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COMEÇOU A ERA GIL! Os ecos da consagradora vitória do Presidente Lula no segundo turno ainda não tinham se acalmado, quando o ministro das relações institucionais apressou-se a afirmar que a “era Palocci tinha acabado”. Foi uma declaração que pretendia, corretamente, dar conta da correlação de forças que, paradoxalmente, foi “forçada” pelo segundo turno. Resultado de um massacre midiático indecente e antidemocrático, o segundo turno transformou-se, para a oposição, em um “gol contra”, não apenas pela vasta mobilização que levou Lula à vitória, mas também pela radicalização antineoliberal dos temas da campanha. Por isso, com aquela declaração, Tarso Genro apenas enfatizou a nova situação política. O FHC pode fazer mostra de sua vaidade e declarar que ele “sempre ganhou” no primeiro turno. Mas o fato é que – dessa vez – a eleição de Lula não foi previamente homologada Até as fórmulas dos marqueteiros expressaram esse deslocamento: o “lulinha paz e amor” foi substituído pelo “deixa o homem trabalhar”. Mas, se a era da ortodoxia econômica personificada pelo então ministro da Fazenda e pela rígida política monetária do COPOM (as altas taxas de juros) está ultrapassada, em que era estamos entrando? Fala-se, agora, de crescimento, de “destravar” o país. A oposição – hoje personificada pela grande mídia monopolista – foi reanimar os velhos cadáveres e tenta, a posteriori, pautar um segundo mandato Lula. Tratar-se-ia de “cortar” gastos para alavancar investimentos e, com isso, o crescimento. É o velho discurso de sempre: crescer para distribuir! Conter os “gastos” (sociais) para fazer “investimentos” (econômicos). Um discurso que não é apenas monopólio da direita mas, infelizmente, de parte da esquerda também. Para além de um discurso ou outro, o finalzinho do primeiro mandato Lula foi marcado por duas notícias que, ao mesmo tempo, contradizem essa pauta e indicam um novo horizonte. A primeira notícia foi a de aumento do salário mínimo acima do receituário da ortodoxia da contenção dos “gastos” em favor dos investimentos. Com isso, Lula afirma claramente a manutenção do norte fundamental da distribuição de renda. A segunda notícia foi a da permanência de Gilberto Gil no MinC. Não se trata apenas do reconhecimento do trabalho de Gil e de sua equipe para construir uma política pública da cultura que até então resumia-se ao escandaloso subsídio público a um (falso) mecenato privado destinado ao “lazer” dos salões chiques. Nem tampouco do reconhecimento da presença mundial que a gestão de Gilberto Gil imprime à cultura brasileira. Enfim, não se trata apenas da mudança de pauta da

cultura, mas de se ter a cultura como pauta. É o reconhecimento de que a cultura pode se inserir (e já se inseriu) no debate sobre o modelo social e econômico que está em construção. A produção da cultura é, hoje em dia, o terreno fundamental de organização da produção em geral no capitalismo contemporâneo. Nunca na história da cultura tivemos tantas possibilidades de descentralização dos meios de produção. Equipamentos digitais, câmeras de vídeo, câmeras fotográficas, equipamentos para músicos, Djs, produtores de audiovisual, computadores pessoais. softwares livres, uma enorme capacidade em duplicação de Cds, livros, música que colocam em xeque o direito autoral tradicional e fazem vislumbrar um capitalismo do excedente e da possibilidade da livre circulação do conhecimento. Mas, sem uma infra-estrutura comum (redes de TV, telefonia e internet pública e gratuita), o gargalo se fecha num mercado monopolizado por emissoras de Tvs e operadoras de telecomunicações. A Cultura na Era Gil vislumbrou grupos e territórios locais apontando saídas possíveis, rompendo com o velho “nacional-popular” populista e paternalista ou idéias engessadas de “identidade nacional”, propiciando as expressões das cidades globais, com suas questões e problemas comuns. Na nova politica cultural o produtor de cultura passa a ser visto como parte de um precariado global hiperprodutivo; são produtores sem salário nem emprego, mas com múltiplas ocupações. São os trabalhadores do imaterial, portadores de novas reivindicações, novas linguagens e lutas, como a da renda universal, que assegure condições para viver/trabalhar/expressar num mercado pulverizado e fragmentado. Os Pontos de Cultura do Minc, a batalha pelo software livre apontaram para esse modelo embrionário, que viabiliza a infra-estrutura para a produção e expressão do comum. Sair da era neoliberal não significa mudar de modelo e ainda menos ter a ilusão de poder “voltar” à antiga – e nunca concretizada – trajetória de industrialização nacional. Para sair de verdade da “era Palocci” é preciso apreender as novas linhas de conflito, as novas dinâmicas de luta, a potência produtiva que o capitalismo contemporâneo captura e valoriza. A era alternativa é, pois, a “era Gil”, ou seja, a era da construção de políticas públicas que assumem como teatro de radicalização democrática e mobilização produtiva a cultura em seu sentido mais amplo. A centralidade do MinC não é apenas o fato da recuperação de sua dimensão “pública”, mas também a produção da dimensão estratégica do trabalho das linguagens. Busca-se assim a construção de um “comum” que abre um espaço de democracia radical que, ao mesmo tempo, rompe com a lógica maniqueísta entre os endeusadores do Estado ou os satanizadores do mercado. Editorial 1 GLOBAL


Comitê Editorial e Coordenação Executiva Alexandre do Nascimento Alexandre Mendes André Barros Barbara Szaniecki Caio Márcio Silveira Ecio de Salles Ericson Pires Fábio Goveia Fábio Malini Francisco Guimarães Geo Britto Gerardo Silva Giuseppe Cocco Ivana Bentes Leonora Corsini Maria José Barbosa Patricia Fagundes Daros Pedro Cláudio Cunca Bocayuva Peter Pál Pelbart Rodrigo Guéron Ronald Duarte Tatiana Roque Conexões Globais Antonio Negri (Itália) Franco Ingrassia (Argentina) Javier Toret (Espanha) Luca Casarini (Itália) Marco Bascetta (Itália) Michael Hardt (Estados Unidos) Nicolás Sguiglia (Espanha) Raul Sanchez (Espanha)

Participaram deste número / Textos Adriana Prates Alberto Cipiniuk Alexandre do Nascimento Alexandre Mendes Alexandre Ribeiro Wanderley André Barros Antonio Negri Barbara Szaniecki Brian Holmes Bruno Cava Cláudio Manoel Consuelo Lins Eduardo Rozenthal Fábio Malini Fernanda Bruno Gerardo Silva Gustavo Spolidoro Leonora Corsini Luiz Antonio Correia de Carvalho Madson Oliveira Maria dos camelôs Maria José de Souza Barbosa Paula Ávila Kepler Paulo Domenech Oneto Pedro Gabriel Delgado Pedro Mendes Peter Pál Pelbart Rodrigo Guéron Simone Sampaio Telma Lilia Mariasch

Conselho Editorial Adriano Pilatti Alexandre Vogler Ana Monteiro André Basseres André Urani Charles Feitosa Emanuele Landi Eugênio Fonseca Fernando Santoro Hermano Viana João Almeida Sobrinho Joel Birman Jô Gondar Kiko Neto Leonardo Palma Lorenzo Macagno Luis Andrade Luiz Camillo Osório Mauro Sá Rego Costa Simone Sampaio Suely Rolnik

Participaram deste número / Imagens André Santangelo Bruno Vieira Christian Franz Tragni Coletivo Apocalipse Crew Coletivo BijaRi Coletivo Entorno Coletivo 16Beaver Cristiana Miranda Daniela Bezerra Isabela Lira Lhwolf Lígia Teixeira Luis Iacobucci Maria Mazzilo Martha Niklaus Marta Mencarini Moema Branquinho Patrícia Glayds Renan Cepeda Roberto Bellini Romano Ronald Duarte Quadrinhos Zé Colmeia

Patrocínio

Realização LEI DE INCENTIVO À CULTURA

Co-realização

GLOBAL. 2 Sumário

Revisão dos Textos Fábio Goveia Fábio Malini Leonora Corsini Ruth Reis Tradução dos Textos Jadir Feliciano dos Santos Leonora Corsini Design Do Lar Design Ltda / Barbara Szaniecki Pesquisa de Imagem Ronald Duarte Capa Coletivo BijaRi Jornalista responsável Fábio Luiz Malini de Lima GLOBAL Brasil é uma publicação da Rede Universidade Nômade, da Do Lar Design Ltda e da DPeA Editora. Rua Joaquim Silva, 98 - 2o andar Lapa Cep 20241-110 Rio de Janeiro RJ Tel 55 21 3873 5435 / global.al@terra.com.br GLOBAL Brasil é a edição brasileira associada ao GLOBAL PROJECT www.globalmagazine.org

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Projeto selecionado pelo Programa Cultura e Pensamento 2006 Seleção Pública de Projetos Editoriais de Debates em Periódicos Impressos


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brasil

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(01) Editorial Trânsitos (04) Reforma ou revolução? Luiz Antonio Correia de Carvalho (06) A política do nada e o nada de política Paulo Domenech Oneto (08) Entrevista a Maria dos camelôs por Alexandre Mendes, André Barros e Barbara Szaniecki (10) A TV digital e o precariado da comunicação Fábio Malini Conexões Globais (12) O comunismo do capital global Antonio Negri (16) Argentina: democracia ou república? Gerardo Silva (18) Se não há justiça, há “escrache” Telma Lilia Mariasch (20) A fortaleza cubana Pedro Mendes Universidade Nômade (21) A liberdade não é uma batata Peter Pál Pelbart (24) Identidade, para quê? Leonora Corsini (26) A educação é estratégica para o desenvolvimento Alexandre do Nascimento Maquinações (27) Por entre as “brechas” do poder Coletivo 16Beaver entrevista Brian Holmes (30) Psicanálise hoje: do gozo da atuação ao prazer da argumentação Eduardo Rozenthal (32) Os CAPS: a revolução silenciosa da saúde mental Pedro Gabriel Delgado (34) Passageiros da segunda classe Alexandre Ribeiro Wanderley (36) Resistência e vigor cultural: o caso dos morangos de Itapajé Alberto Cipiniuk e Madson Oliveira (38) Estéticas da vigilância Fernanda Bruno e Consuelo Lins (40) A cultura do remix Adriana Prates e Cláudio Manoel (42) O pobre na telinha Simone Sampaio (44) Cinema para além do mercado Rodrigo Guéron entrevista Gustavo Spolidoro (46) A multidãõ na Bienal de São Paulo Paula Ávila Kepler e Bruno Cava (48) Eu sou Ana Júlia e também sou você Maria José de Souza Barbosa

Os artigos assinados são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem necessariamente a opinião da revista.

Sumário 3 GLOBAL


Em entrevista a Carta Maior, Wanderley Guilherme dos Santos, tal qual Spinoza, lembra, de outro jeito, que a palavra cão não late e nem morde. Ou seja, desanima os que esperam da mudança da norma (voto distrital, voto em lista, fidelidade partidária...) a salvação ex machina da chamada crise política brasileira. Esclarece que “as provas, as evidências e os argumentos comprovando que não existe relação sistemática entre tipos de sistema político-eleitoral e nível de corrupção ou desempenho de desenvolvimento é dado pela História”.

Para radicalizar a democracia, Partido dos Trabalhadores vive o dilema de fazer emergir uma nova política partidária que se livre dos neófitos por negociatas sem adotar o velho lema moralista da pureza da representação política

Luiz Antonio Correia de Carvalho

reforma ou revolução ? GLOBAL 4 trânsitos

Feita a advertência quanto aos falsos poderes das panacéias alardeadas pelos homens da cobra que infestam nossos espaços públicos, avança, entretanto, alguns dos pontos que deveriam compor uma agenda voltada para o fortalecimento da democracia brasileira: a federalização do país e a constitucionalização. Quanto à constitucionalização, registra que “o Estado brasileiro não foi preparado para administrar uma sociedade democrática. É um Estado oligárquico preparado para administrar para pouca gente. Para o resto da população é porrada, polícia. Agora somos 180 milhões. O Estado brasileiro não tem condições de garantir as vigências dos preceitos constitucionais no território brasileiro. Tornar cada brasileiro detentor de direitos, esteja onde ele estiver, é crucial, fundamental, e tem a ver com a Reforma do Estado.” O PT do sertão Fundador e militante apaixonado do Partido dos Trabalhadores, gostaria de usar o mesmo remédio para o partido. Mais do que novas leis ou regimentos, é preciso fazer cumpri-los, em toda sua extensão e em todo território. Um partido socialista e democrático de massas, ou social democrata à vera, não pode degenerar em abrigo de seitas mais ou menos criminosas, onde do lado de fora não se cumpre a lei, e muito menos dentro do partido. Se, ao invés de um instrumento na desoligarquização do país, o PT se transforma no abrigo pirata de novas oligarquias ou cleptoleninistas, como contar com ele para reformar o Estado brasileiro de maneira a transformá-lo numa alavanca para a vigência do direito de todos? È claro que não digo isso por estar impressionado com as denúncias diárias dos que assumem publicamente que querem governar apenas para 60 milhões, como chegou a assumir o PSDB que, para o resto, propõe apenas estender o curto cobertor de uma rede de proteção social. O PT não é um Mobral contemporâneo, em que alguns jovens estudantes levaram a alfabetização política às favelas, sertões e furos amazônicos do Brasil. O PT foi construído, ao mesmo tempo, em São Bernardo, SP e em Gurupá, PA. Ganhava a prefeitura de Diadema, ao mesmo tempo em que gan-


hava a prefeitura de Gurupá, na várzea paraense. Em Diadema, com um egresso da histórica diretoria do sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo. Em Gurupá, sob a liderança dos sindicalistas rurais que organizavam as comunidades ribeirinhas. Enganam-se os que pensam que o PT chegou agora aos grotões. O PT também veio de lá e por isso, no governo, sabe onde o calo dói. O PT, nas cidades e no “sertão” quer o poder para quê? Justamente, repetindo as palavra de Wanderley Guilherme, para “tornar cada brasileiro detentor de direitos”. Alguns se deixaram corromper e passaram a buscar vantagens individuais, por vezes pela via criminosa? Claro. Já lá naquela prefeitura de Diadema. Lá, um também histórico diretor metalúrgico de São Bernardo, nomeado chefe de gabinete, logo esqueceu ou nunca compreendeu a missão histórica do partido e usou o cargo que tinha para melhorar

seu limite do cheque especial e, foi indo, foi indo, acabou nos braços do Maluf. Ideologia? Conversa. Fatos como esses, impediram a chegada ao poder do PT e que este, mesmo em governo de coalizão, governasse para todos? O que deu o tom do governo Lula? O banditismo? Mas se o Tribunal de Contas, conta; o Ministério Público, investiga; a Polícia Federal, policia; e o governo federal, distribui, por que deixar de acreditar e lutar?

Constitucionalizar o PT Tudo que nasce, merece morrer. Se articulações ou campos majoritários foram criados, amalgamando defensores de táticas e estratégias opostas, para o bem da democracia partidária, para evitar que grupos sem representatividade social dominassem suas convenções e, por sua vez, degeneraram em grupos secretos, neófitos de negociatas, seitas paralelas que entronizaram e deram bons charutos a novas oligarquias e ornitorrincos de

plantão, que partido brasileiro, por outro lado, pode convocar um congresso e, de baixo para cima, substituir direções, abrir o partido à influência social, gerar novas pautas de direitos e continuar liderando pobres da cidade e do campo na luta por políticas inclusivas? A direita só finge desejar a constitucionalização do país. Já o esquerdismo infantil nem considera isso bandeira respeitável. História se faz todo dia. Constitucionalizar o Brasil, constitucionalizar o PT: devemos essa palavra de ordem ao mestre Wanderley. Quanto às vivandeiras de tribunal e falsos defensores da lei, basta a palavra de ordem que temos bradado contra os provocadores tucano-canibalpefelistas: é ou não é piada de salão, a turma da Daslu, gritar pega ladrão!

Performance de lavagem do Planalto, do Grupo Entorno, Brasília. Foto de André Santangelo.

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Mudanças de caráter

A política do nada

macro-político só poderão acontecer no Brasil quando o próprio modo de se fazer política for criticado Paulo Domenech Oneto A política oficial tem sido incapaz de levar a qualquer tipo de mudança estrutural na sociedade brasileira, e isto por se cristalizar numa cadeia que se estende do modo de se pensar e fazer política (reduzido a acordos eleitoreiros, objetivos econômicos e espetacularização) até a lógica social que ele propaga (marcada por um embaralhamento das esferas pública e privada). Diante disso, podemos dizer que assistimos a uma verdadeira política do nada que domina as instituições políticas oficiais. A tese aqui implícita é radical: tomo por princípio que mudanças de caráter macro-político – ou seja, mudanças que tocam as instituições-vértebras de uma sociedade – só podem se dar quando o próprio modo de se fazer política, ao lado da lógica social que ele promove, é criticada. E uma vez que o assunto não merece sequer uma alusão nas discussões de gabinete, na mídia monopolizada ou nas ruas, nossa política segue agindo de si para si mesma, como uma superestrutura semi-autista. A política que tem por objetivo primordial a própria manutenção e os mesmos modelos de realização capitalista – independentemente do fato de nascer do voto direto, de alguma transparência, dos programas sociais que elabora e de boas intenções – só pode ser uma política do nada. O grande problema é que ainda acreditamos (ou fingimos acreditar) nesse domínio de gabinetes e debates sobre os mesmos assuntos e entre os detentores dos mesmos cargos; e também na redução da “realidade brasileira” ao que passa na TV e que está nas capas de jornais e revistas pasteurizadas para consultórios médicos. É um problema gravíssimo, pois isso tem servido para dar boa consciência aos que ganham com GLOBAL 6 trânsitos

Performance de lavagem do Planalto, do Grupo Entorno, Brasília. o sistema e para seduzir com a figura do voto – festejado em propagandas como meio para mudar a vida social – os mais desconfiados, fazendo-os esperar algo dos políticos, quando o sistema que sustentam não pára de dar mostras de nada ter a dizer, e pouco poder fazer, sobre os modos concretos de existência da população. Não se trata de querer que negligenciemos o papel e a influência dos núcleos políticos oficiais ou mesmo de colocar toda a mídia sob suspeita, mas de fazer ver que a vida social não acon-

tece ali. Trata-se de desnudar nossa incapacidade crônica de buscar outras estratégias políticas, que não partam apenas dos fatos selecionados pela mídia nem dependam da política oficial, mas que ponham em risco ambas as instâncias. Todavia, parece que um dos principais caminhos para dar impulso a uma busca por novas estratégias se encontra bloqueado. Refiro-me à trilha que se abre por meio das idéias que uma sociedade consegue e permite veicular, além do formato padrão, protocolar e midiático que domina a tradição ocidentalizada moderna.


e o nada de política

dois recentes colóquios organizados por acadêmicos e intelectuais genéricos, títulos que soam como eloqüentes confissões: “o silêncio dos intelectuais” e “o esquecimento da política”. Devemos, claro, perguntar: que silêncio, que intelectuais, que esquecimento e que política? Ora, se nos referimos a idéias que destoam dos lugares-comuns divulgados pela mídia, incapazes de ameaçar a política do nada, há sim um silêncio quase ensurdecedor. Porém, não se trata de um silêncio dos intelectuais, e sim de alguns intelectuais mais midiáticos que – por coincidência ou não – estão entre os organizadores dos colóquios mencionados. Estamos diante de uma primeira confissão embaraçosa, de pensadores que nada têm a dizer. E, neste caso, é melhor que se calem mesmo, de fato, para dar espaço aos que produzem idéias diferentes dos clichês em curso. Da mesma forma, se a política de que se falava no outro colóquio é a política oficial do nada, é melhor esquecê-la de vez, para que nos dediquemos todos – intelectuais ou não – à política em sentido forte, isto é, à política como ação pela criação de meios concretos para mudar a vida social. Mas a política do nada está longe de ser esquecida. E é preciso notar que a tendência a esquecer a política como ação social constitui nossa própria cultura intelectual, mesmo hoje, sob novas formas. O esquecimento existe, mas ele acontece no meio dos próprios intelectuais, que desde a ditadura estão mais preocupados em requentar idéias progressistas e defender carreirismo e promiscuidade com a mídia do que em recordar o que quer seja. Eis uma segunda confissão, de esquecidos atávicos que resolveram não apenas falar em “capitalismo cognitivo” como também encarná-lo.

Foto de André Santangelo. Caminho bloqueado? Mas como esse caminho poderia estar bloqueado se aprendemos que ele foi criado, desenvolvido e até aperfeiçoado pela efervescência intelectual de sociedades como a nossa, ditas “democráticas”? Haveria algo de “errado” com o Brasil? Pensadores como Kierkegaard ou Nietzsche já ensinavam, há mais de um século, que pensar radicalmente é pensar contra si mesmo (contra os papéis que encarnamos) e que isso nunca foi fácil de se obter quando os objetivos gerais de uma sociedade se

reduzem a manter determinados modos de vida. No Brasil, o papel desempenhado pelos ditos intelectuais sempre foi mitigado, devido justamente ao fato de serem quase todos eles oriundos e dependentes de uma elite social que se via como “à parte”, tendo mais a fazer fora do que dentro do país. De fato, talvez tenha sido necessário todo esse tempo pós-ditadura (20 anos) para que nossos pensadores ultra-orgânicos pudessem começar a suspeitar mais de seus lugares, indo além da desculpa da falta de espaço na mídia para, enfim, se questionarem. Encontramos assim, em

Assim, silenciados e esquecidos, os caminhos para a criação de estratégias políticas novas só poderão ser reabertos quando os lugares e objetivos intelectuais mudarem, quando as recentes alianças carreiristas e midiáticas forem rompidas. Até lá, devemos continuar vivendo o duplo da política do nada: o nada de política. E como no mundo da política também é mais fácil promover o nada do que nada promover, é possível que continuemos por um bom tempo condenados à política oficial, ao voto e às vozes pretensamente dissonantes de uma mídia hipócrita. Trânsitos 7 GLOBAL


Compro e vendo imagens, interferência urbana do Coletivo BijaRi: Um camelô que vende imagens da exclusão ao invés de passes de ônibus e metrô; partindo desta ação, questiona-se para quem e com quais valores a cidade está sendo construída, quais imagens podem ser exibidas.

“O camelô não vai sair da rua” Entrevista a Maria dos camelôs, militante do Movimento Unificado dos Camelôs – MUCA. Alexandre Mendes André Barros Barbara Szaniecki

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Global - Como teve início o Movimento Unificado dos Camelôs (MUCA)? Para atender a que desafios? Maria - Sempre quando falo do movimento dos camelôs, gosto de voltar lá atrás, quando a gente resolveu se organizar na rua. Eu tenho um filho de três anos e lembro que quinze dias após ter esse bebê, depois de ter feito uma cesariana, eu estava na rua e os guardas vieram correndo na minha direção. Eu desci a Rua da Quitanda correndo, mas não agüentei mais correr, minha barriga começou a doer, e parei na Rua do Ouvidor. Quando achei que eles tinham passado, eles vieram me bater e me bateram muito, tive que voltar para o hospital e fiquei mais quinze dias internada na Praça XV porque minha cesariana tinha arrebentado toda. Aí voltei, reuni uns camelôs na rua e buscamos o PT. Quando chegamos, conversaram com a gente e ligaram para a CUT, que convidou a gente pra cá. Daí, no dia primeiro de julho, nós fizemos o primeiro ato que reuniu bastante gente.

Global - Todas as ações contra os camelôs envolvem formas de violência? Maria - Sempre. Antes conseguíamos trabalhar na rua... pagando... Depois da organização do movimento, começaram a pegar a mercadoria da gente, aí começamos a perder tudo. A guarda municipal entra na rua batendo. Sempre foi muito violenta. Hoje sou muito visada, tenho até que botar alguém para trabalhar pra mim. Sempre que vou pra rua apanho. De repente tomei uma paulada nas costas e me machuquei. Bateram em muita gente. Fui, então, para o hospital e para a delegacia fazer o corpo de delito. Global - O município argumenta que os direitos sociais não se aplicam aos trabalhadores informais, e que o trabalho informal até prejudicaria os trabalhadores formais. Qual é o papel do movimento na universalização desses direitos a todos os trabalhadores? Maria - O que a gente escuta é que o camelô vende mercadoria pirata, que


não paga imposto, etc. O que acontece é que a gente paga sim! Quando eu compro minha mercadoria no Saara, eu pago imposto. Eu faço compra no mercado e pago imposto. O que a querem mesmo é espancar o pobre, que não deve trabalhar na rua... Deviam ter vergonha na cara de chamar o camelô de bandido... Global - Quais são as principais reivindicações do movimento e como elas podem ser conquistadas? Maria - O que pode ser conquistado com o atual prefeito é nada! Ele nem recebe a gente, chama a gente de baderneiro. Existe uma lei que diz que numa calçada que tenha mais de três metros pode ter uma barraquinha. Mas essa lei não está sendo cumprida. Aliás, tem um monte de lei que está sendo descumprida. Vamos trabalhar em cima disso, estamos preparados para a briga, só não vamos abaixar a cabeça e vamos trabalhar de qualquer maneira! Global - É verdade que a prefeitura tem o apoio dos comerciantes? Maria - Parece que tem mas, quando apertamos mesmo a cidade e ninguém trabalha, os guardas somem rapidinho. Várias vezes quando as lojas fechavam os guardas sumiam rapidinho e todo mundo voltava a trabalhar. Tem lugar, em que os comerciantes queriam que a gente voltasse porque a gente chama gente. Os camelôs incentivam as vendas. Global - Frequentemente os trabalhadores informais são acusados de promoverem a desordem urbana e atrapalharem o turismo. Qual a importância da ocupação do espaço público pelos trabalhadores na produção de renda para esses trabalhadores e na socialização dos direitos: renda, cultura, propriedade, direitos sociais, etc? Maria - Eu não trabalho com pirataria, mas acho que é a mesma coisa da bijuteria que eu faço. Você vai na loja e acha a mesma bijuteria que eu faço por R$29,90 e vendo por R$5,00. É a mesma coisa com a pirataria. O cara compra uma mídia, grava e vende por R$5,00. Por que a loja não vende por esse preço? Quando o cara vende um cd por R$39,00, ele está dizendo: você não tem direito à cultura! Eu só vou ouvir aquela música quando ninguém mais quiser e

ela estiver mais barata. Trabalhei muito em Ipanema. A população de lá tem grana e fica esperando os camelôs chegarem. E aí, compra relógio, compra dvd, compra cd, compra bolsa da Louis Vuitton. Só sei que o preço do cd e do dvd tem que baixar! Você não tem condição de comprar um filme por R$60,00! Já o camelô vende por R$10,00! Ilegal é passar fome, é colocar filha pra vender balinha no sinal! Global: Vocês travam efetivamente uma luta importante na medida em que alimentam uma série de outros movimentos, por exemplo, o do acesso à cultura, o de outras formas de renda e de cidadania. Embora muitos se beneficiem, vocês são muito estigmatizados. Como reverter a imagem negativa do camelô em termos midiáticos, por exemplo? Maria - Eu lembro de uma vez que estávamos na rua, saiu uma briga e a televisão estava filmando. No dia seguinte estava no jornal: “Guarda Municipal estava parada e camelôs tacam pedra”. Estava todo mundo parado e os guardas entraram batendo em todo mundo. A televisão é assim, cansei de dar várias entrevistas no jornal e no dia seguinte mudavam tudo! Ficava com muita raiva! É muito difícil, a mídia bate muito na gente, muito mesmo! Tudo que a gente fala é distorcido, eu não dou mais entrevista de jeito nenhum! Com a repressão, o camelô não tem opção de trabalho... Tenho pena de ver pessoas que têm cabeça fraca, estão trabalhando, apanham e vão paro o morro. O que podem fazer? Eles têm que comer e têm que morar... Aí vão para o morro e acabam morrendo! Global: Como é a relação entre camelôs e ocupações urbanas? Na ocupação tem camelô, tem catador de papel, ou seja, tem sujeitos que reivindicam o direito de viver na cidade, o direito a uma outra inserção produtiva na cidade. Maria - Pra mim a ocupação foi tudo! Eu morava em Japeri, gastava duas horas de trem, uma hora e vinte de van, gastava dinheiro com a passagem, pegava engarrafamento e tinha dia que eu não conseguia nada! O tempo que eu ficava na condução me distanciava de meus filhos. Eu gosto muito da ocupação e 98% das pessoas que moram lá

são camelôs. O resto é velho aposentado. É muito bom porque podemos nos reunir e conversar sobre os camelôs. Estamos agora reunindo também os moradores de rua. Global - Tem gente que acha que o trabalhador informal quer ser um trabalhar formal. Isso é verdade? Como seria o trabalho dos sonhos? Maria - Acho difícil o trabalhador informar querer ser formal. Tem gente que é camelô mesmo e tem gente que é desempregado. O camelô não quer outro emprego não. Quer ser legalizado e ficar ali. Gosto do que faço, gosto de vender bijuteria, e não é nem em barraca não! Ficou ruim, gosto de mudar de lugar. Ter patrão, ter horário, Deus me livre! Só quero trabalhar sem ter que correr. Estou numa situação crítica, não posso mais ficar na rua, sempre perco tudo. Todas as vezes que vou pra rua, levo um prejuízo! Mas é a maneira que encontrei de viver melhor e dar comida para os meus filhos. Quando eu trabalhava de carteira assinada, ganhava um salário mínimo. Sem condições. Tinha que pagar aluguel e alguém para tomar conta do meu filho, que era muito pequeno, e sobrava o quê? Não sobrava para a comida! Hoje não! Hoje eu pago a babá, o aluguel, meus filhos levam dinheiro para o colégio, etc. Com carteira-assinada não tinha nada disso. Era aquilo e acabou. O camelô não vai sair da rua, vai apanhar e ficar ali. Global - Isso desconstrói aquele discurso, típico de políticos, de que o pobre quer emprego, quer carteira-assinada. Na verdade ele quer renda e autonomia, não é? Maria - Com certeza! O importante é isso! Eu não quero emprego! Mas quero trabalhar! Global - E as universidades? Procuram vocês? Maria - Sim. Eles fazem muitas pesquisas. Nós conversamos com todo mundo. Por exemplo, projetos para mudar o prédio na ocupação, etc. Mas até agora só vimos projetos. (risos) Global - E o papel da RENAP – a rede nacional de advogados populares? Maria - muito importante. Se não fosse a RENAP tava todo mundo preso. (risos) Trânsitos 9 GLOBAL


A TV Digital e o precariado da comunicação Fábio Malini

Adoção do modelo japonês para a TV digital demonstrou o fracasso da atuação da sociedade civil que, sem apoio dos produtores culturais, defendeu um modelo retrógrado em que o Estado é o ator principal da comunicação pública. O ano de 2006 foi um fracasso para quem luta em favor da democratização dos meios de comunicação do país. O padrão digital japonês foi adotado como o modelo para a televisão digital brasileira (e possivelmente será também adotada na Argentina). Certo? Claro que não. Por que um modelo que permite interatividade, mobilidade, portabilidade e alta definição é um retrocesso? Os ongueiros da comuGLOBAL 10 trânsitos

nicação dizem: "Ah! Porque beneficiou os rádio-emissores (leia-se, a TV Globo)". Até a adoção do modelo japonês de TV digital, o que se viu foi um embate protagonizado em três espaços: entre oligopólios, entre setores do governo e no interior da própria "sociedade civil". No primeiro caso o conflito se estabeleceu entre as emissoras de TV e rádio contra as teles. O confronto foi vencido pelas emissoras, já que, com o modelo japonês, elas podem oferecer conteúdos para cada um dos nossos potentes celulares. Já a guerra no governo teve sua expressão maior no embate entre Helio Costa (apoiando o broadcasting) e Fernando Furlan (apoiando as teles). E uma surpreendente terceira via apareceu: Gilberto Gil. O ministro da cultura surgiu com um discurso contra seus dois pares. Representava um sujeito estranho: o precariado da comunicação, ou seja, uma gama de produtores de audiovisual, software, literatura, cinema, teatro etc, existentes e sobreviventes num mercado que não era de broadcasting e que emergiram, por um lado, por conta de uma política cultural ousada do Ministério, que aparelhou a sociedade com toda uma parafernália tecnológica; e, por

outro lado, por conta de uma produção que está totalmente articulada em redes locais e até globais de produção. Globo e Estado são a mesma coisa Enfim, o terceiro embate foi o mais ideológico. E também o mais impotente. Foi liderado pelos já conhecidos grupos que pertencem ao Fórum Nacional de Democratização da Comunicação (FNDC). Esses grupos, oriundos da belíssima luta contra o monopólio que marca o setor, não sabiam se defendiam o padrão nacional – uma versão beta de relativo sucesso – ou o europeu, uma tecnologia que ainda não possuía nem mobilidade, nem portabilidade e uma interatividade a ser melhorada. Para eles, o modelo japonês, apesar de ter tudo (interatividade, portabilidade, mobilidade, alta definição etc.), era do interesse do inimigo, a Globo. Esses militantes que crêem que só o Estado democratiza a comunicação aprontaram o seu discurso: "Fora Rede Globo, a TV Digital é do Estado!" E Gil dizendo, "Não, não, a TV Digital é nossa, é dos muitos. Não há como produzir tanto conteúdo sem a participação do precariado. É algo irreversível!” Sinceramente, se continuar assim, as lutas da FNDC continuarão não tendo ressonância alguma na sociedade. Isto porque elas se articulam em torno da


Cópia Livre - ação de inserção no circuito informal, Coletivo BijaRi. A fim de difundir a discussão sobre cópia livre e experimentar o desprendimento de um produto autoral, realizamos a produção de um trabalho em 2 fases gerando 2 vídeos com tiragem inicial de 100 cópias para distribuição gratuita aos vendedores piratas e ao público interessado em geral. O conteúdo poderia ser reproduzido, distribuído e mesmo comercializado. O primeiro vídeo contém um depoimento conceitual sobre a cópia livre e uma compilação de animações subjetivas feitas em outro contexto, reeditadas sob a ótica do tema, com trilha sonora do grupo Perda Total. A ação de distribuição pelo centro foi registrada e incorporada à mídia anterior, gerando uma nova tiragem de cópias também distribuída gratuitamente em novas ações e no espaço expositivo.

crença que o Estado é o guardião da comunicação livre quando, na realidade, foi ele quem construiu as bases para o oligopólio. A coisa mais ingênua dessa turma foi acreditar que ao receber mais de 100 canais de televisão a comunicação se tornaria mais democrática. Esqueceram do que já acontece com as rádios. Tem muito espaço no espectro, mas o Estado só libera uma nova estação de rádio para políticos, donos de faculdade ou religiosos. Então o problema da comunicação não é só a oligarquia privada, mas a oligarquia da comunicação do Estado. No final das contas, estamos dentro de uma estratégia do poder que nos torna passivos na produção de meios de comunicação. É muita filosofia de quinta ficar metendo ferro na Globo, se o problema é que a Globo é o Estado. Não há dois poderes. O diabo é que nossos amigos da esquerda pensam que vão purificar o poder com suas missões "contra o monopólio e favor da comunicação pública”, que é sempre estatal. Um silogismo absolutamente cínico, porque reprime qualquer produção que não esteja nesses dois espaços: a forma-Globo e a formaEstado. O precariado da comunicação produz, portanto, para além da Globo e do Estado, mas atravessando-os.

O esgotamento da era blockbuster Essas duas formas almejam grandes audiências, estratégia de sobrevivência política e econômica. Mas o mundo dos blockbuster já é uma missão impossível ou, pelo menos, ingrata. A novidade do cenário contemporâneo da comunicação é a produção das bordas. A desgraça é que esta vive das bordas da produção. Vive com computador doado, com a câmera usada, com o celular pré-pago, com o teatro com goteira, vive produzindo curta-metragem porque longa é caro. Vive num espaço da precariedade, mas que insiste em produzir. E isto não é só realidade das periferias pobres, é uma situação real de todos. São esses sujeitos que produzem a resistência da comunicação. E foram exatamente eles que ficaram de fora da “sociedade civil” que se viu representada por essa gente que só vive com dor de cotovelo porque não chega às mentes das massas. Isso explica, em parte, o fato de a sociedade brasileira imaginar que a televisão digital é imagem sem chuvisco. Gil acabou ocupando um grande espaço porque ele representava esse precariado da cultura e não a "sociedade civil organizada" da comunicação (os ongueiros e alguns intelectuais da comunicação). O ministro ocupou esse espaço porque a produção do precariado não se coaduna com os princípios políticos da FNDC, justamente porque não quer purificar o Estado, por mais importante que seja regulamentar os setores das comunicações. E mais ainda: esse precariado resiste porque não deseja produzir um "campeão de audiência". Simplesmente porque já tem uma grande audiência. São tantas as produções, com tantas micro-audiências que, somadas, tornam-se um movimento exuberante. Seu valor reside na contínuas produções, feitas à base da “infra-estrutura na mão, uma idéia na cabeça”. Sendo assim, se houve uma dimensão positiva nessa história da TV digital, muito se deve ao esforço do precariado, tendo como figura o Gilberto Gil, pois agora a adoção do modelo japonês transformou-se em motivo para mudar a forma-Estado da comunicação social nesse país, leia-se uma ampla revisão das leis que regem as comunicações. O que queremos com a TV digital Precisamos definir o queremos com a televisão digital. Não há dúvida: queremos diminuir nossa dimensão precária. Queremos espaços (não só um canal) nos 60 canais que serão liberados pela forma-

Estado, mas queremos também garantir, no marco regulatório que vai ocorrer para o setor, o financiamento dessa produção das bordas; queremos garantir mais pontos de cultura, garantir que a grana dos royalties a serem pagos para os japoneses reverta em pesquisa e financiamento da produção dessas bordas, etc. Sabemos também que um canal, além de difusão massiva, possibilitará o que mais interessa a nós, precários: a interatividade e a mobilidade, qualidades que potencializam a criação de redes de produção e de produção de redes. Mas, antes de todas as dimensões formais, precisamos fazer uma ruptura ideológica no nosso trabalho como comunicadores. A comunicação não deve ser mais um trabalho empregado. Um dia desses aqui em Vitória um cara do coletivo (é como se intitulam os ongueiros de esquerda) me disse: "não dá para aceitar que o jornal A Gazeta criminalize a luta dos índios contra a Aracruz!". Aí eu respondi: "então não vá trabalhar lá na Gazeta". Precisamos romper com esse desejo maquínico de estar no espetáculo sem ficar com dor de cotovelo. E investir na produção de uma economia das bordas que atravessa a do mercado de massa, sem ser dependente dele. O êxito das bordas (Youtube, Ebay, Wikipedia, Over-mundo etc.) na Internet é somente um reflexo do que já acontece fora dela: a produção de comunicação se difunde como uma economia potente que já permite que milhares de pessoas sobrevivam dela. Mas queremos mais. Queremos ficar milionários, mas com produção livre. E para isso a luta será contra a forma-Estado que construiu a forma-Globo. E quem quiser chamar isto de pós-modernidade, fique à vontade, mas depois não esqueça de votar na Heloísa Helena, símbolo de parte de uma finada esquerda. Até porque é de pós-soberania, pós-Nação, pós-mercado, pós-massa, que estamos tratando. Se quisermos lutar contra o poder da comunicação, vamos ter que fazer a mesma coisa que o movimento do software livre faz contra a Microsoft: produzir os nossos meios a partir de uma lógica de cooperação baseada na produção de linguagem. Não tem saída. Isto faz a sociedade ser consciente. Caso contrário, só serão conscientes esses sujeitos frustados da comunicação: jornalistas, cineastas, publicitários e intelectuais que queriam estar na forma-Estado ou na forma-Globo. Chega de dor de cotovelo! Trânsitos 11 GLOBAL


GLOBAL 12 Conex천es Globais


o comunismo... O Fórum Econômico Mundial, em Davos, expressa a superação do imperialismo porque une, para além das dimensões nacionais, a unidade do projeto capitalista num plano global

Antonio Negri

Davos, senado do capitalismo mundial Encontros, como o de Davos, são motivados pela comunicação difícil que existe entre os capitalistas. Eventos como Davos acontecem quando se encontram homens de poder: capitalistas, executivos, homens das finanças, das mídias em geral, jornalistas e, algumas vezes, até militares. É uma espécie de grande senado do capitalismo mundial que se junta em torno de temáticas precisas, casuais e com uma generalidade de propósito. Para mim, o que é importante em Davos é a expressão de uma consciência capitalística da globalização. Sem dúvida também participam desse encontro sheiks árabes ou empreendedores chino-tailando-taiwaneses, mas no todo é sempre um encontro entre homens brancos, com uma clara centralidade européia e americana. Uma espécie de Vaticano do capital. O comunismo do capital Em Davos o capital aparece não só aberto à inovação mas, sobretudo, tem a oferecer uma imagem de civilidade. Aqui o capital não se apresenta como negociação, mas como modo de vida. Davos, num certo sentido, antecipa o biopoder da globalização, onde o capital se quer não simplesmente como comando, mas estilo de vida. Até mesmo por isso, em muitas ocasiões, foi um evento particularmente aberto aos sindicalistas e às esquerdas em trânsito, em particular àquelas provenientes do Leste. Davos é símbolo da superação do imperialismo, o sonho realizado de juntar, para além das dimensões nacionais, a unidade do projeto capitalístico num plano global. Além do mais, esse processo se dá através dos bancos, da financeirização, enfim, da bancarização total de todas as relações sociais capitalísticas. Esse projeto se apresenta também como tentativa de absorver, no interior do processo financista, a atividade produtiva, o salário e as economias dos trabalhadores. Assim, a privatização dos fundos de pensão e do Estado de Bem Estar Social seria transferida imediatamente para uma financeirização controlada sob o ponto de vista global. Este foi o grande sonho de Davos e se chama “comunismo do capital”.

Davos contra a Multidão Como produz o trabalho cognitivo? De um modo diferente do trabalho material clássico. Este ainda precisava contar com os meios de produção oferecidos pelo capital: o capital fixo, que permitia produzir, era dado ao capital variável (ou seja, a força de trabalho) do capital tout court (ou seja, do capital constante). Os instrumentos de trabalho eram préconstituídos pelos patrões e usados pelos operários. Marx nos explica que é desta forma que o operário se torna de fato um capital variável, ou seja, parte do capital, na medida em que é absorvido e subjugado pelo capital. O operário existia dentro do capital. Hoje, ao contrário, o General Intellect, a Inteligência Coletiva, torna-se hegemônica na produção capitalística, ou seja, no momento em que o trabalho imaterial e cognitivo se torna imediatamente produtivo, a força de trabalho intelectual se liberta desta relação de dependência e o sujeito produtivo se apropria ele mesmo dos instrumentos de trabalho outrora préconstituídos pelo capital. Em outras palavras, o capital variável se reapresenta como capital fixo. O sujeito produtivo traz então consigo, ao nível de Inteligência Coletiva, uma extraordinária energia em condições de romper a relação capitalística, isto é, a estrutura que faz o operário existir no interior do capital. Conclusão: sou produtivo fora da minha relação com o capital, e o fluxo de capital cognitivo e social não tem mais nada a fazer com o capital como estrutura física nas mãos dos patrões. Ao redor de Davos elabora-se uma ideologia da financeirização que nada mais é do que uma tentativa de manter juntos esses capitalistas fixos que nunca foram independentes; este é um processo que desloca e exalta a mediação produtiva na exploração do trabalho. Se agora capital fixo é singularidade capaz de imaginação, para fazê-lo trabalhar existe uma máquina nova: este é o paradoxal “comunismo do capital”, a tentativa de fechar através da financeirização a máquina global da produção sobre e além das singularidades que a compõem. É a tentativa de subjugar a multidão. Conexões Globais 13 GLOBAL


... do capital global Fase imperialista acabou Se a concepção leninista do imperialismo e das contradições inter-capitalísticas foi pertinente em seu tempo, nos dias atuais ela está completamente superada. Decerto podemos ainda falar de (e verificar) as contradições intercapitalísticas, mas estas são secundárias na pirâmide da construção do poder global. Se essas contradições nunca se dão em dimensões outras, isto é, entre capitalistas e multinacionais e nas tentativas de controle nacionais e/ou globais, no seu interior algumas partes do capitalismo buscam proteção e desenvolvimento. Qual poderá ser o quadro de um Davos de amanhã? A estrutura de Davos não será mais aquela em que as potências existentes se organizam reconhecendo-se como tais mas, provavelmente Davos se transformará em terreno sobre o qual vão se manifestar os problemas de extensão e de importância ligados aos novos afluxos produtivos na rede global. Os grandes produtores indianos de serviços, os alimentícios brasileiros, a manufatura chinesa etc., vão procurar em Davos maiores espaços de expressão, mas isso não vai mudar o conjunto da estrutura capitalística. Por quê? Porque a organização capitalística se molda sempre a partir dos conflitos. Não é verdade que a globalização hoje está em perigo, mas está se rearticulando sobre uma base espacial. Os grandes poderes continentais, após terem mandado pelos ares a tentativa dos Estados Unidos de tomarem o comando unilateral sobre o desenvolvimento da globalização, se apresentarão em Davos e colocarão suas condições aos americanos, abrindo contradições inéditas. Estamos num ponto em que a potência imperial hegemônica não consegue reconstruir Nova Orleans. São fenômenos que abalam em termos profundamente negativos não só a imagem, mas também e sobretudo a realidade dos Estados Unidos. Em Davos se falará disso e certamente será colocado o problema de como ajudar os Estados Unidos, mas com o cinismo típico das sociedades mercantis ao tratar de problemas desse tipo. Perguntar-se-á como os Estados Unidos podem ser induzidos a não se declararem mais os donos do mercado global, mas a entrar no jogo do “comunismo do capital”.

GLOBAL 14 Conexões Globais

Um novo controle capitalista Esses capitalistas parecem-me bem desesperados e mais desorientados quando compreendem que o padrão de medida da riqueza não é mais aquele ligado à clássica lei do valor e do desenvolvimento industrial, mas é um processo que se liga cada vez mais ao controle dos povos e das sociedades, aos dispositivos do biopoder. Posterior elemento de incerteza: é um capital consciente de viver numa fase de transição e de não ter mais instituições fortes a quem recorrer. Basta ver o que está acontecendo atualmente com a OMC onde, mesmo rompendo a aliança entre países ricos e países paupérrimos, os funcionários do capital não conseguiram de modo algum obter os acordos sólidos que esperavam. Estamos diante de uma profunda crise da OMC, da ONU, do Banco Mundial, enquanto a única instituição que atravessa uma fase positiva é o FMI, paradoxalmente revigorado não por sua própria força, mas pelo reconhecimento que lhe deram argentinos e brasileiros. Conseqüentemente, é a velha estrutura da transnacionalização que está em crise enquanto ainda não surgiu uma organização global. Assistimos a uma passagem fundamental entre transnacionalidade e globalização, e Davos mostra-se atrapalhada nesse terreno, incerto quanto aos critérios de medida, aos tempos de crescimento e, em terceiro lugar – preocupação de todos os capitalistas – quanto à forma mesma do modo de produção. A Inteligência Coletiva e as novas formas biopolíticas de luta pesam sobre Davos.

Governança Global como biopoder A governança hoje não se dá mais única e simplesmente em termos capitalísticos, na medida em que está se tornando lugar e espaço de reconhecimento do adversário, da ruptura e da duplicidade que se dá em cada terreno administrativo. É cada vez mais um âmbito de reconhecimento nos movimentos, daí a impossibilidade de reduzir a contratualizaçao das relações sociais a uma gestão unitária central. A governança tornou-se definitivamente instituição aberta nos dias atuais. Como a “governamentabilidade” em Foucault, que assim define aquilo que chamamos de governança, e o faz definindo os procedimentos dos biopoderes soberanos. É a genealogia da constituição desses poderes. Para voltar à sua gênese material, primeiro é preciso compreender o que significa pôr em funcionamento o mecanismo da financeirização em função da produção social. Como a governança, o governo da financeirização é aberto a uma série de antagonismos cuja solução não é mais estritamente econômica, mas política. Os Estados Unidos conseguem exercer hegemonia apesar da crise de seus projetos industriais e monetários. Conseguem exprimir a capacidade de se manterem no terreno das instituições financeiras e a capacidade de atrair capitais. Paradoxalmente sua força está na capacidade de destruir cada referência social e produtiva da riqueza. É isso que os torna politicamente hegemônicos. A financeirização e o seu governo não são a destruição da relação social de exploração, mas o seu obscurecimento, ou seja, a neutralização de seus efeitos sociais.


A política das periferias Não há mais um “fora” em relação ao sistema capitalístico e por isso também o gueto e as periferias estão “dentro”. Uma periferia que se revolta atinge imediatamente o centro do poder. Em segundo lugar, uma periferia que se revolta produz uma crise de todas as ordens sociais, não só as da periferia. Esta centralidade da periferia, seja em nível urbano ou em nível de dimensão mundial, é uma centralidade exigente com o capital, atravessa de forma decisiva todos os países e impõe uma requalificação de todas as relações de poder. Pelo simples motivo de que já estamos numa dinâmica global feita de infra-estruturas, de interdependências e de conflitos. No caso dos periferias parisienses no outono de 2005, por exemplo, estávamos diante dos sofrimentos causados pela passagem do sistema fordista ao que vem depois. Quem não encontrou trabalho foi relegado às periferias onde foram construídos esses “campo de compensação”. Estas são sempre situações de luta, em cujo interior se acumulam forças para a revolta, mas também – como aconteceu mais tarde na luta contra o Contrato de Primeiro Emprego (CPE), na França – novas tensões de luta contra o novo regime da precariedade difusa. Trata-se, pois, de forças que atingem imediatamente o centro do poder. Com relação às periferias, pelo viés do comunismo, não posso deixar de considerá-las como elementos de estruturas de ruptura de qualquer sistema de poder. O mesmo vale e valerá para a precariedade. A despeito disso, até os policiais lêem essas lutas nos mesmos termos. É um fenômeno duplicado, porque tem a ver com pessoas em êxodo que estão construindo nos guetos ou na precariedade a esperança de um mundo futuro.

Trabalho: imaginação + liberdade + cooperação Tudo isso aconteceu porque o cognitariado se transformou na força produtiva fundamental que coloca o sistema para funcionar. Agora a hegemonia no interior da grande transformação histórica que estamos percorrendo é a do cognitariado, do trabalho cognitivo que é o trabalho que pré-constitui uma riqueza que o capital não conseguirá produzir nunca: a liberdade. A liberdade é produtiva, a liberdade é o capital fixo que está dentro do cérebro das pessoas. É este homem livre para imaginar, comunicar, construir linguagem que aqui nos interessa. É só a liberdade que cria valor. O trabalho cognitivo é “imaginação + liberdade + cooperação” e está fora do tempo mensurável porque domina o tempo, ao invés de ser dominado. O trabalho cognitivo é um evento, um Kairòs, é invenção do tempo e, assim, não é possível medi-lo; e, por ser um trabalho não mensurável, está ancorado na liberdade. É claro que não quero dizer que no trabalho imaterial não se está sujeito a normas. Às vezes, ao contrário, estão presentes formas de taylorização do trabalho intelectual ainda mais pesadas do que as do trabalho de fábrica. Mas isso é irrelevante. Sabe-se, na realidade, que até o trabalho do operário massa algumas vezes podia ser reduzido a trabalho escravo. Mas o trabalho cognitivo vence porque é farto de liberdade. Há quem diga, talvez com razão, que a União Soviética caiu porque não deu à força de trabalho a liberdade que ela desejava. Mais pela rigidez do sistema burocrático, portanto, do que pela falta de investimentos. Ora, o trabalho não podia emancipar-se do nível material para aquele imaterial sem liberdade, e por isso fez com que caísse o comando socialista. Não estão aqui em jogo direitos individuais, mas direitos ligados à

liberdade, à comunicação, à cooperação. Porque hoje o trabalho não é mais trabalho de indivíduos, mas de multidões, é sempre trabalho no plural. O conceito de coletivo se esgota nas lutas globais Uma outra coisa importante a sublinhar aqui é que o conceito de coletivo também está se exaurindo. Aqui é o comum que está por trás e, ao mesmo tempo mais além do coletivo. No fundo, o coletivo – interpretavam-no de forma individualista – é um acúmulo de indivíduos, e em última análise corresponde ao conceito burguês de público. De encontro, a multidão não tem expressões políticas diretas, mas usa o sindicalismo, as estruturas coletivas públicas ou democráticas para se organizar, para sair do canto em que ficou preso o proletariado. Ou seja, a coisa mais importante é descobrir o comum. Abrir-se à produção do comum É preciso fazer com que o capital reconheça o peso e a importância do bem comum, e se não quer fazê-lo, impor-lhe. A importância entre trabalho comum e estrutura pública do trabalho está no fato de que cada um de nós no trabalho comum age, enquanto a estrutura pública é um capital colocado à disposição do estado. O comum não é uma coisa anárquica. Todos nós queremos uma ordem, mas baseada naquelas necessidades da vida comum que possam ser traduzidas em elementos de aumento da liberdade – além de pública, comum. Quando digo “público” significa, infelizmente, que somente muda quem me comanda. Comum é, ao contrário, uma coisa radicalmente diversa. É a democracia que se sobrepõe ao comando capitalístico e prescreve uma outra ordem da sociedade, aquela da multidão que trabalha com o cérebro.

Tradução de Jadir Feliciano dos Santos

A praia de Alang, no Nordeste da Índia é usada para desmontar, quase que manualmente, velhos navios de guerra e petroleiros. Os materiais obtidos, entre os quais resíduos perigosos como o amianto, são reciclados e vendidos. Os índices de tumores e doenças entre os operários são tão altos quanto os lucros dos proprietários. Legenda e Fotos de Christian Franz Tragni. Conexões Globais 15 GLOBAL


Argentina: democracia ou

Eleições argentinas de 2007 serão marcadas, de um lado, pelo desejo de ampliação das conquistas e dos acerto de contas democráticos; e do outro,

pela pressão republicana para

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que não haja reeleição e sim alternância de poder

Gerardo Silva

Desde que assumiu a presidência da Argentina, em maio de 2003, o patagônico Néstor Kirchner vem governando com amplo respaldo popular em nome da democracia. Do outro lado, o heterogêneo arco das forças opositoras – que não constituem ainda uma oposição – se reconhecem na defesa das instituições da República. Uma forte tensão está instalada entre essas duas formas de governo que, até os acontecimentos de dezembro de 2001, dificilmente podiam ser pensadas separadamente – ao menos desde o fim da ditadura militar em 1983. A rigor, não se pode afirmar que o presidente Kirchner governe contra a República, posto que ele mesmo é produto da primera condição da democracia representativa: ser eleito pelo sistema do voto livre. Tampouco dissolveu ou destituiu de poder os corpos legisla-


Os avanços da democracia O interessante da situação, entretanto, é a fisionomia que hoje assume cada uma das partes. Do lado da democracia, tem havido um empenho em acertar as contas com as feridas de um passado ainda vivo (lembremos do desaparecimento de uma das testemunhas do juízo a um dos principais genocidas da ditadura militar: Miguel Angel Etchecolatz); a dívi-

da pública foi convenientemente renegociada (incluido o pagamento ao Fundo Monetário Internacional); foram revistos acordos com as empresas privadas prestadoras de serviços; ampliaram-se os “Plan Jefes de Hogar” e “Plan Trabajar”; implementaram-se medidas de proteção aos setores estratégicos da economia nacional – sobretudo setores geradores de emprego – e foi aprofundada a integração regional via Mercosul. Ninguém pode afirmar que esse esforço seja suficiente, mas é uma pauta vigente e sustentável politicamente. Os temores da República Do lado da República, os conservadores alertam sobre a arbitrariedade do personalismo e da acumulação de poder, assim como do perigo da perpetuação do atual presidente no governo. Para os mais moderados, trata-se de uma questão formal: a democracia representativa precisa manter o diálogo com a oposição e precisa também de alternância no governo. Já para os mais reacionários, é preciso fazer uso das instituições republicanas para estabelecer limites e reprimir movimentos. As fronteiras entre uns e outros nem sempre ficam claramanente delimitadas pois, como acontece com os ambientalistas de Gualeguaychu, que paralisam as rodovias de acesso ao Uruguai por causa da instalação de duas fábricas de celulose sobre a margem uruguaia do rio Uruguai, os dois lados reclamam uma atitude mais enérgica por parte do presidente em nome da boa vizinhança e de acordos e tratados internacionais. O pleibiscito de Misiones de novembro de 2006, em que um padre catalão (bispo de Posadas, capital da província) liderou o movimento de recusa à mudança constitucional que permitiria a re-reeleição do atual governador Carlos Rovira, apoiado pelo presidente Kirchner, é a mais importante vitória dos partidários da República. Imediatamente outros aliados do governo, entre eles o governador da Provincia de Buenos Aires, o distrito eleitoral mais importante do pais, desistiram do mesmo propósito.

Cidade de Areia, fotografia de Bruno Vieira, 2006.

A reeleição de Kirchner? Democracia e República haverão de se enfrentar nas próximas eleições presidenciais, em 2007. Cabem então as seguintes peguntas: De que serviriam as instituições republicanas se elas não se traduzissem em maior democracia? Até onde a democracia pode tensionar as instituições republicanas? Quem aspira a uma síntese entre as partes erra profundamente. O abismo da crise da democracia representativa habita esse espaço de indefinição que somente pode ser preenchido politicamente, isto é, nas lutas por uma sociedade mais justa e igualitária. Sem tê-lo declarado abertamente, e mesmo levantando a candidatura da senadora Cristina Fernández de Kirchner, o presidente Kirchner aspira a um novo mandato em 2007. Apesar de estar no seu direito constitucional, para os defensores da República isso resulta intolerável. Já para os partidários da democracia essa parece ser a alternativa mais saudável.

república?

tivos (Senado e Câmara de Deputados) nem limitou ou obstaculizou o trabalho da Corte Suprema de Justiça. O que se pode argüir é que, dados esses pressupostos, o executivo (a figura mais importante de governo no sistema presidencialista da Argentina) fez uso de todas as prerrogativas e brechas institucionais que lhe permitiram atravessar uma crise ainda aberta, muitas vezes sem o consentimento ou anuência dos outros poderes.

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se não há justiça, si no hay justicia, hay escrache juicio y castigo a todos los culpables no nos reconciliamos ni perdonamos nulidad inmediata de los indultos a los genocidas

Telma Lilia Mariasch Nos últimos anos, a Argentina tem sido palco de múltiplas lutas sociais, como uma resposta das multidões à degradação dos Direitos Humanos, ao modelo neoliberal de exclusão, à intolerância com as diferenças e à indiferença. Do genocídio das ditaduras militares passouse ao silêncio e à impunidade nas Democracias, através das leis de “Obediencia Debida”, “Punto Final”. Embora tenham sido declarados inconstitucionais, a anulação dos indultos é pontual aos processos abertos e os responsáveis pelo genocídio continuam, em sua maioria, sem castigo ou com penas de privilégios e ocupando cargos públicos. Embora sob a administração do Presidente Kirchner tenha-se desenvolvido uma política de Direitos Humanos relativos à memória que propicia e apóia o julgamento e condenação dos atores do terrorismo de Estado, o aparelho repressivo ainda está ativo e conclamando ao prosseguimento da tarefa de extermínio. A desaparição de Julio Lopez, testemunha central no julgamento e condenação do genocida Etchecolatz, é hoje paradigma da situação que se vive no país: ameaças, seqüestros, espancamentos de testemunhas nos processos, a advogados, juízes, integrantes de H.I.J.O.S. militantes de Direitos Humanos, GLOBAL 18 Conexões Globais

maus tratos em delegacias, repressão de manifestantes. Os “escraches” são uma nova forma de luta política difundida pelos integrantes de H.I.J.O.S., grupo formado pelos filhos de desaparecidos durante a última ditadura militar na Argentina (19761983) que combate o terrorismo de Estado e seus autores intelectuais e materiais: militares, policiais, políticos, economistas, empresários, médicos, religiosos, meios de comunicação. Diante da lentidão e inoperância da Justiça, os “escraches”, como uma nova forma de luta social, denunciam a liberdade e a impunidade dos genocidas. Se a repressão está em toda parte, a resistência também está – é a consigna de H.I.J.O.S. Os “escraches” têm por objetivo “pôr em evidência”, “tornar visível” o que está oculto e negado. Denunciam, parafras eando Primo Levi, “a vergonha de ser um homem” quando ocorre o silêncio perante os crimes de lesa-humanidade do Estado. E revelam a vulgaridade da existência nas democracias impregnadas do pensamento para o mercado, dos seus valores, ideais e opiniões, como um universal produtor de servidão, desigualdades e terror. Ou, nas palavras

de Primo Levi: “Não somos responsáveis pelas vítimas, mas somos responsáveis diante delas”. Os “escraches” lutam para desmascarar os genocidas em suas residências e locais de trabalho, para que não tenham sossego em nenhum bairro, em nenhuma cidade, fazendo de suas próprias casas e do país sua prisão. A Mesa de Escrache – que abriga a H.I.J.O.S. –, organizações de Direitos Humanos, murgas , assembléias e associações de bairros, grupos culturais, estudantes, a quem se juntam as Madres de Plaza de Mayo e alguns partidos políticos, além das agremiações do bairro onde se efetua o escrache, conclamam todos os vizinhos a “escrachar” pois, “se não há justiça, há escrache popular”. Vermelho sangue nos muros Em sua própria casa, a instituição ou pessoa escrachada é submetida a diferentes formas de assédio: protestos coletivos, insultos, discursos, exposição de fotografias denunciatórias, performances e outros registros. Com bombinhas de tinta vermelha sinalizam os domicílios escrachados para que todos saibam que são lugares manchados de sangue. Inscreve-se assim nas ruas das cidades a cartografia da verdade negada para que todos a conheçam: “Da mesma forma que faremos com todos os nazistas, onde


, há ‘escrache’

estiverem nós os iremos buscar”. No final do “escrache” há a celebração da luta com bailes e cantos, pois, como diz a letra da murga Los guardianes de Mujica, “Uma luta sem alegria é uma luta perdida” . Sua força se manifesta no poder de exercer efeitos nas relações sociais, mostrando que a verdade instituída é produto de um sistema de exclusões, uma episteme que define o que pode e o que não pode ser dito. Abre a sociedade para as brechas oferecidas dentro do sistema de constrangimentos sociais, de tal forma que os indivíduos encontram ali sua liberdade para transformar o sistema. Delineia-se assim uma nova maneira de entender e praticar a Justiça, que também pressiona as instituições com vocação democrática a uma profunda transformação. A ruptura do contrato social por parte do Estado argentino expôs o paradoxo e a falácia dos Direitos Humanos concebidos juridicamente como garantias de segurança dos cidadãos e limites aos abusos do poder. Não se trata apenas do “Estado de exceção” do período ditatorial, visto que os crimes do Estado começaram continuaram ainda nos regimes ditos democráticos. É por isto que a defesa dos Direitos Humanos deve necessariamente passar pela crítica interna de

toda Democracia, pois são as democracias que, através de suas próprias polícias e aparelhos repressivos, tentam conter a ferro e fogo os que se insurgem contra a miséria, controlando os fluxos e impedindo a fuga em direção ao autogoverno e à participação. A Democracia, através dos direitos, tornou-nos servos jurídicos da ordem política que gravou nos corpos o desejo de segurança em nós explorado. As multidões constituem o novo sujeito ético produtor de direitos que contesta a figura de um sujeito jurídico passivo e oprimido, evidenciando as possibilidades de construção de projetos que não se configuram apenas como rebeldia, mas que plantam agendas. E, ao expressar a liberdade para repudiar a institucionalização da impunidade, reafirmam a máxima de Spinoza, “é possível fazer da multidão uma coletividade de homens livres, em vez de um ajuntamento de escravos”. As lutas lembram aos governos os limites de sua autoridade e do seu poder, pois este lhe é delegado pelo conjunto da sociedade. As multidões estão alertas e são protagonistas centrais na construção de uma nova história que possa narrar seu passado e construir seu presente sem medo e em liberdade.

Fotos de Luis Iacobucci. Estas são as festas das “murgas”, movimentos de resistência e crítica social e política ligados ao Carnaval rioplatense. Trata-se de uma forma de protesto herdada da época colonial, de remoto ancestro africano e influência espanhola que marca seu ritmo denso e sensual. O Carnaval perseguido, marginalizado e abolido pela última ditadura militar, está vivo nos velhos murgueros que guardaran a tradição para os jovens. Eles sao o novo ar que atualiza e marca o tempo dos bairros, nos quais as “murgas” se multiplicam a cada ano com seu ritmo urbano, irônico, debochado, mestico e lutador. A alegria é sua arma de resistência e de afirmação de liberdade, suas músicas e letras o veículo de sua mensagem contestatária. As “murgas” são, para além de festa carnavalesca, expressão de luta por direitos com forte presenca, nos “escarches”. Luis Iacobucci. Conexões Globais 19 GLOBAL


a fortaleza cubana Nada mais simbólico que uma feira de livros ser realizada em uma antiga fortaleza colonial. Afinal, “a cultura é uma arma de defesa pessoal”. Essa frase tirada de um livro de Fausto Wolff exprime bem o que é a Feira Internacional do Livro de Cuba: um evento inteiramente dedicado à literatura em um país onde se respira política. Como se isso não bastasse, o país homenageado deste ano foi a Venezuela, cada vez mais próxima econômica, política e socialmente de Cuba. Como país convidado, a Venezuela tinha direito a ocupar um pavilhão inteiro, cujo espaço é equivalente a um ginásio esportivo. Uma vez lá dentro, passei por uma exposição com livros indicados pelo presidente Hugo Chávez e, após atravessar um longo corredor, cheguei ao local onde estavam os estandes das editoras venezuelanas. Sem saber por onde começar pedi a um jovem que me indicasse algum livro. O cubano me deu dois livros de poesia e garantiu que eles eram “sem dúvida os melhores”. Depois de conversar um pouco, descobri que ele era escritor, falava mais de vinte idiomas e que nunca havia lido um livro venezuelano até aquela semana. Uma festa comunitária Seguindo em frente, encontrei um grupo que distribuía livros para os visitantes e que me contou que o governo venezuelano havia distribuído milhares de cópias do “Don Quijote de la Mancha” para o público, em comemoração à erradicação do analfabetismo conseguida no final do ano de 2005. Crianças e estudantes de todas as idades, idosos, turistas, militares e até vagabundos de plantão, todos estavam muito à

GLOBAL 20 Conexões Globais

Pedro Mendes

Galinha, foto de Maria Mazzilo

vontade entre os livros. A feira, extremamente popular entre os cubanos, lembrava uma festa comunitária daquelas que mobilizam toda a gente de uma região. Por inúmeras vezes me deparei com serventes, policiais e vendedores que, quando não estavam trabalhando, participavam ativamente de debates, de palestras, de todo o evento. As pessoas discutiam literatura e política com um envolvimento difícil de se ver no Brasil. Por mais que se pense em censura ao se falar em Cuba, fiquei impressionado com o engajamento das pessoas. Pensem o que quiserem de Fidel, mas é inegável que o povo cubano tem uma participação ativa na política do país.

de independência. Duas antologias também fizeram sucesso. A primeira se chama Aire de Luz e traz contos de autores cubanos conhecidos e a outra, Las Palabras son Islas, apresenta um panorama da poesia cubana do século XX. Já os livros estrangeiros abordam temas eminentemente políticos. Os mais procurados eram: 50 Preguntas 50 Respostas, que trata da dívida externa e La Operación Condor (argentino). Havia ainda Código Chávez, um insólito substituto para Código Da Vinci que se propõe a analisar a situação política da Venezuela do presidente Hugo Chávez.

Por um real A fortaleza que antes se defendia com armas agora disparava livros. E para que a festa não acabasse por falta de munição, os livros eram vendidos a preços baixíssimos. Para se ter uma idéia, um livro de capa dura custava no máximo dez reais, mas a grande maioria deles custava mesmo um real. Sentadas nos grandes pátios gramados que se sucediam por toda a fortaleza ou perambulando entre os estandes, eu via pessoas com sacolas abarrotadas de livros. Curioso para saber o que elas liam, procurei me informar sobre os livros que faziam mais sucesso na feira. Entre os livros infantis, o preferido da criançada cubana era o simpático “Paco Perico“, lançado durante a feira. Entre os adultos, uma compreensível unanimidade: os livros de José Martí, o poeta guerrilheiro que morreu durante o que os cubanos consideram sua primeira guerra

Homenagem Entre os escritores homenageados na feira havia dois ex-perseguidos políticos, sinal de que o regime não está parado no tempo como se costuma dizer. O grande José Lezama Lima dava nome a uma das salas mais concorridas do evento, onde ocorriam palestras e lançamentos sempre lotados. Outro escritor que também já foi alvo da censura, Virgílio Piñera foi tema de biografias e teve uma antologia de contos lançada recentemente. Em termos de crítica e vigor, ele me parece uma ameaça muito maior que Pedro Juan Gutierrez, escritor que, como se sabe, não tem nenhum livro publicado em Cuba, só no exterior. A impressão que ficou da feira é de que, como no Fórum Social Mundial, pode-se ver o mundo com outros olhos que não os dos estadounidenses. A feira serviu para mostrar através de livros e debates, que há espaço para se falar abertamente sobre a situação do país. A população, educada e extremamente participativa, dificilmente caberia no papel de vítima.


A L I B E R D A D E N Ã O É U M A B ATATA

Filósofo Peter Pál Pelbart analisa “Glob(AL)”, livro sobre a América Latina escrito por Antonio Negri e Giuseppe Cocco Peter Pál Pelbart Rosáceas Humanas, de Martha Niklaus, 2006.

Não é comum um filósofo como Toni Negri debruçar-se sobre a realidade brasileira e suas anomalias históricas. Concorreu para tanto o momento singular que vive a América Latina, o interesse renovado que desperta no mundo sua reconfiguração política nos últimos anos, bem como a iniciativa de um amigo do pensador, radicado há anos no Rio de Janeiro, o cientista político e professor da UFRJ, Giuseppe Cocco. Juntos, publicaram esse estudo intitulado Glob(AL): Biopoder e luta em uma América Latina globalizada.

Trata-se de uma ousada e inventiva releitura do contexto latino-americano, sobretudo brasileiro, argentino e mexicano, com a generosidade e o frescor para o qual contribuíram não apenas a "estrangeiridade" dos autores, mas sobretudo a perspectiva teórica e militante que compartilham, proveniente de sua passagem comum pela Autonomia Operária italiana e suas recomposições teóricas ulteriores. Se parte importante do referencial político e filosófico utilizado neste livro foi desenvolvido nas obras anteriores de Negri escritas em parceria com Michael Hardt, tais como Império e Multidão, ambas já publicadas Universidade Nômade 21 GLOBAL


entre nós, o forte do trabalho que ora vem a lume em português está no esforço de compreender, a partir desse quadro teórico mais amplo, a singularidade latino-americana e, em especial, a brasileira. Radicalizar a democracia O ponto de partida mais geral é a natureza "aberta" do poder no contexto contemporâneo, onde a soberania foi privada de sua unidade e se vê atravessada por antagonismos multitudinários, que cabe mapear de modo dinâmico, sem pressupor de maneira fetichizada um fechamento da governança em relação aos movimentos que a infletem e estiram por todos os lados. Daí a perspectiva e mesmo a reivindicação de uma radicalização democrática em contextos supostamente moderados no Cone Sul, como Brasil e Argentina, apostando-se na dinâmica aberta do processo de mudanças desencadeado. É que estamos, mais profundamente e em escala planetária, num momento de transição, lembram os autores, da modernidade para a pós-modernidade (entendendo-se essa expressão como indício de uma mutação histórica forte, muito além de seu sentido corrente) – é um interregno. "O que significa viver, pensar, e agir no interregno? Significa buscar manter aberta qualquer síntese, conceitual ou material, que os poderes mais fortes tentem impor. Significa, ademais, experimentar qualidades e programas de luta que indiquem o futuro, tendências... desembaraçar nossas mentes do dogmatismo". Liberar-se da servidão Já nos livros anteriores Negri havia analisado os mecanismos de poder contemporâneos, bem como a recomposição técnica, social e política que caracteriza tal contexto, com a mutação ontológica do trabalho, e defendia uma "democracia biopolítica", dando a ver a rica tessitura produtiva da "multidão" e suas relações de imanência com o "Império", num jogo aberto e inconcluso. O léxico tradicional (soberania, representação, classe operária) era virado do avesso, porém nunca no sentido reativo, e sim de uma compreensão aguda dos processos em curso e o esforço de pensar a partir da radicalização "comunista" que eles favoreciam, mesmo quando parecem, aos olhos de certa ortodoxia, ir em outra direção. GLOBAL 22 Universidade Nômade

A superação do Estado-nação ou do trabalho fordista foi compreendida como uma "liberação" a ser intensificada e infletida na direção de uma desterritorialização produtiva, e em favor de uma globalização outra, em franco contraste com uma esquerda tradicional, seja nas suas marcas nacionalistas, seja na valorização do "trabalho assalariado" e suas formas de representação sindical e política. A tradição da autonomia operária sempre recusou esses moldes de "servidão". Ora, como seria diferente ao se debruçarem sobre a realidade latinoamericana, seja com sua tradição nacional-desenvolvimentista, seja com o passado literalmente escravagista? É aí que esse livro pretende trazer uma contribuição, cuja implicação política nem sempre se encaixa nas categorizações ambientes, ao propor uma leitura alternativa de nossa história, a partir de um método também herdado da tradição teórica autonomista e sua renovação, onde primeiro são pensadas as lutas, suas linhas de fuga, a subjetividade constitutiva ali operante e, em função delas e por vezes a reboque delas, o desenvolvimento do capitalismo e sua recomposição, ou suas realavancagens. No caso brasileiro, os resultados dessa "inversão" podem surpreender, mas também arejar o enfoque político, já que põem no cerne da reflexão as fugas de escravos, os fluxos de imigração, o êxodo rural (todos eles pensados como "êxodos constitutivos", de novos territórios e multidões), e a reação concomitante na forma de uma gestão biopolítica desses processos, inclusive na sua dimensão racial, cultural, subjetiva, por parte de um bloco de "biopoder". Biopoder e racismo Chegamos assim a essa utilização heterodoxa do conceito de biopoder no presente contexto. Como se sabe, esse termo foi forjado por Michel Foucault para designar, inicialmente, uma tecnologia política de gestão positiva da vida das populações, em contraposição (e em substituição parcial) ao poder de soberania, incindindo antes sobre o território, com caráter predominantemente extorsivo e subtrativo. O biopoder destina-se a produzir forças e a fazê-las crescer, mais do que a barrá-las, segundo Foucault. Gerir a vida, mais do que exigir a morte. No entanto, é justamente à luz dessa consigna de otimização da vida da espé-

cie que o biopoder necessariamente carrega uma dimensão racista, na medida em que estabelece um corte entre aquilo que deve viver e o que deve morrer – e, no seu extremo, postula que para "fazer viver" é preciso "fazer morrer", como no caso do nacional-socialismo e sua fundamentação biologizante. Ora, ao retomar de maneira ampliada e flexível o termo biopoder em nosso contexto, os autores chamam a atenção para uma dimensão racista ofuscada, quando não sistematicamente ocultada, da dominação no Brasil. O biopoder teria se baseado desde o início "na gestão da vida dos estratos sociais excluídos e das classes subalternas através da modulação dos fluxos de sangue, das culturas e das migrações internas e externas". Se a estratificação social se conjuga com tal modulação racial, que vai do extermínio à mestiçagem e vice-versa, há uma "impressionante continuidade" no bloco biopolítico hegemônico desde a época colonial até hoje. De modo que um pacto oligárquico corporatista se alia com o neo-escravismo, num hibridismo do poder cuja perversão, mesmo quando se reivindica a universalização de direitos, exige que se pense estratégias singulares de desmontagem das cumplicidades históricas – com o que tangenciamos toda a discussão atual sobre a ação afirmativa contra o racismo, as cotas universitárias para afro-descendentes, mas também toda a guerra de extermínio dos jovens negros no Brasil, por uma "polícia biopolítica" e uma "justiça" correlata, num "estado de exceção" permanente, para retomar a expressão de Benjamin, ou Agamben. Como diz o livro, se não existe um Palácio de Inverno a ser conquistado, existe uma estrutura de biopoder a ser destruída, existe o palácio de verão, a Casa Grande que mestiça sua descendência visando a manutenção e a gestão de suas propriedades. Produzir um novo espaço público comum Se os fluxos de sangue redesenham a compreensão de uma certa atualidade, não é com o objetivo de fetichizar a categoria racial, mas ao contrário, trazer à luz e desmontar um mecanismo inconfessado, porém onipresente. Daí também a valorização dos movimentos de jovens negros e pobres das periferias e das favelas, com redes de cursos autogeridos para ingresso nas universidades


públicas, movimentos culturais, contracondutas coletivas, engendrando um "espaço comum", uma subjetividade de resistência e ao mesmo tempo de produção coletiva, constituindo uma alternativa, seja ao mercado, seja ao Estado e sua estrutura de apartheid. Recentemente ainda Hermano Vianna chamava a atenção para a exuberância e a produtividade dessa cultura "periférica", com sua desenvoltura tecnológica e invenção de linguagem e de cooperação em condições de grande precariedade, e as ambigüidades do poder público em relação a ela. Mais amplamente, se para Negri e Cocco o acento está colocado na criação dos novos espaços e tempos "produtivos", entendendo-se por isso justamente as novas dinâmicas de produção de riqueza, de produção intelectual, de autovalorização, como as iniciativas mencionadas, mas também cooperativas, fábricas ou terras ocupadas, reivindica-se igualmente as condições consentâneas que permitiriam impulsionar tais dinâmicas, como renda de cidadania, educação universal, livre circulação, fim das barreiras raciais etc. Trata-se portanto de potencializar as condições sociais da produção, tendo em conta a natureza crescentemente imaterial, afetiva, intelectual, comunicativa e linguística do trabalho, e cada vez mais independente da relação salarial. O desafio maior consistiria em favorecer a dimensão constitutiva desse trabalho vivo, sobretudo a partir dos "movimentos", como dizem os autores a partir de sua rica experiência européia, e acompanhar essa criação singular de "espaço público", sem passar pelas nostalgias estatistas. Claro que tudo conspira contra o desbloqueio dessa potência inscrita em tal passagem histórica: as formas de poder oligárquico, tecnocrático, corporativo, a estratificação neo-escravista, mas também o desenvolvimentismo economicista, incapaz de apreender o papel da subjetividade, do desejo, das lutas, da "liberdade". É curioso como em meio à mais concreta análise das condições materiais, intervém vez por outra um parênteses filosófico, com uma tonalidade de manifesto, onde se abre uma janela inspirada, que revela o modo profundo do empreendimento como um todo. "Se indubitavelmente existe uma história da liberdade, ela não funciona, contudo, como um fio que sai de um tear puro e espiritual – realmente não. A liber-

Trata-se de potencializar as condições sociais da produção, tendo em conta a natureza crescentemente imaterial, afetiva, intelectual, comunicativa e linguística do trabalho, e cada vez mais independente da relação salarial. dade não é uma dádiva da natureza, não é uma batata; e mesmo que o fosse, para torná-la comestível é sempre preciso cozinhá-la. A história da liberdade é sempre uma história da libertação, não é natureza, mas evento, não consistência, mas resistência (p. 70)" O desenvolvimento é produzido pelas lutas Percebe-se a recusa de uma filosofia da história excessivamente linear ou determinista, a dimensão da subjetividade coletiva aí inscrita, uma priorização do "acontecimento", sem contudo abrir mão de certa teleologia, por materialista que seja. Uma pitada de Deleuze ou de Foucault, como se vê, mas não parecem comprometer a tonalidade épica – basta mencionar a perspectiva de uma "marcha da liberdade" ou a "potência do processo de emancipação". Assim, um fio estratégico amarra o trabalho como um todo, num esforço deliberado em reafirmar a "unidade das lutas", e responder de forma suficientemente "unitária" e "universal" à complexidade do presente, dando um contorno ao novo "sujeito" da história. De modo que se constata que "o capitalismo mundial sabe unificar e articular seus instrumentos de domínio e de repressão: já é hora de que também a multidão, ou seja, a nova figura subjetiva que o proletariado forjou para a própria expressão constituinte, dê universalidade à análise revolucionária." Ora, viemos de uma geração que aprendeu a suspeitar das totalizações e de seus efeitos políticos e subjetivos, de modo que a exigência de reconduzir a uma unidade estratégica o pensamento da transformação pode despertar no leitor uma reação ambígua. Por um lado, certo conforto e até alívio, eventualmente, por deparar-se afinal com um início de "resposta" política suficientemente abrangente, inovadora e radical, sobretudo depois do desgoverno resultante da

queda do muro de Berlim. Por outro lado, se uma tal "vontade de luta" não for articulada o suficiente com a multiplicidade que o método de análise até reconhece e quereria contemplar, corre o risco de tangenciar um dirigismo multitudinário. Nem sempre está claro se esse risco está no plano da teoria, das propostas, ou antes do estilo enfático que é uma das marcas do livro. Sem medo da palavra comunismo Em todo caso, eis um livro que embaralha as cartas. Por um lado, vêem-se criticadas as posturas de crispação na recusa, como a de Holloway, ou do "gauchismo" em geral, que segundo os autores desconhece a natureza "aberta" do poder contemporâneo e suas possibilidades múltiplas. Mas isso não significa qualquer complacência de princípio com os poderes constituídos, sejam eles de esquerda, mesmo que uma perspectiva geopolítica, sobretudo no caso do Cone Sul, avalie positivamente articulações capazes de driblar o comando imperial, e se identifique pela primeira vez um movimento maior de desafio ao bloco do "biopoder" no continente, incluindo o eixo andino e seu componente indígena. Mesmo assim, à revelia do debate predominante entre nós, trata-se de desfetichizar o poder e a representação, desprendendo-se da ilusão de que a transformação social passaria pelo controle do aparato estatal, ou de que o poder poderia ser impoluto ("o poder é sempre corrupto, é fruto da corrupção da democracia, de sua limitação, da redução da potência de muitos ao poder de poucos"...), de que a democracia representativa poderia ser "moralizada" (já que ela é uma limitação da "democracia absoluta"), de que a independência nacional garantiria emancipação social (daí uma defesa da "interdependência", em vez da "independência")... Ao invés desses corretivos à democracia representativa, considerados cosméticos, e que encobrem o debate de fundo, insiste-se naquilo que aos olhos dos autores parece o principal: o desafio ao bloco do "biopoder" a partir de uma radicalização democrática, da potência constituinte do trabalho vivo, bem como da realidade subjetiva na dinâmica antagonista, e que podem impulsionar o êxodo em relação ao próprio capital, sem que os autores tenham medo da palavra comunismo. Universidade Nômade 23 GLOBAL


...o mundo é pequeno pra caramba/

tem alemão, italiano, italiana / o mundo, filé à milaneza/ tem coreano, japonês, japonesa...

Lenine linho Moska, Chico César e “O Mundo”- Zeka Baleiro, Pau

sobremim, de Isabela Lira, 2006. GLOBAL 24 Universidade Nômade


identidade, para quê? Tradicionalmente os termos nação, soberania, povo e identidade costumavam ser utilizados como conceitos associados e de tal maneira interligados que ficava às vezes difícil falar de um sem deixar de pensar no outro. A cultura de uma comunidade, por exemplo, operava uma espécie de mediação entre a idéia de Estado e de nação, da mesma maneira que o pressuposto de um povo unificado que delega seus poderes e se faz representar por um soberano foi um instrumento político essencial para a constituição do Estado moderno. Além de se apresentarem tão imbricados, esses conceitos foram construídos artificialmente, o que fica bastante evidente no caso de nação e povo: após o processo de invenção da nacionalidade seguiu-se o esforço para construir o povo – o “povo produzido” na definição de Étienne Balibar – uma entidade supostamente homogênea e ordenada necessária à constituição do moderno Estado-nação. Mas, como sabemos, aquelas comunidades artificialmente reunidas já não se encontram mais presentes na realidade social e política de nosso tempo; a passagem da modernidade para a pós-modernidade colocou em xeque justamente a idéia de que as sociedades, para poderem se organizar, serem governadas e sobreviver, deveriam se constituir em unidades homogêneas sustentadas por vínculos ou laços identitários. A persistência ou a insistência em construtos como identidade nacional, identidade lingüística, projeto de nação, seriam um recurso político para manter os laços e vínculos de pertencimento que vêm sendo “debilitados” a partir da intensificação dos fluxos migratórios e da maior circulação de pessoas promovidas pela globalização. Para que precisamos da identidade? Ora, se o vínculo tradicional entre identidade, nação e povo se enfraquece, por que ou para que ainda pensar em termos de identidade? Ou, refazendo a pergunta, será que ainda precisamos falar de identidade, mesmo quando a intensificação dos movimentos migratórios e dos movimentos de circulação de pessoas, bens e mercadorias entre países, regiões e, até mesmo, cidades, embaralha e faz um “milaneza” de etnias, culturas, territórios, línguas, costumes, saberes? Se tudo o que tem a ver com integração, assimilação, totalização é colocado em xeque a partir do momento que as pessoas circulam, se movimentam, se desterritorializam?

A identidade que vai nos interessar é sempre “provisória”, estratégica e aberta um campo de possíveis para a produção de si, para a produção da própria vida Leonora Corsini Uma primeira explicação para estas várias questões poderia ser encontrada no fato de as migrações possuírem um caráter intrinsecamente paradoxal e ambivalente: a experiência do migrante faz coexistir desejos e forças que levam por um lado a transnacionalizar, a atravessar fronteiras, a tornar o espaço comum; e, por outro, a conservar, a manter laços e marcas identitárias locais, regionais, singulares, individuais. Em segundo lugar, nem sempre a mestiçagem, a mistura de culturas, populações, grupos étnicos diferentes garante que aqueles que se mestiçaram, migraram, abriram mão de suas identidades ou vínculos originais, serão tratados de maneira igualitária em termos de direitos, de liberdade, de autonomia diante dos grupos dominantes. Esta é uma situação que se mostra muito claramente no Brasil, país onde a mestiçagem existe, mas cuja origem escravagista deixou um perverso legado racista que nos coloca muito longe da propalada – e falsa – “democracia racial”. Neste caso, o fortalecimento das identidades locais seria uma resposta política à experiência daquilo que Stuart Hall denomina “racismo cultural”, a partir de estratégias que reconduzem a uma identificação com as culturas de origem, confirmando assim que identidade e diferença são termos que se encontram inextrincavelmente articulados ou entrelaçados na produção de novas posições identitárias, sem que um termo anule completamente o outro. Mestiçagem global Por outro lado, podemos perceber que, a despeito da manutenção de alguns aspectos da dominação global ocidental mantidos deste os tempos coloniais, os movimentos migratórios que tiveram início no período pós-colonial e que se intensificaram com a globalização permitiram a formação de “enclaves” étnicos minoritários no interior dos países centrais que, por sua vez, favoreceram a pro-

dução de “novas” identidades, que escapam à oposição binária entre o branco colonizador e o negro colonizado. Estas novas identidades híbridas, misturadas, mestiçadas, marcam uma ruptura e colocam também em xeque a perspectiva da pureza das identidades tradicionais, ao mesmo tempo em que problematizam a própria categoria de identidade. Assim, um dos efeitos do processo de globalização, ao invés da temida neutralização das diferenças ou de homogenização cultural, foi o de provocar, com a proliferação de novas identidades, o alargamento do conceito. Ainda dentro desta mesma idéia, muitos autores vêm reinterpretando e buscando uma nova dimensão para o conceito de diáspora, uma experiência que pode concretamente possibilitar – ao colocar “em suspensão” as identidades originais – uma revalorização da diferenciação, tanto das identidades vinculadas ao país natal quanto às do novo lugar de residência. Ou seja, permitem pensar fora do “mito do regresso” do migrante ao lugar de origem, rompendo ao mesmo tempo a correspondência linear com uma “comunidade de pertencimento” e enfatizando uma nova forma de luta e resistência: a prática do atravessamento contínuo das fronteiras e das identidades constituiriam assim a base material de uma verdadeira “contra-história”, indo contra justamente os absolutismos étnicos e essencialismos identitários e favorecendo a criação de novos “etnoscópios globais”, para usar a expressão de Arjun Appadurai. “Não somos nós que atravessamos a fronteira, é a fronteira que nos atravessa”. (“Chicanos” da fronteira com os EUA) Enfim, concordando com a idéia de que é necessário desconstruir, deslocar e colocar a identidade em suspenso, rejeitando as suas acepções essencialistas, integrais e unificadas, acreditamos que o interesse em continuar utilizando este conceito deve estar em linha com a perspectiva de pensá-lo no limite, ou seja, a mesma linha que critica o conceito é a que paradoxalmente permite que se continue a pensar com ele. E a identidade que vai nos interessar é sempre “provisória”, estratégica e aberta – um campo de possíveis para a produção de si, para a produção da própria vida – e constitui, pela sua ressonância política, um dos elementos fundamentais para a compreensão dos incessantes movimentos e permanentes transformações que caracterizam os processos produtivos e os fluxos migratórios do modo como se apresentam hoje. Universidade Nômade 25 GLOBAL


A educação é estratégica para o desenvolvimento Alexandre do Nascimento Ações efêmeras, de Patrícia Glayds, DVD, 9 min, 2006. A última eleição presidencial confirmou a continuidade não simplesmente de Lula no poder, mas de um processo iniciado em 2003 que vem acelerando a inclusão de uma multidão de trabalhadores nos mundos do consumo, do conhecimento e da informação. Isso tudo apesar da chamada “crise ética” artificialmente criada pela grande mídia e outros setores da política e da economia, insatisfeitos com as mudanças de prioridades implementadas pelo governo federal. Sem dúvida, ocupantes de setores estratégicos do governo, e também o PT, cometeram erros. Mas, se olhamos com cuidado a história de boa parte dos partidos políticos e da grande mídia, bem como do empresariado e dos chamados “formadores de opinião”, é impossível não desconfiarmos dessa “crise”. Não por acaso Lula obteve quase 60 milhões de votos na última eleição. Essa multidão que reelegeu o presidente é a expressão de uma potência que, dentro das regras do jogo, pode consolidar-se como definidora das diretrizes das políticas públicas durante muito tempo. As políticas sociais implementadas no primeiro mandato foram (e continuarão sendo) fundamentais, pois muito mais que “políticas assistencialistas”, demonstraram ser políticas que estão colocando os setores mais pobres e discriminados como sujeitos de direitos e atores do processo político. Além disso, demonstraram que as mudanças pelas quais o Brasil precisa passar para a constituição material da democracia tocam processos de universalização de direitos. E estes começam com políticas de ação afirmativa de combate às desigualdades sociais. Os programas Bolsa Família e Programa Universidade para Todos (Prouni) são exemplos dessas políticas e, por motivos óbvios, contam com apoio maciço dos setores mais pobres. Através desses programas, o acesso concreto dos mais pobres e a democratização das dinâmicas de consumo, de acesso à informação e de processos de difusão e produção de GLOBAL 26 Universidade Nômade

conhecimentos foram acelerados. Porém, é preciso avançar muito mais implantando políticas que chamamos de radicalização democrática. Na educação há muito por fazer, e é especificamente sobre isso que quero falar. Prioridades Em seu primeiro discurso como presidente reeleito, Lula deu um especial destaque para a Educação, colocando-a como área fundamental de sua agenda para os próximos quatro anos, ao afirmar a aprovação do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Básico (Fundeb) pelo Congresso Nacional e a criação de um piso salarial nacional de professores como prioridades. Essas duas medidas, se concretizadas como quer o presidente, têm tudo para proporcionar ao ensino público um grande salto de qualidade, ao proporcionarem mais recursos para investimentos e aumento da oferta de ensino médio, e a melhoria dos vergonhosos salários pagos pelos governos municipais e estaduais aos professores. O Fundeb será implantado gradativamente. Em 2007, deve disponibilizar R$ 43 bilhões e, a partir do quarto ano, cerca de 55 bilhões, dos quais pelo menos 60% serão usados no pagamento de salários aos professores. Entretanto, na perspectiva do almejado desenvolvimento econômico e social, a educação deve ser concretamente tratada como elemento estratégico. O Fundeb deve ser mais que um fundo de recursos. No horizonte, a constituição de um sistema nacional de educação pública, com diretrizes gerais, repactuação das atribuições dos entes federados, o Ministério da Educação como coordenador do sistema e das secretarias estaduais e municipais como gestoras locais, investimentos em equipamentos e formação de professores e a autonomia pedagógica das unidades escolares (o que deve incluir a participação da sociedade nas deliberações) são extre-

mamente necessários. A escola pública, além de lugar de ensino-aprendizagem de conhecimentos, pode ser concebida como lugar de esportes, produção e difusão de cultura, idéias, informações diversas, ciência, tecnologias, empreendedorismo e, portanto, como instituição fundamental para a dinamização sócioeconômica do território em que está inserida. Outros elementos, também muito importantes, não devem ser deixados de lado na agenda de democratização da educação. É fundamental retomar o debate sobre os projetos de Reforma do Ensino Superior e de Cotas nas Instituições de Ensino Superior, ambos em tramitação no Congresso, que deve ser incitado a colocá-los em pauta. Além disso, é preciso intensificar algumas políticas e projetos já em andamento, como a ampliação da oferta de vagas nas universidades federais, a democratização do acesso às estruturas de informação e comunicação (internet, computadores, TV digital etc.), os programas de formação de professores (com especial ênfase para a formação em História e Cultura Africana e Afro-brasileira, como prevê a lei 10.639/2003), a alfabetização e elevação de escolaridade de jovens e adultos. Essas e outras medidas de política educacional são fundamentais para um processo de universalização de direitos sociais, condição do desenvolvimento econômico de uma sociedade. Eis aí, a meu ver, alguns desafios para o próximo mandato de Lula na área da educação. Importantes passos já foram dados. E já em 2007, com o Fundeb, haverá mais recursos disponíveis. Porém, sem o necessário acordo entre o MEC e as redes estaduais e municipais, sem uma agenda explícita de melhoria da qualidade e da gestão da política educacional e sem a ampliação da abertura do governo aos movimentos sociais, não avançaremos como precisamos.


POR ENTRE AS “BRECHAS” DO PODER Coletivo 16Beaver entrevista Brian Holmes 16 Beaver é o endereço (Beaver street 16, 5. andar) de um espaço criado por artistas para implementar e manter em funcionaApós um ano de atividades conjuntas, mento uma plataforma de apresentações, produções e discussões sobre vários projetos artísticos, culturais, econômicos e 16Beaver e Brian Holmes se encontram políticos. Desde 1999 estão em funcionamento no local debates, leituras, projeções e painéis com artistas, curadores, para uma conversa, na qual fazem pensadores, escritores, ativistas... O projeto Beaver é independente e auto-sustentado. Os ocupantes do espaço o mantêm usandoreflexões sobre questões teóricas e o como seu ateliê de trabalho/pesquisa/atividades. práticas comuns. 16Beaver: O que você teria a nos dizer sobre economia, sociologia, estes domínios tão obsessivamente analíticos? Brian Holmes: Brian Holmes: No ano passado trabalhamos basicamente sobre uma tese extraída da história da economia política: a noção de Karl Polaniy do "duplo movimento", que diz rerspeito ao paradoxo fundamental do capitalismo. Ao promover uma espécie de comodificação geral, administrando cada faceta da experiência humana segundo as regras do lucro e do retorno dos investimentos, o capitalismo provoca também fissuras, "brechas", que se manifestam na fuga, na guerra, ou simplesmente na busca de melhores alternativas. Polanyi mostra como a noção de mercados auto-regulados, nos quais supostamente seriam assegurados preços justos para tudo e se garantiriam os recursos necessários para a incessante produção de bens e riqueza não consegue dar conta de todos os fatores envolvidos na reprodução da terra, do trabalho, e da própria instituição financeira - o dinheiro propriamente dito. Na verdade, o comércio pouco cuidadoso dessas "commodities fictícias" tende a esgotar os próprios recursos: esterilizando a terra, exaurindo e até mesmo matando o trabalhador, arruinando o valor do dinheiro com uma especulação predatória e não fiscalizada.

Between Us, Demilitarized Zone, Korea.


mento (nomos). Assim, a importância do tipo de projeto que desenvolvemos é de poder ser usado como um espaço de experimentação, não apenas de busca de teorias ou procedimentos perfeitos mas, num sentido cosmológico, para rearrumar as estrelas acima de nossas cabeças... E este tipo de evento não acontece toda hora, temos mesmo que inventá-lo. 16B: Que relação você vê entre este modo de fazer pesquisa e os tópicos e questões que vimos trabalhando juntos?

Between Us, Garibong Dong, Seoul.

Sempre estive absolutamente convencido do acerto destas idéias mas, ao mesmo tempo, não tinha certeza se as pessoas estariam preparadas para ouvi-las. Num plano mais próximo do dia-a-dia, também avaliamos as conseqüências da comodificação do conhecimento e da cultura, que poderíamos perfeitamente considerar uma outra "commodity fictícia". Na perspectiva de pessoas que trabalham com conhecimento e cultura – como "trabalhadores imateriais" que somos – podemos olhar a nossa volta, aqui mesmo em Wall Street onde o 16beaver está localizado, para tentar compreender até que ponto todas as formas de produção cultural e científica estão cada vez mais sendo capturadas e instrumentalizadas pelo mercado, cuja quintessência é o comércio de bens imateriais. Por outro lado, existe uma grande ambigüidade na prática do trabalho imaterial, à medida que ele também está sujeito a um duplo movimento - ou, em outras palavras, à medida que nós também podemos reagir a esta pressão de total comodificação de nós mesmos e encontrar saídas, linhas de fuga, melhores alternativas para o uso de nossa inteligência, nossas capacidades de expressão, nossos sentidos. Acho que esta incerteza sobre os usos mais adequados da cultura e do saber é algo que hoje pode ser virtualmente compartilhado por todo mundo, para além das fronteiras geográficas. GLOBAL 28 Maquinações

16B: Para algumas pessoas é difícil entender o que pretendemos com este colóquio que poderia acontecer, digamos, em uma universidade ou instituição de arte... BH: Bem, o problema que eu tenho, e talvez outras pessoas também o tenham, é que o formalismo e o profissionalismo do circuito museu-universidade-festival muitas vezes atrapalham mais do que qualquer coisa. Não quero dizer com isso que devemos fechar os museus, construir barricadas nas universidades, queimar bibliotecas, voltar para o campo, ou qualquer coisa do gênero. Apenas defendo que as idéias não-convencionais, de dissenso, não surgem a partir de funções pré-estabelecidas e convencionais. E quando todo mundo taticamente concorda que produzir cultura só é possível sob o olhar beneplácito do mercado e do estado e, de preferência, dentro de suas folhas de pagamento, o que se consegue, na minha opinião, são ações tímidas, inócuas combinadas com emoções grosseiramente simuladas e “inflacionadas”. Num plano mais teórico, não vejo como se possa criar um contra-poder crítico – ou uma esfera contra-pública – onde não existe busca por autonomia, ou quando o self coletivo (autos) sequer se pergunta como criar sua própria norma de funciona-

BH: Para mim esta relação estaria na possibilidade de podermos ter algum tipo de influência na transformação desta realidade incrivelmente complexa que nos confronta hoje, especificamente as situações políticas, econômicas e culturais que estamos tentando discutir. Venho, por exemplo, tentando chamar atenção para as pré-condições do que denomino “fascimo liberal” desde que comecei meu trabalho com personalidade flexível, há uns cinco anos atrás. Mas creio que neste momento deveríamos tentar definir coletivamente este conceito, no momento em que ele adquire um estatuto de realidade, agora que os supostos Democratas votaram em favor do “Military Commissions Act” que suspende o habeas corpus e o direito a um julgamento justo, até mesmo o direito a não ser torturado, de qualquer um arbitrariamente acusado de ser um “inimigo ilegal” do governo americano. Não nos esqueçamos do exemplo da Halliburton, empresa que recebeu 385 milhões de dólares para poder “pedir detenção temporária” e “estabelecer poderes processuais” – estou repetindo literalmente o que está no website da empresa – com vistas a aumentar o raio de ação do Departamento de Imigração no caso de “um contingente e emergencial afluxo imigratório para os Estados Unidos, ou para dar suporte aos novos programas em desenvolvimento”. Novos programas? Que novos programas são estes? Que tipo de ameaça fantasma se esconde por detrás desta justaposição entre “inimigos ilegais” e Guantánamos domésticos? Por que as pessoas não falam disto?


16B: Como estamos, neste segundo ano, tentando ampliar as questões que surgiram no primeiro ano, quais seriam, na sua visão, os desdobramentos intelecutais do seu próprio trabalho, em termos do que você tem escrito e refletido mais recentemente? BH: Bem, um ano é bastante tempo, vai ser uma resposta longa! No meu próprio trabalho tenho dado continuidade à pesquisa sobre “Apetites Neoliberais” que apresentei no 16beaver do ano passado. A questão é de ver como algumas instituições sociais específicas têm incutido em nós as bases de uma subjetividade neoliberal, que consiste em interpretar você mesmo, suas realizações e sua criatividade – até mesmo o seu desejo – como capital humano, a ser nutrido e cuidado em termos do retorno potencial ao mercado, e para ser usado como medida de valor para qualquer tipo de experiência. Outras inquietações têm surgido, em torno dos conflitos intermináveis e insanos deste estado de guerra permanente. Minhas pesquisas recentes parecem indicar que o advento ou o declínio de algo como um Governo Mundial tem muito a ver com a aplicação da lógica cibernética ao planejamento da cidade e à construção de um sistema organizacional e tecnológico em escala global. A cibernética de segunda ordem foi definida pela primeira vez por um cara chamado Heinz von Foerster, que tentava entender as perturbações que surgem quando o observador é parte da máquina que observa, e as tentativas de reorientar ou transformar o sistema. Ao invés de buscar preservar o estado de equilíbrio de um sistema homeostático, a cibernética de segunda ordem tenta mapear como um sistema se desequilibra, altera seus próprios parâmetros e regras e depois passa por fases de mudança provocadas pelo excesso de feedbacks positivos. Na verdade, a noção de “estruturas dissipativas” deriva justamente daí. Idéias semelhantes surgiram e foram testadas na vida concreta pelos movimentos de contra-cultura, como uma maneira de romper o controle monolítico de nossas mentes. Ultimamente tenho lido alguns textos de Felix Guattari para tentar entender os princípios mais profundos

Camp Campaign, Lower 9th Ward, New Orleans.

da subversão contra-cultural, e acho que a obra de Deleuze e Guattari faz exatamente isso: inunda o controle cibernético com um excesso de desejo nômade, um equivalente estético das táticas de guerrilha que conseguiram suplantar as estratégias racionais de campo de batalha do sistema imperial americano. Muito do que consideramos arte de vanguarda ainda persegue esta linha de movimento disruptivo, de transbordamento. No entanto, o que a estratégia de subversão efetivamente induziu, quando o capitalismo pósmoderno terminou de reciclá-la como novo padrão de funcionamento, foi uma ênfase muito otimista na inovação e na mudança característica da Nova Economia. A cibernética de segunda ordem, renascida como teoria da complexidade, transformou-se no discurso principal dos anos 90, e o caos semiótico tornouse princípio produtivo. Mas, como este tipo de lógica econômica não poderia durar muito, vimos surgir, após o colapso da New Economy e das Torres Gêmeas, novas versões de uma militância emergente, praticada primeiramente pelos movimentos antiglobalização, e depois, de maneira bem diferente, pelas redes de terrorismo. Nos anos 90 o sistema acreditava que podia superar sua capacidade de se auto-desestabilizar. O que se mostrou ilusório, no final.

Finalmente chegamos a um momento em que o governo americano tenta desesperadamente recuperar ou prolongar aquela fantasia paranóide do controle estático do mundo, agora através de uma estratégia inteiramente nova, e extremamente dinâmica. Também aquele sentimento individual de um “self” desejante, criativo e valorizável, constantemente em risco num mundo de imprevisibilidade – em outras palavras, o apetite neoliberal pela autocapitalização – encontra seu paralelo, num plano macro, em um governo que se supera, com todo seu poderio hegemônico, em eliminar ou neutralizar os riscos que, paradoxalmente, ele mesmo recria sem cessar. Esta obsessão pelo controle hiper-individualizado está na base do fascismo liberal que se manifesta hoje no Military Commissions Act. Tornamo-nos, além disso, cada vez mais conscientes de que vivemos não apenas em uma cidade ou país ou região, mas numa sociedade mundial: um mundo permanentemente atravessado por pessoas com seus múltiplos pertencimentos, pessoas que estão bastante cientes tanto da interdependência e suposta autonomia de suas organizações e entidades políticas quanto da extrema fragilidade das redes e laços que as mantêm juntas. Tradução de Leonora Corsini Maquinações 29 GLOBAL


Psicanálise hoje: do gozo da atuação É evidente que mudou muito a demanda daqueles que procuram tratamento psicanalítico hoje em dia. Principalmente no que diz respeito à população jovem. As patologias subjetivas da atualidade são tributárias, em boa medida, da deflação do modelo disciplinar da sociedade moderna. O enfraquecimento das regras, da autoridade e da interdição tem claras conseqüências sobre a produção pós-industrial de subjetividade e, por conseguinte, sobre o padecimento subjetivo da atualidade. Não se podem confundir os registros do indivíduo e da sociedade com o do sujeito. De fato, a subjetividade se configura como expressão de um duplo resultado. Por um lado, trata-se do efeito imaterial da produção social dos indivíduos ao qual se acrescenta, por outro, o produto da criação de si. Utilizando a gramática foucaultiana, remetemos o primeiro às práticas de poder e saber, enquanto o último corresponde às práticas de si. Somente estas considerações nos autorizam a deslizar de um registro ao outro, ainda que reste por problematizar as relações entre eles. Trabalhar a criação de si A normatividade contemporânea incita, ruidosamente, a capacidade decisória. Contudo, a lei moral e a tradição, valorizadas no interior do antigo paradigma da modernidade, não ditam mais as regras de conduta que teríamos de seguir. Frente à ausência das identidades institucionais, a subjetividade, sem modelos sociais estruturantes, é compelida a um trabalho redobrado de criação de si. Para o indivíduo moderno, ao contrário, a identidade universal da moral se expunha com nitidez, corporificada pela lei fortalecida. Neste contexto, Freud atestaria que o sujeito (“aparelho psíquico”) sofre de um mal-estar, marcado, sobretudo, pelo conflito com o poderoso supereu. Do confronto com a instância psíquica representante dos valores sociais, derivam a neurose e o sentimento inconsciente de culpa. GLOBAL 30 Trânsitos

Com efeito, na modernidade, a figura central do Outro possuía enorme envergadura. Sob variados formatos (Deus, Rei, República, Povo, Lei do Pai, etc.), o Outro se colocava em situação de transcendência com relação ao domínio do indivíduo e do sujeito. A propensão a seguir os postulados das ideologias modernas exigiria da dimensão subjetiva, a frustração da demanda imposta pela sexualidade e a notável dependência frente ao supereu. Na atualidade, as coisas se passam de outra forma. Com o abalo sofrido pelas instituições capitalistas, o Outro vem, gradativamente, diminuindo o espaço transcendente que o distanciava inapelavelmente do sujeito moderno. Em presença de uma autoridade medíocre, incapaz de infundir a interdição suficiente, o Outro “introjetado” (supereu) se ofusca rapidamente enquanto referência simbólica. Uma formação do Eu efêmero No contexto do neoliberalismo, as relações humanas se vêem reduzidas aos aspectos econômico-financeiros. No interior da tecnocracia que comanda a sociedade hoje em dia, os indivíduos não se sustentam mais pela mediação da lei do Outro, mas sim, pelo agenciamento dos incríveis objetos da tecnologia, potencialmente capazes de restringir o sofrimento a zero. Menos sujeitos, estamos nos tornando objetos, com estatuto de mercadorias lançadas no atacado das trocas. Já vai longe o mal-estar neurótico identificado por Freud. Na modernidade freudiana, o sujeito se encontrava inexoravelmente submetido à castração. A satisfação do desejo era impossível, interditada pela Lei de Édipo. Pois bem, hoje em dia presenciamos o contrário. Nada é impossível. Clonagem, reprodução assistida, cirurgias, implantes ou fármacos de última geração nos livram das dores, das infecções ou da angústia. Em suma, há toda a sorte de objetos, matraqueados pela mídia agressiva e sem ética, para saciar as


ao prazer da argumentação Eduardo Rozenthal vontades mais inusitadas. A interdição torna-se menos operante, permitindo que a satisfação (total) do desejo se apresente no horizonte das possibilidades. Contudo, quando o objeto do desejo parece não mais faltar, o que falta é o próprio desejo. A incitação maior da sociedade atual soa claramente: escolha um objeto e goze! Afastadas a moral platônica do bem, a moral kantiana do dever e a moral freudiana do desejo, o gozo parece ser a única alternativa viável para a ação. A atuação (acting out) substituiu a negociação, o narcisismo desenfreado tomou o lugar da argumentação dialogada. É isso que se observa na clínica psicanalítica hoje. A dinâmica psíquica, que se regula a partir do conflito com o supereu, vem sofrendo um deslocamento de modo que o sentimento de culpa quase não se manifesta. As patologias que se apresentam no cotidiano da análise não são mais, prioritariamente, disfunções do funcionamento psíquico do desejo. Ao contrário, para os jovens compulsivos de nossa sociedade de controle, a presença de desejo pouco se verifica. O adicto não é sujeito do desejo, mas objeto da droga. Para os novos padecimentos, o que está em jogo são as condições de possibilidade para os circuitos desejantes. Trata-se, antes, dos distúrbios da criação de si ou dos destinos da força extra-psíquica da pulsão ou, simplesmente, da intensidade dos afetos sem qualquer representação subjetiva. Para os adictos, a excitação do consumo das mercadorias maravilhosas implica a desapropriação de si cuja conseqüência mais exuberante é o abuso do outro. Entretanto, tais distúrbios, cada vez mais freqüentes em nossos consultórios, encontram raro conforto no instrumental tradicional da análise.

Confere com o original, de Patrícia Glayds, DVD, 9 min, 2006. Novas construções na clínica psicanalítica A partir de 1914, Freud iria radicalizar o privilégio da transferência, ao modificar os objetivos da análise, afastando os critérios de seu final, da identificação do eu do analisante ao eu do analista (neutro). Esta virada teórica e clínica daria lugar à força maior do encontro transferencial entre dois sujeitos, valorizando os aspectos potenciais do diálogo analítico. O olhar de Freud se reorientaria, então, para incluir, paulatinamente, as condições pressupostas para o funcionamento do desejo, isto é, para as vicissitudes da pulsão, “além do princípio de prazer”, que se inscreve para produzir seus representantes psíquicos. A morbidez subjetiva do terceiro milênio expressa, assim, vigorosamente, as disfunções dos encontros, cujas conseqüências contribuem para a dificuldade da inscrição da força pulsional. Por conseguinte, para os compulsivos de hoje, ao drama da representação social edipiana, se acrescenta, sob forma definitivamente trágica, as condições afetivas associadas à criação de si. Reduzir as estratégias clínicas ao manejo da interpretação das resistências inconscientes não atende aos sintomas tipicamente contemporâneos. Somente a construção de um encontro transferencial, baseado na potência de afetar e ser afetado poderá, de maneira significativa, concorrer para o tratamento da compulsão e da adição. Estas novas diligências transferenciais contribuiriam para o desvio do gozo mudo e frio da atuação e da pulsão de morte, em direção ao prazer da negociação e da argumentação criativas. A via do adiamento e da tolerância ativa, ainda que mais trabalhosa, é incontestavelmente, mais segura e prazerosa do que o consumo excitado e desmedido. Trânsitos 31 GLOBAL


Uma mudança profunda está acontecendo na assistência pública em saúde mental no país. Ela vem de longe, desde o início dos anos 90, quando a sociedade foi atravessada pelo debate sobre o “fim dos manicômios”, e ganhou força com a aprovação de uma lei nacional em 2001. Mas os últimos anos foram decisivos. Há um cenário novo, onde os grandes hospitais de longa permanência (como Juquery, Colônia Juliano Moreira, Doutor Eiras) estão sendo – de forma progressiva e cuidadosa, porém definitiva – substituídos por pequenas unidades abertas, imersas na própria comunidade, efervescentes de vida, ligadas à atenção primária de saúde e a leitos de hospitais gerais. Mudança tão grande não se faz sem polêmica e debate. A pergunta é: a proposta está funcionando, ela é melhor para a população que depende do SUS?

Pós-neo-concreto, de lhwolf. Galeria de Bolso, Casa de Cultura da América Latina, Brasília, 2005. Foto de André Santangelo. GLOBAL 32 Maquinações

Quem trabalha no campo da psiquiatria sabe que o desafio principal, num país do tamanho do Brasil, é assegurar o tratamento a todas as pessoas que sofrem com os chamados “transtornos mentais”. Esta é uma das áreas mais complexas da saúde pública, justamente porque a quantidade de homens, mulheres e crianças que precisam de ajuda se conta aos milhões. Para se ter uma idéia: numa cidade de 1 milhão de habitantes (como Campinas, São Gonçalo, Goiânia), 30.000 pessoas terão transtornos graves (psicoses, neuroses graves), precisando de atendimento permanente, às vezes diário; outras 100.000 buscarão, nos próximos 12 meses, um psiquiatra ou psicólogo ou outro profissional de saúde para uma consulta onde irão falar de sua aflição quase insuportável

(ou sentirão muita necessidade de fazê-lo, podendo desistir, o que vai agravar muito seu sofrimento); milhares terão problemas muito graves com o consumo de bebidas; centenas apresentarão problemas mentais pelo uso de outras drogas, como a cocaína. Assim são os números – gigantescos – que se apresentam como um desafio à saúde pública, neste campo do sofrimento mental. Afinal, o Brasil tem 14 cidades com mais de um milhão de habitantes, e 5.600 municípios, onde vivem os 186 milhões de brasileiros. Mas a loucura – nome que se costuma dar às diversas formas como se apresenta este fenômeno radicalmente humano – é quase sempre silenciosa. Não se surpreendam: os “surtos”, os comportamentos extravagantes ou inconvenientes, o suicídio, a dependência grave que se torna um problema na família e no trabalho, todas estas situações são a ponta do iceberg, constituem o emergente singular de um fenômeno epidemio lógico de vastas proporções, presente em todas as culturas, em países


ricos e pobres, e indissociável da experiência humana sobre a terra. Eis aí um fato irrecorrível: o sofrimento mental é um problema de todos nós, a que todos estamos sujeitos; freqüentemente é insuportável, muitas vezes é trágico mas, na maior parte dos casos, costuma ser vivido silenciosamente, sem esperança de ajuda, sem demandar atendimento nos serviço, sem pressão sobre os governos. É obrigação da sociedade e do Estado estender a mão aberta da rede de atenção, ouvir as pessoas que sofrem onde elas puderem falar, em sua própria vizinhança, apresentando-se de modo accessível e acolhedor. Esta é uma tarefa gigantesca, urgente e complexa, que não admite soluções mágicas e reducionistas. O Brasil enfrenta este desafio através da extensa criação de pequenos serviços comunitários de saúde mental, que se associam aos demais serviços da rede de saúde e fazem apelo à participação de toda a comunidade. Vale a pena conhecer como anda a implantação desta política.

Hoje são 952 CAPS. Quase 30.000 profissionais trabalham nesta rede, 600 mil pacientes são atendidos. Os países que estão obtendo bons resultados na ampliação do atendimento em saúde mental são aqueles que adotaram a estratégia das redes de serviços locais, vizinhos dos pacientes, abertos, dinâmicos, com grande participação dos familiares e da comunidade. Os serviços estabelecem uma relação próxima e dinâmica com a atenção primária, isto é, com os postos de saúde dos bairros, equipes de saúde da família, agentes comunitários de saúde. Quando necessário que o paciente seja internado, o esforço é para que esta internação seja curta, não afaste por muito tempo a pessoa de seu ambiente e de sua vida diária, assegure, sempre que possível, que ele mantenha seus vínculos de trabalho, família, sociabilidade. Tentaremos conhecer o dia-a-dia de um destes serviços que, no Brasil, chamamos de Centros de Atenção Psicossocial, mais conhecidos pela sigla CAPS. Talvez o leitor já tenha se deparado com um destes centros em sua cidade. São casas aparentemente comuns, com uma placa do SUS na porta, e o nome do serviço (às vezes é o nome

Pedro Gabriel Delgado

Os CAPS: a revolução silenciosa da saúde mental

do bairro, ou nomes que homenageiam pessoas importantes ou personagens literários, ou ainda designações poéticas escolhidas em votação pelos próprios pacientes, que preferem ser chamados de “usuários” do centro). Em geral, funcionam de 8 às 18 horas (mas podem também ser serviços de 24 horas, abertos a semana toda, dia e noite), e lá são atendidos os pacientes de uma mesma região ou “território”: nas cidades pequenas, o território é a cidade toda, mais a zona rural; nas cidades grandes, são os bairros ou grupos de bairros. O ideal é que a população pela qual o CAPS é responsável seja compatível com as dimensões e a equipe do serviço, mas muitas vezes isto não é possível, e o centro tem que se desdobrar para atender uma população muito grande, de 100 ou 200 mil pessoas. Entre num desses CAPS: você verá pacientes sendo atendidos em consultórios de psiquiatras, psicólogos e outros profissionais, fazendo oficinas de arte, participando de assembléias, sendo avaliados pelo médico clínico, organizando a agenda de visita de centros culturais naquela semana, discutindo asperamente sobre os limites que a vida impõe aos sonhos e à amargura, dramatizando a dor e a alegria, recebendo medicações, repousando em leitos de observação, discutindo meios de ampliar a renda obtida com o trabalho solidário. O leitor verá discussões inusitadas: como abordar o louco de rua do território, sem descer sobre ele a mão pesada do Estado; qual o melhor caminho na negociação com a segurança pública, em situações delicadas, dramáticas, envolvendo clientes do serviço. Se são CAPS-AD, para pessoas com transtornos pelo uso de álcool e outras drogas, ou CAPS infanto-juvenis, o cenário será um pouco diferente, expressando as vicissitudes próprias destas duas clínicas tão peculiares (e que muitas vezes se encontram), do uso de drogas e do sofrimento psíquico de crianças e adolescentes. Hoje são 952 CAPS, vamos comemorar o CAPS 1.000 no mês de dezembro. Quase 30.000 profissionais trabalham nesta rede, 600 mil pacientes são atendidos, milhares de equipes de saúde da família se vinculam aos serviços. As outras políticas públicas, indispensáveis ao campo da saúde mental – ação social, justiça, segurança pública, educação – encontram no CAPS uma Estação Cidadania e uma Usina dos Sonhos, uma ágora dinâmica, febril, espaço para discutir, a cada momento, e construir uma sociedade mais justa. O Teatro do Oprimido, as oficinas de arte, os CAPSEscola articulados com as universidades, ajudam a construir este espaço terapêutico mergulhado na cidadania. Pergunte onde fica o CAPS de sua cidade, e, se ele não existir, ponha a boca no trombone. Maquinações 33 GLOBAL


TÔ MALUCO, MAS TÔ EM OBRA Luiz Cláudio dos Santos Aleh Ferreira Alexandre Wanderley

PASSAGEIROS DA

SEGUNDA CLASSE

Além de fazer um “registro-denúncia” dos cruéis e desumanos dispositivos de disciplinamento e controle historicamente utilizados para silenciar a subjetividade do louco, curta metragem nos lembra que a luta antimanicomial é uma luta que continua...

Alexandre Ribeiro Wanderley

Prepara a aquarela Afina o violão Bota o molho na panela Enlouquece o barracão

Eu vou te contagiar Mas não tenha medo meu irmão Minha febre é de aguentar Tanto tempo em reclusão

Vou soltar meu grito guardado Há quantos anos nessa avenida Já cansei de tanto esculacho Mas não desisto da alegria

Tempo congelado, cantilenas tristes e repetitivas, corpos nus que parecem despossuídos e entregues sobrevivem sob a sombra da morte. Esse é o fúnebre cenário retratado no premiado documentário Passageiros da Segunda Classe, de Luiz Eduardo Jorge, Kim-Ir-Sen e Waldir Pina. Com valor de documento histórico, o filme nos transporta para o interior do Hospital Psiquiátrico Adauto Botelho, um ano antes de sua desativação, em Goiânia, 1997. Curiosamente, o filme é rodado no mesmo ano em que se constituiu o movimento nacional da Luta Antimanicomial, formado por profissionais do campo da saúde mental, usuários dos serviços psiquiátricos, familiares e outros atores sociais – como os diretores do documentário em questão – cuja missão era e continua sendo a de dar fim à violência dos manicômios, substituindo-os por um tratamento humanizado que privilegia a inserção do louco na sociedade.

Uma luta que não acabou A recente exibição do filme no programa Curta Brasil da TVE não poderia ser mais oportuna. Nos últimos meses, segmentos reacionários do campo da psiquiatria têm vindo a público se manifestar contra a Reforma Psiquiátrica brasileira, com a alegação falaciosa de que as transformações assistenciais em curso privam a população do direito à internação, supostamente a única forma de se tratar “cientificamente” os transtornos mentais graves. Mas o que está em jogo é uma tentativa desesperada de dar sobrevida à “indústria da loucura”, formada por clínicas privadas conveniadas ao SUS que obtinham lucros extraordinários com o pagamento das diárias de internação e a manutenção indevida de pacientes internados por anos, muitas vezes décadas. A lei da Reforma Psiquiátrica tramitou por mais de 12 anos no congresso até ser sancionada, justamente por conta da poderosa resistência dos donos de hospitais. Com a sua aprovação, os recursos destinados à contratação de leitos nos hospitais psiquiátricos passaram a ser prioritariamente empregados na construção de uma rede de serviços assistenciais abertos, os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), provocando assim o progressivo desmantelamento dessa indústria.

Apesar da intenção dos diretores de dar voz aos internos, nem sempre se consegue entender o que é dito, o que não deixa de ser ilustrativo. Não há lugar para o discurso do louco no espaço manicomial. Tampouco é casual o fato das cenas de aplicação burocrática e em série de eletrochoques – de caráter aparentemente punitivo ao invés de terapêutico – serem as únicas em que a equipe médica aparece no documentário. Como nos mostrou Foucault em A História da Loucura, a apropriação da loucura pelo discurso psiquiátrico silenciou a voz do louco e aboliu qualquer possibilidade de diálogo. Desde o nascimento da psiquiatria como primeira especialidade médica, com o gesto inaugural de Pinel de libertar os internos dos grilhões, a relação estabelecida com os loucos foi muito mais de dominação do que de conhecimento e tratamento. Para Foucault, as correntes foram substituídas pelo encadeamento moral, no qual o interno se via forçado a reconhecer o erro do delírio. Só com o estatuto concedido por Freud ao discurso delirante como possuidor de uma racionalidade própria, que encerra uma tentativa de cura, a voz dos loucos foi revalorizada. E quando se dá voz aos internos, como fizeram os diretores do filme, o que se escuta não são apenas pensamentos desconexos e de difícil compreensão, mas também desejos tão prosaicos e fundamentais como os de qualquer cidadão: desejo de trabalhar, de viver em sociedade e de amar. Me desculpe seu doutor Há remédios pra loucura O meu samba é resistência Minha arte é minha cura

Muitas vezes, as estratégias empregadas para difamar a Reforma visam a confundir a opinião pública. É falso dizer que a Reforma aboliu o recurso à internação pois esse direito continua garantido pela lei 10.216. A questão é que a internação deixou de ser vista como recurso privilegiado, tornando-se recurso de exceção. Uma vez esgotados os meios de intervir numa situação de crise que coloque em risco a integridade do paciente ou de outrem, há indicação para internação. A permanência no hospital deve obedecer unicamente a critérios terapêuticos, e não aos interesses escusos dos donos de hospitais. Tão logo se encontre em condições de dar continuidade ao tratamento em liberdade, o paciente deve receber a alta. Com isso, evita-se a seqüela causada por internações muito longas, que Franco Basaglia chamou de “duplo da doença”, ou seja, aquilo que não é intrínseco ao fenômeno da psicose, mas é produto da identificação do paciente ao olhar coisificante da psiquiatria tradicional, justamente o que se vê em Passageiros da Segunda Classe. Um remedinho pode ser Se me cai bem, não vou negar Mas só se for pra temperar Minha fome de viver


Seu D. Pedro não sabia Que loucura não se prende Não se esconde, não se cala Não se mata nem se ofende

Um poeta visionário Ele não escutou Mas agora vou lembrar O que o “Joe” me ensinou:

“Não joque fora sua loucura, ela é real!” Entre nessa realeza para pirar o carnaval

Outra estratégia utilizada pelos detratores da Reforma é fazer crer que a lei se inspira no modelo da Antipsiquiatria da década de 60, cujos principais expoentes foram Laing e Cooper, contrários a qualquer tipo de intervenção psiquiátrica. Outra acusação falsa: a Reforma Psiquiátrica brasileira tem com principal fonte de inspiração a Psiquiatria Democrática Italiana, capitaneada por Franco Basaglia. Nesse paradigma, o recurso aos fármacos e à internações criteriosas é considerado útil para aliviar o sofrimento humano, mas todo e qualquer aperfeiçoamento das ferramentas tecnológicas (modernização dos aparatos hospitalares, desenvolvimento de novos fármacos ou aprimoramento das psicoterapias) será insuficiente se no centro das ações não estiver o propósito de resgatar a cidadania do louco. Essa dimen-

são política é central para a Reforma. Para tanto, é preciso transformar o imaginário social da loucura, historicamente associada às noções de periculosidade, irrecuperabilidade e incapacidade de produzir e conviver em sociedade.

Av. Pasteur, endereço que abrigou o primeiro hospício da América Latina, fundado por D. Pedro II em 1852. Caminhando para o seu terceiro desfile, nesse ano o enredo do Bloco é uma resposta bem humorada ao discurso da “Contra-Reforma Psiquiátrica” que, entre outros disparates, tenta ridicularizar o papel da arte como instrumento terapêutico. Cerca de 20 sambas foram compostos por usuários e profissionais da rede de saúde mental, e um deles foi escolhido por um júri de eméritos sambistas – dentre os quais Walter Alfaiate, padrinho do Bloco – para ser cantado na avenida no dia 11 de fevereiro de 2007. Transcrevemos aqui a letra do samba oficial do bloco Tá pirando, pirado, pirou! composto por um usuário, um profissional da saúde mental e um músico, que sintetiza o que foi dito nesse texto.

Para finalizar, destaco uma iniciativa recente, dentre muitas que visam intervir no campo da cultura. Trata-se do bloco carnavalesco Tá pirando, pirado, pirou!, formado por usuários, profissionais da rede de saúde mental do Rio de Janeiro e simpatizantes da causa. O nome foi sugerido por um usuário do Instituto Municipal Philippe Pinel, que argumentou: “precisamos ser audaciosos, não vamos fazer um carnaval apenas pra quem já pirou, vamos pra rua brincar com quem tá pirando”. Com esse espírito, o bloco desfila pela

Diário do Despertar, foto de Cristiana Miranda, 2004. E se eu tiver que me internar Segura as pontas coração! É só um pulo, você vai ver, eu vou ali e volto já

Eu tô maluco, o lará Mas tô em obra, o lerê Me lapidando na reforma pra valer

Eu tô maluco, o lará Mas tô em obra, o lerê Me lapidando na reforma pode crer

Maquinações 35 GLOBAL


Resistência e vigor cultural: o caso dos morangos de Itapajé Alberto Cipiniuk Madson Oliveira

Intervenção Urbana: Projeto Rizoma, de Moema Branquinho GLOBAL 36


Este pequeno artigo trata de uma estratégia de resistência do povo brasileiro para preservar o seu universo simbólico, seus modos de fazer e de ser. Apontaremos o fato de o desenvolvimento das culturas subalternas ser impedido, reordenado e adaptado para a expansão de uma única forma totalitária e hegemônica. Que o capitalismo e seu braço político, o neoliberalismo, assim como a globalização, promove a disseminação das fronteiras materiais e espirituais de sua ideologia.

Mas o problema não é propriamente a padronagem, digamos, exógena ao semi-árido. Havia uma espécie de invasão de morangos nos bordados de todo o Ceará e como isso impossibilitava a definição de sua localidade de origem, conseqüentemente, o preço dos morangos bordados de Barateiro caía.

Nosso exemplo é o dos bordados populares de Barateiro no município de Itapajé (Ceará). Desde 1920, o bordado é uma atividade comercial e a partir de então os artesãos locais promovem a atividade com fins comerciais e mantêm contatos com clientes externos. Em Barateiro, o bordado se destina, em sua grande maioria, às peças de decoração do lar, como colchas e lençóis, toalhas e caminhos-de-mesa, jogos de guardanapos, panos de bandeja etc. Geralmente, na casa de um artesão há sempre mais de um membro envolvido com a atividade. As crianças crescem em volta de linhas, tecidos, bastidores, agulhas e, algumas vezes, máquinas de costura. Da mesma maneira que a atividade desperta o interesse profissional de alguns, afasta o de outros.

O Laboratório da Representação Sensível (LaRS) do programa de pós-graduação de Design da PUC-Rio, assim como o Grupo de Estudos em Artesanato e Design (GRUDAR), não têm pudor de dizer que deseja o bordado fora das vitrines dos museus etnográficos, nem tampouco deseja vê-los à venda nos grandes magazines da capital por um preço vil. Na verdade, também negamos a vitimização dos artesãos de Barateiro diante da dimensão planetária do capitalismo contemporâneo. Hoje, mesmo que o capitalismo incorpore esse tipo de trabalho, outrora excluído como doméstico ou “primitivo”, continua-se tentando excluir os artesãos do controle de sua produção e do consumo. Admitem o consumo e a expansão das vendas, mas desejam colonizar universos simbólicos de coletivização e integração social. Uma boa resposta ao capitalismo foi a forma criativa com que a população de Barateiro ressemantizou seu bordado e manteve sua tradição de trabalho doméstico e coletivo. Artesanal ou industrial, o objeto popular só existe como uma prática social e tem sentido se é conquistado concretamente nas relações sociais. Portanto, é a origem do objeto que lhe dá significação popular, mas entenda-se origem como o uso que suscita práticas coletivas, pois são essas que lhe dão identidade e humanidade.

O Programa de Revitalização do Artesanato de Itapajé (PRA-ITA) promovido pela prefeitura do município agiu para modificar esta relação dos padrões utilizados nos bordados de três comuO Nordeste brasileiro possui uma rica cultura diluída em suas nidades da região periférica de Itapajé: Camará, Pitombeira e festas e práticas sociais. Essa cultura reproduz valores que celeBarateiro. A intervenção constou de dinâmicas de grupo que bram a amizade, o respeito pelo próximo e outras virtudes colocaram os artesãos em contato mais próximo com membros humanas. Por conta do êxodo rural para as cidades, para solude outras famílias, bem como fez com que eles se percebessem cionar em parte o desemprego e demais injustiças membros de um grande grupo que tinha um sentimento de perdo capitalismo, as famílias produzem objetos de tencimento pelo fato de serem artesãos. O artesanato para venda, isto é, se antes os segundo momento do PRA-ITA refereobjetos eram produzidos considerando-se se à criação de um motivo novo, primordialmente o seu valor de uso, agora a responsável pela identificação dos Região do Ceará cria identidade demais ênfase é seu valor de troca. Por conta da grupos da região (ou de fora), incorporação de todas as formas de trabalho a partir do artesanato mostra servindo como uma “marca”. ao modo de produção capitalista, esses objeDesigners vieram da capital para tos acabam perdendo aspectos identitários. que é possível aos artesãos auxiliar no trabalho. O grupo diviPerguntamos se não haveria um modo de delidiu-se em subgrupos e discutiram recuperarem o controle mitar fronteiras que impedissem a expansão sobre quais elementos do cotiplanetária do capitalismo, se não podediano poderiam ser representados de sua produção ríamos estabelecer, por assim dizer, um em seus bordados. Eles buscordão sanitário, em que essas comunidades caram, em suas próprias narrapudessem escolher se desejariam manter seus tivas, quais elementos poderiam costumes e tradições, em lugar de serem obrigadas ser incorporados aos bordados na a converter seus objetos de uso em românticos tentativa de criar uma identificação, adornos “primitivos”. Se poderiam deixar de produzir como uma “assinatura” capaz de representar sua localidade. mero espetáculo para o consumo turístico, ávido de novos proDepois de algumas propostas – folhas de plantas locais, casas, frudutos e fora da fria racionalidade industrial. Mas, antes de avantas da região – conseguiram encontrar na flor do flamboiã a çarmos, é preciso dizer que não desejamos isolar essas comubeleza e o significado para a resistência da atividade artesanal. Os nidades para que elas permaneçam como sempre estiveram, artesãos de Barateiro reconhecem na flor do flamboiã o símbolo até mesmo porque elas não desejam estar isoladas. O que é que os identifica enquanto “bordadores”, metáfora de resispreciso é definir como deve acontecer essa aproximação. tência e permanência numa atividade tradicionalmente inventada. Assim, quais seriam as políticas públicas que poderiam levar o Por meio de desenhos de observação, as artesãs representaram desenvolvimento a essas regiões e a partir de suas próprias a flor desta planta de várias maneiras (de frente, aberta, de perfil) práticas sociais? Seria possível reverter esse processo de sube exploraram esta possibilidade nos diversos pontos de borsunção do artesanato tradicional ao modo de produção indusdados, obtendo sucesso com a estratégia de desenvolvimento trial? Qual seria a “boa” tarefa de interseção nesse processo? de um “novo produto”. E mais: o flamboiã também não é uma Como respeitar valores e vender produtos? planta nativa da região, mas vem do Chade, na África central.

Os motivos mais utilizados nos bordados da comunidade representam uma vasta quantidade de espécies florais, folhas e frutos. Contudo, havia um ponto intrigante. O padrão mais utilizado consistia em um motivo, de certa maneira, estranho à tradição: morangos, isto é, um fruto impossível de brotar naquele clima de vegetação semi-árida. Em várias localidades no interior do Ceará, este motivo, ainda hoje, é executado. Parece haver uma relação de desejo pelo fruto que não é cultivado naquele tipo de clima.

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ESTÉTICAS DA VIGILÂNCIA

“Una tarde de amor”, ou “vídeo da Cicarelli”, produzido pelo jornalista espanhol Miguel Temprano, revela uma contemporaneidade marcada por um controle difuso possibilitado pela massificação das câmeras digitais, celulares, webcam, scanners...

Fernanda Bruno e Consuelo Lins

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Um vídeo de 18 minutos do artista baiano Caetano Dias intitulado Uma e exposto na mostra Paralela que aconteceu simultaneamente à 27a Bienal de São Paulo expressa novos elementos que integram o que podemos chamar de um segundo estágio da estética da vigilância na produção audiovisual, cujas origens remontam ao final dos anos 60. Trata-se da filmagem quase sem cortes de um casal em uma praia brasileira que entra no mar para transar. A moça é negra, o homem é branco; não são atores, aparentemente, mas pessoas anônimas capturadas à revelia pela câmera do artista. A imagem colorida, instável, típica de uma câmera amadora, é realizada de um mesmo ponto de vista e parece registrada à distância por um zoom. Tal descrição evoca de imediato uma situação semelhante, protagonizada recentemente pela modelo Daniela Cicarelli e o namorado em uma praia da Espanha, e filmada pelo paparazzo espanhol Miguel Temprano. Transformada em um curta-metragem de 4 minutos com o título Una tarde de amor, o filme foi exibido em diversos sites da Internet, especialmente no You Tube, que ganhou com isso, só no mês de setembro, quase um milhão e meio de novos usuários de Internet residencial no Brasil. As imagens de Una tarde de amor estão longe de ter o caráter “bruto” das de Caetano Dias. São bem mais estáveis, embora desfocadas em alguns momentos, e feitas de vários pontos de vista. O cineasta acrescentou na edição música e inter-títulos em espanhol: “Abrázame tonto”, “El deseo les posee”, “No controlan sus instintos”, “Calmará el agua su calor?”, imprimindo um sentido específico à apreensão do espectador. Caetano Dias intervém pouco no resultado final, mas não deixa de atribuir, no resumo que faz do vídeo, um significado ao que filmou, tão contestável quanto o do espanhol, ou talvez tão irônico quanto: “(...) O sol cavalga as ondas e o dia se arrasta gostoso, pronto para o sexo. (...) Ela parece encontrar o príncipe encantado, ele, apenas o gozo. (...) Ele vai embora. Ela se afoga em desilusão, perdida nas promessas do oceano que se derrama em vazios”.


O panóptico audiovisual Se há entre esses dois trabalhos uma clara diferença de projeto, há também uma evidente similitude, provocando um curto circuito perturbador entre diferentes territórios da prática artística contemporânea. Uma similitude que espanta e que nos aponta uma reorganização do visível e da vigilância, pois não é mais aquela que confunde trabalhadores de uma fábrica com prisioneiros ou faz com que todas as instituições (escola, hospício, caserna...) se assemelhem a uma prisão panóptica, máquina ideal e universal do olhar disciplinar. A similitude atravessa agora todos os espaços, indivíduos, imagens e revela em muitos casos a dificuldade de diferenciar artistas, paparazzi, jornalistas, policiais, terroristas, turistas, simples passantes com suas câmeras. "Não sou um paparazzo qualquer, tenho diploma, sou jornalista!", defendeu-se o espanhol Miguel Temprano. Todos podem ser potencialmente vigias e/ou vigiados, assim como uma imagem de vigilância pode estar nos arquivos policiais, num espetáculo televisivo, nos circuitos oficiais da arte, nos arquivos mortos das empresas privadas de segurança, na Internet, no cinema. Livre circulação das imagens de vigilância: dos aparatos policiais aos flagrantes sexuais de celebridades em praias paradisíacas, do entretenimento à arte, das revistas de fofoca locais às conexões globais da Internet. Controle difuso Podemos talvez vislumbrar nesses dois “filmes de amor” indícios da transição de uma estética “clássica” da vigilância – ligada às sociedades disciplinares, que distinguia o vigia do vigiado – para uma prática contemporânea do controle espraiada pelo campo social, onde a questão não é mais, ou apenas, “quem vigia o vigia?”, mas “como diferenciar vigias e vigiados?” A emergência desse “estágio clássico” se dá, no campo das artes plásticas, já no final dos anos 60 com as instalações de Michael Snow e Bruce Nauman; os traços estéticos e políticos mais marcantes dos trabalhos das décadas de 70 e 80 são, por um lado, a reorganização e modificação dos parâmetros dos dispositivos de vigilância e, por outro, a retomada e subversão das suas características plásticas (fixidez da câmera, automatismo da gravação, imagem de baixa qualidade em preto e branco). É a multiplicidade de obras nesses moldes que permite ao critico francês Philippe Dubois fazer, em um artigo de 1987, o seguinte diagnóstico: a “lógica da videovigilância” é “a única via ontologicamente possível para o vídeo (...): nada a filmar, ninguém para filmar, a filmagem se fazendo sozinha e sem traço”. Quase vinte anos depois, as mudanças na paisagem audiovisual são significativas. Anuncia-se uma vigilância “para todos” com a proliferação de engenhos de todo tipo, capazes de capturar e produzir imagens nos mais variados registros. Toda câmera é potencialmente uma câmera de vigilância: vídeo, cinema, celular, máquina fotográfica, scanner, webcam etc., e delas podem ser protagonistas qualquer um, conhecido ou não. Vigilância e espetáculo se entrecruzam e, tanto em um quanto em outro, podemos reconhecer não apenas um método de controle, mas também um repertório cultural multifacetado. Uma câmera pode muito bem ser um índice de segurança e/ou de ameaça, de censura e/ou de exibicionismo, de controle e/ou de prazer. A vigilância artística que surge desse estado do mundo adquire novas formas, sem excluir elementos da estética clássica. Às imagens sombrias, de baixa qualidade, automáticas, fixas, típicas

dos circuitos fechados de controle e punição, somam-se todo tipo de imagem, de diferentes qualidades, cores, formas, enquadramentos, movimentos etc. Esse novo contexto não é, contudo, menos opressor do que o anterior. Em cada um deles surgem e se confrontam liberações e submissões. A arte do controle Em Teoria da Paisagem (4'16'', 2005), vídeo do artista mineiro Roberto Bellini (http://www.rbellini.org), o controle que atravessa as políticas do olhar nas sociedades contemporâneas é transformado em matéria estética através de um relativo desacordo entre o que se vê e o que se ouve nas imagens e sons: uma paisagem – céu, avião, pássaros, pôr do sol – associada ao seguinte diálogo: - Posso perguntar o que está fazendo? - Filmando os pássaros ... eles vêm aqui no pôr do sol. - As pessoas andam meio nervosas ao serem filmadas ... - Os pássaros não vão se incomodar vão? - Não, mas as pessoas nessa empresa de computador vão. - Empresa? - Qualquer um fazendo filmes de viadutos, prédios ou qualquer coisa assim... você vê TV ou lê jornais? - Sim, eu vejo, mas acho uma bobagem isso. - É, mas a gente só pode estar errado uma vez, e você viu o que aconteceu. O diálogo prossegue e em nenhum momento vemos os personagens. É possível, contudo, deduzir que o artista é abordado por um guarda de segurança, que o interroga sobre suas intenções e o adverte acerca dos perigos de filmar, pois “a polícia está bem nervosa com esse tipo de coisa”. A conversa entre o guarda e o artista revela um outro sentido ao ato de olhar e filmar, ausente na paisagem contemplativa e “inocente” que vemos na imagem, mas absolutamente presente no cotidiano das paisagens urbanas e midiáticas. A câmera e, por extensão, o olhar são capturados e reduzidos a um dispositivo de vigilância potencial. Sob suas perguntas e advertências, notamos mais uma vez a dificuldade em discernir vigias e vigiados. A abordagem do guarda é um sintoma de quanto a função estética da câmera de vídeo é capturada por uma função social, intimamente atrelada à vigilância. Resistir ao controle O vídeo de Bellini opera e registra um duplo deslocamento: uma paisagem é deslocada de sua função contemplativa para uma função de controle social, mas esse deslocamento opera um segundo registro, expondo as tensões e os limites da política do olhar em nossa cultura. Encadeamento de vigilâncias curioso: o guarda que vigia um território atribui um sentido de vigilância ao ato de filmar uma paisagem, o que por sua vez acaba desencadeando um registro que é ao mesmo tempo um “documentário poético” e um documento de vigilância. Os artistas do primeiro estágio da estética da vigilância souberam inventar possibilidades de resistência a um controle disciplinar; cabe agora procurar novas armas no interior do que nos acontece, do mundo em nossa volta, e é o que Teoria da Paisagem faz. A potência artística e política das obras medindose menos por quem as criou, seus “autores” ou circuitos de exibição, e mais pela dimensão transformadora do que é proposto, pela possibilidade de deslocar imagens e dispositivos estabelecidos, criar novas maneiras de ver e ser. Maquinações 39 GLOBAL


A C U L T U R A D O REMIX

Dois DJs – a socióloga e mestre Adriana Prates e o jornalista e mestre em cibercultura Cláudio Manoel (aka Angelis Sanctus) – trocam idéias, entrevistando um ao outro, sobre a cultura tecno. Eles moram em Salvador, onde são pesquisadores, professores e atuam como DJs do coletivo Pragatecno que, desde 1998, fixou-se como um projeto cultural no Norte e Nordeste para disseminar a cultura do DJ e a música experimental eletrônica. Adriana Prates DJ é artista? Cláudio Manoel Há uma polêmica. Produtores eletrônicos defendem que artista é o que produz arte e DJ apenas reproduz. Mas, creio que ele está num meio campo, entre arte e técnica, um artista-técnico, pois seus equipamentos também produzem e manipulam o “pronto”. Além disso, a função da arte não é despertar sensações? Isso o DJ faz com técnica e seleção musical, ondulando a sensibilidade do público. CM Do undeground ao overground? AP Creio que sim. O termo overground busca descrever a chegada de produtos culturais underground ao mercado sem perder, porém, seu caráter artístico alternativo. Como exemplo de overground podemos citar o Punk; de repente, todas as lojas começaram a vender roupas já detonadas! Isso ocorre com a música eletrônica e, nos últimos tempos, podemos acompanhar sua apropriação pela grande mídia e pelo mercado, acarretando uma conseqüente popularização de estilos relacionados e a ampliação do público consumidor. Essa popularização envolve também a pura massificação, quando ocorre, por exemplo, a produção em série de faixas baseadas em uma que atingiu o overground. Podemos também citar como exemplo de overground a realização de festivais como Nokia Trends e Tim: grandes eventos que possuem intenção puramente comercial, mas cuja linha de frente é composta por DJs e projetos experimentais de música eletrônica. São eventos onde a produção underground é absorvida pelo mercado e pelo grande público sem que os artistas precisem abrir mão de seu ponto de vista estético. Em Salvador também temos exemplos parecidos, de realização de festas comerciais, direcionadas a um público não-especializado, mas que trazem o som de DJs respeitados no circuito alternativo. CM Antes se falava em tribos da emusic. Mas com a massificação, ainda podemos identificar essas tribos do pós-moderno? AP A questão não diz respeito apenas às comunidades de apreciadores da musica eletrônica, visto que, de modo geral, essas aglutinações que compõem o que você está chamando de tribos GLOBAL 40 Maquinações

constituem um fenômeno urbano disseminado, funcionando como referência num ambiente complexo, caracterizado por elementos como a velocidade, a diversidade, a impessoalidade, o anonimato, a falência de valores tradicionais... O que acontece e, talvez por isso você mencione a questão da massificação, é que é praticamente impossível que essas, digamos, tribos, se mantenham no underground, visto que as grandes empresas procuram acompanhar tendências emergentes de comportamento, no sentido de circunscrever novos nichos de mercado. Aliás, não somente para circunscrever, mas também para criar esses nichos e produzir novas demandas de consumo. Esse movimento provoca certamente alguma diluição, pois dissemina os códigos da comunidade para muito além do grupo original. Por outro lado, os sinais distintivos de tais grupos são constantemente recriados. Então é como na música, quando uma nova tendência ascende a um lugar de hegemonia, mas a produção original, experimental, continua a existir e a propor novos pontos de vista estéticos, que provavelmente serão, mais uma vez, apropriados pelo mercado e assim sucessivamente. AP Ao menos no Nordeste, a existência de coletivos foi fundamental para a expansão da música eletrônica. Agora que este tipo de música se tornou hegemônico, qual seria o papel dos coletivos. E em outros países? Existem coletivos? A finalidade é ou foi a mesma? Qual o papel deles para a cena? CM Os coletivos – grupos de pessoas envolvidas com o mesmo projeto cultural – rompem com a idéia tradicional de banda, pois a função do “líder” é diluída frente à produção cooperativa, prazerosa e livre dos integrantes. No Nordeste os coletivos foram fundamentais para a deflagração da cena, pois significaram uma rede livre para circulação da informação em uma região “fora” do um circuito mais intenso (SP e RJ) da cena. A internet foi e ainda é o braço de apoio dos coletivos atuantes. Nessa época, a função principal dos coletivos era criar a rotina de eventos em torno da música underground (fora da grande mídia) para gerar temporalidade (rotina) e localidade (point), bases para a existência de uma cena, entendida como a superprodução exposta de uma comunidade. Foram os coletivos e iniciativas de promoters ligados ao underground que fizeram essa cena ganhar visibili-


dade midiática, não tenha dúvida. Depois, obviamente, ela foi apropriada comercialmente – destino reservado a qualquer cena under. Lembre-se que antes a cultura under da emusic era negada e perseguida pela mídia e algumas instituições e até promoters que hoje a vêem como negócio. E isso acontece desde os anos 50 com o jazz, rock and roll, reggae, punk... antes marginais, depois massivos. Mas a visibilidade da cultura jovem com o mercado se conecta mesmo a partir dos anos 90, coincidindo com a cena dos DJs, no Brasil. Ora, se música experimental é lucro, hoje, os coletivos têm uma de suas principais funções – eleger e publicizar o que é experimental – diluída. Além da função de agenciamento de seus artistas, eles têm a tarefa de manter eventos rotineiros e conceituais, onde se podem explorar as novas pesquisas sonoras dos DJs, músicos e imagens de VJs. Creio também que um desafio, talvez principal, seja produzir música (já que a reprodução foi tomada). Produzir é essencial nesse momento, na busca de propor novas experiências estéticas. Outro aspecto: a pouca circulação era um elemento do underground (e por isso ele existia como under e não como over). Sem dó: o underground acabou. A própria circulação é hoje livre, massiva e descontrolada, via internet e novas mídias móveis. AP Qual a relação entre o uso de drogas e a preferência por música eletrônica? CM Não é a música eletrônica. É a juventude. É claro que uma cena que se espalha, espalha com ela os seus elementos – moda, gíria, droga, comunidades virtuais... Essa conexão entre droga e juventude vem desde que as primeiras culturas jovens ganharam as ruas (os fãs de jazz, por exemplo, o rock, reggae...). E a mídia, que sobrevive da notícia, procura, quase sempre, o caminho mais curto para explicar algo complexo e ganhar audiência. CM O DJ e o entorno da música eletrônica hoje são produtos de consumo, resultado da indústria cultural, que se instalou como projeto de marketing para empresas. DJ e sua música são mídia

- exatamente o contrário de alguns anos atrás. O que é o consumo, quando o tema é o DJ? AP Esta questão permite várias possibilidades de análise. Poderíamos falar em consumo no sentido da fruição desta música e dos ambientes onde ela é executada ou do consumo como a aquisição de elementos materiais como, por exemplo, discos e demais artefatos relacionados à esta música ou à outras preferências concebidas como próprias de seus apreciadores. Mas você mencionou a questão do marketing e isto remete especificamente à forma atual de operação das grandes empresas, através de segmentos de mercado, contando, para auxiliá-la nesta tarefa, com um poderoso aparato publicitário, técnicas de pesquisa, etc. Tem muitas coisas em jogo aí e a comunidade eletrônica deve ficar atenta, procurar construir uma postura crítica em relação a essas questões. Lembro de uma discussão ocorrida na lista do Pragatecno faz algum tempo, a respeito de qual, dentre os festivais de música eletrônica, tinha o perfil “mais comercial”. Na berlinda estavam o Skol Beats, o Sonarsound SP (patrocinado pela Nokia). Algumas pessoas defendiam que o Sonar possuía um perfil “menos comercial”, por ter trazido artistas de Minimal, uma tendência ainda pouco conhecida, naquela época, aqui no Brasil, e que o Skol Beats possuía o caráter “mais comercial”, por trazer artistas de tendências já mais disseminadas. Essa discussão, a meu ver estéril, tornou evidente que as pessoas não conseguiam perceber que no fundo todos esses eventos são a mesma coisa: ações de marketing cuja finalidade não é apenas promover uma marca de celular ou de cerveja, mas que objetivam, especialmente, criar um senso de grupo, de pertencimento, relacionado ao consumo da música eletrônica. Em ultima instância, estamos diante do mesmo tipo de lógica mercadológica que motiva uma empresa a patrocinar um rodeio ou um torneio de tênis, por exemplo: propiciar um espaço onde se favoreça a constituição de uma relação entre a preferência por um determinado estilo musical, esporte, seja lá o que for, e outras opções de consumo.

Siga-me, de Romano.

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A aparição de personagens sofridos na televisão brasileira é motivo de comemoração e de preocupação.

Simone Sampaio

O PoBrE NA TeLINH A Pichações, de Renan Cepeda. Fotos sem manipulação, sob técnica de light painting, em casas abandonadas da região do Vale do Catimbau, sertão de PE.

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A programação televisiva está repleta, em seus diversos horários e programações, de histórias reais de infortúnio e reclamações variadas. Nunca a vida privada foi tão oferecida ao público, e o mundo da TV encarregou-se em fazê-la brilhar. A profecia dos 15 minutos de fama se concretizou e parece que a TV não vive mais sem ela. A variedade com que é manipulada a existência da população pobre percorre muitos programas, desde o conhecido telejornal policial, passando pelo talk show, até chegar aos palcos dos programas de auditório, além de outros meios que se pretendem mais sutis.

Vidas destinadas a passar ao largo podem, na telinha, denunciar ou solicitar. Esse espaço aberto em um veículo de comunicação tão poderoso poderia, à primeira vista, ser motivo suficiente de comemoração, seja pela destinação pública de um espaço no programa televisivo, ou seja pela sensibilidade social diante da existência de 50 milhões de brasileiros que vivem na miséria e que não têm “nenhum” mecanismo de encontro com o poder. Mas, será que devemos mesmo comemorar essa explosão de realidade na TV? Esses personagens comuns, datados e localizados, com uma existência real matizada pelo obscurantismo e infortúnio, aparecem na telinha via narrativas com linguagens rudes produzindo uma espécie de estética confessional – sua beleza e pavor estão inscritas no centro dos procedimentos de individualização do poder: aquele que fala é, ao mesmo tempo, aquele do qual se fala.


A confissão, nesse caso, desloca-se da perspectiva religiosa, meio para conseguir o perdão, para ser instrumento de registro usado através da queixa, da entrevista, da delação, do interrogatório num quadro midiático. No entanto, ela permanece com o mesmo objetivo de possibilitar a visibilidade dos menores aspectos da vida cotidiana, sejam em que grau de importância eles se encontrem, formando imagens que estreitam, cada vez mais, a relação entre o poder, o discurso e o cotidiano. Falar de si visando benefício próprio ou manifestando-se contra algo ou alguém no espaço televisivo entrecruza o cotidiano da população pobre com uma trama política. Nela a partilha do poder, visto pela sua dispersão, produz o fortalecimento de mecanismos de controle através da cumplicidade estabelecida entre os que delatam – que apresentam

queixas, ou são entrevistados – e a presença “virtual” do parceiro transformado em programa de TV, o que provoca uma transferência do poder daqueles em benefício desse espaço. Os modernos dispositivos do poder atravessam essa multiplicidade de narrativas tanto por meio da “neutralidade” do discurso científico – que serve à justiça, à polícia, à medicina, à psiquiatria e outros ramos de saber e de controle como também e, sobretudo, pela telinha com a alegação de uma eficiente cobertura da realidade. Cada vez mais, a operação televisiva imprime em seus programas um viés assistencialista maquiado de “a voz do povo”. Cada programa arroga-se porta-voz da população pobre, com uma pretensa objetividade e independência, generosamente disponibilizando o que o povo precisa.

Os personagens comuns, datados e localizados, com uma existência real matizada pelo obscurantismo e infortúnio, aparecem na telinha via narrativas com linguagens rudes produzindo uma estética confessional

A arrogante superioridade dessa instituição faz com que ela reúna o monopólio do julgamento das práticas sociais, das demais instituições e especialmente da população pobre, desenvolvendo para isso um avançado e atraente panoptismo na sua forma de controle, cujo lema moderno poderia ser julgar e excluir. Parece que estamos assistindo na verdade a mais um pseudocomitê democrático-representativo, absolutamente palatável e funcional ao capitalismo. Arranjos midiáticos que forjam um democratenimento e insistem em fazer da vida um produto mercadológico, artigo de consumo barato e rentável, despotencializando-a como capacidade de recusa à medida que joga com ela da vitimização à heroicização – extremos tristes e incapazes de reconhecimento social. A banalização de diversas questões sociais e o forte tratamento sensacionalista a elas dispensado pela televisão reforça a sua despolitização, a sua naturalização, e inaugura um espaço público espetacular e vazio, avesso à democracia como espaço de conflito e constituinte da vida como expressão da luta e da resistência.

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cinema para além do mercado O cineasta gaúcho Gustavo Spolidoro critica os critérios do mercado na distribuição de filmes e reivindica uma televisão pública para disseminar a produção audiovisual do país

por Rodrigo Guéron

Global - Como se dá a relação entre cinema, política e estética numa época em que se só fala de “mercado”? Gustavo - Temos que analisar o porquê de só se falar em mercado. Vamos partir do princípio que a maioria dos filmes brasileiros só se realiza com captação de recursos via leis de incentivo. Falo da maioria, não de todos, pois muita gente faz filmes com recursos próprios e dados por prêmios. Se um cara, ótimo cineasta, inventa um filme maluco, revolucionário, experimental, violento, político, esse cara vai conseguir que alguma empresa patrocine o filme dele? Acho bem difícil. Ele vai pensar em um outro projeto, para o mercado, comercial, com atores globais, pois, afinal, a primeira pergunta em qualquer reunião de captação com empresas é: "quem são os atores?" Temos que ouvir alguns baluartes do cinema brasileiro reclamarem que a Petrobrás ou o BNDES só patrocinam filmes experimentais! E eu pergunto: sim, queria que patrocinasse só filmes comerciais??? Poupe-me! E o que mais me impressiona é que a grande imprensa parece que só ouve, e ainda concorda, com esses representantes do 1% da elite cinematográfica brasileira (quando falo de elite não falo dos melhores, mas dos mais ricos e/ou influentes). Neste ponto, concordo com os que defendem a volta de modelos como a Embrafilme. De certa forma, acaba acontecendo em concursos como o da Petrobrás, Ministério da Cultura e BNDES que, através de comissões formadas por representantes dos mais diversos segmentos do audiovisual e da cultura, selecionam os filmes, de termos que ficar nos vendendo pra um diretor de marketing de empresa. Acredito neste modelo e apoiá-lo-ei sempre, até que tenhamos outros melhores. Obviamente isso não significa que eu não tente, via Leis, captação para os meus filmes e para a produtora que divido com outros três sócios.

Global - Mas o mercado interfere na estética?

Gustavo - A estética passa por isso tudo. A liberdade criativa está diretamente atrelada aos custos de um filme e as fontes de captação de recursos. Os argentinos descobriram, há décadas, o nicho das co-produções, através de Fundações, Canais de TV estrangeiros e mesmo produtoras estrangeiras. Isso explica a qualidade, a busca por novos caminhos, a estética dos filmes argentinos que conseguem, mesmo com filmes mais comerciais, estar constantemente nas vitrines internacionais. Creio ainda que fazemos nossos filmes pensando muito no público interno, que, infelizmente, nas salas de cinema, é muito reduzido. Estamos engatinhando na prospecção de outros mercados e só políticas continuadas do governo, aliadas à visão de que um outro cinema pode e deve ser feito no Brasil, ajudarão os filmes brasileiros a chegarem noutras plagas. No final das contas, o nosso cinema carece tremendamente de identidade. E não falo de uma identidade, falo da identidade de cada um. Falo de filmes autorais de verdade, filmes como Estorvo ou Subterrâneos que, mesmo não agradando o mercado, constituem inegavelmente uma busca por caminhos próprios, pessoais, referenciais. No caso de Estorvo, uma busca eterna e incansável de Ruy Guerra. E no caso de Subterrâneos, as descobertas narrativas de Zé Eduardo Belmonte em seu primeiro longa.

Outro dia, em uma distribuidora brasileira, após exibir um filme, ouvi do dono da empresa: "esse filme não é para público". GLOBAL 44 Maquinações


Global - Como você entende que deve ser esta relação entre “mercado” (o que seria mercado?) e cinema?

Global - Fala um pouco da luta do movimento curtametragista aí no Sul.

Global - O que o governo federal poderia fazer para melhorar a situação do cinema no Brasil?

Gustavo - Defendo o cinema comercial sempre, a Globo filmes e quem quer que invista no cinema brasileiro com objetivos financeiros. Quero muitos filmes com sucesso de públicos, mais de um milhão de espectadores, programas de TV sobre o cinema brasileiro, festas, festivais e prêmios aos montes. Só assim, teremos e criaremos os espectadores para um outro cinema, seja lá como for chamado: autoral, independente, experimental, estranho. Quem sabe uma hora dessas a Globo não abre um segmento para filmes autorais, assim como as grandes gravadoras de música fizeram e fazem com seus selos menores, que descobrem o underground. Ou será que mesmo os mais independentes não querem sucesso e retorno financeiro? Nunca acreditei em quem diz que faz filmes para si! Claro que temos que levar em consideração que existem públicos e públicos. Outro dia, em uma distribui-dora brasileira, após exibir um filme, ouvi do dono da empresa: "esse filme não é para público". Como assim não é para público? Claro que é! Pode não ser para o público de 500 mil que o distribuidor pensava, mas com certeza é para o de 50 mil. E mais, os 500 mil desse distribuidor não são nada para os milhões da Globo filmes, ou as dezenas de milhões da MPA, e ele ouviria a mesma expressão de espanto se comparecesse na MPA com seu filme de 500 mil. Então de que público falamos?

Gustavo - Ouvi isso da boca de pessoas como Assunção Hernandez: "o RS é um outro país em termos de políticas audiovisuais". Acontece que aqui, desde sempre, o cinema dialogou. Cinema é: técnicos, produtores, exibidores, distri buidores, compradores... A APTC liderou por décadas esse diálogo. Como todos se falam, fica mais fácil criar projetos de interesse comum. Temos, há 10 anos, o Curta nas telas, que exibiu centenas de curtas antes de longas em salas comerciais e de arte, pagando R$ 1.500 por duas semanas de exibição. Temos o projeto Histórias Curtas, que a RBS TV (afiliada da Rede Globo) criou há 6 anos, que é um concurso para 8 filmes feitos para a TV (e que depois ganham os festivais), com prêmios de 30mil reais, bancados, com sobra, por patrocinadores interessados em apoiar curtas metragens aos sábados ao meio-dia, numa TV que é assistida por mais de 1 milhão de pessoas neste horário. Além disso, nos demais sábados do ano, sempre há documentários, projetos especiais e mesmo curtas feitos para cinema, que são exibidos e produzidos pela RBS TV. E agora o horário do domingo a meianoite também está surgindo como novo ponto de exibição de projetos, como os nove curtas sobre Mario Quintana e Erico Verissimo feitos em 2005 e 2006, dentre outros projetos.

Gustavo - Buscar de todas as formas transformar o Canal Brasil em uma TV aberta. Seria o início de um novo tempo para o cinema brasileiro. Uma TV sobre o nosso cinema, exibindo os nossos filmes, diariamente, em sinal aberto para 170 milhões de brasileiros seria a melhor, mais fácil e rápida maneira de atrair cada vez mais pessoas para o nosso cinema, o que geraria maior interesse e conhecimento, aumento de público nos cinemas, nas locadoras, nos sites, maior demanda de filmes, maior demanda de técnicos e por aí vai. É o que chamam de círculo virtuoso.

Acima, performance de Daniela Bezerra, Brasília, 2006.

Claro que é! Pode não ser para o público de 500 mil que o distribuidor pensava, mas com certeza é para o de 50 mil. Maquinações 45 GLOBAL


As menções batidas à Bienal de 1953, a Di Cavalcanti e a Portinari não conseguem esconder a decepção da crítica pelo deslocamento de uma bienal nacionalista, na qual cada país tinha o direito de indicar um artista, para um evento verdadeiramente global. Pela primeira vez, adotou-se o esquema das residências internacionais, em que artistas vindos de vários países efetivamente residem no Brasil para incitar o choque de suas obras com a realidade sociocultural encontrada. Assim, a opção encabeçada pela curadora rompe a lógica de obras referenciadas a estados-nação, permitindo o entretecimento de redes dialógicas e transnacionais. Nesta edição, vieram dez artistas de seis países diferentes (Benin, Canadá, Colômbia, Eslovênia, México e Japão), que interagiram com a cultura brasileira em Recife, Rio Branco e São Paulo, metamorfoseando a própria produção em função dos relacionamentos estabelecidos. No caderno Ilustrada da Folha de São Paulo de 16 de dezembro de 2006, quatro “cânones” da academia e da cultura brasileiras puseram-se em uníssono para desacreditar o que é o maior acontecimento artístico-cultural deste país. Sob a conclusiva manchete “Modelo da Bienal de SP vive crise”, Ferreira Gullar, Paulo Venancio Filho, Ronaldo Brito e Tadeu Chiarelli, cada um a seu modo, destilaram preconceitos e tradicionalismos frente à 27ª Bienal de São Paulo. Gullar repete seu tradicional desgosto perante a arte conceitual, acusando a bienal de “supermercado de arte”, “certame-espetáculo”, “locais oficiais de rebeldia” e “antiarte financiada por grandes empresas e instituições”. Inclui ainda um confuso argumento: “Se, como disse Duchamp, é arte tudo o que eu disser que é arte, que sentido têm as bienais?” Bienal pós-nacionalista Venancio Filho, da Escola de Belas-Artes da UFRJ, tacha logo a bienal de medíocre e de “imitar e se integrar ao modelo das exposições do populismo global”. Ronaldo Brito, por sua vez, chama-a de “fenômeno de massa” e expressa saudades de um outro populismo, o de Di Cavalcanti e Portinari. Venancio também expressa saudosismo da “Bienal de 1953”, diante da qual a atual não faria jus. Tadeu Chiarelli, finalmente, menospreza a bienal por atuar “mais como caixas de ressonância de Kassel e Veneza do que como propositoras de tendências”. Em meio às críticas dos quatro intelectuais, o artigo da Folha faz tímida concessão no seu final e diz que a atual curadoria, comandada por Lisette Lagnado, “recebeu alguns elogios”. GLOBAL 46 Maquinações

O desapego dos manuais de história da arte Por outro lado, a “crise” apontada pelos intelectuais em face da “massificação” e da “mediocritização” do evento camufla o apego a uma arte confinada às escolinhas de belas-artes e aos manuais de história da arte, que perdem de vista a importância fundamental da intervenção estética diretamente na multidão. Ou seja, maquia uma certa vontade de verdade dos intelectuais em monopolizarem e encabeçarem a verdade institucional. Porque muito longe de incensar igrejinhas de artes plásticas – que neutralizam o seu potencial subversivo nos mais diversos ismos – a Bienal de SP contou com a presença ativa de mais de meio milhão de pessoas, imersas em ambientações e montagens de resistência, tomando contato e reforçando a voz das minorias e movimentos, indo ao concreto das lutas e dos problemas urbanos do Brasil e do mundo. O Jardim Miriam Arte Clube (Jamac), grupo de intervenção estética da periferia paulista, levou à Bienal o grafitti, típica manifestação de resistência. Para assegurar o contato, a curadoria providenciou o transporte gratuito da Bienal ao galpão do Jamac, uma combinação de ateliê, oficina, biblioteca e escola. Em locais improvisados, murais de boteco e até mesmo varais, o Jamac produz arte a partir de gente da periferia, de filhos de peão de obra a desempregados, de empregadas domésticas a estudantes de ensino médio da rede pública. Que oportunidade melhor para expor seus trabalhos que na Bienal? Mediocridade? Só se for aos olhos de uma elite intelectual que perdeu o contato com a multidão.


A M U LT I D Ã O NA BIENAL DE SÃO PAULO Paula Ávila Kepler e Bruno Cava

No ataque à arte conceitual, que já vem de longa data, Gullar escorrega ao rotular a bienal de “certame-espetáculo”. Ocorre que todo o esforço teórico-prático ao redor da sociedade de espetáculo (Debord) não se resume a uma crítica banal das novas mídias, mas a um sistema de mercantilização e de consumo passivo, que caracteriza o capitalismo contemporâneo. Ao frustrar a fetichização da mercadoria, a arte conceitual, tão presente nesta Bienal, age precisamente em dissonância com a lógica do espetáculo. E, a partir do momento em que happenings e instalações conceituais clamam pela interação construtiva do público, este não se porta como espectador passivo. Então não pode ocorrer o “certame-espetáculo”, muito pelo contrário. Certame-espetáculo se vê em museus passivos. Além disso, vivemos uma nova fase do capitalismo, marcada pelo trabalho imaterial (Lazzarato e Negri) o que, em termos estéticos, também se reflete na exigência por novos valores de uso da arte, despidos da materialidade, mas de maneira alguma menos concretos.

Talvez, a melhor resposta ao quarteto esteja na própria proposta do evento: “Como viver junto”, que assumiu como eixos de inspiração Roland Barthes e Hélio Oiticica. Viver junto, estabelecer uma nova dimensão do comum é de fato o desafio de nosso tempo. Para isto, é preciso sobrepujar a máquina de separação dos homens de que se alimenta o capitalismo contemporâneo. A arte e a produção cultural são indispensáveis, porque espicaçam os desejos da multidão, seduzem os indecisos e potencializam as lutas. Jamais se chegará à transformação radical do estado das coisas enquanto presos a preconceitos e ranços do academicismo e dos “cânones” que, do alto de sua polícia estética, assassinam e neutralizam a potência de movimentos culturais da multidão.

Sem medo da globalização Finalmente, o medo da globalização, que não se restringe à produção cultural, é fruto da miopia de intelectuais empedernidos quanto à constituição de novas potencialidades e subjetividades do nosso tempo. Se de um lado, o capitalismo mundial busca a todo custo concentrar e articular suas ferramentas de dominação, alienação e repressão, em alçada imperial, de outro, o estabelecimento de redes internacionais permite uma original e inédita expressão constituinte. É a multidão global: um conjunto sem fronteiras, de singularidades, de movimentos e tendências interconectados de resistência. A Bienal de SP, ao se articular, repercutir e influenciar as exposições de Veneza e Kassel, insere-se também nesse movimento maior, nessa nova subjetividade. E, se há ambigüidades nesta relação complexa, ao invés de serem negadas, elas podem e devem ser exploradas inteligentemente em prol do lado transformador das redes.

em dissonância com a lógica do espetáculo. E a partir do

Ao frustrar a fetichização da mercadoria, a arte conceitual, tão presente nesta Bienal, age precisamente

momento em que happenings e instalações conceituais clamam pela interação construtiva do público, este não se porta como espectador passivo.

Homenagem a Lygia Pape - Balé, de Ronald Duarte e o Coletivo Apocalipse Crew, apresentado no Fórum Cultural Mundial, Rio de Janeiro, 03/12/2006. 47 GLO BAL


O Nome de Guerra, de Lígia Teixeira, 2006.

EU SOU ANA JÚLIA E TAMBÉM SOU VOCÊ A petista Ana Júlia tem A vitória da senadora do PT Ana Júlia A governadora poderá ter um papel central Carepa para o governo do Pará – contra na construção de um espaço do comum como desafio traduzir em o domínio do PSDB e sua elite que no qual as redes de cooperação e comunimudança democrática estava no poder há 12 anos – é o início cação – tanto dos agricultores familiares, a incorporação de um desafio colocado pela multidão: dos cooperativistas, dos extrativistas que a multidão paraense o “governo da mudança”, no dizer da (populações tradicionais, quilombolas, fez da sua imagem governadora, derrotou a concepção índios etc.) quanto dos trabalhadores que durante a eleição política do neoliberalismo e deu voz a atuam no campo do trabalho imaterial (codistintas vozes e faces. Agora, o governo municação, idéias, imagens, afetos, moda Maria José de Souza Barbosa pode abrir-se a uma rede aberta ao novo, etc.) – sejam capazes de articular entre a diferentes pontos de vista que se orgaelas as dinâmicas econômicas e sociais. nizam não pela unidade ou unilateraAs condições materiais da vida no contexto lidade de uma identidade, mas ao conamazônico exigem essas aberturas, com trário, pelas diferenças de cor, culturais, base na potência das formas de vida que étnicas, de gêneros, de orientações sexuais, de formas de trajá hoje afirmam a dinâmica da igualdade na diferença. As lutas balho e de modos de vida que se fazem presentes no Pará. A contra a pobreza e a miséria – que exigem mais saúde e edudiferença e não a identidade foi que determinou a vitória de Ana cação, menos violência no campo e na cidade, mais terra, reguJúlia, como expressão política do presente. larização fundiária, mais habitação e liberdade – tornam-se hoje Neste sentido, podemos pensar a vitória para o governo como bandeiras democráticas de um governo que deve e pode se sendo vitória de uma multiplicidade de singularidades: de uma qualificar pelo sistemático esforço de radicalizar a democracia. multidão. Abre-se o horizonte de uma política interna às formas Neste horizonte, o governo de Ana Júlia pode significar o início de vida que atravessam e desenham a região Amazônica. de uma reorientação política profunda no nível do Estado, em Agora, o potencial de mudança inscrito na vitória de Ana Julia conformidade com as práticas sociais, econômicas e culturais precisa ser efetivado democraticamente no governo do Pará: de uma multidão que não se deixou reduzir a formas instituem um governo dos muitos pelos muitos! Um governo, porcionais pré-figuradas. Uma multidão que garantiu a eleição tanto, que deveria se constituir como um espaço aberto à divertanto de Ana Júlia, em nível estadual, quando de Lula, em nível sidade e à pluralidade, sem com isso renunciar à prioridade das federal, apesar das práticas terroristas da imprensa e do bloco políticas públicas direcionadas para a universalização dos neo-escravagista no poder. O contexto de abertura provocado direitos sociais. Neste processo, o principal desafio é conseguir pela multidão permitiu a eleição de Ana Júlia, ou seja, do “eu construir os âmbitos de uma interlocução de tipo novo entre as também sou você”. Agora, a mudança do próprio papel da ação diferentes esferas da sociedade, as instituições públicas e de governo é sua tarefa estratégica: ela precisa traduzir os conprivadas, os movimentos sociais, as organizações governaflitos e contradições da sociedade paraense em novas e mentais e não-governamentais. Não se tratará apenas de renopotentes experimentações democráticas: na renovação consvar continuamente as “bases” do governo, mas de deslocar tante do comum – como encontro das múltiplas cores, vozes e formas de vida – que desfraldaram sua vitória. para “baixo” a própria prática de governo. GLOBAL 48 Maquinações


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