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GLOB(A.L.) a m é r i c a

Editorial

l a t i n a

(02)

Democracia Global, América Latina

(04) Michael Hardt

Soberania Imperial e Guerra

(06) Antonio Negri

Saberes y democracia

número (0)

(08) Marco Bascetta

Crônicas Globais

Brasil

A Democracia é produtiva

(09) Giuseppe Cocco

O acontecimento Lula

(10) Suely Rolnik

A estética da fome, made in favelas

(12) Ivana Bentes

Partilhas e fomes brasileiras

(14) Denise de Sant'Anna

Argentina

Argentina, diciembre 2002

(16) Ruben Espinosa

Venezuela

A nossa luta é uma luta global

(17) Dario Azzellini entrevista Rodrigo Chavez

Lutas

Una lucha por la dignidad!

(18) John Holloway

La extensión europea y la restricción de los derechos

(22) Sapienza Pirata

O movimento e a produção criativa de realidades

(23) Leonardo Palma

Resistências

(24) Tatiana Roque

Risco de arte: resistências

(25) Ericson Pires

Minha História

(26) Anderson Sá

Ação afirmativa Um efeito sobre a vida Teatro e loucura Os “novos municípos”

(28) Alexandre do Nascimento (29) Luca Casarini entrevista Naomi Klein (30) Peter Pál Pelbart (32) Giuseppe Caccia /Gianfranco Bettin 01 GLOB(A.L.)


Jornalista Responsável Fábio Luiz Malini de Lima Diretor da Edição Brasileira Giuseppe Cocco Diretor da Edição Italiana Marco Bascetta Comitê Editorial Alberto De Nicola Alejandro Suero Anubi D’Avossa Lussurgiu Ericson Pires Fábio Malini Francesco Raparelli Gerardo Silva Giuseppe Cocco Ivana Bentes João Almeida Sobrinho Leonardo Palma Luca Casarini Peter Pál Pelbart Ricardo Sapia Rúben Espinosa Simona Bonsignori Suely Rolnik Tatiana Roque Participaram desse número Alexandre do Nascimento Alejandro Suero Anderson Sá Andrea Fumagalli Dario Azzellini Davide Sacco Denise Sant'Anna Ericson Pires Fábio Malini Francesco Raparelli Gerardo Silva Gianfranco Bettin Giuseppe Caccia Giuseppe Cocco Ivana Bentes John Holloway (Rebeldia) Leonardo Palma Luca Casarini Marco Bascetta Michael Hardt Naomi Klein Paolo Do Peter Pal Pelbart Rúben Espinosa Sapienza Pirata Suely Rolnik Tatiana Roque Toni Negri

Projeto gráfico/Diagramação da edição brasileira Do Lar Design Ltda Barbara Szaniecki / Isabela Lira dolar.rj@terra.com.br Pesquisa de Imagens Ronald Duarte Fotos Andres Otero Barbara Szaniecki João Caldas Luigi Narici Ronald Duarte Radio Sherwood Silvana Marques Ilustrações Arjan Claudio Cambra Global América Latina / Brasil Rede Universidade Nômade LABTeC/FCC/UFRJ Avenida Pasteur, 250 22290-240 Urca RJ Tel. 55 21 3873 5216/17/18/19 global.al@terra.com.br Global magazine / Italia Viale dei quattro Venti 47 00152 Roma Tel. 0039 6 588 1496 Fax 0039 6 588 2839 redazioneglobal@yahoo.it redazione@globalmagazine.org www.globalmagazine.org

Fogo Cruzado (da série Guerra é Guerra) de Ronald Duarte Interferência realizada no bairro de Santa Teresa, Rio de Janeiro às 3:00 horas da madrugada, em relação direta com a guerra entre os comandos do poder paralelo. Fotos Wilton Montenegro


Editorial Esse número "zero" de GLOBAL (AMÉRICA LATINA) lançado no Fórum Social Mundial de Porto Alegre de 2003 é, na realidade, o segundo número experimental de um projeto de Revista (Global Magazine) lançado pela primeira vez, em versão italiana, no Fórum Social Europeu de Florença, em novembro de 2002. Global pretende ser interlocutor do "movimento dos movimentos" que, de Seattle até Génova, de Porto Alegre até Florença, conseguiu abrir uma brecha na chapa opressiva do neo-liberalismo e de uma globalização profundamente marcada pela efetividade da lei da força: a lei dos mais ricos e, depois do onze de setembro de 2001, a lei dos mais fortes (a da guerra global permanente). Ao contrário dos rótulos "No Global" atribuídos ao movimento, Global pretende enxergar, dentro do processo de globalização, brechas de constituição democrática, para além a opressão estatal e nacionalista (mãe de todos os tipos de racismo e xenofobia), mas também contra uma soberania imperial esvaziada de todo conteúdo democrático (mãe de todas as guerras); contra o fundamentalismo do mercado e sua imagem espelhada, o fundamentalismo religioso e/ou nacionalista. As situações argentina e brasileira são emblemáticas. Nelas, o império se mostra como um quebracabeça sem desconexão possível. Elas desenham um desafio formidável: como estar no êxodo do horror neo-liberal para além do terror nacional-desenvolvimentista? Vistas com os olhos do passado, as grandes mobilizações populares que varreram toda forma de representação na Argentina ("que se vajan todos !") parecem não encontrar a forca de se tornar alternativa de governo, ao passo que o plebiscito para a mudança que colocou Lula no poder já parece estar paralisado pelos constrangimentos macro-econômicos. Entretanto, é esse quebra-cabeça que abre uma perspectiva completamente diferente e, a nosso ver, particularmente inovadora. A própria ausência de um "modelo pronto para o uso" constitui uma situação aberta a uma efetiva e inovadora construção democrática: entre o trabalho da multidão argentina e o "evento Lula" no Brasil não emerge nenhuma política que possa ser separada do processo de sua própria constituição. A falta (aparente) de alternativa é a (verdadeira) alternativa. O que é, pois, a política da resistência, o direito de desobediência, se não apreender a resistência como principal motor inovador e produtivo ? Driblando os modelos instituídos, a única política (da multidão) possível é a que consegue (sem atalhos subjetivistas, nem concessões pragmáticas) juntar resistência e produção, ou seja constituir a não limitação da democracia como princípio de uma ilimitada inovação. Organizar a luta é hoje em dia organizar a produção. Trata-se de uma proposta de revista de movimento para o movimento, articulada nas dinâmicas de resistência em rede e produção de redes. GLOBAL (AMÉRICA LATINA) constitui-se numa articulação entre as redes constituintes das grandes mobilizações de Gênova (2001) e de Florença (2002) e a Rede Universidade Nômade1 (no Brasil) e o Laboratório Argentina2 . O objetivo é que GLOBAL (AMÉRICA LATINA) se torne mensal, abranja o Atlântico do Sul (com a integração de editores da África) e se torne assim o espaço de articulação de redes que configuram possíveis processos constituintes e democráticos dentro do Império: o de uma Europa dos direitos dos migrantes e do salário universal; o de uma América Latina democrática mobilizada no combate ao racismo e à desigualdade; o de uma zona de integração social, cultural, política e econômica do Atlântico do Sul que afirme alternativas materiais aos curto - circuitos das zonas de livre comércio. A Universidade Nômade é uma rede de iniciativas políticas e acadêmicas que se desenvolvem em planos diferentes e várias cidades do Brasil. Ela articula seminários e colóquios bem como a Revista Lugar Comum principalmente no Rio de Janeiro e São Paulo, mas também em Porto Alegre e Vitória. Trata-se de um movimento que atua dentro e for a da universidade, entre teoria e política. Os editores brasileiros desse numero da Global magazine/AL pertencem à Universidade Nômade. 2 O Laboratório Argentina foi constituído por militantes egressos de várias trajetórias políticas e militantes argentinas e claramente inspirados na experiência teórica e militante do "laboratório Itália" dos anos 1970. A dinâmica argentina constituiu-se, desde dezembro de 2001, em um dos laboratórios mais dramáticos mas também mais ricos da crise do neo-liberalismo e de toda forma de representação política. 1

03 GLOB(A.L.)


Democracia Global

A

O que rola vc. v. da série Guerra é Guerra de Ronald Duarte.

Fotos Andres Otero

Metáfora de sangue e violência, onde três caminhões carro-pipa despejam água com corante vermelho tingindo as ruas do bairro de Santa Teresa, ligando Zona Norte, Zona Sul e Centro da cidade do Rio de Janeiro.

GLOB(A.L.) 04

mérica A democracia na América Latina está se transformando numa, aparentemente infinita, série de crises, como círculos concêntricos e descendentes do inferno. Uma vez que conseguimos transpor uma série de obstáculos, nos econtramos vencidos por um outro, ainda mais poderoso. Da Venezuela à Argentina, a democracia no continente está em crise em todo lugar. A série de obstáculos mais imediatos para a democracia na América Latina reside no nível nacional. Enormes desníveis de riquezas com hierarquias raciais duradouras e exclusão, em muitos casos, em imensos territórios, contribuiram com obstáculos especiais para a representação nas instituições democráticas nacionais tradicionais, como os sistemas eleitorais, os sindicatos de trabalhadores e as associações civis. Mas a crise das instituições de representação nacional não é, de modo algum, exclusiva da América Latina. Até as mais representativas instituições nacionais, como os sistemas eleitorais, foram longamente, e com razão, criticados em cada nação, por falhar na representação adequada da população. O fiasco da Flórida na última eleição presidencial nos EUA é apenas um pequeno sintoma do descrédito das instituições democráticas nacionais. Deve-se, claro, continuar o esforço para fazer os Estados-Nação mais democráticos a despeito dos enormes obstáculos colocados à democracia em cada estado. Temos que ter em mente, no entanto, que cada tentativa substancial de democracia em escala nacional na América Latina é imediatamente confrontada a uma nova, mas poderosa, série de obstáculos postos pela hegemonia dos EUA no hemisfério. Há mais de 100 anos atrás, os EUA proclamaram, com a Doutrina Monroe, que iriam proteger todas as nações nas Américas da influência externa (ou seja, européia). Esta é, paradoxalmente, uma política de intervenção antiintervencionista. De qualquer modo,

apesar de não haver reclames da influência estrangeira, os EUA intervieram para destruir os mais substanciais experimentos da democracia nacional na América Latina, desde o maquinado golpe de Estado no governo Arbenz na Guatemala, em 1954, e no governo de Allende, no Chile, em 1973, até a instigação dos contrarevolucionários em Cuba e na Nicarágua. Parte do brilho do EZLN, de fato, é que ele consegue, como um talentoso toureador, se esquivar das investidas da contrarevolução dos EUA que frustrou outros experimentos democráticos no continente. Talvez tenha sido possível fazer isso precisamente porque ele não almeja chegar ao poder em nível nacional. Esforços pela democracia nas Américas, em nível hemisférico, são certamente uma tarefa importante. Não é incomum ouvir propostas, por exemplo, de representação em nível regional. Cada nova proposta de um mercado livre supranacional, desde a NAFTA e o Mercosul, até uma zona hemisférica total poderia ser complementada pela construção de instituições representativas. Isso poderia ressuscitar o velho slogan revolucionário dos EUA: “não à taxação sem representação” e transformar isso em algo como: não ao mercado econômico sem representação política. Além desses primeiros dois níveis de obstáculos, entretanto, há um terceiro nível com o qual se confronta, tanto a América Latina, quanto o resto do mundo. A crise mais dramática de democracia hoje reside, não no nível nacional ou hemisférico, mas no nível global. Podemos dizer que somos representados no sistema global de hoje, mas é a mais tênue e insultante forma de representação. Poderíamos dizer que o presidente dos EUA e as forças armadas norte-americanas representam os interesses do mundo todo, embora uma pequena parte da população global tenha votado neles. Poderíamos dizer também que os líderes das maiores instituições econômicas


Latina supranacionais, como o Banco Mundial, o FMI, a OMC (Organização Mundial do Comércio) representam todos nós, embora somente alguns de nós tenham elegido os políticos que os indicaram. E, finalmente, as mais poderosas corporações multinacionais também nos representam, embora, claro, ninguém as tenha elegido. Estas são como as velhas formas da representação patriarcal, na qual senhores feudais representavam seus camponeses ou, sem dúvida, no contexto americano, na forma pela qual senhores representavam seus escravos. Hoje, a crise global da democracia nos lança de volta no século XVIII. Revolucionários que defendiam a democracia nos primórdios da moderna Europa e da América do Norte, eram confrontados pelos céticos que bradavam que a democracia tinha sido possível nos confins da antiga Cidade-Estado ateniense, mas era completamente impossível nos territórios expan-didos do moderno Estado-Nação. Todos os que defendem a democracia hoje se defrontam com o mesmo argumento de escala: a democracia poderia ter sido possível no espaço limitado do Estado-Nação, mas é inimaginável no terreno global. Talvez possamos aprender como os revolucionários do século XVIII encararam o problema de escala. Eles não simplesmente adotaram o antigo modelo de democracia e o repetiram de forma ampliada, mas, ao invés disso, transformaram o conceito e inventaram novas práticas de democracia no mundo moderno. A primeira alteração conceitual moderna tornou a democracia universal. Os antigos concebiam a democracia como governo de alguns, em contraste com o governo de poucos (aristocracia) e o governo de um (monarquia). Os modernos redefiniram a democracia como o governo de todos - de "alguns" para "todos", uma alteração tão pequena com consequências tão enormes! Esta democracia universal jamais foi rea-

lizada no mundo moderno - mulheres, escravos, não-brancos, os sem-propriedades e outros - sempre foram excluídos, mas a idéia não obstante teve efeitos poderosos. Ela tem sido a estrela-guia a orientar gerações de lutas políticas. A segunda alteração conceitual moderna introduziu a representação, que tinha sido excluída da antiga noção de democracia. Representação foi a solução deles para os modernos problemas de escala. Gradualmente, todas as instituições nacionais da moderna democracia - do sistema eleitoral até as organizações comerciais e grupos civis - foram concebidas em termos de representação. As mais importantes propostas contemporâneas para democratizar o sistema global se baseiam nessa moderna noção de representação e simplesmente expandem a forma das instituições nacionais para um nível global. Considere, por exemplo, a proposta de um parlamento global que tenha poderes reguladores e represente a população global no esquema de uma pessoa, um voto. Não seria uma mera confederação de estados, como as Nações Unidas são, e poderia restaurar a noção de representação global igualitária, já que, tendo como base os seus números, chineses e indianos iriam eleger muito mais representantes do que europeus e norte-americanos. Até a assembléia das Nações Unidas, talvez a mais democrática das instituições globais existentes, é fortemente distorcida em termos de representação equânime. Considerar tal proposta é útil como um experimento do pensamento porque ilumina as falhas da democracia no nosso mundo globalizado, mas claramente ignora as diferenças de escala de hoje. Formas representacionais desenvolvidas pelo EstadoNação não podem simplesmente ser projetadas num nível global. Isso seria como propor de novo as práticas democráticas

Michael Hardt Tradução Ivana Bentes e Vladimir Freire

da antiga polis ateniense na França do século XVIII ou nos Estados Unidos. O fato de que nos deparamos com um problema similar àquele encarado pelos revolucionários no início da modernidade, não significa que podemos simplesmente repetir sua solução. Ao contrário, como eles, precisamos reinventar o conceito de democracia e criar novas práticas para nosso mundo globalizado. Talvez precisemos inventar instituições democráticas que sejam não-representativas ou diferentemente representativas. Podemos reconhecer numerosos experimentos de democracia através da América Latina que apontam nessa nova direção. Os zapatistas, por exemplo, desenvolveram uma forma de organização em rede que continuamente mina instâncias de autoridade numa espécie de permanente e sistemática insubordinação, obedecendo a comandos. No Brasil, os governos das cidades de Belém e Porto Alegre criaram o orçamento participativo, estruturas que começam a democratizar o funcionamento da administração metropolitana. Na Argentina, no meio da crise econômica, floresceram novas formas de organização de assembléias em bairros, cidades e arredores. Não podemos ainda vislumbrar que instituições poderão ser adequadas para a democracia global, mas experimentos como esses começam a iluminar o caminho que deve ser trilhado à frente. A analogia com o século XVIII enfatiza que um enorme esforço de reinvenção é necessário para a democracia hoje, mas também indica que tal feito pode ser conseguido. Se eles fizeram isso, também podemos fazer. Democracia Global não é apenas um problema, mas também um projeto. E talvez hoje, numa escala global, teremos finalmente a oportunidade de fazer jus àquela promessa não realizada da moderna democracia, o governo de todos.

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Soberania imperial e

Tradução Tatiana Roque

GUERRA

Antonio Negri

A mais importante conseqüência do 11 de setembro foi, sem dúvida, a modificação da natureza e do papel da guerra em nossa sociedade. Sob o impulso dos ataques às Twin Towers, a guerra parece ter-se transformado, de um instrumento singular e limitado de exercício de poder (regulado pelo direito internacional), a uma matriz geral de regras jurídicas, dentro do próprio mecanismo de governo do Império. GLOB(A.L.) 06


Foto Ronald Duarte

Nos tempos passados, o Estado-nação concretizava sua autonomia através do disciplinamento dos sujeitos; em uma fase mais próxima de nós, a soberania começou a investir na vida e a ser exercitada como controle das populações: hoje a função disciplinar e a do controle estão incluídas na guerra. A soberania imperial é como um boneca russa, uma matrioska, que inclui, uma dentro da outra, disciplina, controle e guerra. A teoria da "guerra preventiva", formalizada pela administração americana no dia 20 de setembro de 2001, e as sucessivas confirmações e extensões (até a recente validação do uso das armas nucleares), tornou-se paulatinamente o modelo de um poder adequado à regulação global do mundo contemporâneo. Com estes desenvolvimentos, a própria imagem do Império, assim como vinha se configurando desde a queda do Muro de Berlim e do sistema soviético, vem se modificando. O equilíbrio relativo entre o elemento militar monárquico (representado essencialmente pelo governo de Washington) e o elemento aristocrático (representado essencialmente pelas multinacionais e pelas organizações internacionais de regulação e de controle financeiro), mesmo deixando de fora as instancias democráticas de expressão da multidão - este equilíbrio relativo está sendo rompido. A estrutura imperial, e em particular o poder militar de Washington, se afirma como um exercício unilateral de vontade política. O modelo imperial é então exaltado em uma figura sacralizada: Bush é o imperador, a guerra sai de suas mãos como o relâmpago das mãos de Zeus. Depois do 11 de setembro, o desenvolvimento da soberania imperial teve uma aceleração fortíssima. Nesta nova situação, a guerra tornou-se, portanto, o fundamento da soberania imperial. Esta é a "guerra justa" porque é decidida pelo imperador, que conhece os perigos aos quais a civilização ocidental está exposta. Assim, os teóricos da "guerra justa" fazem deslizar, progressivamente, suas argumentações em direção à hipótese de um "choque de civilizações" (assim foi teorizado por Samuel Huntington). A noção de conflito cultural, desenvolvida depois do 11 de setembro na tese da superioridade do Ocidente em relação ao Islã, coloca alguns problemas corretos, mas responde a eles de maneira completamente inadequada. O problema correto consiste em reconhecer que a guerra não se desenvolve mais, de agora em diante, entre Estados-nação. Na realidade, no Império não podem haver guerras entre Estados-nação: não há, de fato, poder soberano fora do próprio Império. Os conflitos armados não serão, portanto, concebíveis, da maneira tradicional, como choques entre entidades soberanas: estes devem ser considerados, mais propriamente, como guerras civis no interior do Império. A soberania imperial,

na medida em que assume a guerra como fundamento, desenvolve sua atividade militar e bélica (a partir de uma relação assimétrica com cada outro sujeito) como força ordenadora da cena global. A guerra civil torna-se condição normal dentro do Império, e serve como dispositivo para a definição e a posição hierárquica dos sujeitos. No Império, nos encontramos, portanto, em um estado interminável de guerra. O Estado moderno e o constitucionalismo haviam, com efeito, concebido a guerra como elemento constituinte, mas apenas na fase genética da constituição estatal (como em Hobbes quando o Estado nasce da superação da guerra de todos contra todos), ou ainda nos limites de existência do Estado-nação, lá onde este se chocava com um outro Estado soberano. Ao contrário, hoje, a guerra constituinte é concomitante com todos os movimentos que têm lugar dentro do Império. Deste ponto de vista, isto é, do ponto de vista da impossibilidade ainda maior de distinguir soberania e guerra, poderemos dizer, ainda, que a guerra no Império, apresentando-se como guerra civil, define o adversário simplesmente como um criminoso e, logo, desafia-o para uma atividade de policia. O Império é guerra, a guerra é guerra civil, a guerra civil é caracterizada pelo choque entre a soberania imperial e aqueles que a refutam, esta refutação é criminosa, a ação de guerra é ação de polícia. Toda violência que não seja exercitada pelas forças imperiais é necessariamente ilegítima e criminosa, ou seja, terrorista. E a resposta do Império a esta violência é pura e simplesmente uma espécie de atividade de polícia tendo em vista a restauração da ordem ou a construção de uma nova ordem. Por outro lado, a guerra entre criminosos e polícia, a guerra para restaurar a ordem, não poderá jamais ser vencida, ou, melhor dizendo, deverá ser vencida novamente a cada dia. Eis a origem da retórica imperial sobre a guerra interminável e sobre a ordem duradoura. Neste quadro, a nova teoria estratégica americana prevê a definição de uma nova arte da guerra, ou seja da polícia. O exército será organizado em pequenas entidades capazes de um máximo de mobilidade espacial e de flexibilidade às condições específicas da intervenção. Os meios maritmos e aéreos tornar-se-ão instrumentos adequados à velocidade e à ubiqüidade da intervenção. A atividade da inteligência, e eventualmente a ajuda às populações (ajuda que deve ser sempre funcional em relação à propaganda, ao ataque e ao controle), deverá ser integrada à ação bélica: a guerra constrói ordem, logo, forma de governo que executa as diretivas imperiais. Não se trata mais de imperialismo, mas de uma contínua e permanente construção do espaço de comando imperial. As articulações da intervenção podem ter alta ou baixa intensidade: podem ser ações de polícia em sentido clássico, ou

ainda ações de guerra em sentido específico. O conflito entre israelenses e palestinos é, talvez, deste ponto de vista, um dos exemplos mais clássicos da íntima relação que se dá, hoje em dia, entre ação militar e ação de polícia. A guerra sempre esteve endereçada à morte, à destruição dos corpos. Não por acaso, cada modificação da tecnologia militar comportou novas formas de morte: a nova morte é nuclear, biológica e química. Todavia, se a guerra tornou-se, hoje, parte integrante das regras imperiais, ou melhor, o elemento fundador da soberania, então a guerra não criará somente novas formas de morte, mas também novas formas de vida social, novos corpos sociais. A guerra será uma forma de biopoder. Depois do 11 de setembro, vimos a guerra funcionar em termos de biopoder: a multidão norte-americana e européia se viram na impossibilidade de resistir à imposição de uma fusão extrema, estendida e compacta, do corpo social do Ocidente. A piedade pelas vítimas das Twin Towers e o medo de novos perigos fecharam todas as vias de fuga diante da criação imperial de uma identidade de massa pela guerra. Neste contexto, compreendemos plenamente o significado das hipóteses do "choque de civilizações". Esta não é uma descrição do mundo presente, mas uma prescrição, uma tarefa que o Império deve aceitar. No estado permanente de guerra, o Império impõe, paradoxalmente, fusões maciças da multidão. Contra esta construção do biopoder, deve haver resistência: resistência biopolítica, ou seja, resistência às figuras fusionais de vida e de morte que são impostas pelo estado de guerra permanente. A democracia só poderá basear-se na expressão de singularidade e na afirmação das diferenças da multidão. Se a guerra tornou-se o fundamento legitimador do Império, a democracia encontrará sua legitimação na resistência, na afirmação do poder constituinte da multidão. Formas alternativas de vida social tornam-se, assim, a estratégia da multidão na democracia: tomam para si o problema de destruir o estado de guerra permanente, todas as suas condições e todas as suas conseqüências. As formas alternativas de vida social se fundam sobre a produção e sobre a redistribuição cooperativa e igualitária das condições biopolíticas de existência. A guerra será, assim, definitivamente desmistificada e derrotada, quando a ação dos cidadãos e da multidão dirigir-se diretamente à construção de felicidade e ao prolongamento da vida. Até agora, todavia, impõe-se a regra da desobediência. Esta não opõe, simplesmente, a democracia à guerra, mas opõe-se ao estado de exceção que a guerra, como fundamento da soberania, oferece ao exercício do biopoder imperial. A desobediência, nesta condição, não é, portanto, simplesmente uma arma contra a guerra, mas se apresenta, de imediato, como um dispositivo de liberdade.

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Saberes

y Democracia

Marco Bascetta Desde hace más de dos siglos es opinión compartida, casi un lugar común, que entre la democracia y la educación existe una relación de necesidad recíproca. Los confines de una coincidirian con los de la otra. Solamente la educación podria de hecho mitigar la desigualdad historicamente adquirida y ofrecer a cualquier uno los instrumentos para pensar el “bien común”, requisito considerado indispensable para acceder a la comunidad política. Este princípio, sin embargo, si por un lado ha inspirado políticas democráticas de expansión de la instrucción pública (al menos, teoricamente, universal y gratuita), por el otro fue también utilizado en diversas realidades sociales como mecanismo de discriminación y de exclusión de los sectores más pobres y menos familiarizados con los derechos políticos. En todo el mundo millones de personas son actualmente excluidas de cualquier forma de educación básica, o bien participan de la misma a un nível ínfimo, y la educación superior queda en larga medida, inclusive (en medida creciente) en los países desarrollados, reservada a una elite. Para el mantenimiento (y aún acentuación) de este estado de exclusión y de indigencia cultural concurren tanto los “imperativos” del mercado, cuanto las impostura estatalista, con su pretensión de monopolio y control através de una educación que se vuelve cada vez más “nacional” que pública. De un lado, la política neoliberal golpea duramente el conjunto del gasto social, inclusive el sector de la educación pública, substrayendo recursos y reduciendo su extensión y cualidad. Los maestros y profesores constituyen, de hecho, una parte relevante del odiado empleo público, que es considerado el símbolo viviente del desperdicio, de la ineficiencia y de la

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Tradução Gerardo Silva resistencia corporativa. Según los criterios del mercado, contra cualquier evidencia y razonamiento, la educación pública universal y gratuita no figurará más entre las inversiones prioritarias. Si bien constituye, prospectivamente y en virtud de su naturaleza extraeconómica, un factor decisivo para la producción de riqueza, la urgencia miope de la acumulación del capital la sitúa inevitablemente entre los gastos improductivos. La atención del capital privado se orientará, cada vez más, hacia sectores específicos y redituables de la educación superior (donde esta última puede ser vendida como mercancia), o hacia procesos específicos y acotados de formación de base, estrictamente funcional a las exigencias contingentes de las empresas, a la venta de conocimiento valorizada por el mercado o a la pura y simple formación de fuerza de trabajo. Inclusive la idea de formación que inspira la acción de las ONGs y de la cooperación internacional se adecúa, en la mayoria de los casos, en nombre de una utilidad práctica y/o de una relación optimal entre costo y beneficio, a esta impostura funcional, subalterna y limitada de la transmisión de conocimiento. La educación, como prospectiva que se proyecta más alla del tiempo presente y como trayectoria de libertad que excede las exigencias y los dictámenes del trabajo inmediatamente productivo y/o la pura y simple reproducción de las relaciones existentes, se sitúa decididamente fuera del horizonte del mercado. Es justamente esta capacidade excedentaria y la facultad crítica lo que se consigue al hacer del saber difuso el fundamento de la democracia y su desarrollo. ¿Deveremos atribuir al Estado una visión de largo plazo y de aquello que el mercado no está dispuesto a asumir? ¿A un control centralizado? ¿A un monopolio fuente de todo tipo de arbitrariedades sobre la transmisión del saber, sobre su proporción y sobre su contenido? ¿A una programación desde arriba, ineficiente cuando no colonizada por intereses corporativos, mediatizada por una burocracia interesada sobre todo en su propia reproducción? No menos que el mercado, y negociando con este último un equilíbrio recíproco de favores, el poder político cultiva una idea de educación funcional a su autoreproducción, a su rol, a su jerarquia y a su prioridad de gastos institucionales. Si inclusive la máquina estatal dependiese de un mecanismo efectivo y

transparente de representación (circunstancia desmentida por innúmeras evidencias, hoy más que nunca), la transmisión del saber, como proceso inmanente de interacción social, como práctica creativa de una colectividad, como trayectoria de libertad de los ciudadanos y mecanismo de transformación, no podrá ser, evidentemente, objeto de delegación a un poder central y jerarquizado que sólo puede degradar tal proceso. Por esta razón, la idea de una educación pública se contrapone, en sus fundamentos, a la educación estatal o bien, en su versión más autoritaria, a una “educación nacional”. Aquella se refiere principalmente a una esfera pública no estatal, a una configuración no delegada del “bien común”, de autonomia y participación que sostienen las hipótesis más avanzadas de la democracia. Es sobre este plano de convergencia, extraño a la fe igualitarista que emana de la autoridad del Estado, que democracia y educación deben ser reconducidas. Para la educación estatal, o nacional si se quiere, el rol político decisivo de la educación pública, más alla del saber práctico orientado hacia el trabajo, consistia esencialmente en la difusión del conocimiento de los derechos y deberes de los ciudadanos, de las leyes y de las obligaciones, pero no de los principios ideológicos que las inspiraban. Como en las comunidades religiosas, era necesaria la comprehensión de los textos sagrados, mas no su interpretación (para eso existen los padres!), y mucho menos podria pensarse en ponerlos en cuestión. El diseño de la democracia representativa agregaba a todo esto la facultad de discernimiento sobre leyes y programas, es decir los instrumentos cognoscitivos que permitirian a las personas elegir de manera consciente los propios representantes y de entender el sentido de sus propuestas. En una democracia participativa, sin embargo, el rol del saber difuso se extiende mucho más alla de la simple capacidad de discernimiento sobre los representantes y sus propuestas. Se extiende sobre la producción misma de una nueva socialidad y de un nuevo orden. No se trata de elegir el maniobrista, mas de participar de la maniobra, no se trata de aprobar o rechazar soluciones, mas de elaborarlas. De pasar a la evaluación, de transformar y reformular orientaciones y medidas administrativas. La difusión del conocimiento, su cualidad y socialización representa, al final de cuentas, la substancia misma de una posible “democracia no representativa”. Aquella democracia “competente”, que se confronta y se define “en el mérito de la cosa” y en el contenido de la propuesta y que, en el bien y en el mal, con sus vicios y sus virtudes, busca hacerce camino en el movimiento de los movimientos.


Brasil

é produtiva

A democracia

Giuseppe Cocco Desde a virada da década, os impasses sociais dos planos de estabilização econômica se traduziram na volta poderosa das preocupações com as política públicas ativas de desenvolvimento. As eleições políticas e para a Presidência da República representaram a confirmação plebiscitaria dessa vontade geral de "mudança". Mas, por trás dos horizontes novos que se abrem, os desafios que esta "inflexão social" enfrenta para se tornar espaço concreto de políticas públicas de desenvolvimento constituem-se em enormes quebra cabeça. A dimensão destes impasses se encontra, paradoxalmente, no lema que todos os candidatos adoptaram: a volta do crescimento como condição necessária de uma nova geração de políticas sociais que teriam como marco fundamental a geração de "empregos". As questões que essa perspectiva deixa sem resposta são proporcionais ao fato que mais do que uma "solução" ela parece indicar um diagnóstico. A falta do crescimento do "Brasil" é, com efeito, uma dramática consequência da desigualdade que divide os brasileiros entre uma pequena elite, uma grande massa de pobres e um numero insuportável de indigentes. Mas, se lembramos que a desigualdade atravessou também os "faustos" períodos de crescimento do PIB, podemos logo apontar para o fato que a mudança deveria ter como seu cerne a questão do combate à desigualdade como condição da retomada de um caminho sustentável de crescimento das condições de vida dos brasileiros e, pois, do Brasil (e não vice versa, como sempre foi prometido). Mais ainda, ao menos que alguém não comece a acreditar às suas próprias mentiras (o que é sempre possível) e ao excedente do balanço comercial gerado pela disparada especulativa do dólar, a questão das exportações, do crescimento industrial não deixa de ter relações mais complexas com a dinâmica do emprego: a complexidade dessa relação passa pelo fato inevitável que uma inserção duradoura nos mercados globais (para poder exportar sem estourar o equilíbrio interno) passa necessariamente por uma integração do parque industrial brasileiro dentro do novo regime de acumulação. Com certeza, isso pode (e deva) ser feito de maneira menos abrupta e mais razoável do que foi feito no início dos anos 90 (abertura somada a extrema sobrevalorização cambial). Mas temos que ter a mesma certeza que isso implica em mudanças inevitáveis da estrutura do emprego ao passo que o combate à desigualdade impõe uma profunda revisão da própria composição do parque industrial. O que isso significa? A grande industria pode crescer e exportar sem gerar emprego em massa (segundo os coeficientes multiplicadores que parecem ser invocados) e gerando uma demanda de qualificação das forças de trabalho que está

longe de ser automática. Por consequência, o verdadeiro celeiro de uma maior e mais sustentável inserção nos mercados externos (as famosas exportações geradoras dos dólares necessários a emancipar o país da exagerada dependência dos capitais especulativos e, pois, das altíssimas taxas de juros) está no crescimento das pequenas e médias empresas e, pois, numa proliferação reciprocamente atrelada de empregos e empresários no setor de transformação industrial bem com no de serviços. Agora, essa inflexão está longe de se reduzir a uma política de incentivo às exportações ou de poder ser alcançada simplesmente por meio de um abrandamento dos políticas monetárias (que ainda não sabemos em que bases poderá se sustentar). Com efeito, a inflexão eleitoral precisa encontrar seu marco estrutural, suas forças vivas e, pois, a verdadeira mudança: o pacto social que o sustentará será justamente aquele capaz de resolver ou transpor esses quebra-cabeças. Décadas de finalização autoritária e tecnocrática da economia aos interesses do Estado deixaram em herança um país recordista mundial pela desigualdade social e a inflação. Uma década de finalização da sociedade aos imperativos econômicos juntou às gritantes desigualdades geradas pela gestão estatal dos interesses particulares as geradas pela gestão privada dos interesses públicos. A truculência do interesse nacional justificou qualquer meio para alcançar um fim (que na realidade coincidia com os interesses dos corpos sociais que ocupavam e controlavam o Estado). O formalismo acético do mercado, de suas técnicas e de sua volatilidade submete e substitui os meios (de gestão dos grande agregados macroeconômicos e financeiros bem como de gerenciamento das grandes firmas) aos fins. O esgotamento das políticas neo-liberais não constitui nenhuma vitória de uma outra teoria econômica e, por isso, não pode anunciar nenhum passo atrás com relação à abertura do país aos fluxos multiplos da globalização. O ciclo político que está por vir não pode implicar na volta das mesmas elites tecnocráticas e estatalistas. O que é preciso alcançar é a abertura de uma janela de possibilidades para a recomposição dos meios e dos fins, do econômico e do social (nem Davos, nem Porto Alegre). Esta janela de oportunidades é tanto mais grande que ela não é a imagem reflexa de nenhum tipo de projeto. Ao contrário, ela se abre no vazio pleno da falta de uma visão ideológica ou de uma proposta técnica prontas para o uso. Este vazio pleno de possibilidades define uma fase constituinte que tem como horizonte a construção de políticas de mobilização dos territórios produtivos. Tornar constituintes as convergências para o desenvolvimento local significa apostar seriamente na recomposição do econômico e do social e, pois, na construção material de uma sociedade civil que seja o fruto de um espaço público e comum.

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Foto Ariovaldo Santos - 22.03.79 - Agência JB

O acontecimento Um verdadeiro acontecimento parece ter se produzido ao longo da campanha eleitoral de Lula para a presidência do Brasil, para além do fato concreto de sua vitória: o esvaziamento da crença na perversa hierarquia de poder que distribui lugares sociais e os fixa seja no seleto território-glamour das subjetividades-luxo, seja no vasto território-esgoto das subjetividades-lixo, feito de guerra, favela, tráfico, seqüestros, fila de hospital, criança desnutrida, gente sem teto, sem terra, sem camisa, sem documento, gente “sem”. Mais precisamente, Lula encarna a dissolução da subjetividade-lixo e sua posição de vítima, que na versão brasileira é resultante de 500 anos de uma política de subjetivação colonial, escravocrata, ditatorial e capitalista. A figura da vítima pertence a uma política de relação com a crueldade própria da vida, que consiste em denegá-la. A crueldade, condição trágica da vida, se impõe como uma necessidade vital em função do paradoxo irresolúvel entre dois modos de relação que a subjetividade esta-belece com o mundo em sua materialidade: como desenho de uma forma, apreendido pela percepção que traz à subjetividade a existência formal do outro, sua representação; ou como campo de forças apreendido pela sensação, que lhe traz sua presença viva. Novas experiências produzem sensações dissonantes relativamente às formas através das quais a subjetividade está habituada a situar-se. Tais formas tornam-se um obstáculo para integrar as experiências que provocaram a emergência de um novo estado sensível e, com isso, deixam de ser condutoras de processo e esvaziam-se de vitalidade. Quando este paradoxo atinge um limiar, a crueldade tem que se exercer para que se desfaça um mundo que já não tem sentido; ela se exerce através da potência de resistência, de luta pela expansão da vida, e coextensivamente, da potência de criação que constrói outros mundos, sem o que a resistência não vinga. No capitalismo contemporâneo, a subjetividade tende a estar clivada da realidade viva do mundo enquanto campo de forças. A potência de criação, dissociada da realidade sensível que a mobiliza, é capturada pelo capital e posta a serviço do mercado, separando-se da potência de resistência. Restrita ao conhecimento do mundo como forma e, portanto, ao mapa das representações da forma vigente com seus personagens e seus conflitos de interesse, a subjetividade projeta no outro sua experiência da crueldade da vida. O afeto de resistência é interpretado pela matriz dialética, como luta entre opostos, subjetividades reificadas em identidades, cuja luta gira exclusivamente em torno do poder. No entanto, seja qual for o vencedor, em termos de política de desejo, o que vence neste caso é a força do conservadorismo que defende a forma vigente e que, portanto, resiste no sentido negativo, ignorando a diferença da cartografia sensível emergente e brecando a criação de uma forma de vida que lhe dê passagem. Nesta política de resistência reativa, a multiplicidade de forças em jogo é silenciada e subordinada a seu enquadramento em apenas duas figuras subjetivas: a vítima e/ou o algoz, avessos de uma mesma lógica. No algoz a luta visa submeter o outro para que, tomado como objeto, possa ser instrumentalizado a serviço da conservação de si mesmo e de sua expansão enquanto tal. Política perversa do exercício da resistência em sua versão negativa, capturada pela forma da violência e que com ela se confunde: desde a violência explícita, física ou moral, até a violência implícita de uma forma “pacífica” que consiste num respeito politicamente correto pelo outro, regado à piedade, que o fixa num lugar identitário. Se no algoz a violência é ativamente assumida, já na vítima ela se justifica como reação à violência do outro, confinado no personagem do “inimigo”. Ela se exerce seja implicitamente no estilo queixoso, sob a forma ressentida e/ou de auto-comiseração melancólica, que detona o outro através da culpa; seja explicitamente no estilo raivoso, sob a forma vingativa e/ou paranóica. Políticas de resistência da vítima que respondem em espelho àquilo mesmo que

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Lula

pretendem combater – a lógica da violência e seus principais protagonistas, o par vítima/algoz que elas alimentam voluptuosamente. A vítima acredita nas figuras da subjetividade-luxo e lixo e no valor superior da primeira, ideal de ego que mobiliza admiração, identificação e inveja, aquilo que a psicanálise chama de “identificação com o agressor”. Por baixo tanto de sua reivindicação ressentida quanto do ataque vingativo há na verdade uma demanda dirigida à subjetividade-luxo, demanda de valorização social, de reconhecimento, de pertencimento – ou seja, uma demanda de amor endereçada ao algoz. O “acontecimento Lula” é a deserção da figura da vítima. Um corpo que fala desde o lugar da apreensão da realidade viva do mundo como campo de forças. Produzida neste outro lugar, a fala de Lula é portadora da exigência e da liberdade de problematizar a realidade em sua forma atual, em função dos efeitos do encontro com a alteridade variável do mundo. Um tipo de conhecimento que não se aprende na escola, nem mesmo na melhor das universidades, mas a partir de um desejo de correr o risco de expor-se ao outro como feixe de forças que afetam o corpo, agitam e convulsionam a subjetividade, obrigando-a a criar novas cartografias de existência, por exemplo um projeto político para um país. Lula desloca-se da redução do conhecimento do mundo às suas formas e, junto com isso, deixa de naturalizar a forma vigente e a hierarquia de valor social e de saberes que ela implica. Em sua fala não há mais nem lamento ressentido, nem ataque vingativo: a subjetividade-luxo perde integralmente seu poder como referência. Daí a serenidade da presença de Lula: nada a ver com marketing para forjar uma figura light de “paz e amor” que tranqüilizasse a elite, como quiseram seus opositores. É esta qualidade de presença que mobilizou pouco a pouco uma ampla adesão, pois ela é portadora de uma potência de contaminação deste desvio na política do desejo de uma parte significativa da sociedade brasileira, desvio que se autoriza, se propaga e leva à vitória. Evidentemente, este não é um processo que começa com


Suely Rolnik é de que “ele é como nós” e, apesar disso, conseguiu perder o medo de ser humilhado como subjetividade-lixo; ele se autoriza uma fala imanente às sensações que se produzem no encontro vivo com a alteridade do mundo e sabe de seu valor. Esta política de subjetivação propaga-se por todo o campo social: dissolve-se o medo, uma fala viva começa a circular e uma inteligência coletiva se põe em movimento. Embora o candidato adversário, em seu desespero pela ameaça de fracasso, tenha agressivamente insistido no valor da formação universitária e na mobilização do medo de ser comandado por quem não detém este conhecimento, estes argumentos perderam o poder de sedução. Se consideramos que toda sociedade envolve políticas do desejo e da subjetividade, podemos vislumbrar que estamos diante de uma passagem irreversível de um mundo a outro, mesmo que haja, e com certeza haverá, muitas idas e voltas. Um momento histórico significativo não só pela alegria de uma vitória da esquerda e especialmente de um candidato que reúne em si várias categorias de subjetividade-lixo: de operário metalúrgico a retirante nordestino, imigrante morador da periferia de São Paulo, passando por aleijado de um dedo que alguma máquina engoliu em seus tempos de torneiro mecânico, e que, para completar, fala português “errado”. Este é apenas o aspecto mais visível e óbvio desta alegria, para não dizer ingênuo e, pior do que isso, perigoso, pois pode confundir-se com esperança, afeto triste que alimenta messianismos, populismos e toda espécie de ideal de um mundo fusional sem crueldade, sem resistência e sem criação – ou seja, um mundo sem vida. Vital mesmo é a alegria pela possibilidade de esvaziamento do inconsciente colonial-escravocrata-ditatorialcapitalista que mantém a grande maioria dos brasileiros reféns de uma hierarquia que os fixa na posição de subjetividade-lixo, vítimas de um suposto destino transcendental. Se o mundo volta os olhos para o Brasil neste momento é porque a dissolução da figura da vítima diz respeito a uma necessidade que extrapola o cenário nacional: encarnar esta figura é um vício já clássico da esquerda. A fórmula que o acontecimento Lula propõe para o tratamento deste vício nefasto consiste em encarar a crueldade inerente à vida, libertando a potência de criação de sua captura pelo capital e a potência de resistência de sua interpretação pela matriz dialética. Abre-se a possibilidade de uma política de desejo em que resistência e criação se reencontram, favorecendo a vida em seu processo infinito de diferenciação, processo difícil mas de uma imensa generosidade. Não será exatamente isso a tão esperada “abertura” que, desde os anos da ditadura militar, os brasileiros chamaram de democrática?

Brasil

Lula, e mesmo se consideramos sua figura como uma força importante na genealogia deste deslocamento histórico, isto não começa com a campanha eleitoral em questão. Podemos destacar três etapas deste processo desde a primeira candidatura deste personagem à cena política. Da primeira candidatura (para governador de São Paulo, em 1982) até a terceira candidatura para a pre-sidência da república (1998), se para uma pequena parcela da massa de subjetividades-lixo, a parcela militante, Lula funcionou como figura de identificação para o afeto de resistência – e isto em sua versão vítima ressentida e/ou vingativa –, para a grande maioria ele era visto com desprezo: “sapo barbudo” é o nome que lhe deram na época. Vigora naquele momento a aceitação passiva e naturalizada do lugar de lixo e, portanto, o auto-desprezo, que torna impensável a quebra da hierarquia segundo a qual habitantes da cloaca não têm competência para ocupar um lugar de comando do país. A partir da campanha que lhe deu a vitória, opera-se um real deslocamento, que se faz em dois tempos, o primeiro e o segundo turnos. Já no primeiro turno, passa-se a aceitar que Lula dispute este lugar e mesmo a admirá-lo por ter rompido o cerco, mas a hierarquia de valor dos lugares sociais e de saberes que lhes corresponde continua sendo mantida. O sentimento da maioria é de que ele é “como nós”: admira-se que ele tenha chegado “lá”, mas acredita-se que exatamente por ser como nós ele não tem o conhecimento necessário para governar como o têm os coronéis, os empresários, os banqueiros ou os scholars. A lógica que sustenta este argumento é a do conhecimento do mundo exclusivamente como forma: neste modo de conhecimento, funciona como modelo a forma dominante, o que faz com que se incorpore como natural a hierarquia segundo a qual sabem mais aqueles que pertencem ao salão glamourizado de uma subjetividade-luxo, de preferência se obtiveram PHD ou MBA numa universidade bem classificada no ranking das mais prestigiadas. É aliás exatamente este argumento que o principal adversário de Lula, José Serra, priorizou em sua estratégia de sedução do eleitorado. No segundo turno, a força de contaminação do modo de presença de Lula desloca mais radicalmente a cena. O sentimento da maioria

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EstĂŠtica da FOME

Foto Barbara Szaniecki


entes B a n Iva

As favelas brasileiras e a pele negra, modeladas por séculos de exclusão e criminalização, vem se tornando uma "mercadoria quente" na cultura urbana jovem. Industrialização das expressões urbanas e estilos de vida vindos da pobreza são um fenômeno da cena cultural mundial. Made in Favela poderia ser uma marca, simultaneamente de exclusão e distinção, de criminalização e mercantilização. Como aconteceu com a cultura negra dos guetos nos EUA, a cultura da pobreza e das favelas no Brasil ganha hoje visibilidade como uma fonte de significado e identidade, numa cultura da publicidade esvaziada que precisa de "estilos de vida", corpos, mundos para se espelhar e vender. Esses novos sujeitos do discurso, saídos dos guetos e favelas aparecem na mídia de forma "isolada", mas não podemos neutralizar a sua força. Trata-se de um processo cultural que apreende de forma privilegiada a dinâmica da sociedade brasileira. Até agora os projetos políticos institucionais estavam aquém desses fenômenos, incapazes de acompanhar ou de intervir nessa complexa dinâmica. A proposta mais urgente do novo governo de Lula, de um programa de Fome Zero, capaz de erradicar a fome no Brasil, deveria ser pensada também nessa dobra da cultura, como uma "Estética da Fome" ou "estéticas" da fome (para retomar a proposta radical do cineasta Glauber Rocha nos anos 60). Questionamento da fome que tem uma longa tradição no pensamento cultural e político brasileiro: da antropofagia dos modernistas a Glauber, passando por Milton Santos, geógrafo da fome, e chegando ao Hip Hop e à cultura das favelas hoje. A cultura da fome sendo essa “tecnologia” capaz de produzir uma capitalização e desvio de forças hostis máximas (exclusão, fome, miséria) em um ato criador. Trata-se de uma convergência importante, da política à estética e vice-versa que impede a tendência assistencialista, seja no programa Fome Zero do novo governo, com a mera distribuição de cupons e valealimentação, abandonando os programas de renda mínima, seja nas intervenções do Estado na cultura, de forma paternal, propondo ações culturais que vêm de cima para baixo, numa concepção prévia do que deve ser a "cultura" para os pobres. Pois o que temos hoje é o caminho inverso, práticas de cultura, estéticas e redes de

sociabilidade e política forjadas dentro dos guetos, periferias e favelas, mas conectadas aos fluxos globais, que até a mídia já consegue enxergar. Grupos locais apontando saídas possíveis, rompendo com o “nacional-popular” e idéias engessadas de “identidade nacional”, expressões da Favela Global, dos guetos-mundo. Nas favelas produziram-se novas relações de vizinhança, mutirões, redes de ajuda rizomáticas, a cultura das festas, rituais religiosos, samba, funk, hip-hop, todo um capital cultural e afetivo forjada num ambiente de brutalidade compartilhado por diferentes grupos sociais. Estamos vendo surgir também novas alianças entre as favelas e grupos antes isolados, como os ativistas do hip hop e a CUFA (Central Única das Favelas), o MPF (Movimento Popular das Favelas) e o MST (Movimento dos Sem Terra) e Sem Teto, etc. A idéia de constituição de redes, inclusive eletrônicas, pode ser a próxima etapa (ONGs como vivafavela.com.br já se constituem assim). Talvez uma política inteligente de governo devesse necessariamente incluir essas experiências culturais que se constituiram de forma rizomática, vitalizando periferias e centros, afastando-se do impulso meramente assistencialista e paternalista e afirmando essa “qualidade” político-estética conquistada. A Companhia de Teatro Nós do Morro, que transformou meninos da favela em atores; a Companhia Étnica de Dança, que levou a dança contemporânea ao Morro do Andaraí; a Coopa Roca da favela da Rocinha, cooperativas de artesania e moda produzindo em escala industrial; o projeto Célula Urbana, levando a Bauhaus alemã para interagir dentro da favela do Jacarezinho; a Rádio Favela de Minas Gerais e Rádio Bicuda do Rio de Janeiro, mídias comunitárias atuantes; ou o trabalho estético-político do grupo Afroreggae, que consegue transformar ex-traficantes em músicos de qualidade. São grupos vitais em atuação, mas ainda desconectados. Não existe visibilidade desse "conjunto". Como força nova estão "invisíveis", aparecendo na mídia de forma isolada, sem constituir “redes”, passando despercebidos, mesmo no Forum Social Mundial. O que há de novo nesses discursos sobre a pobreza fica bem claro no campo da música. Quando um rapper como MV Bill, negro, morador da favela Cidade de Deus,

canta em ritmo hipnótico canções de guerra, como ``Soldado do Morro``, sobre o tráfico de drogas, capitaliza numa só postura a rebeldia juvenil em estado puro, a moda, a virilidade, a “atitude” rapper e hip hop vendida no mercado, trazendo um discurso político renovado, fora das instituições tradicionais: do Estado, do partido, do sindicato, do movimento estudantil, etc. e próximo da cultura urbana jovem: música, show, TV, internet, moda. Discurso pertubador, na linha de fogo cruzado entre o Estado policial e o narcotráfico. Sucesso na MTV brasileira, MV Bill, assim como os grupos de rap e hip hop Os Racionais, Pavilhão 9, ou Júnior e Ando do Afroreggae são alguns dos representantes desse outro discurso, de uma militância midiática saída das favelas que brinca com os discursos tradicionais, podendo se apresentar encarnando um traficante-pensador, como lideranças políticas, nos debates sobre as “cotas” para negros nas universidades, como performers, etc.. Estamos diante de um discurso político “fora de lugar” e que coloca em cena esses mediadores e “traficantes” de cultura: Rappers, funkeiros, b-boys, mas também outros grupos e discursos marginalizados: favelados, desempregados, sub-empregados, drogados, uma marginalidade “difusa” que aparece na mídia de forma ambígua, mas que podem assumir esse lugar de um discurso político urgente, das ruas e favelas. A mudança decisiva é a dimensão política dessas expressões culturais urbanas e estilos de vida vindos da pobreza, forjadas na passagem de uma cultura letrada para uma cultura audiovisual e midiática. Essas vozes da periferia, jovens artistas e agitadores, negros saídos da favela, de ambientes de violência e hostilidade destituem os tradicionais mediadores da cultura passam de “objetos” a sujeitos do discurso. Os novos “marginalizados” lutam para obter o “copyright” sobre sua própria miséria e imagem, sabendo que o agenciamento entre as diferentes esferas (favelas, universidades, movimentos) pode apontar para uma rede mais ampla de parcerias produtivas. Combinando o projeto Fome Zero do novo presidente com as "Estéticas da Fome" pode-se reintroduzir a complexidade e ambiguidade da “dobra” brasileira no capitalismo global, transformando fábricas de pobreza e violência em redes de criação.

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Brasil

las e v a f in e d a M


Partilhas e

fomes Denise Bernuzzi de Sant'Anna

"Zerar a fome" de mais de quarenta milhões de brasileiros que ganham até oitenta reais por mês é uma prioridade do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva. Propondo uma Secretaria da Emergência Social, "com verbas e poderes" para combater a fome a partir de janeiro de 2003, Lula reconheceu publicamente a flagrante injustiça social que é campeã no Brasil. E se dispôs a enfrentar o desafio de tornar a vida viável a uma significativa parcela da população. Desenho de Argentino Mauro, Arjan. Sem título, nanquim sobre papel, 2002.

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No entanto, quando Lula anunciou que pretendia zerar a fome houve quem se perguntasse: qual fome? E houve quem rapidamente explicasse : no Brasil não há fome, "apenas" subnutrição ou desnutrição. Como se A FOME verdadeira estivesse alhures, em algumas regiões africanas por exemplo, devastadas por guerras, epidemias e grandes secas. Lá sim, pensaram muitos, há milhares de mortos por fome, lá sim, o sofrimento é maior, o caso é de fato emergencial... mas no Brasil, tudo seria muito diferente, afinal, aqui, não existiria A FOME, mas "somente" má alimentação... aqui come-se num dia, passa-se necessidade no outro, e assim vai se levando... Aqui não haveria fome, apenas "provisórios estados de vácuo no estômago", falta de algumas vitaminas e calorias, problemas que não matam imediatamente, nem abundantemente. Em nosso país, concluíram, há somente desnutrição, subnutrição. Que belo consolo! Se a análise da situação parar nesse ponto fica a impressão de que o projeto Fome Zero nada mais é do que um simples golpe de propaganda para sensibilizar a população, algo baseado num problema que não existe. Ou então, fica parecendo que os programas anteriores já eram suficientes para viabilizar a vida de milhões de brasileiros, no presente e no futuro. Entretanto, se prestarmos um pouco mais de atenção nas inúmeras fomes existentes no Brasil e nos diferentes debates que o projeto Fome Zero desencadeou, tudo pode mudar. Assim, é possível considerar, por exemplo, que a proposta de zerar a fome supõe uma noção de vida que não tem nada de miserável. Trata-se de pensar a vida como algo que não merece existir minguadamente, sempre por um fio ou em fiapos. Viver é, nesse caso, viver dignamente, com qualidade de alimentação e saúde. Por conseguinte, apesar das diferenças entre A FOME (capaz de ceifar vidas rapidamente) e a má alimentação ou as "pequenas fomes" de todos os dias, a proposta de Lula evidencia com crueza o quanto todos os tipos de fome corróem como uma peste a saúde individual e social do país. Ou seja, o projeto Fome Zero propõe uma tolerância zero diante de todo e qualquer tipo de fome. Afinal, há várias maneiras de inviabilizar a vida e de matar. Além disso, as discussões geradas pela proposta da Fome Zero provocaram a ampliação da seguinte evidência: a fome não está apenas em países distantes do nosso e ela não é um atributo exclusivo do outro. Sua realidade não se reduz às imagens já tão banalizadas pela televisão dos corpos famélicos de Biafra, por exemplo. O projeto Fome Zero provoca, nesse sentido, um certo transtorno em idéias previamente estabelecidas. Ele abre espaço para pensar que, tão importante quanto matar a "Fome", hipoteticamente inexistente no Brasil, é acabar com tantas fomes que corróem os corpos e as almas dos brasileiros. A fome tem muitos aspectos, podendo matar em poucos dias, desnutrir por anos, provocar doenças, entristecer e enfraquecer milhares de corpos. E é tudo isso que importa. Com a proposta de Lula cria-se uma proximidade entre A FOME e as inúmeras fomes de milhares de brasileiros. Quando se reconhece a

crueldade e a injustiça de todas as fomes, cai por terra uma perversa nobreza atribuída A FOME que mata em poucos dias e, ao mesmo tempo, desmorona a surda tolerância à desnutrição e a subnutrição. Mas o mais interessante não está apenas neste reconhecimento das tantas misérias brasileiras. Pois, quando Lula diz que no Brasil existe fome, entram em cena não apenas os esquálidos nordestinos castigados pela seca, e nem unicamente a cruel banalidade das milhares de imagens de fomes pouco conhecidas, raramente exibidas na televisão, fomes inconfessáveis, que não se tornaram espetáculos, fomes sem marca e sem pedigree. O que a proposta da Fome Zero dispara é o reconhecimento de diversas maneiras inventadas pelos brasileiros ao longo de sua história para partilhar e disputar aquilo que setores das classes médias e altas diriam que é muito pouco, aquilo que elas considerariam extremamente miúdo, "o quase nada entre pobres". Quando se discute se há ou não fome no Brasil, quando se estuda como fazer para atacar as várias fomes existentes, o que já ocorre é o desencadeamento desta evidência: a população brasileira elaborou ao longo de sua história uma miríade rica de saberes e técnicas para lidar com as necessidades diárias. Inventaram (e não cessam de inventar) certos saberes que prepara os mais pobres, desde a infância, para negociar tudo o que é ínfimo e ralo, e para aproveitar, individual e coletivamente, as diversas potencialidades de um mesmo espaço, de um único alimento, de algumas poucas bacias de água, por exemplo. Criaram, por vezes, uma percepção do detalhe e uma lógica matemática específica para contar e diferenciar o que à primeira vista seria o sempre igual. Fabricaram meios capazes de planejar rotinas sobre um presente totalmente incerto. Inventaram corpos tanto para viver sobre e entre pinguelas, como margeados por muros num universo em que ser clandestino chega a ser o destino. Nesse sentido, o projeto Fome Zero, antes mesmo de ter sido iniciado, já funcionou: primeiro porque ele deixou claro que a FOME não está em outro país, quiçá em outro tempo. Segundo, porque ele e a discussão que provocou evidenciaram a gravidade das milhares de fomes cotidianas que, se não matam, também não ajudam a viver; fomes para cada um levar como pode, como consegue. Elias Canetti já havia escrito que "com o reconhecimento da partilha tem início a justiça". E a justiça exige alimentação de qualidade para todos. Mas por fim, é preciso dizer que o projeto já funcionou porque colocou na ordem do dia um tipo de viabilização da vida há muito existente entre os brasileiros pobres. O reconhecimento desses saberes e técnicas inventados para lidar com o aparentemente inaproveitável, e também com o detalhe e a precariedade, certamente não é o suficiente para acabar com a fome. Mas, sem ele, os mais pobres correm o risco de serem considerados apenas os mais pobres! Ora, sabemos o quanto esta consideração lhes custou caro ao longo da história. Sem o reconhecimento tanto de suas fomes e misérias quanto de suas artes e manhas, emerge o perigo de tratá-los como se eles fossem formigas e baratas: seres que parecem supérfluos neste mundo de tantas usuras. 15 GLOB(A.L.)

Brasil

brasileiras


Argentina, diciembre 2002 a un año de la revuelta, la constitución serpenteante del contrapoder Rubén Espinosa Las jornadas del 19-20 de diciembre, mostraran claramente las actuales condiciones en que se encuentra el movimiento, luego del proceso experimentado en el último año. En gran parte de la militancia de izquierda, la expectativa era que en estos días se repitieran las acciones que el proletariado había llevado a cabo hace doce meses, y hasta incluso había quienes que auguraban que -como ayer, las masas expulsarían del gobierno al presidente actual. Todo lo cual, fue alimentado por las usinas informativas de la derecha y los servicios de inteligencia, justificándose así al armado de un dispositivo de represión como nunca visto (10.000 policías federales, más 2.000 gendarmes y prefectos solo en la ciudad de Bs.As.), y la propalación permanente por los mass media de llamados a la "no-violencia". Desde el 16/12, la agitación fue in crescendo hasta el 19 inclusive: piquetes urbanos, marcha desde las provincias, miles de volantes y pintadas, convocatorias a concentraciones barriales, regionales y provinciales, ollas populares, mesas redondas, clases públicas, etc., etc. El 20, desde la mañana temprano, se iniciaron las concentraciones y las marchas, que culminaron por la tarde con el monumental acto en la Plaza de Mayo. "Monumental", no solo por la participación multitudinaria de piquetes, asambleas, y organizaciones de todo tipo, sino por que quedó al descubierto la puesta en acto de "dos plazas": por un lado, la plaza de las organizaciones de izquierda y socialdemócratas que aparecieron como propietarias de la organización, y por otro el colorido, el entusiasmo, la alegría y la bronca de la gente, que sólo buscaba mostrar su presencia activa, y el reclamo de

¡¡¡QUE SE VAYAN TODOS, QUE NO QUEDE NI UNO SOLO!!!!!!. Tanto fue así, que a las dos horas de iniciado el acto desde un escenario que se asemejaba al de un congreso de sindicato-partido (la lista de oradores excedía la cincuentena), en el momento mismo que la concentración alcanzaba su punto máximo, durante más de diez minutos la gente comenzó a gritar la consigna central, y a partir de ese momento, comenzó la desconcentración espontánea, contrapuesta con lo que se intentaba ordenar desde el escenario 'oficial', la multitud cumplió así -y con creces, su cometido: mostrar la fuerza de la movilización, y el contenido de su composición subjetiva política. Las masas ya saben por experiencia propia, que en cualquier momento pueden iniciar y ejecutar la expropiación de alimentos, y la toma y puesta en marcha de las empresas cerradas. Las masas ya saben que poseen el poder suficiente para expulsar un gobierno, unas y otras, no son ya acciones en las que necesiten experimentar su potencia. Los problemas que tienen planteados, y a los que intentan dar respuesta en el día a día, tratan, precisamente, de cómo construir nuevas relaciones sociales expresadas en la materialidad de la cobertura de la subsistencia, en la creación permanente y riquísima de novísimos emprendimientos productivos, culturales, solidarios, etc., y, sobre todo, en el ensayo-comprobación de la ruptura de la dominación subjetiva política. La resistencia ya ha sido mostrada, la revuelta ya fue puesta en acto, no se trata entonces de repetir compulsiva-obsesivamente el enfrentamiento físico callejero, ni de continuar con el estereotipo del ¡¡no!!, y del ¡¡basta!! Se hace necesario porque no se puede repetir la derrota, resulta imprescindible porque nuevas condiciones materiales y subjetivas están dadas, pasar a la instancia superior por excelencia: la construcción de contrapoder. Claro está que, sobre esto, con lo escrito hasta hoy no alcanza, y las prácticas de la multitud en constitución, son aún insuficientes, de allí, lo certero de Negri al afirmar en la video conferencia Roma - Bs.As. del 14 de diciembre, que "en el comunismo la organización no se inventa nunca, son necesarios los paradigmas, los ejemplos que muestran cómo las masas, el movimiento, las multitudes, pueden unirse, organizar nuevas formas de lucha y gobernarse a sí mismas". La riqueza del momento es infinita, sólo nos resta experimentar que somos poseedores de la potencia constitutiva del común. GLOB(A.L.) 16


A nossa luta é uma luta global Entrevista com Rodrigo Chavez, coordenador nacional do círculo bolivariano Dario Azzellini

Tradução Guilherme Bueno

É importante apreender o que se contrapõe ao processo bolivariano. A Venezuela é caracterizada por uma taxa muito alta de marginalização. Ainda que se trate de um país rico, ele foi administrado por círculos políticos e econômicos restritos, aos quais participavam também a Igreja e alguns dos sindicatos mais vinculados aos partidos. Estes seqüestraram instituições e organizações, e criaram a imagem de um país abastado (ao menos do ponto de vista das classes média e alta). Mas atrás desta imagem se escondia uma população fortemente empobrecida, em uma situação na qual os próprios direitos eram reduzidos a mercadorias. Pode-se demonstrar estatisticamente como pioraram constantemente nos últimos quinze anos o sistema de saúde e educação, as condições habitacionais, os salários reais e os direitos sociais. Isso produziu uma tomada de consciência dos excluídos que conduziu Hugo Chaves Frias à presidência. Neste ponto iniciara-se o processo de reconstrução de um estado saqueado e empobrecido (...) a edificação de um estado de direito, o restabelecimento da justiça social e uma política de distribuição dos recursos estatais em favor da população inteira e não apenas da elite. Isso, evidentemente, não foi apreciado por aqueles tantos que haviam drenado mais de quatrocentos bilhões de dólares do país, desmantelado ou privatizado uma grande parte das empresas estatais e que haviam predisposto qualquer coisa pelo neoliberalismo e a globalização capitalista. (...) A oligarquia agride agora o processo bolivariano alardeando o fato que antes não haveria existido nem pobreza nem divisões de classe (...) assim se desencadeou um verdadeiro terror midiático, veiculado pelas televisões, rádio e jornais que descreviam ao país e ao mundo inteiro uma Venezuela que jamais existira. Por trás disso existe uma instância de poder e a intenção de retomar o controle do processo de privatização do estado; não é um acaso que o presidente da empresa estatal de petróleo, antes de Chavez, seja hoje um consultor de Bush e das multinacionais petrolíferas americanas (...) A oposição contra o governo de Chavez foi assim progressivamente se radicalizando até o golpe de estado em abril de 2002. Para a oposição, mesmo que o presidente tenha sido feito prisioneiro, para ser

mandado embora do país pela justiça, que é controlada pela oposição, não teria se tratado de um golpe de estado. Houveram cinqüenta mortos e mais de quatro mil prisões, mas, menos de quarenta e oito horas depois, o golpe foi rechaçado pela população. Muitos expoentes da oposição também voltaram para seus cargos. Este, sem dúvida, é um estado de direito. Não obstante, mesmo depois deste fracasso, a oposição manteve sua linha golpista, e as greves foram uma de suas expressões; mas a greve não foi bem sucedida em paralisar o país e nem sequer o setor petrolífero. Por conta disso, decidiram prorroga-la e de ocupar as praças. Mobilizaram maciçamente o setor petrolífero, onde está sediada a mais corrompida de todas as elites, onde um grupo de cerca de mil pessoas conseguiu fazer da PDVSA a empresa petrolífera mais improdutiva do mundo (...). Bush e o premier espanhol Aznar saudavam o golpe enquanto a marinha norte-americana ancorava em frente da costa venezuelana. Imediatamente as instituições financeiras internacionais, FMI e Banco Mundial anunciavam no dia seguinte ao golpe que a Venezuela podia obter todos os créditos que desejasse. (...) Certamente nós cometemos erros, mas nossa orientação político-ideológica é muito clara: batemo-nos por uma sociedade fundada sobre direitos e sobre a igualdade, que permita a todos o acesso à educação, à comida, à habitação e à saúde. Mas na Venezuela existe o problema do dito duplo poder, isto é, que muitas funções e instituições são ocupadas por pessoas que não apóiam este processo e estão na oposição... parece quase que a base pretende radicalizar o processo muito mais de quanto faz ou possa fazer o governo.

Quando fomos candidatos às eleições segundo as regras estabelecidas pela elite privilegiada, vencemos e agora estamos no governo. Mas a estrutura das instituições corresponde naturalmente a outros interesses diferentes daqueles de um processo revolucionário bolivariano. Entretanto, com a nova constituição, decidimos levar em conta os direitos dos trabalhadores; muitos destes foram empregados com base em um sistema clientelista por meio da ligação com determinados partidos. Esta circunstância torna extremamente importante o papel das organizações sociais que devem fazer pressão sobre as instituições para que distribuam recursos e descentralizem as suas políticas (...). Por esta razão o escopo principal da oposição, além de destituir Chavez, é aquele de desbaratar as organizações sociais... estas constituem a ponta de diamante da revolução bolivariana (...), como se vê claramente no artigo 80 da nova Constituição, que se ocupa das organizações sociais e de seus direitos de participação. Ali estão estabelecidas as regras que garantem a participação dos cidadãos e da sociedade organizada pelo bem comum, pela administração pública (...) Por quê vocês não se empenharam mais decididamente na construção midiática e comunicativa a um nível de opor-se ao monopólio da elite? Tivemos muitos impedimentos econômicos, herdamos uma situação na qual 40 por cento das receitas estatais são destinadas ao pagamento da dívida externa. A elite corrompida da empresa do petróleo continua a embolsar uma grande parte da arrecadação. Até quando o barril de petróleo está acima de 22-23 dólares, chegam ao Estado somente 5. Portanto concentramos nossas iniciativas sobretudo no desenvolvimento de mídias alternativas: televisão local e rádio, jornais, panfletos, internet... assim comunicamos na Venezuela, porque se você liga o seu televisor, verá uma Venezuela que não tem nada a ver com a realidade que lhe circunda. Mas é verdade, na comunicação internacional temos uma grande fraqueza. Procuramos viajar muito e difundir a realidade da Venezuela: pois que não temos acesso às alavancas de comando, devemos falar diretamente com as pessoas. Um resultado é que em 5 de fevereiro ocorrerá na Venezuela um grande congresso de organizações de esquerda de cinco países andinos.

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Argentina Venezuela

Ainda que a greve da oposição não tenha tido sucesso, os círculos empresariais e a CTV decidiram prosseguir com ela. Por quais razões?


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Colagem de Claudio Cambra


Una lucha por la dignidad! Cómo lo podemos hacer? Es realmente posible crear una sociedad de trabajo, todos están diciendo "iNO, aquí No, aquí el capital no basada en la dignidad, una sociedad que va más allá del capitalismanda!". Cada No es una Ilama de dignidad, una grieta en el mo? Es posible construir otras formas de hacer dentro del capitamando del capital. lismo? No tenemos que destruir el capitalismo primero para crear El No es el punto de partida de toda esperanza. Pero no es sufiesta posibilidad? Es posible crear y expandir espacios de dignidad? cìente. Decimos No al capital pero el capital sigue atacándonos, No es inevìtable que estos espacios sean reprimidos o absorbidos separándonos de la riqueza que creamos, negando nuestra dignipor el capital? Es realmente posible crear y extender espacios de dad como sujetos. Pero nuestra dignidad no es tan fácilmente dignidad a tal punto que destruyan al capitalismo y creen una négada. El No tiene un ímpetu que nos Ileva hacia adelante. sociedad basada en el reconocimiento mutuo de la dignidad? Las luchas que dicen No muchas veces van más allá de eso. En el Antes se pensaba que la unica forma de crear una sociedad mejor, proceso mismo de luchar contra el capital, se crean otras relaciones era tomando el poder estatal, destruyendo al capitalismo y conssociales. Los involucrados se dan cuenta que no están luchando truyendo la sociedad nueva. Pero no funsimplemente contra una imposición particular del cionò. No funcionò, porque concebía el capítal, sino que están luchando por otro tipo de cambio radical como un cambio Ilevado a relaciones sociales. Especialmente en los últimos "Queremos que la vida cabo por parte de los traba adores, mienaflos, muchas luchas han puesto gran énfasis en sea como una tras que el concepto de dignidad hace claro el desarrollo de estructuras horizontales, en la cartelera cinematográfica, participación de todos, en el rechazo a estructuras que la construcción de una sociedad dìgna sólo puede ser un proceso de autoemanjerárquicas que reproducen las jerarquías del capide la cual podemos cipación. En segundo lugar, no funcionó talismo: de ahí el "mandar obedecíendo" de los escoger una película porqué la noción de tomar el poder estatal zapatistas, las asambleas horizontales de los estudiferente cada día. se basaba en la idea de que el Estado era diantes de la UNAM, las Asambleas Barriales de el centro de la sociedad, que el mundo Argentina, las estructuras desarrolladas por el Ahora nos hemos capitalista era la suma de muchas sociemovimiento "globalifóbico" en todo el mundo, el levantado en armas dades diferentes, cada una con su Estado compaflerismo desarrollado en las huelgas, porque, por más de en el centro. El desarrollo capitalista mìsmo etcétera. Muchas veces estos son experimentos ha subrayado que no es así (y que nunca muy explícítos y conscientes, formas de decir "no quinientos años, fue asì): la sociedad capitalista es una estamos solamente diciendo No al capital, estanos han obligado a ver sociedad global apoyada por una multiplimos desarrollando otro concepto de lo que es la la misma película cidad de Estados, de tal forma que ningún política, estamos construyendo otra trama de relaEstado está en el centro de la sociedad. ciones sociales, estamos prefigurando la sociedad todos los días". No podemos pensar en el cambio social que queremos construir". Pero esto no es suficiente. radical como algo que se Ileva a cabo Las luchas que no solamente dicen No, sino que Subcomandante Marcos, desde arriba, desde el Estado. La revolución crean otras relaciones sociales en su práctica, dan La Jornada, sólo puede ser construida desde abajo. otro paso cuando empiezan a organizar un hacer 25 de agosto de 1996 Pero cómo podemos construir la dignidad diferente. Las asambleas barriales en Argentina en una sociedad que niega a la dignidad están avanzando de la discusión y la protesta a de forma sistemática? Cómo podemos tomar sus propias vidas en sus manos al ocupar hacer la dignidad tan fuerte que destruya a la sociedad que la niega? clínicas que han sido abandonadas, casas que están vacías, bancos No es cuestión de la Revolución, pero tampoco es cuestión simpleque han huido, para Droveer un mejor servicio de salud, lugares mente de la rebeldia: es cuestión de la revolución (con “r” minúspara vivir, centros de reunión. Cuando las fábricas cierran, los cula). La Revolución (con “R” mayúscula), entendida como la introobreros no estàn simplemente protestando sino ocupándolas para ducción del cambio desde arriba, no funciona. La rebeldía es la lucha producir cosas que se necesìtan. La fisura se vuelve no simplemente por la dignidad y existirá mientras se niegue la dignidad. Pero no es un espacio de rechazo, no simplemente un espacio para desarrollar suficiente. Nos rebelamos porque somos humanos. Pero no queremos estructuras horìzontales sino para construír otras formas de hacer. simplemente luchar contra la negación de la dignidad, queremos Este paso es muy importante porque concentra nuestra atención en crear una sociedad basada en el reconocimiento mutuo de la dignidad. lo fundamental, que es la organización del hacer. Nuestra lucha, entonces, no es la lucha por la Revolución, ni simplePero esto no es suficiente. Las fisuras muchas veces son muy mente por la rebelión sino por la revolución. Lo importante ahora pequeflas, los haceres alternativos son aislados. Cómo conectar es hacer una separación clara entre revolución y toma del poder estos proyectos alternatìvos, entre sí y con la sociedad en general? estatal. Tenemos que replantear la cuestión de la revolucion, pero Si se hace a través del mercado, terminan dominados por el mercado. de una forma que no se coúfunda con la conquista del Estado. Pero No se puede hacer a través de la introducción de una planificación équé significa eso y cómo lo hacemos? En esta lucha revolucionacentral porque esto supone estructuras que no existen y que no ria no hay modelos, no hay recetas, simplemente una pregunta terripueden existir en este momento. La articulación se tiene que hacer blemente urgente. No una pregunta vacía, sino una pregunta Ilena desde abajo, de forma experimental. En Argentina actualmente, el de mil respuestas. movimiento de trueque en sus mejores manifestaciones es un inFisuras: éstas son las mil respuestas a la pregunta de la revolución. tento de desarrollar otras formas de articulación entre productores Por todas partes existen fisuras. Las luchas de la dìgnidad desgary consumidores (prosumidores), pero todavía está en sus inicios. ran el tejido de la dominación capitalista. Cuando la gente se lePero esto todavía no es suficiente. La revolución no puede sigvanta en contra de la constru c*ción del aeropuerto en Atenco, nificar pobreza. El propósito del movimiento revolucionario es cuando se oponen a la construccìón de la carretera en Tepeaca, hacer explícita la riqueza del hacer social. cuando se levantan en contra del Plan Puebla Panamá, cuando los Pero ahora el capital nos separa de esta riqueza, se coloca como estudiantes de la Universidad Nacional Autónoma de México portero del hacer social, diciéndonos que para tener acceso a esta (UNAM) se oponen a la introducción de cuotas, cuando los obreros riqueza tenemos que obedecer las reglas del capital los cálculo' de hacen huelga en contra de la introducción de rítmos más rápidos la ganancia. Cómo podemos burlar al portero, encontrar otras formas

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Lutas

John Holloway


de conectarnos con la riqueza del hacer de tantos millones de persoque antes. Más y más claramente, el capital nos dice "pórtense como nas en todo el mundo que, ellos también, están diciendo o quisieran robots, hagan todo lo que les digo, o me voy". Más y más, el capital decir NO a la lógica social de las conexiones capitalistas? En cada huye del hecho de que no somos robots, huye de nuestra dignidad. momento, el Estado se ofrece como respuesta a nuestras preguntas. Dignidad y capital son incompatibles. Mientras más avanza el camiEl Estado dice: "Vengan a mí, organícense a través de mí, yo no soy nar de la dignidad, más huye el capital. Cuando se levantan los indíel capital. Yo puedo dar la base para otra organización de la socialidad". genas, el capital huye. Cuándo los obreros ocupan las fábricas, el Pero es una mentira, un truco. El Estado sí es el capital, una forma capíial huye. Cuando los estudiantes se rebelan contra la reestrucdel capital. El Estado es una forma de relaciones sociales específituración de la educación, el capital huye. Cuando parece que un camente capitalista. Ese Estado está tan fuertemente integrado a la gobierno de izquierda podría íntroducir medidas que afecten las red global de relaciones capitalistas que no hay forma de construir ganancias, el capital huye (y el gobierno cambia de opinión). Por una socialidad anticapitalista a traves del Estado, sea cual sea el pareso, la cuestión de la respuesta que damos a la huida del capital es tido que ocupe el gobierno. crucial para la lucha de la dignidad (aún más básica que la cuestión El Estado nos impone las relaciones jerárquicas que no queremos; de la represión, porque la represión siempre se presenta como el Estado nos dice que tenemos que ser realistas y aceptar la lógica respuesta a la huida del capital). capitalista y los cálculos del poder, cuando sabemos muy bien que Qué le vamos a contestar cuando el capital dice "pórtense bien o me no queremos esta lógica y estos cálculos. El voy"? Qué vamos a decir cuando el capital se Estado dice que resolverá nuestros problemas, va? Que huya! Que se vaya! Esto es lo genial de ya que nosotros no lo podemos hacer, nos la consigna argentina "que se vayan todos!" El reduce a víctimas, niega nuestra subjetividad. capital domina amenazándonos con que se va a El Estado es una forma de reconciliar nuestras ir. Bueno, pues, que se vaya. Podemos vivir perluchas con la dominación del capital, pero no se fectamente bien sin él. dejan reconciliar. El camino estatal no es el Sí, podemos? Esta es la gran pregunta. El capicamino de la dignidad. tal no es simplemente un proceso de cerrar Cómo entonces? La pregunta nos atormenta. fisuras. Al irse y amenazar con irse, abre tamLas viejas soluciones no funcionaron, no bién fisuras potenciales. Si el capital amenaza pueden funcionar. Pero existe una solucíón que demasiado, los trabajadores pueden ser pueda funcionar? Es realmente posible que la Ilevados a decir "órale, vete, nosotros nos lucha contra la negación de la dignidad nos quedamos con los edificios y el equipo". Ileve a una sociedad basada en la dignidad, una Cuando el capital se va, dejando regiones sociedad en la cual el poder social del hacer enteras, la gente es Ilevada, por necesidad.y por esté emancipado (una sociedad comunista)? La decísión, a encontrar otras formas de sobrevivir, certeza no está de nuestro lado. La certeza no otras formas de hacer. Las personas son impulpuede estar de nuestro lado, porque la certeza sadas a construir relaciones sociales que apunexiste solamente ahí donde la dignidad tan más allá del capital. Las fisuras se abren humana está negada, donde las relaciones como resultado de nuestras luchas abiertas sociales están totalmente cosificadas, donde pero también por la huída del capital ante nuesEste artigo foi retirado las personas están totalmente reducidas a mástra dignidad. da revista “Rebeldia” número 1 caras. La única certeza para nosotros es que la Pero cómo podemos sobrevìvìr sìn nuestros novembro 2002. dignidad significa luchar contra un mundo que explotadores cuando ellos controlan el acceso a niega la dignidad. la riqueza del hacer humano? Este es el gran Llamas de dignidad, relámpagos, fisuras en la dominación capitadesafio. Cómo podemos fortalecer las fisuras de tal forma que no lista. Miren el mapa del capitalismo y vean qué tan desgarrado está, sean bolsas de pobreza sino una forma realmente alternativa de tan Ileno de fisuras, de Ilamas de revuelta. Chiapas, Buenos Aires, hacer que nos permita decir al capital “pues si, vete”? La próxima Sao Paulo, Cochabamba, Quito, Caracas, y así en todo el mundo. vez que el capital nos deje desempleados, cómo le podemos decir: Nuestra lucha es para extender los tiempos-espacios de las fisuras, “Muy bien, ahora puedo dedicarme a algo que tenga sentido”? La soplar el fuego de la revuelta. A veces las Ilamas iluminan el cielo próxima vez que el capital cierre una empresa, cómo, podemos tanto que podemos ver claramente lo que nos da esperanza: los decir “Vete entonces, ahora podemos usar el equipo y los edificios dominadores dependen de los dominados, el capital depende de y nuestros saberes de otra manera”? La próxima vez que el capital nosotros, de su capacidad de transformar nuestro hacer en trabajo nos diga “ayuden a los pobres bancos o el sistema financiero se va que pueda explotar. Es nuestro hacer que crea el mundo, es el capia caer”, cómo podemos decir “Que se caiga, tenemos mejores fortal que corre detrás tratando de contener nuestra fuerza. Nosotros mas de organizar nuestras relaciones”? La próxima vez que el capisomos el fuego, el ”capital es el bombero. En términos más tradital nos amenace: “Me voy” cómo decirle: “Sí, vete, vete para siemcionales: la única fuerza de producción es la fuerza creativa del pre, y llévate a tus amigos contigo, que se vayan todos”? Esta es la hacer humano, y las relacíones capitalistas de produccìón luchan cuestión de la organización de nuestro hacer, este es el problema de la revolución (con "r" minuscula). todo el tiempo para contenerla. Qué significa "revolución”? Es una pregunta, solamente puede ser una El capital nos tiene miedo. El capital huye de nosotros. La huida y la pregunta. Pero no es una pregunta que se quede parada. No es una amenaza de huida son el núcìéo de la domìnación capitalista. Los pregunta que se atore en un lugar, sea ese lugar San Petersburgo o seflores feudales no huían de sus siervos: Si los siervos no se portala selva Lacandona o Buenos Aires, ni en un momento, sea ese moban bien, los seflores se quedaban y los castigaban, muchas veces mento 1917 o éI primero de enero de 1994 o el 19 y 20 de diciembre fisicamente. Pero en el capitalismo es muy distinto. El capital nos del 2001. No es una pregunta que se pueda contestar con una fórmula dice todo el tiempo: "Si ustedes no se portan bien, me voy". Vivimos o una receta. Es una pregunta que sólo se puede contestar en la bajo un estrés terrible, bajo la amenaza constante de que nuestros lucha, pero la reflexión teórica es parte de la lucha. Es una pregunta amos se vayan a ir y nos dejen. Y muchas veces el capital sí se va y con una energía, una rabia y un anhelo que no la deja descansar. entonces millones de personas se quedan en el desempleo, regiones Empujemos la pregunta hacia adelante todo el tiempo, lo más que o países enteros quedan sin inversión, generaciones enteras podamos, con cada acción política, con cada reflexión teórica. quedan sin la experiencia de la explotación directa. Bajo el neoliberaPreguntando caminamos, eso sí, pero caminamos con rabia, prelismo, esta amenaza de la huida y esta realidad de la huida se vuelven guntamos con pasión. más y más centrales: la movilidad del capital es mucho más grande

Preguntando caminamos, eso sí,

pero caminamos con rabia,

preguntamos con pasión.

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Lutas

Foto Luigi Narici Š

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La extensión europea Tradução Gerardo Silva

Sapienza Pirata

crónica y sugestiones de la “caravana europea y constituyente”de las y los desobedientes

Francesco Raparelli Davide Sacco Paolo Do

Foto Luigi Narici ©

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Copenhagen, al igual que el resto de Dinamarca, es un lugar frio, civil, de sólida tradición socialdemócrata. Poca gente, welfare poderoso, búsqueda minuciosa y “pastoral” (como diria Foucault) del bien colectivo por parte de las instituciones democráticas. El pacto de obediencia, aquella norma no escrita que funda la soberania moderna, funciona en términos de absoluta coincidencia con la grilla del derecho y de las garantias definiendo una especie de cristalización del proceso de transformación de la demanda social. Con particular dificultad el conflicto consigue anticipar el comando y dar dirección al cambio, a la definición del nuevo espacio normativo, a la realización de nuevos deseos. No es casual que el movimiento asuma muchas veces la expresión sin brillo del gueto o de la estética autoreferencial: la difusión de la experiencia anarquista o black indica más el trazo de una forma de vida juvenil que el sentido de un proyecto político alternativo. Una forma de vida poco comunicativa es lo que resta de la experiencia en común del squat, donde muchas veces lo que se coloca en el centro de la cooperación es un metadiscurso sobre la cooperación misma, sobre estilos de vida, sobre libertad de elección sexual, sobre relaciones cotidianas, sobre modalidad de gestión de la “cosa” en común, sin una preocupación con transformar la “cosa” en común en algo politicamente más agresivo, viral y difuso. Sin embargo, algo de extraordinário sucedió en el dia de las manifestaciones contestatarias contra la cumbre de la Unión Europea. Un espacio político nuevo se ha abierto en la experiencia del movimiento de la Europa del Norte – y no solamente. Pero intentemos explicarlo con un poco de orden. En el “Bella Center” de Copenhagen, entre los dias 13 y 14 de diciembre, se realizó la cumbre de la Unión Europea para considerar el tema de la extensión de la Unión hacia los paises del Este, y también para tratar la cuestión de la aplicación futura del tratado de Niza y del trabajo constituyente desarrollado por la Convención de los 105 miembros presidida por Giscard D’Estaing. Como las conclusiones oficiales de la Presidencia no dejan al menos de indicar, en temas de seguridad y de fuerza militar de la Unión, la centralidad vinculante del alargamiento hacia el Este de la Nato por casualidad ha precedido al político-europeo. De cualquier modo, el sueño de una Europa de 25, que ya fuera tema central de la programación de la cumbre de Copenhagen 93, parece haber encontrado condiciones de realización. Pues bien, al mismo momento en que el Consejo debe ponerse en marcha, se comien-


y la restricción de los derechos zan a reunir en Dinamarca los diversos componentes del movimiento global. Nosotros – los desobedientes italianos – nos juntamos en la frontera alemano-danesa (Flensburg) la tarde del 12, bloqueando la ruta por cerca de una hora, y reivindicando el derecho de las mujeres y los hombres poder circular libremente en Europa y en el mundo, criticando el sistema de Schengen y su sistemática suspensión frente al disenso y a las migraciones. Terminamos de cenar y fuimos para el sleeping center, mas fuera del centro social, donde fuimos recibidos por los desobedientes daneses del Global Roots, una camioneta de la “politi” comienza a seguirnos y de a poco se juntan outras, acompanhados también de una troupe televisiva. Un policia nos para y solicita nuestros documentos. A la respuesta “somos ciudadanos europeos”, se iniciaron los empujones y los arrestos, en una operación que podemos definir sin dudar como una operación premeditada de arresto “preventivo”. Como en Praga y antes en Washington, se define un estatuto nuevo en la gestión del orden público, donde el espacio del disenso es suspendido preventivamente, independientemente de los hechos o de las intenciones. Una de las articulaciones evidentes de la guerra global y de su determinación interna resulta ser la anulación del derecho de manifestación, el control molecular del territorio.

Bastaria esto para marcar los límites de la Europa en construcción y de su proceso constituyente: sociedad civil encarcelada, suspensión de derechos, criminalización del disenso. No obstante los 42 arrestos de la tarde anterior, la jornada del dia 13 tiene un éxito extraordinario (e inédito!) para el bloque de la desobediencia civil y social: 3.000 personas invaden la zona roja con protección de goma pluma y manos levantadas. La red escandinava de los desobedientes está compuesta por daneses del Global Roots, grupos finlandeses, noruegueses, suecos y alemanes del norte, y conectada con el movimiento italiano y español. Por la tarde nosotros italianos acupamos temporariamente la filial danesa de la Fiat, en solidaridad con los trabajadores pero também para alimentar un debate europeo sobre derechos, trabajo y ganancias. Al dia siguiente 25.000 personas, un número enorme para las mobilizaciones escandinavas, atraviesa Copenhagen y un nutrido grupo llega hasta la cárcel adonde están detenidos los 5 italianos (entre los cuales Luca Casarini y un redactor de Global Magazine), practicando inclusive acciones de desobediencia civil al avanzar por diversos lugares de bloqueo que la policia habia dispuesto en los trayectos no autorizados. Hablábamos de algo de extraordinário. La constitución de un espacio político europeo

del movimiento, ya iniciado en España, da con la determinación escandinava de participación un enorme salto de cualidad. Por la primera vez se define un perfil nuevo del conflicto ligado a la producción de consenso, a la práctica de la comunicación y del imaginario. Por la primera vez los elementos constitutivos de la práctica desobediente se afirman en un “territorio antagonista”, ya que el escandinavo le fue tradicionalmente hostil, polarizando en términos absolutos la atención de los mass média, descolocando las fuerzas del orden y la cultura consolidada al interior del movimiento norte europeo. Esta práctica política deviene también ámbito de relación y de elaboración de una posición nueva y “de límite” respecto al proceso constituyente europeo. La cuestión de la libre circulación de las personas y del saber, la deserción europea a la guerra global, la reivindicación de un proceso constituyente de la multitud, el espacio europeo como espacio de búsqueda y de experimentación política común, son elementos de innovación y de ruptura en la producción de sentido e de conflicto en las dos jornadas de la contracumbre, y es éste, sin duda, el patrimonio político más importante que se ha acumulado. Los arrestos, que fueron revogados la noche entre los dias 14 y 15, han funcionado como potente elemento de visibilidad, conjuntamente con el apasionante debate sobre la suerte de la falsa democracia turca. Una Europa más extendida pero con menos derechos, donde la cuestión central es la seguridad interna y externa, una Europa delegada y donde la esfera pública y los conflictos sociales no encuentran lugar. Todo esto al interno del “Bella Center”. Afuera, no obstante las medidas de control, nuevas experiencias de libertad, producción de relaciones nuevas, la construcción molecular y no delegada de otra Europa.

O movimento e a produção criativa de realidades Leonardo Retamoso Palma da rebelião argentina, numa amplificação planetária do laboratório argentino de desobediência social materializada no circuito de iniciativas de solidariedade e luta conclamadas pela rede de redes da Ação Global dos Povos. As recentes jornadas de Florença e Gênova 2002; as múltiplas jornadas contra a loucura da guerra imperial e, conjuntamente, o mais recente gesto do zapatismo, na materialidade das cinco cartas de Marcos e o apelo por “uma oportunidade à palavra”, em tudo isso, é a potência da multidão que afirma o horizonte constituinte e democrático do Império. Somente as lutas voltaram a ecoar lutas. O conteúdo das lutas que a multidão cooperante protagoniza passou a ser diretamente o da organização, organização da vida, do espaço, da produção, da sociabilidade. Trata-se sempre de produção, nada aquém, nada além, mas infinitamente sempre produção. Nesse caso, é o movimento de movimentos que vem criativamente produzindo novas e desejáveis realidades.

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Lutas

A difusão das práticas de desobediência, em escala global, inequivocamente vem desesperando os “homens tristes”. O movimento de movimentos vem sabendo afirmar a vida incondicionalmente e radicalizar o enunciado que apreende que “estamos em todos os lugares”. No modo difuso de expressar a complexidade de sua composição, o movimento de movimentos encontra a materialidade adequada para a expressão da potência multitudinária liberada. Assimetricamente, na desproporção das ações repressivas e regressivas, evidencia-se uma total inadequação, na pletora de violência, desrespeito e universalização do crime e do terror de todos os estados contra todas as populações, no arbítrio do mando e do controle. As prisões de ativistas do movimento, ocorridas na Itália em dezembro de 2002, represália tardia às jornadas multitudinárias de Gênova 2001; o incremento da repressão na Argentina e no México, o sistemático empenho na criminalização do movimento de movimentos nada tem alcançado interromper a mobilização e a disposição para a luta. Os dias 20 e 21 de dezembro testificam a potência


Resistências Tatiana Roque Realizado no Rio em 2002, o Colóquio “Resistências” subverteu a polaridade entre ação e pensamento ao reunir intelectuais, artistas e militantes na construção dos sentidos das resistências na sociedade contemporânea

Foto Silvana Marques

Ação e pensamento são inseparáveis. Partiu desta proposição a iniciativa de organizar o Colóquio Resistências, que ocorreu em novembro de 2002, no Cinema OdeonBR, em plena Praça da Cinelândia, local que testemunhou diversos modos de manifestação política ao longo dos anos. A tese principal do colóquio é a de que a resistência pode ser um conceito afirmativo, que não se define por aquilo a que, ou contra o que, se resiste; mas diz respeito à afirmação de um modo de existência. Trata-se de uma re-existência, já que, na atualidade, só a vida é capaz de resistir. A primeira pergunta, com a qual nos deparamos durante um ano de preparação deste evento foi: por que um colóquio? Assumimos que um ponto-chave, talvez o mais importante para qualquer força de transformação no Brasil, é a Universidade. No entanto, não se trata de defender a Universidade, produzindo greves e palavras de ordem, mas de sair da Universidade pela Universidade. Por isso fizemos um colóquio, para produzir um vetor de transformação das práticas instituídas na Universidade, a partir do que deveria ser sua principal preocupação: o pensamento. Os primeiros entraves institucionais logo se fizeram sentir. Alguns dos patrocinadores exigiam o enquadramento na lei de incentivo à cultura, esta mesma lei que transfere o encargo da aplicação do dinheiro público para os setores de marketing das empresas, mas nela não havia um item no qual encaixar um colóquio. Acabamos obtendo dinheiro público diretamente nas fontes, e um forte apoio de uma empresa privada do mundo da cultura, com perfil bastante politizado. Um outro exemplo mostra a rigidez da estrutura universitária: a que instância da universidade endereçar um projeto com esse grau de transdisciplinaridade, envolvendo professores de institutos diferentes? Não existe. A maioria dos trâmites foi feito a partir do Instituto de Matemática, tal o estranhamento que perpassou toda a organização. O contato com as instituições era incontornável e, não havendo instituições adaptadas, era necessário dobrá-las, levá-las até os seus limites, aproveitando para deflagrá-los. Durante os debates, fiéis ao axioma de inseparabilidade entre ação e pensamento, era preciso afirmar, ao mesmo tempo, que o pensamento não é uma abstração

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racional e que a ação é filha do rigor. Tal foi a primeira aventura do colóquio, testar as resistências da própria programação, reunindo, em sofás, para uma mesma rodada de discussões, físicos, artistas, críticos, filósofos, músicos, psis, sociólogos, pessoas de cinema e atores ligados à militância em movimentos sociais. Partindo de vetores distintos, possuindo um comitê de organização incluindo cada um desses vetores, tratava-se de colocar a resistência dos encontros à prova. Realmente, poucas foram as discussões partindo de ferramentas conceituais territorializadas. Algo estranho se passava. Nenhum discurso podia partir de seu próprio lugar após a intervenção, sempre inesperada, de um outro discurso que, ele também, não estava completamente à vontade. Após uma abertura mais conceitual, com Maurizio Lazaratto falando de biopolítica, Peter Pal Pelbart propondo uma comunidade não fusional e, eu mesma, uma definição de resistência como modo do real, a partir da filosofia de Jean Cavaillès; as intervenções foram bifurcando entre o depoimento do Ando, vocalista do AfroReggae, a intervenção de clínicos brasileiros e argentinos ligados ao grupo Tortura Nunca Mais e o relato emocionado de Paul Heritage; as proposições de Beppe Caccia e Marco Bascetta, do movimento italiano, a análise da situação argentina e os disparos de Lobão contra as mediações historicamente solidificadas na cultura nacional; a emocionada homenagem a Claudio Ulpiano; a inspiração da física, confrontada com a sabença do MST, a nova definição de utopia de René Scherer introduzindo a experiência de Totonho com os meninos de rua, todos atentando para o cuidado com as armadilhas internas que ameaçam capturar os movimentos de resistência. Quanto às linhas políticas, esboçavam-se três, que identificaremos a nomes próprios. Uma se insere , por assim dizer, em leitura de Guattari e de Deleuze, com suas análises sobre a evolução do capitalismo em direção à sociedade controle, na qual a resistência é pensada e definida a partir da produção de subjetividade. Outra destas linhas, ligada a uma outra leitura de Deleuze, mais próxima de Toni Negri, propõe uma sutil inversão de pressupostos, que pode ser resumida em uma frase pronunciada no colóquio: «ao invés da produção de subjetividade, pensar a subjetividade como produção». No encerramento do colóquio tivemos uma conferência de Alain Badiou, e a terceira linha seria ligada à proposição de que a política seja pensada a partir da política, indicando um perigo de transcendência na filosofia de Deleuze


Organização: Tatiana Roque Comissão organizadora: Alexandre Vogler, Bárbara Santos, Charles Feitosa, Cristina Rauter, Ericson Pires, Fernando Santoro, Giuseppe Cocco, Ivana Bentes, Luis Andrade, Luis Pinguelli Rosa, Marici Pasini, Peter Pal Pelbart, Ronald Duarte, Silvia Ulpiano e Suely Rolnik.

Risco de arte:

resistências Ericson Pires Propositadamente resistências: conceito antigo, desgastado, ambíguo, cheio de particularidades e ressonâncias, memórias problemáticas: decalques estanques, ressentidas narrativas. No espaço da produção artística, as resistências, se encontram geralmente associadas a trabalhos do chamado resgate cultural - pastiches essencialistas, melancólicos, eleitos em meio a crise quase total da ausência de referências contemporânea. No caso do colóquio: a palavra foi tentada, provocada, aberta, detonando processos críticos. Se para muitos produtores de arte basta agir artisticamente - quando muitas vezes essas ditas ações não passam de gestos de autopromoção, jogos publicitários como atividades artísticas, retóricas vazias, brinquedos efêmeros: construções de niilistas criativos – é necessário reavaliar. Urgente: Quando a arte não é pensada/realizada como um ato de resistência afirmativa ela é um gesto vazio. Agora, abrir: trabalhar outras potências, afirmar outras forças. Nesse sentido, o colóquio explicitou crises: a necessidade de pensarmos – novamente – projetos coletivos: sem autorias, sem individualismo carreirista (desconstruir a lógica star system como única/possível realidade), sem essas vazias discussões institucionais (galeria + museu = ?). Agora: coletivos, grupos, outros circuitos, espaços públicos, atacar/saquear meios/métodos de financiamento, utilizar o mercado problematizando-o, arrancando bolsas/financiamentos, construindo autonomia, independência, levar sempre ao limite: criar formas de ação e de relação dentro do tal mercado de arte, implodir. O colóquio apontou ainda para experiências históricas de artistas contemporâneos de outras gerações. Importante: perceber sem reproduzir, receber sem repetir, criar sem negar um imediato passado ainda em processo. Hélio Oiticica ainda não foi engolido! Resistências: escapar aos clichês, sacar os limites, articular as redes, romper os círculos viciosos do proselitismo de mercado, destruir os jabás e a corriola corporativa dos grupelhos da política cultural pública e privada. Afirmar o outro, o público, a geral, o carnaval das experiências, a cria-ação de redes de redes de coletivos que criam movimentos, que potencializam resistências. Criar. Resistir agora!

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Lutas

instituições abre brechas de entrada para as forças ativas. Isto nos livra do peso da tradição na qual as instituições européias se escoram e do semblante inabalável, rico e legal, of the american society. Mesmo sabendo que há riscos, de todos os lados, no contato com as instituições, é preciso arriscar estes riscos, dobrando as forças de captura sobre si mesmas e fazendo-as aparecer com a impotência produtiva que lhe é própria. É verdade que coisas muito estranhas e potentes podem, neste Brasil, tornar-se instituições, como o carnaval e a festa, e o colóquio resistências teve um clima de festa. Intuímos, ainda assim, que qualquer mudança profunda neste país deve passar pelo carnaval. Mas não o carnaval dos quatro dias de alegria e sensualidade, do samba, dos desfiles, da batucada. Este carnaval tornou-se já, por demais, institucional. Falamos do carnaval de Bakhtine. Como ele descreve, o carnaval na Idade Média se organizava em contraste com a extrema divisão da vida de todos os dias em estados e corporações, permitindo que os indivíduos experimentassem uma segunda vida que lhes permitiria inventar novas relações, propriamente humanas, que não eram fruto da imaginação, mas realizadas e experimentadas em contatos materiais e sensíveis. Isto é, o carnaval como o avesso das instituições. No riso e na festa é a vida que entra em cena, fundando um modo particular de existência. Aqui corremos o risco inverso, uma vez que o riso e a festa, como grandes potencialidades do Brasil, possuem, como efeito colateral, a enorme facilidade de se tornarem instituições. Daí a importância da comemoração da vitória do Lula. Fazemos festa no carnaval, festa pelo futebol, e ambas são bastante institucionais, raro é ver uma festa pela democracia, como no dia 27 de outubro de 2002. Do ponto de vista do riso, não importam as expectativas e a esperança, importa que fomos capazes de fazer uma festa de verdade, desinstitucionalizando o riso. O colóquio resistências foi, também, em pequena escala, sem pretender sê-lo, uma festa e o riso da festa, citando ainda Bakhtine, é ambivalente, nega e afirma ao mesmo tempo, morre e revive. E não poderia ser diferente, pois, no riso, as pessoas não podem excluir-se do mundo inteiro em evolução que é, ele próprio, inacabado.

Grupo Hapax

(pessoalmente, acredito que este perigo é injustificado, mas penso que esta pergunta é pertinente e precisa ser respondida). Permanecendo no contexto do colóquio, e afirmando seu pressuposto de abertura não aos diferentes pontos de vista mas ao seu devir -, convém não nos apressarmos em escolher um caminho. Se mantidas, tais tensões podem ser extremamente produtivas. Uma outra tensão entrevista nas discussões, diz respeito à ambigüidade da palavra resistência. Muitas vezes, contrariando a própria tese do colóquio, esta palavra foi empregada em seu sentido negativo e entrou em cena a pergunta: resistir a quê? Várias outras vezes, no entanto, a resistência foi dita e experimentada em seu sentido afirmativo. A fórmula que funciona é a da resistência como re-existência, como existência entre, fundando o comum. Poderíamos perguntar, e a pergunta chegou a ser formulada, por que manter a palavra, se queremos desviar o sentido? Esta é uma verdadeira questão. Por enquanto, desejamos manter uma ambigüidade produtiva, que está em consonância com a atualidade, isto é, com as próprias ambigüidades do movimento em construção. O equívoco foi, aliás, um indício produtivo da resistência do colóquio e temos um exemplo muito claro na reação da mídia. O evento foi muito bem anunciado e coberto, além da Internet e do boca-a-boca, saiu em todos os jornais, com matérias grandes em alguns dos mais importantes, e mesmo na televisão. No entanto, e este é o ponto interessante, em todas as mídias, impressas ou faladas, houve erros crassos: o colóquio pretende discutir uma definição «positivista » (my god!) de resistência; dentre os convidados estará Maurice Blanchot, o qual, evidentemente, apareceria em vídeo; a renda universal garantida é para que os homens não precisem fazer esforço, e assim por diante. Incompetência? Não importa, importa que isto venha revelar a absoluta novidade que este tipo de evento representa para a mídia carioca. Se era parte de nosso objetivo tornarmo-nos mídia, passando até pela própria mídia, esta revelou rapidamente seus limites. « Os jornalistas piraram!», pensamos por um momento, e demonstraram, mais uma vez, a força de manutenção que as instituições representam. Por outro lado, abre-se, deste modo, um imenso campo de ação. Seria possível passar ao largo das instituições? Pensamos que não, ao menos por ora. No Brasil, é impossível não passar pelas instituições, mas estas instituições são muito particulares. Atravessamos as instituições em todas as etapas, não para reforçá-las, mas para sabotá-las, desviá-las de suas cercas, de seu corporativismo, de sua força de reprodução do mesmo. Ao mesmo tempo em que reforçam a manutenção, como forças reativas, percebemos que a própria fraqueza e juventude de nossas


Anderson Sá

Minha

História

Nascido e ainda “me criando” na favela de Vigário Geral, Coordenador do Centro Cultural Afro Reggae Vigário Legal, vocalista, letrista e compositor da Banda AfroReggae, assistente de direção do espetáculo Nova Cara (da Banda AfroReggae).

Local onde se embala a droga. Amarram as mãos do torturado para trás e colocam um saco plástico na cabeça e pressionam o saco no pescoço asfixiando. 1 2

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Desde pequeno sempre fui muito observador, daquele tipo que presta atenção em tudo. Sempre fiquei atento ao que acontecia na vida dos amigos, parentes e as atitudes dos traficantes, naquela época os meus ídolos e heróis. Quando eu tinha 13 anos, o meu pensamento era ser o líder do narcotráfico na minha comunidade, a temida e ao mesmo tempo destemida, favela de Vigário Geral. Só que eu queria ser diferente, eu queria ser o “cara”. A minha intenção não era só ter o poder paramilitar dos bandidos, eu queria fazer uma revolução social, queria ser um “bandido solidário”, ajudar a minha comunidade, queria ser um mecenas local, pois com o dinheiro do crime eu queria doar alimentos, moradias, remédios para as famílias mais pobres, queria ter kombis para transportar os moradores nas necessidades emergenciais, como uma espécie de ambulância, queria construir um hospital, quadras de esportes, promover shows, eu queria ser um “revolucionário” do meu jeito, da minha maneira, não estava preocupado com o que a sociedade iria encarar como certo ou errado, eu seria a lei, eu seria o presidente, eu era o cara! É dessa forma que víamos, ou melhor, que vemos alguns traficantes. Eu me lembro que num desses dias, eu fiquei observando tanto a vida dos outros, e tinha um traficante conhecido como “Macaquinho” que me perguntou: “por que você tá me olhando?” Ele me olhava dentro dos olhos. Sem vacilar eu respondi: “Eu sou assim mesmo!” ele sentiu firmeza nas minhas poucas palavras e no meu olhar, a partir daí, surgiu uma amizade que depois, mesmo eu já sendo batizado e tendo padrinhos, ele me chamava e declarava que eu era o seu afilhado, me dava ingressos para o baile funk e etc, mas a vida do tráfico é uma coisa incerta, hoje você está por cima, amanhã você está debaixo de um palmo de terra. Pra minha tristeza, Macaquinho foi expulso da favela, e o novo chefe do tráfico era o Flavio Negão. Flavio tinha o seu “braço direito”, o Marcelo Maruim, que encarnava o papel do Macaquinho junto a mim e aos meus amigos da minha rua. Ele pagava comida da gente na lanchonete, nos levava para praia, dava dinheiro e etc. Ele também era o nosso protetor, pois ninguém se metia com a gente. Durante os nossos passeios pelas favelas onde tinham bocas de fumo, onde ele gerenciava, fomos no Dique de Jardim América daí que começamos a participar das endolações1, ficávamos até de madrugada na boca de fumo fazendo companhia pra ele. As vezes nós enterrávamos armas,

drogas, guardávamos dinheiro, atacávamos outras favelas e até presenciávamos mortes de pessoas que deviam ou eram inimigas dele. O resultado disto, Maruim morreu ganhando um tiro na cabeça por traição de um traficante da mesma quadrilha que a dele. Logo em seguida, o meu primo “Binho” virou o gerente do Dique no lugar do Maruim. A nova função dele não durou muito, pois ele não segurou a pressão e desistiu daquela vida, só que mesmo assim ele foi caguetado e preso, pois os policiais colocaram um fuzil AR-15 e cocaína como se tivesse pego ele em flagrante. Binho foi espancado e quase morreu pois lhe fizeram um tipo de tortura conhecida como submarino2. Ele passou alguns meses preso dentro de uma delegacia da policia civil mas por sorte foi julgado e absolvido por falta de provas. Atualmente trabalha como metalúrgico numa empresa do bairro. Um outro fato que me marcou profundamente foi a morte de dois grandes amigos que sempre estavam juntos da gente. Eles faziam parte do nosso dia a dia, mas optaram por uma caminho diferente do nosso. Eles se revoltaram e começaram a roubar. Fato banal, tratando-se de favela, e principalmente de Vigário. Eles foram mortos pela polícia depois que roubaram uma loja de móveis. Dessa vez muita coisa na minha vida, na minha mente mudou. Da minha turma de “amiguinhos” já contabilizei, 6 mortos e 7 presos e os que sobreviveram estão envolvidos com o tráfico. O Grupo Cultural Afro Reggae entrou na minha vida quando eu fiz 16 anos. Eu entrei no grupo pra fazer capoeira. Eu sentia uma grande atração por artes marciais, eu gostava de briga e de contato físico, mas com o passar do tempo fiquei conhecendo melhor as propostas sociais do Afro Reggae, os seus objetivos e ideais, a partir daí, eu passei a integrar a Banda Afro Reggae como capoerista. Nesse período, eu fazia um estágio na Eletrobrás como Office boy. Eu sabia que quando eu fizesse 18 anos o meu contrato terminaria por causa do alistamento militar. Assim que completei 18 anos e fui desligado da empresa, o Afro Reggae iniciou o projeto “Batidania – Batidas Pela Cidadania” oferecendo cursos de guitarra, baixo, aulas de história, dança de salão e confecção de instrumentos de capoeira. Eu sempre gostei muito de reggae, por isso, eu escolhi o instrumento que faz parte da “cozinha básica” desse ritmo jamaicano, o contra-baixo. Devido ao meu bom desempenho, fui avaliado pelo professor que eu tinha condições de estar tocando na Banda AfroReggae.


Sou negro mesmo e daí !!! a briga saíram correndo, com razão, só que elas deixavam as suas bolsas e objetos pelas areias. “Naturalmente” as galeras de Parada de Lucas e de Vigário pegaram. A concepção do arrastão não foi criada pelo favelado e sim pelos veículos de comunicação. A partir da divulgação desse fato é que o “arrastão” passou a se institucionalizar. 3) A chacina de Vigário Geral, onde 21 pessoas inocentes foram brutalmente assassinadas por policiais militares. As fotos da barbárie mostraram a nossa realidade vivida, ou melhor, sobrevivida diariamente. Vigário ressurgiu das cinzas assim como o pássaro mitológico, Phoenix. O Afro Reggae chegou no momento certo nas nossas vidas. Agora, eu, coordenador do Centro Cultural Afro Reggae Vigário Legal, ter sobre a minha responsabilidade mais de 400 jovens alguns da minha idade. Eu fui motivo de chacota por vários moradores. Achavam que na primeira crise, eu seria substituído, ou que o Junior iria vir correndo me salvar. Muitas vezes, eu pedi ajuda mesmo. Uma das minhas funções era negociar com o tráfico local as visitas e atividades que atraiam pessoas de fora da comunidade. Os bandidos sabiam que o meu trabalho era tirar os jovens do tráfico e mesmo assim eles me respeitavam, eles sabiam que eu não era um inimigo, até porque eu fui criado junto com eles e posso dizer que éramos amigos, a questão era o lado que cada um escolheu. Sofri, temi, mas venci. Cumpri o meu papel, pois enveredei pelo espírito empreendedor e busquei reverter quadros e estatísticas. Não queria mais sofrer pela morte dos meus amigos e dos meus vizinhos, agora nós tínhamos uma opção. Agarramos a cultura como o nosso “salva vidas” e lutamos para mostrar que negros, pobres e favelados podem dar certo. Parte do meu sonho começou a dar certo com as minhas inúmeras incursões na favela, no diálogo com Parada de Lucas em prol de um bem comum, a manutenção da paz e do respeito pela vida humana. Vivo numa cidade sitiada, onde meninos e meninas se matam por causa da droga. A droga é a única chance deles mudarem de vida, seja pelo dinheiro que gera ou pelas sensações. É esse falso pensamento que vem dizimando inúmeras gerações no Rio de Janeiro. Em 1998 fiz a minha primeira viagem internacional, conheci o chamado “velho mundo”. Foi lá que conheci melhor o meu país, as minhas origens africanas e a minha condição de “homem do terceiro mundo”. Utilizei o conhecimento adquirido na favela

como um instrumento transformador e reverberador de vidas. As nossas palestras, workshops e shows causavam um grande impacto na vida das pessoas dos países por onde passávamos. Muitos esperavam ver um grupo de “menininhos da favela” ou uma organização “pedinte”. Essa não era a nossa, poderíamos não ter a mesma condição financeira ou social, mas tínhamos a nossa consciência conectada com os nossos objetivos de mudança e de inclusão. Na volta ao Brasil tudo mudou, passamos a ser encarados como artistas. Preferimos artistas-sociais, pois desempenhamos em cima do palco a vida de milhões de brasileiros que vivem abaixo da linha da pobreza e que não têm perspectivas. Agora eu passei a ter! Esse foi o meu primeiro pensamento. Passei a circular entre as diversas classes ou “castas” sociais da minha cidade. Vi o quanto esse tipo de função que eu estava exercendo poderia atrair outros jovens. A cada dia, a cada momento, eu passei a me capacitar mais e mais, quanto artista, quanto empreendedor social e ativista favelado. É isso! A luta pela igualdade produziu dentro de mim um desejo famigerado de falar e muitas vezes de gritar, dançar e lutar. Se quando eu era garoto, os meus ídolos eram os bandidos, hoje eu passei a ser ídolo de vários meninos de várias favelas. Atuo diretamente nas favelas onde o Grupo Cultural Afro Reggae tem seus Núcleos Comunitários de Cultura e onde somos convidados para fazer shows, palestras e integração comunitária. O grande desafio institucional do Grupo Cultural Afro Reggae é tirar jovens do tráfico e tentar costurar a paz entre as comunidades. Será que é possível? Só o tempo e muito investimento nessas comunidades poderão responder nos próximos anos.

Lutas

Eu fui o primeiro baixista da banda. De capoerista passei para músico. Meses depois fui escolhido para ser um dos cantores. Teve um projeto que foi fundamental na minha formação, o GerAção – criado pelo Betinho e em parceria com o Viva Rio e o IBASE. Esse projeto consistia na integração de jovens de classe média com a gente da favela. Paralelamente, o Júnior (Coordenador Executivo) estava conversando comigo sobre um projeto novo, a construção de um Centro Cultural dentro da comunidade, pois até então, só tínhamos um pequeno barraco onde realizávamos as oficinas de dança, percussão, capoeira e os ensaios da banda. No meio da conversa ele falou que queria formar um jovem da própria comunidade para coordenar o Centro Cultural. Eu achei a idéia muito interessante, só que de repente, ele disse que esse jovem era EU! Na hora eu disse que não, pois o meu sonho era ser marinheiro e também me achava muito novo. Ele me explicou que eu seria capacitado e que no momento certo eu iria estar a frente desse projeto. Ele acabou me convencendo. Eu com 18 anos, passei a coordenar o Centro Cultural Afro Reggae Vigário Legal, na favela mais temida e violenta do Brasil até aquele momento, era uma responsabili-dade muito grande da minha parte e pra alguns uma irresponsabilidade muito grande do Junior em me colocar naquela função. Vigário ficou marcada por 3 fatos que mancharam o nome da Cidade do Rio de Janeiro: 1) A maior guerra do narcotráfico do país. Foram 10 anos de guerra entre Vigário (da facção Comando Vermelho) contra Parada de Lucas (da facção Terceiro Comando). O que acontecia nessa guerra, estupro, mortes, saques, desrespeito as leis básicas de Direitos Humanos. Nós éramos proibidos de passar na fronteira, vários moradores que não eram bandidos tiveram que pegar em armas. Nós éramos embalados quando crianças, não por canções de ninar, mas sim ao som de tiros, estampidos de granadas e gritos de dor. Vi muita gente ser morta e torturada pela policia e pelos bandidos. A lei da favela é diferente das leis da sociedade. O traficante é o “senhor” da vida e da morte, ele é a mistura do poder executivo, legislativo e judiciário dentro da favela. 2) O arrastão da praia do Arpoador, onde as galeras que curtiam baile funk de Vigário e Parada de Lucas se encontraram e promoveram uma pancadaria. A diferença dessa vez é que a briga não foi nos “bailes da vida” foi na Zona Sul, as pessoas quando viram

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Um efeito sobre a vida Da crítica às contra-cúpulas à necessidade de enraizamento social. Reflexões sobre o segundo ciclo de lutas globais. Luca Casarini entrevista Naomi Klein Depois do período dos grandes conflitos iniciado em Seattle, passando por Gênova, pode-se dizer que um primeiro ciclo de lutas globais tenha chegado ao fim? Penso que estamos diante da conclusão de um primeiro ciclo, mas isto não significa que o movimento tenha acabado. É parte de seu desenvolvimento exaurir-se e abrir uma nova fase. Acabou o tempo em que podia-se estar, simplesmente, do lado de fora das cúpulas, sob o sol, a gritar slogans. Hoje é necessário coligar-se com as questões verdadeiras, com as lutas quotidianas, dia após dia, contra as injustiças. Por exemplo, em Sevilha, na ocasião da contra-cúpula (movimento de resistência à cúpula oficial,n.t.) européia sobre os imigrantes, um grupo de cinqüenta trabalhadores imigrados ocupou a universidade depois de terem perdido seus contratos temporários de trabalho. Sevilha e a Espanha estavam em greve e houve um nível considerável de auto-organização.

Isto muda bastante a percepção e mesmo, creio, a cobertura da mídia: porque era fácil demais fazer a paródia das contra-cúpulas. Há uma tendência, em geral, onde se vê muita gente do movimento transferindo-se de um summit a outro, pensando participar de uma espécie de "revolução em miniatura", cujo único objetivo é trazer mais pessoas para as ruas. E assim, todas as nossas ações tornam-se ações simbólicas, enquanto a realidade da qual falamos torna-se cada vez pior. Há, por outro lado, uma tendência em direção contrária nas escolhas das ações que produzem algum efeito sobre a vida real das pessoas. No mundo inteiro estamos assistindo a um crescimento global das ações diretas: como em Soweto com o comitê sobre a crise da energia elétrica, no Brasil com o Movimento dos Sem Terra, até as assembléias que organizam a vida das comunidades na Argentina. Um outro grande exemplo destas ações diretas e não simbólicas é o que está acontecendo na Austrália, onde foi construído um centro de

Tradução Tatiana Roque

detenção para imigrantes, como uma espécie de campo de concentração, no meio do deserto, em uma ex-base militar gerida de modo privado e circundada por homens armados das forças de segurança. O deserto australiano é um símbolo antigo de uma terrível história de genocídio. Então os poderosos pensaram "ninguém está lá, ninguém vê, logo podemos usar tranqüilamente as armas, podemos assassinar os índios, porque ali não há ninguém". É a mesma lógica, uma lógica genocida: o deserto como espaço de reclusão das vítimas da economia global. Houve um movimento de massa na Austrália, jovens que decidiram se meter no meio do caminho, viajar quinhentos quilômetros e libertar muitos dos imigrantes reclusos no deserto. Paradoxalmente, os arames farpados estão se tornando o símbolo da globalização. A globalização era tida como a nova era na qual não haveria mais barreiras e seu ícone era a queda do muro de Berlim. Ao invés disso, treze anos depois, estamos circundados por muros e barreiras. Este novo

Ação afirmativa e produção de direitos Alexandre do Nascimento* No Brasil, o movimento social negro, desde o fim do período escravista, luta por liberdade, por integração social, por reconhecimento dos valores de matriz africana, por igualdade de oportunidades, por universalização de direitos, por democratização das relações e instituições sociais. Entretanto, o racismo ainda é um desafio na sociedade brasileira, fortemente marcada por quase 400 anos de escravismo negro que produziu relações raciais assimétricas e imensas desigualdades sociais entre brancos e não-brancos (negros e indígenas), com notórias vantagens e privilégios para a população considerada branca. O racismo está intimamente relacionado com a produção e a perpetuação da desigualdade e da pobreza; a própria formação das classes sociais no Brasil tem no racismo, nos preconceitos e nas discriminações raciais, importantes determinantes, uma verdadeira barreira que os descendentes de africanos passaram a enfrentar após o fim da escravidão. O racismo compromete qualquer dinâmica social que se pretende democrática (tanto a estreita democracia liberal da direita, quanto a democracia de massas defendida por setores da esquerda). Sob o impulso do movimento negro, a luta contra os preconceitos, as discriminações e as desigualdades raciais colocou em pauta o

debate sobre políticas específicas para enfrentar o problema, as chamadas Políticas de Ação Afirmativa. Do ponto de vista do movimento, as ações afirmativas são lutas de afirmação de identidade, produção e universalização de direitos; em termos de políticas públicas, as ações afirmativas constituem-se através de intervenções nas instituições com o objetivo promover a igualdade de oportunidades entre os diversos grupos sociais, sobretudo entre os grupos étnico-raciais de uma sociedade. Esse é o sentido das cotas raciais, dos programas educacionais, das políticas de acesso e permanência nas universidades e das políticas de valorização cultural, todas defendidas pela maioria dos ativistas do movimento negro. A aprovação do Estatuto da Igualdade Racial, que tramita no Congresso, é um importante passo a ser dado. Outro importante passo a está a cargo do novo governo, que anuncia políticas para diminuir as imensas desigualdades sociais atreladas ao racismo. O mínimo que se pode esperar, na agenda política de luta contra a desigualdade, é a implementação de ações afirmativas profundas destinadas a promover a diversidade e produzir igualdade racial, condição essencial para a democratização dos direitos, para o desenvolvimento econômico, social e cultural, para a erradicação da pobreza e para a constituição material de uma dinâmica social mais justa.

* Integrante do Movimento Pré-Vestibular para Negros e Carentes (PVNC) da Rede de Cursos Pré-Vestibulares Populares. Contatos: alex.nasc@uol.com.br.

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É verdade, certamente, que não temos estrutura, e nem uma teoria muito desenvolvida, para dar o próximo passo. Penso que a rede funciona bem para organizar as iniciativas de protesto, mas não o bastante para dar continuidade entre este momento e a capacidade de construir comunidade. Trata-se de aumentar a cultura da participação, não apenas pelas ocasiões das cúpulas, mas em cada aspecto de nossas vidas. O primeiro objetivo é o de pensar e imaginar um novo tipo de comunidade, que desenvolva raízes, sem nenhuma nostalgia em relação a qualquer idéia bíblica de cidade perfeita. Estas novas raízes devem casar nossa idéia de internacionalismo com nosso conceito de multidão. Falo de raízes porque nos tornamos desenraizados: há uma fraqueza, a nossa fraqueza, que consiste em falar de comunidade sem sermos capazes de vivê-la. Esta é a razão que levou a Argentina até este ponto, para aprendermos com tudo o que está acontecendo neste país. Aí há uma verdadeira crise, onde todas as instituições estão colapsadas; mas não se trata de uma verdadeira revolução porque este colapso não foi determinado pelos movimentos sociais. As instituições desabaram sob o peso da própria corrupção e da mentira deste modelo econômico. Cresceu, então, um movimento de oposição, muito grande, que tinha por palavra de ordem: "Que se vayan todos", "fora todos". Esta é a primeira fase. A próxima consiste na pergunta: "e agora, o que se passa?". Creio que devemos olhar a Argentina, porque aconteceu alguma coisa que todos poderíamos experimentar, mas que ocorreu ali de um modo muito mais intenso. Muitas idéias estão emergindo para fornecer uma resposta a esta pergunta. E não temos muito tempo, porque o poder e a direita também estão se organizando: o próximo presidente poderá ser um Silvio Berlusconi local, um multimilionário que soube conjugar o mundo do futebol com o da mídia. Não é uma questão abstrata, mas muito concreta: como podemos fazer crescer um movimento fortemente descentralizado sem que ele seja cooptado? Desafiando os princípios da democracia representativa, que mecanismos discutem a própria representação, de modo real e não retórico? Se ele não elege os representantes, quem elege? Se todos os políticos

Fotos Radio Sherwood

Logo, podemos dizer que este segundo ciclo de lutas globais depois do 11 de setembro, e de Gênova, precisa recuperar a potência constituinte das ações diretas e a idéia global de uma rede social capaz de desenhar um outro mundo possível…

são, por sua natureza, genuínos canibais, o que fazer para não dar-lhes carta branca? O que está acontecendo na Argentina pode ocorrer em qualquer lugar: os partidos de esquerda, como o partido sectário marxista-leninista, vêem as assembléias exatamente como vêem os movimentos globais, somente como energia a ser enquadrada. Não têm fé na democracia. O único político que podia estar nas ruas, tranqüilamente, durante os panelaços, dizia: "a verdadeira questão está entre quantos crêem ter nascido para dirigir e quantos para obedecer". A linha divisória está entre quem trata as pessoas instrumentalmente, como massa de manobra, e quem pensa, ao contrário, na possibilidade de que os indivíduos sejam capazes de tomar decisões sozinhos. Creio ser necessário, depois do 11 de setembro, desenvolver uma teoria para o movimento que seja radicalmente antifundamentalista, capaz de demonstrar a conexão entre fundamentalismo religioso, fundamentalismo econômico e político. Devemos ser capazes de identificar que homens são os portadores desta ideologia, que pensam ter em mãos seu livro sagrado, e dizer-lhes que não há, para eles, nenhum espaço. Mesmo que usem a linguagem da esquerda radical, não são, de modo algum, radicais. Dissemos que o primeiro ciclo de lutas globais centrava-se nas cúpulas e na economia capitalista. Me parece que este segundo ciclo é centrado na guerra global permanente. Qual é a discussão sobre este tema nos Estados Unidos e no Canadá, depois do 11 de setembro? É análoga a que está em curso na Europa: estamos falando das conexões entre militarismo e economia. Temos as novas cercas e esta é a violência: não podem pensar, deste modo, excluir tanta gente do bemestar, sem prever uma estratégia simultânea de contenção. E esta estratégia assume muitas faces: o arame farpado que circunda as fábricas no México e nas Filipinas, para manter as organizações sindicais à distância, com guardas armados, significa a militarização do modelo econômico. Pensamos nos arames farpados nas fronteiras, que servem para manter os imigrantes fora da fortaleza-Europa. Depois do 11 de setembro, contaram que uma conspiração havia acabado com o período de paz e de bem-estar: creio que este argumento desabou junto com as Torres Gêmeas. Não há mais separação entre uma discussão sobre economia e uma discussão sobre guerra; devemos ligar estes temas, porque mostram a violência intrínseca deste modelo econômico.

Lutas

ativismo, esta nossa nova militância, visa derrubar todas as cercas. É o que está acontecendo também no Estado de Israel.

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Esquizo

cenia a vida como capital biopolítico

Peter Pál Pelbart

Toda noite, do alto de sua torre, o prefeito de Gotham esbraveja indistintamente contra magnatas, prostitutas e psiquiatras. Promete mundos e fundos, o controle e a anarquia, o pão e a clonagem. Mas nessa noite, antes de entrar em cena, ele pede um Lexotan. Mal consegue acreditar no que vê: Marta Suplicy vai assistir a peça. O prefeito da cidade imaginária não sabe o que fazer com a prefeita da cidade real: protestar, competir, seduzir, acanhar-se? Gotham-SP tem também um imperador muito velho. Quase cego, quase surdo, quase mudo, ele é o destinatário de vozes perdidas. Em vão: nem o imperador caquético nem o prefeito que vitupera têm qualquer poder sobre o que se passa na cidade, menos ainda sobre o humor dos que nela sussurram. “Aqui faz frio”, repete a moradora em seu cubículo, e conclui: “Se amanhã o hoje será nada, para que tudo?” Um passageiro pede companhia ao taxista, que apenas ecoa suas lembranças e temores. A diva decadente busca a nota musical impossível, Ofélia sai de um tonel de água atrás do amado, os anjos tentam entender onde pousaram, Josué ressuscitado reivindica uma outra ordem no mundo... Falas sem pé nem cabeça, diria um crítico – mas elas se cruzam agonisticamente numa polifonia sonora, visual, cênica, metafísica.. Vozes dissonantes que nenhum imperador ou prefeito consegue ouvir, nem orquestrar, mas tampouco abafar. Cada um dos seres que comparece em cena carrega no corpo frágil seu mundo gélido ou tórrido... Uma coisa é certa: do fundo de seu isolamento pálido, esses seres pedem ou anunciam uma outra comunidade de almas e corpos, um outro jogo entre as vozes – uma comunidade para os que não têm comunidade. A comunidade dos celibatários Talvez a companhia de teatro Ueinzz seja para eles algo desta ordem. Passam meses no marasmo de ensaios semanais insípidos, às vezes se perguntam se de fato algum dia se apresentaram ou voltarão a apresentar-se, alguns atores desaparecem, o patrocínio míngua, textos são esquecidos, a companhia ela mesma parece uma virtualidade impalpável. E de repente surge uma data, um teatro disponível, um mecenas ou um patrocinador, o vislumbre de uma temporada.. O figurinista recauchuta os trapos empoeirados, a 1900 se compromete a doar aos atores a pizza inescapável que precede cada apresentação, o boca a boca compensa uma divulgação mambembe, atores sumidos há meses reaparecem, às vezes fugidos até de uma internação... Um campo de imantação é reativado, prolifera e faz rizoma. Os solitários vão se enganchando, os dispersos se convocam mutuamente, um coletivo feito de singularidades díspares se põe em marcha, num jogo sutil de distâncias e ressonâncias, de celibatos e contaminações – no que Guattari chamaria de um “agenciamento coletivo de enunciação”. Vidas precárias, práticas estéticas Seria preciso ousar um salto extravagante: ler esse agenciamento teatral no contexto biopolítico contemporâneo. Pensar essa experiência específica à luz da relação entre “vida precária” e “prática estética”, tal como ela se apresenta nas condições do capitalismo atual. Para tanto, proponho três exemplos extraídos de universos muito diferentes, mas que trazem à tona uma dimensão essencial a certas práticas estéticas que se poderia chamar de “menores” . Eis o primeiro exemplo. Um grupo de presidiários compõe e grava sua música: o que eles mostram e vendem não é só sua música, nem só suas histórias de vida escabrosas, mas seu estilo, sua singularidade, sua percepção, sua revolta, sua causticidade, sua maneira de vestir, de “morar” na prisão, de gesticular, de protestar – sua vida.

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Vampirismo insaciável É o caso de meu segundo exemplo. Em 2000 fui contactado por uma ONG de índios (Ideti) para acompanhar a vinda a São Paulo de duas tribos do Xingú, que queriam marcar presença na comemoração dos 500 anos do Descobrimento. Pretendiam apresentar a força de seu ritual e oferecer ao presidente uma carta aberta em que declaravam nada ter para comemorar. Mas como evitar que a apresentação de seu ritual, uma vez levada a um palco iluminado, se diluísse na mera espetacularização, inclusive televisiva? A forma de vida que queria salvaguardar-se, caso não tomasse muitos cuidados, corria o risco óbvio de ser deglutida como folclore. É o que aconteceu com a maravilhosa exposição de arte indígena na Oca do Ibirapuera, que tive o triste privilégio de visitar ao lado dos índios “vivos”. Na saída o cacique Xavante me desabafou, num rompante de nietzscheanismo tropical: “tudo isso é para mostrar a vaidade de conhecimento do homem branco, não a vida dos índios”. Nunca ficou tão claro o quanto a assepsia de um museu encobre de violência e genocídio – tema benjaminiano por excelência. O domo branco de Niemeyer, a superfície lisa, as curvas sensuais dos corrimãos metálicos, a luminosidade cuidada – tudo ali ajudava a ocultar que cada objeto exposto era espólio de uma guerra. Não havia uma gota de sangue em toda a exposição. A morte fôra expurgada dali, mas também a vida. Não reencontramos, nessa museologização da cultura indígena, nosso vampirismo insaciável? Vida e capital Último exemplo. Arthur Bispo do Rosário é um dos mais destacados artistas da atualidade no Brasil, se é que se pode chamar seu trabalho, feito ao longo de anos de internação num hospício, de artístico, ele que tinha uma única obsessão na vida, registrar sua passagem pela terra para o dia de sua ascenção ao Céu, momento para o qual preparou seu majestoso Manto da Apresentação, onde está inscrita parte da história universal. Os museus, críticos de arte, pesquisadores, colecionadores, psicanalistas, o “mercado” tomaram de assalto essa vida singular, seu diálogo direto com Deus e com todas as regiões da terra, de modo que essa missão celestial tornou-se objeto de contemplação estética, como era de se esperar, embora tenha semeado nos modos de se conceber a relação entre arte e vida sua dose de estranheza. Três trajetos, três destinos: um bandido vira pop-star dentro da cadeia, ou recusa justamente o mercado com o qual ele mantém uma distância crítica (gravadora independente, etc.); o índio se indigna com o modo pelo qual os brancos empalham os signos de sua vida; o louco é catapultado para a esfera museológica, à sua revelia. Nesses exemplos todos, vem à tona a relação ambígua e reversível entre vida e capital. Ora a vida é vampirizada pelo capital – chame-se ele mercado, mídia ou sistema da arte –, ora a vida é o capital, isto é, fonte de valor, e é sempre tênue a fronteira entre um caso e outro. Em todo caso, se no contexto mais amplo o capital se apropria hoje da subjetividade e das formas de vida numa escala nunca vista, sobretudo no que se convencionou chamar de trabalho imaterial, requisitando a inteligência, a criatividade e a afetividade dos trabalhadores (sua “alma”), é preciso reconhecer o avesso dessa situação, a saber, o fato de que a subjetividade ela mesma tornou-se um capital biopolítico de que cada um dispõe, virtualmente, loucos, detentos, índios, mas também todos e qualquer um e cada qual com a forma de vida que lhe pertence ou que lhe é dado inventar – com conseqüências políticas a determinar.

Subjetividade e capital biopolítico É nesse horizonte, a meu ver, que seria preciso situar a experiência de teatro à qual nos referimos no início. Se é a subjetividade que ali é posta a trabalhar, o que está em cena são maneiras “menores” de perceber, de sentir, de vestir-se, de mover-se, de falar, de pensar, mas também um modo peculiar de representar sem representar, de associar dissociando, de estar no palco e sentir-se em casa simultaneamente, de transitar entre a esfera da arte e da vida, nessa presença precária, feita de chumbo ou de vento, que leva tudo extremamente a sério e ao mesmo tempo “não está nem aí”, como disse certa vez Lívio Tragtenberg: ir embora no meio do espetáculo atravessando o palco com a mochila na mão porque sua cena já acabou, ora largando tudo porque chegou a sua hora e vai-se morrer em breve, ora interferir em todas as cenas como um líbero de futebol, ora conversar com o seu ponto que deveria estar oculto... A cantora que não canta, como Josefina, a dançarina que não dança, o ator que não representa, o herói que desfalece, o imperador que não impera, o prefeito que não governa, a comunidade dos sem-comunidade... Não consigo deixar de pensar que é esta vida em cena, “vida por um triz”, que faz com que tantos espectadores chorem em meio às gargalhadas: a certeza de que são eles os mortos-vivos, que a vida verdadeira está do lado de lá do palco. Num contexto marcado pelo controle da vida (biopoder), as modalidades de resistência vital também proliferam. Uma dessas maneiras é pôr literalmente a vida em cena, não a vida nua e bruta, como diz Agamben, reduzida pelo poder ao estado de sobrevida, mas a vida em estado de variação, modos “menores” de viver que habitam nossos modos maiores e que no palco ganham visibilidade cênica, legitimidade estética e consistência existencial. No âmbito restrito ao qual me referi aqui, o teatro pode ser um dispositivo, entre outros, para a reversão do poder sobre a vida em potência da vida. Afinal, na esquizocenia a loucura é capital biopolítico. Mas o alcance dessa afirmação extrapola em muito a loucura ou o teatro, e permitiria pensar a função de dispositivos multifacéticos – ao mesmo tempo políticos, estéticos, clínicos – na reinvenção das coordenadas de enunciação da vida. Nas condições subjetivas e afetivas de hoje, com as novas formas de “ligação” e de “desligamento” que caracterizam a Multidão contemporânea, e que se deixam ler na “comunidade dos que não têm comunidade”, um dispositivo “minúsculo” como o que apresentamos ressoa com as urgências maiúsculas do presente.

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Fotos João Caldas

Lutas

Seu único capital sendo sua vida, no seu estado extremo de sobrevida e resistência, é isso que eles capitalizaram e que assim se autovalorizou e produziu valor. É claro que num regime de entropia cultural essa “mercadoria” interessa, pela sua estranheza, aspereza, diferença, visceralidade – e vários filmes recentes atestam essa tendência – ainda que facilmente também ela possa ser transformada em mero exotismo de consumo descartável.

A Cia Teatral Ueinzz é composta por pacientes e usuários de serviços de saúde mental, terapeutas, atores profissionais, estagiários de teatro ou performance, compositores e filósofos, diretores de teatro consagrados e vidas por um triz. Fundada há cinco anos no interior do Hospital-Dia “A Casa” em São Paulo, a trupe consolidou-se como companhia autônoma, e recentemente se desvinculou por inteiro do contexto hospitalar. Com três peças dirigidas por Sérgio Penna e Renato Cohen, e música de Wilson Sukorski, e um total de quase 50 apresentações, boa parte no Teatro Oficina, e mais recentemente no KVA, a trupe conquistou sua independência e maioridade. Talvez seja o único grupo no gênero, em todo o Brasil, e um dos poucos no mundo. www.ueinzz.cjb.net/


Os “novos municípios” Municipalismo, conflitos e globalização • Gianfranco Bettin e Beppe Caccia Tradução Guilherme Bueno

Foto Ronald Duarte

O processo de globalização investe e atravessa, violentamente, os territórios. O território é desfigurado e colocado – literalmente – “de pernas para o ar" por esta dinâmica aparentemente irrefreável: o espaço do local, o seu ambiente e os seus recursos, o tempo de vida das multidões que o habitam se tornam variáveis dependentes das exigências do mercado planetário. A máquina da produção global torna a plasmar, portanto, o território “a sua imagem e semelhança”, instaurando uma relação direta e unidirecional entre fluxos e poderes supra e transnacionais e dimensões locais. Os efeitos deste processo explicam certamente a crise – vertical e irreversível – do espaço econômico e político nacional, mas também algumas das características mais inovadoras do “movimento dos movimentos”. Seu manifestar-se irregular, condensando-se na contestação radical das cúpulas dos “potentes”, é longamente preparado a partir da concretização de uma multiplicidade de percursos de organização e de luta que no “local” encontram a sua natural e efetiva posse. E isto, em virtude do fato de que propriamente nas cidades, nos “locais”, se mostram mais evidentes as contradições entre valorização de uso social e exploração capitalista do território, entre a produção coletiva e cooperativa da riqueza social e a lógica da apropriação privada daquilo que é “comum”, entre necessidades e desejos da multidão e interesses para o proveito dos poucos. Não é casual que os interlocutores privilegiados do movimento sejam governos muncipais e administradores locais. Tal relação entre movimento global e cidades globais é rica de potencialidades, e põe no cerne de suas iniciativas as questões da democracia participativa e do auto-governo local. Podemos hoje em dia contar com uma linguagem partilhada por diversos administradores locais das mais diversas proveniências geográficas e políticas, que cruzaram nestes anos as experiências de movimento, conflitos particulares e pon-

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tuais, atividades associativas e de voluntariado, experiências de empreendimento social e cooperação. Esses encontros constituíram velhos e novos direitos, como aqueles afirmados na Carta dos direitos do homem nas Cidades (promovida por Barcelona, Veneza e Saint Denis e subscrita por mais de uma centena de cidades do mundo todo) e conceitos como aqueles afirmados na Carta do novo município (lançada propriamente em Porto Alegre em janeiro de 2002), um ponto de partida utilíssimo. Ao mesmo tempo, não podemos esquecer a relação constituinte que o “novo município” mantém com o conflito social: sem conflitos não há nenhum novo município! Tal relação tem um valor duplo: interna, na comunidade em que se produz uma experiência de auto-governo e externa, na relação entre o município e o mundo. No que diz respeito ao primeiro ponto, é evidente como a crise da democracia representativa e de suas formas institucionais não seja apenas o resultado de uma “revolução vinda de cima”, mas também o fruto de um impulso vindo “de baixo”:- do manifestar-se da inadequação da representação em face das dinâmicas produtivas e sociais da multidão e do crescimento de uma capacidade autônoma de cooperação, autoorganização e auto-regulação social que não delega mais a instâncias superiores as sínteses de um presumido “interesse geral”. É fundamental, neste ponto, começar a enfrentar o ambivalente e escorregadio conceito de comunidade. Seremos capazes de dar novo sentido, afirmativo e liberatório, à dimensão da comunidade? Estaremos habilitados a definir o nosso viver em comum, o nosso habitar os lugares da comunidade de seus caracteres necessariamente projetuais? Seremos capazes de transformar a dimensão "destinada" da comunidade em “comunidade de projeto”, em decisão a favor da comunidade ? Transformar a comunidade de destino em comunidade de projeto significa acertar as

contas com todas aquelas visões que, ao contrário, a reduzem a uma interpretação organicista e, conseqüentemente, fechada da comunidade. Significa, pois, reconhecer que a passagem da comunidade de destino para a comunidade de projeto não é um processo linear: ligado às suas dimensões constituintes e aos conflitos que as alimentam. Não é possível substituir uma idéia de comunidade orgânica excludente por uma sua imagem orgânica pacificada. Precisamos justamente da experimentação de formas inéditas de participação a partir das lutas sociais reais, construindo institutos intermediários da democracia participativa que não se prendam à enunciação formal de “cotas de orçamento” para participar, mas que verifiquem a potencialidade de um entrelaçamento fecundo entre, por um lado, as lutas e, por outro, o desenvolvimento de formas de cooperação social extra-mercantil e as perspectivas de transformação que estas abrem para toda a comunidade. Esse discurso é ainda mais importante no que diz respeito a relação entre o “novo município” e o mundo. Temos que colocar o nosso raciocínio sobre a democracia participativa, sobre o auto-governo local, também na perspectiva da construção de redes de cidade solidárias e cooperantes: cidades novas, que troquem entre elas suas experiências de participação direta e de bem-estar comunitário, por exemplo na constituição dos direitos dos “novos cidadãos” (os imigrantes) ou da garantia universal de uma renda social de existência (de cidadania). Gianfranco Bettin e Beppe Caccia são, respectivamente, vice-prefeito e secretário de políticas sociais de Veneza. As considerações deste artigo nasceram também das discussões ocorridas no 09 de dezembro último, que envolveram – além das cidades de Barcelona (Espanha) e Saint Denis (França) – diversos administradores locais italianos, dentre os quais Eva Catizone e Franco Piperno (prefeito e assessor de Consenza), Nunzio d’Erme e Fabio Galati ( conselheiro municipal delegado da democracia participativa e assessor de políticas sociais do X Município de Roma), Alessandro Bom ( vice-prefeito de Gorizia ).


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