Issuu on Google+

UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO DEPARTAMENTO DE ARQUITETURA E URBANISMO

BAIRRO DE LOURDES Urbanismo I Prof. Dra. Eneida Maria Souza Mendonça Estágio de docência: Daniela Goldner Autores: Cíntia Rodrigues Reis Emílio Caliman Terra Flávia Marcarine Arruda Giovani Bonadiman Goltara Taís Rodrigues de Souza Tostes

Vitória, 04 de maio de 2011.


BAIRRO DE LOURDES Índice

Capítulo 1 - Primeiras aproximações - compreensão do processo evolutivo / percepção inicial. Pg. 4 - Locaização. Pg. 5 - História e desenvolvimento urbano. Pg. 6 - Sobrevoando a história do bairro_fotos aéreas. Pg. 7 - Percepção sensorial em caneta e papel_croquis. Pg. 8 - Uso do solo_mapa_análise. Pg. 9 - Estrutura viária_mapa_análise. Pg. 10 - Conformação do traçado_mapa_análise. Pg. 11 - O bairro em dados_aspectos sócio-economicos. Pg. 12 - Bibliografia do primeiro capítulo. Capítulo 2 - Aprofundamento da percepção ambiental - análise da ambiência urbana. Pg. 14 - Novos limites, nós e marcos_análise. Pg. 15 - Novos limites, nós e marcos_mapa. Pg. 16 - Setores. Pg. 17 - Percursos. Pg. 18 - Análise visual de ambientes naturais relevantes_zonas de visualização. Pg. 19 - Formas alternativas de apropriação do espaço urbano. Pg. 20 - Figuras-fundo Pg. 21 - Tipologia arquitetonica. Pg. 22 - Vivências e relações sociais.


BAIRRO DE LOURDES Primeiro capítulo: Primeiras aproximações - compreensão do processo evolutivo / percepção inicial


BAIRRO DE LOURDES Localização

Município de Serra HÉLIO FERRAZ CARAPINA I

DE FÁTIMA

JARDIM CAMBURI MARIA ORTIZ JABOUR AEROPORTO SOLON BORGES

Município de Cariacica

ANTÔNIO HONÓRIO SEGURANÇA DO LAR

NOVA PALESTINA GOIABEIRAS

RESISTÊNCIA

PARQUE INDUSTRIAL

REPÚBLICA BOA VISTAMORADA DE CAMBURI

MATA DA PRAIA CONQUISTA ILHA DAS CAIEIRAS REDENÇÃO SANTO ANDRÉ

ri

a

uri

ai

a

e

mb

Pr

SANTOS REIS SÃO PEDRO SÃO JOSÉ

JOANA D´ARC

COMDUSA

Vi

Baía de

d

Ca

JARDIM DA PENHA ANDORINHAS SANTA MARTHA PONTAL DE CAMBURI

GRANDE VITÓRIA SANTA LUÍZA

SÃO CRISTÓVÃO ESTRELINHA TABUAZEIRO

UNIVERSITÁRIO

MARUÍPE

BARRO VERMELHO

ITARARÉ

Legenda

DA PENHA PRAIA DO CANTO

INHANGUETÁ BONFIM

ILHA DO FRADE

SANTA CECÍLIA SÃO BENEDITO SANTOS DUMONT BELA VISTA FRADINHOS

DE LOURDES CONSOLAÇÃOGURIGICA SANTA LÚCIA

SANTO ANTÔNIO

JUCUTUQUARA CRUZAMENTO NAZARETH

HORTO

SANTA HELENA ILHA DO BOI

SANTA TEREZA FONTE GRANDE PIEDADE ARIOVALDO FAVALESSA DO MOSCOSO CARATOÍRA DO CABRAL DO QUADRO SANTA CLARA CENTRO MÁRIO CYPRESTE VILA RUBIM PARQUE MOSCOSO ILHA DO PRÍNCIPE

ROMÃO ILHA DE SANTA MARIAMONTE BELOBENTO FERREIRA FORTE SÃO JOÃO

PRAIA DO SUÁ ENSEADA DO SUÁ

JESUS DE NAZARETH

itór Baía de V

Município de Vitória Regionais Administrativas Base Cartográfica Municipal Sistema de Projeção UTM - SIRGAS2000

0

290 580

ia

Município de Vila Velha

E

1.160

1.740

Regionais Administrativas - Lei nº 6077/2003 I - CENTRO II - SANTO ANTONIO III - BENTO FERREIRA/JUCUTUQUARA IV - MARUIPE V - PRAIA DO CANTO VI - CONTINENTAL VII - SAO PEDRO Limite de Bairros Lei nº 6077/2003) Sistema Viário Principal Figura 1

PREFEITURA DE VITORIA S S ee cc rr ee tt aa rr ii aa M M uu nn ii cc ii pp aa ll dd ee FF aa zz ee nn dd aa 2.320 m

Data: março/2011

N

Figura 2

4


BAIRRO DE LOURDES História e desenvolvimento urbano

“Um bairro de história recente e que desperta paixão dos seus moradores” - Jornal “A Gazeta”, dezembro de 1992 A antiga Fazenda Jucutuquara pertencia ao Barão de Monjardim. Após sua morte, a fazenda foi entregue a sua esposa e seus sete filhos. Sozinha, a viúva Srª Yolanda Monjardim vendeu grande parte do terreno aos primos Dyonisio e Gilberto Abaurre, em 1952. Com o terreno adquirido (e mesmo sendo uma área alagadiça e de mangue), deu-se início ao loteamento: “Naquela época havia muito mato e uma imensa área de mangue que tivemos que aterrar.” – Gilberto Abaurre, jornal “A Tribuna”, março de 2000.

Ao mesmo tempo em que era feito o loteamento da baixada, o morro veio sendo ocupado desde meados dos anos 40. Assim foram sendo configuradas as raízes de um bairro que mais tarde viria a se chamar Bairro de Lourdes, nome escolhido pelo Srº Dyonisio Abaurre em homenagem à sua esposa, a Srª Maria de Lourdes Abaurre. O primeiro calçamento (figura 01) foi feito na administração do então prefeito Srº Solon Borges (atuação desde 1963 a 1968): “Em 1955, a região tinha apenas três casas, apresentava sinais claros de ocupação do mangue e ninguém podia imaginar que ele chegaria a ser o que é hoje, um dos locais mais valorizados de Vitória” – Jornal “A Gazeta”, dezembro de 1992

Figura 03 Vista do terreno da praça. Foto: AABL, Ano: 1980

Outra conquista da comunidade foi a construção da Igreja Católica. O início da obra foi em 1993, sendo finalizada em 1996 e desempenhando um papel fundamental de união dentro do bairro (figura 04). Atualmente, Bairro de Lourdes é ocupado em sua grande maioria por residências. A concentração do comércio fica na Avenida Marechal Campos.

Figura 01 Rua Flávio Abaurre, ao fundo a avenida Marechal Campos Foto: AABL ano:1971

Em 1969 foi fundada a associação de moradores do bairro (figura 02). Em 1982 a mesma foi regularizada e teve a primeira eleição direta para a presidência. No mesmo ano foi realizado pela própria comunidade um senso para decisão da união ou não de um bairro vizinho (Nazareth) à comunidade. Com um consenso das duas comunidades, a associação ganhou o seguinte nome: “Associação dos Amigos de Bairro de Lourdes e Nazareth”.

Figura 02 Trecho do Estatuto que regula a Associação de moradores.

Na administração do prefeito Srº Berredo de Menezes, deu-se início a construção da praça pública do bairro, em 1983. A conquista desse local foi uma luta dos moradores do bairro contra a prefeitura, que queria construir um hospital no local ao invés da praça. Os moradores alegaram que isso traria um movimento muito intenso para dentro do bairro, tirando a paz e também o perfil residencial que predomina no local (figura 03).

Figura 04 Rua Flávio Abaurre, terreno onde futuramente foi construída a igreja católica do bairro. Foto: AABL, Ano 1971

“Orgulhosos de poderem viver num dos bairros mais agradáveis de Vitória, os moradores querem a tranqüilidade e, por conseqüência, desejam o comércio à distância.” - Jornal “A Gazeta”, dezembro de 1992. A grande maioria de suas ruas são asfaltadas, sendo que comparando o nível do solo no princípio da ocupação com a atualidade,percebe-se um aumento de um metro em sua altura total. Os problemas de enchentes que ocorriam são minimizados com sistema de comportas usado nos esgotos do bairro.

5


BAIRRO DE LOURDES Sobrevoando a história do bairro

Foto aérea 1. Fonte IJSN. 1970

Foto aérea 3. Fonte IJSN. 1986

Foto aérea 5. Fonte GoogleEarth. Out. 2010

Foto aérea 2. Fonte IJSN. 1978

Foto aérea 4. Fonte IJSN. 1998

Observando as fotos aéreas é notável que nos primeiros 18 anos (1952 – 1970) o bairro foi se desenvolvendo lentamente, de modo que com as ruas e os quarteirões já traçados, a ocupação foi se dando ao longo do tempo. (foto aérea 1). Posteriormente, em 1978, o bairro ainda não tinha sofrido grandes modificações. A ocupação do morro foi se completando. É importante lembrar que o loteamento do “morro” é mais antigo que o da baixada, mas os dois tiveram seu desenvolvimento em paralelo. A área verde, em 1978 (foto aérea 2), ainda era pasto, que, pertencente ainda à família Monjardim, foi mantido assim ao longo desses anos. E assim continuou até pelo menos 1986. Em 1986 (foto aérea 3) nota-se um crescimento “marginal” no bairro, que foge ao loteamento original da baixada. Configurando-se casas na encosta do morro. A parte do bairro que faz margem à Marechal Campos já estava quase que totalmente ocupada também. Em 1998 (foto aérea 4) a área verde já está reflorestada, e a ocupação se manteve bem parecida à 12 anos antes. Conclui-se que o Bairro de Lourdes teve seu traçado fortemente marcado e que até hoje não se modificou substancialmente. Quanto a ocupação, em 59 anos, foi gradativa, sem mudanças muito drásticas. Uma Possível razão é o seu limite fortemente demarcado pela topografia e pela avenida Marechal Campos.

6


BAIRRO DE LOURDES Percepção sensorial em caneta e papel

4

3

5

1 8

2.3 6

7

2.1

N

2.2

7


BAIRRO DE LOURDES Uso do solo

Observações in loco possibilitaram perceber a configuração residencial que o Bairro de Lourdes possui. Acrescenta-se a essa predominância de residentes o fato de a maioria ser jovem1, apesar de serem os idosos quem mais fazem uso do bairro. A estrutura residencial fechada2 do bairro influencia no caráter tranqüilo que se mostra bem peculiar, quase como um refúgio no meio urbano, visto que possui baixo fluxo de veículos. Dentro desse perfil de refúgio é interessante apontar que as residências apresentam-se como unidades unifamiliares. O baixo fluxo de veículos possibilita que as crianças utilizem a rua como espaço de lazer, como foi observado. A escolha da rua como local para o lazer das crianças dá-se não somente pela fácil acessibilidade (por encontrar-se perto de casa) como também porque o local disponível para recreação – a quadra de esportes3 – já é utilizado pelos jovens. A consciência de coletividade também é um aspecto bem próprio do Bairro, exercido através da conduta de boa vizinhança, além da ativa associação de moradores. Essa relação de coletividade é fomentada pela presença de uma centralidade na religião católica, que não se resume apenas nas reuniões para celebrações

religiosas, como também movimenta eventos, a exemplo dos Bazares, do Festival de Canto e Violão e dos almoços4. Apesar de ser majoritariamente residencial, o bairro possui uma zona comercial concentrada na Av. Marechal Campos. Essa zona é composta por lojas automobilísticas, que atendem não só ao bairro como também a todo município. Em uma escala local – concernente ao bairro e proximidades – há serviços comerciais como Pet Shop, padaria, academia, farmácia, papelaria e loja de informática. Além disso, possui um extenso complexo institucional mesmo que não integrados, constituído pela escola, praça e Administração Regional.

Fonte IBGE, 2000 O termo fechado é utilizado no texto com dois significados distintos. Ele aponta tanto para uma introversão dada pela conexão indireta do bairro com a Av. Marechal Campos quanto pela localização do bairro em uma cercania montanhosa, de maneira que não funciona como rota de travessia. 3 A utilização da quadra de esportes do bairro como local de venda de drogas foi citada por alguns moradores, sendo inclusive tópico de debate da Associação de Moradores. Essa é uma das situações problemáticas que impedem o pleno usufruto das características positivas do bairro. 4 SANTOS, Ângela Maria Rabbi dos. Comunidade De Lourdes / Narazé: Nascimento da Igreja no Bairro de Lourdes. 1 2

8


BAIRRO DE LOURDES Hierarquia viária

Para a execução do mapa que indica os principais acessos ao bairro, houve, em um primeiro momento, uma percepção rápida de fluxo nas entradas e saída existentes no lugar. Em cada ponto, ficamos observando o movimento durante cinco minutos. O primeiro acesso é a Rua Profº Arnaldo Cabral (1), que funciona para saída do bairro em direção à Avenida Marechal Campos e também para Avenida Vitória. No período de 9h38min às 9h45min somente quatro veículos passaram pela rua. Porém, o número de carros estacionados é grande. O próximo ponto foi a Rua Drº Lauro Faria (2), o período de observação foi de 9h44min às 9h49min. Essa foi uma das ruas mais movimentadas com dezesseis veículos saindo e quatro entrando. Os veículos que entraram no bairro não se direcionam para dentro deste e sim na rua que contorna para a outra saída, nas proximidades. No acesso seguinte, a Rua Santa Rita de Cássia (3), ficamos de 9h53min às 9h58min. Essa rua funciona como entrada para o bairro somente e durante nosso tempo de observação, dezoito veículos passaram por ali. Na Rua Flávio Abaurre (4), o período de permanência foi de 10h06min às 10h11min. Essa rua é utilizada somente para sair do bairro. Onze veículos usaram-na no tempo de observação. No penúltimo acesso, a Rua Loureiro Nunes (5), ficamos observando de 10h32min às 10h37min. Apesar de servir como saída e entrada, somente quatro veículos passaram por lá entrando, nenhum saindo.

Na parte de trás do bairro, na Rua Zilda Andrade (6), permanecemos de 10h58min às 11h03min. Ela também serve tanto de entrada como de saída, porém nenhum veiculo saiu do bairro nesse período, mas cinco entraram. Com o uso dessa metodologia, foi permitido perceber que em determinados momentos do dia, os veículos que entram no bairro não permanecem. A rotatividade na verdade é por conta da Avenida Marechal Campos. A rua paralela a essa avenida funciona como estacionamento para o comércio. As ruas perpendiculares a Marechal Campos são de maior fluxo, no entanto não conduzem esse fluxo para dentro do bairro. Na baixada, a estrutura viária comporta alguns carros estacionados (em sua maioria dos moradores), passagem moderada de ônibus e baixo fluxo de movimento de carro. Há também no bairro algumas ruas sem saída, das quais o acesso só é de interesse dos moradores. Finalizando o percurso na rua Zilda Andrade (6), na parte alta do bairro, nota-se que o fluxo é maior devido à ligação com a Paulino Müller e não há muitos carros estacionados.

9


BAIRRO DE LOURDES Conformação do traçado

Observando a planta do traçado das vias do Bairro, distinguimos três tipologias apresentadas nas cores Verde, Azul e Cinza. Com efeito, a topografia, hora plana, hora acidentada e sinuosa, é o que predominantemente referencia a disposição das ruas e define a forma da malha. Partindo pelas ruas na cor verde, da Avenida Marechal Campos, observamos a disposição de uma via paralela, fragmentada em duas ruas, Rua Doutor Lauro de Faria dos Santos e Rua Balbina dos Santos, que somadas as ruas perpendiculares que as ligam, conformam três quarteirões e marcam a transição no acesso ao bairro. Ressaltamos que, a Rua Balbina dos Santos, apesar de paralela e do traçado disciplinado, se encontra implantada a cerca de cinco metros a mais de diferença da Avenida, ou seja, o acidente topográfico não determina o traçado da via, além disso, destaque para o fato das duas ruas não terem ligação talvez pela topografia ou até pela presença da chácara que ocupa este local. Após a transição, no que poderíamos chamar de “corpo do

bairro”, observamos a implantação de um traçado racional. Neste aspecto, cabe observar a demarcação das curvas de nível e entender que o traçado (disposto na planície) foi inserido respeitando o revelo, sem acompanhar a dinâmica do traçado da Avenida Marechal Campos. Observa-se que a Rua Santa Rita de Cássia interliga as demais paralelas seguida da Rua Flávio Abaurre, formando o contorno dessa porção, além disso, a malha é cortada perpendicularmente pela Rua Raimundo Abaurre e configura o conjunto de seis quadras além da faixa de lotes implantada entre o morro e essas ruas de contorno. Seguindo para a porção em cor Cinza, notamos através das curvas de nível o acidente topográfico intenso, e que por sua vez é onde o traçado tem característica irregular, sem lógica geométrica. Há de se avaliar que, ruas como a Professora Zilda Andrade, que é uma ladeira, se estende longitudinalmente à topografia de forma a vencer o relevo gradativamente, ou seja, a forma obedeceu, entre outros fatores, à condição estrutural viável de se vencer o declive, resultando no traçado apresentado.

Nota: os aspectos considerados nesta abordagem foram de tomar o traçado das ruas como delimitador da forma, observando seus agrupamentos por afinidade formal e as inter-relações desses grupos como constituintes do conjunto.

10


BAIRRO DE LOURDES O bairro em dados

Bairro de Lourdes está inserido na Região Administrativa de Bento Ferreira que compreende mais 12 bairros: Bento Ferreira, Consolação, Cruzamento, Fradinhos, Gurigica, Horto, Ilha de Santa Maria, Ilha de Monte Belo, Jesus de Nazareth, Jucutuquara, Nazareth e Romão. É a Região Administrativa III das oito que subdividem o município de Vitória. • População: A população do Bairro de Lourdes de acordo com o Censo/ IBGE 2000 é de 1.934 habitantes, o que significa aproximadamente 5,8% da população da Região (é o quarto mais populoso), e 0,68% da população do Município de Vitória que, registrado neste Censo, somam 282.611 habitantes. No aspecto gênero, nota-se a prevalência do número de mulheres sobre o de homens, que difere em 161 pessoas, cerca de 8,32% do total do bairro. Quadro esse que se assemelha tanto a nível regional como no município onde são cerca de 5,6% a mais de mulheres. (Ver tabela 1)

No aspecto faixa etária, os dados apontam que a população no Bairro de Lourdes é de predominância jovem, com os maiores índices nas faixas de 15 a 19 e 20 a 24, o que acompanha relativamente os índices regionais e do município. (Ver tabela 2) • Renda: Os dados de renda encontrados são referentes à região administrativa, assim, de acordo com o quadro, percebemos que esta região fica em quinto lugar nos quesitos “Até 2 SM” e “Acima de 10 SM”, e no quesito “Entre 02 e 10 SM” fica em quarto. Com efeito, após vivencia no bairro e conhecimentos básicos sobre a cidade, cabe observar que as referências da região não se refletem na realidade do bairro, posto que o mesmo e bairros como Bento Ferreira e Fradinhos (de classe econômica elevada), dividem esta região com Cruzamento e Romão (área de precariedade social), justificando o resultado dos rendimentos a nível regional. (Ver tabela 3)

• Escolaridade:

Os dados de escolaridade, como os de renda, também foram encontrados distintos por Região Administrativa. Nota-se que a média de anos de estudo da população para a região de Bento Ferreira não atinge a média geral do município, e se difere 4,7 pontos para menos da maior média, da Região Praia do Canto. E da menor média, da Região São Pedro,a diferença é de 2,98 para mais. Cabe sugerir, de acordo com o visto no bairro, que os dados possivelmente não corresponde a realidade de de Lourdes. (ver tabela 4)

Tabela 01 – Dados do Censo/IBGE 2000, por região.

Tabela 02 – Dados do Censo/IBGE 2000, população por faixa etária

Tabela 03 – Dados do Censo/IBGE 2000, Rendimento em Salário Mínimo

Tabela 04 – Dados do Censo/IBGE 2000, Média de anos de estudo

11


BAIRRO DE LOURDES Referências bibliográficas

Consultas: Alagamento é problema grave no Bairro de Lourdes. A gazeta. Vitória, 22 dez. 1992. Bairros, p. 14. Semana de visitas a Bairro de Lourdes. A tribuna. Vitória, 15 out. 1998. Cidades, p. 12. Alagamentos continuam no Bairro de Lourdes. A tribuna. Vitória, 29 mar. 2000. Cidades, p. 7. Histórias do Bairro de Lourdes. A tribuna. Vitória, 31 mar. 2000. Cidades, p. 13. Moradores querem diversão. A tribuna. Vitória, 25 jul. 2005. Cidades, p. 11. MADEIRA, Lucia Chiesa. Linha do Tempo de Bairro de Lourdes. Vitória: UFES, 2005. 31 p. Pesquisa acadêmica - Curso de graduação em pedagogia, modalidade EAD, Universidade Federal do Espírito Santo. Vitória, 2005. MONJARDIM, Mario. Entrevista informal em sua casa. Vitória, 27 mar. 2011. Entrevista concedida a Giovani Goltara e Taís Tostes. DOS SANTOS, Ângela Maria Rabbi – Comunidade De Lourdes / Narazé: Nascimento da Igreja no Bairro de Lourdes. Figuras: Figura 1: Mapa das Regionais Administrativas - Lei n° 6.077/2003. Extraído do site da prefeitura de Vitória. < http://geoweb.vitoria.es.gov.br/Repositorio/BasePDF/Politicos-Regionais_Administrativas.pdf>. Acesso em 31 mar. 2011. Figura 2: Mapa de Vitória. Extraído do site de geoprocessamento da prefeitura de Vitória. < http://geoweb.vitoria.es.gov.br/ geosite.asp>. Acesso em 31 mar. 2011. Tabelas: Tabela 1: População por Região Administrativa e sexo (senso 2000). Extraída do site da prefeitura de Vitória. < http://legado.vitoria.es.gov.br/regionais/dados_socioeconomicos/populacao/popmunicipio_sexo.asp>. Acesso em 30 mar. 2011. Tabela 2: População por Região Administrativa, bairro e faixa etária (senso 2000). Extraída do site da prefeitura de Vitória. < http://legado.vitoria.es.gov.br/regionais/dados_socioeconomicos/populacao/populacao_regiao. pdf?id=92764>. Acesso em 30 mar. 2011. Tabela 3: Rendimento em salários mínimos por Região Administrativa (senso 2000). Elaboração SEGES/GIM. Extraída do site da prefeitura de Vitória. < http://legado.vitoria.es.gov.br/regionais/dados_socioeconomicos/renda/sminimos.asp> Acesso em 30 mar. 2011. Tabela 4: Média de anos de estudo por Região Administrativa (senso 2000). Elaboração SEGES/GIM. Extraída do site da prefeitura de Vitória. <http://legado.vitoria.es.gov.br/regionais/dados_socioeconomicos/escolaridade/mediaestudo.asp>. Acesso em 30 mar. 2011.

12


BAIRRO DE LOURDES Segundo capítulo: Aprofundamento da percepção ambiental - análise da ambiência urbana


BAIRRO DE LOURDES Análises segundo o método Kevin Lynch_Limites_Setores_Marcos_Nós_Percursos

Limites (Mapa pg. 15)

A definição de um novo limite partiu do critério de investigação de elementos que demarcassem as fronteiras da visibilidade do bairro, levando em consideração também a unidade harmônica da arquitetura e urbanismo. Assim, ao limite administrativo (linha roxa) foram acrescentados ou retiradas áreas. A leste o Bairro de Lourdes é delimitado por um setor de costura (mancha verde), que engloba o trecho da Av. Marechal Campos que conecta-se à parte interior do bairro junto com a área de alcance do comércio. Apresenta-se como um setor de costura e não apenas como uma linha de costura, visto que abrange uma área que funciona como limite também para o bairro vizinho, onde essas regiões se encontram. Na direção norte, o setor de costura verde termina onde a Av. Marechal Campos começa a fazer uma curva, o que resultou na retirada de uma área contida no limite administrativo - braço*. A exclusão do braço justifica-se pela perda da sua visibilidade através da

Av. Marechal Campos, devido a curva. Além disso, os elementos urbanísticos e arquitetônicos desse pedaço não dialogam com o Bairro, por apresentar ruas muito estreitas e edificações degradadas. A área norte/noroeste do Bairro termina no limite de barreira visual (linha amarela), traçada a partir dos pontos de maior cota da topografia que o cerca. A porção sudoeste possui um setor de limite (mancha amarela), que engloba a área de limite visual. Essa área foi demarcada seguindo o seguinte critério: primeiro foi demarcado o limite visual sendo visto da baixada, depois foi demarcado um limite sensorial, onde se vêm mudanças nas características do bairro. Sendo assim o setor de limite é um produto de dois limites. A área sul é contornada com uma linha de costura, um limite que determina a passagem do Bairro de Lourdes para o Bairro de Nazaré. A escadaria presente dentro do limite administrativo é retirada por circundar uma área que já não possui a mesma estética arquitetônica do bairro emanando assim uma sensação diversa altamente contrastante com o restante do Bairro de Lourdes – caracterizada por construções mais antigas e degradadas. *O braço compreende uma faixa de área que se avança para fora da composição do bairro, podendo ser comparado a uma península.

Marcos/referenciais (Mapa pg. 15)

A percepção ambiental do Bairro de Lourdes permitiu a identificação de elementos físicos configurados como pontos de referência e marcos memoráveis no contexto, que se mostram úteis como guias na localização e locomoção espacial no bairro. Esses elementos podem estar contidos no bairro ou exterior a ele. Dentro do bairro, estabelecimentos e lugares de uso coletivo - como a Associação de Moradores, o Bar Só Vento, a praça, a padaria, a Administração Regional e a Rotatória “Biscoito” – são apontados como referenciais. Funcionam como tal pois conseguem estabelecer um contraste local com os elementos próximos. Esse destaque advém do seu relevante caráter funcional, porém não marcam a paisagem. Também contida no bairro, a Igreja Católica é definida como um marco, dado ao destaque na paisagem devido ao contraste resultante do tratamento estético diferenciado das arquiteturas presentes não só ao seu arredor como também ao plano de fundo de todo o bairro. Ainda dentro do bairro e tratando de elementos naturais sob um olhar em uma escala maior categoriza-se os pontos

Nós (Mapa pg. 15)

- Na Avenida Marechal Campos foi identificado um nó no ponto de ligação da rua de saída do bairro com a Avenida, naturalmente neste ponto existe um semáforo que influencia o fluxo da avenida em função desta saída de carros. Existe a presença de uma padaria cujo movimento de fregueses é intenso e uma banca de jornal na esquina, caracterizando confluência de pessoas;

mais altos do relevo do bairro como marcos, que inclusive servem de critério para a definição do limite da paisagem do bairro devido a proeminência espacial. No bairro vizinho Santos Dumont, encontra-se no limite visual e coincidentemente limite da reserva com a área construída do bairro, uma casa implantada sobre uma pedra, aparentemente uma construção informal que chama a atenção por surgir no meio da vegetação, e ser um ponto alto na topografia. Externamente ao bairro, mas visíveis a partir de vários pontos interiores a este, são estabelecidos outros marcos, representados por cotas altas do relevo adjacente - com destaque para a Pedra dos dois olhos, o Morro do Convento da Penha e o Morro do Penedo – e por estabelecimentos de importância funcional – a exemplo da FAESA. Apesar da grande distância do Convento e o Penedo com o bairro, e mesmo que ainda não seja usado como um marco pelos residentes de Lourdes, vale a pena ressaltá-los como marcos simbólicos com o intuito de proteger a área que permite a sua visualização e marcar esse espaço como um local potencial de intervenção.

bilidade do bairro e entorno e por estar situado na crista do morro, configura momento de passagem entre os dois lados da montanha; - Na extremidade da Rua Flávio Abaurre foi destacado um nó considerado como ponto intensivo de convergência de pessoas, adquire essa formatação por corresponder ao uso específico da Igreja Católica, pode ser considerado um núcleo tendo em vista que sua imagem está vinculada a dinâmica eventual, o que difere dos demais pontos nodais que se estabelecem pelo uso cotidiano.

- Na rotatória biscoito, o fato do nó se dá principalmente pela convergência de vias, entre elas o principal acesso ao bairro vindo da Marechal Campos, tem a natureza de concentração não só de automóveis como de pessoas e caracteriza um foco intensivo que situa o usuário e o orienta ao seu destino; - No alto do morro, destacamos outro ponto nodal, caracterizado pela convergência de caminhos. Deste ponto tem-se visi-

14


Limite original_prefeitura Linha de limite visual Linha de costura

Nó de pessoas

Marcos internos

Nós de carros

Linha de limite de transição Área de limite de transição Área de limite visual

N

Marcos externos

Referências

Escala: 1:7500

Reserva Casa na pedra

Igreja

Pedra dos Dois Olhos

Associação

Padaria

Praça Regional Adm. 3 Bar Só Vento

Gurigica Jaburu Rotatória “Biscoito”

Penedo

Convento FAESA

15


Setor A Subsetor de transição Setor B Subsetor do setor B Setor C Setor D Setor E

N

Setores

A partir do novo limite definido para o Bairro de Lourdes, foi possível estabelecer uma setorização – A, B, C, D e E – por meio de uma análise subjetiva dos elementos urbanísticos e arquitetônicos componentes e das sensações que nos transmitem. O setor A coincide com a área de uso comercial. Como ocorre em grande parte das áreas de intenso uso comercial, o tráfego de veículos e de pedestres é maior, de modo que os ruídos produzidos por esta movimentação apresentam-se como os agentes responsáveis pela influência sensorial do ambiente. Essa aura inóspita define um espaço de impermanência, como local apenas de passagem, onde o individualismo vigora e onde há uma sensação de desaconchego. Na passagem do setor A para o setor B existe um subsetor de transição, que gradua a mudança daquela área comercial para uma área de caráter residencial. A certeza de não se encontrar mais no setor A acontece na percepção de um ambiente tranqüilo, que contrasta com o intenso movimento experimentado até então. Apesar da notável redução do fluxo de pessoas e veículos, a impressão que mais caracteriza o setor B é a sensação de segurança social1 e de acolhimento, devido à configuração da área como um ambiente de caráter familiar, íntimo. Isso se deve também a presença de ruas largas e bem iluminadas que lhe confere amplidão. Além da segurança social, identifica-se a sensação de segurança mental2, possibilitada pela fácil legibilidade da paisagem citadina. A aparente clareza da compreensão do setor B deriva do design regular do traçado urbano, composto por ruas paralelas e

perpendiculares, que concede uma segurança na mobilidade do usuário. O setor B possui outro subsetor, localizado nos alcances da Rua Carlos Mendes e da Rua Coronel Etienne Dessaune. Apesar da sensação de segurança social, a sensação de acolhimento se ausenta, visto que possui uma configuração urbanística e arquitetônica diferente, com ruas mais estreitas, escuras e com algumas casas não tão bem conservadas. O setor C, na área em frente à Igreja que dá acesso ao Parque, é possível vivenciar uma sensação de medo, dado que se direciona para um lugar desconhecido. Isto é fomentado pelo fato de que a entrada do Parque está em processo de construção, sem ninguém na guarita, passando a impressão de local abandonado. O setor D é caracterizado pela sensação inospitabilidade, devido à sua configuração física, composto por residências multifamialiares que formam um campo tridimensional mais fechado. Ao chegar ao setor E, nota-se a ausência da sensação de segurança social e mental. Essa impressão é produto tanto da localização do setor em área de morro quanto da legibilidade quase sempre difícil que é devida ao traçado irregular. A área de morro traz à memória a classificação generalizada do local como um espaço de risco, tratando-se essa classificação de uma estigmatização inegável existente na mídia de massa. 1

Segurança social é a percepção de estar protegido de riscos pessoais.

2

Segundo Kevin Lynch, a segurança mental é o inverso do medo que deriva da desorientação.

16


Percurso de ônibus Percurso de carros Percurso de pedestres Escala: 1:7500

N

Percusros - Percurso de Ônibus: Marcado no mapa pela cor Azul Claro, a única linha de transporte coletivo que circula pelo corpo do bairro é o 104, circunda a parte plana pela Rua Santa Rita de Cassia e acessa o morro pela Rua Coronel Etienne Dessaune. Realiza o percurso nos dois sentidos ligando a Av.Marechal Campos a Av. Pulino Muller e destas segue seu itinerário. Além desse, a Avenida Marechal Campos é servida por diversas linhas de ônibus Municipais e Intermunicipais. - Percurso de Automóveis: Na cor Azul escuro, o percurso de automóveis demarca toda a Avenida Marechal Campos (dada a intensidade do trafego), os dois acessos ao “corpo do bairro” e o trecho da rua paralela a Avenida. Destaque também para Rua Professora Zilda Andrade que estabelece o contato do bairro com a Av. Paulino Muller e acesso a porção assenta-

da no morro. Observando no mapa estão representadas ramificações que indicam a direção do fluxo. - Percurso de pedestres: Na cor marrom, está estipulado o percurso de pedestres ao longo de grande parte da Avenida Marechal Campos, destaca-se o transito de pessoas advindas dos bairros do entorno ou usuários de outras localidades atraídos pelos serviços oferecidos ali. O percurso de pedestres se assemelha ao de automóveis na questão dos acessos ao bairro e das ramificações indicativas, onde é possível observar maior numero de pessoas transitando entre Avenida Marechal e interior do bairro. Fica destacado também um fluxo específico advindo do assentamento do morro sentido Avenida Marechal Campos passando pela Rua Coronel Etienne Dessaune e pela escadaria Carlos R. de Aguiar, cabe comentar que este fluxo também é movimentado nos finais de semana onde os usuários vão ao supermercado e a feira livre.

17


BAIRRO DE LOURDES

Análise de ambientes naturais relevantes_zonas de visualização

O Bairro de Lourdes é composto por uma parte baixa (plana) e por outra elevada (morro). Essa relação de dualidade quanto sua composição geográfica faz com que o entorno do bairro seja destacado na paisagem. Os pontos altos que compõem o visual visto de diversos pontos do bairro são: a Pedra dos Dois Olhos, o Penedo, o morro do Convento da Penha, os Morros da Gurigica e do Jaburu, e a própria reserva do bairro, que ao contrário dos outros pontos, é vista com mais facilidade na baixada do bairro, tomando conta do fundo da paisagem.

“O relevo é uma presença constante na configuração das cenas contidas nos campos visuais da percepção, atuando às vezes como pano de fundo, construindo visual fechada; outras vezes como realce, destacando-se na cena”1.

- KOLSDORF, Maria Elaine. A apreensão da forma da cidade. Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1996. 1

18


BAIRRO DE LOURDES

Formas alternativas de apropriação do espaço urbano

APROPRIAÇÃO TIPO LIXO

Carro abandonado

6

Entulhos

APROPRIAÇÃO TIPO LAZER

12

8 7 2 3

4

5

6

Entulhos

2

Crianças brincando na rua

4

Mirante

8

Pessoas caminhando na rua (repete-se em diversas regiões do bairro)

APROPRIAÇÃO TIPO DOMÉSTICO

2

Crianças brincando na rua

4

Mirante

8

APROPRIAÇÃO TIPO COMERCIAL Pessoas caminhando na rua (repete-se em diversas regiões do bairro)

2

3

APROPRIAÇÃO TIPO DOMÉSTICO

9

1

Carro abandonado

APROPRIAÇÃO TIPO LAZER

APROPRIAÇÃO TIPO LIXO 1

1

3

10

Homens lavando carro

Homens lavando carro

5

Bar Só Vento (apropriação da calçada)

10

Banca de revist

7

Mesa do bar da frente

11

Vendedor de D

12

Carros sendo lav

9 Muitos carros estacionados pelo fluxo do comércio

APROPRIAÇÃO TIPO COMERCIAL 5

Bar Só Vento (apropriação da calçada)

10

Banca de revista

7

Mesa do bar da frente

11

Vendedor de DVD pirata

12

Carros sendo lavados (serviço)

6

11

9 Muitos carros estacionados pelo fluxo do comércio

N

O espaço urbano público possui certas regras implícitas de uso, como por exemplo, a calçada existe para caminhar, a rua para circularem os carros e certos usos como lavar carro e mesa de bar seriam alocados em espaços privados. Essas regras não são impostas, o que também não é um fator negativo. Mas os usos podem-se dar de formas diversas, criando formas alternativas de apropriação do espaço urbano pela população. No Bairro e Lourdes foram verificados usos que podem ser qualificados como apropriações do tipo lixo, tipo lazer, doméstico e comercial. A apropriação do tipo lixo corresponde ao uso do espaço publico para eliminar o lixo. Na localização 1 encontra-se um carro abandonado acompanhado de entulhos na calçada, assim como na 6 o entulho se encontra. Aparentemente esse tipo de apropriação alternativa remete à uma classificação social baixa, e confere uma sensação de abandono ao espaço. De acordo com análises precedentes esses dois locais, principalmente o 1 são considerados espaços de menor classificação social.

No ponto 3 foram encontrados homens lavando carro na rua, o que configura um uso do tipo doméstico. A apropriação do tipo comercial é considerada o uso do espaço público para atividades comerciais privadas. No ponto 5 o Bar Só Vento usa a calçada para por mesa para os clientes, assim como no ponto 7, um outro bar usa não só a calçada de sua testada, como a do outro lado da rua. O ponto 9 e ao longo da rua muitos carros estacionam, conferindo a essa rua a característica de servir ao comércio presente na Av. Marechal Campos. A banca de revista localizada no ponto 10 é considerada uma apropriação, apesar de legalizada, pois de certa forma está em um espaço (calçada) que deveria ser usado para passagem de pedestre. No ponto 11 encontra-se um vendedor de DVDs piratas que também se encontra na calçada. No ponto 12 estão carros sendo lavados na rua, mas diferente do tipo doméstico, esse é um uso comercial, pois é um serviço informal prestado à comunidade.

As apropriações do tipo lazer são aquelas que usam o espaço urbano para as atividades relacionadas ao bem estar e diversão. Nos pontos 2, por serem vias de baixo fluxo, portanto não proporcionando grandes perigos, as crianças brincam na rua. Na localização 2 o espaço de uma calçada é utilizado como mirante (assim chamado pela população),que, por haver uma vista privilegiada do Porto de Vitória e do Penedo chama a atenção das pessoas, que usam o espaço para conversar enquanto admiram a vista. O ponto 8 é o uso das ruas como espaço para atividade física de caminhada, esse uso se repete em outros pontos na área plana do bairro.

19


BAIRRO DE LOURDES Análise de figuras-fundo

Figura-fundo 1.

Figura-fundo 3.

O mapa figura-fundo facilita a leitura do tecido e seu parcelamento e permite assim, perceber que sua malha viária é composta por dois tipos de traçados, um regular e outro irregular, sem uma lógica geométrica (figura-fundo 1). O traçado regular encontra-se na área plana do bairro, e em contrapartida, o traçado irregular posiciona-se na área de topografia acentuada. Além disso, as ruas mais largas, com exceção da Avenida Marechal Campo, são as contidas dentro do tecido regular. Apesar da presença em uma parte do traçado regular, os quarteirões não provêm de um módulo de composição urbana, e são, portanto, como o produto residual do traçado, adquirindo diferentes formas (figura-fundo 2) . A identificação de domínios públicos e privados revela a predominância dos espaços privados e a existência de um complexo institucional público mesmo que não integrados, composto pela escola, praça, e Administração Regional.

Figura-fundo 2.

Figura-fundo 4.

O perfil fundiário do Bairro compõe se de lotes que ora são padronizados, e ora são irregulares (figura-fundo 3). Eles acompanham a disciplina do traçado, aqueles lotes que resultaram do traçado regular, também se apresentam regulares, e aqueles que são conseqüência do traçado irregular, também se mostram irregulares. A maioria deles possui uma proporção razoável, nem tanto comprida e nem tanto estreita. Por meio da relação de cheio e vazio, nota-se que a maioria das construções apresenta um afastamento frontal e de fundo, e quase não se vê afastamento lateral (figura-fundo 4). Há também bastante espaço construído, caracterizando o bairro como denso. Além disso, a densidade concentra-se mais na malha de traçado regular do que na malha de traçado irregular. A maior densidade em lotes padronizados pode ser explicada pela facilidade de ocupação plena por encontrar-se em uma área plana da topografia.

20


BAIRRO DE LOURDES Análise de figuras-fundo

8

5 4 1

7 2 6

9

2 1

3

3

6 4

Dentro dos novos limites estabelecidos o bairro é possível identificar três tipologias: comercial, unidades mistas, unidades de habitação unifamiliar, conjuntos habitacionais e unidades institucionais. Ao longo da Avenida Marechal Campos, a tipologia predominante (mancha lilás) é a comercial. A edificação faz ligação direta com a rua, tendo poucos afastamentos frontais e laterais. Em alguns lotes os fundos são utilizados para depósito e/ou abastecimento do estabelecimento. Na rua paralela à Avenida Marechal Campos, a Rua Doutor Lauro Faria dos Santos, há uma pequena aglomeração de lotes de uso misto, sendo o primeiro pavimento comercial e os demais (de dois a três pavimentos) de habitação com poucos afastamentos. Os lotes destinados ao uso institucional (escola e regional) se caracterizam por edificações de dois pavimentos com afastamentos.

5

A maioria do bairro se configura por unidades habitacionais. Na parte destacada em vermelho há predominância de conjuntos habitacionais com até quatro pavimentos, possuindo formatos variados dentro do lote: em “H”, dividida em dois blocos ou um único bloco sem afastamentos laterais. Em azul, encontramos casas unifamiliares com diferentes tipologias: casas de um a três pavimentos, casas térreas, casas com terraços e casas inseridas em terrenos inclinados (com grandes quintais nos fundos do terreno). A partir dessa percepção das tipologias conclui-se que o bairro é predominantemente composto por edifícios comerciais e residenciais de até três andares, apresentando ou não os afastamentos necessários.

7

9 8

21


BAIRRO DE LOURDES Vivência e relações sociais

No Bairro de Lourdes coexistem relações sociais que variam em três graus de intimidade: um marcado pelo distanciamento entre as pessoas, outro pela aproximação e um intermediário. Onde o comércio é predominante, nota-se uma relação social superficial, transitória, caracterizada pela impessoalidade e anonimidade e orientada por uma ação racional1 com relação aos fins: o comércio. Essa relação superficial justifica-se por se dar em uma área de aglomerado urbano comercial, que cria um local de impermanência onde apesar de não impedir, oprime o cultivo da intimidade entre as inter-relações de indivíduos que não se conhecem ou que não tem algum parentesco. Contrastando com esse cenário, a área central do bairro – localizada na área de topografia plana – engloba relações sociais de aproximação entre seus usuários. Os moradores dessa área sabem os nomes dos vizinhos, exemplificando a relação social de educação entre eles, além da relação social de amizade para aqueles que se conhecem. Há também uma troca de favores que permite identificar a relação de solidariedade entre eles. Muitos deles trazem em seus discursos a consideração e o orgulho que tem do Bairro, fomentando a consciência coletiva dos moradores, e assim preservam a relação de respeito mútuo por meio da conduta de boa vizinhança. Nota-se também que a maioria dos usuários que se relacionam mais afetivamente são os idosos, pois são os mais engajados socialmente, são aqueles que estão presentes nas atividades de interação que acontecem no bairro, como os eventos de celebrações religiosas e as jogadas de bocha.

O contato social mais íntimo presente nessa área é possibilitado pelo seu contexto arquitetônico e urbanístico favorável. As residências unifamiliares - que são predominantes nessa parte – em sua maioria se separam do espaço público apenas por meio de uma grade que por não se configurar como hermética facilita a permeabilidade e interação com o exterior. Essa interação também acontece devido as tipologias das casas, que são voltadas para rua e não se apresentam como uma casa pátio, voltada para seu interior; além de possuírem varandas. A escala arquitetônica e urbana do bairro dialoga com o usuário, na medida em que possui dimensões harmônicas, sem monumentalismo. Por isso, essa parte do bairro pode ser caracterizada como um vilarejo, quase como um refúgio no meio urbano. Na área de relevo acentuado, as relações são intermediárias, não tão próximas mas também nem tão superficiais. O contato social é mais restrito, visto que as casas possuem muros que as isolam da interação com o domínio público. Além disso, possui uma rua de residências multifamiliares, e estas por sua vez distanciam-se da interação com o bairro.

1

A partir da afirmação de Max Weber, considera-se que uma ação racional com relação aos fins é determinada pelo cálculo racional que coloca fins e organiza os meios necessários. TOMAZI, Nelson Dacio. Sociologia I – São Paulo: Atual, 2003.

22


Bairro de Lourdes