomodaria nada diferente do que lhe oferecera. Ele pensara que ela se contentaria com o que compartilhavam, que sua paixão compensaria por qualquer coisa que faltasse. Ele nunca suspeitara de sua infelicidade, muito menos da insatisfação. Por isso, sentira tanto quando ela se foi, acreditando que voltaria para negociar. Uma vez que o fez, ele intencionava argumentar que tiveram muito tempo antes de as crianças se tornarem assunto, contando com a vida sexual fenomenal que a satisfizera por anos antes de sua necessidade de ser mãe. Porém, se sua vida sexual só a fizera se sentir pior a respeito de si mesma por que insistira em uma situação tão horrível por tanto tempo? Mas e se aquela mesma infelicidade era o motivo para ela ser tão inflexível, o que ele poderia fazer agora? Poderia facilmente coagi-la, mas não o faria. Estragaria seu propósito. Queria que ela o desejasse sem pressões. Para isso, ela teria de concordar com sua proposta de livre e espontânea vontade, mas como?


Voltara acreditando que a necessidade de um filho para Naomi já tinha sido cumprida, eliminando um obstáculo no caminho, mas parecia que ela tinha mais necessidades além dos filhos, algo que ele não fora capaz de lhe dar. Embora sua situação houvesse mudado, ele não fazia ideia se conseguiria. E se não fosse capaz? E se Aristedes estivesse certo em desconfiar dele, e que a melhor coisa para ela e Dorothea fosse ele deixá-las em paz? Ele conseguiria? Conseguiria afastar-se para sempre?


CAPÍTULO 7

NAOMI OLHOU para os diagramas na tela do laptop. Pareciam runas alienígenas pela falta de sentido que faziam. Não que houvesse algo errado. A falta de oxigênio em seu cérebro causava o defeito. Estava sem fôlego querendo descobrir se Aristedes cumprira sua missão. Dissera-lhe apenas que confrontara Andreas, e que tudo estava sob controle. O que aquilo significava, não fazia ideia. Só uma coisa a faria ficar tranquila: Andreas dizer que esqueceria o testamento de Petros ou que faria um acordo. Talvez, quando Naomi oficialmente adotasse Dora, fosse seu padrinho, ou algo assim, e que não precisaria se casar com ele novamente. Sempre que chegava nessa parte, sua intuição dizia que ele aceitaria sua oferta de serviços sexuais ilimitados. Três dias depois que Aristedes intimara o irmão, Andreas ainda mantinha silêncio absoluto. A falta de notícias não significava boas notícias. Também sofria de outro problema. Seu corpo, despertado por ele de modo selvagem, lhe atormentava. Não descansava ou adormecia sem pensar nele. Desligando seu laptop com um suspiro exasperado, pegou sua bolsa e deixou o escritório. Não adiantava tentar trabalhar quando mal conseguia pensar direito. Quinze minutos depois entrava em seu apartamento, para ouvir o som habitual de Dora na sala. Os sons adoráveis arrancaram um sorriso de seus lábios. De repente, sentiu como se tivesse batido em parede invisível quando


De repente, sentiu como se tivesse batido em parede invisível quando ouviu um som emanado de seu destino. Uma voz muito grave. Engolindo o coração que parecia estar na boca, continuou caminhado de pernas bambas. Poderia ser Aristedes, provavelmente era. Ele declarou que viria ver Dora, ela afirmara-lhe que poderia aparecer sempre. Ele se parecia muito com Andreas, de longe suas vozes poderiam ser confundidas. Ela gemeu, a quem enganava? O barítono mexeu com seus nervos já abalados, seu coração disparou. Mesmo que seus ouvidos e cérebro não confirmassem, o resto do seu corpo sabia. Era Andreas, ele estava lá. Sem convite ou aviso, e com Dora. Naomi espantou o susto. Afinal, ele ainda estava lá, não fugira com Dora. Ela o deixara à vontade. Deveria ter deixado claro para Hannah que ele não era bem-vindo, e instruções estritas com o porteiro para barrar sua entrada. Chegando à sala, analisou a situação antes de entrar. O que viu fez seu coração disparar. Andreas estava sentado no sofá, ainda mais atraente do que o habitual em um terno bege que contrastava com seu cabelo e pele. Seus gatos o ladeavam, Hannah estava sentada em frente a ele, e Dora brincava a seus pés. Para quem visse a cena, seria como se o grande homem que ofuscava suas companhias e sombreava toda a sala fosse um convidado. Hannah parecia feliz e animada, Loki e Thor ronronavam relaxados, e Dora entregava-lhe seus brinquedos preferidos, balbuciando. Todos se comportavam como se estivessem acostumados com ele. Enquanto ele parecia inadequado à cena doméstica, seu comportamento aceitando com naturalidade a atenção e aconchego de sua família desmentia o fato de que esta era uma situação sem precedentes em sua experiência, estranha à sua natureza. O que não importava nem um pouco. A necessidade de tomar o controle, agarrar Dora e Hannah e levá-las para bem longe de Andreas era tão forte que paralisou Naomi.


Foi bom, ela não poderia expor a realidade da situação para Hannah ou Dora. A inércia dava a ela chance de se recompor antes de entrar. Outra coisa a deteve: o fato de Andreas saber que ela estava lá. O modo que baixou os cílios e a olhou confirmou. Ele sempre teve um radar sinistro. Apostava que ele fingia não perceber sua presença de propósito, para provocar sua reação. Ela não reagiria, mesmo que sentisse seu magnetismo atraindo todos seus instintos e desejos. Praguejando, aprumou-se e entrou na sala. Andreas avançou à beira do sofá, ainda segurando as últimas ofertas de Dora, com olhar apático como de costume. Seu corpo quase rugiu de desejo. Rangendo os dentes, olhou para Hannah, que sorria. – Querida, você chegou cedo! Está tudo bem? Sem sorrir, Naomi sentiu o calor subindo a cada passo. – Resolvi coisas mais cedo que o esperado. – Ótimo. Agora o sr. Sarantos não terá de se conformar com nossa companhia. – Eu é que tinha minhas dúvidas de que você suportaria a minha companhia por muito tempo, sra. McCarthy. A confissão de Andreas atraiu o olhar de Naomi. Ele olhava para Hannah. – Já falei, é Andreas. Cada vez que você diz sr. Sarantos eu olho em volta procurando meu irmão mais velho. – Mas você deve se acostumar a ser chamado de sr. Sarantos também! – Sofro com isso desde que voltei para cá. Nova York não pode lidar com mais de um sr. Sarantos, aqui definitivamente é território dele. – Tudo bem, mas só se você me chamar de Hannah. – Isso é um alívio, Hannah. E lá estava Hannah, totalmente entregue à conversa de Andreas. O olhar se voltou para Naomi, que sentia como se sua roupa fosse uma lixa contra a pele, o ar parecia saído de uma fornalha. A recepção fria fez tudo piorar. – Caso esteja preparando novamente outra repreensão por eu estar aqui sem ser convidado, desta vez achei que estaria aqui quando bati na sua porta.


Como se ele não soubesse que ela trabalhava à tarde aos sábados. – Você poderia ter avisado. – Sua tentativa de sorrir era por amor a Hannah. – Pouparia a espera. – Se eu avisasse, não teria tido a oportunidade de provar o fantástico bolo de nozes que Hannah acabara de assar quando cheguei. E não teria conhecido o resto de sua família. Ele olhou para aqueles que vieram recebê-la. Loki e Thor se esfregavam em suas pernas, enquanto Dora batia em seus joelhos pedindo colo. Sentindo que desmaiaria, caso se abaixasse rapidamente, Naomi acariciou seus gatos, pegou Dora e afastou-se de Andreas para respirar. Ela ainda não conseguia parar de olhá-lo quando ele a observava com Dora. Seu olhar era enigmático. – Você deve estar faminta. Sua observação fez o sangue dela esquentar, ambos sabiam que não era uma insinuação. Apesar de ser direto, ele não era rude. Tinha necessidade de provocar as pessoas. Por mais que ultimamente a provocasse, ela duvidava que fizesse uma observação lasciva na frente de Hannah. Não era seu estilo. – Hannah disse que você chega a casa faminta, já que não lancha no trabalho. Colocando Dora no chão quando ela se contorceu, Naomi balançou a cabeça. – Hoje não estou. – O que é um alívio – pronunciou Hannah. – Ainda não comecei a preparar o jantar, com a companhia divertida do Andreas. – Andreas? Companhia divertida? Hannah levantou-se rapidamente. – Mas não importa. O jantar estará pronto em meia hora. – Ela virou-se para ele, com olhos esperançosos: – E é claro que você vai ficar! – Com uma condição. Claro, Andreas sempre tinha alguma. – Não vou ficar aqui esperando ser servido. Sou simplesmente incapaz de esperar. Naomi não poderia acusá-lo de mentiroso. Andreas era excessivamente autossuficiente. Embora sempre tivessem serviço de quarto, quando juntos


ele nunca a deixara nem mesmo servi-lo ou preparar uma xícara de café. Também nunca oferecera. – O que você tem em mente para o jantar, Hannah? – Ah, só salmão cozido, purê de batatas e fritada. O crème brûlée de sobremesa está pronto. Posso montar outro cardápio se nada disso for do seu agrado. – São minhas comidas favoritas. Ele não estava sendo educado, nunca se preocupava em ser, era verdade. Levantou-se, seguindo Hannah até a cozinha. Ela estava visivelmente muito feliz por tocá-lo do jeito que fazia com David, seu único filho entre quatro, sempre que ele vinha visitá-la. O resto da “família” de Naomi o seguia, gatos entrelaçados nas pernas e Dora determinada engatinhando atrás. E uma vez que ela ainda não fora consultada sobre o convite para jantar, e incapaz de fazer cena na presença dos outros, Naomi o seguiu a contragosto. Uma vez na cozinha, Dora escalou a perna dele, exigindo que a colocasse em sua cadeirinha. Ele olhou para ela como se fosse um dos gatos falando. Esperando que a ignorasse, Naomi ficou surpresa quando ele se abaixou com perfeita eficiência e atendeu ao pedido. Aparentemente satisfeita, Dora apontou para seus brinquedos alinhados na bancada de mármore. Desta vez, ele não atendeu, apenas a prendeu com um olhar hipnotizante. Rapidamente, o rosto do bebê fez uma expressão cativante. Naomi não podia acreditar. Dora pedia com jeitinho! Só então Andreas deu o que ela queria. Em seguida, ele abaixou-se e fitou-a diretamente nos olhos. – E agora eu vou cozinhar com sua mãe e babá. Você brinca até terminarmos. Naomi apostou que Dora entendera sua recusa em estar à sua disposição quando tinha outras coisas a fazer, e que era inegociável. Sorrindo para ele novamente, ficou ocupada com seus brinquedos. Aproximou-se de Hannah. – Eu vou cuidar do salmão. Acho que você vai ficar impressionada com meu tempero.


Com um sorriso, Hannah forneceu o peixe e todos os ingredientes. Saindo do transe em que caíra com a impossível visão de Andreas em sua cozinha, preparando o jantar, Naomi comunicou: – Eu faço as batatas. Andreas lançou-lhe um daqueles olhares mal-intencionados antes de voltar para a sua tarefa. – Isso é um corte perfeito de salmão. Kudos para quem escolheu. E você deve ter sentido que eu viria, Hannah, já que há o suficiente para todos. Para Dorothea, também, se ela já come esse tipo de comida. Feliz com o elogio, Hannah disse: – Dora come de tudo que comemos. Ela é a menos exigente de todos os bebês que já cuidei, e foram seis com ela. – Ouvi dizer que Naomi foi um deles. Como ela era? – De zero a dez, sendo Dora um deles? Nota zero. Nada lhe agradava, levamos mais de dois anos antes de conseguirmos fazê-la comer qualquer coisa não especificamente preparada para ela. – Agora eu como qualquer coisa, Hannah. – Ah, você deu trabalho, mas depois compensou tudo o que causou. Andreas a fitava, contemplativo. Devia ser difícil para ele imaginar ela ser especial em qualquer coisa. – Eu cresci em Creta, e nossa comida era basicamente frutos do mar, que nós mesmos pegávamos, mas nunca salmão, já que não existe no Mediterrâneo. Fui apresentado a ele aqui, e viciei, agora não como nenhuma outra proteína animal. – Por idealismo ou saúde? – perguntou Hannah. – Não sei dizer. Não podíamos comprar carne ou aves. Quando provei pela primeira vez aqui, aos 16 anos, simplesmente não gostei. As mãos de Naomi tremiam descascando as batatas. Ela percebera que ele nunca comia essas coisas, mas nunca indagara por quê. Ele nunca dava respostas diretas, então ela parara de questionar. Mas lá estava ele, dando informações sobre o seu passado pela primeira vez. Ela sabia pelo passado de Aristedes e do ligeiro sotaque grego de Andreas, que ele passara sua infância em Creta. Não tinha ideia exatamente de quando ele viera para os Estados Unidos, agora sabia e que


fora por causa da miséria. Isso deve ter provocado inúmeras dificuldades e incertezas. Era impossível imaginar Andreas como um menino pobre e impotente. Talvez por isso fosse invulnerável e autossuficiente. Ela conteve uma onda de simpatia, e se manteve distante enquanto preparava sua parte. Ele também não tentou invadir seu espaço. Não se aproveitou para se esfregar nela ou tocá-la, embora enquanto se movimentassem pela cozinha isso acontecesse. Cada vez que acontecia, ela prendia o fôlego, mas ele não se aproveitou. Mesmo com a indiferença aumentando sua frustração, ela ficou impressionada com a facilidade e eficiência com que trabalharam juntos. Era como se fizessem aquilo todos os dias. Quando a comida ficou pronta, ele pôs a mesa enquanto ela alimentava Dora e Hannah fazia a limpeza. Sentaram-se na cozinha, já que ele insistira em manter seus hábitos. Naomi provou o salmão e mais uma vez se surpreendeu. Era o melhor que já comera. Seu tempero realçou o sabor natural do peixe, ela ficou ansiosa pela próxima mordida de sabores complexos e incríveis. Quando ela e Hannah disseram isso, ele se limitou a aceitar o elogio, sem uma demonstração de prazer ou modéstia. Ele sabia que era bom. Precisava ser superlativo em tudo, não é? Mas o que deixou Naomi boquiaberta foi que ele era divertido. Agora que estava conversando, e não apenas remoendo, destilando e dando respostas curtas, ele era espirituoso, às vezes até engraçado. A estranheza da situação era só o que a impedia de se envolver completamente, demonstrando o efeito que sua sagacidade e graça tinham sobre ela. Em determinado instante, quando contou histórias sobre sua infância, ele confessou: – Eu mal convivi com meu pai, cresci considerando Aristedes meu pai, a quem eu não considerava só como modelo. Meu irmão Leonidas ainda era adolescente na época. Então, um dia, eu quis um vestido como minhas irmãs. Eu me sentia discriminado usando apenas short e calça. Então minha mãe deu a notícia de que eu não poderia usar um vestido, porque eu era um menino. Você não imagina o meu choque.


Naomi não conseguiu segurar, desatou a rir. Aquele homem másculo sentado ali admitindo pensar que era menina e que ficou cabisbaixo quando descobriu a verdade era hilariante. Ele lançou-lhe um olhar sofrido. – Pode rir, minhas irmãs uivaram por dias. E por todas as fases que passei depois da revelação fantástica, a diversão aumentou. – Quais as fases? – As normais, negação, raiva e depois a negociação. – Negociação? – Eu tinha certeza de que podia fazer algo para mudar a situação, ou revertê-la. – Em seus acessos de riso, ele suspirou simulando desespero. – Você pode rir agora, mas eu fiquei arrasado, me senti traído quando descobri que era irreversível. Felizmente para ela, ou infelizmente. Sua masculinidade lhe custara seis anos e, provavelmente, a atormentaria pelo resto da vida. – Você devia ser muito novo. – Seis anos. Levei um ano para aceitar o meu destino terrível. Depois disso, a conversa fluiu espontânea e agradavelmente. Hannah contribuiu pouco, observando-os com evidente prazer, entretendo Dora durante toda a refeição. Sua presença parecia tão natural conversando daquela maneira que Naomi precisava relembrar que era realmente Andreas, o homem que a calara durante toda a relação, que nunca demonstrara qualquer facilidade e singeleza oferecida agora tão facilmente. No final da refeição, foi difícil aceitar que seu companheiro de jantar e Andreas fossem a mesma pessoa. Aquele era o verdadeiro Andreas? Se fosse, o que manteve esta pessoa maravilhosa adormecida todos esses anos? O que o despertou? Não podia ser ela, pois nunca desvendara antes essa sua faceta. As coisas só pioraram, ela precisou lutar contra a vontade de colocar a mão dele em seu rosto, seios doloridos, ou recostar a cabeça em seu peito. Por seu olhar, supôs que ele percebera tudo e optara por não responder. Depois de uma breve calmaria quando Hannah se levantou para pegar a sobremesa, Naomi disse: – Eu pensei que você tivesse deixado a cidade. Soou como uma acusação para seu gosto.


As emoções contraditórias a dividiam. Ela queria que ele fosse embora por amor a Dora, mas quando pensava que ele saíra sem dizer uma palavra depois da noite que tiveram, era como um tiro no peito. Ele agradeceu a Hannah, enquanto ela servia o crème brûlée, então falou: – Fico por um tempo. Consciente da curiosidade despertada em Hannah, Naomi mudou o tom da voz. – Por quanto tempo? – Depende. – De quê? – De quando vou concluir o negócio que eu tenho aqui. – E se você não concluir? – Eu vou lidar com as possibilidades que surgirem. Meus planos são maleáveis. Assim como ela perto dele. Depois disso, ela o deixou envolvê-la com seu falatório, conquanto fosse mais difícil concentrar-se. Depois, foram tomar café na sala. Os gatos correram para subir no colo dele, logo que se sentou, mas Dora insistiu em expulsá-los e substituí-los. Como a consideravam o bebê da família, já que eram felinos velhos e sábios, eles se mudaram. Andreas deixou o bebê explorá-lo, nem ajudando nem dificultando. Logo ela tornou impossível para ele continuar sua conversa com Naomi, exigindo sua atenção, agarrando seu celular, fivela de cinto e qualquer coisa que ele segurasse. Ela chorou quando ele recusou-se a ceder à sua vontade. Ele fez aquilo sem irritação. Naomi interrogou-se como, já que Dora estava sendo muito irritante. O que provavelmente era algo bom, ela pensou, uma vez que lhe daria um gostinho de como seria se ele assumisse a responsabilidade por ela, mesmo que não fosse seu principal cuidador. Mas se não demonstrou irritação, também não demonstrou carinho por Dora, com sua recusa em deixá-la utilizá-lo como seu mordedor, ou brinquedo predileto. A última arte de Dora, tentando descobrir se o cabelo no peito dele


A última arte de Dora, tentando descobrir se o cabelo no peito dele estava preso, fez as coisas tomarem um rumo diferente. Quando ele a deteve cuidadosamente, o bebe fez beicinho. – Você é uma baixinha teimosa, não é? Para completar, seu queixo estremeceu, seus olhos encheram-se de lágrimas. – E uma manipuladora grau A, também. Dora lançou-se novamente na camisa aberta em busca de sua experiência interrompida, fazendo Naomi apressar-se em pegá-la. Andreas levantou a mão, interrompendo. Sentando-se, ela se coçava para acabar com aquilo, já que Dora começou a soluçar frustrada enquanto ele segurava suas mãos rechonchudas. Prestes a tirá-lo dele, não havia nada que Naomi pudesse fazer senão esperar e ver como ele resolveria aquilo. Não tinha esperança de que fosse de qualquer modo adequado a um bebê. Com ambos ignorando completamente sua presença, eles se entreolharam, os olhos indignados de Dora estavam cheios de lágrimas, os dele, ainda inflexíveis. Em seguida, com voz muito calma, como se estivesse contando um segredo, ele informou: – É assim que vai ser, Dorothea. Este é o meu cabelo, e fica no meu peito. Não fique triste por não conseguir algo impossível, mas eu prometo, quando quiser algo possível, eu deixo. Que tal? E maravilha das maravilhas, a expressão chorosa no rosto de Dora desapareceu quando ele calmamente discutiu a situação com ela como faria com um adulto. Então, parecendo aceitar suas condições inegociáveis, ela deu um grito de alegria, como se não tivesse agitada antes, e esfregou seu rosto no dele. Andreas não fez nenhuma tentativa de abraçá-la, como qualquer outra pessoa faria, mas não impediu-a. Momentos depois, ela levantou a cabeça com um sorriso, em seguida, desceu do seu colo e foi brincar. Embora a situação fosse calmamente resolvida sem sua intervenção, Naomi sentiu-se obrigada a dizer alguma coisa. – Desculpe por isso. Ela normalmente não é tão teimosa. Deve ser a novidade de ter alguém que não seja Hannah ou eu, ainda mais um


homem. Seu olhar reconheceu que o único homem que fora presença constante em sua vida, Petros, fora tirado dela quando era muito nova. Ela o esquecera ou realmente não formara quaisquer lembranças dele. Andreas ficou pensativo. – Ela não vê homens? – Nenhum como você. Ele não fez comentários. – Eu acho que ela estava testando seus limites, já que você é uma pessoa nova e totalmente diferente. Ela já sabe seus limites com a gente. – Você tem certeza de que ela tem algum? Você e Hannah satisfazem todas às suas necessidades e caprichos. Essa é a razão pela qual ela é pouco exigente. Você não deixa. – Você está dizendo que estamos mimando ela? – Recolha suas garras, leoa mãe. Não critico seus métodos de criação, só observo. Como alguém novo por aqui, enxergo o que você não consegue porque está muito acostumada com a dinâmica da família e suas regras. Mas eu acho que há um risco de estarem mimando sim, caso ela cresça percebendo que é o centro de seu universo e de Hannah. – Tenho certeza de que você tem uma sugestão para corrigir isso. – Nenhuma. Deve ser quase impossível olhar para alguém deste tamanho, tão dependente de você, e ser objetivo. Considerando-se a situação, também, é compreensível vocês estarem tentando compensá-la, e talvez acabem exagerando. – Então o que você está dizendo é que não sou boa mãe. Ela esperava que ele argumentasse: “você não é mãe dela”, ou algo nesse sentido, mas ele novamente surpreendeu. – Eu não faço ideia de que tipo de mãe você é, Naomi. Estive aqui algumas horas e Dorothea se concentrou em mim. Eu tive apenas impressões fugazes de seu relacionamento que podem estar erradas observando mais de perto. Mas espero que você seja tão eficiente neste papel como em todo o resto. Eu só quero entender se sua tendência superprodutiva não poderia ser mais bem aplicada aqui. – Eu sou uma perfeccionista? – Certamente, e isso é algo para se orgulhar em sua vida profissional.


– Certamente, e isso é algo para se orgulhar em sua vida profissional. Por outro lado, com Dorothea, pode fazer ela ficar... – Mimada? – É provável, e seria compreensível. Dito isso, se você diz que ela é pouco exigente em geral, eu vou acreditar, pois ela respondeu logo à minha recusa em satisfazer seu capricho. Naomi mordeu a língua, para não admitir que ele é quem resolvera a situação amigavelmente. Ainda assim, ela sentiu a necessidade de explicar o caráter de Dora. – Ela é muito curiosa, às vezes, mas não são os caprichos que a fazem teimosa. Ela fica muito interessada nas coisas, em como funcionam, do que são feitas. Pirralhos teimosos muitas vezes perdem o interesse assim que recebem o que querem, mas uma vez que você dá a Dora que ela pediu, ela senta-se e examina por horas. Todos seus brinquedos favoritos são coisas da casa que ela pediu, e nunca perdeu o interesse por eles. Na verdade, ela continua encontrando novas utilidades, isoladamente ou em conjunto. – Parece que temos um inventor em nossas mãos. Que pena que ela se interessou por coisas que eu não podia dar. Meu telefone e cinto eu poderia negociar, mas cabelo do peito permanece tabu. Naomi sorriu, fazendo sua tensão defensiva desaparecer. Embora ele não sorrisse de volta, uma doçura surgiu em seu olhar melhor do que qualquer sorriso. Instantes de silêncio se seguiram quando Hannah veio da cozinha e Dora e os gatos pediram colo dele novamente. Com um aceno consentindo, recostou-se como um leão deixando as crianças felizes com o acesso livre a seu enorme corpo. Dora estava agora mais comportada. Andreas deixou-os explorar todo seu corpo que era duas vezes maior que o das mulheres a que estavam habituados, e muito diferente também. No meio da brincadeira, às oito em ponto, Dora enroscou-se em seu peito e logo adormeceu. Andreas olhava para ela como se tivesse uma granada no colo. Naomi levantou-se para pegá-la, e ele a interrompeu com um sussurro. – Ela se parece muito com Petros. Com um nó na garganta, Naomi concordou.


– Sim, apenas com os olhos de Nadine. Longos momentos se passaram antes que ele finalmente falasse. – Se ela for parecida com ele por dentro, vai ser um anjo. Seu coração se encheu demais para responder, então Naomi apenas aproximou-se de Dora. Ele não fez nenhum movimento para ajudar quando ela pegou-a, e nem se ofereceu para acompanhá-la quando colocou-a na cama. Quando Naomi voltou, Andreas voltou seu olhar de Hannah para ela. – Você deve estar cansada também. Hannah disse que acorda cedo com Dora, tornando seus dias mais longos. – Eu não sei Naomi, mas eu estou – alegou Hannah abafando um bocejo. Andreas levantou-se rápido, fazendo Naomi piscar. Ele nunca se levantara para ser gentil. Mas ela não o observara em relação a outros, certamente nunca com uma senhora mais velha. Talvez fosse seu sangue grego falando mais alto. Ele apertou a mão de Hannah, e mais uma vez agradeceu sua hospitalidade e por compartilhar sua cozinha com ele. Hannah quase desmaiou quando assegurou que o prazer era definitivamente dela. Trocou olhares brevemente com Naomi quando levantou-se para o beijo de despedida. Ficou claro que a mulher pensava que Andreas era um deus e que seria sorte de Naomi se ele estivesse interessado nela. Hannah faria qualquer coisa para facilitar esse interesse. Como fingir ser incapaz de manter os olhos abertos para que Andreas ficasse a sós com Naomi antes que fosse embora. Assim que ela desapareceu, Naomi virou-se para Andreas. A sós com ele pela primeira vez naquela noite, ela não podia mais esperar por tudo que morria de vontade de saber. Por que ele viera? Por que se comportara daquela forma durante toda a noite? O que decidira? E o mais importante de tudo, o que ele faria naquele instante? Ele contornou a mesa de centro, aproximando-se dela. – Obrigado por esta noite, Naomi. Ela ficou esperando ele tocá-la.


Mas ele não tocou, foi em outra direção, estava no meio da sala quando ela percebeu que estava indo embora. Será que ele queria que ela corresse atrás dele, pedindo que ficasse? Seria seu troco por ela ter pedido para que desaparecesse? Era melhor ele não se acostumar, mas ela não tinha escolha senão se curvar aos seus desejos. Ele ainda precisava contar sua decisão. Foi atrás dele, alcançando-o na porta. Ele virou-se após abri-la, e parecia diferente dos últimos momentos na suíte. Seu olhar era indefinido. O sangue dela fervia a cada centímetro mais perto, buscando seu toque, implorando seu consolo. Caso a beijasse, o que ela faria? Ele apenas proferiu: – Kalinychta, Naomi. – E saiu. Incapaz de acreditar que ele acabara de dizer boa noite e fora embora, ela curvou-se, apoiando-se na porta. Seu olhar sofrido fixou-se nele enquanto ele se afastava, desejando que se virasse para que ela pudesse mostrar que queria que voltasse, a levasse para a cama e acabasse com aquela tortura. Ele prosseguiu, contornando o elevador dirigindo-se para a escada. Em segundos, ela ouviu seus passos firmes nos degraus de mármore desaparecerem. Com o coração batendo, trêmula, fechou a porta e apoiou-se nela, decepcionada. Ele se fora, mas voltaria? Se não esta noite, quando? ANDREAS NÃO voltou. Após alguns dias de ausência e silêncio, a suspeita começou a se diluir em sua mente. Mais dias se passaram, e não conseguia encontrar qualquer outra explicação. Aquela noite deve ter sido um teste para ver se ele suportaria tê-las por perto, e descobrira que não. A noite que compartilharam reacendeu seu desejo por ele. Ele encerrara a questão de sexo exclusivo quando ela se afastara abruptamente. Agora, ele não tinha mais utilidade para ela. E decidira deixar Dora e ela em paz. Mentalmente, ela sabia que deveria sentir-se aliviada, que Dora estava


Mentalmente, ela sabia que deveria sentir-se aliviada, que Dora estava segura. Mas estava decepcionada. Ela não estava só decepcionada, estava arrasada, era como se o perdesse novamente, mas ainda pior desta vez. Ele mostrara um pouco do que ela sonhara desde que o vira pela primeira vez, o Andreas homem, companheiro, não só o amante e devorador. Ela ansiava por mais proximidade, alegria e espontaneidade daquela noite mágica. Ele só se afastou depois de ter lançado o veneno da saudade lenta mais uma vez. Mais potente desta vez, já que mostrara que o que ela desejava não era miragem, poderia ser real, e era, mas nunca seria seu. Nem ele.


CAPÍTULO 8

– ACHEI QUE não viesse mais. Naomi estremeceu com a franqueza de Selene. Não podia dizer que estava atrasada por ter cogitado não vir. Levara toda a manhã para tomar coragem de colocar Hannah e Dora no carro e ir até Manhattan Beach. Não que Andreas tivesse levado em conta seu pavor de ver a família Sarantos na reunião que Selene e Aristedes a convidaram. Era uma reunião de “família”, aquela com a qual ele não tinha relações. Ela acabou indo, por amor a Dora. Aristedes mencionara que todos consideravam Petros como irmão, não importava como Naomi sentisse, ela faria qualquer coisa para dar tios e tias que se importassem com Dora e crianças de sua idade para conviver. Selene deu o braço a ela depois que a beijou e cumprimentou Hannah e Dora. – Não vamos perder tempo, todos estão morrendo de vontade de conhecer vocês. Entrar na casa na orla era como entrar em um túnel e desembarcar em Creta. As influências gregas se sobressaíam em todo o lugar, apesar dos toques ultramodernos. Era compreensível, uma vez que Aristedes e Selena eram gregos. Era suntuoso, mas despretensioso, espaçoso sem ostentação, uma prova do bom gosto e das preferências de quem a construíra. Enquanto poderiam pagar algo mil vezes mais luxuoso, ele e sua esposa só se preocuparam com conforto, privacidade, segurança e uns com os outros. Naomi só parou de apreciar quando viu a família Sarantos toda vindo


Naomi só parou de apreciar quando viu a família Sarantos toda vindo encontrá-la. Quatro irmãs, seus maridos e filhos, e mais algumas pessoas próximas, ela mal conseguia lidar com tantas apresentações e novos rostos. Os únicos que se destacaram foram Caliope e seu marido russo, Maksim Volkov, um dos maiores magnatas do aço. Com irmãos como Aristedes e Andreas, Caliope só poderia ter se apaixonado por alguém poderoso. Subitamente, o coração de Naomi parou na boca. Passeando no terraço, emoldurado pela deslumbrante vista do Atlântico, estava Andreas. As vozes se exaltaram quando ele se aproximou, sem falar nas repreensões por ter chegado atrasado para receber Naomi e os outros. – Naomi, Hannah. – Foi o resumo da recepção, antes que olhasse para Dora, que deixara seus novos amigos e engatinhara correndo até ele. Ele a deixou alcançá-lo, segurar-se na perna dele, e somente quando deu um sorriso bem simpático, cedeu e pegou-a. As vozes elevaram-se, alguns dizendo que o mundo acabaria, outros reclamando que ele não dera a seus filhos tal privilégio. Andreas deu a todos um olhar sereno quando Dora acariciou seu pescoço. – Eu não peguei Dorothea no colo, ela me obrigou. Não viram aquele olhar e sorriso? Perguntem a Naomi. Esta criança é uma especialista em conseguir tudo o que vê, e ela queria ver como é aqui em cima. Eu não ofereço colo, só quando seus filhos pedirem como Dorothea. Todos riram e implicaram com ele por transformar-se em um enorme brinquedo. Naomi sabia que não era verdade, se Dora exigisse, não a pegaria, ele a educara em um único encontro. Andreas nunca daria o primeiro passo ou responderia às abordagens, até que estivessem de acordo com suas condições. Depois de fazer contato com Andreas, Dora pediu para descer do colo e juntar-se às crianças. Pareciam deixar Naomi a sós com Andreas de propósito. Quando ficaram sozinhos, ele informou que voltaria para o terraço. Ela o seguiu, porque queria cortá-lo em pedaços. Ele apoiou-se na balaustrada, o vento despenteando seu cabelo, o olhar fixo no horizonte quando ela se aproximou.


Olhando para trás, certificando-se de que ninguém os escutaria, ela fixou o olhar no mesmo ponto. – O que está fazendo aqui? – Neste exato momento? Olhando para o mar. Ela virou-se para ele, encontrou-o rindo, parecendo pensar que ela retribuiria. Ela não achou engraçado. Os últimos dez dias não tinham explicação, ele viera, vira, conquistara e desaparecera. Quando ela se resignara que nunca mais o veria, encontrou-o lá. E não via nenhuma boa razão para aquilo. – Que tal uma resposta verdadeira? Ele ficou intrigado. – Qual é a sua teoria sobre minha presença? Deve ter alguma. – Só uma, está brincando comigo. – Como e por que eu faria isso? A seriedade repentina no olhar esvaziou as acusações. Ela entendera tudo errado novamente? Será que ele só decidira visitar sua família e não tinha nada a ver com ela? O terrível era que fazia sentido. Sem outra palavra ou olhar, ela entrou, desejando poder simplesmente ir embora com Dora e Hannah. Deus, por que viera? Deveria apenas ter protegido o que tinham e nunca desejado mais, nem mesmo para Dora. Toda a exposição à família – e a ele, agora que ele colocara na cabeça que as veria – a prejudicaria. Mais sofrimento a marcaria para sempre. Sua intuição avisou que Andreas se aproximava. Ela apressou o passo, procurando por companhia. Antes que ele a alcançasse, encontrou-se com Caliope, que acabara de afastar-se de uma das irmãs mais velhas. Caliope deu um sorriso radiante, parando e forçando sua parada. – Já voltou? Está tão frio lá quanto parece? – Seus olhos azuis passaram por cima da cabeça de Naomi. – Ou outra razão a fez voltar tão rápido? – Tanta criatividade para me chamar de frio, Cali? – Andreas alfinetou. – Frio não, meu querido irmão, gelado. – Outra mentira, já que eu não sou seu irmão mais querido. Sabemos que estou no fim da lista de afetos por aqui.


Caliope riu, sem contradizê-lo, mas era evidente que gostava muito dele. Andreas fazia as pessoas amá-lo sem fazer nada, mas fazia de tudo para que o odiassem. – É apenas falta de contato. Apareça e você subirá na lista e logo chegará no topo. – Só preciso disso? Posso providenciar. Os olhos de Caliope se arregalaram. – Sério? – Sem aviso, ela pulou em seu pescoço. – Ah, sim, por favor, Andreas. Era provavelmente a primeira vez que Caliope o abraçava. Então, como se fosse um pacote abandonado prestes a explodir, lentamente ele abraçou a irmã. Gritando de felicidade, Caliope o beijou. Evidentemente, as coisas foram longe demais, Andreas a soltou e se aprumou. Sabendo que conseguira mais do que esperava, Caliope largou-o com um suspiro de felicidade. – Cara, mal posso acreditar em sua promessa de nos vermos mais. Você foi ao meu casamento também. Eu já falei o quanto isso significou para mim? – Umas mil vezes. – Ah, eu pensei que fossem dez mil. – Quatro, foram as vezes que me telefonou desde então. – Você conta os telefonemas das pessoas? – Só os seus e de Aristedes. Ele sempre tem algo terrível para contar, você, Mikrá Cali, eu temo ainda mais. Caliope riu novamente, virando-se para Naomi. – Eu pareço pequena para você? Isso lhe dá uma ideia de quando foi a última vez que Andreas me viu. – Ela virou-se para o irmão. – E o que era tão terrível nos telefonemas? Eu só atualizava sobre onde cada um de nós estava caso pudesse aparecer. – Tenho medo de seus esforços para me mudar. Caliope olhou para Naomi com um sorriso conspiratório. – Eu acho que eu posso deixar isso com você, não acha? Significava que Naomi teria de tentar mudá-lo?


Se Caliope soubesse... Ela não estava disposta a corrigir suas suposições. Tudo o que ela queria era fugir da cena de reintegração familiar, e de Andreas, até que pudesse ir embora. Não se aproximaria nunca mais de qualquer Sarantos. Andreas a fitava como se esperasse a resposta de sua irmã, antes de voltar sua atenção para Caliope quando ela estremeceu e começou a acariciar a barriga. – Você está bem? – Ah, são apenas exercícios acrobáticos diários de Tatjana. – Ela já tem nome? – Nós decidimos Tatjana Anastasia, como a mãe e irmã de Maksim. – Estava linda em seu casamento, mas floresceu desde então. Só pode ter sido a vida de casada que fez bem a você. Após alguns contratempos. – Maksim tem sido fenomenal para mim. E os contratempos só melhoraram as coisas. – Fenomenal? Maksim deve ser algum tipo de ser sobrenatural. – Ele é. – Fico feliz em saber que casou com um super-herói. Pode vir a calhar. – Você devia experimentar, sabia? – Maksim ou contratempos? Alfinetando ainda mais e às gargalhadas, Caliope lançou um olhar devorador para o marido, que a olhava da mesma forma, mesmo enquanto falava com a irmã Melina. Era impossível ver os dois juntos, assim como Selene e Aristedes, e não ser tocado pela intensidade das emoções que compartilhavam, mas parecia existir algo extra entre Caliope e Maksim. De acordo com Selene, foram ao inferno e voltaram juntos, e evidentemente isso os uniu, felicidade mais sublime não existia. Maksim olhou para seu filho, Leo, e o coração de Caliope disparou como se seus corações batessem juntos. A forma como olhou para Caliope fez Naomi se arrepiar, era amor demais. Ainda rindo, Caliope disse: – Desculpe, Maksim é para esta vida e as próximas. Você vai ter seus próprios contratempos com sua alma gêmea. Naomi desviou o olhar de Caliope, que desviou para ela, apenas para encontrar seus olhos se cruzando com os de Andreas.


Lentamente, desviando-se de seu olhar, ele virou-se para sua irmã. – Não preciso primeiro ter uma alma? – Ah, você tem em algum lugar. Mesmo que esteja empoeirada. Tudo o que precisamos fazer é limpá-la. – Contanto que você deixe comigo e não force com seus métodos. Depois disso, os comentários diretos de Caliope forçaram Naomi a participar da conversa, até que Hannah chamou-a, felizmente, para informar de que iria com Dora para a piscina. Depois, contando os segundos até que pudesse ir embora, Naomi tentou corresponder às boas-vindas de todos, retribuindo o interesse. Era como se todos os presentes a considerassem da família. O que só tornou sua decisão de não vê-los mais difícil. Algo tornou mais fácil esquecer seu tormento: o rico espetáculo familiar se desenrolando diante de seus olhos. Compartilhavam complexas relações e emoções, foi fascinante vê-los interagir. Com a morte de seu pai quando tinha 5 anos, apenas um ano depois de Nadine nascer, e crescendo apenas com a mãe, filha única, tendo Hannah como família, Naomi nunca conhecera uma família grande. A parte mais interessante para ela era quando as reações e interações envolviam Andreas. Ficou claro que o amavam, mesmo que não soubessem por quê. Era igualmente evidente que não sabiam o que fazer com sua presença incomum. Tinha fascínio por observar Andreas. Embora não fosse evidente, começou a acreditar que ele realmente se preocupava com eles, especialmente com Aristedes e Caliope. Naomi encontrou-se com Caliope novamente. Desta vez, ela contou a história do início da vida em Creta, principalmente sobre a relação doentia dos pais. Seu pai era um sedutor, entrava e saía da vida da mãe, cada vez aumentando a prole e tirando tudo o que tinha, antes de desaparecer novamente. Quando desapareceu, Caliope ainda não nascera, deixando sua mãe de coração partido e sem vontade de viver. Isso fez com que Naomi olhasse Andreas sob um novo ângulo. Teria ele herdado a falta de sentimento do pai? Os outros pareciam incólumes aos genes. Aristedes parecia ter emoções em abundância, e


Caliope contara que seu falecido irmão, Leonidas, fora o homem mais amoroso do mundo. Seria Andreas o único premiado com o terrível legado do pai? A partir de então, Naomi observou-o mais de perto. Sempre que o encontrava, ele desaparecia por um tempo antes de reaparecer novamente ao acaso. Ela se indagou se ela só imaginara ou ele se importava com a família? Como naquela noite em seu apartamento, ele não fez nenhum esforço para ficar a sós com ela. Caso fosse necessária alguma confirmação de sua conclusão anterior, aí estava. Ele já não a desejava. Por um lado era doloroso, mas pelo menos Dora estava segura. No final da noite, quando todos a beijaram, fez promessas que sabia que não cumpriria, Andreas afastou-se só para observá-la com sua família. Hannah saiu na frente para colocar Dora dormindo na cadeirinha. Afastando-se após despedir-se de todos, Naomi correu atrás dela. Ela queria acabar com aquilo, naquele instante. Estava quase na porta quando encontrou Andreas. – Você se divertiu hoje? A um passo das lágrimas, ela balançou a cabeça, sem levantar os olhos. – Acho que Dorothea e Hannah também. Deus, agora ela sabia como um rato se sentia atormentado por um felino. – Todos adoraram ter vocês aqui. Ela quase gritou: – Todos, menos você. E o que você quer agora? Com certeza não sou eu. Mas em voz alta não pronunciou nada, concentrou-se contando os passos até chegar ao carro. Ele a acompanhou até que entrasse, manteve a porta aberta antes que pudesse batê-la. – Eu ia amanhã à sua casa, mas pensei que não gostaria, já que não é chegada a surpresas. Furiosa era pouco. – Ou a pessoas que aparecem sem me consultar. – Estou consultando agora.


– Você está me informando. Seu olhar ficou confuso outra vez, como se ele não tivesse ideia por que ela estava tão irritada com ele. – Posso ir amanhã, Naomi? Em voz alta, ela só conseguiu dizer: – Não. Então tirou a porta de sua mão. Ele ficou lá enquanto ela ligava o carro e se afastava devagar. Chegou a casa uma hora depois, colocou Dora na cama e fez seus rituais noturnos. Depois, se enfiou nas cobertas e finalmente deixou as lágrimas caírem.


CAPÍTULO 9

NAOMI ACORDOU com o travesseiro encharcado. A primeira coisa que fez foi socá-lo. Como devia ter feito com Andreas há muito tempo. E quando a oportunidade apareceu, o que fez? Algumas batidas no peito e umas bofetadas. O ogro ainda devia estar às gargalhadas. Pulando da cama, decidida a deixar ele e qualquer pensamento sobre ele para trás, fez sua rotina matinal antes que Dora acordasse. Embora fosse improvável a julgar pela respiração na babá eletrônica. Brincar sem parar com tantas crianças no dia anterior a deixara exausta. Naomi acabara de fazer o café quando a campainha tocou. Pensando que era do supermercado, correu para a porta. Deu uma olhada no olho mágico e recuou. Andreas. Olhou novamente. Porque não era só Andreas. Outra olhada confirmou. Andreas? Trazendo flores? E não apenas flores. Era um buquê quase do seu tamanho, com todo tipo de flor dourada, com caules e folhas tingidos de turquesa. Sua cabeça girava. Será que ele era como o pai? Voltaria, em seguida desapareceria, em uma interminável ciranda, até que a destruísse? Ela achava que não. Poderia ter sido vítima de seu desejo até agora, não mais. Ela falou alto o suficiente para que ele a ouvisse através da porta. – Vá embora, Andreas.


– Não. – Então vai ficar aí. – Vou ficar aqui até você precisar sair. – Não vou sair durante todo fim de semana. – Então é o tempo que vou ficar aqui. E o pior? Ela acreditava naquilo. – Ainda assim não vou falar com você. – Está falando comigo agora. Poderia muito bem dizer algo construtivo. – Aqui está uma coisa construtiva. Sou alérgica a flores. – Não, você não é. – Sou alérgica a você. – Aparentemente eu provoco reações inexplicáveis em você. – Ah, essas reações são muito explicáveis. – Não para mim. Esclareça. – Olha, isso é bobagem. – A primeira coisa que concordamos hoje. – Aristedes planejou isso? Selene ou Caliope que aconselharam as flores? Provavelmente uma decisão da comissão, especialmente com este buquê, que imita minha cor. – Posso entender seu ceticismo, mas não, as flores e as cores foram ideia minha. Aposto que os outros não teriam sugerido algo que você achou tão especial. Pode parecer ridículo, pensei que flores dariam uma abertura no impasse inexplicável que chegamos ontem, ou uma trégua nessa guerra que você recomeçou sem nenhum motivo aparente. – Em que mundo você vive? Você não vê nenhuma razão? – Nenhuma. – Que tal eu não estar à sua disposição para sumir e depois voltar, fingindo que nada aconteceu? – Eu não sumi. – Como chama o que fez três dias depois de se encontrar com Aristedes? – Você quer dizer depois que Aristedes me intimou a recuar. Eu chamo de dando um tempo para você se acalmar. – Acalmar? Enquanto eu estava louca para saber o resultado da reunião, saber o que decidiu? – Pensei que você não gostaria de ouvir diretamente de mim, e que


– Pensei que você não gostaria de ouvir diretamente de mim, e que Aristedes contaria. – Como poderia? Ele também não sabia. Então você veio, passou toda a noite com a gente e não falou uma palavra. Depois desapareceu novamente por uma semana. E a outra vez que nos vimos foi por acaso. E você ainda não disse nada! – Não foi por acaso. – E pensar que achei que não estivesse brincando comigo. – Por que pensou isso? Quando brinquei com você? – Esse é o eufemismo que encontrei com a manipulação a que me expôs desde que voltou. – Como manipulação? Eu garanti que reivindicaria Dorothea, não que a tomaria de você. Ele dissera “reivindicar” não “tomar”. Mas o resto... Subitamente, tudo ficou emaranhado como as bolas de tricô de Hannah depois das brincadeiras de Loki e Thor. – Quanto à segunda reclamação sobre meu desaparecimento, levou muito tempo para organizar esse evento de família. Ela escancarou a porta. – O quê? Ela ficou zonza com a visão. Ele ficou ali, pernas afastadas como se estivesse se preparando para uma luta, segurava o buquê gigantesco com uma das mãos. Estava fantástico. Embora olhando mais de perto parecesse abatido. Seria o mesmo terno do dia anterior? – Posso entrar agora? – Argumentou isso para poder entrar? – Tenho muitos vícios, Naomi, mas mentir não é um deles. Ele estava certo. Ela não sabia de mais nada. Irritada, se afastou. Ficou mais irritada quando ele passou por ela com a sobrancelha levantada. – Sem comentários sobre a minha falta de graciosidade? – Eu não sonharia com isso. Agora sei como suas garras são afiadas, e preciso dos meus olhos onde estão. Ele se dirigiu para a sala, largou o buquê, parecendo decepcionado, e


Ele se dirigiu para a sala, largou o buquê, parecendo decepcionado, e logo em seguida ansioso. – Por que Dorothea ainda não acordou? – Ela está apenas descansando do esforço incomum de ontem. Ele não parecia convencido. – Hannah disse que ela acorda, mais tardar às seis, são nove. Ela passou muito tempo no sol e na piscina, talvez demais e não esteja bem. – Como sabe disso? – Eu fiquei com ela a maior parte do tempo. Por isso que ele desaparecia o tempo todo. A ansiedade explodiu dentro dela. Deixara Dora aos cuidados de Hannah, nunca duvidando que ela saberia seu limite, mas, e se a respiração de Dora estivesse muito profunda? Ela poderia estar com insolação? Poderia estar queimando... Naomi correu para o quarto, sentindo Andreas logo atrás. Parando na porta, abriu-a com todo o cuidado, voltando-se para Andreas fazer silêncio. Ele balançou a cabeça, seguiu para o berço de Dora. O coração de Naomi disparou quando se curvou para pressionar sua bochecha na testa dela. Toda a tensão desapareceu. Estava mais fria do que a dela. Antes que pudesse olhar para Andreas, ele se abaixou. Ela perdeu o fôlego, quando percebeu que ele foi incapaz de esperar para saber se Dora estava bem, checou sua temperatura também. Assim que sua mão enorme tocou a bochecha do bebê, ela balbuciou algo contente pegando sua mão ao virar-se. Eles acabaram ali, debruçados, ambos presos com a mão debaixo da bochecha de Dora. – Será que ela vai acordar se eu tirar minha mão? – Seu sussurro fez cócegas no ouvido de Naomi. – Ela precisa acordar logo, de qualquer maneira. – Prefiro não acordá-la. – É melhor acordá-la. Dormir demais vai bagunçar sua rotina. – Nesse caso, vá em frente. – Primeiro puxe a mão, vamos ver o que acontece. Ele tentou, mas Dora apenas choramingou e agarrou-se a ele. – Tanta coisa para isso. Vamos ser mais diretos – murmurou Naomi.


– Tanta coisa para isso. Vamos ser mais diretos – murmurou Naomi. Ele a deteve, quando ela aproximou-se de Dora, abraçando-a. Ela desmoronou quando virou-se e o viu olhando para Dora, com expressão emocionada. – Ela parece dormir tão feliz. Ele não teve coragem de acordar Dora. Andreas agora tinha coração? Abalada com a ideia, Naomi aumentou a voz decidindo que Dora deveria acordar. – Você não vai se lembrar disso depois e se lamentar quando ela estiver irritada porque está cansada e não consegue dormir porque a deixou dormir demais. Ele fez uma careta, pediu desculpas em grego, e retirou a mão do braço de Dora suavemente. Dora protestou e virou-se de costas, revirando os olhos. Naomi ouviu Andreas suspirar. Esquecendo as preocupações, acariciou a cabeça de Dora. – Chega de descansar, querida. Hora de acordar. Como sempre, Dora acordava sem se desorientar. Seus olhos piscaram de prazer ao ver Naomi, antes de ignorá-la e rolar surpresa ao ver Andreas. Naomi percebeu a troca de olhares entre os dois e prendeu a respiração. Então Dora gritou de emoção, rolou para o lado e segurou nas grades do berço. Uma vez apoiada, balançava para cima e para baixo, com olhar alegre, sorria mostrando todos os dentes. – Ela sempre acorda animada assim? – Na maioria das vezes acorda bem-humorada, mas assim é demais. – Ela está muito acostumada com você para fazer tanta festa de manhã. Eu devo ser a novidade. – Ela nunca recebe gente nova assim. – Sério? – Sério. Temos uma babá maravilhosa que ela vetou. Nossos vizinhos vieram jantar conosco há algumas semanas e ela os ignorou completamente. Andreas parecia tão satisfeito, que Naomi quase precisou esfregar os olhos. Não havia nenhuma dúvida, ele estava emocionado, Dora o tratava


preferencialmente. Mais uma prova de sua influência suprema sobre qualquer ser. – Você está esperando ela pedir colo como ensinou? – Isso foi quando ela estava sendo malcriada. Agora está sendo... – Fofa? Então o que está esperando? Todos estes gritinhos significam que ela mal pode esperar. Ele pegou Dora, que chutava e balbuciava de alegria. – Sygnómi, Dorothea. Escalar minha perna era muito mais fácil de entender. Ouvi-lo pedir desculpas a Dora teve um efeito estranho sobre Naomi. Ela começou a rir. Tanto o homem quanto bebê se espantaram. – Não liguem para mim, continuem. – Ela balbuciou enquanto se dirigia ao trocador. Andreas seguiu-a. Quando ela acenou, entregou Dora com relutância. Ele observou atentamente, não mostrando sinais de desagrado, enquanto ela trocava o bebê. Então afastou-se e deixou-o pegá-la novamente. Quando ele pediu desculpas por ser o único a não trocá-la, pois precisava aprender primeiro, Naomi riu de novo e foi para a cozinha. Andreas seguiu-a com Dora no colo, com gatos ao redor de suas pernas, e a sobrancelha levantada. Naomi não tocou no assunto da razão de sua vinda enquanto preparava o café e ele colocava Dora em sua cadeirinha como se fosse sua rotina matinal, e Dora adoravelmente pedia seus brinquedos. Ele ajudou Naomi a preparar o café, admitindo que ainda não tomara. Enquanto trabalhavam juntos, houve novamente naturalidade e companheirismo. Desta vez, ela estava certa de que não era algo proposital. Como se combinado, não tocaram no assunto durante o café. Depois, na sala, tão logo ela distribuiu o buquê em quatro vasos, com Dora e os gatos, ele explicou aquele porém que a fizera abrir a porta. – Depois que eu fui embora naquela noite, eu sabia que precisava reunir minha família para conhecerem você e Dora. Primeiro eu precisava de um lugar. – O quê? Você quer dizer que a casa em Manhattan Beach não era de


– O quê? Você quer dizer que a casa em Manhattan Beach não era de Aristedes e Selene? – Não. A casa deles é muito longe. Isso a surpreendeu. Conquanto se lembrasse de que a convidaram para uma “reunião de família”, não para ir à casa deles, ninguém comentara que era deles. Era tudo combinado para que ela não percebesse? Mas por quê? – Demorou uma semana para finalizar o negócio e arrumar tudo para receber as pessoas e reunir todos. Ele tivera toda aquela despesa e trabalho para passarem o dia juntos? Teria sido maravilhoso, se soubesse de tudo isso, mas... – Você fez isso tudo, para acabar me ignorando? – De onde você tira essas interpretações? Eu estava lhe dando a chance de conhecer minha família. Pensei que pudéssemos conversar outra hora. Não que você parecesse querer. Embora eu agora perceba por quê. – Poderia ter me contado tudo. – Você quer dizer contar meus planos com antecedência, para você não aparecer? Nem sequer me ocorreu. – Você poderia ter telefonado. – Para dizer o quê? Eu ainda estava tentando tomar a decisão que você queria ouvir. Ele não fazia ideia, não é? Mas enfrentara tudo por Dora. Provou que tinha sentimentos por Petros, mesmo que Naomi não tenha entendido a conexão ou a prova. Agora, desde a noite em que conhecera Dora até o dia anterior, e naquela manhã, deixara claro que já criara laços com ela, e viceversa. Então suas emoções estavam adormecidas e foi preciso que ele cruelmente declarasse nunca querer ter uma criança para despertá-las? Fazia sentido. Ele também explicou por que não tentara tocar Naomi por mais de dez dias. Já não se tratava dela de qualquer maneira. – Eu nunca falei sobre mim e Petros. – Você nunca me contou nada, Andreas. Ele assentiu com a cabeça. Reconhecendo, sem se desculpar. Mas do jeito que seus olhos faiscavam, parecia que contaria algo sério, importante.


– Antes de eu contar, precisa saber sobre minha família. Meu pai era um filho inútil e egoísta de uma cadela que mal conheceu, e minha mãe uma simples sentimental de quem ele se aproveitou, com a gente no meio. Aristedes, sendo o mais velho, foi quem mais sofreu, deixou a escola para trabalhar em quatro empregos para nos sustentar quando tinha apenas 13 anos. – Caliope me contou tudo ontem. – Mas o que ela não poderia contar, já que nem ela nem ninguém sabe, é que quando eu tinha essa idade, como o “homem da casa” na ausência dos meus pais, eu tinha de cuidar da minha família, das mulheres e bebês, de diferentes maneiras. Havia uma gangue que “mandava” na área, e a única maneira de toda família ficar a salvo deles era se “oferecessem” um filho a seus serviços. Eu me ofereci, por minha família e por Petros. Naomi aproximou-se, com o coração disparado. Não esperava aquilo. Era ingenuidade pensar que a pobreza não havia exposto ele ao crime e a criminosos. – Você se ofereceu no lugar de Petros? – Não havia escolha, realmente. Ele sempre foi a alma gentil que você conheceu. Ele não teria sobrevivido a um dia como membro de gangue, enquanto eu tinha quase dois metros de altura, e transmitia agressividade e destemor. O líder da gangue me treinou e me colocou para trabalhar. Ela enxergou um mundo de dor, horrores, medo, perigos, danos e degradação no modo com que ele falou. Não pediu detalhes. Era jovem e era coagido, sua família e Petros eram reféns. – Então, três anos depois, Aristedes nos trouxe para os Estados Unidos. Eu mantive isso em segredo ou não teriam me deixado vir, ou pior. Mas eu prometi a Petros que cuidaria dele. Eu trabalhava e estudava, e enviava todo o dinheiro para ajudar seus pais doentes e pagar o que a quadrilha exigia para proteção em vez de meus serviços. Mas quando voltei, assim que terminei a faculdade, encontrei-os na miséria. A quadrilha tomava cada dólar que eu enviava. Depois, pediram três milhões de dólares para me deixar trazer Petros e os pais dele comigo. Queriam que eu pedisse dinheiro a Aristedes, mas eu me recusei a envolvê-lo. Então me deram outra opção, ser deles por cinco anos. Eu concordei.


O coração de Naomi ficou apertado, ele virou escravo por seu amigo! – E durante cinco anos, eles colocaram meus talentos de usar, fraudar e desviar incontáveis milhões. Como o quinto ano se aproximava do fim, ficou claro que eu era muito lucrativo para me deixarem ir embora. Então eu confrontei meu chefe, recrutador original e mentor. Ele ficou furioso que, depois de tudo que fez por mim, eu quisesse fugir. – Ele destruiu a sua vida, escravizou você! – Ele não me via de um jeito exatamente são, me considerava seu primogênito, já que nenhum dos filhos seguira seus passos, e depositou orgulho paternal em mim. Como eu não reclamava, pensou que eu estava totalmente engajado no seu modo de vida, e tinha planejado me surpreender no final desse teste de cinco anos. Em vez de me libertar, me faria seu herdeiro, ignorando seus próprios filhos. Eu tive um pai que não sabia que eu estava vivo, e tropecei em outro que se tornou obcecado por mim. – E ele pensou que você devia amá-lo e ser grato por isso? Eu não posso nem imaginar como se sentiu, mas só de ouvir me deixa louca. Eu mataria esse homem. – Não se preocupe, foi o que fiz. – Você? – Eu o matei. Em legítima defesa, acho. – O que quer dizer? – Ele disse que eu estava destruindo todas as suas esperanças, mas que eu não iria embora com seus segredos. Em um dos raros momentos em que eu fiquei com raiva, eu mencionei o que achava dele, e acho que parti seja lá o que ele tivesse como coração. Um erro terrível, já que ele veio atrás de mim com seu facão favorito. Em seguida, estava deitado aos meus pés morto. – Então, por que você diz que acha que foi em legítima defesa? Foi! – Eu digo isso porque ele era muito mais velho e eu tinha ultrapassado ele há muito tempo em perícia com armas. Ficou claro para mim na luta que era ele ou eu. Mas não sei se só porque eu estava em perigo, ou porque eu sabia que se parasse ele ainda teria me matado. Então, o que seria de Petros e seus pais? Até hoje eu não sei a verdade. – Então foi em legítima defesa e em defesa dos outros também.


O olhar dele agradecia, mas não aceitava o veredicto. – Eu me entreguei, mas a polícia de Creta ficou contente que alguém finalmente os livrou do chefão. Parecia que sabiam exatamente o que ele fazia comigo. O relatório oficial dizia que foi um assassino de aluguel de uma gangue rival, e ainda me ajudaram a tirar Petros e sua família de Creta. Eu tinha acabado de acomodá-los aqui, pensando que tinha finalmente escapado do pesadelo, quando descobri que não estava terminado, não por algum tempo. – Conte logo! – A esposa do homem me chamou. Ela sabia que eu tinha matado seu marido. E prometeu que como eu a privara do amor de sua vida, atacaria meus entes queridos. Eu zombei de sua ameaça, e garanti que não tinha nenhum. Eu perdi todo o contato com minha família durante esses anos. Quanto a Petros, afirmei que não era um ente querido, mas um animal de estimação. – Será que ela acreditou? – Eu acho que sobre Petros sim. Mas ela declarou que um dia eu reataria com minha família ou formaria outra, e aí revidaria. Tudo se encaixou tão rápido em sua mente que Naomi caiu de volta no sofá. Era monstruoso. E explicava tudo. – Eu sabia que ela era capaz de me manter sob vigilância para sempre. Mas não era o maior problema. Eu duvidava que minha família me quisesse de volta. Mas à medida que os anos passaram, eles tentaram reatar comigo e eu comecei a me sentir mais ameaçado a cada dia. Então eu conheci você. Não podia deixar isso continuar. Então fui para Creta negociar uma aliança com um cartel rival, para me ajudar a neutralizar a ameaça de Kyría, como ela era conhecida. – Foi quando você salvou Malcolm e eu dos bandidos de Christos Stephanides? – Isso. Eu sabia que Malcolm estava me cortejando, planejando fazer negócios em minha terra natal. Quando eu descobri que você estava com ele, tive a ideia e decidi que era hora de fazer a aliança. – Você estava nos seguindo naquele dia? – Eu estava seguindo você.


Então Nadine estava certa. – Eu sei que você acha que a salvei, mas eu não acredito que Christos a visse como ameaça. Ele não é tão mau, comparado às pessoas com as quais eu estava envolvido. É por isso que consegui negociar com ele em seu nome, mas falhei em minhas próprias negociações, já que eu não poderia contar aos meus potenciais aliados tudo sobre o porquê de eu precisar de sua ajuda. – E dinheiro não funcionou? – Não é assim que funciona. Era um preço que eu não podia pagar. Eu nunca mais ficaria vulnerável a qualquer pessoa. – O que aconteceu então? – Eu fiz a coisa mais estúpida da minha vida. Voltei para os Estados Unidos direto para o escritório de Malcolm. Eu tinha uma desculpa para ver você e usei. E você se aproximou de mim. Você era quem eu sempre quis, mas eu sabia que isso era o que Kyría esperava. Eu sabia que você seria seu alvo se alguém descobrisse sobre nós. Então por isso o relacionamento e depois o casamento em segredo absoluto. – Por que não me contou? – Que eu era um criminoso e assassino, e que se casando comigo poderia ser alvo de um mafioso vingativo? – Você não é nada disso! Foi forçado ao crime. Quanto a ela, eu teria entendido a necessidade do sigilo. – Eu achei que não entenderia e fugiria. Mas parece que acabou fugindo porque não contei. Eu tinha esperanças de poder acabar com isso, e por isso eu impedi o divórcio. Estava fazendo de tudo para negociar com Kyría e ela de repente pareceu receptiva, queria que eu fizesse coisas por ela para compensar. Depois de seis meses, ela me confessou que só estava me enrolando, me dando esperança antes de tirar, e que eu teria de viver com ela para sempre, sem ninguém por perto, porque no instante em que eu me aproximasse de alguém, qualquer um, ela me privaria deles. Ela mudou de viúva a louca, seu ódio por mim tinha se tornado o alimento de sua existência. Eu sabia que tinha destruído o tempo que estivemos juntos, mas entramos em um nível totalmente novo, e nenhum sigilo ou


precaução seria suficiente. Assinei os papéis do divórcio e depois apenas me desliguei de todos, inclusive de Petros. E tudo finalmente fez sentido. Era horrível. – Eu não poderia voltar para o funeral de Leonidas ou o casamento de Aristedes. Só fui ao casamento de Caliope porque foi no interior da Rússia e tão rápido que ninguém poderia saber. Mas o funeral de Petros e Nadine foi anunciado, e você estava lá. Eu não podia arriscar alertando de sua existência e de Dorothea. – Então, como acabou voltando? – Como acha? – Você... – Não acha que ela merecia? – Na verdade, sim, mas... – Por mais que quisesse mandá-la para o lado de seu marido, não sou nenhum assassino. Ela simplesmente morreu, felizmente. Não que eu pensasse que isso mudaria alguma coisa. Eu tinha certeza de que ela tinha deixado instruções para me perseguirem. Mas fui ao seu funeral, de qualquer maneira. Não importa que ela virasse minha vida um inferno, eu matei seu marido e foi o que a levou ao fundo do poço. Eu queria fazer as pazes com ela. – Pra quê? Será que ela se levantou da sepultura e está atrás de você como um zumbi agora? Droga, Andreas. O que aconteceu? – Seu filho mais velho se aproximou de mim, falou que tudo o que existia entre mim e sua mãe morrera com ela. Ele condenou as atividades criminosas dos pais e o que fizeram comigo. Disse que não me queria mal, até implorou meu perdão. – Foi isso? Sério? – Eu sei o que você quer dizer. Eu mal podia acreditar, que ninguém estava em perigo por minha causa, que eu estava livre. Pela primeira vez desde meus 13 anos. Naomi não sabe como se conteve de pular em cima dele. Provavelmente porque ficou paralisada com tantas descobertas e emoções. – Eu voltei no mesmo dia. Com o fuso, cheguei aqui para esperar por você voltar para casa. Ele estava sorrindo!


Que hora para dar seu primeiro sorriso verdadeiro. Seu sorriso se abriu ainda mais. – É só que... ufa, que peso tirei. Eu nunca contei a ninguém. Só Petros sabia, e não tudo. Eu nunca contei a ele sobre a minha suspeita de que eu não matei aquele homem em legítima defesa. Mas você não me contou tudo. Tantas perguntas ainda clamavam dentro dela. Ele continuou. – Mas eu não posso culpar tudo o que sou a esses acontecimentos. Mesmo sem isso pairando sobre minha cabeça, eu não servia para relacionamentos, não com a minha formação. – Seu pai, você quer dizer? – E a mim mesmo. Com o tipo de vida que levava, eu nunca me importei muito com ninguém. Ela aproximou-se dele, querendo animá-lo. – Você se preocupa muito mais do que a maioria das pessoas. Você se sacrificou pela segurança de sua família e de Petros. – Eu nunca enxerguei assim, que fiz algo por causa de sentimentos. Achava que eu era responsável, o único que poderia fazer algo. – E para fazer isso, você bloqueou seus sentimentos para ter máxima eficiência e não ser atrapalhado pela emoção. – Você pode estar certa. Eu não demonstrava nada, nem mesmo raiva. Fiquei tão acostumado, que não sabia mais o que era emoção. Então, me libertei da ameaça que definiu minha vida, e estou livre para honrar a vontade de Petros. Isso foi antes de eu conhecer Dorothea. Agora que conheço, quero muito mais. Você pode pensar que é muito cedo para eu dizer isso, e sei que eu nunca serei o pai que Petros teria sido, mas vou fazer meu melhor para apoiar Dorothea de toda maneira. Sua promessa apaixonada atingiu em cheio o coração de Naomi. Ela agora sabia que ele estava sendo sincero. O Andreas que suportara tudo aquilo pelo pai faria ainda mais pela filha. – Você teria sucesso em qualquer coisa que colocasse em sua cabeça, Andreas. – Mas só se eu fizer parte de seu cotidiano. E quanto a fazer parte da vida dela também?


Ele admitira que não voltara por isso. Escondera seu principal objetivo. Uma hora atrás, o principal objetivo de Naomi era defender Dora e ela mesma. Mas agora, com a sua história reescrita, tudo que ela queria era dar a Andreas tudo que ele precisava, tentar apagar a dor e a injustiça que sofrera, mesmo à custa de suas próprias necessidades. Havia apenas uma resposta que poderia lhe dar. – Vou concordar com qualquer coisa que você quiser. Seus olhos brilharam aliviados, suas mãos apertavam a dela suplicando. – Então more comigo.


CAPÍTULO 10

– SAIAM TODOS, aí vem a super Dorothea! Naomi olhou para cima esquecendo o jornal. Aquela visão a fazia sempre esquecer a vida. Andreas com Dora. Em calça de treino e uma camiseta que mostrava seus músculos, Andreas segurava Dora no alto com uma das mãos. Vestida com um macacão vermelho e azul, Dora gritava alegre enquanto se curvava e abria os braços e pernas como um super-herói voador. Era a sua vez de lidar com a rotina matinal de Dora. Ela geralmente era um bebê feliz, mas reservava uma dose extra de alegria para o pai. E não havia dúvida de que era o que Andreas estava se tornando, ou já se tornara, em um mês desde a mudança para a casa em Manhattan Beach. Há um mês realizando todas as possíveis tarefas paternas para Dora, anfitrião perfeito, companheiro para todos, grande companheiro e amigo de Naomi... e nada mais. Nem um único olhar ou toque a mais. Andreas aproximou-se de Hannah rindo, colocou Dora no chão com um beijo estalado, e fez o mesmo com Naomi, para deleite estridente de Dora. Ele terminou o show aéreo, aterrissando-a em sua cadeirinha, quando ela gritou por mais, ele só levantou uma sobrancelha e ela mudou de tom, fingiu bater palmas, pedindo seus brinquedos com a máxima cortesia. Depois que preparou o café e se serviu, Andreas veio sentar-se com Naomi no enorme balcão da cozinha. – Vai fazer algo especial hoje? – indagou ele a Hannah.


– Vou para Connecticut assim que um de vocês chegar do trabalho. – Pode ir agora para passar o dia com Susan. Vou fazer minhas reuniões on-line. Chame Steve quando estiver pronta. Hannah, que nunca deixou de ser mimada por Andreas, sorriu agradecida. – Seria ótimo ter mais tempo, mesmo que eu vá ficar com Susan e as crianças até o fim de semana. E eu vou com Spiros se ele estiver disponível. Ele é mais divertido. Andreas lhe deu um daqueles sorrisos que aos poucos saíam mais fácil. – Que seja Spiros. – E virou-se para Naomi. – Então somos eu e você, isto é, se você não tiver algo melhor programado. Ela estava feliz por ter. – Na verdade, vou sair com Malcolm depois do trabalho. Vamos nos encontrar com um casal de clientes potenciais para o jantar. Por quê? Seu olhar demonstrou decepção ao se virar para Dora. – Parece que vamos comemorar sozinhos, mikri prinkipissa mou. O coração de Naomi tremeu com o jeito que chamava Dora de minha princesinha. – Comemorar o quê? – Um marco. Faz um mês que estamos aqui. – Se tivesse avisado... – Haverá outros marcos. – Ele levantou-se para limpar a bagunça que Dora fizera enquanto tentava comer sozinha, em seguida, começou a alimentá-la para compensar o que deixara na bandeja e no chão. – Dorothea faz um ano daqui a um mês. Vamos fazer algo grande, então. Que tal? Após as duas aprovarem seu plano, Hannah desculpou-se, dando a Naomi um olhar obviamente querendo dizer: Está louca? Sair com Malcolm quando a deixei a sós com Andreas? Naomi desviou o olhar, fingiu pressa, beijou Dora e disse algumas bobagens para Andreas antes de sair. Teria de acertar as contas com Hannah logo, para que ela parasse de deixá-la a sós com Andreas. Para ele, Naomi era agora meramente mãe de Dora. A ironia nunca deixou de atormentá-la. Agora que estava livre, não


A ironia nunca deixou de atormentá-la. Agora que estava livre, não estava mais apaixonado por ela. Ela sabia que aquela situação era a única solução lógica. Mesmo que significasse que estaria agora constantemente em sua vida, e que ele não seria seu. Desejava um dia também deixar de gostar dele. – ACHO QUE o contrato é nosso, Naomi. Ela sorriu para Malcolm no outro lado da mesa. – Marcamos um gol importante. – Somos uma equipe e tanto. – Os olhos de Malcolm brilharam para ela com a genialidade de costume, antes de uma ponta de seriedade interferir. – E eu acho que é um grande momento para levarmos nosso trabalho em equipe e amizade mais longe ainda. Acho que poderíamos ser muito mais um para o outro, Naomi. Formaríamos uma grande equipe em casa como pais de Dora como fazemos no trabalho. Ela pegou sua mão, apertou-a pedindo silenciosamente que ele parasse. – Se houvesse alguma chance de eu achar que isso funcionaria, eu teria dado o primeiro passo, Malcolm. Você seria o marido perfeito para uma mulher incrivelmente sortuda, como foi para Zoe. Mas não eu. Eu amo você, mas nunca serei apaixonada por você. Espero que isso não seja um problema entre nós. Sua expressão lembrou a de Andreas. Decepcionada, mas compreensiva, e nem um pouco autodepreciativa. – Como pode ser um problema? Somos amigos, com ou sem nada de mais sério. E essa é a diferença entre nós, eu acho. Eu não estou apaixonado por você também, acho que nunca vou me apaixonar novamente, não depois de Zoe. – De repente, seu sorriso se abriu. – Ei, você sabia que podemos conseguir um contrato muito maior do que esse? Aliviada por ele mudar de assunto sem ressentimentos, ela interrogou: – O que poderia ser maior? – Andreas Sarantos. Ele ligou ontem e informou que viria amanhã para resolver. Eu não quero ser muito otimista, mas realmente acho que ele vai finalmente colocar seu financiamento mágico por trás da SUN Empreendimentos.


Andreas não contara a ela sobre isso. Assim como ela não contara a Malcolm o que estava acontecendo. Como Andreas não mantinha mais sua vida em segredo, odiaria que seu sócio soubesse por outros. Então ela lhe contou tudo. Pelo menos sobre o testamento de Petros e Dora, e a mudança para a casa de Andreas. Malcolm ouviu com espanto total, então finalmente assobiou. – Isso é que é uma mudança radical. Como está lidando com tudo? – Tem sido bom – mentiu ela. – Andreas cumpre tudo, uma vez que se dedica a ela. – E você diz que Dora gosta dele. – Adora. – Ele é a razão de nem sequer considerar a minha sugestão? – Não é por causa dele, não. – Significa que ele não tentou, mas impede que você tenha outra pessoa, não é? Não encontrando mais uma razão para negar, ao menos para Malcolm, ela balançou a cabeça. – Isso vem acontecendo há muito tempo, não é? Desde quando conhecemos Andreas? – Ela assentiu com a cabeça novamente. – E ele? Eu não posso acreditar que não tenha agarrado você, especialmente agora. – Eu odeio usar clichês, mas é complicado. – Aposto que é. Após um instante de silêncio, ela indagou: – Tudo bem se formos embora? Não que ela quisesse voltar para onde Andreas e sua simpatia cruel a aguardava, mas o confronto a deixara exausta. – Claro. Depois de pagar a conta, Malcolm a acompanhou para fora do restaurante. Enquanto esperavam o manobrista, ele virou-se para ela com uma careta. – Sabe, eu não tenho certeza se quero Andreas nos financiando. Aquilo a surpreendeu. Ela agarrou o braço do sócio. – Você não vai deixar o que contei influenciá-lo, não é? Minha situação pessoal não tem nada a ver com os negócios dele. – Acho que estão intimamente relacionados. É sobre a ideia que eu fazia


– Acho que estão intimamente relacionados. É sobre a ideia que eu fazia dele. Uma hora atrás, ele era Midas. Agora é o idiota que não vê a joia rara que tem, literalmente, debaixo do seu nariz. Seu coração de repente disparou com o incentivo do amigo e ela riu. – Obrigada, Malcolm. – Talvez eu mantenha nossa reunião só para descobrir o que há de errado com ele e dar-lhe um conselho. – Ah, não, por favor, não fale de mim. E não se atreva a pensar em deixar passar esta oportunidade. – Ela o encarou até que concordasse – E, Malcolm... Desculpe novamente se decepcionei você. – Você nunca me decepciona. Oprimida pelo carinho do homem, ela aproximou-se para abraçá-lo. Malcolm a abraçou antes de levá-la até o carro. Depois de fechar a porta, debruçou-se na janela aberta. – Relaxe, Naomi, somos bons amigos. Ela assentiu com a cabeça, profundamente grata por ter um amigo assim. NO MOMENTO em que entrou na casa de Andreas, seu coração ficou pesado novamente. Parecia voltar para uma cela de prisão cada vez que retornava. Pensou novamente se deveria fazer algo a respeito. Como dizer como se sentia, que o desejava e que, se ele ainda tivesse qualquer desejo por ela, deveriam ficar juntos, e seriam pais ideais para Dora. O que sempre a detinha era o medo de arriscar a paz de Dora. O que aconteceria quando Andreas se cansasse? Ou a substituísse na cama? Poderia ter certeza de que não afetaria Dora? Loki e Thor vieram correndo para recebê-la, como sempre, afastando suas mágoas. Carregando os dois, ela beijou e conversou com eles caminhando até a sala, esperando encontrar Andreas trabalhando em seu laptop. Ela se preparou para seu jeito agradável agora habitual. Seu sorriso vacilou quando o encontrou em pé no meio da sala, descalço, camisa para fora da calça aberta, e um copo vazio na mão. Seu corpo parecia relaxado, mas a forma como a sua cabeça estava inclinada, a maneira como a olhava, sobrancelhas caídas, e a ausência total


do sorriso agora costumeiro a fez se sentir como um cervo emboscado por um leão. Seus passos vacilaram quando ela aproximou-se, focalizando seu rosto. Suas linhas austeras pareciam talhadas em granito, e os olhos cintilavam como relâmpago. – Algo errado? Dora está bem? – questionou ela sussurrando, mesmo que instintivamente soubesse que não se tratava de Dora. Sem afastar o olhar, ele inclinou-se e colocou o copo na mesa. – Coloque os gatos no chão, Naomi. Ela obedeceu. Olhou desconfiada para Andreas quando ele se aproximou, aprofundando a sensação de estar sendo perseguida. Colocou a mão na garganta, onde ela sentia seu coração, e para onde ele olhou antes de se voltar para os lábios, depois, para seus olhos. Seu coração disparou loucamente. Sua voz era o rosnado de um predador. – Por quarenta e uma noites eu me contive, Naomi, eu mantive distância, demonstrando algo diferente. Agora, não mais. Ele contara as noites desde a última vez que fizeram amor? – Andreas ... O mundo ficou de cabeça para baixo quando Andreas a colocou em seu ombro! Gritou de susto, enquanto os dedos dele afundaram em suas nádegas e coxas. Seus sentidos se agitaram enquanto ele caminhava pelo corredor, o mundo se transformava em um redemoinho de estímulos. Então ele colocou-a em sua cama, onde ela não dormira uma noite do último mês infernal. Antes que seu coração disparasse novamente, ele a despiu, tirando a jaqueta e a blusa com o sutiã por cima da cabeça. Saiu de cima dela, só para arrancar sua saia e calcinha pelas pernas trêmulas. – Andreas... – Ne. Isso, Naomi, gema, sussurre meu nome, e quando eu estiver em cima de você, grite. Ela berraria se tivesse fôlego. Tudo que conseguia fazer era ficar ali, nervosa, observando-o afastar-se e livrar-se de suas roupas com a mesma


pressa e ferocidade. Então voltou para cima dela, como um predador faminto sobre a presa. Ele esmagou seus seios com o peitoral rígido e cabeludo, esfregou-se até que ela gemesse e se contorcesse, intensificando o contato. – Assim que eu fiquei, Naomi, faminto, delirando durante quarenta e uma noites. Ele caiu sobre ela, pressionando o pênis rígido. As pernas dela se afastaram e as costas se arquearam, implorando por sua total invasão. Ele puxou sua cabeça para trás com a mão enroscada no cabelo enquanto a beijava, arrancando cada centelha de desejo, até sentir sua força vital chegando até ele. Ela tentou suspirar, mas ele a virou e prendeua por baixo dele de bruços, com as mãos em seus seios, e o pênis ereto entre suas nádegas. Com seu interior molhado preparado, ela ondulava seus quadris contra seu pênis em um frenesi, provocando um estrondo triunfante do fundo do peito. – Agapi mou, ne, ne. Mostre o quanto precisa de mim. E ela mostrou, virou a cabeça, procurando seus lábios, se contorcendo sensualmente debaixo dele. Ele mordeu seu lábio, sugou e puxou até inchar, até ela soluçar. Cada pedaço dela se desmanchava de desejo. Ele segurou-a mordendo desde o pescoço até o ombro, escorregou uma mão por baixo dela, apertando seu corpo até levá-la ao limite. Ela gritou seu nome do fundo da alma no clímax. Com ela ainda no auge, e com uma mão estimulando-a, ele colocou um travesseiro sob seus quadris, em seguida, penetrou seu interior encharcado. O prazer detonou cada centímetro do corpo que se rendeu a seu pênis em brasa. Excitado, ele a penetrava, rosnando palavras de luxúria em inglês e grego enquanto a beijava ardentemente, levando-a à loucura. O êxtase ecoava a cada impulso, cada palavra, o ir e vir de uma maré enlouquecida. O apogeu da onda antes de quebrar. Antes disso, Andreas deixou seu corpo e o inspecionou apertando suas coxas grossas. Em seguida, mergulhou fundo dentro dela novamente, desta vez encontrando o que procurava, o colo do útero, alojando-se em seu ventre. – Agora, agapi mou. Venha comigo, agora.


Ela foi e a espiral do desejo envolveu-a, uma vez e mais outra. Ela gritou, debateu-se debaixo dele a cada golpe. Ele penetrou-a com mais força no meio da tempestade, fazendo as ondas de choque aumentarem, causando contrações tão violentas que lhe tiravam o fôlego, abafando os gemidos. Contorcia-se na agonia do clímax, agarrando-se como se quisesse se fundir nele. Nas profundezas do delírio, ouviu-o rugir aliviado, a sensação do sêmen em seu interior supersensível, causou o estouro de outra onda. Podem ter sido minutos ou horas antes que retomasse a consciência. Encontrou-o espalhado debaixo dela, ainda rígido pulsando dentro dela, causando miniterremotos que a mantinham em orgasmo contínuo. Assim que cruzaram olhares, ele a apertou com força contra seu pênis: – Expulse Malcolm do meio disso tudo. As palavras rudes interromperam seu relaxamento, fazendo-a se afastar. – O quê? Andreas parecia ameaçador quando perguntou: – Ele pediu você em casamento, não foi? Ela o empurrou. – Como sabe? Ele deixou ela se afastar, com relutância. – Ele falou algo quando eu liguei que me fez perceber que ia fazer um movimento. Ele fez isso, não foi? – E eu garanti que não ia funcionar. Será que isso tem alguma coisa a ver com você literalmente me carregar para sua cama? Para ter certeza de que eu diria não a ele? Andreas puxou-a contra seu corpo quente e rígido, mais uma vez com olhar tão possessivo que sentiu que ele já a invadia novamente. – Eu estaria condenado se demorasse mais, deixando você livre para outro homem. – Bem, ele fez isso e eu não quis, não precisa sabotá-lo. – Eu teria levado o fora na cama mais cedo ou mais tarde. Agradeço a ele por esta noite. – Agora levou. Espero que esteja satisfeito. Andreas prendeu-a debaixo dele novamente, seus olhos faiscavam. – Não estou nem perto de satisfeito. Depois de toda essa privação,


– Não estou nem perto de satisfeito. Depois de toda essa privação, preciso de uma dieta constante e intensiva de você antes de eu começar a lembrar o que é estar saciado. Parecia verdade, mas onde estava essa paixão naquelas quarenta e uma noites que ele contara com tanta precisão? – Eu pensei que tinha desistido da oferta. – De sexo ilimitado? Certamente não. As palavras atingiram em cheio o coração dela. Ela já sabia que ele não queria. Mas ouvi-lo dizer, depois do que acabara de acontecer... – Eu quero me casar com você. O primeiro casamento não conta. Tenho tentado provar que funcionaria entre nós, para que eu possa apoiar você e Dorothea em um ambiente familiar. Eu lutava para manter o sexo de fora para ser um verdadeiro teste para mim, para provar para mim mesmo tanto quanto para você, Mas acho que agora nós dois sabemos meus limites. Tudo aquilo fora um teste? Ele tentara provar a si mesmo antes de provar a ela que poderia ser um homem de família? Com a apreensão desaparecendo, ela estendeu a mão trêmula para aliviar a tensão do rosto dele. – Eu gostaria que tivesse atingido seu limite muito antes. Não que eu não amasse explorar e descobrir seu outro lado. – Gostaria? Ela puxou-o, dando um beijo em sua testa franzida. – Ah, certamente. – Eu quero que esqueça tudo o que aconteceu antes entre nós. – Mas houve tantos momentos bons. – Jogue fora. Vou dar outros a você, tão frequentes quanto seu delicioso corpo puder suportar. Parecia um sonho se tornando realidade. Caso ele tivesse dito que a amava. Mas a desejava, e queria dar tudo para Dora, e à família que formaram. Se a sua relação ou emoções se aprofundariam, veriam depois. Mas Naomi estava pronta para se contentar com muito menos. Então, se casaria com ele novamente sabendo que o amava mais do que ele a ela, mas desta vez tinha esperança que as emoções que ele suprimira


floresceriam o suficiente para que a amasse um dia. Até então, tinha o que podia dele e de Dora, duas peças que formavam seu coração, a cola que segurava sua alma, seu mundo. Fez amor com ela novamente, mas antes que unissem, parou em cima dela, tenso. – Você não disse que sim, agapi mou. Ela puxou-o para dentro dela, entregou-se a ele completamente e gritou: – Sim, Andreas, sim.


CAPÍTULO 11

ANUNCIAR O casamento iminente para Hannah e à família de Andreas foi mais emocionante do que esperava. Afirmar que todos ficaram encantados seria o eufemismo da década. Todos também disseram que sabiam que aconteceria. Parecia que todos sabiam menos ela. Então Andreas insistiu em realizar o casamento em Creta, organizando tudo pela internet, com Naomi vendo-se em uma situação que nunca vivera, fazendo parte de uma grande família. Não era somente ela e Dora que estavam sendo aceitas e assimiladas pela família Sarantos. Andreas também reencontrava sua família, da qual propositadamente se afastara desde a infância, pela primeira vez. E foi emocionante observá-lo aceitando e retribuindo o carinho. O próprio Andreas fez com que ela ficasse tonta de alegria e esperança com o futuro. Cada dia que passava, ele se transformava no homem que ela achava que poderia ter sido todos esses anos que passara reticente e distante. Ele se abria mais para ela a cada dia, esforçando-se para apoiá-la em todos os sentidos. Fazia de tudo para dar-lhe tudo o que não dera no passado, e muitas outras coisas que ela não esperava. Estavam em Creta há três semanas. Desta vez, Andreas a deixara escolher a casa que seria deles enquanto estivessem em sua terra natal, lhe dando carta branca para escolher qualquer casa. Fizera o mesmo com sua vida. Embora ela não quisesse tirar proveito da oferta ilimitada, ficou tocada demais. Às vezes queria dizer a ele para maneirar. Não era aconselhável fazê-la amá-lo mais do que já amava. Ansiosamente aceitara sua oferta para escolher a casa. Havia uma vila


Ansiosamente aceitara sua oferta para escolher a casa. Havia uma vila específica que sonhara compartilhar com ele assim que vira. Era na região de Rethymno, o menor município de Creta. Sinônimo de lindas paisagens e praias, cavernas lendárias, mosteiros e monumentos históricos, aldeias tradicionais nas montanhas e luxuosos resorts de férias. Fora capturada pela essência da mítica Creta, nesta região remota e autossuficiente, desde a primeira vez que pusera os pés lá. Atrás da vila, ficava Lefka Ori, como eram chamadas as impressionantes montanhas. Debruçada sobre as águas cristalinas do mar de Creta, estava situada em um trecho maravilhoso da praia de ouro branco. Era grande o suficiente para acomodar toda a família, e ainda bastante isolada para os dois se esquecerem do mundo. E naquele dia, uma hora a partir daquele instante, na magia do pôr do sol, lá se casariam. Não seria nada elaborado, uma vez que não poderiam mesmo pensar nisso com as recentes perdas. Apenas uma pequena cerimônia para a família e amigos íntimos, onde trocariam seus votos, os primeiros. – É melhor se apressar. – Caliope entrou na sala onde Naomi se vestia. A irmã de Andreas entrara em seu oitavo mês, o vestido de dama de honra de chiffon turquesa que vestia refletia a cor de seus olhos e as águas que cercavam a vila. Acompanhando-a, Selene sorriu para Naomi enquanto ajudava Caliope a sentar-se. Ela usava um vestido semelhante, embora se ajustasse à sua esbelta figura. – Andreas parece prestes a jogar todos na piscina – explicou Selene. – Por quê? O que há de errado? Caliope riu. – Você não enxerga que despertou o vulcão que fervia sob o gelo, não é? O homem está chiando para torná-la sua esposa de novo, ou de verdade, como ele diz. Aristedes nos mandou buscá-la mais cedo, já que Andreas está espumando de agonia. – Que agonia? Selene acenou com desdém. – Apenas aquelas que afligem a respiração de quem ama demais. Caliope e Selene achavam que Andreas a amava? Tal como os seus


Caliope e Selene achavam que Andreas a amava? Tal como os seus maridos as amavam? Era tão fácil pensar, com tudo o que fez por ela. Não que tivesse dito. Ela deu uma última olhada no espelho, seu coração disparou com a visão da noiva radiante olhando para ela. Andreas tinha lhe dado o vestido mais luxuoso que já vira, um sonho, branco de chiffon, cetim e renda que se agarrava a cada curva sua. Cada influência cultural de Creta estava representada no tecido, corte e enfeites. O vestido fez com que se sentisse a heroína de um antigo conto de fadas grego sobre mortais compartilhando sua vida com o deus que a escolhera para sua companheira. Caliope suspirou. – Você está mais do que perfeita, Naomi, uma deusa dourada, como Andreas diz. Agora se apresse antes que a ira de seu companheiro caia sobre os meros mortais que aguardam a cerimônia. Um sorriso dominou Naomi quando ela encheu-se de coragem e correu para fora, sentindo que corria para encontrar seu destino. Enquanto caminhava pelo lugar ensolarado e sua nova casa, foi seguida por todas as damas de honra, irmãs de Andreas e sobrinhas mais velhas, as três filhas de Hannah e suas netas mais velhas. Hannah esperava do lado de fora com Dora. A cada passo, parecia que Naomi mergulhava mais fundo em um paraíso tranquilo. Seu cortejo nupcial foi pela plataforma suspensa que levava à piscina de borda infinita, suas reluzentes águas se fundindo perfeitamente com o mar. O sol estava laranja e baixava rapidamente no horizonte. A combinação de tal natureza intocada e o design humano era de tirar o fôlego. Quando sozinhos ali, sentiam-se como se fossem os únicos na terra. Dezenas de pessoas estavam ao seu redor, todos com cores que complementavam o cenário, e rostos sorridentes. Mas Naomi mal sentia sua presença. Havia apenas uma pessoa em sua mente. Andreas, o homem que amou desde o primeiro instante e amaria até seu último suspiro. Com o cabelo no ombro esvoaçando na brisa amena, cada fio refletindo um tom diferente do sol, vestia um terno todo branco, camisa com colarinho aberto e uma rosa dourada na lapela. Ele ficou lá, aguardando-a


para um novo começo com cada centímetro do deus grego que descera à terra para escolher uma mortal como noiva. Naomi só se indagava como poderia ser ela. Subitamente, ele separou-se do grupo de homens à sua volta, entre ele Aristedes, seus sócios e os irmãos de Selene e caminhou em sua direção em um movimento não ensaiado. Naomi correu para encontrá-lo no meio do caminho. E então, estava em seus braços fortes, sendo rodopiada. Riso e lágrimas, ela agarrou-se ao seu pescoço enquanto ele a carregava de costas para o sacerdote, que estava em trajes completos de Creta. A cerimônia, em inglês e grego, começou com Andreas apertando-a contra seu coração. Ela não poderia ter sonhado com lugar melhor para os momentos que mudariam sua vida. Assim que trocaram alianças e votos, e o sacerdote instruiu-o a beijar a noiva, Andreas devorou-a apaixonado. De repente, algo tirou-a do mundo dos sonhos. Gritos de surpresa, que duvidava serem resposta da exibição apaixonada. Andreas levantou a cabeça também, e ambos se voltaram para a fonte da emoção. Era Dora. Estava na frente de Hannah, que estava às lágrimas. Dora estava de pé. Em seguida, deu seu primeiro passo. De comum acordo, Naomi e Andreas correram em sua direção, ambos se ajoelhando, com os braços estendidos, incentivando-a para que ela viesse abençoar a união e completar o círculo da família recém-formada. Sob aplausos estrondosos de todos os presentes, o bebê da querida Nadine e Petros, e agora dela e de Andreas, prosseguia, colocando uma perna gordinha na frente da outra, até alcançá-los, se jogando nos braços de Andreas com um gritinho triunfante. Então Naomi pegou Dora no colo e ambas foram abraçadas, beijadas e acariciadas por Andreas. Naomi agarrou-se a Dora, a Andreas, chorou de alegria e rezou para que fosse sempre abençoada, amada e vivesse o resto de sua vida com os dois. – ESTE NÃO é um ritual de casamento de Creta... é um ritual cretino. O murmúrio de Andreas foi recebido com riso generalizado de seu irmão e dos poucos convidados que permaneceram após a recepção.


Ele lamentou profundamente sucumbir ao costume de manter o noivo longe da noiva, enquanto ela se preparava para ele. Ele pensara que fossem alguns minutos quando concordara com a ideia idiota. Aristedes acabara de lhe informar que faltava mais uma hora. Em seguida, seu irmão teve a ousadia de acrescentar: – Esperar só vai intensificar seu desejo. E, além disso, não tivemos chance de conversar nas últimas semanas. – E você acha que o tempo para corrigir isso é na minha noite de núpcias? Está doido, Aristedes? – Andreas olhou para ele, depois para os irmãos de Selene, o trio Louvardis. Ele levantou-se, e todos seguiram o exemplo, para tentar fazer com que ele se sentasse. – Afastem-se, todos, ninguém precisa se machucar. Mais risos com sua ameaça, todos implicaram com sua ansiedade. Se Naomi não chegasse logo, a coisa ficaria feia. Depois de uma vida totalmente controlada, desde que fora libertado, não conhecia mais o homem que saíra da prisão autoimposta. Ainda estava conhecendo esse novo ser, testando seus limites, e cauteloso em provocar suas emoções e desejos desenfreados. Foram perigosamente provocados da última vez que vira Naomi. Era irracional o pânico que sentia quando ela estava longe. O que sentia por ela e Dorothea era tão forte e angustiante que às vezes desejava voltar aos dias em que tudo dentro dele estava confinado e controlado. Ele agora sabia a diferença entre sua obsessão com Naomi com a emoção sufocada, e agora, quando nada o detinha. Deixou seus companheiros para trás e caminhou pela casa que já havia se tornado seu lar, porque ela escolhera, e porque ela e Dorothea viviam ali. Ele entrou no quarto, encontrou-a deitada de lado na cama, um braço jogado sobre um dos ramos com que enfeitara a casa. Ela virou-se, olhando-o sensualmente. Então era a mesma coisa com ela, mal respirava. Precisavam um do outro para sobreviver. A fera dentro dele queria arrastar, bater, dominar e invadir, marcá-la. Fizera isso diversas vezes antes, até o mútuo clímax. Agora entravam em um novo reino. Ele queria mostrar tudo de especial que despertara dentro


dele, queria amá-la. Ela gemeu quando ele tirou seus sapatos, e tentou virar-se totalmente para ele. Ele a conteve suavemente com a mão nas suas costas. Ela parou com um suspiro choroso, observando-o morder o lábio inferior com seus dentes brancos enquanto engatinhava sobre ela, beijando e lambendo das solas dos pés às pernas, coxas, nádegas, costas e nuca. Enquanto isso desfazia laços, abria fechos e tirava o vestido de seu corpo alucinante. Ela deitou-se debaixo dele, tremendo e gemendo a cada toque, até que ele traçou as linhas de seu perfil com os lábios. No instante em que chegou a sua boca, ela gritou, virou-se e levantou para agarrar-se aos lábios em um desesperado beijo de cortar a alma. Abaixando-a na cama, ele afastou-se para apreciar sua nudez. Nenhuma fantasia evocara a beleza que fizera sua libido de refém desde sua primeira vez juntos. – Monadíkos, agapi mou ... rara. E era. Sua beleza ofuscava a das centenas de rosas brancas, creme e douradas com que ele enchera o quarto. Precisando adorá-la, para matar seu desejo e transformá-lo em ternura, ficou com as mãos trêmulas enquanto se despia. Em seguida, era todo dela novamente, traçando sua pele acetinada dos pés até as bochechas, provando, amassando e mordiscando, sentindo cada tremor de seu corpo. Finalmente sobre ela, se deliciava com a visão, perfume e sons de sua rendição, cada tremor e gemido pulverizando sua intenção de ser infinitamente lenta e suave. O sangue esquentou e ele perdeu o controle. Então, ela assumiu o controle, pairando sobre suas costas e nádegas em silêncio com poder absoluto. Ele se rendeu, gozou entre suas coxas trêmulas, apertou os seios contra seu peito dolorido. Ela o conquistou, de forma irrevogável. Contra sua testa, rezou um rosário dizendo seu nome, e ela apertou-o contra seu corpo como se não acreditasse que ele estava lá. Precisava provar que ficaria para sempre, que era seu. Ele ficou de joelhos, segurou sua cabeça, nádegas, abaixou-se para beijála e depois penetrá-la. Ele mergulhou a glande no lugar úmido que lhe


dava boas-vindas, absorveu seus gemidos de prazer, embebedou-se com seus apelos para penetrá-la. Sucumbiu à inclemência de seus desejos, recuou para ver seus olhos quando começou a penetrá-la. Seu corpo agitava-se em volta com seu avanço, quente, apertado quase insuportável. Seus dedos cravaram em seus ombros, forçando-o a penetrá-la mais fundo. Ela não tirava os olhos dele, deixando-o ver cada sensação afetá-la, sua tez cor de mel brilhando de prazer, contrastando com o dourado em que estava deitada. – Panémorfi ... demais, além de qualquer descrição agapi mou. Os mestres pagariam com sangue para capturar sua beleza para a eternidade, e como é por dentro, uma loucura, magnífica. – Você que é bonito demais, fica magnífico dentro de mim. Entregue-se a mim, agapi mou. Ouvir as palavras gregas dos lábios dela foi uma surpresa. Ela nunca dissera “meu amor” para ele em qualquer idioma. Ele levantou-se com braços estendidos e observou-a. Sempre soube que havia desejo. Mas sem a confiança, a certeza, ele achava que o amor não fosse possível, não do jeito que vira com seus irmãos. Naomi desenvolvera uma nova dimensão às suas emoções? Ou o carinho fora alimentado apenas pelo prazer enlouquecedor? Não que isso importasse. Ela se comprometera a ficar com ele, e deixá-lo ficar com ela e Dorothea para sempre. Aceitaria o que ela pudesse e quando pudesse lhe dar. Desejo poderia transformar-se em amor. Agora ela precisava de realização. Ele lhe daria tudo que precisasse. Alimentando seu desejo, penetrou-a profundamente, rejeitando a sanidade enquanto ela aceitava tudo, selvageria, abandono. Ela chorava procurando seus lábios, sua língua duelava com a dele. Seu ritmo se acelerou. O mergulho transformou-se em estocadas até que seus gemidos transformaram-se em gritos. Ela arqueou-se em um clímax tão intenso que provocou gritos, arrancou-a do prumo. A sensação de dever cumprido desencadeou seu próprio alívio. Rezando para que um dia seu sêmen se enraizasse em seu ventre e criasse um milagre como Dorothea, moveu-se dentro dela, prolongando o


orgasmo. Um clímax após outro, e ficaram presos em um curto-circuito de estímulos, fundindo-se em um só. – Omorfi gynaika mou – murmurou ele ao se virar, trazendo ela para cima, mantendo-se unidos. – Mou Omorfi sýzygó. Ele virou-se surpreso, abraçou-a mais forte. – Você entendeu. – Eu sei mais grego do que você imagina. Ele levantou a cabeça, olhou para ela, inebriada de prazer. Ela aprendeu grego, sem dúvida por ele, ao menos o suficiente para entender suas palavras, e respondera para seu espanto, chamando-o de seu belo marido, o que aumentara mais ainda o seu desejo. Ela levantou-se um pouco, seu cabelo caiu sobre o peito dele como uma chuva de fios de ouro. Ela lhe deu um sorriso desinibido, saciado, mas insaciável. – Agora que me deu carinho, é hora de me devorar. Ele abraçou-a forte, faminto novamente como se não tivesse acabado de encontrar satisfação total. – Seu desejo é uma ordem sempre. Você pode considerar isso só o aperitivo, para prepará-la para o prato principal que planejei para o resto da noite. – Ah, sim, por favor. Pegando-a no colo, levantou-se da cama. Em seguida, com ela junto ao seu coração, saiu pela casa agora deserta até a piscina onde uniram suas vidas. Todo o caminho até lá, ela acariciou e beijou-o, e agarrou-se como se fosse parte dele. E pelo resto da noite, ela se deu e recebeu, com êxtase, aprofundando sua escravidão sexual. E a dele. ERA MADRUGADA quando Andreas terminou de cumprir sua promessa dando a Naomi uma noite de núpcias que superou até mesmo seus tempos mais explosivos. Cada toque, cada suspiro, fora puro êxtase. Agora ela dormia aninhada a seu lado, sentindo pela primeira vez o que era perfeição. Mas era possível que tudo fosse tão perfeito?


E continuaria assim? A vida lhe ensinara que qualquer medida de felicidade exigia um preço terrível. Qual seria o preço de toda essa felicidade? E quando o destino exigiria seu pagamento?


CAPÍTULO 12

O NOVO vício de Naomi tornara-se acordar na cama com Andreas, depois de fazer amor a noite toda e ficar entrelaçada, saboreando os ecos da paixão, preparando-se para outro mergulho, conversando durante todo o tempo. Mas isso era apenas uma das delícias de suas vidas agora. Outra era não lembrar onde estavam quando abria os olhos todas as manhãs, por causa das mudanças constantes entre Creta e Nova York. Manter tudo emocionante era o melhor dos mundos. E como se tivessem sempre vivido assim, mergulharam na vida a dois, misturando noivos apaixonados com pais de Dora, e membros ativos da “sua” família e nos negócios. Manter esse equilíbrio emocionante só foi possível por causa das conversas e apoio um do outro. Naomi esperava que fosse tão vital para ele quanto ele era para ela. Ele insistiu que descobria a si mesmo, junto com ela, e que as descobertas eram todas graças a ela. Ela realmente esperava que o estivesse ajudando a explorar os tesouros dentro dele. E não tinha dúvida de que encontraria mais motivos para amá-lo. Ela agora acreditava que toda a mágoa fora um preço pequeno para ter o privilégio de encontrá-lo, conhecer sua verdade, mesmo contra todas as evidências e acabar tendo o que tinham agora. Falavam sobre a primeira festa de aniversário de Dora e como tudo acontecera junto, e, brincando planejavam o segundo bebê. Ou, pelo menos, Naomi brincava, não achava que ele falasse sério. Ele suspirou de prazer enquanto passava a mão por seu cabelo. – Mas eu acho que não podemos fazer planos sólidos agora, já que


– Mas eu acho que não podemos fazer planos sólidos agora, já que quando ela fizer dois anos provavelmente vai ter seus próprios pedidos para a festa. Naomi riu. – Eu estava certa! Você falava sério. – Sim, ria do homem que foi de um extremo ao outro. – Eu só faço isso porque você parece gostar muito da mudança radical. – E como. Muito radical. – Apoiando-se no cotovelo, uma expressão séria surgiu em seu rosto. – Ainda me lembro exatamente como se sentiu, eu não posso acreditar que já tive medo de ter um filho. Seu coração ficou apertado com a lembrança da briga que acabara com sua esperança de ficar com ele no passado. – Esse medo era apenas você ser responsável, quando você suspeitava que pudesse ter herdado a frieza de seu pai. Mas sem o machado de Kyría pairando sobre sua cabeça, o medo deve ter feito você perceber que não era como ele. Pessoas insensíveis não temem prejudicar os outros. – Eu não estava preparado para testar se era como meu pai ou não, não com a vida de uma criança envolvida. E aí, o destino me deu Dorothea. A magnitude da emoção que ele transmitiu deixou Naomi trêmula. – Você nunca a chama de Dora. Seus lábios se derreteram com o profundo carinho que reservava apenas para Dora. – É como eu pensava nela desde o primeiro instante. Essa criaturinha mágica de um reino que eu nunca sonhei que pudesse entrar. – De repente, ele franziu a testa, como se tivesse uma ideia. – Mas eu vou chamá-la de Dora, se você preferir. – Ah, não, eu amo que tenha seu próprio nome para ela. Acho que ela sabe disso, e é parte do laço especial entre vocês. Algo que é só seu e de mais ninguém. – Eu espero que você esteja certa. De minha parte, algo inexplicável aconteceu dentro de mim desde a primeira vez que a vi. Mesmo que eu não estivesse preparado para perceber o que era. Tudo o que Petros significou para mim se misturou com sua fofura e com o jeito que ela estendeu a mão para mim com curiosidade e aceitação. Eu acho que ela instintivamente reconheceu o meu envolvimento, só fui em frente, confirmei. Eu me sentia


oprimido pela necessidade de protegê-la, meu medo de mim mesmo estava tão enraizado que eu não podia acreditar no que estava sentindo e tinha de ter certeza de que era verdadeiro. – Não demorou muito tempo para ter certeza. – Eu estava irrevogavelmente envolvido depois da primeira noite e depois do primeiro dia em nossa casa em Manhattan Beach. Mas eu ainda não tinha certeza de como iria reagir em longo prazo, diariamente, se ela se tornasse parte da minha vida. Mas depois desse mês, tive certeza. O que eu senti desde o início era real, e só vai aumentar com o tempo. Não há absolutamente nada que eu não faria por ela, e não posso imaginar que pudesse amar alguém tanto quanto amo a nossa preciosa Dorothea. – Nem mesmo um filho nosso? Era muito cedo para ideias com tudo o que tiveram de conquistar durante os últimos dois meses para criar sua vida compartilhada. Naomi colocara um DIU um dia depois de ela ter ido para a sua suíte e tinha a intenção de mantê-lo no lugar até que tomassem a decisão de terem mais filhos. Ela não tinha dúvida que chegaria a hora certa. Agora as dúvidas a assombravam. E se Andreas quisesse Dora porque ela já existia? E se fosse tão especial para ele que não quisesse mais filhos? Naomi pensava se falaria sobre suas preocupações. Então ele começou a fazer amor novamente e cada processo mental parou, a paixão e o prazer causaram um curto-circuito. Depois, quando estava fora de seu alcance, as dúvidas voltaram para se vingar. Ela estava muito satisfeita que ele amasse Dora como uma filha. Encantada por ele e por Dora. Saber que o que ele sentia por Dora a desequilibrava, a fazia pensar que entrara nisso por acaso. Especialmente que ela não podia mais fugir do fato de que ele nunca declarara o que sentia por ela. E se ele fosse maravilhoso com ela só por causa de sua determinação em dar para Dora uma vida melhor? E se todas as suas ações fossem alimentadas pelos sentimentos paternos que descobrira dentro de si? Mesmo que isso fosse verdade, o que ela poderia fazer a respeito? Havia se casado, mais uma vez, sabendo que gostava mais dele do que ele dela. – Pare com isso.


Ela teve de dizer em voz alta para desfazer a espiral de pensamentos malignos. Não iria se preocupar e inventar mágoas. Seria infinitamente grata pela bênção de ter ele e Dora em sua vida. DUAS SEMANAS depois, estavam de volta a Nova York, ela decidira deixar suas vidas plenas serem levadas pela maré. Apesar de todos seus esforços, pensamentos pesados invadiam seu sono. Até que o pior se manifestara na noite anterior. Andreas precisou sacudi-la, arrastá-la das profundezas de um pesadelo onde ele e Dora fugiam, com ela correndo e gritando atrás deles, até desaparecerem. Até que ele conseguisse arrancá-la do pesadelo, ela estava chorando e tremendo, inconsolável, por mais que se esforçasse para acalmá-la. Ela não contou o sonho. Não parecia sonho, mas uma premonição. Ele se recusou a deixá-la ir trabalhar, até que lhe contasse o que a fazia ficar fora si. Quando ele insistiu em acompanhá-la, ela lhe assegurou que o consultório de um obstetra não era lugar para ele. Ainda assim, precisou fingir que estava totalmente curada do terror noturno, e jurar que sua visita ao médico era apenas um check-up, para Andreas ceder. No entanto, ele prometeu que estaria em casa quando ela voltasse. Ela sempre tinha momentos difíceis quando estava menstruada, mas depois que dera a luz a Dora, as coisas melhoraram. Até recentemente. Tinha de ser algo insuportável para ela ir à dra. Summers. Naomi não queria ver a obstetra de Nadine e dela também durante a gravidez, por todas as memórias que traria. Fora até a outro médico para colocar o DIU. Agora ela queria saber se o DIU era o responsável pelo doloroso período, forçando-a a buscar a médica que sabia de sua história. Uma hora mais tarde, Miriam Summers sorriu para ela depois que concluiu seu exame e tirou um pouco de sangue para testes. – Tudo está em ordem, com o DIU, pelo menos. Dando um salto para ajustar suas roupas, Naomi seguiu para fora do consultório. – Pelo menos? E o que não está em ordem?


– Nada, realmente. Você apenas tem congestionamento na região pélvica, e eu acho que isso é o que está causando a dor e sensação de peso. – Poderia ser psicológico? Miriam riu. – Na verdade, é muito fisiológico. É um sinal clássico de excitação constante e não aliviada. Você e seu marido não tem de se abster de sexo em todas as formas, enquanto você tem o seu período, você sabe. – Ah, sim. Andreas era a favor de métodos alternativos, era ela quem se recusava com medo de ser desagradável para ele. Com seu silêncio, Miriam correu para acrescentar: – Eu não vi você ou Nadine desde que Dora nasceu, então não tenho ideia do que está acontecendo com suas vidas. Mencionei um marido porque notei a aliança de casamento, e eu espero que eu não esteja errada. Naomi olhou para ela. Como poderia ter esquecido? Miriam Summers não fazia ideia que sua irmã estava morta. – Parece que cada vez que abro a boca pioro tudo. O que eu disse de errado agora? – Nada, nada... – Então, depois de se recompor, ela lhe contou sobre Nadine. A médica ficou, evidentemente, chocada. O silêncio que reinava sobre o consultório elegante tornou-se mais opressivo. Em seguida, Miriam falou de novo, baixo e com pesar. – Eu mal posso dizer o quanto estou arrependida, Naomi. Nadine foi uma de minhas pacientes favoritas, e não é todos os dias que vejo uma relação como a de vocês. Eu sinto muito pela sua perda, mas... Ela parou, parecia estar lutando com algo enorme. – Mas... mas o quê, doutora? – Eu acho que já que Nadine e Petros estão mortos, você deve saber a verdade. A VERDADE, a verdade... As palavras reverberaram dentro da cabeça de Naomi enquanto caminhava pelas ruas de Nova York sem rumo. A verdade sobre Dora e Nadine.


Nadine não tinha óvulos viáveis. Mas Petros a amava muito, sabia como se sentiria se não pudesse ter essa criança que queria mais do que tudo na vida. Ele implorou a dra. Summers para não contar a ela sobre sua infertilidade, mas para encontrar uma doadora e deixar Nadine pensar que o bebê era dela. Dora não era o que restava de Nadine para Naomi. Não era dela de qualquer maneira. O que aconteceria quando Andreas percebesse que ela não tinha direitos sobre Dora, o bebê que se tornara a filha que amava acima de tudo, quando ele nunca manifestara o desejo de ter outro com ela? Talvez ele soubesse o tempo todo. Talvez quisesse agora adotar Dora, mas Naomi não seria sua mãe oficialmente. Talvez não a adotasse e ficaria livre da confusão quando finalmente se cansasse e saísse de suas vidas. Talvez ele só precisasse dela porque era seu caminho até Dora, se casou com ela porque não tinha certeza se Dora cresceria ligada a ele sem a sua ajuda, sem a segurança de sua presença, e na normalidade de uma vida familiar que só o casamento poderia proporcionar. Mas Dora agora estava mais ligada a ele do que a Naomi. Talvez agora nem precisasse mais dela. A lógica dizia que se Andreas saísse um dia da vida de Dora, faria isso enquanto fosse jovem o suficiente para esquecer Naomi sem repercussões psicológicas. Assim como ela esquecera Nadine e Petros como se nunca tivessem existido. Agora Naomi via apenas duas possibilidades. Ou Andreas não sabia, e quando o fez, ainda quis incluí-la em suas vidas, mesmo que apenas por amor a Dora. Ou o pior cenário era sair de suas vidas num futuro não muito distante. Ela não tinha nenhuma razão para pensar que haveria uma terceira possibilidade. Andreas não a amava. Em seu novo emocionalismo vocal, teria dito, mas não ficou calada. DE ALGUMA forma, ela voltou para a casa que já não parecia sua. Entrando parecia sua primeira vez, como um hóspede relutando em pisar em um lugar que não lhe pertencia, e não devesse voltar. Sua presença a inundou mesmo antes de vê-lo caminhar em sua direção com expressão ansiosa.


Ele a abraçou apertado, antes de distribuir beijos por todo o seu rosto. – Eu estava prestes a sair à sua procura! Ela se esforçou para ficar firme ao se livrar de seus braços. Convivera com a incerteza por muito tempo. Agora, tudo o que ela precisava era saber de uma vez por todas. Ele se aproximava novamente, quando ela o deteve com duas palavras. – Eu sei. Caso tivesse alguma dúvida, se evaporariam com o brilho em seus olhos. Admissão. Ele sabia também, de tudo. Seu pesadelo, sua premonição, se tornara realidade. Ele e Dora nunca a pertenceram, mas agora se pertenciam. Precisariam menos dela a cada dia. Ela não podia esperar que acontecesse lentamente, se fosse morrer, preferiria um golpe brutal. – Naomi... Ela o interrompeu, com voz de robô. – Agora que eu sei que não sou parente de Dora, percebo porque Petros nem sequer me mencionou em seu testamento. Ele só queria que eu cuidasse de sua filha até você aparecer. E agora meu papel em sua vida acabou. – Como pode dizer isso? Dorothea precisa de você. – Eu sei que você faria de tudo para o que acha que ela precisa. Mas ela agora tem você. Ela o ama, e vai esquecer-se de mim logo depois que eu for embora. – Theos, Naomi, ne... – Vou contar tudo a Hannah, pedir para ela ficar, se você quiser. Então eu vou sumir. Desta vez, não pense que vou mudar de ideia, porque não vou. ANDREAS VIU Naomi ir embora. Foi mil vezes pior do que da outra vez. Ela se foi antes que parecesse arrasada, parecia fria. Como se não houvesse nada dentro dela, como se no instante em que descobrira que Dorothea não era filha de sua irmã, parasse de se importar, com ela e com ele.


Não fora o que temera quando escondera a verdade desde o início. Ele fora incapaz de confortá-la por acreditar que tinha uma parte física de sua irmã ainda viva e crescendo sob seus olhos e em seus braços. O bebê que considerava sua filha, depois de ter dado à luz, e ter criado com sua irmã, e depois sozinha. Mas seria possível que não amasse Dorothea como sua filha? Que todos seus sentimentos em relação a ela fossem apenas uma extensão de seu amor por Nadine, e, portanto, a conexão foi desfeita em sua mente? E ele? Ele pensou que ela sentisse algo verdadeiro e intenso. Enganara-se também sobre o que compartilharam? Ele queria correr atrás dela e dizer que não a deixaria partir desta vez, mas como poderia detê-la, se ela não amava Dorothea? E se ela nunca o amara? – TEM CERTEZA de que isso é o que parece? Andreas olhou para Aristedes. Nada do que seu irmão ou Caliope disseram fazia qualquer sentido. Em uma abordagem inédita, conhecendo o verdadeiro desespero pela primeira vez em sua vida, Andreas pedira conselhos, antes que ele perdesse a cabeça de vez. Depois que lhes contou o pouco que sabia, fizeram mil perguntas. A última fizera menos sentido do que qualquer outra. Aristedes questionou: – Tem certeza de que isso é a respeito de Dora? Foi um choque enorme para Naomi descobrir que a criança não é biologicamente de Nadine, não vejo como poderia causar uma reação diferente. Caliope concordou. – Sabendo o que sei sobre Naomi, foi só a última gota. – Por que última gota? – indagou Andreas gritando, nervoso. – Tudo estava perfeito. Até... Lembrou-se de repente, daqueles pesadelos. Os momentos terríveis que ela se contorcia em seus braços dormindo, chorando de agonia e desespero. Ele relatou o incidente, que o havia abalado, e que só foi superado pelo outro maior que acontecera algumas horas mais tarde.


– Mas isso foi um pesadelo! Não poderia ter nada a ver com o que aconteceu. Caliope apertou os lábios. – Talvez não tenha sido um pesadelo, mas uma manifestação de todos os seus medos, dúvidas e incertezas do passado. Talvez não tivessem resolvidos, e se sobressaíram enquanto ela dormia. – Você quer dizer seu passado comigo? Mas o passado não tem nada a ver com o presente. Eu era um homem diferente. Ou você quer dizer que tudo o que eu causei no passado nunca foi curado, e é por isso que ela não me amaria agora? Aristedes balançou a cabeça. – Pelo que ela me contou, e pelo que eu observei dela com você, acredito que o passado seja o motivo, mas não da maneira que você pensa. Na verdade, é porque você realmente não mudou no presente. – Do que você está falando? Ela me dizia como eu havia mudado radicalmente. – Você mudou, se aproximando das pessoas, e de suas emoções? Você já disse a ela como você se sente sobre ela? Sente alguma coisa por ela, Naomi, além de ser a terceira peça desta família da qual se tornou tão dependente e acredito que você não possa viver sem? – Então você acha que eu mudei de egoísta a abusivo, rápido assim? – Andreas fervilhava. – Eu tinha sentimentos só por ela, mesmo quando pensei que não tinha. Eu sempre a amei, e agora eu faço mais do que eu achava ser possível. Eu adoro Naomi e certamente não posso viver sem ela. Como ela mesma. Aristedes e Caliope trocaram um olhar paciente, fazendo ele querer destruir tudo. Antes que o fizesse, Aristedes virou-se para ele. – Já falou isso a ela? – É claro que... Ele não dissera. Com a cabeça girando, gaguejou. – Eu demonstrava... – Quer dizer que você nunca fez uma declaração como a que você acabou de fazer para nós? – interrogou Caliope alfinetando.


Ele fechou os olhos. – Não. – Nem uma única vez, nada parecido? No passado ou agora? Ele só podia sacudir a cabeça, sentindo-se sufocado. Caliope ergueu os ombros. – Ok, então, aqui está o que eu acho que ela pensa, o que a levou a fazer o que fez hoje. Ela sempre amou você, mas você nunca correspondeu, além de fisicamente. Então você voltou, mas o único envolvimento emocional que demonstrou foi com Dora. Naomi acha que você se casou com ela para dar a Dora uma família. Do ponto de vista dela, você nunca a amou, e tudo o que você acha que tem feito para demonstrar o seu amor não tem provado que a ama. Quanto mais tempo passou e você não fez nenhuma declaração, pessoalmente, mais ela se sentiu desvalorizada e mal-amada, e, pior de tudo, conveniente. Com o golpe de descobrir que ela não era parente de Dora, deve estar se sentindo inútil também, totalmente à deriva, já que acreditava que seu valor principal fosse a conveniência para você, ela apenas antecipou o fim. Indo embora agora, ela está se poupando de mais sofrimento e salvando Dora de um eventual trauma também. Aquilo tudo parecia plausível, mesmo porque cada palavra o atingia. Estivera tão envolvido em seus planos, em demonstrar seus sentimentos a Naomi, à sua maneira, que não havia parado para pensar se ela entenderia. Havia uma realidade que precisava enfrentar agora. Por que ele não confessara seus sentimentos. Ele sentiu que ficaria totalmente vulnerável, depois que ele pronunciasse as palavras, perderia seu poder totalmente, exporia suas fraquezas. A vida lhe ensinara a não fazer isso. E por ter negado a confiança dela, a perdera. – Eu não posso perdê-la. Eu não posso. Caliope correu para abraçá-lo. – Você não vai perdê-la, basta ir dizer a ela o que acabou de nos dizer. – A hora de falar passou, Caliope. – Aristedes balançou a cabeça, olhando para ele de modo solene. – Naomi o ama com cada fibra do seu ser, Andreas. Ficar com você no passado a matou, enquanto pensava que você não compartilhava o mesmo envolvimento. Resta sua dúvida e angústia agora. Foi por isso que ela o deixou uma vez, e por que o deixou de novo. Tudo o que ela queria era o seu amor. Se você não pode provar


que ela tem, e sempre teve, e que vai amá-la para sempre, não importa o que ou quem, você vai perdê-la. NA MANHÃ seguinte, Andreas estava em pé na frente do apartamento de Naomi, se preparando para outra batalha. Foi desnecessário quando ela abriu a porta. No instante em que a viu, soube que cada palavra que Aristedes e Caliope revelaram era verdade. Naomi o amava com todas suas forças. Por isso parecia acabada. Em vez de tal amor estar a seu favor, poderia ser por isso que não seria capaz de conquistá-la novamente. Desta vez, ela precisaria ter certeza absoluta da profundidade de suas emoções. Se a prova que ele trouxe não fosse suficiente... Ele não consideraria essa possibilidade. Apesar de tudo nele clamar por ela, teria primeiro que se dar antes de ter esperanças que ela o quisesse. Esbarrando nela, ele fechou a porta, então virou-se para ela. – Você acredita que eu amo Dorothea, Naomi? – Eu acredito. Acho que seus sentimentos são ainda mais intensos porque eles vieram depois de uma vida de privações. – Você acredita que eu faria qualquer coisa por ela. Mas você percebe que eu preferiria morrer a desistir dela? Ela assentiu com a cabeça novamente. Ele a presenteou com documentos. – Este revoga qualquer direito que eu tenha sobre Dorothea em seu favor. Agora você pode pedir para se tornar seu único parente. Silêncio. Nada além de silêncio enquanto ela olhava para os papéis em suas mãos, e depois para ele. – Esta é a minha prova para você, agapi mou, que Dorothea não tem nada a ver com a gente, que eu queria me casar com você. Você sabe que eu desejei você desde o primeiro momento em que a vi, mas o que você não sabe, o que eu nunca disse, é que eu amo você. Eu nunca fui capaz de articular minhas emoções, tinha até medo. Eu pensei que era mais seguro demonstrar, e tenho tentado desde que voltei. Eu tenho muito a aprender sobre como expressar meu amor por você, já que é tão grande, eu me perdi


dentro dele. Embora eu suspeite que nada que eu pudesse fazer transmitiria a magnitude do que eu sinto por você. Você é tudo para mim, Naomi, e eu não vivo sem você. Como Naomi continuou a fitá-lo, uma terrível dúvida o atingiu. – Não foi por isso que você me deixou? Porque suspeita dos meus motivos para estar com você? Ou me deixou porque você já não me ama? Eu destruí seus sentimentos por mim? Ou será que nunca me amou? De repente, ele se viu envolto em seus braços tão apertado que ficou completamente asfixiado. Seus lábios trêmulos estavam colados aos seus, lágrimas os molhavam, embora ele não soubesse se eram suas ou de ambos. Ela encheu seu rosto com beijos enquanto se agarrava cada vez mais forte nele. – Eu sempre o amei e sempre o amarei. Ah, Andreas, meu querido, s’agapo... – E quanto a Dorothea? Naomi afastou-se, debulhando-se em lágrimas. – Quase morri afastando-me dela, mas eu pensei que tivesse de me afastar um dia, mas era melhor para ela se eu fizesse isso o quanto antes. Andreas apertou Naomi nos braços que tremiam com muito amor, alívio e gratidão. – E agora, agapi mou? Vamos voltar juntos? Você vai me deixar adorar você pelo resto dos meus dias? Vai ser minha esposa e minha amante, dona do meu coração e da minha vida? Vai ser a mãe de Dorothea e o pilar de sua existência? Este bebê precioso que foi feito pelo amor de Petros e Nadine, e devolveu a vida a vocês, e agora vai crescer entre nós, dentro da nossa família, e ser amado para o resto de nossas vidas? Ele recebeu sua promessa, dada de corpo e alma, para seu alívio. Ele se revolvia em seus beijos e confissões, sentindo-se abençoado além da conta. – Naomi, s’agapo, eu a amo, amo tanto você... Seu telefone tocou em algum lugar no apartamento. Eles ignoraram. Nas três primeiras vezes. Então, de repente, ambos foram correndo, pelo mesmo motivo. Poderia ser Hannah... Dora. Não era. Pelo que Naomi respondeu, Andreas percebeu que era um


Não era. Pelo que Naomi respondeu, Andreas percebeu que era um médico. O que ela tinha ido ver? Enquanto ouvia a pessoa do outro lado, o rosto de Naomi ficou pálido, então ela fraquejou. Praguejando, seu medo crescendo, Andreas pegou-a em seus braços quando ela terminou a chamada, levou-a para o sofá e se ajoelhou no chão diante dela, segurando suas mãos. – O que é, agapi mou? – Eu fui fazer um exame, e... – Ela tomou fôlego. – Estou grávida. – Mas você teve seu período! Ela estava quase ofegante agora. – É um período falso, isso acontece. Especialmente porque uso DIU. A médica não percebeu porque é muito cedo, não mais do que duas semanas, mas o exame de sangue foi conclusivo. Naomi perdeu o fôlego quando parou, parecendo atordoada, e algo mais. Preocupada? – Você está preocupada? Em ter outro bebê tão cedo? Ela balançou a cabeça. – Na verdade, é sobre você. Você ama Dora tanto, eu estava pensando se você poderia querer outro. Ele a interrompeu com um beijo apaixonado. – Eu quero, Naomi. Quero outro bebê, fruto de nosso amor. Quero dois ou três ou muitos, como você desejar. Eu quero tudo e qualquer coisa com você. Afastando-se para ver a verdade absoluta de suas palavras em seus olhos, ela chorou aliviada enquanto afundava o rosto em seu peito. Em seguida com os olhos cheios de lágrimas olhou para ele. – Quero tudo e qualquer coisa com você, meu amor, para o resto da minha vida. Enquanto lágrimas que ele nunca chorara brotaram de sua alma, ele prometeu: – Nunca mais vou deixar você se sentir sozinha, ficar sem mim ou sem meu amor. Vou passar a minha vida demonstrando como reanimou meu coração e mostrou tudo o que vale a pena viver, como abençoou a minha vida, e me salvou.


Kathie DeNosky

DESTINOS CRUZADOS

Tradução Cydne Losekann


Querida leitora, Quando T.J. Malloy conheceu a vizinha, não ficou nada impressionado. Ela não era capaz de manter o cavalo do seu lado da cerca que separa os ranchos. E, aparentemente, não se importa em fazer os reparos necessários. Mas quando T.J. encontra uma mulher e seu filho isolados devido a uma enchente na estrada, seu instinto de cowboy não o permite abandoná-los, mesmo a pessoa em apuros sendo sua “inimiga” Heather Wilson. E assim ele aprende uma valiosa lição sobre primeiras impressões: as coisas nem sempre são o que parecem. Espero que se divirta com T.J. e Heather enquanto eles descobrem o caminho para o final feliz. Esburacada, com desvios e bloqueios inesperados ou curvas perigosas, a estrada para o amor nunca é tranquila. Porém, sempre vale à pena embarcar nessa jornada. Tudo de bom! Kathie


CAPÍTULO 1

SENTADO À mesa da sala de jantar de Sam e Bria Rafferty, após uma ceia de Natal deliciosa preparada por suas cunhadas, T.J. Malloy não parava de sorrir. Ele ouvia os irmãos de criação e as esposas conversarem sobre seus planos para a semana anterior à festa de Ano-Novo, realizada na fazenda dele. E, como sempre, havia provocações amigáveis e gargalhadas, e todos faziam caretas e barulhos engraçados para arrancar uma risadinha ou outra dos bebês. A vida era boa, e ele tinha uma sorte desgraçada, pois as coisas tinham tomado aquele rumo. Graças ao pai de criação, Hank Calvert, T.J. e os outros cinco sujeitos sob seus cuidados desde a adolescência tomaram rumo na vida. No processo, criaram laços e se tornaram uma família que T.J. amava de todo o coração. Agora, ele tinha sua própria fazenda, onde criava cavalos premiados – um sonho acalentado durante boa parte dos seus 32 anos. E, como havia feito bons investimentos, tinha mais dinheiro no banco do que poderia gastar numa vida toda. É, ele era abençoado, e era esperto o bastante para saber disso. – Sua vez, T.J. – disse Bria, sorrindo enquanto servia fatias de um bolo caseiro. – Quais são seus planos para a semana? – A mesma coisa do ano passado – respondeu, sorrindo para a cunhada. – Eu vou passar a semana treinando os cavalos e esperando vocês chegarem no dia 31. Quatro anos antes, quando comprou a fazenda Diamante Bruto e construiu a casa de sete quartos, todos os escolheram para dar as reuniões de Ano-Novo. Havia quartos o bastante na sua casa para acomodar a


família toda, que poderia passar as comemorações juntas sem precisar pegar a estrada depois de beber. Os irmãos levavam as esposas e namoradas e, depois que as crianças iam dormir, sentavam para conversar ou ver um filme. Aquilo virou uma tradição, e todo ano ele contava os dias. – Tem alguma mulher na sua vida que você vai trazer esse ano? – perguntou Nate Rafferty, sorrindo de orelha a orelha. Nate e Sam eram os únicos irmãos biológicos, mas não podiam ser mais diferentes. Sam estava muito bem casado, era do tipo família, enquanto Nate era mulherengo. Amava as mulheres e sua missão parecia ser namorar todas as moças do sudoeste inteiro. No entanto, por mais fanfarrão que fosse, tinha o mesmo senso de lealdade que Hank instilara em todos os seus filhos de criação. Faça chuva ou faça sol, Nate estava pronto para ajudá-los, assim como eles estavam sempre prontos para ajudá-lo. – T.J. tem uma mulher na vida dele, sim, Nate – disse Lane Donaldson, rindo e apoiando o braço nos ombros de Taylor, sua mulher. – Mas ele não quer se render e convidar a vizinha, sei lá por quê. – Você tinha que começar com essa, não é, Freud? – respondeu T.J., balançando a cabeça enojado. Ele devia ter adivinhado que Lane não ia conseguir passar sem um comentário. Mestre em Psicologia, ele sabia exatamente o que fazer para qualquer um deles perder a cabeça. – Ela e seu garanhão estão de um lado da cerca, e eu, do outro. E é assim que vai ser. Aquela tal de Wilson era vizinha de T.J. fazia quase dois anos, e ele a viu poucas vezes. Mas os irmãos viviam brincando sobre seu “interesse” na vizinha desagradável, embora não soubessem nada sobre ela além de que era muito descuidada com o cavalo. Ele nem sabia o nome dela. E não queria saber. – Você não a viu desde que botamos aquela cerca enorme entre sua fazenda e a dela na última primavera? – perguntou Sam, tentando desviar dos bolos de purê de batata que seu filho de dez meses catapultava da cadeirinha. – Não, eu nunca mais a vi, nem o cavalo, e estou muito bem assim. – T.J. não conseguiu conter uma risada quando o pequeno Hank acertou purê bem na ponta do nariz de Sam. – Agora que o garanhão dela já não pula mais a cerca, do que você vai


– Agora que o garanhão dela já não pula mais a cerca, do que você vai reclamar? – indagou Ryder McClain, rindo. A risada se transformou num grunhido quando Katie, sua filhinha pequena, errou o pano no seu ombro e batizou sua camisa limpa. – Obrigado, Kate – disse T.J., sorrindo e estendendo os braços para tirar a neném do irmão enquanto Summer, mulher de Ryder, limpava a camisa. – Você calou o bico do papai. – É bom você tomar cuidado, T.J. – alertou Ryder, devolvendo o sorriso. – Você pode ser o próximo. Cheiro de camisa limpa deixa minha filha enjoada. Ryder, o mais tranquilo do grupo de irmãos, era também o mais corajoso. Peão de rodeio, vivia salvando os outros peões de feridas sérias ou coisa pior. Mas, desde que casara e tivera Katie, dera uma enxugada na sua agenda e só trabalhava nos rodeios em que Nate e Jaron Lambert, outro irmão, competiam. T.J. desconfiava que ele queria garantir que os irmãos estivessem a salvo dos touros perigosos que montavam em sua odisseia para se tornarem campeões nacionais. E ele sabia que Ryder nunca iria admitir que era por isso que não havia parado de uma vez por todas. – Você vai à festa, Mariah? – perguntou Taylor, mulher de Lane, à irmã caçula de Bria. – Não devo ir – respondeu Mariah, devagar. Ela parou e olhou Jaron de rabo de olho. – Eu conheci um cara e ele me chamou para passar o AnoNovo numa boate em Dallas. Todos olharam para Jason, tentando ver como ele reagiria à novidade. A família inteira sabia que os dois gostavam um do outro desde que se conheceram, praticamente. Mas Mariah só tinha 18 anos na época, e Jaron concluiu – corretamente – que, com 26, era velho demais para ela. Infelizmente, nos sete anos que se passaram, Jason não mudara de postura e Mariah parecia ter cansado de esperar e partido para outra. – Parabéns pelo cara – disse Jaron, duro, quebrando o silêncio constrangedor. – Divirta-se. Quem visse de fora acreditaria que foi sincero, mas T.J. não se deixava enganar. Jaron tinha uma natureza mais reservada do que o resto, e era difícil saber o que se passava pela sua cabeça. Mas, quando ficava irritado,


sua voz assumia uma frieza impossível de ignorar. A rispidez estava presente agora – T.J. sabia que se tratava de um aviso para que os outros não mexessem com ele por causa de Mariah, nem agora nem mais tarde. Ele também sabia que todos os irmãos respeitariam o silêncio de Jaron. – Mas e você, Nate? – indagou T.J., na esperança de que ele aliviasse um pouco da tensão súbita que pairava no recinto. – Vai levar alguém esse ano? Nate balançou a cabeça. – Eu comprei a fazenda Carvalhos Gêmeos, em Beaver Dam, umas semanas atrás – afirmou, orgulhoso. – Ando muito ocupado ultimamente e só consigo pensar no que vou fazer com ela. – Quando foi isso? – perguntou T.J., espantado. – Não me lembro de ter ouvido você mencionar quando estávamos reunidos no Dia de Ação de Graças. – Eu não queria falar para não dar errado – respondeu Nate, e meteu uma garfada do seu pedaço de bolo na cama. A superstição dele não surpreendia T.J. nem um pouco. Todo peão que conhecia tinha alguma. Até ele tinha alguns rituais que sempre respeitava antes de subir em um cavalo rebelde nas competições. – Você vai fincar raízes? – perguntou Sam, sem conseguir acreditar que Nate estava falando sério. – Não me leve a mal, mano, mas nunca imaginei que iria chegar o dia em que você tomaria jeito – disse Ryder, balançando a cabeça. – Eu só comprei uma fazenda – respondeu Nate, sorrindo. – Eu não disse que ia tomar jeito. – Quando você se muda para o seu inferninho novo? – perguntou T.J., entregando Katie à mãe para que esta terminasse de lhe dar mamadeira. – Vai demorar um pouco. – Nate deu outra garfada no pedaço de bolo à sua frente e levou-a à boca. Encolheu os ombros. – Vou precisar fazer umas obras nela primeiro. Vou abrir algumas paredes para ampliar um quarto, e preciso dar uma melhorada na hidráulica e na elétrica. As cercas também andam precisando de alguns reparos e talvez eu tenha que construir uns celeiros novos antes de levar o gado. – Se precisar de ajuda, é só nos chamar e dizer o que temos que fazer – disse Lane, em nome de todos.


– Aviso sim, pode deixar. – Nate sorriu para as mulheres sentadas ao redor da mesa. – E conto com essas lindas senhoras para me ajudar a decorar a casa. T.J. ergueu a sobrancelha. – Até mesmo a suíte presidencial? Nate balançou a cabeça e deu um sorriso sugestivo. – Não, eu já tenho as minhas ideias para ela. – Não me espanta – disse Ryder, expressando em voz alta o que todos os outros homens estavam pensando. – Acho que podemos pular os detalhes da decoração que você pensou para o seu quarto – disse Bria, passando um pedaço de bolo para T.J. Todos concordaram e passaram o resto da tarde conversando sobre as obras na casa da fazenda de Nate, o que fez T.J. dar um suspiro de alívio. Como estavam distraídos falando de outro assunto, não mexeriam com ele por causa da vizinha. E, para ele, era mais conveniente assim. Quanto menos pensasse naquela mulher, melhor. Muitas horas depois, após terminar o planejamento para a chegada da família na festa de Ano-Novo, T.J. deixou a casa de Sam e Bria para tomar a estrada na viagem de uma hora de volta à sua fazenda. Chovera o dia todo, e, quando já estava chegando à saída que levava à casa da Diamante Bruto, começou a cair um verdadeiro dilúvio. T.J. começou a virar a caminhonete para entrar na estradinha, mas parou ao perceber um brilho vermelho fraco mais ou menos cem metros adiante. Pelo que podia ver, pareciam lanternas traseiras de um carro, e não teve dúvidas de que o riacho transbordara de novo e a estrada estava bloqueada. Aquilo só costumava acontecer umas três ou quatro vezes por ano, mas, sempre que caía uma chuva considerável, o ribeirinho preguiçoso que limitava a fazenda se transformava em uma corredeira furiosa. Com o tanto que chovera no decorrer daquele dia, o riacho devia ter subido uns seis metros e invadido os dois lados da ravina. Incapaz de ignorar o fato de que quem quer que estivesse ali no carro precisava de ajuda, T.J. continuou dirigindo até alcançar o sedan cinza compacto parado no meio da estrada. Havia alguém lá dentro e, a julgar pela forma esguia que conseguia divisar, esse alguém era mulher.


Maldizendo o tempo ruim, T.J. saiu da caminhonete e deu uma corridinha até a porta do motorista. – Posso ajudar a senhora em alguma coisa? – perguntou T.J. quando a mulher baixou o vidro. Ela parou na metade, e ele não entendeu se foi para se proteger da chuva ou porque viu que era ele que oferecera ajuda. Mas ele quase soltou um grunhido quando percebeu que a motorista era sua arqui-inimiga, a tal da Wilson da fazenda vizinha. Ele não a via desde a última vez que o cavalo dela pulara a cerca, na primavera, quando teve que levar o garanhão de volta para a Círculo W. Devia ser a décima vez que o cavalo invadia as terras da Diamante Bruto, e a paciência de T.J. com a situação se esgotara rápido. Foi então que pediu ajuda aos irmãos para erguer uma cerca de quase dois metros entre as duas propriedades. A cerca acabou com a dor de cabeça do cavalo, que vivia cortejando as éguas de T.J., e ele pensou que nunca teria que tratar com ela de novo. Ledo engano. – Era isso que eu temia – disse ela, aparentando estar tão irritada de vêlo quanto ele de vê-la. T.J. não sabia se ela queria dizer que temia não conseguir atravessar o riacho ou se temia que ele fosse sua única fonte de socorro. De qualquer forma, ela não estava em posição de ser muito seletiva, e ele não iria dar as costas para deixá-la se virar por conta própria. Provavelmente seu pai adotivo voltaria dos mortos para assombrá-lo se soubesse que um dos filhos que criou deixara uma donzela em apuros numa situação daquelas. – Mesmo se parar de chover agora, você só vai conseguir voltar para a sua fazenda amanhã de amanhã – apontou ele. Parado no meio do aguaceiro, a chuva fria pingava do seu chapéu de abas largas e escorria pelo pescoço. Era extremamente desconfortável, e ele não queria perder tempo. – Você vai ter que vir comigo para a Diamante Bruto. Pode passar a noite lá. Teimosa, ela balançou a cabeça. – Tudo bem que nós somos vizinhos, mas eu não conheço você bem e, pelas nossas brigas, não tenho a mínima vontade de conhecer. – Pode acreditar, moça, eu também não tenho vontade nenhuma – afirmou T.J., direto. – Mas você nunca vai conseguir atravessar dez metros de correnteza sem ficar presa ou ser carregada ravina abaixo. Aí eu vou ser


obrigado a mergulhar e pescar você antes que se afogue. Se possível, gostaria de evitar isso. – Ele respirou fundo e tentou conter seu gênio. – Tem outro lugar aonde você possa ir? Encarando-o, ela mordeu o lábio inferior como se estivesse tentando pensar em algum lugar no mundo – qualquer um – aonde pudesse ficar para não ter que passar a noite na fazenda dele. Por fim, balançou a cabeça. – Não. – Bom, eu que não vou deixar você passar a noite toda no carro – disse, impaciente. – Você não vai me deixar ficar no meu carro? Pelo tom de voz dela, ele percebeu que pisara em falso. – Olha, eu só estou tentando salvar você do desconforto de ter que passar uma noite úmida e desconfortável no seu carro – afirmou T.J. – Mas a escolha é sua. Se quiser ficar sentada aqui em vez de dormir numa cama seca, só depende de você. Quando se deu conta de que ela podia estar com medo, T.J. se sentiu um pouco mal por ter sido tão ríspido. Até conseguia entender por que ela relutava tanto em aceitar a sua proposta. Nas poucas vezes em que se encontraram, ele estava irritado. Ela devia pensar que ele era um canalha mal-humorado. E, infelizmente, ele não estava fazendo nada para mudar essa impressão. – Olha, me desculpe – disse, fazendo um esforço grande para não parecer impaciente. – Está frio, escuro e eu estou ficando molhado até os ossos. – Tinha esperanças de que o sorriso simpático que deu ajudasse a diminuir um pouco seus temores. – A minha casa é quente e tem bastante espaço. – Depois de pensar um pouco, acrescentou: – E todos os quartos têm chave. Ela olhou pelo retrovisor para alguma coisa no banco de trás, hesitou mais alguns segundos e balançou a cabeça. Parecia cansada e derrotada quando enfim murmurou: – Eu não tenho escolha. – Quando chegarmos à minha casa, você pode estacionar na garagem – ofereceu T.J. – Tem bastante espaço, e você vai poder se secar. – Tudo bem, vou seguir você – disse, levantando o vidro da janela.


Ele deu uma corridinha de volta para a caminhonete e ligou o motor. Depois de conferir se ela não estava tendo problemas para conseguir ligar o carro, ele dirigiu de volta para o caminho que levava à sua casa. Quando contornou a casa e parou a caminhonete diante da garagem, abriu duas grandes portas com o controle remoto e estacionou lá dentro. Quando saiu, a mulher já havia parado seu Toyota mais velho entre a caminhonete e a Mercedes que ele raramente dirigia. T.J. foi até lá e abriu a porta para ela. Quando a mulher saiu do carro, ele ficou sem ar. Nas vezes em que devolvera seu cavalo fugitivo e batera na porta dela para exigir que tomasse providências em relação às escapadas, bem como na conversa que tiveram fazia alguns minutos no meio da chuva, estivera tão irritado que não prestara atenção na aparência da vizinha. Mas agora não tinha como não perceber. Com um metro e oitenta, T.J. não conhecia muitas mulheres que podiam olhá-lo nos olhos sem ter que levantar a cabeça. Mas a tal da Wilson era só um pouco mais baixa que ele. Quando seus olhares se encontraram, ele se sentiu como se tivesse levado um soco no estômago. Ela tinha os olhos mais azuis que já vira na vida. Para o desespero dele, T.J. sentia vontade de soltar aquele cabelo louro avermelhado do rabo de cavalo e passar as mãos pelas mechas macias e onduladas. Ela não era simplesmente bonita, era estonteante, de deixar qualquer um sem ar. Incrível que ele não tivesse percebido antes. Quando ela se virou para pegar alguma coisa no banco de trás, ele pensou por um instante que a moça andava com um saco de dormir por garantia. Mas, quando ela se voltou para encará-lo, T.J. teve que se conter para não ficar de queixo caído. Num braço, ela levava uma criança envolta num cobertor; com a outra mão, tentava levar sua bolsa e uma sacola com as coisas do bebê. No intervalo de três segundos, muitas perguntas passaram pela cabeça de T.J. Primeiro, lembrou que, quando ele parou para ver se ela precisava de ajuda, a moça estava sentada no carro pensando no que fazer para voltar à sua fazenda. Ela não tentaria atravessar a estrada alagada com a criança no banco de trás, tentaria? Sentiu um nó na garganta só de imaginar. Segundo, quando ele perguntou se não havia nenhum lugar onde ela poderia passar a noite, a vizinha disse que não. E o que ela teria


feito se ele não aparecesse oferecendo um lugar onde pernoitar? Teria tentado aguentar uma noite no carro com uma criança? – Pode deixar que eu ajudo – disse ele, adiantando-se para tomar as bolsas. Além de ser educado da parte de um homem se oferecer para ajudar uma mulher a carregar suas coisas, as olheiras enormes sob seus olhos indicavam que estava exausta. – Obrigada... Malloy. – Ela balançou a cabeça quando fechou a porta do carro. – Eu não sei o seu nome. Quando deu um passo atrás para deixá-la entrar na frente no vestíbulo, T.J. tentou dar um sorriso simpático. – O meu nome é T.J., sra. Wilson. Percebeu que, nos quatro anos que se passaram desde que comprou a fazenda, andou tão ocupado com a criação de cavalos e ajeitando a casa que não se dera ao trabalho de travar contato com as fazendas nas cercanias. E, nos poucos encontros que tivera com a sra. Wilson, as circunstâncias não eram das melhores. T.J. estava sempre tão irritado com o garanhão, que não parava de cruzar com suas éguas, que nem se dignara a se apresentar. Como seria de esperar, ela não dissera seu nome nem trocara amabilidades, pois ele a deixara na defensiva. Sentia-se um pouco culpado por isso. Ora, a quem queria enganar? T.J. sentia vergonha do seu comportamento. Por mais irritado que estivesse, ele era um homem de boa educação e não devia ter sido tão duro. – Meu nome é Heather – disse ela enquanto entravam na cozinha. Quando ele acendeu a luz, ela parou e olhou ao redor. – Sua casa é muito agradável. – Obrigado. – Ele deixou a bolsa e a sacola do bebê na ilha da cozinha, depois tirou a jaqueta molhada e ajudou-a a tirar o casaco. – Não quer nada para comer ou beber, Heather? – perguntou, dando o melhor de si para ser cordial. – Obrigada, mas já está tarde e, se não for nenhum incômodo, queria botar meu filho para dormir agora – respondeu. A julgar pela sua voz, ela parecia prestes a dormir em pé de cansaço. – Sem problema. – Pendurou os casacos, apanhou as suas bolsas e conduziu-a pelo corredor até chegarem à escada. – Não quer ligar para alguém para avisar que você e o menininho estão bem?


T.J. se perguntava onde estava o companheiro dela, por que não estava lá. Nenhum homem que se preze deixaria a mulher sair sozinha numa noite como aquela. Na opinião dele, não havia justificativa para o cara não estar no celular com ela naquele exato instante para saber se ela e o filho estavam fora de perigo e iriam ficar bem. Subindo a escada, ela balançou a cabeça. – Não. Não tem ninguém. Somos só eu e Seth. Quando T.J. parou e abriu a porta do primeiro quarto do segundo andar, ele deu um passo para trás e a deixou entrar na frente. – Primeiro as damas. – Seguindo-a para dentro do quarto, acrescentou: – Se esse não for do seu agrado, tem mais cinco quartos para você escolher. – Está ótimo, obrigada – respondeu ela, estendendo as mãos para pegar a bolsa e a sacola do bebê como se quisesse que ele se retirasse. Quando a mão dela roçou a dele, T.J. sentiu cócegas na pele e logo calculou que devia ser uma carga de eletricidade estática. Mas não podia ignorar tão facilmente o calor que sentia irradiar dela. Franzindo o cenho, perguntou: – Está tudo bem com você? – Já estive melhor – admitiu ela, deixando as duas bolsas no banco ao fim da cama. Sem nem parar para pensar que podia estar sendo invasivo, T.J. se aproximou e pôs a mão na testa dela. – Você está com febre. – Levantando um pouco a coberta, viu as bochechas vermelhas do bebê adormecido. – Vocês dois estão doentes. – A gente vai ficar bem – disse ela, deixando o menininho na cama. – Eu tive que levar meu filho na emergência. Eu estava voltando para casa quando você parou para ver se a gente precisava de ajuda. – Qual foi o diagnóstico? – perguntou T.J., torcendo para que o garotinho ficasse bem. – Ele está com otite. – Ela puxou a bolsa com as coisas dele. – Deram antibiótico e passaram um remédio para dar no caso de a febre subir. – E você? – indagou T.J. – Você foi atendida por um médico enquanto estava lá? Ela balançou a cabeça. – Eu vou ficar bem. Estou só no fim de uma gripe.


– Você devia ter procurado um médico também – disse, sem conseguir disfarçar a nota de censura em sua voz. – Bem, eu não procurei – redarguiu Heather, como se ressentisse a observação. – Agora, se me dá licença... – Enquanto você põe ele na cama, eu vou procurar alguma coisa para você usar para dormir – interrompeu e saiu do quarto antes que ela pudesse protestar. Ao entrar na suíte presidencial, T.J. foi direto ao armário do espelho do banheiro. Pegou um frasco de paracetamol de uma das prateleiras, voltou para o quarto e olhou ao seu redor. O que poderia dar para ela vestir? Ele gostava de dormir como veio ao mundo e não tinha pijama nenhum. Concluiu que o jeito seria levar uma camisa de flanela, escolheu uma do closet e voltou para o quarto onde Heather e o filho iam passar a noite. – Isso aqui serve? – perguntou T.J., estendendo a camisa macia para que ela inspecionasse. – Desculpe, mas eu não tenho nada mais confortável. – Eu podia dormir com a minha roupa de corpo – disse ela, cobrindo a criança. Virou-se para ele e apanhou a vestimenta que T.J. ofereceu. – Mas muito obrigada por... Tudo. – Tenho uma coisa aqui para a sua febre – disse ele, entregando o frasco de paracetamol. Ele foi até o banheiro do quarto, encheu um copo d’água e entregou-o a ela enquanto apontava para o frasco. – Tome um comprimido. Se precisar de mais alguma coisa, é só bater no meu quarto, que fica no fim do corredor. – Vai ficar tudo bem com a gente – respondeu. Ela tirou dois comprimidos do frasco. Ele a encarou por um instante, perguntando-se pela segunda vez desde que a achara presa na estrada como é que nunca tinha reparado na beleza dela em todas aquelas vezes que a vira. Mesmo com olheiras enormes, chamava a atenção, era o tipo de mulher que fazia qualquer sujeito pensar se... – Mais alguma coisa? – perguntou ela, trazendo-o de volta à realidade. Concluindo que a chuva devia ter carregado um pouco do seu bom senso, ele balançou a cabeça. – Boa noite. Quando saiu do quarto, fechou a porta e começou a se dirigir aos seus


Quando saiu do quarto, fechou a porta e começou a se dirigir aos seus aposentos; ele ouviu o barulho silencioso do ferrolho sendo girado. Naquelas circunstâncias, compreendia a precaução. Nos dias de hoje, a mulher tem que tomar cuidado. Ela não o conhecia e, até aquela noite, ele nunca lhe dera motivos para querer que fosse diferente. – Como homem, você é um fracasso – murmurou T.J. consigo mesmo. Ele sempre pensara que ela era só uma mulher arrogante e descuidada que ignorava seus pedidos para segurar o cavalo em casa. Nunca lhe ocorrera que era tão vulnerável e ocupada quanto qualquer mãe solteira. Claro, ele não sabia do filho até aquela noite. Mas não tinha desculpa para sair tirando conclusões precipitadas do jeito que tirara. Enquanto tirava as roupas molhadas e entrava no chuveiro para se livrar da sensação desagradável da chuva gelada, T.J. não conseguia tirar da cabeça aqueles dois hospedados no outro lado do corredor. Não sabia qual era a história de vida de Heather e do menino, mas não fazia diferença. Por mais que ela não quisesse aceitar sua ajuda, não tinha escolha naquele momento. Tanto ela quanto o filho estavam doentes e, como não havia mais ninguém para se encarregar do bem estar deles, T.J. teria que assumir o papel. Uma das primeiras lições que Hank Calvert ensinou a ele e aos irmãos foi que, quando vissem alguém passando necessidades, a atitude correta era se aproximar e estender a mão. Ele dizia que a vida podia ser um obstáculo e, às vezes, era preciso um trabalho em conjunto para superá-la. E, se tinha alguém que precisava de ajuda, esse alguém era Heather Wilson. Claro, T.J. imaginava que Hank nunca havia esbarrado com uma pessoa tão orgulhosa quanto Heather. Aquela mulher usava seu orgulho como um muro para afastar os outros e era independente além da conta. Ele se secou com a toalha, voltou para o quarto e foi para a cama. Passou longos minutos acordado, olhando para o teto enquanto ouvia as gotas de chuva tamborilando no telhado. A situação de Heather lembrava muito a da sua mãe. Delia Malloy fora mãe solteira, com todas as responsabilidades a que tinha direito. Fizera um ótimo trabalho para se manter em um emprego e sustentar a família de dois quando ele era pequeno. T.J. sempre seria grato


pelos sacrifícios que ela teve que fazer. Mas, quando ele tinha 10 anos, os dois foram derrubados por uma gripe. Foi então que sua vida mudou para sempre. A mãe cuidou muito bem dele e fez com que o filho se recuperasse sem maiores dificuldades, mas o que não conseguiu fazer foi cuidar de si. Fisicamente esgotada, desenvolveu um quadro de pneumonia e não foi capaz de combater a infecção. Morreu uma semana depois e T.J. teve que ir morar com a bisavó. Daí em diante, tudo foi ladeira abaixo. As coisas foram de mal a pior, até ele acabar na Fazenda da Última Chance. A bisavó era muito velha para ficar de olho no que ele fazia e com quem andava. E ele estava sofrendo muito com a perda da mãe para escutá-la. Em retrospecto, era batata que acabaria se envolvendo com más companhias, e, aos 13 anos, já tinha sido preso cinco vezes por vandalismo. Pouco depois, a bisavó faleceu e ficou decidido que, se ele ficasse com pais adotivos normais, seria mais do mesmo, então o deixaram sob os cuidados de Hank Calvert. E, embora tenha sido a maior sorte da sua vida, faria tudo ao seu alcance para que o menino de Heather não tivesse que seguir o mesmo caminho que seguira na infância. O menininho precisava ter a mãe do lado até virar adulto, o que, pelo bem dele, T.J. iria garantir – pelo menos agora. Heather podia não gostar, mas ele iria tomar conta dos dois enquanto estivessem doentes e ilhados. Com isso, cuidaria para que o garoto não tivesse uma infância órfã como a sua. PERTO DO amanhecer, um dia depois de ir para a casa de T.J. Malloy, Heather estava deitada na cama, sentindo-se como se houvesse sido atropelada por um caminhão. Ao avaliar seus sintomas, percebeu que, embora seus músculos não estivessem mais tão doloridos quanto estavam nos últimos dias, estavam muito fracos. Precisava fazer um esforço monumental só para levantar a cabeça do travesseiro. Felizmente, a dor de cabeça havia passado, mas, num instante, morria de calor e, no outro, tremia de frio – ou seja, sua temperatura ainda estava alta. Foi uma sorte ter conseguido arranjar dinheiro para levar Seth ao médico uns meses


antes e lhe dar a vacina de gripe. Pelo menos não precisava ficar com medo de que ele fosse pegar a doença dela. – Mamãe, mamãe – disse Seth, sentando-se e dando tapinhas carinhosos no braço dela. Pela voz trêmula dele, percebeu que Seth estava prestes a chorar e sabia por quê. Para uma criança com menos de dois anos, ele dormia muito bem e, desde os três meses, não acordava à noite. Mas só estava acostumado a dormir na cama dele e devia estar se sentindo confuso naquele ambiente desconhecido. – Está tudo bem, amor. Acariciando as costas dele, ela tinha esperanças de que o menino deitasse de volta e dormisse um pouco mais antes que ele insistisse para levantarem e tomarem o café da manhã. Desde que contraíra a gripe, era uma verdadeira luta cuidar de um neném e de um estábulo cheio de cavalos sozinha, e era inevitável que quisesse dormir um pouco mais enquanto podia. Por sorte, era um caso brando da doença, do contrário não teria conseguido se virar por conta própria. Mas, como não conseguia arrumar tempo para descansar, estava demorando muito mais que o normal para ficar boa. Justo quando Seth fechou os olhos e parecia estar começando a pegar no sono, uma batidinha na porta o fez acordar de um pulo e começar a chorar. Tremendo de frio e sentindo-se como se suas pernas fossem vara verde, Heather pegou o menino no colo e levantou da cama. Sem parar para pensar que não estava vestindo nada além da camisa de flanela de Malloy e sua calcinha, foi até a porta e a destrancou. – Que foi? – Acho que você e o menininho deviam comer alguma coisa – disse Malloy, estendendo uma bandeja de comida. Se estivesse se sentindo melhor, ela teria tentado não ser tão impaciente. Talvez reconhecesse a gentileza dele. Naquele momento, só de pensar em comida ficava de estômago embrulhado, e preferia que ele não tivesse acordado seu filho. – O-obrigada, mas... – Parou de falar quando percebeu a expressão dele. – Aconteceu alguma coisa?


– Deixa que eu ajudo você a voltar para a cama – disse, passando por ela e deixando a bandeja em cima da cômoda. – Eu nem pergunto se você está com febre porque sei a resposta. – C-como? – Ela queria que seus dentes parassem de bater como duas castanholas baratas. Ele virou-se, tomou Seth do colo dela, passou o braço no seu ombro e a conduziu de volta para a cama. – Só um palpite. Quando estava na cama de novo, ela percebeu que Seth havia parado de chorar e estava olhando para a bandeja de comida que Malloy tinha deixado em cima da cômoda. – Mamãe, papar. Resmungando, ela começou a se levantar, mas Malloy a deteve. – Ele quer dizer que está com fome, não é? – Quando ela fez que sim, ele apontou para a bandeja. – Eu trouxe torrada e ovos mexidos. Você acha que ele vai me deixar dar comida enquanto você descansa? Ela assentiu com muito esforço, enrolou-se na coberta e fechou os olhos. Se estivesse se sentindo melhor, iria perguntar por que ele estava sendo tão gentil com ela. Em vez disso, não parava de admirar a beleza dele. Prendeu a respiração. De onde saíra aquilo? Se estava admirando a beleza de T.J. Malloy, a febre devia estar fazendo Heather delirar. Era a única explicação. Se conseguisse descansar um pouco, poderia levantar e dar de comer ao filho, além de voltar a si.


CAPÍTULO 2

AO ABRIR os olhos de novo, Heather viu por uma abertura na cortina que o sol já brilhava e Seth estava dormindo feito pedra na cama ao seu lado. Depois de olhar com mais atenção, percebeu que ele estava vestindo um pijama que ela nunca tinha visto antes e o cabelo ruivo feito cobre estava penteado para o lado. Quanto tempo teria dormido e de onde saiu aquela roupa que seu filho estava vestindo? Olhou para o relógio sobre o criado-mudo e, para seu espanto, já estava no meio da tarde. Ela dormiu oito horas seguidas. Não se lembrava de já ter conseguido dormir tanto tempo assim desde que Seth nasceu. Seu coração parou. T.J. Malloy tomou conta do seu filho? Lembrava-se vagamente de Seth acordar com batidas, ela abrir a porta e encontrar Malloy parado do outro lado com uma bandeja de comida. Ele a ajudara a voltar para a cama ou fora um sonho? Quando percebeu que estava só de camisa e calcinha, Heather fechou os olhos e desejou que, quando abrisse, estaria de volta na sua cama na fazenda Círculo W e se daria conta de que as últimas vinte e quatro horas não passaram de um sonho. Mas, fora o constrangimento de ser vista daquele jeito por um estranho, não gostava muito da ideia de Malloy cuidar de Seth. Não o conhecia bem e, com as brigas anteriores que tivera com ele, não sabia se ele era o tipo de pessoa que ela queria ver perto do filho. Nas poucas vezes em que Dançarino Mágico pulou a cerca entre as propriedades e Malloy o levou de volta, o sujeito fora o maior troglodita que já viu em toda a sua vida. – Os cavalos – murmurou de repente, lembrando-se de que precisava


– Os cavalos – murmurou de repente, lembrando-se de que precisava alimentá-los. Com sorte, a estrada não estaria mais alagada. Tinha que voltar para cuidar dos cavalos e para ver se os baldes que deixava para conter as goteiras no telhado do depósito não tinham transbordado. Ao sentar-se, percebeu que estava bem melhor do que de manhã. Estava sem febre. Talvez ela tivesse conseguido superar o pior da gripe. Passar a noite toda e boa parte do dia dormindo devia ter sido uma ajuda tremenda. Pena que não teve a oportunidade de descansar tanto assim e ficar doente. Sua recuperação teria sido muito mais rápida. Mas esse era um luxo que não tinha fazia muito tempo, chegava a ser difícil lembrar como era ter ajuda com o que quer que fosse. Depois que Seth nasceu, foi obrigada a despedir os homens que trabalhavam para seu falecido pai por falta de dinheiro. Foi o único jeito que encontrou de segurar as pontas na Círculo W. Ou seja, tinha que alimentar os cavalos, fazer reparos no haras e cuidar de todas as outras infinitas tarefas que apareciam numa fazenda, tudo isso enquanto tomava conta de um bebê. Com cuidado para não acordar Seth, tentou se levantar, mas se sentou imediatamente na cama quando seus joelhos começaram a tremer. Podia estar se sentindo melhor, mas continuava muito fraca. Seria um verdadeiro teste de resistência carregar baldes d’água e fardos pesados naquele estado. Ela tentou de novo e conseguiu andar até a cadeira de balanço onde deixara suas roupas na noite anterior, quando, de repente, a porta se abriu. – Você devia estar dormindo – disse Malloy, entrando no quarto e andando até ela. Tudo bem que ele tinha todo o direito de entrar sem pedir licença, afinal, a casa era dele. Mas ela não gostava daquilo. Ela agarrou o jeans e o suéter e tentou tapar-se com eles. – Que tal bater na porta antes de entrar? – Eu queria dar uma olhada no menininho e não esperava que você já estivesse acordada. – Ele deu de ombros como se aquilo não o incomodasse nem um pouco. – Como você está se sentindo? – Estou me sentindo bem melhor, e, assim que me vestir, Seth e eu vamos para casa e deixaremos você em paz. – Queria que ele saísse do quarto para poder tomar um banho rápido antes de Seth acordar.


– Não pense em voltar para casa agora – disse ele, envolvendo-a com aquela voz rouca como se com uma capa macia. – Você devia ficar aqui até não ter mais risco de recaída. Heather balançou a cabeça, em parte para recusar a sugestão, em parte para tentar conter o efeito hipnótico da voz dele. – Agradeço muito por tudo o que fez, mas eu não quero incomodar. – Sentindo os joelhos bambos, sentou-se na cadeira de balanço. – Além disso, preciso alimentar meus cavalos. – Você só tem que descansar e ficar boa – disse, sorrindo. – Mandei um funcionário lá assim que a água baixou, mais ou menos ao meio-dia, para avisar que vocês estão bem. Como não tinha ninguém, ele se encarregou de alimentar os cavalos para você. Ela olhou para ele e uma observação inesperada lhe ocorreu. T.J. Malloy não era apenas bonito: era de outro mundo. Ficou sem ar. Nas poucas vezes em que ele fora devolver seu cavalo, não percebera nada além da sua carranca e sua postura formidável quando ameaçou entrar na justiça se não desse um jeito de impedir que o garanhão pulasse a cerca. Mas, sem o chapéu de caubói de abas largas cobrindo o rosto, ela via uma bondade em seus belos olhos esverdeados, que nunca teria esperado. E, por algum motivo, achava seu cabelo castanho, que formava caracóis atrás das orelhas e na nuca, sexy e bem cativante. Franziu o cenho. De onde tirara aquilo? Como conseguia achar alguma coisa naquele homem atraente? Devia ser alguma espécie de efeito residual da febre. Por causa dele, via Malloy de outra perspectiva. Com certeza, assim que recobrasse as forças, voltaria a si e constataria que T.J. Malloy continuava sendo o homem desagradável e sem atrativos de sempre. – Você está se sentindo bem? – perguntou ele, preocupado. – Er... Estou – respondeu ela, fazendo que sim. – Só estou um pouco fraca. – Ao pensar melhor, acrescentou: – Obrigada por mandar um empregado seu para cuidar dos meus cavalos. – Não foi nada. – Ele deu de novo o mesmo sorriso que criou a ilusão de que ele podia ser agradável. – Você deu o fim de semana de folga para os seus empregados? – Se você mandou um dos seus para cuidar dos meus cavalos, imagino


– Se você mandou um dos seus para cuidar dos meus cavalos, imagino que você não deu para os seus – falou em vez de responder. Ela não queria dizer que havia mandado os dois funcionários embora. Em parte, era questão de orgulho. Não queria que Malloy percebesse que a Círculo W estava passando por um momento tão difícil. Mas também não queria que ninguém soubesse que ela e o filho moravam sozinhos na fazenda. Não que fizesse grande diferença, mas ela se sentiria um pouco mais segura se os outros acreditassem que os empregados ainda moravam lá. – Eu até ofereci, mas eles preferiram ganhar o dobro para trabalhar no fim de semana – disse, sem saber no que ela estava pensando. – Então você não vai precisar se preocupar com os cavalos até seus homens voltarem na segunda. Eu vou mandar alguém para cuidar deles amanhã e domingo. – Não precisa – insistiu. – Eu mesma cuido. Teimoso, ele cruzou os braços e balançou a cabeça. – Você precisa pegar leve por mais uns dias até ficar completamente boa da gripe antes de começar a fazer muito esforço. Não vai ser bom nem para você nem para o garoto se for para o hospital com pneumonia. – Algo no tom e nos gestos dele lhe diziam que T.J. estava determinado a ter a última palavra. Tão determinada quanto ele, ela balançou a cabeça. – Não se preocupe comigo, eu vou ficar bem. – Foi o que você disse ontem à noite e hoje de manhã – apontou. – Você mal tem forças para ficar de pé. Eu não diria que isso é estar muito bem. Ele devia ter razão, mas ela odiava admitir que ele estava certo, quase com a mesma intensidade com que odiava achá-lo lindo e maravilhoso. – Por que você se importa tanto? – perguntou ela, direta. Aparentemente, a gripe tirara um filtro do seu cérebro. Não conseguia guardar as coisas para si, nada do que lhe passava pela cabeça. A expressão tranquila dele se tornou a carranca séria que ela estava acostumada a ver com mais frequência. – Gripe não é brincadeira. Pode causar problemas sérios. Só quero garantir que você vai estar aqui para cuidar do seu filho, minha senhora. Sabia que ele só queria fazer o que julgava certo, mas tinha muito tempo que ninguém se dignava a ajudá-la com o que quer que fosse ou a dar


sinais de que se preocupava com o seu bem-estar. Até os pais do noivo cortaram todas as relações com ela quando seu filho morreu. Desde então, nunca se deram ao trabalho de entrar em contato com ela, mesmo sabendo que estava grávida. Foi aí que chegou à conclusão de que não precisava nem deles nem de ninguém. Era uma mulher forte e capaz, poderia fazer por conta própria o que quer que precisasse ser feito. Dando de ombros, ela olhou para as roupas no colo. – Desculpe se pareço mal-agradecida – desculpou-se com sinceridade. – Não tem desculpa para ser tão grossa. Agradeço mesmo a ajuda. Mas eu cuidei de Seth desde que peguei a gripe e já estou bem melhor agora. Eu sei que vou ficar bem. – Olhou nos olhos esverdeados dele. – Mesmo. – Eu respeito a sua independência – disse, menos ríspido do que antes. – Só estou tentando ajudar você por mais alguns dias. Descanse aqui, pelo menos até amanhã. Vou mandar alguém para a sua fazenda, então, quando voltar para casa, você só vai precisar cuidar do menino e da sua saúde. Era óbvio que ele não iria desistir, e ela não estava preparada para um enfrentamento total. E, sinceramente, seria bom não ter que cuidar de tudo sozinha pelo menos uma vez na vida. – Está bem – finalmente concedeu. – Pode mandar alguém para cuidar dos cavalos amanhã, mas, agora que a estrada está liberada, não tem por que a gente ficar aqui incomodando você. – Apontou para a porta do banheiro. – Agora, se me dá licença, eu vou tomar um banho e me vestir para irmos para casa. Seth e eu já sugamos muito do seu tempo e da sua generosidade. Além do mais, nós dois vamos descansar melhor na nossa casa. Ela percebia que Malloy queria fazer algum comentário sobre sua insistência em voltar para casa, mas Seth escolheu aquele instante para acordar e começar a chorar. Ele costumava dormir muito bem, e, em casa, o mundo podia vir abaixo sem que ele acordasse. Mas agora, num lugar estranho, a discussão o incomodara. – Está tudo bem, meu amor – disse ela, levantando-se da cadeira. Quando foi até a cama para apanhá-lo, percebeu que precisava fazer um esforço maior que o normal. – Deixa que eu ajudo – disse Malloy, adiantando-se para levantá-lo.


Para a surpresa dela, quando Seth reconheceu quem estava com ele no colo, o traidorzinho apoiou a cabeça no ombro dele e sorriu para Heather. – Você deu o remédio dele? – perguntou, sentindo-se uma péssima mãe. Enquanto ela dormia, um completo estranho dava de comer ao seu filho, trocava a roupa dele e, aparentemente, criava laços. Malloy fez que sim. – Eu vi a dosagem no rótulo do frasco e dei o antibiótico para ele logo depois do café da manhã e repeti mais tarde, depois do almoço. – Você parece que entende bastante de tomar conta de crianças – comentou, perguntando-se se ele por acaso teria filhos. Ficou meio decepcionada ao pensar que ele podia ter uma esposa ou uma namorada, mas não conseguia nem imaginar por quê. – Eu tenho um sobrinho de dez meses e uma sobrinha de seis – respondeu, como se lesse os pensamentos dela. – Mas, tirando o que eu aprendi vendo os pais cuidarem deles, vou muito na tentativa e erro. Foi por isso que tive que trocar o pijama dele e a minha camisa depois do almoço. – Malloy sorriu. – Tentei deixar ele comer sozinho e logo descobri que foi um erro. Heather sorriu ao imaginar aquilo e um sentimento novo se espalhou pelo seu peito. Era comovente ver um homem sem medo de segurar e dar de comer a uma criança. Nem um pouco confortável com o fato de que o homem que suscitara aquele sentimento era T.J. Malloy, perguntou: – Você se incomoda de olhar o Seth um minutinho enquanto eu tomo uma ducha rápida? – Claro que não – respondeu T.J., balançando a cabeça. – Não precisa ter pressa. Você vai se sentir bem melhor. – Vou me sentir melhor quando estivermos em casa. – Ela olhou para o jeans e o suéter em sua mão. – Seth vai precisar de fralda, e nós dois precisamos de uma muda de roupas limpas. – Não vai ser problema – respondeu ele. – Mandei um dos meus empregados ir a Stephenville hoje de manhã para pegar algumas coisas de que vocês vão precisar. Pedi para ele trazer uma muda de roupas, além de fraldas e uma espécie de papinha para ele. – Como você sabia que tamanho comprar? – Estava explicado de onde


– Como você sabia que tamanho comprar? – Estava explicado de onde veio o pijama novo de Seth. – Eu pedi para o Dan levar a mulher dele junto. – Malloy parecia muito satisfeito consigo mesmo. – Eles têm três filhos com menos de 5 anos, e eu tinha certeza de que, se alguém iria saber o que comprar para vocês, esse alguém seria Jane Ann. – Apontou para a cômoda. – Suas roupas estão ali na sacola. – Pode deixar que eu pago tudo – disse ela, feliz por ter roupas limpas para vestir depois do banho. – Você ainda tem a nota? – Não, não tenho, e não precisa pagar – respondeu, firme. – Mas eu vou. – Ela não tinha muito na poupança e esperava que não houvesse saído muito caro, mas tinha lá o seu orgulho. Não era a oportunista que os pais do noivo a acusaram de ser quando ligou para avisar que Seth nascera. E, além disso, depois do que passou com Malloy, não queria lhe dar mais motivo para reclamar da sua negligência. Malloy soltou um suspiro de frustração. – Depois a gente conversa. – Vamos conversar mesmo, pode apostar – jurou ela. Não havia como discutir com o sujeito naquele momento, então Heather puxou a camisa que estava vestindo para cobrir sua traseira, pegou a sacola da cômoda, entrou no banheiro e trancou a porta. Quando se olhou no espelho, deu um gemido. O cabelo era nó puro e, fora as poucas sardas salpicadas pelo nariz e pelas maçãs do rosto, estava branca feito um fantasma – e um fantasma doente. Mas, enquanto continuou a se olhar no espelho, começou a sentir o peso da realidade nos ombros feito um jugo de couro. Um banho e roupas limpas podiam fazê-la se sentir um pouco melhor fisicamente, e T.J. Malloy podia oferecer toda a ajuda que quisesse, porém nada afastaria as preocupações e o quadro desolador que encontraria quando voltasse para casa. Se não acontecesse um milagre até o fim do mês de janeiro, ela e o filho ficariam sem teto. E parecia não haver nada que ela pudesse fazer para impedir que isso acontecesse.

QUANDO HEATHER entrou no banheiro da suíte e fechou a porta, T.J.


QUANDO HEATHER entrou no banheiro da suíte e fechou a porta, T.J. sentou-se na cadeira de balanço com Seth no colo e soltou a respiração. O que raios ele tinha? A mulher parecia exausta, estava acabando de se recuperar de uma gripe e, sem sombra de dúvida, estava tão irritadiça quanto um touro no meio de um rebanho cheio de bois. Então, por que estava pensando que ficava bem só de camisa? Ou nas suas pernas longas e bem torneadas? Naquela manhã, ele por muito pouco não derrubara a bandeja do café da manhã que estava carregando quando ela abriu a porta. Ela não havia dado atenção aos botões da parte e cima da camisa dele que usou para dormir, e o vale entre os seios ficou à mostra. O pior de tudo era que ela estava muito doente para tentar atraí-lo e, mesmo assim, havia conseguido pegá-lo de jeito. – Você é um canalha doente – murmurou ele, balançando a cabeça. Sentado ali, tentando descobrir o que vira nela que o atraía tanto, deu um muxoxo. Queria que ela saísse da sua cabeça tanto quanto ela queria sair da sua casa. Então, por que insistir que Heather precisava ficar mais uma noite? Por que não podia ficar de bico fechado, ajudá-la a afivelar o filho na cadeirinha do carro e acenar enquanto se afastavam? Olhando para o menininho no seu colo, T.J. balançou a cabeça. – Você tem sorte de ser muito novo para reparar nas meninas. Elas vão te levar à loucura sem fazer o menor esforço. Quando Seth olhou para ele e sorriu, T.J. logo entendeu por que estava com tanto receio de deixá-los voltar para casa. Não conseguia deixar de comparar a infância de Seth à sua. Toda criança merecia ter a mãe consigo pelo máximo de tempo possível, e, embora Heather já tivesse superado a pior parte da doença e já estivesse pronta para ir para casa, ele queria garantir que não havia possibilidade de uma complicação mais séria. Se ela tivesse que tomar conta de uma criança enquanto cuidava de um haras sozinha durante sua recuperação, talvez aumentasse a chance de uma recaída – ou pior. – Eu só estou tentando cuidar da sua mãe para você, rapaz – disse, e sorriu para a criança. O menininho de cabelo cor de cobre no seu colo abriu um sorrisão e deu tapinhas carinhosos na bochecha de T.J., enquanto balbuciava alguma


coisa que ele não compreendeu. Imaginou que Seth estivesse agradecendo por tomar conta da sua mãe e sentiu um calor novo no peito. O menino de Heather era uma criança incrível. Simpático e comportado, não dava trabalho nenhum, e, se algum dia tivesse um filho, queria que fosse como ele. Deu um abraço em Seth. – Vou cuidar de vocês para garantir que fiquem muito tempo juntos. Suspeitava que tivesse outro motivo para insistir nisso que não a identificação, mas não queria investigar a fundo esse outro motivo. Não sabia se iria gostar muito do que acabaria descobrindo. Não gostava nem de achar sua inimiga minimamente bonita. Um trovão súbito, seguido pelo barulho da chuva caindo com força no telhado, fez T.J. dar um sorriso irônico. – Parece que a Mãe Natureza concorda que vocês devem ficar aqui – disse, arrancando uma risadinha de Seth. Alguns minutos depois, quando Heather, de banho tomado, voltou para o quarto, T.J. viu que ela estava vestindo o moletom cinza que Jane Ann havia escolhido. Não achava que fosse possível, mas aquela mulher conseguia ficar bem até de moletom folgado. Sentiu a parte inferior do seu corpo pinicar e teve que engolir em seco. Heather era difícil como um jardim de cacto e rejeitava tudo o que ele fazia para tentar ajudá-la, mas isso não o impedia de querer tomá-la nos braços e beijá-la até dizer chega. Perturbado com essa ideia, ele se concentrou em explicar que o tempo ruim iria estragar seus planos. – Agora você não tem escolha. Vocês vão ter que ficar aqui até amanhã. Os olhos azuis vivos se estreitaram. – Está dizendo que não vai me deixar ir embora? – Não. Eu não falei nada disso – disse, percebendo que tinha que tomar cuidado com o modo como formulava as coisas. Já vira aquele olhar de ultimato nos olhos das cunhadas quando os irmãos cometiam uma gafe e não era bobo de ignorá-lo. – Foi só uma observação. Heather franziu o cenho. – Você poderia explicá-la? – Escuta só. – Ele apontou para o teto e percebeu que ela ouviu o


– Escuta só. – Ele apontou para o teto e percebeu que ela ouviu o barulho da chuva no telhado quando seu rosto assumiu uma expressão de derrota. – A chuva está tão forte que parece que alguém está derramando água do balde. Está chovendo tanto quanto ontem. O riacho está cheio, e pode apostar que a estrada já começou a alagar de novo. Resmungando, ela mergulhou no lado da cama. – Tem algumas coisas que eu preciso fazer em casa. T.J. encolheu os ombros. – Já cuidamos dos cavalos. Acho que todo o resto pode esperar até amanhã. Assim que as palavras deixaram a sua boca, percebeu que a irritou de novo. – Você quer dizer que o que eu preciso fazer não é importante? – perguntou ela, fuzilando-o com seu duro olhar azul. – Depende – respondeu, sem saber por que ela se ofendera com o seu comentário e por que aquele temperamento esquentado o excitava. – Se é alguma coisa que exige minha atenção imediata, resolvo na hora. – E o que faz você pensar que as coisas que preciso fazer são diferentes? – Ela se levantou para dobrar as roupas que vestiu na véspera e socou-as na sacola. – Você nem sabe o que eu preciso fazer, nem o que requer minha atenção imediata. Ele se sentia como se estivesse atravessando um campo minado – onde quer que pisasse, poderia explodir. – Eu não quis sugerir que suas preocupações são menos importantes do que as minhas. – Subitamente irritado com o mau gênio dela, T.J. deixou o menininho no chão e observou-o andar até a mãe, então se levantou da cadeira de balanço. – Eu só quis dizer que o que quer que você precise fazer vai ter que esperar a água baixar de novo. E, antes que isso acabe recaindo em algo que tornaria o resto da sua estada um pé no... – Interrompeu e olhou para o menininho, que o observava. Não iria acrescentar uma palavra ao vocabulário dele que lhe traria ainda mais dor de cabeça com a mãe. – Dificultar o resto da sua estada, vou ver o que eu consigo preparar para o jantar. – Foi até o corredor e virou-se. – Vou vir aqui mais tarde para ajudar você e Seth a descer. Nem pense em tentar ir lá para baixo sozinha. Você não vai chegar mais rápido com um pescoço quebrado.


Antes que ela pudesse implicar com outra coisa, ele fechou a porta. Desceu a escada e foi até a cozinha ver o que tinha para eles comerem. – É isso que ganho tentando ser legal – murmurou enquanto abria a geladeira para tirar pacotes de carnes e condimentos. Largando a comida na ilha, virou-se para pegar uma bisnaga da cesta de pão na pia. – Se ela caísse da escada, provavelmente iria achar um jeito de me culpar e meter um processo. – Você precisa de ajuda com o jantar, Malloy? Quando ele se virou, Heather e o filho estavam à porta. Fechando os olhos por um instante. T.J. tentou reunir sua paciência. – Você não ouviu nada do que eu falei, não é? – perguntou, abrindo os olhos para encará-la. – Fraca como está, não devia ter tentado descer a escada sozinha. Passou pela sua cabeça que o menininho podia ter caído e se machucado sério? – Não sou fresca. Sou capaz de me virar sozinha. Eu sempre me viro sozinha. E fomos aos poucos, me apoiei no corrimão – disse, encolhendo os ombros. – Como pode ver, Seth e eu chegamos aqui embaixo sem maiores incidentes. Ele balançou a cabeça diante daquela teimosia. – Faz um favor? Não tente descer sozinha de novo. Prefiro que você não abuse da sorte. – Vou pensar. – Ela ficou quieta por um minuto antes de perguntar, direta. – Por que você está sendo tão legal comigo e com meu filho? Por que você se importa? T.J. encarou-a por um instante. Conseguia entender sua desconfiança. Até então, só o vira em condições nem um pouco favoráveis. Sempre que ia devolver seu garanhão fugidio – aquele que vivia cruzando com suas éguas e destruíra seu planejamento por mais de um ano –, e nunca se preocupara em ser muito educado. – Acho que, antes de prosseguirmos, tenho que explicar uma coisa – disse, sério. – Em todas as vezes que tive que devolver seu cavalo, estava irritado porque ele cruzou com várias éguas minhas. Eu crio e treino cavalos de reining. Como elas cruzaram com um garanhão arisco, meu planejamento atrasou em pelo menos um ano. – Ele balançou a cabeça. –


Mas podia ter tido mais educação quando pedi para você mantê-lo preso em vez de fazer exigências e ameaças de entrar na justiça. Ela encarou-o por um longo instante e, quando ele já estava achando que Heather não iria aceitar seu pedido de desculpas, assentiu. – Entendo sua frustração, e peço desculpas por atrasar seu planejamento. Eu tentei mantê-lo no haras, mas acho que Dançarino Mágico tenta fazer jus ao nome que tem. Ele é um David Copperfield na hora de fugir da sua baia ou passar por uma cerca. – Alguns cavalos são assim – admitiu T.J. – Especialmente garanhões quando há um harém de éguas à sua espera. Os dois passaram longos segundos em silêncio antes de ela falar de novo. – Já que estamos esclarecendo as coisas, lhe devo desculpas por outra coisa. Você nos recebeu muito bem, e agradeço muitíssimo a sua ajuda. Antes, eu estava decepcionada por não podermos voltar para casa, mas não é motivo para descontar em você. Desculpe. – Aceito seu pedido de desculpas se você aceitar o meu – disse, sincero. – Eu devia ter tido mais paciência com as fugas. Um esboço de sorriso surgiu no rosto dela quando levou o menininho para o outro lado da ilha, onde estava T.J. – E, só para deixar você tranquilo, se eu tivesse caído da escada, não teria processado você, Malloy. Ele não conseguiu conter um sorriso enquanto abria um armário e apanhava uns pratos de sanduíche. – Meu nome é T.J., e fico feliz de não ter que chamar meu advogado. – Quando começou a fazer os sanduíches, acrescentou: – Que tal começarmos do zero e tentarmos ser um pouco mais cordiais um com o outro de agora em diante? Ao perceber o brilho nos olhos azuis e as covinhas nas bochechas quando ela sorriu, foi como se tivesse levado um soco no estômago. Só podia estar cego para não ter reparado na beleza dela antes. – Imagino que ser mais cordial é melhor do que querer dar um tiro em você – disse ela, sem nem desconfiar no que ele estava pensando. T.J. riu, sentindo-se menos tenso. – É, ser simpático é preferível a ter que desviar dos golpes. – Ele indicou


– É, ser simpático é preferível a ter que desviar dos golpes. – Ele indicou os pedaços de carne e queijo à sua frente. – A empregada está em Dallas com a família até o dia primeiro e eu não sou bom na cozinha. Espero que não se incomode de jantar sanduíche. – Um sanduíche está ótimo para mim. – Ela balançou a cabeça. – Continuo sem muito apetite. Mas, se não se importa, prefiro dar outra coisa para o Seth. Tento fazer com que ele coma legumes todo dia. – Quando mandei Dan e a mulher para Stephenville, Jane Ann trouxe uns pratos congelados que disse que eram feitos para criança pequena. – T.J. indicou a geladeira. – Disse que não eram o ideal, mas que seriam melhor para Seth que boa parte das coisas que eu iria tentar dar para ele. – Não conteve uma risada. – Botei um deles no micro-ondas para o almoço e posso garantir que ele gostou bastante de jogar o macarrão e as almôndegas em mim. – Ele é muito comportado para a idade dele, mas ainda dá seus showzinhos – disse, rindo enquanto ela e o filho abriam a porta da geladeira. O riso de Heather fez o peito dele se aquecer. Não sabia por quê, mas era bom ouvi-la rir. T.J. franziu o cenho quando terminou os sanduíches e os pôs na mesa. Ele e Heather eram praticamente estranhos, e ele ainda não estava convencido de que poderiam ser amigos. Que diferença tinha se conseguia fazê-la rir ou não? Não sabia o que havia de errado com ele, mas achou melhor não explorar fundo. Já estava com dificuldade de digerir o fato de que não tinha nem um dia que Heather e o filho estavam na fazenda e ele já a achava extremamente sexy. Se aquilo não era prova de que era um homem muito perturbado, nada mais podia ser. – UM QUARTO da família... Interessante – disse Heather quando T.J. estava lhe mostrando a casa depois do jantar. – Mas acho que está mais para um reduto de homens que para um lugar onde uma família se reúne. Ele riu. – É como eu costumo chamar, mas pensei que “quarto da família” seria mais convidativo.


Uma parede do cômodo enorme era dominada por um bar vintage que parecia ter saído de um faroeste antigo. Feito de mogno, os padrões insculpidos na frente eram encimados por um tampo de mármore e, abaixo, havia uma barra de bronze alguns centímetros acima do chão. Um grande espelho com moldura dourada pendia na parede atrás. As prateleiras estavam repletas de garrafas caras de uísque, rum e tequila. Mais adiante, havia uma mesa de sinuca antiquada com caçapas de couro esperando que alguém lançasse as bolas coloridas pela superfície de feltro. Só faltava uma garçonete de rouge nas bochechas e um olhar convidativo. – Quer ver um filme? – perguntou ele, indicando a maior televisão de tela plana que ela já vira. Ela ocupava a parede do outro lado do cômodo. Não era uma surpresa ver alto-falantes pendurados nas paredes, garantindo ao expectador uma experiência sonora que devia fazê-lo sentirse parte da ação. – Tenho todos os canais de tevê a cabo e pay per view – acrescentou. – Tenho certeza que você vai encontrar algo para assistir. O sofá de couro imenso e confortável diante da televisão era extremamente convidativo, e Heather ficou tentada. – Fica para outra vez – disse, escondendo um bocejo com a mão. – Ainda estou bastante cansada, e, daqui a pouco, vou ter que botar Seth para dormir. – É compreensível que esteja cansada. Você ainda não recuperou toda a sua força. – Quando Seth passou por ele e foi até um cesto de brinquedos ao lado do sofá, T.J. sorriu. – Antes que você pergunte se são meus, são para os meus sobrinhos. – Você toma conta deles com frequência? – perguntou. Ele parecia entender muito mais de crianças que a maioria dos homens solteiros. Ele balançou a cabeça. – Não passo tanto tempo com eles por causa do revezamento. Mas, de vez em quando, um dos meus irmãos me pede para dar uma olhada no bebê enquanto ele vai ao cinema ou ao restaurante com a mulher. Ela franziu o cenho. – Revezamento? – Tenho cinco irmãos – disse, encolhendo os ombros. – Três são casados e, a não ser que saia todo mundo junto, os dois e eu nos revezamos com


Mariah. – É sua irmã? – perguntou Heather, tentando imaginar como devia ser ter uma família tão grande. Ele balançou a cabeça. – Irmã da nossa cunhada. – O que vocês fazem quando os casais saem juntos? Ele sorriu. – É aí que nós, solteiros, nos juntamos e brincamos de passa o bebê. – Parece... Eficaz. – Rindo, Heather balançou a cabeça. – Seis garotos, não consigo acreditar. Coitados dos seus pais. Deve ter sido um caos. – São meus irmãos de criação, na verdade – disse, sorrindo. – Nos conhecemos quando éramos adolescentes e crescemos juntos na Fazenda Última Chance. – Ah, desculpe – disse ela, pensando que o fato de ter sido criado por pais adotivos poderia ser doloroso para ele. Ele balançou a cabeça. – Não precisa se desculpar. Graças ao nosso pai adotivo, Hank Calvert, ir para aquela fazenda foi a melhor coisa que nos aconteceu. Nos tornamos uma família de verdade, e não tem nada que a gente não faria um pelo outro. – Isso é ótimo – respondeu ela, com sinceridade. Nunca tivera aquela proximidade com a irmã. Se fossem próximas, Heather não teria passado por tantas dificuldades nos últimos anos. Ele passou um instante em silêncio antes de perguntar: – E você? Tem irmãos? – Tenho uma irmã mais velha – respondeu, assentindo. – Mas Stephanie e o marido moram no Japão, e não tenho muitas notícias deles há anos. – Deve ser difícil – disse ele, compassivo. – Gostaria de poder dizer que é – admitiu, sentindo uma pontada de arrependimento. – Mas minha irmã e eu nunca tivemos nada em comum e nunca fomos muito próximas. Eu sempre adorei morar na fazenda, e não conseguia nem imaginar como seria viver tão longe a ponto de não poder voltar quando quisesse montar no meu cavalo. Mas ela mal podia esperar para ficar adulta e ir para bem longe da fazenda e da família com seus


sapatos Prada. – Heather parou, tomada por uma onda de emoção. – Ela nem se dignou a vir para o funeral do papai, há dois anos. T.J. pôs o braço no ombro dela e puxou-a para si num gesto reconfortante. – Nunca é tarde, Heather. Quem sabe um dia vocês não se entendam? O abraço compassivo dele não assustou só a ela: quando Heather olhouo, percebeu que ele também estava surpreso. Um silêncio embaraçoso seguiu-se à conexão física sem que nenhum dos dois soubesse por quê. Ela recuou um pouco para se distanciar e começou a levar o filho lá para cima. – Acho que eu devia ir à frente e botar Seth para dormir – disse, sentindo-se meio sem ar. – Eu ajudo vocês dois a subir – disse T.J., levantando o menino para que sentasse no seu braço. – Obrigada, mas consigo subir sozinha. – Ela estendeu os braços para receber Seth. Mas o menininho tinha outros planos. Balançando a cabeça, passou os bracinhos pelo pescoço de T.J. e sorriu para ela, como se quisesse dizer que não cabia à mãe decidir. Queria que T.J. o levasse, ponto final. Enquanto atravessavam o corredor e subiam a escada, Heather se perguntou se não seria melhor arrumar um barco para a próxima vez que a estrada alagasse. Em condições normais, não seria problema. Ela, assim como os pais, sempre tinha suprimentos à mão para quando o rio enchesse. Mas, na véspera, teve que correr o risco de ficar do lado errado do rio. Seth precisava de um médico, e o jeito foi procurar o prontosocorro. Mas, se tivesse um barco, poderiam chegar em casa sem ter que depender da generosidade de um homem que baixava suas defesas e fazia do seu filho um traidor. Claro, só poderiam arrumar um barco para atravessar a enchente se ainda tivessem fazenda. A não ser que acontecesse um milagre e ela conseguisse pagar as dívidas, perderia seu lar e teriam que morar em outro lugar. Não conseguia nem pensar em perder a fazenda que passara gerações na sua família, e resolveu esperar até chegar em casa para analisar as alternativas. Por ora, a mão de T.J. nas suas costas a guiá-la escada acima a distraía, tão desconcertante quanto um abraço.


Heather não se sentia nem um pouco à vontade com seus sentimentos. Já tinha muitas coisas na cabeça para ainda ter que se preocupar com uma atração indesejada pelo vizinho sexy. O coração dela bateu rápido. Achava T.J. Malloy sexy? Deus pai, precisava voltar para casa e esfriar a cabeça. Quando chegaram ao quarto, Heather apanhou o filho dos braços de T.J. – Mais uma vez, obrigada por tudo. – Só fiz o que qualquer vizinho decente faria – disse, encolhendo os ombros. Quando seus olhares se encontraram, ela sentiu que se perderia facilmente naquela compaixão. Mas, quando continuaram a se encarar, o ar se encheu de uma tensão que não sentia havia muito tempo – não desde que o noivo morrera em um acidente industrial pouco depois de descobrirem que ela estava grávida. Quando o silêncio começou a ficar desconfortável, ela pigarreou e pôs a mão na maçaneta. – Eu, hã, vejo você amanhã. Ele continuou a encará-la por vários segundos antes de assentir e passar o dedo no queixo dela. – Durma bem. Aquela voz grossa dizendo seu nome e o toque leve fizeram o coração dela acelerar, e precisou de todas as forças para não se aproximar. – Bo... Boa noite. Antes que fizesse um papelão, ela levou o filho para o quarto e fechou a porta. Estaria louca? Ainda não tinha certeza se podia confiar nele. Por que aqueles olhos verdes hipnotizantes a deixavam sem ar? E por que não se desvencilhou do seu toque? Não precisava de um homem para lhe trazer mais um problema. Já tinha que cuidar do filho e da fazenda. A última coisa de que precisava era distração – o que incluía um caubói aparentemente bem-intencionado com um olhar hipnótico e o poder de lembrá-la de que fazia tempo que não se via nos braços de um homem.


CAPÍTULO 3

NA TARDE seguinte, parado na entrada da garagem, T.J. observava o sedan de Heather pegar a estrada. Com as mãos no bolso, suspirou fundo. Ela já estava praticamente boa da gripe, ele tinha certeza de que estava fora de risco. Então por que não estava contente com sua partida? Não sabia se gostava dela. Heather ofendia-se com tudo que ele dizia, e tentar fazê-la aceitar sua ajuda fora como tentar convencer passarinhos a não piar à noite. Embora tenham chegado a uma trégua, fora tensa, para dizer o mínimo. Depois de abraçá-la ao dar boa-noite, houve um desconforto entre eles. Pela manhã, os dois sentiram alívio de poder voltar a atenção para Seth até eles irem para casa. Heather leu para ele um livro que estava na bolsa e T.J. brincou de cavalinho. Então por que a decepção? Mas, enquanto encarava as luzes do carro dela, teve que ser franco consigo mesmo. Desconfiava que sabia o motivo por trás da pressa dela e da sua relutância em vê-la partir. E não tinha nada a ver com os cavalos dela, nem com uma possível piora. Ontem, ele viu a mesma consciência nos olhos dela, que Heather devia ter visto nos dele. O movimento sutil do corpo dela quando tocou seu rosto indicava que também sentia uma atração magnética. Ele balançou a cabeça e voltou para a fazenda. Heather Wilson reaquecera seu motor, e daí? Não queria dizer nada. Ela era uma mulher muito bonita que se hospedou com ele, e T.J. andava negligenciando sua


libido. Claro que iria perceber aquelas pernas longas e imaginá-las enroladas nele. Xingou muito quando sentiu o corpo enrijecer. Estava louco? Ela era a última mulher por quem queria sentir atração. Ela discutia com ele por qualquer motivo e tentar ser bem-educado com ela era uma luta. As únicas coisas que sabia sobre aquela mulher eram que morava na fazenda ao lado, tinha um cavalo mestre na arte da fuga e seu filho era muito bonitinho. – Chefe? Está ocupado? Quando T.J. ergueu os olhos, viu um empregado se aproximar. – Não, claro que não – respondeu, grato por poder pensar em outra coisa. – O que foi, Tommy Lee? – Você não disse que os empregados da sra. Wilson tiraram o fim de semana de folga? T.J. fez que sim. – Devem voltar na segunda. Por quê? – Não sei se quer dizer alguma coisa. Mas, quando eu estava na fazenda da Wilson mais cedo alimentando os cavalos, percebi uma coisa estranha. – O quê? – indagou T.J., franzindo o cenho. – Quando eu mandei Harry ontem, ele não mencionou nada fora do comum. O que você viu que ele não viu? – Eu provavelmente também não teria notado, mas, ontem, ventou forte e a porta do alojamento de empregados da Sra. Wilson ficou escancarada. Quando fui fechar, dei uma olhada lá dentro. – Tommy Lee sacudiu a cabeça. – Não parecia habitada, ninguém devia usar fazia um tempo. Tudo estava muito empoeirado e cheirava a mofo. T.J. franziu o cenho. Talvez os homens de Heather morassem em outro lugar, mas era improvável. A região era formada por grandes fazendas e, como o dia de um caubói começa bem antes do alvorecer, era conveniente morar perto do trabalho. Até seu capataz, Dan, vivia com a família numa das casinhas que T.J. mandara construir quando comprou a fazenda, já esperando que alguns dos seus empregados fossem casados. – Bom, eu só queria que soubesse – continuou Tommy Lee, encolhendo os ombros. – Obrigado por passar a informação. Agradeço muito, Tommy Lee. – Você quer que eu volte lá amanhã para alimentar os cavalos? –


– Você quer que eu volte lá amanhã para alimentar os cavalos? – perguntou o homem enquanto voltava aos fundos do estábulo. – Não, vou lá de manhã cedo para cuidar dos cavalos e dar uma olhada na situação – disse, e entrou na selaria. Sabia que devia mandar alguém para a fazenda de Heather no dia seguinte. Os empregados dela não eram da sua conta, e ela com certeza lhe diria isso. Mas queria ver como eles estavam e se recusava a tentar descobrir por quê. Apanhou uma embocadura da parede e pensou no que acabara de saber. Enquanto ia até uma baia para pegar o alazão que estava treinando, perguntou-se por que Heather dera a entender que seus homens estavam de férias. Estaria tentando tocar a fazenda sozinha? Com um filho e um quadro de gripe? Levou o alazão para a selaria. Não sabia o que estava acontecendo com Heather Wilson, mas estava determinado a descobrir. Se, como desconfiava, ela estava tentando tocar a fazenda sem ajuda, muita coisa estava explicada. Sempre que o garanhão dela invadia sua propriedade, ele estranhava que ela não mandasse consertar a cerca na hora. Era não só sinal de um bom administrador, como também era o que um bom vizinho faria. Mas, se não tinha empregados, não havia jeito de Heather consertar aquela cerca com um bebê no colo. A culpa que sentiu depois que ela explicou que tentava prender o garanhão se multiplicou por dez. Ela era ou muito cabeça dura ou muito orgulhosa para se explicar e pedir ajuda. Depois de conviver uns dias com ela, desconfiava que era uma combinação dos dois. Reprovando a obstinação dela, terminou de selar o alazão. Seu celular tocou. – E aí, Nate? – Quando começamos a falar da minha fazenda nova outro dia, esqueci de perguntar o que você quer que eu leve para a festa. – Nate fez uma pausa antes de acrescentar: – E não esqueça que sou uma negação na cozinha, então tem que ser algo que já venha pronto. – Não se preocupe. Taylor e Bria se ofereceram para cuidar da comida. – Taylor era chef pessoal antes de casar com Lane, e a outra era tão


apaixonada por comida quanto pelo irmão deles, sem contar que era a melhor cozinheira do Texas. – Você sabe que temos muita sorte no quesito cunhadas – comentou Nate. – Bria e Taylor são as melhores cozinheiras do estado e Summer adora planejar todos os detalhes das nossas reuniões. Só temos que aparecer. T.J. riu. – Até parece que você faria qualquer outra coisa. – Ei, eu já disse. Posso comprar comida pronta para as festas – respondeu, muito satisfeito com essa contribuição. – O que você vai fazer quando se mudar para a Carvalhos Gêmeos? – perguntou T.J., rindo. – Você vai acabar cansando de enfiar um pedaço de carne entre duas fatias de pão e apertar os botões do micro-ondas. – Vou fazer como você, espertinho – retorquiu. – Vou contratar uma caseira que cozinhe. – Touché, Romeu. – T.J. riu alto. – Não imaginei que você fosse fazer planos além de transformar a fazenda num palácio dos prazeres. Talvez finalmente esteja crescendo. – Nem. – Nate riu. – Senão eu ficaria como você. – E o que é que tem? – perguntou, entrando na brincadeira. – Se fosse você, eu daria bola fora toda vez que tentasse conversar com mulher. Você entende tanto de mulher quanto eu entendo de cozinha. – Ah, é? – Sabia que não devia, mas perguntou. – Por que acha isso? – A sua vizinha, por exemplo. Em vez de estourar, devia ter jogado um charme. – Nate falava como se fosse especialista no sexo. – Você devia ter sorrido e batido um papo sobre qualquer coisa, menos o verdadeiro motivo para você estar lá. Quando você estivesse de saída, ela já teria mandado alguém ajeitar a cerca sem que você precisasse tocar no assunto. Você teria o que queria e ela pensaria que a ideia foi dela. T.J. logo perdeu o bom humor. Suas brigas com Heather já eram um assunto delicado, mas depois de conhecê-la melhor e ficar sabendo que estava tentando tocar a fazenda sozinha, ele se sentia muito culpado para falar sobre isso, especialmente com o irmão que vivia atrás de um rabo de saia. Claro, Nate não podia adivinhar o que acontecera nas últimas 48 horas,


Claro, Nate não podia adivinhar o que acontecera nas últimas 48 horas, e T.J. não tinha intenção de esclarecer. Mas os comentários dele batiam com o que T.J. percebera sozinho: agira como um perfeito idiota. Decidido a mudar de assunto, sabia o que dizer para distrair Nate: – E isso funcionou com a lourinha de Waco? Era a única mulher para quem Nate voltara depois de passar para outras conquistas, e suas idas e vindas faziam toda a família se perguntar se seria ela que daria jeito nele. Houve uma longa pausa, e T.J. pensou que talvez o irmão tivesse desligado. – Eu e Jessica não estamos mais juntos – disse por fim, menos confiante. – De novo? Quer conversar? – Não tem o que dizer – disse Nate, baixo. – Ela quer uma coisa e eu quero outra. Os dois passaram um tempo em silêncio antes de T.J. oferecer: – Se mudar de ideia, você sabe que todos nós estamos dispostos a ouvir. – Ah, você me conhece, estou bem. – Deu uma risada forçada. – Gosto de manter minhas opções em aberto. Eles conversaram mais alguns minutos antes de desligar, então T.J. guardou o celular e montou no alazão. Usou as rédeas para guiá-lo numa série de exercícios que ele encontraria nas competições. Mas, enquanto o cavalo executava impecavelmente a tarefa, a cabeça do dono estava em outro lugar. Nate não era tão bom com mulher quanto dizia, senão a loura não desmancharia com ele. Infelizmente, não podia fazer nada pelo irmão. Mas podia fazer algo pela situação com Heather e o filho. De manhã cedo, iria para a fazenda dela e avaliaria a situação. Se ela realmente estivesse sozinha, ela poderia reclamar até ficar rouca, mas ele não aceitaria um não como resposta. Iria ajudar Heather e, com isso, tirar o peso da consciência por ter sido estúpido em relação ao cavalo dela. HEATHER BOCEJOU e terminou de pôr o casaco e a toca em Seth, depois o prendeu no sling. – Assim que terminarmos de alimentar os cavalos e limpar as baias,


– Assim que terminarmos de alimentar os cavalos e limpar as baias, você tira um cochilo enquanto eu tento achar um dinheiro extra para consertar o telhado. O filho respondeu com um sorriso e, sonolento, apoiou a cabeça no peito dela. Enquanto alimentava os cavalos e limpava o lugar, Seth cochilava e balbuciava sobre cavalos, que adorava. Depois dormiria mais meia hora e voltariam para a casa. Não era fácil trabalhar com uma criança a tiracolo – as tarefas ficavam duas vezes mais longas –, mas estavam habituados à rotina. Ao sair da casa, Heather notou uma picape com o símbolo da Diamante Bruto estacionada ao lado do seu carro. Por que não estava surpresa de ver que T.J. mandara mais um funcionário? Não conhecia nenhum homem tão teimoso. Ele resolvera que ela não precisava realizar as tarefas e faria o possível para impedi-la. Mas percebeu que era o próprio T.J. que estava parado à porta do estábulo. Seu coração acelerou. Por mais que não quisesse admitir, aquele homem a deixava sem ar. Estava com o ombro apoiado na porta, braços cruzados, pernas cruzadas na altura do tornozelo. O chapéu estava abaixado e, no resto dele, havia a mesma carranca de quando ele devolvia o garanhão. Sentiu uma pontada de decepção. Quando estava começando a acreditar que ele era um cara legal, T.J. voltou a ser o vizinho desagradável. – O que faz aqui, Malloy? – perguntou, irritada consigo mesma por se deixar levar pela beleza descuidada dele. – Vim cuidar dos cavalos e ver se vocês estão bem – respondeu, monocórdico. – Como pode ver, estamos bem, e eu sou perfeitamente capaz de cuidar dos meus cavalos. – Ela parou na frente dele. – Agora, se me dá licença, tenho que terminar. Ele endireitou a coluna, bloqueando a entrada do celeiro. – Já dei de comer e os soltei no pasto para se exercitarem, limpei as baias e pus palha fresca. Já estão de volta e não precisam de cuidados por hoje. – Há quanto tempo você está aí? – perguntou, incomodada com o fato de que ele passara pelo menos algumas horas na sua propriedade sem que ela notasse.


E se fosse alguém mal-intencionado? Um ladrão teria levado o que quisesse sem que ela percebesse. Ou, pior, podiam ter invadido a casa antes que ela tivesse tempo de pegar a espingarda do avô. Não que a espingarda adiantasse grande coisa. O gatilho estava quebrado e não atirava há mais de vinte anos. Sem falar que ela não sabia nem carregar direito. Mas a arma intimidava. – Cheguei de manhãzinha e foi o tempo de ver que você não me falou toda a verdade, Heather. – Ele indicou a casa. – Ainda está muito frio e úmido. Por que não entramos para conversar? – Não temos o que conversar – disse Heather, batendo o pé. – Não menti para você. Tecnicamente, não. Só omitira alguns fatos. O rosto dele se fechou ainda mais e um músculo tremeu no seu queixo quando começou a chover. – Por favor, a gente não podia conversar lá dentro antes de ficar encharcado? Não seria bom para nenhum de vocês dois. – Eu preciso muito verificar o que tenho de mantimentos. Vou na cidade amanhã fazer compras e quero trazer tudo logo. Via pela expressão de T.J. que ele não ia desistir. – Você precisa de aveia, alfafa e palha. – Pôs a mão no ombro dela para conduzi-la à casa. – Mas acho que você já sabia. Heather não se queixou mais e entraram na casa. Precisava levar seu filho para dentro, e estava muito distraída com o braço de T.J. no seu ombro para protestar. Sabia que ele só estava tentando protegê-los da chuva, mas isso não diminuía o efeito da proximidade dele. O odor masculino, junto com cheiro de couro e o calor do corpo, a aquecia até a alma. – Deixa que eu seguro Seth para você tirar o casaco – disse T.J. quando chegaram. Tirou a jaqueta de couro e largou-a numa cadeira enquanto Heather soltava o sling. Ele sorriu ao virar-se para levantá-lo. – Oi, garotão. Ficou com saudades? Seth balbuciou uma saudação sonolenta antes de apoiar a cabeça no ombro de T.J. Enquanto ela pendurava sua jaqueta na lavanderia, T.J. tirou o chapéu e o casaco de Seth. Quando ela voltou à cozinha, sentiu um aperto ao vê-lo


com seu filho agarrado no peito. Quantas vezes não lamentara que Seth e o falecido noivo não tivessem tido uma relação de pai e filho? Heather franziu o cenho. Devia ficar ressentida de ver outro homem ter momentos especiais com seu filho. Mas não ficou. Achou muito querido, e aquilo a incomodava. T.J. Malloy era o último homem do mundo de quem esperaria aquela ternura pelo seu filho, e sentia-se incomodada. Não queria que Seth se afeiçoasse por ele e depois sofresse quando T.J. perdesse o interesse. – Dormiu – disse T.J., baixinho. – Onde deito ele? Ela conduziu-o até o quartinho de Seth. Ele acomodou o menino na cama e os dois voltaram para a cozinha. Heather disse: – A essa altura, você já deve ter percebido que estou tirando leite de pedra para tocar a fazenda. – Já aceitara que T.J. não iria embora sem ouvir uma explicação. Assentindo, ele puxou uma cadeira, sentou-se e apoiou uma perna no joelho da outra como se não tivesse preocupações. – Há quanto tempo está tentando tocar a fazenda sozinha? Ela suspirou. Àquela altura, não adiantava esconder. Ele estivera no estábulo e devia ter percebido a quantidade de reparos por fazer e a escassez de recursos. Já devia até saber que fazia mais de um ano que não tinha funcionários. – Depois que meu pai morreu, mantive os dois homens que trabalhavam para ele até Seth fazer quatro meses. – Quase dois anos, então – disse ele, de cenho franzido. – É. – Por que você não me explicou que eram só você e o bebê quando eu devolvia o cavalo? – Da primeira vez que você tentou devolver o Mágico, eu não estava nem em casa – respondeu, na defensiva. – Você o deixou no curral e pregou um bilhete no portão pedindo para deixá-lo longe da sua propriedade. – Você podia ter me contado nas outras vezes. Eu teria sido muito mais compreensivo. Podia ter ajudado você. – Ah, por favor, Malloy. – Ela balançou a cabeça. – Você estava sempre muito irritado para ouvir. – Irritada com o tom dele e a expressão


acusatória em seu rosto, acrescentou: – Fora que não era da sua conta, e continua não sendo. – Eu teria ajudado você – repetiu, ignorando o ultimato na voz dela. – Podia ter mandado meus empregados consertar a sua cerca. – Não quero caridade. – A raiva dela crescia a cada segundo ao notar compaixão. Não queria que tivessem pena dela e achassem que não podia se virar sozinha. Muito menos Malloy. Não sabia por que, mas detestava ser vista por ele como coitadinha. – E não preciso da sua pena. – Nunca disse que era caridade – disse, gentil, enquanto se erguia. O tom fez algo nela amolecer. – Mas não há nada de errado em vizinhos se ajudarem. Não significa que eu tenha pena de você. Só quero fazer o que acho certo. – Você já foi um bom vizinho nos últimos dias – respondeu ela, seu coração batendo conforme ele se aproximava. – E eu agradeço muito a ajuda, mas... Ficou sem voz quando ele parou a centímetros dela. Levantando seu queixo com o indicador, ele ergueu a cabeça dela e seus olhos se encontraram. – Heather, peço mil desculpas por ter sido estúpido em relação ao cavalo. Mas, sinceramente, sou um homem racional. Juro que teria ouvido e compreendido a situação. A voz grossa dele tinha um efeito calmante e, quando pôs os braços ao redor da cintura dela e se inclinou, ela não conseguiu nem tentar impedilo. Roçando os lábios no dela, o beijo foi suave e breve, e não era para excitar. Infelizmente, a carícia foi uma das mais sensuais de que tinha lembrança e sua reação foi aproximar-se dele Quando a boca dele se encaixou na dela, os braços a apertaram. Heather tentou pensar nos motivos para não querer que T.J. a beijasse. Mas, enquanto ele passava a língua nos seus lábios, os olhos dela se fecharam e já não conseguia pensar em algum motivo para parar. Sem pensar no que estava fazendo, ela levantou os braços e passou os dedos pelos cachos castanhos na nuca dele. Seu coração se acelerou quando ele fez sua boca abrir-se para ele. Escorregando a língua para dentro, ele intensificou o beijo. Enquanto a explorava com ternura, um calor que ela não sentia há muito tempo tomou cada parte do seu corpo.


Os joelhos pareciam que iriam ceder a qualquer momento enquanto ele roçava seu íntimo. O barulho súbito do trovão, seguido por uma enxurrada no telhado, ajudou a clarear seus pensamentos. Ela afastou-o quando recobrou os sentidos. – Desculpe – disse ele, soltando-a na hora. – Foi inadequado. – Não. Digo, sim. – Ela balançou a cabeça e tentou organizar os pensamentos. Correu para a lavanderia. – Tenho uma coisa para resolver. Encontrou os baldes que usava quando chovia e usou-os para conter as goteiras. Quando se virou, T.J. a observava do vão da porta. – Era por causa das goteiras que você quis voltar logo, não era? Você não queria deixar os baldes transbordarem. Ela assentiu ao deixar outro perto da fornalha. – Quando começou a vazar? – perguntou ele, olhando-a nos olhos. – No verão passado. – Ela deu de ombros. – Foi depois de uma tempestade bem forte. Ainda não tive tempo de consertar. – Foi na primavera – disse ele, dobrando os braços. A postura dele e o tom da sua voz eram de reprovação, e não só apagaram qualquer vestígio de carinho, como também reacenderam a raiva dela. Era fácil para ele julgar. Não tinha que tentar equilibrar uma criança pequena sozinho e as inúmeras coisas na fazenda que precisavam de conserto. E ele não iria parecer vulnerável se pedisse ajuda. – Obrigada por cuidar dos meus cavalos, mas não precisa mais me ajudar – disse ela, passando por ele e apanhando sua jaqueta na cozinha. Entregou-a a ele e foi até a porta dos fundos. – Você deve ter coisas mais importantes a fazer que ficar me criticando por coisas que não são da sua conta. T.J. encarou-a por um instante como se fosse discutir. Depois vestiu o casaco. – Se precisar de alguma coisa, pode me procurar. – Pode deixar – respondeu, e abriu a porta. – Mas não se preocupe com a gente. Vamos ficar bem. ASSIM QUE T.J. passou pelo vão, a porta se fechou atrás dele. Ouvindo o barulho da fechadura, ele balançou a cabeça.


– Isso que dá tentar ser um bom vizinho – murmurou enquanto baixava o chapéu para proteger o rosto da chuva e corria para a caminhonete. Ela estava irritada de novo e, se não estava enganado, era mais questão de orgulho ferido que algo que ele tivesse dito. Estava claro que ela precisava de ajuda – tanto com a fazenda e com consertos na casa. Mas, como descobrira nos últimos dias, Heather Wilson era orgulhosa demais. Por que ela achava que tinha alguma coisa a provar? Por que tinha tanto medo de que alguém visse sua situação e a olhasse com desdém por ter tantas dificuldades? E ele não tinha dúvida de que ela passava por um momento ruim. Embora os cavalos estivessem bem cuidados, os suprimentos que ela pedia indicavam sua dificuldade financeira. A maioria dos fazendeiros tentavam estocar comida para os animais por pelo menos algumas semanas. O que Heather tinha mal dava para alguns dias. E se sua desculpa esfarrapada de que precisava fazer uma lista do que tinha escondesse seu constrangimento, o rubor nas bochechas ao falar das goteiras a entregariam. Maldizendo o orgulho da mulher, ele ligou a caminhonete e dirigiu até a estrada principal, dobrando em direção à Diamante Bruto. Se ela deixasse, ele poderia facilitar muito as coisas. Mas algo lhe dizia que era mais fácil o inferno congelar. Enquanto olhava pelo para-brisa, tinha que fazer força para se concentrar na estrada. Os limpadores estavam no máximo, mas não conseguiam acompanhar a enxurrada que caía. Ele parou de repente e soltou uma série de palavrões que espantaria um marinheiro. Estivera tão distraído pensando na situação de Heather que esquecera do rio cheio. Felizmente, a água sempre descia rápido quando parava de chover, mas a chuva parecia que não iria diminuir tão cedo. Encarando a cascata que escorria pelo para-brisas, T.J. concluiu que só tinha duas opções. Ou ficava sentado na caminhonete no meio da estrada, talvez pelo resto do dia, ou voltava para a fazenda de Heather. Na verdade, não tinha opção. Heather não iria ficar muito feliz – nem ele –, mas não tinha alternativa. Precisava ficar na casa dela até a estrada ficar boa. Alguns minutos depois, estacionou na frente da casa dela, saiu e


Alguns minutos depois, estacionou na frente da casa dela, saiu e atravessou o jardim. Subiu a escadinha da varanda pulando degraus. Respirou fundo e bateu na porta. – A estrada alagou – disse quando Heather abriu a porta. Ela encarou a chuva forte lá fora e, suspirando, recuou para ele entrar. – Vou pôr mais um lugar na mesa – disse ela, resignada. – Você vai passar um tempinho aqui.


CAPÍTULO 4

DEPOIS

um almoço desagradavelmente silencioso com sua visita inesperada, Heather ficou aliviada quando T.J. levou Seth à sala para brincar enquanto ela lavava os pratos e arrumava a cozinha. Precisava daquela distância para tentar descobrir por que perdia todo o juízo quando estava perto dele. Em geral, era uma mulher racional, de temperamento tranquilo. Talvez fosse um pouco orgulhosa demais, mas todos têm seus defeitos. Mas, com ele por perto, seu comportamento não fazia nenhum sentido. T.J. tinha o poder de irritá-la profundamente num segundo e, no outro, fazê-la derreter-se em seus braços sem pensar. Mas, quando parou para pensar mais cedo na sua irritação, foi obrigada a admitir que parte do problema era sua vergonha arrasadora da sua situação. Era humilhante deixar qualquer um ver como a fazenda estava acabada desde que seu pai morreu. Especialmente quando se tratava de um homem feito T.J., que tinha uma família e mais dinheiro sobrando que a maioria das pessoas conseguiria juntar na vida inteira. A fazenda já fora das melhores da região e vivia mandando cavalos para exposições, além de suprir uns ranchos em Novo México. Mas e agora? Visto de fora, sabia que o lugar parecia malcuidado e deprimente. Quando o pai era vivo, ele tinha pelo menos uma meia dúzia de empregados, quase cem cavalos nos pastos e celeiros e outras construções eram vermelhos com detalhes brancos. As cercas e a casa eram de um branco imaculado, as árvores e arbustos estavam sempre podados, tudo estava em ótimo estado. Mas, depois da sua morte, Heather não teve nem DE


tempo nem dinheiro para manter tudo. O telhado estava com goteiras, as cercas precisavam de remendos, a tinta estava descascando e as árvores e arbustos cresceram demais. Teve que conter um soluço quando pensou na certeza que dera ao pai no seu leito de morte. Ele implorara para que ela mantivesse a fazenda, que estava na família há mais de cento e cinquenta anos. Mas a promessa era quase impossível de cumprir. Aquilo era o que mais doía. Não conseguir honrar seu último desejo seria uma das maiores decepções da vida dela. Ela e o pai eram muito grudados. Ele era seu melhor amigo e ensinoulhe a cuidar da fazenda. Frequentemente pensava que essa proximidade ajudou a afastá-la da irmã. Na verdade, Stephanie era meia-irmã – filha do primeiro casamento da sua mãe. Pelo que foi descobrindo com o tempo, o pai paparicava Stephanie até Heather nascer. Depois disso, não tinha muito tempo para sua enteada, e a irmã se ressentia disso. – Heather, precisa de ajuda? – perguntou T.J., atrás dela. – Não, acabei de terminar aqui – disse, balançando a cabeça. Estava tão imersa naqueles pensamentos inquietantes que não percebera sua proximidade. Mas percebia agora. Ele estava muito perto, emanava um calor delicioso. Ela sentiu um arrepio e, de costas para ele, limpou rapidamente os olhos marejados antes de se virar para encará-lo. – Cadê o Seth? – Na cama. – T.J. riu. – Acho que dei uma canseira nele. Brincamos bastante com um celeirozinho que mugia toda vez que abríamos a porta. Aí ele deu uns bocejos, subiu no meu colo e dormiu. – Obrigada por cuidar dele enquanto eu lavava a louça – disse, e virouse para ligar a cafeteira. – Não é fácil fazer as coisas e ficar de olho nele. T.J. sorriu. – O Seth é ótimo. Gosto muito de cuidar dele. Heather inspirou fundo e soltou o que sobrava da sua raiva. Não era culpa de T.J. se a sua fazenda estava tão caindo aos pedaços e já estava mais que na hora de parar de descontar nele. – Ainda está chovendo. Parece que você vai passar um tempinho aqui. – Ela tirou duas canecas do armário. – Quer café? – Claro. – Ele passou longos segundos em silêncio antes de comentar: –


– Claro. – Ele passou longos segundos em silêncio antes de comentar: – Choveu mais nos últimos dias do que costuma chover nessa época, pelo que lembro. – Não é comum – concordou, e deixou uma caneca de café na frente dele. Enquanto se olhavam, ela se lembrou de como era reconfortante ter um adulto com quem conversar. Passava tanto tempo cuidando de Seth e da fazenda que não teve tempo de perceber que estava muito sozinha. Os segundos foram ficando desconfortáveis, e ela só sabia de um jeito de aliviar a tensão. Quando ela se sentou na cadeira diante dele, eles se encararam ainda por mais uns segundos antes de ela respirar fundo. – Peço desculpas pela minha reação quando soube que você alimentou os cavalos e quando você perguntou das goteiras. Ele olhou-a por sobre a caneca na sua mão antes de responder: – Eu só queria ajudar. – Balançando a cabeça, acrescentou: – Mas, como você disse, o que você faz aqui não é da minha conta. – Não é desculpa para ser desagradável com você – respondeu, sentindo-se pior a cada minuto que passava. Ele só tentou ajudar, e ela foi ingrata. Claro, estava doente e exausta. Mas desconfiava que tinha mais a ver com o fato de fazer séculos que não tinha ninguém em quem confiar. Suspirando, ela admitiu: – Eu estava com... Vergonha. Ele deixou a caneca na mesa e concordou. – Foi o que imaginei. Mas juro que não foi para julgar que perguntei há quanto tempo o telhado estava com goteiras. – Nem sempre foi assim – disse ela, encarando o líquido negro à sua frente. – Era a melhor fazenda da região. – Ela respirou fundo para espantar a mágoa que sempre vinha quando pensava no passado e no que perdera. – Nos últimos anos, tem sido difícil manter as coisas. – Desde que teve Seth? – Os problemas financeiros começaram alguns meses antes, quando meu pai faleceu – admitiu. Não sabia por que queria tanto que T.J. compreendesse a situação. Mas era. – O plano cobriu boa parte do tratamento do meu pai, mas não tudo. – Segurando a caneca com as duas mãos para que não tremesse, acrescentou: – Depois que usei a reserva do


meu pai para pagar a conta do hospital, consegui manter os dois empregados que ainda estavam conosco até ter Seth. Quando ele cresceu um pouco e pude carregá-lo no sling, tive que deixá-los ir embora. Ela levantou os olhos e ficou de coração apertado ao ver compaixão nos dele. – Foi aí que seu cavalo começou a fugir? Ela fez que sim. – Nisso de tomar conta do bebê e do rancho sozinha, acabei não tendo tempo de consertar a cerca e não tinha quem me ajudasse. – Então você está por conta própria há um ano e meio? – T.J. franziu o cenho. – E o pai de Seth? Ele não podia ajudar? – Ele morreu num acidente industrial pouco depois de eu descobrir que estava grávida – disse, balançando a cabeça. – Sinto muito, Heather. Seu peito encheu-se de emoção diante da sinceridade dele. Era tão bom poder conversar sobre aquilo com alguém. – Obrigada, T.J. – Ela engoliu o nó na garganta. – Não vou fingir que não foi uma das piores épocas da minha vida. Perdi meu noivo e meu pai em poucos meses. Mas eu sobrevivi. Tenho um filho lindo e, apesar de não termos mais uma família, temos um ao outro. Passaram alguns instantes em silêncio antes que ele retomasse. – Sei que não é da minha conta, mas como você tem se virado? Ela fez uma pausa. A preocupação e a delicadeza na voz dele passavam a impressão de que se importava. A sensação era inesperada e, somada à atração que sentia por ele, podia ser desastrosa. Talvez conseguisse acalmar esses sentimentos se falasse mais da sua situação. Encolheu os ombros. – Eu ganho uma pequena pensão todo mês e, por mais que não goste, quando é necessário, vendo uma égua matriz. Ele ficou assustado. – Eu não sabia... – Você não é o único que faz criação – interrompeu, sorrindo. – Antes de o meu pai aposentá-lo, o Dançarino Mágico é um quarto de milha americano premiado. – Ela se levantou para encher as canecas. – Vários


filhotes dele ganharam competições mundiais, e até as fêmeas matrizes têm pedigree. – Em outras palavras, seu cavalo não estragou minhas éguas, pode ter melhorado o meu programa. – T.J. franziu o cenho. – O porte dele é excepcional, mas eu não sabia que é um quarto de milha registrado. Por que nunca me avisou quando eu ia resmungar? Heather riu e deixou a caneca dele sobre a mesa. – Se você parasse para respirar, talvez eu tivesse contado. Quando ela se virou para voltar ao seu lugar, T.J. segurou a mão dela. – Por que não começamos do zero e esquecemos o que aconteceu? – perguntou ele, e puxou-a para sentar no seu colo. Em vez de se sentir repelido pelas confissões dela, parecia ainda mais ansioso por explorar a atração entre eles. Sem saber aonde ele queria chegar, Heather só assentiu enquanto encarava seus olhos esverdeados incríveis. Um verde musgo com um castanho ao redor das pupilas que tinha um efeito hipnótico. Não conseguiu nem juntar um traço de indignação. – Por... Por que agora, e não três dias atrás? – perguntou quando conseguiu falar. O sorriso lento dele a fez sentir o pulso acelerado e um frio na barriga. – Se a gente fizesse isso, eu seria obrigado a esquecer que você ficou muito bem usando a minha camisa de flanela e que suas pernas são compridas e benfeitas. – Com o braço ao redor da cintura dela, ele a segurou perto de si enquanto punha a outra mão na bochecha de Heather. – E eu não consigo. – Seus olhos ficaram sérios. – E, já que estamos esclarecendo as coisas, também tenho algo a confessar. O coração dela acelerou. – O que, T.J.? – Pode ter sido inapropriado quando beijei você, mas não me arrependo nem um pouco – disse, num tom baixo e íntimo. – Na verdade, gostaria de beijar você de novo. – Acho que não seria... Uma boa ideia – disse ela, lutando para conseguir respirar. – Por que não, Heather? – perguntou enquanto passava o polegar pelo rosto dela.


Ela sabia que tinha motivos muito bons para não ser recomendável beijá-lo. Naquela hora, não conseguia pensar em nenhum. O toque dele a aquecia, e era impossível raciocinar. – Você gostou quando eu beijei você? – insistiu. Era impossível mentir para ele. – Gostei. Muito. – Então por que eu não posso beijar você agora? – perguntou ele, com um sorriso tão sexy que atrairia qualquer um. – Depois discutimos se foi uma boa ideia ou não. Antes que ela pudesse responder, os lábios firmes dele encaixaram-se nos dela. Fechando os olhos, Heather desistiu de tentar lembrar por que precisava interromper a carícia. Com a língua dele na sua boca, não importava mais. Os cheiros entrelaçados de couro caro e virilidade a cercaram e ela se abriu para ele, o corpo pedindo que intensificasse o beijo, e entregou-se sem pensar duas vezes. Explorando-a com a língua, ele mandou ondas de calor pelo corpo dela quando sua mão passou do rosto para o colo. Mas, quando continuou a descer para apalpá-la, criou uma ânsia dentro dela tão forte que ela mal lembrava que era possível. Ela sabia que podia perder-se nos sentimentos que T.J. estava criando. A rigidez da ereção dele em suas ancas devia bastar para fazê-la voltar a si, mas o desejo dele só aumentava o seu. Enquanto mais ondas de calor varriam seu corpo, Heather lembrou que fazia mais de dois anos que não sentia o menor sinal de paixão. Esteve tão preocupada sendo mãe solteira, dona e administradora de uma fazenda em crise financeira que esqueceu como era ser uma mulher nos braços de um homem que a desejava. Um gemidozinho escapou dela quando T.J. escorregou a mão pela sua perna, depois para o joelho e, em seguida, para a coxa. Mesmo de jeans, o toque dele a fazia tremer. Sem conseguir ficar parada, ela desabotoou a camisa dele. Quando repousou as mãos no torso nu, os músculos firmes e as batidas do coração dele a deixaram sem ar de tanto desejo. Ao reduzir os beijos, T.J. foi mordiscando o pescoço dela e sussurrou em seu ouvido: – Acho que vou para o celeiro um pouco, querida. O hálito quente dele fez sua pele arrepiar, e Heather piscou enquanto


O hálito quente dele fez sua pele arrepiar, e Heather piscou enquanto seu cérebro confuso tentava entender o que dissera. – Mas... Mas você já cuidou dos cavalos. Não tem mais nada para fazer lá. O risinho dele a fez sentir um arrepio delicioso na espinha quando ele a pôs no chão, levantou-se da cadeira e puxou-a de volta para os seus braços. – É, mas se eu não sair para esfriar um pouco, podem acontecer duas coisas agora. Ou vamos acabar fazendo algo que você não está pronta ou eu vou acabar enlouquecendo. – Ele beijou-a no nariz. – Vou voltar a tempo para tomar conta de Seth enquanto você faz a janta. Enquanto observava T.J. abotoar a camisa, vestir a jaqueta e sair da casa, Heather engoliu em seco. Embora ainda sentisse desejo nas veias, tinha que agradecer por ele ter tido presença de espírito para interromper o beijo. O que tinha na cabeça? Envolver-se com Malloy – ou qualquer outro homem – nesse momento da vida era loucura. Estava tentando manter sua fazenda. Tinha que pensar no bem-estar do filho, e a única coisa de que precisava era o estresse de qualquer tipo de envolvimento físico ou emocional. Claro, ela podia muito bem estar exagerando. A química entre eles era inegável, mas e daí? Não significava nada. A maioria dos homens só precisava de uma mulher receptiva para se excitar. Ruborizou ao pensar em como reagiu a ele. Não demonstrou a menor relutância. Ele devia achá-la fácil. Ou pior: desesperada atrás de um homem. Balançando a cabeça, deixou as canecas na pia e foi ver como o filho estava. T.J. só devia estar atrás de diversão, e, apesar de não ter demonstrado, ela não era desapegada. Tinha um filhinho que contava com ela para protegê-lo – de ficar sem casa e de homens sem intenções de formar uma família –, e era o que pretendia fazer. Ao olhar para Seth, fez uma promessa muda de ser mais forte e madura. Não iria deixar T.J. se aproximar demais do filho e partir para outra quando cansasse dela. Sofrer uma rejeição era uma coisa, mas jamais deixaria aquilo acontecer com ele.


– DE NOVO – disse Seth, rindo. – De novo? – T.J. soltou um grunhido exagerado. – Não prefere brincar com o celeiro que faz um barulho quando a gente abre a porta? – Não – disse o bebê, rindo feliz. – Pocotó. Ele sabia que, se desse outra volta com Seth nas costas, o garotinho iria querer mais. Mas ele parecia gostar de ouvir T.J. resmungar, e Seth achava engraçado quando ele cedia. Bastava saber que o menino estava se divertindo para T.J. ficar de joelhos. – Vocês dois estão se dando muito bem – comentou Heather ao vir da cozinha. – Pocotó – disse Seth, dando tapinhas na nuca de T.J. Assentindo, ela olhou de um para outro. – Ele é um ótimo pocotó, mas você precisa de um banho, rapazinho, e depois vai para a cama. – Não – insistiu Seth. – Pocotó. – Seth. – Havia um tom de ameaça na voz de Heather que T.J. achou melhor eles não ignorarem. – Posso dar uma última volta? – perguntou T.J., respeitando as ordens de Heather. Não queria decepcionar o menino, mas também não queria irritar a mãe com sua intromissão. – Por favor! – implorou Seth. – Por favor! – imitou T.J., sorrindo. – Dois contra um é covardia – alertou. – Mas tudo bem. Mais uma voltinha e você vai tomar um banho e dormir, Seth. – Tá – disse Seth com alegria enquanto dava puxões na camisa de T.J. – Faz pocotó. Resmungando, T.J. arrancou uma risada de Seth e deu outra volta pela sala, parando diante de Heather. – Muito bem, camarada – disse T.J., endireitando-se ao levantar o garoto das costas. – Hora de você tomar um banho e eu relaxar um pouco na frente da TV. – Volto num minutinho – disse ela, levando Seth pelo corredor. Enquanto Heather dava um banho no filho e o preparava para dormir, T.J. sentou no sofá e ligou a televisão. Não estava com muita vontade de


ver nada, mas, quando Heather voltasse, seria bom ter uma distração para amenizar a tensão que se criou entre eles mais cedo. Ao dar de comer aos cavalos de manhã, ele notou que várias baias precisavam de conserto. Então, à tarde, transbordando de adrenalina no sangue, pregou toda tábua solta que viu pela frente. Mais ou menos uma hora depois, ao voltar para casa, Heather não tinha muito a dizer, e ele sabia por quê. Ele tinha certeza de que, enquanto ele estava tentando gastar a energia acumulada, ela andou pensando na química entre eles, que ameaçava sair de controle rápido. T.J. vira o calor nos olhos dela depois do beijo e, a julgar pelo modo como funcionava a cabeça das mulheres, ela devia ter se convencido a nunca mais deixar aquilo acontecer. Ele franziu o cenho. T.J. percebeu que havia uma atração mútua entre os dois assim que Heather saiu do carro na noite em que ela e Seth dormiram na sua casa. Só não perceberia a tensão se fosse um idiota completo. Mas não imaginava que seria tão forte e tinha certeza de que Heather também não. A química a assustara, e, para ser franco, ele também não estava completamente à vontade. Gostava da sua vida do jeito que estava. Não queria nada muito duradouro. Ia e vinha quando bem entendia e não precisava dar satisfações a ninguém. Mas não sabia se conseguiria ignorar aquilo que eles tinham, o que quer que fosse. Quando ele a puxou para o seu colo depois do café, só queria oferecer um ombro amigo. Perder noivo e pai num intervalo tão curto e, em seguida, criar um filho sozinha sem nenhum tipo de apoio foi extremamente difícil para ela. Aquele tipo de dor atrás de dor seria capaz de destruir muitas mulheres. E, além do mais, estava tocando a Círculo W por conta própria. Sinceramente, não sabia como ela conseguia. Heather era uma guerreira, e ele queria que ela soubesse o quanto a admirava. Mas, no instante em que a segurou nos braços, perdeu completamente a razão. Tudo o que conseguiu fazer foi mostrar que tinha tanto controle sobre seus hormônios quanto um adolescente na festa de formatura. Como nojo de si mesmo e muito irrequieto para parar sentado, T.J. balançou a cabeça e se levantou para olhar pela janela. A chuva tinha parado, mas a estrada só ficaria boa a partir do dia seguinte. Pelo menos


poderia cuidar dos cavalos dela de manhã antes de voltar para a sua fazenda. Enquanto estava parado pensando no que mais poderia fazer para ajudar Heather, Seth correu para o seu lado, sorridente. O menino deu tapinhas na coxa de T.J. para chamar sua atenção. Balbuciando algo que ele não entendeu, Seth agarrou a mão de T.J. e começou a puxá-lo. – Seth – disse Heather com firmeza, correndo para o cômodo. Havia um tom de irritação perceptível na sua voz. – Está na hora de ir para a cama. T.J. levantou o menino e virou-se para Heather. – Ele estava me dando boa-noite? Ela hesitou um pouco antes de balançar a cabeça. – Não, ele quer que você o ponha para dormir. – Podemos dar um jeito nisso – disse T.J., rindo enquanto fazia festinha no cabelo acobreado do menino. – Gostei do seu pijama, amigo. Eu queria ter um pijama de cavalo. Para sua surpresa, Seth passou os braços pelo pescoço de T.J. e o abraçou, depois deu um beijo bem babado na sua bochecha. – “Mimir agola.” Heather não parecia muito satisfeita quando carregou Seth corredor adentro até seu quarto, e T.J. ficou se perguntando o que tinha feito para aborrecê-la daquela vez. Nada lhe ocorria, mas iria tentar descobrir o que estava errado assim que botassem Seth para dormir. – Boa noite, camarada – disse T.J. ao deixar o bebê na caminha. – Vejo você de manhã. – “Histólia” – disse o menininho, bocejando. – Só vai levar um minutinho – disse Heather, e apanhou um livro. Quando T.J. estava para sair do quarto, Seth se sentou na cama e balançou a cabeça. – “Histólia.” – Não sou muito bom em língua de bebê. – T.J. franziu o cenho. – O que ele quer? – Ele quer que você fique para ouvir a história – respondeu ela, dando um suspiro profundo. T.J. via que Heather não queria que ele ficasse para o seu ritual noturno, mas tinha a impressão de que, saindo ou ficando, iria deixar um dos dois


chateado. – Você prefere que eu vá ver televisão na sala, Heather? Ela encarou-o por um longo instante antes de balançar a cabeça. Depois se sentou numa cadeirinha ao lado da cama. – Não, não tem problema, pode ficar. – Ao abrir o livro, acrescentou: – Basta eu ler algumas páginas para ele pegar no sono. Quando ela começou a ler sobre um trenzinho chamado Thomas, T.J. observou suas expressões e seu tom de voz. Heather era uma ótima mãe, e Seth era um menino de sorte. Ela ouvia o filho, se importava com o que queria e tentava acomodar seus desejos dentro do possível. Era o tipo de mãe que todo homem iria querer para seus filhos. O tipo de mãe que T.J. iria querer para seus filhos. O coração dele parou. O que raios estava acontecendo? Ele nunca pensara em filhos antes. Estava mesmo pensando nisso agora? Quando viu as pálpebras de Seth descer cada vez mais até ele fechar os olhos, T.J. respirou um pouco melhor. Quanto mais rápido o menino pegasse no sono, mas rápido ele e Heather poderiam ir para a sala e ele voltaria a si. Heather continuou a ler por mais uns minutinhos, fechou o livro, levantou-se e apagou a luz da cômoda. Ela seguiu T.J. para fora do quarto e fechou a porta. Quando entraram na sala, T.J. virou-se e pôs as mãos no ombro dela. – O que houve? Não diga que está tudo bem. Você não estava tão calada quando estava doente. – Vamos para a cozinha – sugeriu. – Podemos conversar lá sem acordar Seth. Assentindo, ele esperou se sentarem à mesa da cozinha antes de perguntar: – O que está acontecendo, Heather? Ele a viu respirar fundo antes de olhá-lo diretamente nos olhos. – Assim que a estrada estiver liberada e você puder voltar para a sua fazenda, prefiro que não venha mais aqui. – Por quê? É por causa do beijo? – Ele já imaginava que iriam sentar para conversar sobre aquilo mais cedo ou mais tarde. Mas tinha


esperanças de que levaria a mais beijos. A julgar pela expressão determinada no belo rosto dela, não acabaria bem. – Sim e não – disse ela, devagar. – Você podia explicar melhor? – Além do beijo, não conseguia pensar em nada que havia feito para aborrecê-la tanto. – Não quero que você fique ofendido com o que vou dizer. – Ela falava com muito cuidado. – Mas não quero mais ver você perto de Seth. De todas as exigências que passaram pela cabeça dele, parar de interagir com seu filho não estava entre elas. – E como você acha que devo levar isso? – indagou, bravo. – Até onde eu sei, eu e Seth nos demos muito bem. Até tomo cuidado com o que falo na frente dele, porque não quero que ele aprenda certas palavras. Ela assentiu. – E eu agradeço o seu cuidado. T.J. cruzou os braços e recostou-se na cadeira. – O que está acontecendo, Heather? Por que eu sirvo para tomar conta dele num minuto e, de repente, não sirvo mais? – Quero evitar que meu filho fique muito ligado a você – explicou. – Não quero que ele se magoe. A raiva de T.J. chegou ao ápice. Ele descruzou os braços, inclinou-se para frente e apontou-lhe o dedo. – Vamos esclarecer uma coisa aqui mesmo, Heather Wilson. Eu nunca diria nem faria nada para fazer mal a você ou Seth, tanto do ponto de vista físico quanto emocional. Eu não sou desses e nunca vou ser. – Eu sei que você não tem a intenção – disse ela, balançando a cabeça. Estava vulnerável e chateada. – Mas crianças não têm reservas nenhuma. Quando elas gostam de alguém, se entregam de todo o coração incondicionalmente, porque não conhecem nenhuma outra maneira. Elas não percebem que não é porque alguém está na vida delas agora que vai continuar para sempre. Eu vejo que ele gosta de você e o quer por perto, mas tenho medo de que comece a depender da sua presença. E, quando não estiver mais, quando você se cansar de nós, ele não vai entender. T.J. passou vários instantes a encará-la. Não era só Seth que ela estava tentando proteger. Ela podia não se dar conta, mas estava com medo de se machucar emocionalmente também. Considerando tudo o que ela havia


perdido, ele compreendia aquele cuidado. Mas a teimosia do seu queixo erguido lhe indicava que ela estava resoluta. Tentar convencê-la da falha no seu raciocínio àquela altura seria desperdício de energia. Embora detestasse ceder, ele disse: – Como você quiser. – Ele encolheu os ombros quando ela se levantou da cadeira. Ele fez sinal para a sala. – Se não se incomoda, acho que vou ver o jornal e depois deitar. Você se incomoda se eu dormir no sofá? Uma sombra de decepção cruzou seu belo rosto, confirmando as suspeitas dele. Ela tinha medo de começar a depender dele, de querê-lo junto de si. O que ela não havia percebido – e ele não iria apontar – era que já tinha começado a depender dele. Heather já queria que T.J. fizesse parte da sua vida e da de Seth. Do contrário, não teria ficado tão desapontada quando ele aceitou sua decisão sem discutir. – Desculpe por fazer você dormir no sofá – disse ela, aprumando os ombros ao se levantar. – Eu fechei o andar de cima para economizar na conta de luz e para não pesar na calefação, que é mais velha que eu. – Não tem problema – respondeu ele, seguindo-a até o armário do corredor. Quando ela lhe entregou um travesseiro e um lençol, suas mãos se tocaram e ele sentiu uma onda de desejo percorrer o braço e alojar-se no meio do peito. Fez o possível para ignorá-la. – Até amanhã. – Boa noite. T.J. deu as costas e foi para a sala, largou o lençol e o travesseiro no sofá e, em seguida, sentou numa poltrona para ver um programa policial qualquer sem prestar a mínima atenção. O que estava acontecendo? Ele não pretendia se prender a uma mulher, pretendia? Então por que cargas d’água o fora de Heather importava? Ele devia estar aliviado. Mas estava era irritado com a teimosia dela e pelo seu medo irracional de que ele poderia causar algum tipo de dor a Seth e a ela. Virado para a televisão, ele repassou a conversa. Sabia que a relutância dela era consequência de ter perdido os dois homens mais importantes da sua vida num intervalo de tempo relativamente curto. Era natural que tivesse se sentido completamente sozinha e, embora não percebesse, sua


resistência a se envolver com quem quer que fosse se devia ao temor de perder mais alguém, como perdera o pai e o noivo. Ele estava disposto a carregar uma bagagem emocional dessas? Sem dúvida tinha química de sobra entre eles. Não podiam ficar a metros de distância sem que ele sentisse vontade de tomá-la nos braços. E, se a reação dela queria dizer algo, Heather desejava estar em seus braços. Então o que ele pretendia fazer a respeito? Nunca estivera em um relacionamento sério. Chegara a namorar algumas mulheres, mas sempre estivera tão concentrado no seu objetivo de vencer campeonatos mundiais e depois comprar uma fazenda para começar sua criação que nunca levou nada realmente a sério. Nos seus tempos de rodeio, ele chegou a sair com as marias-breteiras que frequentavam os eventos na esperança de acrescentar um nome à lista de caubóis campeões que levaram para a cama. Ele não tinha muito orgulho do seu passado, mas seu nome estava em muitas dessas listas. E, claro, sempre que sentia uma necessidade imensa de arrumar companhia feminina, fazia suas visitas ao Freio Quebrado, em Beaver Dam, para encontrar uma mulher disposta que não quisesse nada além de uma única noite de diversão. Mas nunca se envolvera num relacionamento sério, muito menos com uma mulher que tivesse um filho a tiracolo. Heather não era o tipo de mulher que um homem poderia levar para a cama e depois deixar na manhã seguinte sem nem olhar para trás. Era parte de um pacote. Tinha um filho bonitinho. Qualquer um que entrasse num relacionamento com ela também se envolveria com o menininho. Ele por acaso estava pensando em ter esse tipo de envolvimento com Heather? E se não desse certo? A última coisa que queria era ferir o menino. T.J. desligou a televisão e tirou as botas, levantou-se da poltrona e esticou-se todo no sofá. Deitado ali, tentando ignorar a mola quebrada que cutucava suas costas, sabia exatamente o que iria fazer e por que estava tão frustrado. Heather era mais do que uma simples mãe solteira que mal conseguia se sustentar e não tinha ninguém a quem recorrer. Era a única mulher que tinha atiçado seu interesse em muito tempo – talvez em toda a sua vida. Não podia virar as costas para aquilo. Se virasse, tinha a impressão de que


iria se arrepender pelo resto da vida. Sempre pudera confiar no seu instinto, e não seria agora que iria começar a questioná-lo. Gostando ou não, ela teria que aceitar o fato de que ele não iria sair dali. Ela precisava de alguém a quem recorrer quando a situação ficasse difícil e saísse do seu controle. E T.J. queria estar presente para ajudar tanto ela quanto Seth. Agora, tudo o que precisava fazer era convencê-la a lhe dar uma chance. E pretendia começar de manhã cedo.


CAPÍTULO 5

NA MANHÃ, Heather acordou e encontrou o travesseiro e o cobertor que havia dado a T.J. na noite anterior amontoados na extremidade do sofá, mas não havia sinal dele. Ela foi até a cozinha e olhou pela janela para ver se a caminhonete dele ainda estava estacionada ao lado do carro dela. Mas não estava. Ela foi tomada por um forte sentimento de frustração, mas tentou dizer para si mesma que era bem isso o que ela queria – era assim que as coisas tinham que ser. Devia ficar feliz pelo fato de T.J. não ter brigado com ela, que fizera exatamente o que ela tinha pedido. Mas ela não estava feliz. Ela passara uma noite horrível pensando em todos os motivos pelos quais pedira que T.J. se afastasse dela e do filho. Esse era o único jeito de não magoar Seth. Mas lançar mão da razão não extinguiu aquela solidão detestável que parecia preencher sua alma. Ela suspirou e se virou para pegar uma caneca no armário. Percebeu então um bilhete sobre o balcão junto a um bule de café fresquinho. Era de T.J., informando que optara pelos cavalos. Agradeceu a ela por oferecerlhe um lugar para passar a noite e disse para ela entrar em contato se precisasse de algo. – Bom, parece que você conseguiu o que queria – murmurou para si mesma enquanto servia um pouco de café e começou a preparar mingau para o filho. Mas por que isso não a deixava mais aliviada? – Ma-mã, fome – disse Seth, ainda sonolento, enquanto se arrastava


– Ma-mã, fome – disse Seth, ainda sonolento, enquanto se arrastava pela cozinha. – Estou preparando aquilo que você mais gosta, querido. Mingau com canela e um pouquinho de açúcar mascavo – informou ela, pegando o garoto no colo. – Pocotó? – perguntou ele, olhando ao seu redor. – O T.J. teve que voltar para casa – disse ela, carinhosamente. – Não! – Seth balançou sua cabecinha. – Meu pocotó. – Talvez a gente volte a ver o T.J. algum dia – sugeriu ela, achando que iria ser o bastante para deixar Seth mais calmo. Felizmente, pareceu tê-lo acalmado por um tempo, mas ele passou a manhã inteira perguntando por T.J. e Heather sentiu vontade de chorar quando levou Seth para tirar uma soneca depois do almoço. Era óbvio que Seth estava sentindo a falta de T.J. E, sendo sincera consigo mesma, ela também estava. Como era possível aquele homem se tornar tão importante em suas vidas em tão pouco tempo? E como T.J. conseguia ser tão carismático? Ele não era o primeiro homem a lhe dar atenção desde que ficara sozinha. Um dos fazendeiros das redondezas comprara uma de suas éguas. Há alguns meses, ele apareceu para levar ela e Seth para tomar sorvete com a desculpa de que queria negociar mais um cavalo. Logo ficou claro que o que T.J. queria, no fundo, era sair com ela. Ele até era legal, mas o beijo que ele deu quando a trouxe de volta não ajudou nem um pouco. Bem diferente da primeira vez que T.J. a beijou; era como se o tempo tivesse parado. Tinha deixado um gostinho de quero mais. Ela esfregou os olhos diante da tensão crescente. Por que ele? Por que T.J. Malloy fora o único a despertar algo nela que era impossível de esquecer? Quando ela disse a T.J. que estava preocupada com Seth, com o apego cada vez maior entre eles, acabou omitindo que ela também se sentia da mesma forma. T.J. lembrava-a de como era bom estar em um relacionamento, de como a vida era vazia sem alguém com quem dividi-la. Claro, ele havia falado sobre ser um bom vizinho e ajudá-la com a fazenda, mas, além de beijá-la algumas vezes, ele jamais falou sobre ter um


relacionamento. Ela também não queria saber disso. Ou queria? Ao sentar à mesa da cozinha, perguntando-se se havia sido tomada pela tensão e pedido o pouco que ainda restava dos sentidos, Heather escutou um veículo se aproximar pela estrada. Ao olhar pela janela, dois caminhões brancos com o símbolo da Diamante Bruto nos lados, seguidos pela caminhonete preta de T.J., estacionaram próximo ao celeiro. As caminhonetes estavam forradas de mantimentos, como sacos de palha, feno e grãos. Ela não sabia se estava feliz por revê-lo ou brava por ele ter ignorado seu pedido de não voltar mais ali. Sentiu-se tomada por emoções confusas assim que ele saiu da caminhonete. Mesmo de longe, T.J. era tremendamente atraente, de um jeito que beirava o pecaminoso, e ele aparentemente ignorou tudo o que ela havia lhe pedido. Heather saiu para ver o que ele queria, mas olhou no relógio e se lembrou que Seth acordaria em breve. Sem querer acordá-lo antes do tempo e com medo de deixá-lo sozinho, ela só foi até a varanda para chamar T.J.: – Você pode vir até aqui um pouquinho? Quando ele atravessou o pátio da fazenda e subiu as escadas, ela quase ficou sem ar, o que sempre acontecia quando estava perto dele. Mas quando ele parou na frente dela e deu um beijo em sua boca, ficou com medo de nunca mais voltar a respirar. – O que houve, minha querida? Seu sorriso fácil deixou-a toda arrepiada e esqueceu completamente de odiá-lo por beijá-la e não atender seu pedido para que se afastasse. – De-de onde saiu tudo isso? – perguntou, apontando para os mantimentos que os funcionários dele estavam descarregando e levando até o celeiro. Era muito mais fácil focar no que ele fizera do que em sua pessoa. – Não tenho dinheiro para isso. Só compro aquilo que posso bancar. Ele balançou a cabeça. – Não se preocupe. Eu tinha alguns fenos e algumas palhas sobrando e ocupando espaço no meu sótão. Outro dia, quando meu capataz encomendou aveia, ele acabou encomendando vários sacos a mais. Pensei


que poderia deixá-los com você, para poupá-la de uma ou duas viagens até a cidade para se abastecer. – Já disse que eu não preciso de caridade – rebateu ela, balançando negativamente a cabeça. Ele teve a audácia de ignorá-la. – Onde está o pequeno caubói? – Ele está tirando uma soneca – respondeu ela, de maneira automática. – Diga aos seus funcionários para pararem de descarregar os mantimentos e levá-los de volta para a sua casa. Ele segurou-a pelo cotovelo com a mão e virou-a, conduzindo-a para dentro da casa. – Nada feito, Heather. Eu tenho uma dívida com você e está mais do que na hora de quitá-la. Ela franziu o cenho. – Do que você está falando? Você não me deve coisa nenhuma. T.J. acenou positivamente com a cabeça. – Ah, devo, sim. Pelo menos oito das minhas éguas cruzaram com o seu garanhão premiado nos últimos anos e eu nunca paguei você por isso. – Você enlouqueceu? Até ontem você dizia que o Dançarino Mágico era um garanhão arisco que prejudicou toda a sua prole. – Descobri que eu estava enganado – respondeu, dando de ombros. Ele tirou sua jaqueta jeans e puxou uma cadeira. Então, sentou-se na cadeira, cheio de razão. Sinalizou para que ela também sentasse. – Sente-se. Precisamos conversar. Ela permaneceu de pé. – Sobre? – Sente-se e vai descobrir. – As coisas sempre precisam ser do seu jeito? – indagou enquanto pegava a cadeira na frente dele. – Achei que tivesse sido clara ontem à noite quando... – A gente discute o seu decreto depois. – Ela já conhecia aquele olhar determinado da noite em que ele insistira para que ela e Seth passassem a noite na fazenda dele. – Agora, preciso lhe dizer algo e quero que me prometa que só vai comentar depois que eu tiver dito tudo que tenho para falar.


Heather não tinha certeza de que ficar calada seria a melhor alternativa, mas, aparentemente, ele não falaria enquanto ela não prometesse não interrompê-lo. Ela deu um suspiro profundo. – Certo. – Amanhã, depois que eu cuidar dos seus cavalos... – Já disse que de agora em diante eu cuidarei deles – insistiu. – Em vez de lembrá-la de ter prometido que não interromperia, ele inclinou ligeiramente a cabeça e deu um sorriso para ela como quem diz que já sabia que ela não conseguiria ficar quieta. – Oh, ok. – acrescentou, cruzando os braços. – Termine o que você tem para dizer. – Como eu dizia, amanhã, depois que eu cuidar dos cavalos, um dos meus funcionários e eu vamos até o telhado e ver o que podemos fazer para dar fim às goteiras. – Quando ela ia começar a objetar, ele levantou a mão: – Me escute: a gente só vai fazer um remendo que deve durar até a primavera. É só ali que tem goteira? – Sim, mas... – Ok, vamos dar uma improvisada para evitar problemas durante o resto do inverno. Depois, quando estiver mais quente, podemos substituir o telhado. Ele se inclinou na cadeira, orgulhoso de si mesmo. – Acabou? – perguntou. Quando ele assentiu, ela balançou a cabeça: – Não posso deixá-lo subir no telhado da minha casa, correndo o risco de cair. Para surpresa dela, ele lançou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada. – Querida, fico feliz com sua preocupação, mas eu sei bem o que estou fazendo. Desde que saí da escola até o fim da minha graduação, passei todos os verões colocando telhados durante a semana e competindo em rodeios nos fins de semana para bancar meus estudos. – Não importa. Não vou deixá-lo fazer isso. Não me sentiria bem deixando-o arrumar meu telhado sem ser recompensado e, no momento, não tenho como pagar. E enquanto estamos discutindo, você poderia ter dito para seus funcionários recolocarem as coisas nos caminhões e levá-las


de volta para a Diamante Bruto, porque também não tenho como pagálas. – Achei que isso já estivesse resolvido. – Levantou-se e caminhou ao redor da mesa. Antes que ela descobrisse o que ele planejava, ele ergueu-a, sentou na cadeira dela e colocou-a em seu colo. – Os mantimentos são para pagar o que devo pela cruza dos nossos animais. Ponto. – Ele deu um beijo no pescoço dela. – E eu e meus funcionários vamos arrumar o telhado amanhã. Faça um almoço para a gente e estamos quites. Não se discute mais. Como ela seria capaz de reclamar quando sequer podia pensar com ele a segurando e beijando? E por que era incapaz de resistir a ele enquanto a pegava no colo? Ela não sabia bem. Mas sempre que ele a pegava daquele jeito, ela não só sentia a química entre eles, mas sentia como se uma calma se apoderasse dela, como um refúgio de todos os problemas enfrentados nos últimos dois anos e meio de sua vida. – E na noite passada, quando pediu para eu me afastar, você achou que estivesse concordando só porque fiquei calado – disse ele, beijando-a do pescoço até a ponta da orelha. – Não foi isso, minha querida. Não vou a lugar algum. Quero ajudá-la. Você e Seth. – Não acho que a sua presença vá ajudar muito, acho que só vai dificultar as nossas vidas – disse ela, sendo sincera. Ele segurou o rosto dela e encarou-a. – Existe algo entre a gente, Heather. O que quer que esteja nos unindo, sei que isso a deixa assustada e com medo de acabar magoando Seth. E para ser sincero, eu também fico confuso com tudo isso. Mas andei pensando muito ontem à noite e cheguei à conclusão que a gente não pode ignorar. É algo que existe, gostemos ou não. Mas prometo que desceria ao inferno antes de machucar você ou Seth. – Seria melhor ignorarmos – insistiu ela, não soando tão convincente quanto gostaria. Ela não tentou negar que havia uma química entre eles. Ambos sabiam bem que estava mentindo. – Não quero fazer isso – disse firmemente e abaixou a cabeça. No momento em que seus lábios pousaram sobre os dela, Heather desistiu de lutar contra suas próprias vontades e fechou os olhos. Ela não


se sentia nem um pouco à vontade, mas desejava o beijo de T.J. Queria que a fizesse se sentir mais do que uma mãe solteira, lutando para fazer as coisas funcionarem naquela fazenda que estava fugindo do seu controle. Queria se sentir mulher novamente. Quando T.J. induziu a boca de Heather a se abrir para ele, colocou sua língua nela e levou-a a praticar um jogo de entra e sai. Ela sentiu um calor da cabeça aos pés. Sentiu-se tomada por um poder feminino quando ele encorajou-a a assumir o controle e explorá-lo da mesma forma que ele a explorara. Ela ergueu a mão para poder entrelaçá-la com a dele. Abraçou-a com força. Quando as unhas dela tocaram brevemente a sua pele, ouviu-o soltar um gemido. Foi então que sentiu a ereção dele roçando nela. Já era possível sentir em seu próprio corpo um calor delicioso em sua parte mais feminina. Entregar-se aos braços dele era inevitável. – Pocotó! – gritou Seth ao entrar na cozinha. O calor que percorria as veias dela logo se abrandou. Ela recuou e conferiu se T.J. parecia irritado pelo fato de seu beijo ter sido abruptamente interrompido. Seu sorriso compreensivo surpreendeu-a. Outros homens teriam se incomodado com o filho de alguém interrompendo uma troca de carinho. Mas T.J. levou numa boa. – Continuamos depois – prometeu ele, dando um beijo na ponta do nariz dela. Voltando-se para Seth, T.J. abriu um sorriso quando pegou o filho dela no colo. – E aí, amigão! A soneca estava boa? – Sim – respondeu Seth, jogando os braços ao redor do pescoço de T.J. para dar-lhe um abraço – Andar no pocotó. – Tem que pedir para a sua mãe – disse ele, gargalhando. – Por favor, mamá. Ela ficou com pena de dizer não. – Só uma vez, T.J. tem que voltar para ajudar seus funcionários – respondeu, levantando-se do colo de T.J. – Tá – O risinho de Seth amoleceu o coração dela. O garotinho era tudo para ela, mas T.J. tinha razão. Aquilo que havia entre eles não podia ser ignorado. Só esperava não estar conduzindo Seth – ou ela mesma – para uma grande frustração. Mas quando ela viu T.J. ir para o chão brincar com Seth na cozinha,


Mas quando ela viu T.J. ir para o chão brincar com Seth na cozinha, percebeu que aquela força que os unia, o que quer que fosse, incluía o filho dela. Seth não se dava muito bem com estranhos, mas com T.J. foi diferente. E T.J. não se incomodava nem um pouco. Inclusive, olhá-los brincando era como olhar um pai com o filho. Ela sentiu um nó na garganta, teve que se segurar para não entrar em pânico. Dizem que é preciso ser muito especial para tratar o filho de outro homem como se fosse seu. Seria T.J. esse tipo de homem? Até então, T.J. havia sido extraordinário. Ele jamais hesitou em ajudá-la com Seth e a manter as coisas calmas. Nunca chegaram a falar sobre relacionamentos e T.J. prometeu nunca fazer mal algum a Seth, inclusive emocionalmente. Mas como saber se não era da boca para fora? Tivera tantas decepções nos últimos anos que era até difícil de acreditar. – Certo, amigão, agora tenho que ver se minha equipe terminou de descarregar tudo no celeiro – falou T.J., parando para que Heather pegasse Seth no colo. – Como é que se diz, Seth? – disse Heather prontamente. – “Obigado.” – De nada, amigão – disse T.J. enquanto se levantava. Segurando o filho com um braço, Heather pegou o casaco de T.J. com o outro. – Ainda não estou muito à vontade com isso – disse baixinho enquanto entregava o casaco para ele. – A gente já combinou tudo, minha querida. – Ele pegou o casaco, colocou-o e deu um abraço nela e em Seth. – Vamos com calma e veremos onde isso tudo vai dar. – Ele olhou o relógio. – Eu queria poder ficar por aqui, mas recebi uma ligação de um dos meus irmãos quando cheguei em casa hoje pela manhã. Tenho que encontrá-lo para jantarmos em Beaver Dam. – Não precisa me dar satisfações – disse ela, balançando a cabeça. – Eu nem pensei que você apareceria. – Só queria que soubesse onde estarei, caso precise de algo. – Deu um beijo na testa dela e entregou-lhe um cartão com o logo da Diamante Bruto e o seu celular. – Eu e Seth ficaremos bem – assegurou ela, colocando o cartão no bolso


– Eu e Seth ficaremos bem – assegurou ela, colocando o cartão no bolso da calça. – Então, nos vemos amanhã. – E foi em direção à porta. Enquanto observava T.J. ir embora, Heather se sentiu como se mergulhasse numa piscina profunda sem fazer ideia de como nadar. Ela iria realmente deixar que T.J. a ajudasse? Aceitaria a ideia de que precisavam explorar a atração entre eles? Observando-o da cozinha, viu-o conversar com seus funcionários e se virar para acenar para ela ao entrar na caminhonete. O coração dela bateu mais forte e, de tanto nervosismo, pegou-se mordendo o lábio. A ideia de se envolver com alguém era apavorante. Seu filho merecia um pai – alguém que o amasse, brincasse com ele e lhe ensinasse coisas. Mas era possível que alguém se preocupasse com o filho de outro mesmo já tendo o seu próprio filho? Existiria alguém assim? Mesmo seu pai, um dos caras mais legais que conhecera, fora incapaz de lidar com isso. Sua irmã mais velha era filha do primeiro casamento da mãe e, pelo que Stephanie comentara, tudo dera certo até o momento em que Heather nasceu. Depois disso, todas as atenções do pai se voltaram para Heather, que não tinha mais tempo para a irmã dela. Não queria algo assim para seu filho. Mas, certo ou errado, ela já estava envolvida com T.J. e seu filho passara a ver nele uma figura paterna, embora ainda fosse novo para perceber. QUANDO T.J. avistou Lane nos fundos do Freio Quebrado, parou para tomar uma cerveja no bar antes de se sentar no banco do lado oposto da vasta mesa. Ele tirou o chapéu e pendurou-o na parede. – O que você fez que deixou a Taylor tão irritado? – perguntou, sem conseguir conter o riso. Lane franziu o cenho: – Por que você acha que minha mulher está irritada? – Desde que vocês casaram, dá para contar nos dedos as vezes em que você saiu sem ela. E se me lembro bem, isso aconteceu quando vocês brigaram, ela armou um barraco e você quis sair para arejar a cabeça. T.J. percebeu desde que conhecera Taylor que aquela ruiva era perfeita para Lane. Seu entusiasmo e paixão pela vida amenizavam a seriedade de


Lane, enquanto a calma dele a fazia controlar sua impulsividade. – Bom, eu não fiz nada dessa vez. Ela não tem se sentido bem nos últimos dias. – Ela está gripada? – indagou T.J., esperando que estivesse errado. – A Hea... – Ele tossiu para disfarçar a mancada. – Dizem que tem uma virose por aí. – Não, é algo no estômago – explicou Lane, evidentemente sem notar a falha do irmão. – Já que ela não sente vontade de cozinhar e só quer saber de dormir, decidi deixar que ela descansasse e ver se você e o pessoal querem comer uma carne comigo. – Quem mais vai vir? – indagou T.J. – Acho que Sam e Ryder vieram para esses lados. – Lane tomou um gole de cerveja e deu uma gargalhada: – Bia disse que, depois que levar o pequeno Hank para a noite, ela e Mariah vão experimentar vários cortes de cabelo para a grande noite de Mariah com o namorado, em Dallas. E Ryder disse que a Summer falou que, se ele continuasse em cima dela e do bebê, ela daria o fora. T.J. começou a rir. – Entendo que Sam não queira sair para ir em busca do corte de cabelo ideal. E do jeito que Ryder é superprotetor, me surpreendo que ele não tenha colocado Summer e o bebê em uma bolha. Lane concordou: – Já pensou no que Ryder vai fazer quando um pobre garoto espinhento resolver dar em cima da Katie? – Quer apostar quanto que Ryder vai dar um jeito de preparar suas armas quando o rapaz vier pegar a Katie? – É, ele vai dar um jeito de apavorar o garoto. – Pelo menos o garoto vai pensar duas vezes antes de fazer alguma bobagem com a Katie – acrescentou T.J. – Aliás, você chegou a falar com o Jaron desde que a Mariah fez o seu anúncio na noite de Natal? – perguntou, sabendo que o irmão não estava muito feliz com a ideia de que ela iria sair com alguém. – Quando liguei para convidá-lo, tentei falar com ele a respeito. – Lane encolheu os ombros. – Ele me mandou cuidar da minha vida e disse que tinha outro compromisso.


T.J. balançou a cabeça. – Você o conhece. Ele não fala muito sobre seus problemas. Ele se incomoda com isso mais do que nós todos. – É. Mas até que ele esteja pronto, não é bom deixá-lo de fora. – Não. – T.J. bebeu um longo gole de cerveja. – Jaron sabe onde nos encontrar quando estiver pronto para conversar. – Sam e Ryder chegaram – disse, apontando para a entrada do bar. Enquanto T.J. observava os irmãos vindo até a mesa, abriu espaço para eles sentarem. Quando Sam e Ryder chegaram, T.J. perguntou: – E o Nate? Vai vir? Lane deu de ombros. – Ele disse que iria para Waco hoje à noite. – Ele precisa casar com aquela garota de uma vez e acabar com isso. – Ryder só disse o que todos pensavam. – Ele me disse que eles tinham brigado de novo – comentou T.J. – Pouco antes de tentar me aconselhar sobre mulheres. Todos caíram na gargalhada. – E olha que ele estava tentando dar conselho – acrescentou Sam. – A única mulher com quem vi você sair regularmente foi aquela sua vizinha, dona do garanhão. T.J. quase se engasgou. Ele sabia que, se os irmãos desconfiassem que ele ficava na casa de Heather mais do que na própria casa nos últimos dias, eles não falariam de outra coisa. Mas não sabia como responder a pergunta de Sam sem mentir. E isso ele se negava a fazer. Ele nunca fora desonesto com os irmãos, não passaria a sê-lo agora. Deu de ombros e tentou ser evasivo: – Ele me disse que eu tinha estragado meu caso com Hea... Aquela mulher dos cavalos. – Uau! – exclamou Ryder. Lane ergueu a sobrancelha e pousou lentamente a cerveja sobre a mesa. – Quando foi isso, T.J.? Ele sabia que se fazer de bobo não ajudaria, mas tentou mesmo assim: – O quê? – Você saindo com a vizinha – explicou Sam. – Quem disse que eu saí com ela? – perguntou, na defensiva. Era a


– Quem disse que eu saí com ela? – perguntou, na defensiva. Era a primeira vez que se encontrava na berlinda com os irmãos quanto a uma mulher e então ele sentiu na pele o que Sam, Ryder e Lane sentiam quando recebiam esses conselhos. – Sempre que falamos dela e dos cavalos, você quase enlouquece – disse Ryder diretamente. – Já está superado – argumentou T.J. Sam balançou a cabeça. – Duvido. Na outra noite, lá na minha casa, sua reação foi tão intensa quanto. O que houve nos últimos dias para você ter mudado de ideia? – Por que você acha que aconteceu algo? – perguntou T.J., ciente de que só estava adiando o inevitável. Eles não desistiriam até descobrirem o que se passava entre ele e Heather. – O fato de que você responde a cada pergunta com outra pergunta já diz muito – respondeu Lane, com um sorrisinho mais irritante do que nunca. – E esse é o seu parecer de especialista, Freud? – retrucou T.J. Lane deu uma gargalhada. – Exato. – Admita, cara – exclamou Ryder, rindo feito um idiota. Soltando um suspiro de frustração, T.J. desistiu e contou como Heather e Seth chegaram até ele na noite de Natal. – Os dois estavam doentes, não poderia deixá-los sozinhos na beira da estrada – justificou-se T.J. enquanto balançava a cabeça. – Hank voltaria da tumba para puxar os meus pés. Os três irmãos assentiram. Seu pai adotivo havia insistido bastante com as noções de certo e errado. Deixar uma mulher em apuros era um pecado imperdoável. Sem exceções. – Você sabia que ela tinha filho quando complicou a vida dela com aquele negócio do cavalo? – inquiriu Ryder. – Não. Não teria sido tão exigente se soubesse que ela estava precisando se virar para cuidar do bebê e da Círculo W sozinha. – E o pai do garotinho? – indagou Sam. – Ele não pode dar uma mãozinha para ela? Contou-lhes o que Heather havia dito sobre ter pedido o pai e o noivo


Contou-lhes o que Heather havia dito sobre ter pedido o pai e o noivo num curto espaço de tempo, mas evitou falar de tudo pelo que ela estava passando. Os irmãos não precisavam saber das dificuldades dela para fazer as coisas funcionarem. Por um lado, era preciso respeitar o orgulho dela. Ela não gostou de ter contado tudo para ele, provavelmente não gostaria de vê-lo discutindo a vida dela com os irmãos. Por outro, eles já deviam ter deduzido. – Você vai continuar ajudando-a, não vai? – perguntou Sam, com um sorriso de sabe-tudo quase tão irritante quanto o de Lane. – Eu devo a ela. No fim, o cavalo dela é um quarto de milha e um multicampeão em sua classe. – E você chegou a pensar que ela tinha arruinado a sua criação – observou Lane, pensativo. – Deve até ter melhorado. Ryder riu. – Engraçado como essa coisa de tirar conclusões precipitadas nos faz quebrar a cara. – Cala a boca, espertinho – resmungou T.J., que já estava arrependido de ter vindo àquele jantar. – O que vocês querem, rapazes? – perguntou-lhes uma jovem garçonete de rabo de cavalo ao se aproximar da mesa. Enquanto mascava chiclete, ela deu um sorriso e acrescentou: – O prato do dia é um bife t-bone acompanhado de cebola e pimentas verdes, além de batatas fritas e salada de repolho. – Parece delicioso – comentou Sam. – Também vou querer – concordou Ryder. – E você, T.J.? – perguntou Lane. Quando ele balançou a cabeça, Lane se voltou para a garota: – Acho que todos vamos querer o prato do dia, ao ponto, e mais uma rodada de cerveja. A garota assentiu: – Já volto com as cervejas. T.J. ficou aliviado. Assim que a garota saiu, mudaram de assunto. Na hora em que terminaram e estavam indo embora, todos concordaram que deviam se encontrar com mais frequência. – Acho que encontrarei todos vocês no Diamante Bruto em alguns dias – comentou T.J., pegando seu chapéu.


– Estaremos lá. Prepare-se para me ajudar a carregar todas as coisas do bebê que temos que trazer para Katie. – Ryder deu uma gargalhada. – Andar por aí com bebês é como fazer uma mudança. Sam assentiu. – É isso mesmo. Está melhorando agora que o pequeno Hank está quase fazendo um ano. Mas, puxa, cada ida até a cidade é um grande sacrifício. – Estaremos lá se Taylor estiver disposta – concordou Lane. – Ela ligou para Bria e perguntou se ela poderia preparar o jantar e os petiscos que estava planejando para a festa de Ano-Novo – disse Sam, parecendo preocupado. – Você falou com o médico? – Ela vai amanhã à tarde. – Talvez ele receite alguma coisa que a faça se sentir melhor – sugeriu T.J. quando terminaram de pagar a conta. – Nos dê notícias – acrescentou Ryder. Quando se dirigiam ao estacionamento, perguntou: – Você vai convidar a sua vizinha para a festa, T.J.? – Você deveria – disse Sam, rindo. – Se vocês vão continuar se vendo, é hora de ela nos conhecer e saber o que vai ter pela frente. – Vou pensar – resmungou T.J. enquanto se despedia dos irmãos e entrava na caminhonete. Enquanto voltava para casa, ele pensou no que os irmãos haviam dito. Ele havia cogitado convidar Heather e Seth para a festa de Ano-Novo, mas não refletira sobre os prós e os contras de apresentá-la aos seus familiares. Não que não fossem tratá-la bem ou que ela ficaria pouco à vontade. Ele sabia bem que eles receberiam Seth e ela de braços abertos e que Heather logo faria amizade com todas as cunhadas dele. Então, por que o receio? Ele comentara com Heather sobre explorarem aquilo que havia entre eles, mas nada sobre manterem um relacionamento. Seria uma boa apresentá-la à família antes mesmo de começarem a sair juntos? E se as coisas não dessem certo? Ao entrar na estrada que levava à sua casa, T.J. já tinha em mente o que iria fazer. Além do fato de querer passar o tempo ao lado dela, ele não conseguia suportar a ideia de Heather e Seth ficarem sozinhos na fazenda enquanto ele se divertia com os familiares na festa de Ano-Novo. Mas sabia que não seria fácil convencê-la a acompanhá-lo.


Abriu um sorriso ao ingressar Ă garagem. Era inevitĂĄvel. Mas ele estava disposto a encarar o desafio.


CAPÍTULO 6

T.J. COLOCOU a escada que trouxera da sua fazenda ao lado da casa de Heather e foi até a traseira da caminhonete pegar o balde de remendos para o telhado, que mandara seu capataz comprar numa ferragem das redondezas no dia anterior. Assim que Tommy Lee terminasse de cuidar dos cavalos de Heather, ele ajudaria T.J. a consertar o telhado. Em seguida, T.J. pretendia falar sobre a festa de Ano-Novo na casa dele na noite seguinte. – T.J.? – chamou-lhe Heather da sacada. Quando ele se aproximou da casa para ver o que ela queria, ela estava descendo as escadas, segurando Seth pela mão. – Desculpe, mas, quando Seth soube que você estava aqui, ele quis vê-lo. T.J. abriu um sorriso. – E aí, amigão. – Oi! – respondeu Seth, com um sorriso de orelha a orelha. Assim que alcançaram o último degrau, Seth largou a mão de Heather e correu até T.J. T.J. se abaixou para pegar a criança no colo. – Como você está hoje? Seth, empolgado, respondeu imediatamente, mas T.J. precisou de Heather como intérprete dos gestos que fazia com as mãos. – Ele está tentando dizer que me ajudou a preparar um almoço para você e seu ajudante. – Aposto que você ajudou bastante – comentou T.J., sorridente. – O que você ajudou-a a fazer?


– Macalão e boinha de cane. T.J. olhou para Heather. – Macarrão e almôndega? – Ela balançou positivamente a cabeça e ele fez cócegas na barriga do menino, que explodiu em gargalhadas. – A gente já comeu isso uma vez, não foi, amigão? Seth concordou: – Sua casa. – Exatamente – falou T.J., gargalhando. – Você devorou quase tudo. – Ao avistar Tommy Lee saindo do celeiro, colocou o garotinho no chão. – Agora preciso consertar o telhado, mas, assim que terminar, volto para almoçar com você e dar mais uma volta. Está bem? – Tenha cuidado, por favor – pediu Heather, depois de pegar Seth pela mão. – Ei, onde você pensa que vai? – perguntou T.J., agarrando-a pela cintura. Ela pareceu confusa. – Achei que você fosse trabalhar no telhado. – Não sem antes ganhar um beijo seu – disse T.J., pressionando seus lábios contra os dela. Seth estava em volta, então T.J. não se prolongou. Quando ergueu a cabeça, observou Heather demoradamente. Ela era tão linda, aquilo era tudo que podia fazer para evitar que não perdesse o ar ao beijá-la. – Continuamos dentro de muito breve. – Esperaremos lá dentro. Apareçam lá quando tiverem terminado. T.J. suspirou fundo e esperou por Tommy Lee enquanto observava Heather conduzir Seth até a casa. – Quando eu estiver lá em cima, você me alcança o balde com os remendos. – Combinado, chefe. – O sujeito parecia aliviado. – Eu não gosto muito de alturas. – Você vive subindo na parte de cima do celeiro – comentou T.J. enquanto se dirigia ao local onde deixara a escada. – Eu nunca disse que não me incomodava. – Vou dizer ao Dan para mandar o Harry fazer isso daqui para frente – concedeu T.J. enquanto subia a escada. Ao chegar no telhado, pegou o balde. – Você não tem problema com agulhas, tem? – Não – Tommy Lee entregou o balde com o material para T.J. – Por


– Não – Tommy Lee entregou o balde com o material para T.J. – Por quê? – Porque Harry chega a suar frio quando precisa ajudar o veterinário. Daqui para frente você ajudará a vacinar os animais. – Parece tranquilo – comentou Tommy Lee enquanto observava o chefe descer. – Engraçado, o Harry nunca comentou isso comigo. – E você, chegou a comentar sobre o seu medo de altura? – indagou T.J., abrindo o balde. – Jamais. – Fez-se uma pausa até que o jovem caubói retomasse a fala: – Ah, entendi. T.J. teve que rir enquanto começava a passar o material negro, parecido com piche, nas partes danificadas do telhado. A ingenuidade de Tommy Lee se devia sobretudo à pouca idade e ao fato de ter que se virar por conta própria pela primeira vez. Assim que T.J. terminou de arrumar o último ponto danificado do telhado, Tommy Lee soltou um palavrão que causou-lhe espanto. – Desça até aqui, chefe. A casa da sra. Wilson está em chamas. T.J. foi até a escada e viu uma fumaça densa que saía das janelas lá embaixo. Ele correu até os fundos da casa, seguido pelo jovem caubói. T.J. abriu a porta e deu de cara com Heather carregando Seth para fora. – Eu desliguei, mas acho que o forno está pegando fogo. – Tire-os daqui – ordenou a Tommy Lee. Enquanto o funcionário ajudava Heather e Seth, T.J. pegou um extintor de incêndio que vira num armário da lavanderia na noite em que passara com Heather. Ele puxou a alavanca ao máximo, borrifou espuma no forno em chamas e não parou até esvaziar o cilindro. Queria garantir que as chamas realmente seriam extintas. Só então saiu para ver como estavam Heather e Seth. – O que houve? – perguntou T.J. assim que saiu da casa. Foi até a parte do pátio onde Heather estava, protegendo Seth, envolvendo-os em seus braços. – Nã-não sei bem. – Ela estava trêmula. – Eu ouvi um estouro e senti cheiro de fumaça. Quando fui ver o que era, estava saindo fumaça do forno. Eu desliguei e abri a janela, mas ficou pior ainda.


– Bom, já passou. – Abraçou Heather e Seth. – Mas receio que o seu forno não tem salvação. – Isso... Isso... Foi a gota d’água. – Ele podia sentir que ela estava prestes a desabar em lágrimas. Sabendo como ela era orgulhosa, deduziu que preferiria não fazê-lo na frente dos outros. – Tommy Lee, por que você não vai guardar o remendo no depósito e volta para o Diamante Bruto? – sugeriu. Ele tinha planejado comentar sobre a festa de Ano-Novo depois do almoço e agora achava uma boa ideia que o jovem caubói o tenha acompanhado com um dos caminhões da fazenda. – Certo, chefe – respondeu, parecendo satisfeito por ter escapado do que estava por vir. – Melhor sairmos desse ar frio – sugeriu, conduzindo-a rumo a casa. Ele pegou Seth e colocou o braço livre sobre os ombros dela para ajudá-la a subir os degraus e entrar pela porta dos fundos. Assim que entraram, Heather se apoiou no peito dele e começou a soluçar. Ele preferia subir uma cerca de arame farpado pelado do que ver uma mulher chorar, mas as lágrimas de Heather faziam com que ele se sentisse pior do que qualquer coisa. Ele queria ajudar, mas provavelmente ela não permitiria. T.J. mal conseguira convencê-la a pagar pelos cavalos e ajudá-la com o telhado. Ajudá-la a substituir o forno, ou mesmo a consertá-lo, seria quase impossível. – Ma-mãe? – disse Seth com sua vozinha oscilando. Ótimo! T.J. teria que lidar com uma criança e uma mulher chorando ao mesmo tempo. – Sua mãe vai ficar bem, Seth – comentou, esperando confortar o garotinho. – Vou cuidar bem de vocês. Combinado? A criança olhou bem para ele e enfim falou: – Tá. Quando o pranto de Heather começou a rolar, T.J. pegou uma toalha para secá-lo. – Você pode pegar o Seth? Vou tentar falar com alguém para vir consertar o forno. – De-desculpe – disse, pegando o filho. – Eu nunca... Choro. – Tudo bem, minha querida. É só uma estrada esburacada e você não


– Tudo bem, minha querida. É só uma estrada esburacada e você não vai precisar encará-la sozinha. – Segurou o rosto dela e deu-lhe um beijo na testa. – Vai fazer frio à noite, por que não pega as suas coisas e vem com Seth passar a noite na minha casa? A essa hora, duvido que eu consiga alguém para consertar o forno. Ela observou-o demoradamente e soltou um suspiro. – Obrigada, T.J. Ele balançou a cabeça. – Não precisa agradecer, Heather. Eu disse que queria ajudá-la, facilitar a sua vida. – Deu outro beijo nela. – E é isso mesmo o que eu vou fazer, minha querida. QUANDO TERMINOU de jantar, Heather ligou a lavadora de louça e terminou de limpar a cozinha de T.J. antes de limpar a sala e se juntar a ele e Seth na sala de jogos. Felizmente, ela havia lembrado de trazer o macarrão e as almôndegas quando acompanhou T.J. até a Diamante Bruto. Já estava tudo cozido, ela só precisou aquecê-los. Era o mínimo que podia fazer depois de ele ter arrumado o telhado, impedido que o resto da casa incendiasse e todas as outras coisas que vinha fazendo nos últimos dias. Prestes a ser tomada por uma onda sentimental, ela passou reto pela sala de jogos e entrou no banheiro. Fechou a porta, respirou fundo várias vezes, tentando desesperadamente suprimir o choro. Já bastava ele tê-la flagrado chorando mais cedo. O que havia de errado com ela? Ela não agia feito uma chorona desde que estava grávida de Seth. Na época, a culpa fora das mudanças hormonais e no resto do seu corpo. Mas e agora? Nos últimos dois anos ela se tinha se esforçado para manter o otimismo, para não se deixar levar pela tensão. Na maioria das vezes, fora bemsucedida. Ela poderia ter bancado o conserto do forno se não tivesse que pagar os impostos das suas terras no fim do mês seguinte. Volta e meia ela se via sem dinheiro. Ela não tinha muitas alternativas. Poderia vender o resto das éguas para pagar tudo, mas se o fizesse teria que abandonar toda a sua


criação. Ela dependia desse dinheiro para manutenção do restante da fazenda. Fora sincera quando falou para T.J. que o forno estragado era a gota d’água. Não tinha dinheiro para substituí-lo – e se ela não pagasse os impostos, nem teria por que fazê-lo. O governo confiscaria a sua propriedade e ela e o filho precisariam encontrar um novo lugar para morar. Claro, se ela pudesse consertar o forno em vez de comprar um novo, melhor. Quando T.J. ligou para o homem que conserta fornos, ele disse que só poderia aparecer amanhã. Mas ela não acreditava que a solução seria tão simples assim. O forno tinha mais de trinta anos, provavelmente era um caso perdido. Mas enlouquecer de preocupação com isso não mudaria coisa nenhuma. Sabia que T.J. a ajudaria com todo o prazer se ela quisesse. Mas ela era muito orgulhosa para isso. Quando ela e seu último noivo começaram a sair, os pais dele a desprezaram por ser filha de um criador de cavalos, embora passasse longe de ser pobre. Chegaram a acusá-la de ser interesseira. Depois disso, prometeu nunca mais aceitar a ajuda de ninguém. E embora por vezes fosse difícil, ela pretendia se manter fiel a isso. Não via por que voltar atrás agora. Respirou fundo e jogou água fria no rosto para disfarçar a sua condição e depois se secou. Deixou o banheiro e se juntou a T.J. e Seth. Teria que torcer para que as coisas dessem certo. – Que surpresa, peguei vocês dois no chão de novo – comentou ela ao ingressar na enorme sala. – Pocotó – exclamou Seth, batendo com a mãozinha na cabeça de T.J. T.J. deu uma gargalhada bem-humorada. – Ao que parece, ele vai ser um ótimo caubói. – Por que não deixa o seu cavalinho descansar um pouco? – sugeriu Heather, tirando Seth das cotas de T.J. – Aposto que os joelhos dele estão exaustos de tanto que você tem andado nele. – Quer beber algo? – perguntou T.J., levantando-se. Percorreu os dedos pelo rosto de Heather, causando arrepios nela. – Tenho refrescos, cerveja e, se quiser, posso tentar preparar um coquetel; piña colada ou uma


margarita. – Ele deu uma risada. – Mas não posso garantir que ficará bom. Sou melhor abrindo latas e garrafas do que preparando coisas. Sorrindo, ela teve que respirar fundo para conseguir falar. – Obrigada, estou bem assim. Vou deixar Seth brincar um pouco, darlhe um banho e colocá-lo para dormir. – Enquanto você faz isso, vou arrumar a cama portátil que trouxe com você – sugeriu enquanto puxou-a e deu-lhe um beijinho. – Se não estiver muito cansada, queria falar com você depois de colocá-lo para dormir. – Certo – disse ela, cuidadosamente. – O que você quer? – Falamos depois. – Sorriu de um jeito que quase fez com que Heather se contorcesse toda. Ele pegou Seth no colo e se dirigiu à cesta de brinquedos que tinha para quando seus sobrinhos o visitavam. – Agora, vou manter o meu amigão ocupado enquanto você relaxa um pouco. – Não se importa? Ele balançou negativamente a cabeça e deu um beijo nela. Em seguida, sussurrou junto ao ouvido dela: – Você merece um descanso, minha querida. Ela sentiu um formigamento de excitação ao encará-lo longamente antes de se encaminhar até o sofá ao fundo da sala. Ter alguém para ajudá-la com Seth era uma experiência única. Ela havia se acostumado tanto a cuidar dele sozinha que já nem sabia o que era relaxar. Ao sentar-se para olhar T.J. brincar com o seu filho, Heather se perguntou se seria assim caso o pai de Seth ainda estivesse vivo. Ele teria sido tão atencioso quanto T.J. vinha sendo? Por algum motivo, ela duvidava. Embora soubesse que Mike Hansen a amara e teria amado Seth, ele não fazia esse tipo. Minutos depois, quando viu Seth bocejar, ela se levantou. – Hora do banho, amorzinho. – Não. – Seth fez cara feia. – “Quelo” brincar. – Melhor obedecer a mamãe – disse T.J., sorridente. – É ela quem manda. Seth esfregou os olhos e balançou a cabeça. – “Quelo” brincar. – Vamos fazer o seguinte. – T.J. pegou o garoto e fez cócegas em sua barriga. – Vou levá-lo para o banho e prometo que voltaremos a brincar


amanhã. Combinado, então? Heather se comoveu quando Seth envolveu o pescoço de T.J. com seus braços e disse: – “Combiado.” Embora se assustasse com a possibilidade de causar-lhe uma grande decepção, era inevitável que se sentisse grata pela atenção que T.J. vinha dando a Seth. Era como assistir a uma flor desabrochar. Com T.J., Seth enfim conseguira se desinibir, mais do que com qualquer outra pessoa que não fosse ela. – Obrigada – disse ela enquanto se dirigiam à escada. T.J. colocou o braço livre sobre o ombro dela e trouxe-a para perto: – Pelo quê? – Por cuidar de Seth e ser tão generoso com ele – explicou. – Você teve um dia pesado, achei que seria uma boa dar uma descansada. – O sorriso dele fê-la sentir um quentinho por dentro. – Para ser sincero, estou me divertindo tanto quanto ele. Ele é incrível. – Quando chegaram no quarto, T.J. entregou-lhe o garoto e pegou o cercadinho que ela havia trazido para Seth dormir. – Enquanto você dá banho dele, vou montar isto aqui. – T.J. se inclinou para dar um beijo nela. – Vejo você no clube do bolinha dentro de uma hora para termos uma conversinha. Ela não fazia ideia do que ele queria falar e não tinha certeza se queria saber. O que a preocupava – e era mais perturbador do que qualquer coisa que ele tivesse a dizer – era a crescente empolgação dentro de si por poder passar um tempo ao lado do homem mais sensual e imponente que conhecera. ENQUANTO ESPERAVA Heather colocar Seth para dormir, T.J. sentou-se para beber uma cerveja e refletiu sobre como as coisas se tornaram sérias em tão pouco tempo. Quando ela estava por perto, era impossível não querer tocá-la. Só queria segurá-la, beijá-la – isso e muito mais. Quando estava longe, ficava ansioso para revê-la. Também tinha o garotinho. Ficar junto a Seth era mais especial do que imaginara. O garoto era capaz de derreter uma pedra com seu sorriso gracioso, e várias vezes T.J. pegou-se pensando em tudo que poderia ensiná-lo quando ele ficasse mais velho.


Ele balançou a cabeça. Embora não fizesse ideia sobre o rumo das coisas e chegasse a colocar em xeque a própria sanidade, agora não havia volta. Acontecesse o que acontecesse, encararia esse relacionamento, independentemente de durar dois meses ou para sempre. Se não o fizesse, seus instintos diziam que iria se arrepender para o resto da vida. Ao ouvir Heather entrar no recinto, virou-se para observá-la e seu coração bateu aceleradamente. Sem sombra de dúvidas era a mulher mais atraente que já conhecera. – Você tem noção do quanto é linda, Heather? Quando ela se sentou em um dos bancos de encosto alto do bar, T.J. não pensou duas vezes: abraçou-a e trouxe-a para junto de si. – Eu... Nunca me preocupei em parecer atraente – respondeu Heather, as bochechas um pouco coradas. Ela claramente não estava habituada a receber elogios e isso era algo que ele pretendia compensar sempre que possível. – Você é, minha querida. E é incrível de várias outras maneiras. – Esfregou a bochecha contra o cabelo loiro e suave dela. – Você é uma excelente mãe e uma das mulheres mais fortes, inteligentes que já conheci. – Obrigado, mas por que isso? – indagou ela, parecendo deliciosamente sem fôlego. Inclinou-se para trás para encarar os olhos azuis dela. Abriu um sorriso: – Só estou apontando o óbvio. – Era isso que você queria falar? – perguntou, franzindo o cenho. – Dizer que me acha incrível? Deu um sorriso e um beijo na testa dela. – Não. Mas acho você incrível. Ele se levantou e, depois de jogar fora a garrafa vazia, pegou ela pela mão e a conduziu até o sofá. Assim que se sentaram, observou-a colocar um receptor eletrônico com uma telinha em cima da mesa de centro. Não percebera que ela estava segurando aquilo e, ao olhar mais de perto, viu que era um aparelho de monitorar bebês, como o que vira suas cunhadas usando com seus sobrinhos. – Então, vai me dizer o que quer conversar? Puxou-a para perto e abriu um sorriso quando ela automaticamente posicionou os braços sobre seus ombros e passou seus dedos na nuca dele.


– Podemos conversar depois. Agora, vou fazer o que quis fazer a noite inteira. Ao cobrir a boca dela com a sua, T.J. deliciou-se com os lábios dela. Macios, doces, nenhum homem seria capaz de resistir. Não que ele fizesse muita questão: fez com que ela os abrisse só para ele. Provocando-a e brincando com ela com uma intensidade que logo o obrigou a mudar de posição, tamanha a pressão dentro de sua calça jeans, deitou-a no sofá, mas sem perder o contato com o corpo dela. Agradecido por se tratar de um móvel espaçoso, juntou-se a ela. Cobriu parte do corpo dela, sua coxa sobre suas partes quentes. O calor úmido emanava por entre as camadas de roupas que os cobriam, aumentando a temperatura. T.J. não pensou duas vezes: deslizou a mão até os seios dela, segurando-os na palma da mão. A camisa verde dela e o sutiã logo se tornaram barreiras intoleráveis. Colocou a mão sob a bainha da roupa e conduziu-a através do abdômen até o vale existente entre os seios dela, e tirou o fecho frontal do lacinho que a mantinha presa. Ao segurar os seios dela diretamente em sua mão, sentiu o corpo ferver diante da pele acetinada de Heather, de seu mamilo durinho. Quando ele acariciou-o com a ponta do dedo, ela soltou um gemido e se curvou em busca do toque dele. Aquele movimento fez suas veias ferverem e, por mais impossível que parecesse, seu corpo enrijeceu ainda mais. Independentemente do que ela dissesse, independentemente do esforço que fizesse para afastá-lo, sabia que ela o desejava tanto quanto ele. Só de pensar ele já ficava delirante. Interrompendo o beijo, foi da bochecha dela até a têmpora: – Heather, eu juro que só queria beijá-la – comentou, sua voz apaixonadamente rouca. – Mas preciso muito de algo mais. – Parou para encarar os belos olhos azuis dela. – Se você não sente o mesmo, diga-me agora. Caso contrário, a gente vai ter que fazer amor. – Deu-lhe um beijo delicado, deixando os seus lábios em chamas. – E quando isso acontecer, não quero saber de arrependimentos. Ela o encarou; parecia uma eternidade. – Tomei uma série de decisões ultimamente, sei que me arrependerei de algumas. Eu não quero... – Entendo, minha querida – disse T.J., perguntando a si mesmo se


– Entendo, minha querida – disse T.J., perguntando a si mesmo se carregar um ou dois cavalos daria conta da adrenalina que tomara conta de seu corpo naquele exato momento. Tirou a mão do seio dela e se levantou para ir até o celeiro, mas Heather envolveu seus braços no pescoço dele, fazendo seu coração disparar como um bumbo de uma banda marcial. O desejo dentro dos olhos dela era contagiante. – Heather? – Se tivesse me deixado terminar, eu teria dito que fazer amor com você não faz parte da lista de coisas das quais me arrependo. Hoje eu quero esquecer do conserto do forno e de todas as outras preocupações. Nada de preocupações com o futuro. Hoje vou me entregar aos meus sentimentos. Ele prendeu a respiração e levou um tempo até recuperar o ar. – Tem certeza, minha querida? Ela balançou a cabeça e deu-lhe um beijo: – Tenho.


CAPÍTULO 7

SÓ DE olhar para T.J., Heather sabia que até podia estar cometendo um grande erro, mas não tinha alternativa. Desde que fora beijada por ele na cozinha pela primeira vez, sabia que chegariam àquele momento. Quando ele se levantou do sofá, pegou o monitor de bebê e estendeu a mão para ajudá-la a se levantar. – Vamos subir para o meu quarto – sugeriu, colocando o braço sobre os ombros dela para conduzi-la à escada. – É mais confortável. Quando chegaram ao topo da escada, pararam no quarto em que ela e o filho ficavam e viram-no dormir feito um anjo. Então, ela e T.J. seguiram até a suíte principal. Ele abriu a porta e ligou a lâmpada, ao lado da cama, em um interruptor junto à porta e deu um passo para trás para que ela passasse. Mal teve tempo para perceber que a cama era imensa, que havia janelas das quais era possível visualizar o céu perfeitamente e que a decoração era rústica. – Querida, vou fazer o possível para ir com calma – disse, dando beijinhos atrás da orelha dela. – Quero que prometa que irá me dizer o que lhe agrada, o que causa mais prazer. O coração dela disparou diante do tom íntimo dele e ela ficou sem ar ao sentir a respiração quente dele sobre sua pele. – Faz... Algum tempo. – Desde quando estava com o seu noivo? – perguntou enquanto tirava os sapatos dela e as suas botas. – Si-sim. – Quase lhe faltou ar enquanto ele acaricia o seu pé e tirava suas meias.


Pegou a mão dela e disse: – Vamos aprender juntos o que nos causa prazer. – O sorriso dele lhe trouxe um imenso conforto e ele colocou a mão dela sobre sua camisa. – Por que não começa tirando isto? Ela puxou a ponta da camisa de dentro da calça dele, abriu cuidadosamente os botões e deslizou a mão por dentro do tecido para tirála de cima de seus ombros largos e robustos, passando por seus bíceps salientes. A camisa caiu no chão e ela ficou arrepiada diante do corpo bem definido dele. – Você é lindo – disse, tocando o seu peitoral. – Seus músculos são tão bem definidos. Ele deu de ombros: – É o que resta dos meus tempos de rodeio. – Deixe-me adivinhar: montava animais ariscos? – comentou, admirada com o tamanho dos antebraços dele. A maioria dos caubóis que competiam nesses eventos tinha bíceps de dar inveja a qualquer homem. – Cavalos ou touros? – Estilo cutiano e sela americana – respondeu, com um sorriso no rosto. – Eu e meu irmão Lane tínhamos uma equipe de laçadores quando eu comecei. O sorriso desapareceu e um arrepio percorreu seu corpo. Quando ela tocou-lhe na altura do umbigo, ele soltou um gemido profundo. – Você não faz ideia do quanto é bom ser tocado assim. – Sua voz evidenciava todo o seu desejo. – Tão bom quanto foi ser tocada por você lá no sofá, suponho – admitiu, perguntando-se se aquela voz escaldante havia saído dela. Ele tirou a camiseta dela. Quando foi tirar o sutiã dela, percebeu que ela não havia voltado a trancar o fecho. Mas esqueceu de tudo tão logo cobriu os seios dela com as mãos. Sentir as mãos calejadas tocando os seus mamilos faziam-na tremer de prazer, seus joelhos quase cedendo. Quando ele desceu do pescoço dela até os seus mamilos durinhos, sentiu um calor de excitação se concentrar em suas partes mais íntimas. E quando T.J. chupou os mamilos para provocá-la, ela pensou que entraria em autocombustão. – Gostou? – perguntou, passando para o outro seio.


– Si-sim – respondeu, colocando as mãos na cintura dele para firmar-se. Encarou-a demoradamente e deslizou a mão até o cinto de Heather, desabotoando a calça dela e abrindo o zíper. Ela respirou fundo e balançou a cabeça enquanto ele tirava as calças dela. Em seguida, tomou-a em seus braços. Sentir o toque dos mamilos contra o peitoral dele fez com que ela sentisse uma corrente de excitação percorrer o seu corpo. Fazia tempo que não era desejada por um homem, que não sentia o calor e o prazer incontrolável de uma paixão. Heather perguntou-se como havia conseguido manter-se longe dele por tanto tempo. – A-alguém aqui está vestindo roupas demais – disse ela quando enfim conseguiu retomar a fala. T.J. riu: – Deixaria os cuidados do meu jeans em suas mãos, mas, desta vez, é melhor eu fazer isso. Quando ele desabotoou a calça e cuidadosamente abriu o zíper sobre a sua grande saliência, Heather entendeu bem o motivo do cuidado. – Zíper e ereção pode ser uma combinação perigosa – explicou ele enquanto tirava o jeans e o chutava de lado. Quando ele começou a tirar a cueca boxer, ela deu um sorriso enquanto percorria o indicador pelo elástico. – Se quiser, posso cuidar disso. Ela viu-o engolir seco algumas vezes até colocar a mão sobre a calcinha dela. – Vamos fazer isso juntos? Quando removeram a barreira entre eles, T.J. deu um passo para trás: – Você é mais linda do que eu imaginava – disse, com um olhar que parecia tocar todo o corpo dela. – Estava pensando o mesmo sobre você – respondeu, imaginando cada centímetro daquele corpo maravilhoso. – Quero sentir o seu corpo junto ao meu – disse, dando-lhe um abraço e trazendo-a para ainda mais perto de si. Quando seus corpos se encontraram, foi como se cada nervo do corpo dela acordasse para a vida. Deliciou-se com o contraste entre a sua pele delicada e o corpo másculo dele. Mas quando o percebeu tremendo de


prazer e a ereção dele contra a sua barriga suave, sentiu um desejo insuportável. Teve que se segurar nele. – Melhor irmos para a cama antes que façamos no chão – sugeriu, conduzindo-a até a imensa cama. Ela puxou o edredom e deitou-se, percebeu que T.J. pegara um pacote na gaveta do criado-mudo. Depois de colocá-lo sob o travesseiro, ele se esticou ao lado dela e voltou a tê-la em seus braços. – Você é a mulher mais excitante que já conheci – disse, baixando a cabeça para beijá-la com uma intensidade que a fez se sentir nas nuvens. Antes que ela pudesse falar dos seus sentimentos recíprocos, ele conduziu a mão da cintura ao joelho dela, passando para a parte interna da coxa e deixando-a emudecida. Ficou completamente arrepiada quando ele acariciou suavemente a sua parte mais íntima. Sentindo um imenso desejo ao ser tocada por ele, Heather baixou a mão até alcançar a ereção dele, que soltou um gemido profundo e cheio de prazer másculo. – Querida... Se você continuar assim... Nós vamos acabar bem... Desapontados – comentou, parecendo estar quase sem ar. – Eu quero você, T.J. – sussurrou. Ele a testou com estocadas delicadas que fizeram-na enlouquecer. Ela não sabia até que ponto conseguiria suportar. – Eu quero penetrar você – disse, pegando o pacote sob o travesseiro. Depois de ajeitar a proteção, tomou-a novamente em seus braços. Abriu as pernas de Heather e lançou-se sobre ela, que o encarou fixamente enquanto ajudava-o a penetrá-la lá embaixo. Enquanto ele cuidadosamente unia-os num só corpo, ela sentiu-se deliciosamente preenchida por ele. – Você é tão gostoso. Ela observou-o fechar os olhos por um instante para voltar a abri-los e sorrir: – Preciso fazer amor com você agora, Heather. – P-Por favor. Ele calmamente se precipitou contra ela, fazendo-a sentir uma tensão excitante a cada estocada. A conexão que ela sentia com T.J. era diferente de qualquer coisa que já tivesse experimentado. Embora tivesse tentado


ignorar, essa conexão sempre existira. Poderia tê-la intimidado com tamanha intensidade se ela tivesse conseguido pensar. Mas só conseguia sentir a proximidade do corpo dele e o entrelaçamento de seus corpos conduzindo-os ao ápice da completude. Logo Heather sentiu um crescente aperto nas partes baixas do corpo, fazendo-a se sentir livre depois uma onda de prazer ter tomado conta dela. Agarrando-se em T.J. para manter-se firme, sentiu-o enfim se liberar dentro dela. Gemendo, ele encostou a cabeça no ombro dela e compartilharam o prazer daquela liberação. Heather manteve o corpo dele junto ao seu, satisfeita com a conexão inquebrável entre eles. Então percebeu que realmente eram um só: um coração, uma alma. Foi tomada de pânico. Ela havia mesmo feito o impensável? Entregarase totalmente a T.J.? Depois de conhecê-lo melhor, ele mostrou-se um homem bem diferente do que ela imaginara. Gentil, atencioso, o sujeito mais respeitoso que ela conhecera. Ela sentia que poderia confiar nele. Quando ele falou que jamais faria algo para prejudicá-los, ela e Seth, o seu olhar não deixou dúvidas de que estava sendo sincero. Mas nem tudo é tão simples. Às vezes, as mágoas são involuntárias e inevitáveis. – Tudo bem, minha querida? – questionou T.J., rolando para o lado dela. Ela balançou a cabeça: – Foi... Ela perdeu a voz ao olhar para ele. A generosidade que encontrou naqueles olhos incríveis era de tirar o fôlego. Se ela ainda tinha dúvidas sobre os seus sentimentos por ele, aquele olhar extinguiu-as. Ela estava caidinha por ele e isso a apavorava. – Incrível – concluiu por Heather, sem saber do turbilhão dentro dela. Mantendo-a junto a si, deu-lhe um beijo tão carinhoso que surgiram lágrimas nos olhos dela. – Você é incrível, Heather. Ela queria lhe dizer o quanto ele era único, o quanto admirava tudo o que fizera por ele, mas ainda não conseguira definir bem o que sentia. Se ainda não estava apaixonada por ele, estava quase lá. – Foi maravilhoso. Mas eu realmente preciso voltar para o quarto onde


– Foi maravilhoso. Mas eu realmente preciso voltar para o quarto onde estou com Seth. Com um sorriso no rosto, ele assentiu: – Entendo, minha querida. – Ao se levantar, pegou as roupas de ambos e entregou as de Heather para ela, sem qualquer constrangimento. – Vou com você até o corredor – disse, colocando a calça. Quando ela colocou as roupas e direcionou-se à porta, T.J. envolveu sua cintura com os braços e pressionou-a contra ele até chegarem ao quarto onde o filho dela dormia. – Você não chegou a me dizer sobre o que queria conversar. Parou junto à porta e colocou uma mecha de cabelo solta atrás da orelha dela: – Conversamos amanhã de manhã. – Segurou o rosto de Heather e deu um beijo nela, fazendo com que contorcesse todos os dedos dos pés. – Durma bem, Heather. Quando ela entrou no quarto e fechou a porta, pensou que mal conseguiria dormir. Tinha muita coisa para pensar e algumas decisões a fazer sobre a Círculo W e como abordar a questão com ele. E como se não bastasse tudo isso, ela arranjara mais um problema: estava ficando completamente apaixonada por T.J. Malloy QUANDO T.J. voltou para casa, depois de conversar com o sujeito que conserta fornos do lado de fora da Círculo W, encontrou o bilhete deixado para Heather pela manhã em cima do balcão da cozinha, sugerindo que ela ainda não estava acordada. Percorreu o corredor até o escritório; depois de colocar a correspondência sobre a mesa para entregar para ela depois, ele subiu as escadas e foi ver como ela e Seth estavam. – Oi! – cumprimentou Seth, ficando de pé no cercadinho. Sorridente, ele gesticulou na direção da cama: – “Mamã domindo.” T.J. colocou o dedo sobre o lábio para silenciar o garoto e entrou no quarto para pegá-lo e levá-lo até o corredor para não incomodar Heather. – Como vai, amigão? – A criança balbuciou algo incompreensível. – O que você quer no café da manhã enquanto sua mãe descansa? Que tal uma frigideira cheia de ovos mexidos?


– Sim – respondeu Seth, balançando a cabeça. T.J. ficou feliz por ele gostar de ovos. Além de sanduíche, ovos mexidos e torradas eram as únicas coisas que sabia cozinhar. Juntou tudo o que precisava e levou uma das cadeiras até o balcão da cozinha, colocando Seth para sentar e pegando um recipiente de misturas em um dos armários. – Você pode me ajudar a mexer os ovos e colocar leite – disse, arrancando um sorriso do garotinho. – Mas, na hora de mexer no forno, você só pode olhar. Certo? – “Ceto” – concordou Seth. Depois de quebrar os ovos e colocá-los no recipiente, T.J. colocou um pouco de leite para deixá-los mais macios e pegou uma batedeira de mão, entregando-a ao garoto e ajudando-o a mexer em movimentos circulares. Levaria o dobro de tempo para deixar os ovos prontos para irem à frigideira, mas o sorriso de Seth era impagável. A criança estava se divertindo imensamente. Para T.J., era o que importava. – Por que você não me acordou? – perguntou Heather, irrompendo na cozinha. T.J. virou-se a tempo de vê-la conferir o relógio. – Eu perdi a hora de ver o arrumador do forno. – Não se preocupe – disse T.J., continuando a mexer os ovos com Seth. – Estive na sua casa conversando com ele faz pouco tempo. Disse que o forno precisa de um motor novo, só isso. Falei para ele fazer o conserto. O único problema é que o forno é muito velho e ele vai precisar encomendar o motor. – Obrigada, aprecio a sua preocupação, mas você deveria ter me acordado. Eu tinha que ter tratado disso, não você. Ele deveria ter imaginado que ela não aceitaria a sua ajuda. Mas pensou que, depois de toda a química que houve entre eles na noite anterior, ela aceitaria melhor essas coisas. Claro, deixar todo o orgulho de lado era uma tarefa muito difícil, ele deveria ter pensado nisso. – Você precisa descansar. – Virou-se para ver como Seth estava mexendo os ovos. – E ontem você me disse que esperava que o forno pudesse ser consertado. Tudo que fiz foi dizer ao sujeito o que você teria dito. Ela suspirou.


– Ele falou em quanto tempo chega o motor novo? – Ele disse que, em função do feriado de amanhã, não deve chegar antes do início da próxima semana. Aparentemente, você terá que estender a sua estadia aqui. – Abriu um sorriso. – E claro que eu não me importo nem um pouco, minha querida. Ela esfregou o rosto com as duas mãos. – Não quero abusar de você. – Acredite, não tem problema – garantiu T.J. – Você viu o quanto esta casa é grande. Na maior parte do tempo, fico zanzando por ela como um ratinho numa caixa de papelão. – Então por que morar em algo tão grande? – perguntou Heather, franzindo o cenho. – Gostei do estilo. E eu tinha dinheiro – respondeu, dando de ombros. Já que ela não estava de bom humor, decidiu esperar até depois do café para comentar sobre a festa de Ano-Novo. O que envolvia contar a ela sobre seus familiares ficarem ao redor deles como um bando de gafanhotos. Era capaz de ela jogar um prato de ovos nele por não ter comentado antes. – Enfim, parece um bom motivo. T.J. olhou para o recipiente – Acho que os ovos estão prontos para irem à frigideira, amigão. – Tirou o garoto da cadeira e aproximou-a do fogão, junto com o recipiente, mas assegurou-se de manter Seth longe de qualquer perigo. – Pronto para me ver preparar os ovos? – Mã-mãe, ajudando – disse Seth, contente, quando T.J. o recolocou na cadeira. – Eu vi. – Heather foi até a frigideira. – Você disse que não sabia cozinhar nada além de sanduíches. – Ovos e sanduíches, só – explicou, sorrindo para a mais bela mulher do mundo. Depois de ontem, T.J. sabia a que estava fadado. Nunca sentira um vínculo tão forte e tão verdadeiro como este que compartilhava com Heather. Tampouco se aproximara tanto de uma criança como acontecia com Seth. O coração dele disparou. Estava mesmo cogitando algo sério? Estaria


O coração dele disparou. Estava mesmo cogitando algo sério? Estaria preparado? – Quer que eu prepare? – perguntou ela. – Não. – Agradecido por ela ter interrompido aqueles pensamentos inesperados, deu um sorriso e voltou-se para Seth: – A gente cuida disso, não é, amigão? Rindo, Seth concordou e balbuciou algo que Heather aparentemente compreendeu. – Quer que eu coloque a mesa? – Parece uma boa ideia. – T.J. inclinou-se para dar-lhe um beijo. – E se puder, faça um café também. Não sei por que, mas acordei cansado hoje – provocou. – Por que será? Ela ficou lindamente corada. – Melhor nem responder – disse, com um sorriso no rosto enquanto virava-se para arrumar a mesa. Enquanto ele e Seth terminavam de preparar os ovos, Heather fez torradas. Quando se sentaram para comer, T.J. teve uma amostra do que seria a sua vida se tivesse algo a sério com Heather. Era isso o que queria? Certamente não era desagradável. Fazer coisas com Seth, ensiná-lo, era bastante empolgante. E só de pensar em fazer amor com Heather todas as noites e acordar com ela em seus braços causava-lhe sensações bem previsíveis. Mas constituir uma família assim, do nada, envolvia muitas responsabilidades. Ele passou boa parte da noite em claro pensando no que queria, mas sem respostas definitivas. Por um lado, assumir um compromisso desses, ser responsável por alguém além de si próprio, deixava-o apavorado. E se ele deixasse faltar algo? E se ele os decepcionasse? Além de Hank como seu padrasto durante sua passagem pela Fazenda da Última Chance, T.J. nunca teve um pai. E ele não fora exatamente um exemplo de pai. Observara os irmãos lidando com suas esposas, mas apenas nas reuniões de família. Devia ser diferente no cotidiano. Uma coisa com que não precisava se preocupar era a questão financeira. Fizera bons investimentos e os netos dos seus netos não precisariam trabalhar se não quisessem. O que o preocupara era a parte emocional.


Sabia que faria o possível e o impossível para dar tudo que ela e Seth precisassem. Mas seria o bastante para manter-se emocionalmente? Também tinha o problema de como seria sua vida sem eles. Sim, fora tudo muito rápido, mas, a essa altura, não conseguia cogitar ficar sem eles. Mesmo assim, não tinha certeza se o que sentia por Heather era amor. Ele nunca amara uma mulher antes. Sem ter um parâmetro, como poderia ter certeza? – Você ficou tão sério do nada – comentou Heather, pegando na mão de T.J. depois de ele terminar a comida. – Está tudo bem? – Claro. – T.J. decidiu que poderia pensar mais sobre o futuro depois. Agora era hora de alertá-la sobre a visita dos seus familiares mais tarde. – Só estava pensando no que queria conversar com você na noite passada. – Ah, e o que esteve pensando? – Levantou-se da mesa para tirar os pratos, enxaguá-los e colocá-los no lava-louças. – Desconfio que seja algo que tenha medo de falar e que eu não vá gostar de ouvir. – Não é nada ruim – assegurou. – Inclusive, acho que você vai gostar bastante. – Gesticulou para Seth. – E tenho certeza que o nosso amigão vai se divertir como nunca. – O que é? – perguntou, parecendo desconfiada. Ele conferiu o relógio. – Em mais ou menos cinco horas, minha família vai começar a chegar para a festa de Ano-Novo. Queria que você participasse, mas acabamos nos distraindo. Ela arregalou os olhos. – Não posso. – Balançou a cabeça, seu rabo de cavalo de um lado para o outro. – Eu e Seth já abusamos bastante da sua generosidade. Vamos para casa. Certamente poderemos ficar bem aquecidos se... – De jeito nenhum – disse ele, levantando da mesa para dar um abraço nela. – Vai fazer mais frio do que ontem. E vamos deixar algo bem claro: você não abusou de mim. Quero vocês dois aqui comigo. – Mas não tenho nada para vestir na festa. Ele franziu o cenho: – Qual o problema com o que você está vestindo? Olhou para ele como se ele estivesse se fazendo de bobo. – Vou usar camiseta e jeans enquanto todo mundo...


– Todos vão se vestir como você – interrompeu. – Minhas cunhadas vão usar jeans e suéter ou moletom. – Abriu um sorriso. – Acredite, vai dar tudo certo, minha querida. – Deu um beijo nela até que ambos ficassem sem ar. – Você e Seth estão comigo e quero que conheçam a minha família. Aposto que, quando eles forem embora amanhã, você vai achar graça por ter se preocupado. Ele tinha certeza daquilo que estava dizendo. Eles faziam parte da sua vida agora e conhecer a sua família era o próximo passo para tornar aquilo mais sério. MAIS TARDE, quando os irmãos dele e suas esposas chegaram, Heather percebeu que T.J. tinha razão. Ficou aliviada: não se sentia deslocada, definitivamente. O único constrangimento foi quando Nate perguntou se ela tinha um garanhão. Quando ela respondeu que sim, ele deu uma risada, deu-lhe um abraço fraternal e desejou boas-vindas ao zoológico. Perguntou-se o que T.J. teria lhes dito sobre suas rusgas, mas, o que quer que tivesse comentado, parecia não fazer diferença nenhuma. Na verdade, estava se divertindo. Adorou ficar na cozinha com as mulheres enquanto preparavam a comida. Poder conversar com outras mulheres era algo que lhe fazia falta desde que voltara à Círculo W. Depois de terminar o Ensino Médio, havia se mudado para um lugar a duas horas de onde morava e conhecera o pai de Seth, perdendo o contato com as suas amigas. Ao voltar para casa, após a morte do noivo, descobriu que suas amigas tinham se mudado ou não tinham nada em comum com ela. Mas agora, junto com os familiares de T.J., já estava se sentindo enturmada outra vez. – Heather, com que idade seu filhinho começou a caminhar? – perguntou Bria Rafferty enquanto pegava mais frutas cristalizadas. – Já peguei o pequeno Hank várias vezes de pé, tentando se segurar em alguns lugares, mas ainda não chegou a tentar caminhar. – Seth também fez isso por algumas semanas – respondeu Heather, com um sorriso. – Depois de completar onze meses, começou a voar por aí. – Ela deu uma risada quando viu Seth correr em volta do sofá seccional em que estavam sentadas e voltar até onde T.J. estava com os irmãos. – Desde então, nunca mais parou.


– Ele é adorável – comentou Summer McClain, retornando depois de ter ido limpar a camisa do marido, pois a filha esquecera do babador. – Adorei a cor do cabelo dele. Parece o seu, Taylor. Talvez um dia você tenha um garotinho ou uma garotinha com cabelo ruivo. – Talvez. – Taylor Donaldson deu um sorriso, bebericando sua cerveja de gengibre. – Ele é realmente um amorzinho. Uma graça, Heather. – Obrigada – respondeu Heather, com o peito estufado de tanto orgulho. Quando T.J. se dirigiu ao sofá com Seth agarrado aos seus ombros, Summer deu um sorriso. – T.J., você parece estar se divertindo hoje. Heather olhou para alguns dos irmãos dele, que estavam fazendo caretas para tentar fazer a garotinha no colo de Ryder sorrir. Os outros estavam com o pequeno Hank, que experimentou um chapéu de aba larga. – Acho que todos os homens estão se divertindo com a criançada. – Claro que estão – concordou Bria. – Todos eles são uns crianções. – Ei, eu escutei isso – reclamou T.J., rindo. – A gente sabe – disseram todas as mulheres ao mesmo tempo. Quando o riso cessou, o marido de Taylor, Lane, juntou-se a elas: – Está pronta, querida? – Você não vai agora, vai? – perguntou Bria. – Não – respondeu Lane, rindo. – Ei, seus caubóis de quinta categoria, será que vocês poderiam parar de se amontoar no bar e vir aqui um pouquinho? – O que houve, Freud? – perguntou Sam, com o filho sorridente no colo. – Provavelmente ele vai querer nos analisar – comentou Nate, com uma gargalhada. – Se ele ainda não percebeu que você não é lá muito esperto, talvez ele devesse rasgar o diploma de Psicologia dele – comentou T.J., secamente. – Mas o que foi que aconteceu, Lane? – indagou Ryder, entregando sua filhinha à esposa. – Taylor e eu queremos informar que em menos de oito meses a família terá um novo membro – disse Lane, gesticulando carinhosamente para a esposa. – Deus nos ajude – disse Ryder, rindo. – Outro Freudzinho! – Ele


– Deus nos ajude – disse Ryder, rindo. – Outro Freudzinho! – Ele apertou a mão de Lane e abraçou Taylor. – Só um conselho: aproveite para dormir enquanto o bebê não nasce. – É, depois que o bebê nascer, dormir vai ser uma mera lembrança – disse Sam, fazendo cócegas no seu filho sorridente. – Já sabe para quem ligar se precisar de babá – falou Nate, erguendo sua garrafa de cerveja. – Qualquer um, menos você – comentou Jaron Lambert, sorridente. Era o mais quieto dos irmãos. Heather concluiu que ele era o modelo do sujeito fortão e quieto. Heather continuou a contemplar a alegria sincera daquela família diante da notícia sobre o bebê. Era inevitável invejá-los. Quando garotos, aqueles homens haviam sido criados como completos estranhos na Fazenda da Última Chance. Por conta dessa experiência e das lembranças da adolescência, tornaram-se mais unidos do que uma família de sangue. Quando a noite chegou, Heather e as demais mulheres colocaram seus filhos para dormir e retornaram para a sala de jogos para jogar conversa fora antes de ligarem a imensa televisão de T.J. para assistirem à festa da virada, com a bola brilhante na Times Square caindo quando chegasse à meia-noite. Um pouco antes do grande evento, os homens saíram do bar e se juntaram às mulheres. Quando T.J. se sentou ao lado dela no sofá, colocou o braço sobre ela e a trouxe para mais perto de si. – Está se divertindo? – sussurrou T.J. ao pé do ouvido dela. – A noite está sendo muito legal. Gosto de como tudo aqui é informal e descontraído. Obrigado por deixar que eu e Seth façamos parte da sua família. T.J. pegou a mão dela: – É a primeira festa de Ano-Novo em que fico ansioso para ver a festa da virada – admitiu T.J. – Por quê? – Porque só assim vou poder beijá-la à vontade – disse, seus olhos cheios de uma expectativa que faziam com que ela ficasse sem ar. – E visto que tem uma hora de diferença em relação à costa leste, também poderei beijá-la quando chegar à meia-noite aqui.


– É difícil acreditar que essa é a primeira vez que você namora numa festa de Ano-Novo – disse, com uma expressão de incredulidade. – É a primeira vez desde que a minha família passou a se reunir no AnoNovo. – Ergueu a mão dela à altura de sua boca para beijá-la. Tal gesto fez com que Heather sentisse um quentinho por dentro. T.J. não tentara esconder o namoro deles, ou o que quer que houvesse entre eles, em momento algum. Desde que seus familiares começaram a chegar, ele havia se esforçado ao máximo para demonstrar seu afeto por ela. – Certo, pessoal – falou Nate, ficando de pé. – A festa já está começando. Preparem-se para pegar suas garotas e beijá-las! Heather ia soltar uma gargalhada quando o cara começou a fazer uma contagem regressiva, mas T.J. imediatamente deu um beijo nela, fazendo a sua cabeça girar. Ele ergueu a cabeça e abriu um sorriso. – Feliz Ano-Novo, minha querida. Algo me diz que este ano vai ser o melhor de todos em nossas vidas – para mim e para você. Contemplando os olhos esverdeados e hipnóticos de T.J., Heather desejou do fundo do coração que ele estivesse certo.


CAPÍTULO 8

NA

seguinte, quando terminaram o café que Heather e as cunhadas dele haviam preparado, todos voltaram para as suas fazendas. T.J. soltou um suspiro de alívio ao ver Seth, que brincava no tapete do outro lado da mesa do seu escritório. Ele amava a sua família, adorava estar com eles, mas, pela primeira vez desde que passara a dar festas de Ano-Novo, sentia-se aliviado ao vê-los indo embora. Ele tinha passado uma noite horrível na suíte principal, sabendo que a mulher com quem queria ir para a cama encontrava-se lá embaixo, na sala. Nem o banho gelado que tomou quando todos foram para seus quartos amenizou o calor que sentia por Heather. Pediu que ela dormisse com ele, mas, ao que parece, Heather ainda não estava pronta para se expor de tal maneira. Ele estava ciente de que toda a sua família já sabia, mas se ela não estava pronta, não tinha por que forçar a barra. – Você mandou algum funcionário seu cuidar dos meus cavalos ou preciso alimentá-los e limpar o estábulo? – perguntou Heather ao entrar no escritório. Quando ela contornou a mesa dele, ele girou a cadeira, pegou-a pela mão e sentou-a em seu colo. – Mandei o Tommy Lee para lá faz algumas horas – respondeu T.J., balançando a cabeça. Deu-lhe um beijinho na boca. – Ele voltou e disse que está tudo em ordem. T.J. fez menção de dar-lhe o beijo que ambos de fato queriam, mas Seth resolveu, naquele exato instante, levantar-se de onde estava para ir até eles. MANHÃ


– Ma-mãe – resmungou o garotinho enquanto esfregava os olhos. – Tem alguém que ainda está bem cansado da noite agitada – disse ela, pegando Seth no colo. Deu um sorriso e acrescentou: – Vou levá-lo para tirar uma soneca. – Quer que eu leve ele para você? – ofereceu-se T.J., fazendo um cafuné na cabeça do garoto. Ela balançou a cabeça: – Não, termine o que estava fazendo. Não devo demorar mais do que alguns minutos. T.J. não resistiu e deu um beijo na bochecha dos dois. – Estarei aqui quando você voltar. Ao olhar Heather levar Seth, T.J. não conseguia deixar de pensar no quanto os dois tornaram-se importantes para ele em pouco tempo. Ele só conhecia uma maneira de tornar aquilo permanente: com uma aliança, um padre e um voto para a vida toda. Estaria mesmo disposto a tomar essa iniciativa, assim, tão cedo? T.J. franziu o cenho. Tendo visto ela com sua família na última noite, percebera que a amava – provavelmente desde o momento em que ela saiu do carro naquela noite na garagem dele. E gostava de Seth como se fosse o seu próprio filho. Mas estaria preparado para assumir um compromisso desses? Tinha quase certeza que os sentimentos dele por Heather eram recíprocos. Será que ela gostaria da ideia de se tornar a sua esposa? Não tinha certeza se conseguiria ser tudo aquilo que Heather e Seth precisavam. Mas certamente faria o possível. Agora, porém, ele só queria aproveitar a presença deles em sua casa por mais uns dias. Poderia pensar bastante sobre o futuro posteriormente. Balançou a cabeça e pegou a xícara de café, derrubando acidentalmente a pilha de correspondência de Heather que colocara na sua mesa ontem. Desde que viera da Círculo W, andava ocupado e havia esquecido das coisas. Quando foi juntar a papelada, deparou-se com um envelope com “aviso final” carimbado nele. Olhou o remetente e imaginou do que se tratava. A carta era do tesoureiro municipal. Apostaria tudo que tinha que Heather estava com os impostos atrasados. Colocou o envelope fechado em cima das outras cartas. Sabendo o


Colocou o envelope fechado em cima das outras cartas. Sabendo o quanto era difícil manter a Círculo W, aquilo não era de se estranhar. O que o incomodava mesmo era o fato de que ela corria o risco de perder a fazenda. Sentou-se na cadeira, pensando numa maneira de descobrir o que estava acontecendo. Duvidava que ela fosse deixá-lo intervir de alguma forma. Perguntar para ela estava fora de questão. Era bem provável que ela o mandasse longe. Mas precisava achar uma maneira de ajudá-la. Um pensamento súbito o fez respirar aliviado ao ligar o laptop. Havia um jeito de descobrir o que estava acontecendo sem ter que deixá-la irritada. Casos judiciais envolvendo o não pagamento de impostos eram disponibilizados no site do município. Só precisava acessá-lo e verificar os relatórios públicos. Se, como ele suspeitava, houvesse algum problema, então descobriria uma maneira de ajudá-la. Quinze minutos depois, T.J. fechou o navegador e soltou um suspiro de frustração. Os impostos da Círculo W não eram pagos há três anos e a fazenda seria confiscada pelo governo municipal no mês que vem. Em seguida, ela seria levada a leilão. Claro, se a dívida fosse quitada, assim como todas as multas pendentes, Heather poderia ficar com a fazenda. Mas ele sabia bem da condição financeira de Heather; ela não tinha esses valores. Se tivesse, ela não teria vendido uma de suas éguas de raça para bancar as suas despesas. Ele até poderia se oferecer para pagar os impostos para ela, mas era mais fácil o inferno congelar do que Heather deixar que ele quitasse as dívidas para ela. Mas T.J. sabia bem que ela era orgulhosa e não permitiria, jamais, que ele fizesse isso. Mas então, o que ele poderia fazer para ajudá-la? Ficar de braços cruzados enquanto Heather perdia a sua fazenda não era do seu feitio, definitivamente. A Círculo W era da família dela há gerações e Seth deveria herdá-la quando tivesse idade o suficiente para isso. Enquanto T.J. estivesse vivo e tivesse dinheiro o bastante para consertar a situação, ele garantiria que as coisas acontecessem exatamente como deveriam ser. Primeiro, ele iria ajudar para só depois pedir permissão. Ele não havia enfrentado grandes dificuldades para convencer Heather a lidar com os


outros problemas da fazenda. Dessa vez, não seria muito diferente. T.J. pegou a carta do funcionário do governo, abriu a gaveta, colocou o envelope ali dentro e fechou-a. Heather já havia passado por muitas tensões nos últimos dias. Não tinha por que dar a notícia agora e tornar a vida dela ainda mais complicada. Contanto que ela não ficasse sabendo, não teria como impedi-lo de ajudá-la. Ele tinha um grande desejo de dar a ela a chance de deixar a fazenda para Seth quando ele ficasse mais velho. – Você está com essa cara séria de novo – observou Heather quando retornou ao escritório de T.J. – Estou apenas pensando na morte da bezerra – comentou ele, com um sorriso no rosto. – Você já colocou o meu amigão para tirar uma soneca? Heather acenou com a cabeça. – Seth se divertiu como nunca na noite passada, mas agora ele está exausto. T.J. olhou para as cartas sobre a mesa, que não incluíam a carta problemática, e entregou a pilha para Heather: – Esqueci de comentar, mas eu peguei essas cartas para você ontem, quando fui me encontrar com o cara que conserta fornos. – Ah, obrigada – disse ela, pegando as cartas que ele entregou-lhe. – Eu estava justamente pensando em passar na fazenda para pegar as cartas antes de Seth acordar. Enquanto T.J. a observava percorrer a pilha de cartas com o dedo, sentiu uma ponta de culpa por esconder as coisas dela, mas ele tinha certeza de que Heather já estava ciente da situação e ele já estava bem decidido a cuidar disso para ela. Infelizmente, T.J. não poderia levar o plano a cabo antes do início da próxima semana, no primeiro dia útil, quando o fórum estivesse aberto. – Heather, eu preciso cuidar de um cavalo meu – disse T.J., saindo da cadeira onde estava para envolvê-la em seus braços. Ele tinha outra decisão a tomar e precisava ficar um pouco sozinho para refletir a respeito e decidir o que iria fazer. Deu um beijo nela, o que fez com que seu corpo ficasse imediatamente duro, deixando-o meio zonzo. Sempre acontecia isso quando estava próximo a ela. Ele deu um suspiro profundo e tentou manter a concentração. Se até então ele não sabia o que poderia fazer, agora já sabia.


Mas ainda precisava de um tempo para fazer alguns planos e, quanto antes começasse a executá-los, melhor. – Por que você não leva o Seth até a arena depois que ele acordar para eu mostrar a ele como se anda a cavalo de verdade? – Ele acharia ótimo – disse ela, com um sorriso estampado no rosto. Quando T.J. olhou os olhos cristalinos dela, a emoção que conseguiu flagrar neles, ficou convencido de que tudo daria certo no fim das contas. Ele não apenas iria pagar as contas dela como também daria um salto de fé e pediria Heather em casamento. HEATHER PAGOU o homem que consertava fornos com o que restava de suas economias, fechou a porta depois de ele sair e soltou um suspiro profundo. A sorte dela e do seu filho estava lançada. Eles teriam que procurar outro lugar para morar a partir do fim do mês, mas pelo menos poderiam dormir aquecidos até que isso ocorresse. – Pocotó? – perguntou Seth, olhando em direção à porta. – Você sabe mesmo o que quer, não é, meu queridinho? – Heather pegou o filho no colo e deu um beijo na bochechinha macia de bebê dele. Fazia apenas algumas horas que estavam em casa e ela já sentia bastante a falta de T.J. Ao que parece, Seth também sentia. – Talvez a gente veja o T.J. quando ele voltar de Stephenville. O garoto olhou de novo para a porta e, em seguida, balançou negativamente a cabeça: – Pocotó, pocotó! – insistiu teimosamente. – Você é como T.J., não desiste daquilo que quer – disse ela, soltando uma gargalhada. Quando ela finalmente conseguiu distrair o filho com o barulho que o estábulo fazia quando a porta estava aberta, ela foi preparar uma xícara de café. Tentando conter as lágrimas, ela pegou o jornal local e começou a procurar algo para alugar naquela região. Por um motivo ou por outro, ela acabava achando algum defeito em todos os lugares cujos preços eram compatíveis com o seu orçamento. Ela sabia bem o motivo. Nenhum desses lugares era a Círculo W ou a Diamante Bruto. Heather apoiou os cotovelos na mesa e pousou o queixo sobre as mãos. Ela até conseguia entender o fato de se sentir desse jeito por conta da


fazenda dela. Afinal, era o seu lar. Mas jamais imaginou que se sentiria assim por conta da Diamante Bruto. Mas, claro, não era preciso ser uma grande mente pensante para concluir por que ela se sentia tão à vontade por lá. Era o lugar onde T.J. morava. Perdida em pensamentos, ela levou algum tempo até se dar conta que havia alguém batendo à porta. Mas, ao que parece, o filho dela já havia ouvido o barulho, pois, quando ela se levantou para abrir, ele já estava correndo na frente dela. – Pocotó! Pocotó! – berrou ele, virando-se para olhar para ela, como quem quer apressá-la para abrir a porta. – Pocotó! Antes que ela conseguisse tocar na maçaneta, a porta se abriu, e T.J. entrou e pegou Seth no colo. – E aí, meu amigão! Enquanto Heather olhava, seu filho lançou os braços em volta do pescoço de T.J. e deu-lhe um abraço com toda a energia que uma criança de quase 2 anos de idade poderia ter. – Meu pocotó! Heather começou a rir. – Preciso urgentemente ensiná-lo a falar seu nome. T.J. fez cócegas na barriga do garoto – Ora, ele pode me chamar do que quiser. O sorriso estampado no rosto de T.J. fez com que o coração dela acelerasse e, quando ele colocou seus braços sobre os ombros dela, aproximando-a de seu corpo, Heather sentiu um aperto no peito de tanta emoção. Agora ela percebia que estava enganada ao pensar que nenhum homem poderia amar o filho de outro homem como se fosse seu próprio filho. Ver a maneira como T.J. e Seth se davam bem era a prova que ela precisava para acabar de vez com esse pensamento equivocado. – Quer tomar uma xícara de café? – perguntou ela, precisando de um tempo para se recompor. – Olha, parece uma boa ideia. – Deu um beijo nela e olhou em seus olhos. – A gente tem uma coisinha para conversar. – Oh, meu Deus do céu – disse ela, soltando uma gargalhada enquanto se dirigia a ele para servir-lhe café. – Da última vez em que a gente teve


esse tipo de conversa, eu acabei conhecendo todos os seus familiares e eles foram encantadores. – Pois é, mas você precisa reconhecer que eu não estava errado ao ficar nervoso por conta disso. – Ele deu uma risadinha ao sentar-se com Seth em seu colo. – Juntar todos eles em um mesmo ambiente é como tentar entender o que está acontecendo em uma corrida de cavalos selvagens – disse ele, referindo-se ao evento de rodeio em que uma equipe formada por três caubóis tenta laçar, manter e andar em um cavalo arisco. – Às vezes parecia algo como cada um por si – admitiu ela, deixando o café de T.J. em cima da mesa em frente a ele. Com um sorriso no rosto ao sentar-se na cadeira, de frente para ele, Heather acrescentou: – Mas de um jeito bom. Enquanto ela observava, T.J. começou a levar a xícara em direção à boca, mas parou no meio do caminho: – Procurando lugar parar morar? – perguntou ele, apontando para o jornal que estava aberto em cima da mesa. Heather ficou com as bochechas fervendo de humilhação enquanto olhava para T.J. Não tinha por que tentar mudar de assunto ou mentir para ele. T.J. acabaria descobrindo, de um jeito ou de outro. Mas isso não tornava as coisas mais fáceis na hora de abordar a questão. – S-Seth e eu vamos... Vamos ser despejados no início do mês que vem. – Ela manteve os olhos fixos sobre suas mãos, agarradas à mesa. – Eu deixei de pagar os impostos desde que o meu pai ficou doente. T.J. colocou sua xícara sobre a mesa e pousou sua mão sobre a mão dela, que teve que se conter para não cair no choro. Mantendo o olhar fixo nas mãos deles, Heather evitou olhar para ele. Para variar, o orgulho estava tomando conta dela. Provavelmente ela não aguentaria ver o olhar dele tomado de pena pela situação dela e do filho. – Minha querida, isso não vai acontecer – disse ele, de maneira carinhosa. – Vai, sim – rebateu Heather, gesticulando com a cabeça. – Um pouco antes do Natal, eu recebi uma notificação do município informando que eles estavam encaminhando os procedimentos para confiscar todos os meus bens para quitar a dívida. – Heater, olhe para mim – pediu T.J. Quando ela olhou para ele, em vez


– Heater, olhe para mim – pediu T.J. Quando ela olhou para ele, em vez de compaixão, os olhos esverdeados dele estavam cheios de determinação. – Eu estou dizendo que você não vai perder a Círculo W. Algo no tom de voz e na expressão confiante dele fez com que Heather sentisse um frio na barriga. – Como você pode ter tanta certeza? – Não queria ter que contar para você numa situação assim – começou a explicar, lentamente –, mas, no outro dia, quando eu trouxe as suas cartas, havia uma notificação final do município sobre a questão da fazenda. – Você abriu minha correspondência? – perguntou ela, o desespero que tomara conta dela sendo substituído pela raiva. Ele sacudiu negativamente a cabeça. – Não precisei fazer isso. – Então como... – Quando vi o remetente, entrei no site do município. É uma questão de domínio público, querida. – T.J. apertou carinhosamente a mão de Heather e, em seguida, levou a mão ao bolso da jaqueta para entregar a ela uns papéis dobrados. Colocou-os sobre a mesa na frente dela e acrescentou: – Mas hoje pela manhã a dívida já foi quitada e você não corre mais o risco de perder a fazenda. Ela o encarou por um tempo que pareceu uma infinidade até conseguir assimilar as palavras de T.J. – Você não fez isso! – Sim, eu fiz – respondeu com firmeza. – Você chegou a prestar atenção em algo do que eu disse ao longo das últimas duas semanas? – indagou Heather. – Ouvi muito bem – disse ele, gesticulando com a cabeça. – Não pode ter ouvido. – O tom calmo dele deixou-a com mais raiva ainda. – Se tivesse ouvido, saberia que não quero que ninguém sinta pena de mim, principalmente você. Eu não preciso de caridade. Eu pago minhas próprias contas. – Mas eu não senti pena de você – insistiu T.J. – Não é questão de caridade. Eu só quero poder cuidar de você e do Seth, quero tornar a vida de vocês mais fácil. – Você percebe o que está dizendo? – Ela balançou negativamente a


– Você percebe o que está dizendo? – Ela balançou negativamente a cabeça. – Se isso não é questão de pena, não sei o que pode ser. – Mamãe, mamãe – disse Seth, parecendo confuso, com seu queixo delicado tremendo enquanto olhava para T.J. e para sua mãe. O tom de voz elevado dos dois estava perturbando o bebê e ela foi até T.J. para pegar o seu filho. – Agora, por favor, vá embora – disse ela, dando um abraço forte em Seth. – Você está assustando o meu filho. T.J. levantou-se lentamente: – Isso não acaba aqui, Heather. – Acaba, sim. – Ela deu um suspiro profundo para evitar que sua voz saísse trêmula. – As coisas não podem ser sempre do jeito que você quer, T.J. Se você realmente se importa com uma pessoa, você tem que ouvir o que ela quer. Mas já que não ouviu, a Círculo W e tudo que tem aqui, exceto pelos nossos pertences pessoais, agora são sua propriedade. – Puxa vida – disse ele, com tom de irritação. – Eu quitei a dívida para que você possa ficar com este lugar para o Seth, não porque eu quisesse para mim. Eu já tenho onde morar. Não quero o que é seu. – Bom, queira ou não, agora o lugar é seu. – Seth começou a chorar e ela apontou para a porta. – Agora vá embora, por favor. Preciso cuidar do meu filho. – Isso não acaba aqui – rebateu T.J., com raiva. – Acaba, sim. Ele foi até a porta e se virou: – Não deixe a sua teimosia idiota fazer isso com a gente, Heather. Ela enrijeceu a coluna e endireitou os ombros: – Não tem nada de a gente, T.J. Se houvesse, você teria comentado sobre os seus planos antes de levá-los a cabo, não depois que tudo estivesse feito. Ele olhou como se quisesse dizer mais alguma coisa, mas só balançou negativamente a cabeça, abriu a porta e foi embora. Heather escutou o motor do carro dele roncar um pouco antes de ver os cascalhos voando e a caminhonete sair correndo pela garagem em direção à estrada principal. – Pocotó! – gritou Seth, estendendo sua mãozinha em direção à porta, como se soubesse que acabara de perder o seu melhor amigo. – Ele foi embora, querido – explicou Heather, por fim. Sentia-se como se


– Ele foi embora, querido – explicou Heather, por fim. Sentia-se como se o seu coração tivesse estilhaçado em milhares de pedacinhos. – Pocotó – repetiu o garoto enquanto afundava o rosto ao lado do pescoço dela. As lágrimas dele encharcaram a roupa dela e, não conseguindo suportar o sofrimento do filho, ela sequer tentou segurar o próprio choro. Quando o garoto chorou até não aguentar mais e cair no sono, ela o colocou na cama e voltou para a cozinha para dar uma olhada nos documentos jurídicos que T.J. havia deixado em cima da mesa. Heather nunca havia se sentido tão só em toda a sua vida. Nem quando perdera o noivo e o pai em um curto espaço de tempo, tendo que cuidar sozinha de um bebê e lutar para manter a sua fazenda, sentira-se tão desolada quando naquele instante. Ela começou a soluçar. Agora sabia, sem sombra de dúvida, que seu pior pesadelo havia se tornado realidade: ela e Seth tinham se apaixonado inapelavelmente por T.J. e ele havia partido o coração dos dois. T.J. SENTOU-SE em sua sala de diversões, tomando a sua segunda garrafa de cerveja enquanto olhava sua imagem no espelho gigante que ficava sobre o bar. Bebeu toda a primeira cerveja em um só gole e provavelmente iria fazer o mesmo com a segunda garrafa que agora tinha em mãos. Por que tinha que se apaixonar justamente por uma mulher que tinha mais orgulho concentrado em seu dedinho do que ele e a maioria das pessoas tinham no corpo inteiro? Bebeu um longo gole de sua segunda cerveja e pensou que, no fim das contas, parte da reação dela era por culpa dele mesmo. Se não tivesse perguntado sobre aqueles anúncios de aluguel de imóveis que ela estava olhando no jornal, ele não teria colocado a carroça na frente dos bois. Ele colocou a mão no bolso da calça jeans e pegou uma caixinha preta de veludo que estivera carregando ao longo do dia. Colocou-a em cima da mesa do bar e abriu a tampa da caixa para admirar o anel de compromisso de 3 quilates, delicadamente adornado com diamantes, que ele pretendia dar a Heather quando a pedisse em casamento. A intenção dele era primeiramente pedir que ela se casasse com ele para depois mostrar o documento da dívida quitada como um presente de casamento.


– Já era, seu idiota – resmungou T.J. para o homem que olhava para ele no espelho. – Acho que você jogou no lixo todas as chances que poderia ter com ela. Sentindo-se inquieto, ele abria e fechava a tampa da caixinha preta, e então se levantou para jogar a garrafa vazia na lata de lixo que ficava atrás do bar. Caminhou até a cozinha e encontrou Theresa, a governanta, junto ao balcão preparando alguns legumes para a hora da janta. – Espero que isso que você está preparando possa ficar congelado por bastante tempo – comentou T.J., indo até as portas francesas que davam para o pátio – Eu não estou com fome e provavelmente não vou comer nada na janta. – Você não parece muito bem, T.J. – disse ela, com uma expressão de preocupação. – Está tudo bem? T.J. deu de ombros. – Eu já tive dias melhores. – Eu posso ajudar de alguma maneira? – perguntou ela. – Não, a não ser que você consiga fazer o tempo voltar em algumas horas – confessou ele. – Lamento – disse Theresa, balançando a sua cabeça. – Mas talvez seja uma boa você esperar mais uns dias antes de ir atrás daquela moça e dizer que você sente muito pelo que quer que tenha feito a ela. – Como você... – Eu já vi esse mesmo olhar em outros jovens caubóis antes, quando fizeram algo que enfureceu suas mulheres – explicou ela, com um ar de sabedoria. – Mas então, fale um pouco mais sobre essa mocinha que roubou o seu coração. T.J. passou meia-hora contando para Theresa sobre Heather e Seth e sobre tudo o que fizera para partir o coração de sua amada. Quando ele terminou de falar, ela gesticulou com a cabeça: – Você está certo. Você realmente fez uma burrada. E das grandes. Mas não acho que esteja tudo perdido. – Você acha? – Acho. – Ela abriu um sorriso. – Desde que você esteja disposto a dar um tempo para ela esfriar a cabeça e refletir, acho que ela vai se dar conta


que você teve boas intenções, mesmo que soubesse que estava fazendo algo que a deixaria ofendida. – É só isso? – perguntou ele, com tom de incredulidade. – É só isso que tenho que fazer? – Bom, além disso, vai ter que se preparar para rastejar um pouco aos pés dela – completou Theresa, soltando uma gargalhada enquanto colocava no forno a caçarola que estava preparando. – Muito obrigado, Theresa – agradeceu T.J., dando um beijo na bochecha enrugada dela. Ela deu uma risada: – E não se esqueça dessa nossa conversinha da próxima vez que eu pedir um aumento. – Pode deixar – respondeu ele, sorrindo pela primeira vez desde que partira da casa de Heather. T.J. se sentiu mais otimista ao voltar para a sua sala de diversões. Ele só tinha que esperar alguns dias, como Theresa recomendara, e depois tentaria se explicar para Heather. Ele percebeu que era a sua última bala no tambor. Ele amava Heather e Seth mais do que a sua própria vida e, depois de perceber isso, jamais faria algo que pudesse magoá-los. Mesmo se tivesse que desgastar uma calça jeans de tanto se ajoelhar, iria implorar para que Heather o compreendesse e aceitasse que as intenções dele haviam sido as melhores. A vida dele dependia disso.


CAPÍTULO 9

HEATHER FUNGOU e engoliu o choro enquanto terminava de guardar o resto dos objetos de cozinha em uma caixa de papelão e depois a fechou com fita adesiva. Agora só faltavam mais umas poucas roupas de Seth e suas para empacotar e logo os dois estariam prontos para terminar de guardar seus pertences no pequeno trailer que ela havia alugado. Olhando à sua volta, a respiração de Heather se transformou em um soluço. A Círculo W sempre fora seu lar, e ela ainda não conseguia acreditar que, quando fosse embora no fim da tarde, nunca mais poderia caminhar pela casa onde passara a infância. Nunca iria poder levar Seth para pescar nas margens do riacho ou observá-lo montar em um cavalo pela primeira vez perto do estábulo. Mas, embora ficasse muito triste de não poder fazer todas essas coisas, o que realmente a enchia de tristeza, de uma dor mais intensa do que jamais conseguiria conceber, era nunca mais ver o homem que amava. Ela percebia que podia ter dado um tratamento um pouco diferente à situação quando ele confessou o que fez. No entanto, por que T.J. não conseguia entender que, ao escolher não conversar com ela sobre o que queria fazer, ele a deixava de fora das decisões envolvendo a fazenda da própria família dela? Ele a fez sentir vergonha por não ter sido capaz de fazer mais para salvar o seu legado. Ou ele ignorou solenemente, ou o desejo dela de ser independente e se provar capaz de cuidar de si mesma e do seu filho lhe passou completamente despercebido. – Mamãe, mamãe, pocotó? – perguntou Seth, entrando no cômodo. Ela ficava de coração partido toda vez que o filhinho perguntava de T.J.


Ela ficava de coração partido toda vez que o filhinho perguntava de T.J. Não conseguira proteger Seth de ficar emocionalmente apegado a ele e, no fim das contas, estava sofrendo tanto com a separação quanto ela, e talvez até mais. Heather já era adulta e conseguia entender as escolhas que era obrigada a fazer. Mas Seth era muito novinho para perceber o que havia acontecido. – Não, meu amor – disse ela, pegando o menino no colo. – A gente não vai mais ver o T.J. Assim que ela fez essa afirmação, a porta dos fundos se abriu e o homem em questão entrou. Claro, agora T.J. estava no direito dele. Era o dono da fazenda, afinal. – Bom dia – disse ele, sorrindo. Seth imediatamente estendeu os braços em direção a T.J. para que ele o pegasse no colo: – Pocotó! – Como é que o meu camarada está? – perguntou T.J., sorrindo. Ele lançou um olhar a Heather, como se perguntasse se podia pegar o filho dela no colo. Com medo de tornar a situação ainda mais estressante para Seth, ela assentiu. O filho logo enroscou os braços no pescoço de T.J. e segurou-se nele com tanta força como se a sua salvação dependesse disso. Aquilo a fez se sentir pior ainda. – De certa forma, fico aliviada de você ter passado aqui – disse ela, dirigindo-se ao balcão da cozinha, onde estava um envelope grande com o nome dele. Entregou-o a T.J. e acrescentou: – Assim não vou ter o trabalho de mandar a você as chaves de todas as instalações, os documentos de que você vai precisar para transferir a posse dos cavalos e a escritura da propriedade. – Para onde vocês vão? – perguntou. Pela sua expressão, não era possível descobrir no que poderia estar pensando. – Estou pensando em ir para Oklahoma – respondeu ela. – Ouvi dizer no noticiário que há muitas oportunidades de emprego na região de Tulsa. Ele estava tão bem de paletó preto, camisa branca de tecido Oxford e jeans azul-escuro que os olhos dela ficaram marejados. Ela virou o rosto para ele não perceber sua dor.


– A gente ainda vai ter que acertar algumas coisas antes de você ir embora – disse ele, puxando uma das cadeiras ao redor da mesa. – Tudo do que você vai precisar está dentro do envelope – respondeu ela. Ao ver que Seth havia apoiado a cabeça no ombro de T.J. e caído no sono, ela estendeu os braços para pegá-lo. – Vou deixar ele no cercadinho. – Pode deixar que eu ponho – disse T.J., levantando-se e caminhando até a sala, onde ela havia armado a cama dobrável. – Você já separou a cama do Seth e mandou botá-la no trailer? – perguntou ao voltar à cozinha. Ela fez que sim. – Só ficaram faltando algumas caixas e o cercadinho, que vou botar na mala do meu carro. – Pode deixar que eu ponho no carro quando a gente estiver pronto para ir. – Ele fez um gesto indicando a cadeira que puxara da mesa. – Senta. Eu preciso dizer uma coisa para você. – Acho que a gente já falou tudo o que tinha para dizer. Ele lhe deu outro sorriso indulgente. – Você quer sentar, Heather? Ela deu um suspiro e se sentou na cadeira. Estava claro que ele não iria contar o que achava que tinha para dizer até ela obedecer. – Tem uma coisa sobre mim que você precisa saber – disse ele, apoiando as costas no balcão. Ele cruzou os braços e cruzou as pernas na altura dos tornozelos, numa pose casual. – Pode ajudar você a entender o meu lado e explicar essa minha necessidade de tomar conta de você e de Seth. – Eu não vejo como... Ele ergueu a mão para interrompê-la. – Só me escuta, por favor. – Está bem. – A minha mãe era mãe solteira – disse ele, olhando-a nos olhos. – Eu sei que ela precisava dar muito duro para trabalhar, pagar as contas e cuidar de mim. E, acredite, ela fazia um esforço enorme e tinha que sacrificar muito para eu não descobrir que a nossa vida não era tão fácil quanto a do resto das pessoas. – Ele balançou a cabeça. – Agora eu entendo que, em todas aquelas vezes em que disse que não estava com muita fome, ela só queria que não faltasse comida para mim.


Ela observou uma pontada de tristeza atravessar brevemente seu belo rosto e teve a certeza de que o que ele estava para contar lhe causava muita dor emocional. – O que aconteceu? – perguntou ela com delicadeza. – Minha mãe e eu pegamos uma gripe quando eu tinha 10 anos – disse ele, lançando-lhe outro olhar significativo. – O dinheiro não dava para pagar um médico para nós dois, então garantiu que eu ficasse bom, mas ela descuidou-se da própria saúde. Eu melhorei. Ela, não. Então ela morreu de pneumonia mais ou menos uma semana depois. – Puxa, T.J., sinto muito – disse ela, compreendendo por que ele insistiu tanto para que ela ficasse na Diamante Bruto quando soube que havia pego uma gripe. – Eu também – bufou ele. De repente, parecia muito interessado nas suas botas caras de pele de crocodilo. Então levantou a cabeça para olhá-la nos olhos. – Naquela noite em que encontrei você e Seth presos pela enchente, jurei que não iria deixar que acontecesse a mesma coisa com o seu filho. – Eu... Eu não sabia – gaguejou ela. – Assim como a minha mãe, você não tinha ninguém para cuidar de você. Não tinha ninguém que tomasse conta de você até melhorar. – Ele encolheu os ombros. – Eu não podia fugir dessa responsabilidade. – Eu não sei o que dizer. – Ela estava completamente estarrecida. – Eu não queria que você soubesse – disse ele, balançando a cabeça. – Eu não insisti para tomar conta de você para você ficar com pena de mim por ter perdido a mãe quando eu tinha 10 anos. – Ele apontou para o corredor. – Foi tudo por aquele garotinho ali. Eu não queria que ele tivesse que viver sem a mãe. Os olhos dela se encheram de lágrimas. Como podia ter pensado que T.J. não amaria tanto o filho dela quanto o próprio pai? – Foi aí que você foi para um orfanato? Depois que a sua mãe faleceu? – perguntou. – Não, me mandaram para a casa da minha bisavó – respondeu ele, balançando a cabeça. – Mas ela já era muito idosa e não tinha energia para ficar no pé de um pré-adolescente que se metia em confusão toda vez que ela virava as costas. – Ele esfregou a nuca como se estivesse pensando se


deveria lhe contar tudo. – Fui para as mãos do Estado quando tinha 14 anos. Ela faleceu uns meses depois. – Você se meteu em confusão? – perguntou ela, muito chocada. Ele fez que sim. – Me meti com uma turma ruim e fui preso mais de uma vez por vandalismo. Sei lá por que motivo, resolveram me mandar para o abrigo de um ex-campeão de rodeio. – Então é por isso que se chamava Fazenda da Última Chance? – Humhum, e foi a melhor coisa que já me aconteceu – disse ele, sorrindo com nostalgia. – Hank Calvert me fez enfrentar a raiva que senti quando perdi minha mãe. Ele me fez entender que, em vez de sair culpando todo mundo, eu devia aceitar que, às vezes, as coisas são assim. Ele acreditava em mim e, depois de um tempinho, eu passei a acreditar em mim mesmo. – Então todos os seus irmãos também andaram metidos em confusão? – perguntou ela, surpresa com os homens que haviam se tornado. – Todos nós éramos impossíveis – disse ele, rindo. – Mas, com a ajuda de Hank Calvert, todos nós tomamos vergonha na cara e viramos cidadãos de bem. – Eu nunca teria imaginado – admitiu ela. – Ele também fez a gente ir para a universidade. – T.J. sorriu. – Ninguém diz, mas eu sou mais do que um peão de rodeio que ganhou alguns campeonatos mundiais. Eu sou formado na Universidade Estadual do Texas e tenho mestrado em Economia. – Hank devia ser um homem fantástico – disse ela, com sinceridade. O filho de Sam e Bria tem esse nome por causa dele, não é? – É sim. – T.J. endireitou-se e foi até ela. Ajoelhou-se diante de Heather e pôs as mãos dela na sua. – Heather, eu sei que você achou arrogante quando paguei o que você devia, mas eu só queria fazer alguma coisa para ajudar a aliviar o estresse em que você vive há tanto tempo. – Ele beijou a palma das mãos dela. – Nunca mais quero ver essas mãos com calos de fazer o trabalho de três empregados só para manter essa fazenda nos trilhos. – Você não vai ter mais que se preocupar. – As palavras gentis dele fizeram seu coração se partir de novo. – Esqueceu que a Círculo W é sua


agora? – Minha querida, você não chegou a olhar os documentos que eu deixei aqui depois que paguei o que você devia? – perguntou ele, sorrindo. Ela balançou a cabeça. – Não. Eu não tive coragem. – Eu não disse que comprei a fazenda – respondeu ele, com um tom de voz indulgente. – Eu disse que paguei o que você devia. E, se você tivesse parado para dar uma olhada nos documentos, iria ver que paguei tudo no seu nome. – Mas não era responsabilidade sua – insistiu ela. – As dívidas eram minhas. Eu não consegui pagar e... – Eu sei, querida – disse ele, beijando-a. – Mas eu pretendia dar os documentos a você depois de perguntar uma coisa. Uma bolha de esperança começou a se formar dentro dela, mas Heather tentou contê-la. – O que você ia me perguntar, T.J? Enquanto ela olhava, ele puxou uma caixinha preta de veludo de dentro do bolso do casaco. – Eu ia perguntar se você aceitaria me tornar o homem mais feliz do planeta casando-se comigo. Aí eu iria dar os documentos de presente de noivado. – Ele abriu a caixa. Dentro dela, estava um dos maiores diamantes que Heather já tinha visto. – Meu Deus! – disse ela, com a mão na boca. – Eu nunca... Quer dizer, eu não sei... Eu nunca sonhei... – Ela desistiu de completar ao perceber que não estava em condições de exprimir um pensamento coerente. – Eu te amo, Heather – disse ele, com uma expressão bem séria. – Eu sempre vou te amar. E, se você deixar, gostaria de tomar conta de você para o resto da vida. Lágrimas escorriam pelo seu rosto enquanto ela olhava para o homem que amava de todo o coração. Como podia ter sido tão teimosa a ponto de deixar o orgulho interferir na felicidade que poderia ter ao lado daquele homem maravilhoso? – T.J., me... Desculpe – respondeu ela, altiva. – Eu sei que eu sou teimosa, e... – Você não precisa se desculpar, querida. – Ele balançou a cabeça. – Eu


– Você não precisa se desculpar, querida. – Ele balançou a cabeça. – Eu sabia que você não iria dar pulinhos de felicidade. Mas, se o meu plano para lhe dar o recibo do pagamento de presente de noivado tivesse dado certo, provavelmente teria poupado nós dois de muita dor. Quando uma nova leva de lágrimas começou a descer pelas bochechas dela, ele pôs a caixa do anel em cima da mesa, ficou de pé e a levantou da cadeira. Então se sentou com Heather no colo. – Torço muito para que essas lágrimas sejam de alegria – disse, apertando-a junto de si. – S-sim – respondeu ela, agarrando-se ao pescoço dele. – Eu te amo de todo o coração, T.J. – Sim, são lágrimas de alegria ou sim, você quer casar comigo? – perguntou ele, sorrindo como se já soubesse. – O-os dois. – Graças a Deus! – Ele tirou o anel da caixa e o pôs no dedo dela. Então a beijou, e o calor do amor dele iluminou os cantos mais escuros da alma de Heather. Quando ele levantou a cabeça e olhou com mais amor brilhando nos olhos do que ela jamais mereceria, ele sorriu. – Tem mais uma coisa que eu queria perguntar a você. – O quê? – perguntou ela, limpando as lágrimas do rosto. – Se você não se incomodar, eu gostaria de adotar Seth – disse ele, sério. – Eu amo aquele menininho, e prometo eu vou ser o melhor pai possível. – Seria ótimo – disse ela, sabendo que ele seria um pai maravilhoso para o seu filho. T.J. deu um sorriso. – Na verdade, ele é outro motivo pelo qual eu paguei o que você devia pela fazenda. Eu queria tornar as coisas mais fáceis para você, mas eu queria garantir que a fazenda estaria aqui para ele assumir quando for mais velho. Está na sua família há gerações, e eu não queria que ele perdesse isso. – Obrigada – sussurrou ela, enquanto mais lágrimas ameaçavam cair. Passaram vários minutos em silêncio, apenas aproveitando a sensação de estar nos braços do outro de novo. – Quando você quer que seja o casamento Heather? – Ele deu uma risada. – E, por favor, não faça o noivado durar muito. Quero que a gente


comece a nossa vida a dois o mais rápido possível. – O que acha de casar no dia dos namorados? – perguntou ela, cedendo de bom grado pelo menos naquele departamento. – Melhor que no dia da independência, mas também é mais distante do que eu gostaria – respondeu ele, beijando-a de novo. Mais feliz do que jamais acreditara ser possível, ela sorriu. – Já que eu vou ser a sua mulher, posso perguntar uma coisa que tem me deixado encucada? – Amor, você pode me perguntar o que quiser – respondeu ele. – O que significa T.J.? Resmungando, ele encostou a testa na dela. – Acho que você vai descobrir quando a gente ganhar a nossa certidão de casamento. – Não pode ser tão ruim assim – disse ela, balançando a cabeça. – Acredite, não é tão bom – respondeu. Ela pôs as mãos nas bochechas magras dele e o olhou nos olhos. – Por que não me conta e me deixa avaliar se é bom ou não? – Tobias Jerome – disse ele, revirando os olhos. – Eu não sei o que passou pela cabeça da minha mãe quando ela resolveu dar esse nome a um bebezinho inocente. – Ah, não é ruim, vai – respondeu ela, sem entender por que ele não gostava. – Eu tenho cara de Toby ou de Jerry? – perguntou ele, erguendo a sobrancelha escura. – Bom, na verdade, não – admitiu. – Você tem muito mais cara de T.J. do que de qualquer um desses dois nomes. – É por isso que, quando a gente tiver filhos, nenhum deles vai se chamar Tobias Jerome – disse ele, rindo. – Quantos filhos você quer ter? – perguntou ela, encantada com a ideia de dar um irmão ou irmã a Seth e já sem medo de que T.J. não tivesse amor para dar a todos os seus filhos, fossem biológicos ou adotados. – Eu tenho uma casa bem grande com um monte de quartos – disse ele, sorrindo. – O que acha de ter sete? – A gente volta para esse assunto mais tarde – disse ela, rindo. A expressão dele ficou séria.


– Eu te amo, Heather. – E eu também te amo, T.J. A cada vez que eu respiro.


EPÍLOGO

– BEM, AGORA só sobraram dois irmãos solteiros – disse T.J. quando ele e os irmãos estavam no bar da sala da família, ex-sala de diversões, comemorando o seu casamento com Heather. Eles optaram por uma cerimônia pequena e íntima, apenas com os parentes dele de convidados, o que ele achou ótimo. Quanto menos convidados tivessem, mais cedo conseguiria fugir com Heather para a lua de mel. – Quem você acha que vai ser o próximo? – perguntou Sam. – Bom, eu é que não vou ser – disse Nate. – Eu estou quase desistindo das mulheres para sempre. – Se você acredita mesmo nisso, então eu tenho uma propriedade maravilhosa no Vale da Morte para vender – disse Ryder, rindo. T.J. olhou com carinho para a sua bela esposa, que estava conversando com suas cunhadas e com Mariah, a irmã de Bria. – Foi a mesma coisa que eu disse, Nate. E olhe para mim agora. Eu nunca estive tão feliz. – É, mas Heather é uma mulher e tanto – redarguiu Nate. – Ela não é tão teimosa quanto você achava que era, e, sem a menor dúvida, está longe de ser tão teimosa quanto a maioria das mulheres. T.J. não conseguiu conter um sorriso. Nenhum dos seus irmãos tinha a mínima noção do que ele e Heather tiveram que construir para chegar onde estavam agora. E não seria ele que iria dizer. – Pode ser Jaron – sugeriu Lane. Como Jaron não protestou imediatamente, todos eles se viraram e o


Como Jaron não protestou imediatamente, todos eles se viraram e o flagraram olhando para Mariah de novo. – O que foi? – perguntou ele. Claramente não ouvira o comentário de Lane. – A gente estava se perguntando quem seria o primeiro a ir para o altar, se Nate ou você – disse Lane, sorridente. Jaron balançou a cabeça. – É melhor vocês apostarem em Nate – disse, enfático. – Se vocês apostarem em mim, vão perder. – Eu aposto em Nate – disse T.J., deixando uma nota de cem dólares em cima do bar. – Quem é que vai cuidar das apostas dessa vez? – perguntou Ryder. – Eu cuido – disse Sam. Enquanto T.J. observava todos os irmãos apostarem dinheiro em quem seria o próximo a se casar, Seth veio correndo e se enroscou na perna dele. – Meu papai! Rindo, T.J. pegou o seu filho no colo. Ele e Heather haviam contado a Seth que T.J. ia adotá-lo e seria seu papai. Foi tudo o que bastou para que o menino parasse de chamá-lo de “pocotó” e passasse a chamá-lo de “papai”. Enquanto os irmãos continuaram a especular sobre as perspectivas de Nate e de Jaron, T.J. levou Seth até a mulher que os dois amavam com todas as suas forças. – Eu não sei de você, mas eu estou pronto para a gente começar a nossa lua de mel – sussurrou no ouvido dela. O sorriso dela o deixou sem ar. – Eu também. – Você já separou as coisas de Seth para Sam e Bria cuidarem dele enquanto estivermos fora? – perguntou T.J., pondo Seth de pé para ir brincar com o pequeno Hank, seu novo primo. Heather fez que sim. – Bria pediu para Sam botar a mala e a cadeirinha do Seth no carro deles antes da cerimônia. T.J. puxou-a para junto de si e lhe deu um beijo que deixou os dois sem fôlego.


– Então vamos sair daqui, querida. – Você ainda não me contou aonde a gente vai – disse ela, e abriu um sorriso que deixou T.J. se mordendo de vontade de ficar a sós com ela. – Você não pode me dizer pelo menos em que direção fica? – Que diferença faz – perguntou ele, rindo. Ela balançou a cabeça e, quando pôs a mão na dele, T.J. se sentiu o homem mais sortudo da Terra. – Aonde quer que a gente vá, caubói, eu vou estar sempre bem do seu lado. – Eu te amo, sra. Malloy – disse ele, e lhe deu outro beijo. Ela tocou a bochecha dele de leve. – E eu também te amo, T.J. Com todas as minhas forças.


CASADA POR NEGÓCIO Kat Cantrell

Daniella estava em pé perto da porta com as mãos cruzadas e o olhar baixo. A esposa de Leo era refinada e modesta, exatamente como ele exigira e esperara. Mas não esperara que a foto tivesse mentido. E tinha sido uma mentira de proporções épicas. Não era atraente de um modo comum, como pensara. A mulher com quem se casara irradiava energia sensual, como se seu espírito estivesse preso atrás da barreira de carne. Se a barreira caísse… cuidado. Não era apenas linda, em pessoa, Daniella desafiava descrição. Matéria-prima da poesia e das canções de Michael Bublé. Se tivesse inclinação para aquele tipo de coisa. Até seu nome era exótico e incomum. Não conseguia parar de olhar para ela. Não conseguia parar de pensar naquele beijo rápido demais e que interrompera porque sentira o começo de alguma coisa que levaria muito tempo para terminar. Todo o corpo zumbia em reação à energia concentrada que queria tanto explorar. O que ia fazer com uma mulher como aquela? – Estou pronta para partir quando quiser, Leo. – A voz era suave e firme. Ele a levaria para casa. Apesar de ser distração com letras maiúsculas, estavam casados. Por que não havia se encontrado com ela pessoalmente antes do casamento? Porque achava que havia tomado todas as providências necessárias, todos os cuidados. Havia conversado com


clientes satisfeitos da EA International e estivera com Elise Arundel diversas vezes. Confiara em sua capacidade de encontrar a parceira perfeita e as informações que a sra. Arundel lhe dera confirmaram sua escolha. Daniella White era a mulher perfeita para ser sua esposa. As duas conversas pelo telefone haviam selado o acordo. Reconhecera imediatamente sua adequação. Por que adiar o casamento quando pensavam da mesma forma sobre tantas coisas e nenhum se importava se houvesse ou não atração entre eles? Era melhor agir logo. Se tivesse que fazer tudo de novo, incluiria uma nova exigência… não me faça formigar. Era Carmen de novo, apenas pior porque não era mais um menino apaixonado de 17 anos e Daniella era sua esposa. Mulher nenhuma teria permissão para levá-lo pelo mesmo caminho catastrófico que seu pai trilhara. E agora aquilo. Seu casamento era sobre compatibilidade e conveniência e não um mergulho insensato na loucura. Era importante que começassem com o pé direito. – Meu motorista já pegou sua bagagem? – Sim, obrigada. – Já se despediu? – Sim. Estou pronta. A conversa era quase dolorosa. Era por isto que preferia fazer um tratamento de canal a levar uma mulher para jantar, era por isto que não gostava de encontros. Estavam casados, eram compatíveis, deviam estar além da conversa fiada. Leo esperou até estarem no carro antes de falar de novo. Ela havia cruzado as longas pernas de maneira graciosa, os sapatos voltados para o mesmo lado. E a devorava com os olhos. Antes de começar a babar, afastou o olhar daquelas pernas. – Se não se importa, gostaria de convidar meus pais para conhecê-la esta noite. – Ficarei feliz de conhecer seus pais. Podia tê-los convidado para a cerimônia. Pelo seu perfil, sei como sua família é importante para você. Leo ficou perplexo pela alegria que sentiu por ela se lembrar. – Não ficaram muito entusiasmados com o casamento. Minha mãe preferia que eu me casasse por amor.


– Lamento. – Tocou-lhe o braço por um instante. – Deve viver sua vida de acordo com o que faz sentido para você, não para sua mãe.

E leia também em Felizes Para Sempre, LTDA, edição 232 de Desejo, Casada por destino e Casada por desafio, de Kat Cantrell.


232 – FELIZES PARA SEMPRE, LTDA. – KAT CANTRELL Casada por negócio Leo Reynolds precisa de uma esposa de conveniência. Ele não quer saber de romance, mas Daniella White faria esse poderoso magnata mudar de ideia. Casada por destino O príncipe Alain “Finn” Phineas precisa casar-se para cumprir o seu dever. Até descobrir que sua pretendente é Juliet Villere, a mulher que partira seu coração. Casada por desafio Dax Wakefield está determinado a provar que a agência de relacionamentos de Elise Arundel é uma fraude. Para impedi-lo, Elise decide encontrar a mulher ideal para ele. E seus métodos infalíveis indicam que o par perfeito de Dax é… ela mesma. Últimos lançamentos: 230 – ACORDOS & ESCÂNDALOS Beijos encenados – Maureen Child Georgia Page aceitara fingir ser a noiva do sedutor Sean Connolly. Porém, não imaginava que toda essa encenação abriria caminho para um desejo irresistível!


Segredo de amante – Andrea Laurence Sabine Hayes conseguira manter o filho em segredo por dois anos, mas agora Gavin Brooks quer fazer parte da vida da criança. Contudo, ela está determinada a não ceder às ordens desse poderoso magnata… e nem ao desejo que a domina.


Edições mensais com duas histórias da mesma saga.

HERDEIROS EM DISPUTA PELA LIDERANÇA DE UM IMPÉRIO SÃO ARREBATADOS POR PAIXÕES INUSITADAS!


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Disponível gratuitamente em formato eBook até 01/06/2015 no endereço www.leiaharlequin.com.br


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CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

G234d Gates, Olivia Destino & amor [recurso eletrônico] / Olivia Gates, Kathie Denosky; tradução Michele Gehardt , Cydne Losekann. - 1. ed. - Rio de Janeiro: Harlequin, 2015. recurso digital: il. Tradução de: The sarantos baby bargain; The cowboy's way Formato: ePub Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions Modo de acesso: World Wide Web ISBN 978-85-398-1591-3 (recurso eletrônico) 1. Romance americano. 2. Livros eletrônicos. I. Denosky, Kathie. II. Gehardt, Michele. III. Losekann, Cydne. IV. Título. 15-22090

CDD: 813 CDU: 821.111(73)-3

PUBLICADO MEDIANTE ACORDO COM HARLEQUIN BOOKS S.A. Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o armazenamento ou a transmissão, no todo ou em parte. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Título original: THE SARANTOS BABY BARGAIN Copyright © 2014 by Olivia Gates Originalmente publicado em 2014 por Harlequin Desire Título original: THE COWBOY’S WAY Copyright © 2015 by Kathie DeNosky Originalmente publicado em 2015 por Harlequin Desire

Projeto gráfico e arte-final de capa:


Projeto gráfico e arte-final de capa: Ô de casa Produção do arquivo ePub: Ranna Studio Editora HR Ltda. Rua Argentina, 171, 4º andar São Cristóvão, Rio de Janeiro, RJ — 20921-380 Contato: virginia.rivera@harlequinbooks.com.br


Capa Texto de capa Rosto Sumário

VOLTANDO A AMAR Querida leitora Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Capítulo 8 Capítulo 9 Capítulo 10 Capítulo 11 Capítulo 12

DESTINOS CRUZADOS Querida leitora Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7


Capítulo 8 Capítulo 9 Epílogo

Próximos lançamentos Créditos

Destino e amor harlequin dese olivia gates,kathie denosky  
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