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BETÃO BRANCO PRESCRIÇÃO E UTILIZAÇÃO

J. M. Gaspar Nero Ângela Nunes


BETÃO BRANCO Fundamentos para a prescrição e utilização do betão branco

J. M. Gaspar Nero Prof. Convidado I.S.T. Ângela Nunes Eng.ª Responsável do Laboratório de Betões da SECIL, S.A.

Figura 1 – Instituto Superior das ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE) – Fase 1 - Lisboa

Resumo O trabalho que se apresenta é resultado do estudo e experiência adquiridos pelos autores, durante os últimos anos, sobre a caracterização e aplicação de betão branco em obras de engenharia e arquitectura. Neste artigo ponderam-se os aspectos que sob o ponto de vista da concepção, da execução e dos custos, devem ser tidos em conta na prescrição ou aplicação do betão branco.


1 Introdução

O recurso a betão arquitectónico branco, ou seja, a betão aparente incorporando cimento branco, correntemente designado por "betão branco", traduzse numa solução que começa a ter algum impacto no nosso país em consequência de experiências, mais ou menos bem sucedidas, levadas a efeito nos últimos anos. De entre estas experiências destacam-se a Torre do Tombo, a Faculdade de Farmácia, a Escola Superior de Hotelaria de Faro, a sede da Caixa Geral de Depósitos, o ISCTE na Cidade Universitária (Figuras 1, 5 e 23) e, mais recentemente, o edifício Atrium Saldanha (Figuras 2 e 3), a abóbada da Estação do Metropolitano do Rato (Figura 22) e alguns Pavilhões na Expo 98 como o do Conhecimento (Figura 12) e o do Futuro (Figura 24).

Figura 2 – Pilares de betão branco, vista exterior do Edifício ‘Atrium’ Saldanha - Lisboa

A prescrição ou a adopção de betão branco deve, contudo, estar associada a três objectivos fundamentais, a ter em conta: 

Satisfação de um sentido plástico,



Eliminação de revestimentos,



Garantia de durabilidade.

Embora estes objectivos possam ser considerados atributos teoricamente atingíveis, a experiência revela que tal só se torna possível caso se opte pelo controlo encadeado de um conjunto diversificado de factores, desde a concepção das formas e orientação dos elementos construtivos a lançar à correcta prescrição dos princípios a observar no cálculo estrutural, ao conveniente estudo da composição e correcta escolha dos materiais a incorporar nos betões, ao assumir da sua conveniente cura e protecção, à preparação das armaduras e cofragens, à definição de uma conveniente sequência dos trabalhos, para além, naturalmente, dos cuidados a ter na organização do estaleiro. Porque muitos dos factores enunciados são de mais fácil controlo numa unidade de produção centralizada e sistematizada, como é o caso da prefabricação, resulta que o recurso a betão branco tenha sido primordialmente dirigido para este tipo de componentes, em especial no fabrico de painéis, vigas ou mesmo pilares, e artefactos de betão e só numa segunda fase se tenha evoluído para o fabrico e colocação ‘in situ’ em condições de estaleiro corrente.

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Figura 3 – Pilares de betão branco no exterior do Edifício ‘Atrium’ Saldanha - Lisboa

Figura 4 – Edifício – Sede da Caixa Geral de Depósitos - Lisboa


2 Metodologias para a especificação do betão branco

2.1 | Considerações gerais

2.1 | Ao nível da arquitectura

Sem entrar num detalhe que, no contexto desta comunicação, se considera inadequado, é importante realçar que, para se atingirem níveis de qualidade satisfatórios em betão branco, deve alterar-se, de uma forma decidida, a superficialidade de tratamento com que muitas das obras de betão armado e pré-esforçado são, ainda hoje, encaradas.

A forma, a cor e os acabamentos de superfície:

Embora o betão seja um material que, em princípio, apresenta evoluções favoráveis de resistência, compatíveis com alguma segurança, não comporta, em relação a diversas outras propriedades, actuações inadvertidas. A filosofia aposta ao betão aparente, nomeadamente ao betão branco, terá de ser forçosamente distinta da prática corrente. Há que entender que a fase de acabamento coincide com a da própria estrutura e que os aspectos associados à alteração, substituição ou reparação, como nos demais tipos de revestimento, aportam custos significativos e eficácias muitas vezes reduzidas. A diversidade dos planos de actuação inerentes à boa concretização dos objectivos ligados às realizações em betão branco carece de uma atitude de diálogo interdisciplinar, envolvendo o projectista, dono de obra e o empreiteiro, para além de técnicos especialistas, designadamente de betões e cofragem. Há, todavia, que respeitar as características do próprio material, o betão, não criando falsas expectativas. O betão é constituído por partículas diferentes em dimensão, massa volúmica, reactividade e coloração, o que propicia a sua heterogeneidade. O compromisso entre estas características e as exigências que se requerem do material aplicado justifica que se elabore um cuidadoso conjunto de prescrições técnicas, a incluir nos processos de obra, por forma a que se garanta, nas diferentes fases do processo construtivo, uma actuação articulada e cuidada. Figura 5 - Construção do ISCTE, Fase 2 – Lisboa

Na primeira fase do projecto, a concepção da estrutura, deve-se ter em conta a viabilidade técnica da sua concretização, a manutenção da aparência do betão ao longo do tempo e os efeitos a atingir pela cor, textura e tipo de acabamento superficial a adoptar. O aspecto da superfície aparente das estruturas de betão e a sua manutenção no tempo estão associados à forma como estas se expõem à actuação da chuva e à compatibilidade das suas texturas com as envolventes atmosféricas. A título de exemplo refere-se que, numa construção inserida numa atmosfera poeirenta ou muito poluída, é de esperar que paramentos em plano inclinado de baixo ângulo, áreas desprotegidas da acção das águas das chuvas, zonas afectadas pelas escorrências da cobertura ou com acabamentos superficiais demasiado rugosos, sofram alterações significativas de aspecto. A cor é um aspecto determinante (Figura 6). a grau de brancura a atingir deve ser, sempre que possível, prescrito através de parâmetros colorimétricos, tais como os índices de brancura e de reflectância. Há, contudo, que ponderar a relação grau de brancura/custo, pois uma má avaliação deste factor pode pôr em causa a viabilidade ou adequação do projecto. A versatilidade estética do betão branco permite que se tire partido do tipo de textura a adoptar (Figuras 7, 8 e 9). A ponderação sobre qual o acabamento mais adequado deverá ser assumida logo na concepção, pois condiciona fases posteriores, nomeadamente as relacionadas com a escolha e o estudo das cofragens, com a composição do betão e com o dimensionamento de armaduras. a projectista ao optar por betão desmoldado deverá ter presente a grande sensibilidade da sua superfície, de difícil homogeneidade, pois a pele do betão funciona como um negativo de extrema precisão, gravando, de forma permanente, todos os pequenos defeitos e sujidades da cofragem ou inclusive agressões posteriores. Em alternativa poderá recorrer a outros acabamentos como o bujardado, o esponteirado e o tratamento a jacto de areia.

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Figura 6 - Conjunto de provetes com índices de reflectância, Ir, distintos a) Betão branco produzido com inerte calcário (Ir=73%)

Índice de Reflectância

Incremento de Custo

Fíler calcário

73%

-

Fíler silicioso

78%

2%

Fíler mármore

82%

6%

Pigmento (TiO2-5%)

84%

35%

Composição

Quadro I - Variação do índice de reflectância e do custo relativo (o cálculo tem por base uma composição de 'fíler' calcário/m3) entre betões de idênticas dosagens, mas com adições de diferentes origens.

Quando, a título de remedeio, se opta tardiamente por estas últimas soluções verifica-se: umas por atingirem mais profundamente a derme, expondo as armaduras, e outras por serem demasiado superficiais, não dissipando os desalinhamentos das juntas ou expondo as bolhas de ar ocasionadas por deficiências na compactação, que se revelam pouco eficazes conduzindo a acréscimos do custo de obra. É igualmente importante o correcto dimensionamento das peças a betonar, pois espessuras demasiado esbeltas em peças verticais, como paredes e pilares, podem ocasionar deficiências importantes nos parâmetros por dificuldade de espaço para a correcta aplicação do betão. Assim, recomenda-se que nesses elementos sejam consideradas espessuras mínimas de 30 a 35 cm

b) Betão branco produzido com ‘filer’ silicioso (Ir=78%) c) Betão branco produzido com 'filer' de mármore (Ir=82%) d) Betão branco com adição de 3% de dióxido de titânio (Ir =84%)

A técnica construtiva É também na fase de projecto que se deve avaliar do interesse da prefabricação de parte ou do todo da obra, sendo evidente que, por força de determinadas expressões arquitectónicas, nem sempre seja possível considerar a sua possibilidade. Todavia esta técnica, se. bem desenvolvida, permite atingir altos níveis de qualidade global e sobretudo um grau de homogeneidade de superfície que dificilmente as condições de betão moldado ‘in situ’ podem oferecer. Quando se opte por soluções mistas, há que ter em consideração a eventual diferença de aparência das peças prefabricadas das produzidas ‘in situ’, havendo que estabelecer a conjugação e a harmonização do conjunto.

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Figura 7 - Aspecto geral do acabamento esponteirado, Porto Sherry - Cadiz

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Figura 8 - Combinação possível de textura e cor (esponteirado com inerte mármore)

Figura 9 - Combinação de textura e cor (jacto de areia com inerte calcário)

A definição da estereotomia da cofragem e planos de betonagem É igualmente importante que na fase de concepção, ao contrário da prática corrente, se preveja o sistema de cofragem mais indicado, definindo-se a tipologia dos respectivos painéis, com indicação da localização das juntas de betonagem ao longo dos paramentos e das tolerâncias permitidas para as deformações. A vantagem deste procedimento é permitir evitar situações comuns de desajuste dos projectos de cofragem às pretensões estéticas dos projectistas, nomeadamente com o surgimento de juntas, desalinhamentos e remendos inconvenientes (Figura 10).


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2.2 | Ao nível da concepção estrutural A classe de betão Por razões de opacidade e necessidade de boa aparência estética, mas também por motivos relacionados com a durabilidade dos betões, é necessário que estes se apresentem compactos, com dosagens de cimento superiores às correntemente utilizadas. Assim, face aos tipos de cimento branco disponíveis no mercado nacional, os betões brancos apresentam classes de resistência elevadas, traduzidas normalmente em tensões características superiores a 35 MPa. O projectista deverá optimizar as soluções estruturais tirando partido deste facto.

As armaduras

Figura 10 - Aspecto chocante dos remendos de cofragem, associados a outras patologias relacionadas com a estanquidade e tratamento de juntas

A pormenorização e o detalhe As indefinições de projecto são contraproducentes para um bom planeamento de obra, obviando à concretização de uma metodologia de procedimentos, tão necessária para o êxito da execução. Assim, os projectos deverão ser tão completos quanto possível, dispensando que se remeta para a fase de execução de obra a definição de pormenores. A título de exemplo destaquem-se entre outros a pormenorização das juntas de betonagem, das alhetas, dos bites, dos dispositivos de estanquidade a adoptar. Reforçamos a importância, para a disciplina da obra, da existência de um Caderno de Encargos preciso, completo e informativo, com descrição de todos os procedimentos de execução.

Por motivos relacionados com a durabilidade e a aparência das estruturas em betão branco, os recobrimentos habitualmente previstos para as armaduras devem ser aumentados em cerca de 1 cm, de forma a reduzir a possibilidade de corrosão, que muito prejudicaria o aspecto das superfícies aparentes. Também, pelo mesmo motivo, é importante garantir o correcto afastamento e posicionamento das armaduras, com recurso a espaçadores de qualidade compatível, nomeadamente poliméricos ou, preferencialmente, de betão branco com forma apropriada. Deverão ser previstas medidas para tratamento das armaduras e regras para a sua armazenagem. Será completamente inadmissível a colocação de varões com películas consideráveis de calamina ou outras sujidades que, durante a aplicação do betão, rapidamente o contaminariam. E frequente procederse à escovagem e limpeza, a ar comprimido, dos varões antes da montagem. Em alternativa é também possível prever o tratamento prévio da armadura, antes da oxidação, com pinturas à base de hidroepoxy ou poliuretano. Por último, e no caso de não se optar pelo tratamento integral das armaduras, é importante prever a pintura das armaduras de espera. Estas, no intervalo entre betonagens, poderão oxidar e, na presença de humidades, provocarem escorrências sobre o betão (Figura 11).

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Figura 11 - Escorrências de óxido de ferro sobre o betão, após 48h de espera

As cofragens É decisiva a importância da cofragem, sobretudo quando se pretende produzir betão desmoldado. Este aspecto pode ser menos valorizado quando estiver previsto um acabamento de superfície para o betão do tipo esponteirado ou semelhante. O desenvolvimento dos sistemas de cofragem e dos materiais para o efeito disponíveis consiste num tema vital para o betão branco, sendo de referir que muito é ainda possível investigar nesta área. Os sistemas actualmente comercializados para betão ’in situ’ são constituídos por contraplacado marítimo ou por moldes metálicos. Ambos apresentam vantagens relativas, sendo a sua selecção função do tipo de peça a betonar. Em qualquer dos sistemas a limpeza da superfície do molde é fundamental, pois quaisquer resíduos de óleos usados, ferrugem, poeiras ou outras impurezas ficarão registados permanentemente no betão. Quanto à facilidade de limpeza, os contraplacados de cofragem, quando novos, são mais fáceis de manter e permitem, se bem manuseados, algumas utilizações. Todavia, deficiências de qualidade do tratamento fenólico do contraplacado poderão, por si só, originar manchas desagradáveis (Figura 13). Por vezes, os projectistas pretendem a utilização de cofragem de madeira tradicional com fins estéticos. Contudo, a madeira a utilizar não poderá estar verde, nem muito seca, devendo ser previamente sujeita a um tratamento superficial, pois de contrário manchará a superfície do betão.

A deformabilidade dos cimbres, durante a aplicação do betão e em consequência das pressões que este lhes transmite no estado fresco, é também um dos problemas que necessita de uma correcta avaliação, podendo condicionar a velocidade de betonagem. Quanto às cofragens metálicas, ao contrário do que se poderá pensar, o revestimento a chapa inox pode trazer vantagens económicas, atendendo aos custos de mão-de-obra impostos pela manutenção da chapa de aço normal. De facto, a rápida oxidação deste último material, a dificuldade e morosidade da sua limpeza, aumentam o risco do betão vir a apresentar deficientes condições de aparência, o que se traduzirá em custos pesados de beneficiação.A grande vantagem das cofragens metálicas, para além de normalmente apresentarem maior estabilidade aos impulsos da betonagem, traduz-se na sua versatilidade em relação à forma, permitindo a obtenção de peças com configurações complexas. A sua maior inércia permite o recurso à vibração exterior, que se revela muito interessante sob o ponto de vista da compactação conferida ao betão.

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Ao nível da prefabricação os sistemas de cofragem apresentam já alguma diversificação, desde a cofragem metálica revestida, normalmente a chapa inox, até às modernas cofragens poliméricas, à base de resina poliester e fibra de vidro, de resinas acrílicas ou de polietileno. E também frequente o recurso à utilização de revestimentos dos moldes com elastómeros, que permitem a execução de peças com contornos delicados, ou com impressão de relevos. Não menos importante que as operações de limpeza é, de facto, a estanquidade garantida pelo molde. A perda de leitada traz consequências muito desagradáveis em betão aparente, sendo, infelizmente, muito comum o seu aparecimento. Qualquer que seja o sistema de cofragem por que se opte é imprescindível a selagem das juntas entre os painéis, com silicones ou mástiques, e a colocação de fitas de borracha em cantos, bases, esquinas e juntas de betonagem (Figura 14).

2.3 | Ao nível da execução Os desmoldantes Figura 12 - Pavilhão do Conhecimento, Lisboa Figura 13 - Falta de homogeneidade de cor por deficiência de limpeza de cofragem

No betão aparente, e em especial no betão branco, não é possível recorrer aos óleos habituais de desmoldagem sob pena de surgirem manchas de gordura. Assim, os produtos normalmente indicados para este fim são à base de parafinas incolores, devendo ser aplicados com o auxílio de pistolas de pintura, de modo a formar uma película muito fina e contínua, completamente imperceptível na superfície do molde. O número de unidades de vibração deverá ser previamente previsto e suficiente para permitir uma correcta compactação, com um mínimo de esforço dos operários. Dificuldades de operação significam, na prática, má compactação.

A betonagem: aplicação e compactação O período que medeia entre a montagem da cofragem, a aplicação de desmoldante, a colocação da armadura e a aplicação do betão deverá ser o mais curto possível, por forma a que se diminuam os riscos de contaminação em consequência da água das chuvas ou de poeiras. Em situações onde, devido à dimensão das peças a betonar, este intervalo de tempo seja superior ao desejável deverá prever-se uma protecção com coberturas provisórias ou filmes plásticos. De salientar o benefício de um bom

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planeamento de obra para minimizar estes efeitos, ao prever, por exemplo, a montagem em última instância do painel de cofragem do paramento de betão que fica aparente.

na presença de condensações, no caso dos contraplacados marítimos de cofragem. Assim, a desmoldagem deverá ser rigorosamente controlada, em função da maturidade do betão aplicado.

O betão deverá deslizar para o interior dos moldes com o auxílio de mangas de descarga, evitando-se a queda de grandes alturas, o que poderá ocasionar, para além de segregação, um deficiente efeito de parede, por fixação de resíduos de betão seco junto às paredes do molde. Para facilitar a compactação, o betão deverá ser colocado por camadas de espessura inferior a 50 cm, pois de contrário o ar ficará aprisionado durante a compactação e as bolhas de ar poderão surgir mais densamente na pele do betão. A aplicação deverá ter uma cadência tão contínua quanto possível, devendo o período de tempo decorrido entre aplicação de camadas ser controlado em função da reologia do betão, de modo a evitar juntas.

Figura 14 - Perda de leitada Figura 15. Aspecto geral da betonagem de uma grande peça

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Na vibração de cada camada de betão deve-se penetrar com as agulhas dos vibradores na camada subjacente cerca de 10 a 15 cm de modo a homogeneizar camadas sucessivas. Não se deve revibrar as camadas colocadas muito anteriormente, pois poderão ter iniciado presa, o que danificará o aspecto da pele do betão. Também, pelo mesmo motivo, deverá ser evitado o contacto dos vibradores com a parede do molde ou com as armaduras.

A desmoldagem, a cura e a protecção provisória A desmoldagem antecipada poderá causar arrancamentos e quebra de arestas e cantos, para além de desproteger o betão a fenómenos de retracção térmica, o que poderá originar fissuração. Todavia, a permanência prolongada dos moldes poderá ocasionar manchas devido a oxidações, no caso das cofragens em aço, ou a alterações do fenol

A utilização de membranas de cura não tem sido eficaz neste tipo de betões. A água, limpa de impurezas, aplicada por aspersão parece ser ainda o processo mais eficaz para uma boa cura. De salientar a importância da cura, especialmente em grandes peças, pois este tipo de betão apresenta retracções ligeiramente superiores às dos betões com


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dosagens de ligante equivalentes fabricados com cimento cinzento. A protecção contra deposição de sujidades e contra os riscos de agressão mecânica às peças betonadas deverá ser cuidadosamente acautelada no decorrer dos trabalhos.

compactação.

Figura 16 - Painel de cofragem em chapa acrílico produzida na obra do Pavilhão do Futuro da Expo 98

Figura 17 – Torre do Tombo - Lisboa A limpeza e a protecção final É de prever no final da obra uma limpeza geral com água e, eventualmente, com auxílio de produtos de limpeza adequados, seguida da aplicação de hidrófugos de superfície, ‘antigrafiti’, especialmente nas zonas de maior risco. Existem no mercado diversos produtos para este fim, uns que não promovem alteração de aspecto, outros que criam pátinas ou brilho. Normalmente são produtos à base de silicones modificados (silanos e siloxanos) e resinas acrílicas.

Pelo referido, a especificação do betão branco deverá assentar, por um lado, nos requisitos estéticos de durabilidade de aparência e evidentemente em requisitos estruturais. Assim surgem, para além das exigências mecânicas habituais como sejam as resistências à compressão ou à flexão, as que se relacionam com a durabilidade, em princípio garantidas pela introdução de dosagens mínimas de ligante e pela adopção de baixas relações água/cimento, e as relacionadas com a cor, aferíveis por via dos índices de brancura e reflectância.

A execução de protótipos

Estas últimas propriedades são obviamente influenciadas pelas características dos materiais utilizados na formulação dos betões mas também pelo estado da superfície dos moldes, interessando referenciá-Ias quando se pretende betão descofrado.

Como forma de validar toda a actuação, será sempre conveniente proceder à execução de protótipos em obra, com os materiais e condições disponíveis no estaleiro. A execução do protótipo constitui-se também numa oportunidade para que se preparem as equipas de execução. Na Figura 16, apresenta-se um esquema produzido em estaleiro, em que se substituiu um painel de cofragem por chapa acrílica, como modo de visualizar as operações de colocação e

Os materiais devem ser armazenados de modo a que se evite a sua contaminação. É também importante garantir a manutenção de proveniência dos mesmos, ao longo da produção, como forma a minimizar as variações de cor. Deverá proceder-se ao aprovisionamento para que as peças mais

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2 Metodologias para a especificação do betão branco

importantes sejam uniformemente preenchidas.

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3 Materiais e características do betão branco

3.1 | Os materiais Os inertes passíveis de serem utilizados neste tipo de betão são inúmeros, desde os calcários e areias siliciosas correntes aos inertes de mármores, granitos, entre outros, consoante a cor e os efeitos estéticos pretendidos (Figura 20).

Figura 19 - Consequências de falta de elementos finos no efeito parede do betão

Figura 20 - Aspecto geral de areias utilizadas no fabrico de betão branco

As exigências normativas aplicáveis à verificação da conformidade dos inertes para betão parecem-nos insuficientes para que sejam cumpridos determinados valores de homogeneidade e brancura. Assim, uma areia que apresente um teor de argila baixo, mas variando ao longo dos fornecimentos, constitui um risco para a homogeneidade de cor do produto. Afigura-se essencial a utilização de inertes bem lavados, livres de argilas, matérias orgânicas e outras impurezas. Dada a necessidade de garantir um elevado teor de finos nestes betões, de forma a aumentar a opacidade da pele, a compacidade, a coesão (diminuindo os riscos de segregação, ver Figura 19) e introduzir colorações naturais, é frequente o recurso a ‘fílers’ de diversas origens, especialmente os de origem calcária, em substituição de parte do ligante, diminuindo assim custos de produção. Estes ‘fílers’ são provenientes directamente do refugo de instalações de britagem, com lavagem prévia do material ou preparados propositadamente através de moagem de rocha previamente seleccionada e lavada. As dosagens utilizadas são variáveis em função das granulometrias dos restantes inertes e das condições da obra, mas normalmente oscilam entre 50 e 200 kg/m3. Por vezes recorre-se à utilização de pigmentos, normalmente óxidos metálicos que permitem, quando bem homogeneizados no interior do betão, a coloração do mesmo com diferentes tonalidades. As dosagens utilizadas são variáveis entre 0,5% e 5% do peso de cimento, função da coloração pretendida. No caso dos betões claros é possível a utilização de

pigmento branco à base de óxido de titânio, com resultados surpreendentes ao nível dos índices de reflectância e brancura, bem como da homogeneidade. Todavia, o seu custo é elevado conforme atrás ficou expresso. O cimento branco, de características mecânicas semelhantes às do cimento cinzento, distingue-se deste, essencialmente, pela ausência de óxidos metálicos, que conferem àquele produto a sua tonalidade. Para o utilizador, as diferenças consistem, ainda, num início de presa mais rápido, da ordem dos 70 a 120 minutos, enquanto que no cimento corrente de igual classe oscila entre 180 e 240 minutos. Esta situação conduz a uma maior perda de trabalhabilidade, bem como a uma retracção ligeiramente superior. A causa para estes factores reside não só nas características químicas do clínquer como, e essencialmente, na finura de moagem deste produto, que é significativamente mais elevada, para aumentar a sua brancura. Estas especificidades são facilmente controláveis com o recurso a adjuvantes. As dosagens de ligante mínimas a utilizar deverão ser superiores a 360 kg/m3 de betão. Os adjuvantes, especialmente os superplastificantes e os retardadores, desempenham um papel fundamental na qualidade deste tipo de betão. Deverão apresentar cor clara e garantias de não oxidação com os U.V.. Dada a exigência de utilização de relações água/cimento inferiores a 0,42, é frequente o uso de dosagens compreendidas entre 1 e 2% no caso dos superplastificantes, dependendo do produto e das indicações do fabricante, valores ligeiramente superiores aos do betão corrente. Também, pelas características do cimento branco, o recurso a retardadores é mais frequente, com dosagens em função das condições de estaleiro e da reologia pretendida. A água deverá ser preferencialmente potável e estar em conformidade com as especificações do LNEC existentes. A dosagem de água tem de ser sistematicamente avaliada, procurando evitar-se "variações". Estas oscilações conduzem sempre a alterações substanciais da coloração superficial do betão, sobretudo no caso dos betões desmoldados.

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3 Materiais e características do betão branco

3.2 | O fabrico, transporte e bombagem A formulação de um betão branco deverá ter em conta que, em termos de cor, são os materiais mais finos que mais influenciam. Assim, a selecção dos materiais a utilizar deverá ter em conta a cor dos ‘fílers’ e das areias finas para obtenção das tonalidades especificadas. A consistência do betão aparente deverá ser normalmente superior à do betão corrente, a fim de permitir uma compactação mais eficiente. O abaixamento utilizado é função das dimensões das peças, da densidade de armaduras e das condições de aplicação do betão. Os abaixamentos habituais oscilam entre os 18±2 cm em peças verticais e os 14±2 cm em peças com desenvolvimento horizontal. O betão branco, dada a sua facilidade de contaminação, deverá ser produzido em central exclusiva para o efeito. Todo o equipamento de mistura, transporte e bombagem deverá ser rigorosamente limpo, de modo a garantir estabilidade de cor. A homogeneidade da mistura é deveras importante para garantir a ausência de manchas e marmoreados, facto somente garantido em Centrais de via húmida (Figura 21).

Figura 21 - Os marmoreados superficiais que ocorrem por deficiência de homogeneização

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4 A estrutura de custos do betão branco

Quando se recorre a uma nova tecnologia, ou a um novo material, há sempre a tendência, face à menor experiência que se tem sobre o produto, de equacionar o interesse económico da solução. Naturalmente que esse interesse económico não se revela apenas pelo custo directo, havendo outros custos, como os que decorrem da manutenção, ou outros valores de mais difícil contabilização, como sejam a atractibilidade da solução, que devem ser tidos em conta.

Remetendo-nos, contudo, aos custos directos, que constituem sempre uma eficaz base de análise, podem-se considerar as variações indicadas no Quadro 11, tendo por base betões correntes e branco da classe B35, o primeiro dos quais sujeito a um revestimento de reboco e pintura em ambas as faces. O valor diferencial, nas condições indicadas, corresponde, em termos de custo, a cerca de 20%, que pode, em certa medida, ser economicamente compensado pelos previsíveis menores encargos de manutenção.

Quadro 2 Comparação dos custos médios entre betão corrente revestido a reboco pintado em ambas as faces e betão branco (betões da classe B35) (Comparação produzida com bas numa parede de betão com 40 cm de espessura)


5 Conclusões

Constitui-se este trabalho num documento de síntese que pretende enquadrar as actuações indispensáveis para o sucesso da aplicação de betão branco aparente em obras de Arquitectura ou de Engenharia. O betão branco é um material cujas potencialidades, em termos da apetência estética e capacidade estrutural, somente são atingidas quando se assuma por uma adequada prescrição e controlo de etapas fundamentais nas diferentes fases do processo, que se estendem da concepção à aplicação.

necessária para a superficial do betão.

melhoria

da

compacidade

O recurso a pigmentos, como o dióxido de titânio, só se justifica caso se pretenda um índice de brancura muito elevado. Tal acarreta, contudo, um acréscimo significativo de custo.

A nível do projecto de arquitectura - a cor, a textura e o tipo de acabamento superficial a adoptar devem, desde o início, pautar a concepção. A definição criteriosa destes parâmetros condiciona a tecnologia e os custos da solução. A pormenorização será parte integrante do projecto, não devendo ser relegada para a fase de execução. Neste aspecto tomam especial importância o estudo da estereotomia das juntas de cofragem e o planeamento e tratamento de juntas de betonagem. A definição das tolerâncias deve ser estabelecido. A nível do projecto de estrutura - as resistências atingidas por estes betões são elevadas em consequência da classe dos cimentos disponíveis, mas também pelas dosagens necessárias e baixas relações A/C normalmente adaptadas, como forma de contribuir para a compacidade que é necessário conferir às superfícies expostas. O estruturalista deve prescrever betões de classes não inferiores a C30/37 de forma a tirar partido do material aplicado. O recobrimento das armaduras deve ser superior em cerca de 1 cm ao que se regista nos betões correntes, e o estudo dos sistemas de cofragem tem de respeitar as condições de acabamento e tolerâncias requeridos pelo projecto de arquitectura. A nível da produção do betão - os materiais constitutivos devem ser escolhidos e lavados, com especial incidência quanto à tonalidade e limpeza dos mais finos. A introdução de ‘fíler’ é sempre

16 Figura 22 - Metropolitano de Lisboa - Estação do Rato

A relação A/C não deve exceder os 0,42 e a dosagem de ligante não deve ser inferior a 380kg/m3. Todo o equipamento de fabrico deve estar afecto à produção de betão branco ou ser devidamente limpo antes do início da sua utilização para este fim. Os adjuvantes incolores.

devem

ser

preferencialmente

A nível da preparação, aplicação, cura e protecção do betão - Como nos demais betões, há que ter em conta um conjunto de procedimentos relativos a estas operações. A operação de limpeza das cofragens é fundamental e a utilização de desmoldantes parafínicos tem-se revelado adequada. O tratamento das armaduras ou a pintura de protecção das armaduras de espera justifica-se em elementos construtivos de elevado desenvolvimento.


5 Conclusões

O ritmo de colocação e vibração do betão tem de ser contínuo e por camadas não superiores a 0,50 m. A cura e protecção do betão, nas primeiras idades, são importantes face à durabilidade e aspecto final requerido para as superfícies expostas. Como último aspecto, é de referir que a adopção de betão branco traduz-se numa mais-valia que pode, com critério, ser utilizada com vantagens na construção. O betão branco aparente permite que se reduzam prazos e etapas de intervenção e, desde que haja "disponibilidade técnica", a eficácia da sua utilização é assegurada a custos aceitáveis.

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Figura 23 - Construção do ISCTE, Fase 2 - Lisboa

Figura 24 - Pavilhão do Futuro – Lisboa


5 Conclusões

Bibliografia [1] Izaguirre, J. R. "Cement portland artificial blanco y sus aplicaciones", Madrid 1975. [2] Adam M., "Aspectos dei hormigon", Ed. Téc. Assoe., Barcelona, 1995. [3] Autores Diversos, "Les bétons de ciment blanc" Ed. BETOCIB, Paris, 1994. [4] Autores Diversos, "Durability of appearance" Task Force 2.3 Cembureau, Bruxelas, 1993. [5] Autores Diversos, "Durability of appearance of concrete façades" Task Force 2.3 Cembureau, Bruxelas, 1993.

Créditos fotográficos: Crusader, Lda (Carlos Noronha) Metropolitano de Lisboa J.M. Gaspar Nero Ângela Nunes

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COMPANHIA GERAL DE CAL E CIMENTO, S.A.

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Fábrica Secil-Outão Tel. 212 198 100  Fax. 265 234 629

Comercial Sul Tel. 212 198 280  Fax. 212 198 229

Fábrica Maceira-Liz Tel. 244 779 900  Fax. 244 777 533

Comercial Centro Tel. 244 779 500  Fax. 244 777 455

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