Gazeta Rio - Caderno G - Edição de Sábado 03 a Segunda-Feira 05 de Novembro de 2022

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Caderno G Estado do Rio de Janeiro, 03 a 05 de dezembro de 2022 Educação Cultura Arte Saúde Diversão O espetáculo “A Filha da Virgem”, monólogo com texto e atuação de Wanderlucy Bezerra “O Brasil foi um laboratório para o fascismo”, diz Marcia Tiburi “Onde estamos imersas” espetáculo criado por Dani Lima EM CARTAZ “Pausa para cena mulheres da independência”
SILVA GAZETA RIO
CINEMA OLHARES AUDIOVISUAIS PAULO

CINEMA

OLHARES AUDIOVISUAIS

PAULO SILVA

MARTE UM

Éno morro da Mangueira, na Biblio teca da Mangueira Jair Campos da Silva, que pela segunda vez o proje to Olhares Cariocas, desenvolvida pela Cultural Aloha a partir da ideia da curadora e produtora cultural Ana Brites, faz um grupo de jovens e adolescentes da comunidade aprenderem a fazer filmes em câmeras de Smartfones em oficinas de audio visual. Com vinte horas de aula, divididas em oito semanas sempre das 9h 30 ao meio dia, o projeto tem levado uma esperança para a comunidade e democratização da ferramen ta de audiovisual para ensino e produção de conteúdo para canais e redes sociais. O obje tivo é ensinar o jovem a produzir vídeos por meio de celular e smartfones e prepara-los para dominar as novas ferramentas de mer cado de audiovisual, mídias sociais e do me taverso, orientando, por exemplo, a utilizar dispositivos como a realidade aumentada e criação de NFTs, tokens não fungíveis, para quem não tem celular o projeto disponibiliza aos alunos para aulas de roteiro até a edição, mostrando também a importância da inter net de altíssima velocidade para produtos audiovisuais, muito mais do que isso, a inten ção é apresentar ferramentas e aplicativos que o aluno pode usar gratuitamente pare gerar renda e empregabilidade. Ana Brites é a CEO da Aloha Consultorias e Eventos, que está à frente de diversos projetos culturais no Rio de Janeiro. Os trabalhos de sua empre sa são sempre ligados à cultura e ação social, entre eles “A Genialidade de Villa-Lobos - 100 anos de Arte Moderna” que vem promoven do “Concertos Didáticos” para crianças em diversos espaços. Nesta entrevista Ana que não para de trabalhar falou um pouco mais do projeto revelando que outras comunida des estão na alça de mira da produtora cul tural, e o objetivo é levar o projeto a toda região da cidade, Olhares Cariocas tem o patrocínio de Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura do Rio, MetrôRio, LAB 245, Certvs e Light, a ide alizadora fala da importância desse trabalho como ponte não apenas de aprendizagem no audiovisual para jovens, mas principalmente pela oportunidade no mercado de trabalho.

GAZETA RIO: Qual foi a inspiração pata criar o Projeto Olhares Cariocas ?

ANA BRITES: A inspiração veio da minha mis são de democratizar o acesso à cultura aliada a tecnologia e a vontade de contribuir com a transformação e o desenvolvimento dos jovens das comunidades do Rio de Janeiro.

Estamos felizes com a segunda edição do Olhares Cariocas com um recorde de parti cipantes. Graças ao patrocínio das empresas que através das leis de incentivo direciona ram vinte por cento do ISS pago para projetos socioculturais. Na minha trajetória de produ ção e curadoria eu sempre destaquei os pro jetos socioculturais dedicados a criança e aos jovens e faço questão de privilegiar as regi ões mais desfavorecidas do estado como as favelas. Há muito tempo vinha pensando em um projeto com o audiovisual que fosse além do entretenimento, que compartilhasse co nhecimento, tecnologia e informação através da capacitação, algo que também fosse para o jovem uma oportunidade para o mercado de trabalho, começando a exercitar sua ex periencia no lugar onde o adolescente mora.

GR: Como se deu a escolha da atual comuni dade a Mangueira ?

AB: Eu estudei na UERJ e a comunidade, que fica de frente para o campus, sempre este ve muito próxima e foi um ponto de partida para hoje atendermos aos jovens de outras comunidades, o Projeto Olhares Cariocas está na segunda edição na comunidade e pretendemos manter um núcleo de audiovi sual permanente no local.

GR: Que outras comunidades estão previstas para receber o projeto Olhares Cariocas ?

AB: Que bom que você perguntou isso, es tamos levando o projeto para a comunidade da Cidade de Deus, inclusive nos escrevemos no edital da LAMSA (Linha Amarela S.A.), e estamos trabalhando para que o projeto seja aprovado, que o Olhares Cariocas seja um dos selecionados. O Morro do Pinto na re gião portuária também tem muito interesse em receber o projeto, estamos trabalhando muito para que isso aconteça.

GR: O projeto tem uma peculiaridade, as au las presenciais são transmitidas para outras comunidades via online. Todas as comunida des que forem contempladas também terão transmissão via internet ?

AB: Sim, com a pandemia convivemos com a educação à distância e o hibrido facilita o acesso a todos. Com o continuo apoio das empresas que investe em empoderamento social e tecnologia digital, conseguiremos ampliar cada vez mais o impacto social e o alcance a mais comunidades.

O filme brasileiro “Marte Um” dirigido por Gabriel Martins está, segundo informações direto de Los Angeles, no quadro de repescagem para indicação de melhor filme estrageiro no Oscar 2023, o Filme conta a história de uma família negra na periferia de uma grande capital que vive tranquilamente, quando não mais que de um repente um presiden te de extrema direita toma posse como presidente. Sendo uma família negra e pobre, eles sentem a tensão de sua nova realidade. Tércia a mãe, reinter preta seu mundo depois de um encontro inespera do a deixa se perguntando se ela é amaldiçoada, o esposo Wellington coloca todas as esperanças na carreira de seu filho Deivinho, que por pressão e querendo agradar o pai, segue as ambições dele, secretamente Deivinho sonha ser astrofísico e colonizar Marte. Enquanto isso a filha mais velha Eunice se apaixona por um jovem de espirito livre e questiona se é hora de sair de casa. Segundo no ticias da Academia o favorito é “All Quiet on the Western Front” da Alemanha, esta coluna já falou sobre o filme, outro filme que corre por fora é o argentino “Argentina 1985” de Santiago Mitre.

BILHETERIA BRASIL

O filme “Pantera Negra - Wakanda Para Sempre” aproveitou o feriadão de meio de semana e cravou 2,5 milhões de público nas bilheterias brasileiras, “Adão Negro” continua na ponta com um público de mais de 4 milhões de espectadores. Com a vol ta do presencial os cinemas estão muito otimistas este ano com a possibilidade de ter uma projeção de mais de 600 milhões de arrecadação, em tempo o Brasil antes da pandemia chegou a 1,2 bilhoes de vendas de ingressos.

A GUERRA E O CINEMA

Os conflitos entre a Rússia e a Ucrânia tem toma do conta dos noticiários internacionais. Mais como esta guerra afeta o cinema dos dois lados ? Com os bombardeios dos dois lados o cinema toma partido e explica as versões de cada país sobre suas razões de se defender cada um a seu modo. No período que vai do início do confronto em 2014 com a toma da da Criméia pela Rússia, até a guerra aberta em 2022, o cinema dos dois lados da fronteira tratou do conflito e suas consequências. Vai da propagan da ao filme reflexivo, da distopia a antiguerra, os fil mes falam tanto das intenções dos governos quan to das múltiplas sensibilidades que se manifestam diante da guerra. Em 2021 o cineasta russo Renat Davletyarov lança “The Pilot: A Battle for Survival” um filme que retrata um piloto russo na segunda guerra mundial, para os russos foi a Grande Guer ra Patriótica, o Piloto do título é abatido atras das linhas inimigas e parte em seu caminho de volta a beira da morte, uma oportunidade uma vez que o conflito estava no início entre diplomacia e guerra de informação, quando a Ucrânia aceitou entrar na

OTAN é que definitivamente o conflito se inicia. Do outro lado da fronteira esta Sergei Loznitsa cineas ta considerado ucraniano, nascido na Bielorrússia. Em 2018 ele lança “Donbass”, filme extraordinário que leva a ficção a beira de um documentário de gravação direta, com longas sequências, trata dos acontecimentos em 2014 com visão oposta da po lítica russa, longe da reivindicação do governo de Moscou. Na guerra de “Donbass” há apenas degra dação humana, selvageria e humilhação, extorsão e manipulação de informações, que é um dos prin cipais temos do filme, é a guerra e o cinema cada um a seu modo.

EM BREVE NOS CINEMAS

Fim de ano chegando ainda temos as estreias do Natal, mas 2023 está aí batendo na porta, vamos para os lançamentos do ano que vem. apartir de janeiro temos:

JANEIRO

OLHOS FAMINTOS 4 - RENASCIMENTO quem co nhece a franquia de terror pode ter certeza que aquele ser asqueroso vai estar de volta matando e só ele sabe porque, com uma produção mais cara que as anteriores e com efeitos melhores, pelo me nos é o esperamos.

KRAVEN - O CAÇADOR pra quem não sabe o maior inimigo do Homem Aranha nos HQs, mais calma ainda não foi confirmado o lançamento portanto pode ter outra data, até o momento do fechamen to da materia tem previsão para dia 12.

FEVEREIRO

OS MERCENARIOS 4 mas uma franquia que dispen sa apresentações, a turma de Stallone vem com força total quebrando geral m mais uma das his tórias de conflito entre tiros, porrada e bomba, as vezes umas granadas.

HOMEM FORMIGA E VESPA - QUANTUMANIA esse já é esperado faz tempo e finalmente vamos ver o episódio que provavelmente se passa antes dos acontecimentos de Thanos, o cara que estalou os dedos e matou metade dos heróis.

MARÇO

SHAZAM 2 - FURIA DOS DEUSES todos nós espera mos que o garoto tenha crescido e ficado mais ma duro, pelo que sei não vai ser uma comedia como da outra vez, quem sabe uma luta sem fim contra Adão Negro, brincadeira.

JOHN WICK 4 bem o cara começou a carreira quan do se aposentava, espero apenas que não matem o seu cachorrinho desta vez, a franquia é uma das mais badaladas da atualidade, então vale apena esperar.

GAZETA RIO 2
03 a 05
CINEMA
Estado do Rio de Janeiro,
de dezembro de 2022
G Uma publicação GAZETA RIO Rua Pedro Guedes, 74 - Rio de Janeiro, Ano I - no 4 Editor: Amaury Oliveira Conselho Editorial: Tainá Barbalho Paulo Silva horácio Avelar
Caderno

Museu exibe, no Rio, achados arqueológicos do Cais do Valongo

Mostra é gratuita e pode ser vista até 2023

Cerca de 180 achados ar queológicos descobertos nas obras do Porto Ma ravilha figuram na expo sição Achados do Valon go, aberta, hoje (30), no Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira (Muhcab), na Gamboa, região cen tral do Rio de Janeiro.

É a primeira vez que são apresen tadas cerâmicas, anéis de piaçava, pedras e peças em vidro do Cais do Valongo que contam um pouco da herança africana.

Os achados arqueológicos, que es tavam no antigo Cais do Valongo, onde funcionou o maior mercado de escravizados do Brasil, fazem parte do acervo do Laboratório Aberto de Arqueologia Urbana (Laau), da pre feitura da cidade.

A mostra é gratuita e ficará em car taz por pelo menos um ano no Muh cab, que funciona no Centro Cultural José Bonifácio. Criado por ocasião das obras do Porto Maravilha, o Laau soma cerca de 1,2 milhão de peças lo calizadas durante as intervenções na Zona Portuária.

Escavações

Um lote com 262 mil itens é relativo às escavações do Cais do Valongo. As demais são dos sítios Sacadura Cabral, Morro da Conceição e Trapi che da Ordem, entre outros pontos. Museu da História e Cultura Afro -Brasileira (Muhcab), no Rio de Janeiro, abre a exposição Acha dos do Valongo.

A exposição, que marca ainda um ano da inauguração do Muhcab, é uma iniciativa da Secretaria Muni cipal de Cultura e do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade, em par

ceria com pesquisadores da Univer sidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e do Museu Nacional. Para o secretário municipal de Cul tura, Marcus Faustini, visitar a ex posição é lidar com a memória afro -brasileira. “Construir um futuro sem racismo e com mais diversida de é um compromisso dos cariocas, então, é importante pegar algo que estava apagado e trazer para que a população tenha acesso e é o que o Muhcab tem feito ao longo deste seu primeiro ano de vida”, disse.

A mostra tem curadoria dos pesqui sadores da Uerj e do Museu Nacio nal, organização do Muhcab, patro cínio do Instituto Moreira Salles e do Instituto D’Orbigny e supervisão do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Ela se soma à exposição permanente do museu, “Protagonismos – Memória orgulho e identidade”.

Cais do Valongo

Descoberto em 2011, na fase ini cial do projeto Porto Maravilha, de revitalização da região, o cais era adjacente ao mercado. Esti ma-se que por lá passaram 700 mil africanos escravizados entre 1790 e 1831, oriundos de portos do atual território de Angola, mas também de Moçambique.

A escavação arqueológica de 2011 abriu um pedaço de terreno de quatro mil metros quadrados. De lá saíram centenas de artefa tos de matrizes africanas, como contas de colares, búzios, brin cos e pulseiras de cobre, cristais, peças de cerâmica, anéis de pia çava, figas, cachimbos de barro, material em cobre, âmbar, corais e miniaturas de uso em ritual.

GAZETA RIO 3 Estado do Rio de Janeiro, 03 a 05 de dezembro de 2022 MUSEU

“O Brasil foi um laboratório para o fascismo”, diz Marcia Tiburi

A filósofa, escritora e artista plástica brasileira foi obrigada a deixar o país em 2018, depois de insistentes ameaças de morte. A professora e ativista mergulha nas artes visuais, cujas obras estarão expostas em Lisboa até 15 de janeiro

Afilósofa e escritora Marcia Tiburi, que foi obrigada, em 2018, a deixar o Brasil por causa das constantes ameaças de morte que vinha recebendo de extremistas de direita, está convencida de que o país deu um freio no movimento fascista que havia ga nhado força nos últimos anos. Para ela, o Brasil foi um laboratório para “esse horror”, cujos experimen tos foram acompanhados com atenção pelo mundo e freados por meio da frente ampla política que aju dou a eleger o petista Luiz Inácio Lula da Silva para a Presidência da República. “O Brasil conseguiu um feito incrível, que foi puxar o freio de mão do fascis mo. Mas é preciso trabalhar muito para que o fascis mo não seja recuperado”, diz.

Tiburi afirma que os anos fora do Brasil, na condição de exilada, de expulsa de sua própria pátria, “cuja democracia foi destruída”, não têm sido fáceis. A fim de amenizar a dor, voltou-se para as artes visuais, as quais ela havia abandonado ainda na juventude. Todo o trabalho desenvolvido nos últimos quatro anos, unindo literatura e imagens, ela apresentou pela primeira vez em Paris, em setembro e outubro últimos, e, agora, parte das obras pode ser vista no Espaço Talante, em Lisboa. “Trazer a exposição ‘En saio de escrita’ para Portugal foi uma forma de me reconectar com o português, com a minha língua materna. Para quem vive exilado, a literatura, a arte, é um território para se habitado”, ressalta. Ainda não há perspectivas de a mostra com as obras de Tiburi desembarcar no Brasil. Mas ela torce para que seja rápido. “Tem uma parte da exposição que é muito mais política e que eu acho que pode ser muito importante para esse momento em que o Brasil pre cisa retomar a sua democracia e consolidar suas ins tituições e, ao mesmo tempo, levar a sério a cultura,

as artes, a educação, e saber que o fascismo também se instaura por meio da violência na linguagem. As minhas obras falam dessa violência simbólica, dessa violência das palavras”, diz ela, autora de livros polê micos, entre eles, “Como falar com um fascista”, de 2015. A exposição de Tiburi, que conta também com aulas de filosofia, poderá ser vista até 15 de janeiro de 2023 na capital portuguesa. A seguir, trechos da entrevista que ela concedeu ao Correio.

O que a exposição, que está em cartaz em Lisboa, representa para a senhora?

Essa exposição, que se chama “Ensaio de escrita”, é parte de uma mostra que eu fiz na Prefeitura de Paris em setembro e outubro deste ano. Para Lis boa, no Espaço Talante, eu trouxe as obras que têm um nexo entre literatura e imagem. Palavra e ima gem são uma questão dessa exposição. O mote foi construir um livro visual, porque eu havia criado um romance que eu publiquei no Brasil, que se chama “Sob os pés, meu corpo inteiro”, em francês. Eu tinha feito esse livro visual que está exposto aqui, mas de cidi também vir para cá para escrever esse livro em versão visual em português. Para mim, a passagem por Portugal é uma maneira de me reconectar com a língua portuguesa, com a nossa língua brasileira, de fazer essa ponte, porque eu estou há vários anos morando na França em função do meu exílio políti co. Então, a palavra também é a nossa terra. A língua também é a nossa pátria, a nossa mátria. A língua também é uma casa. E, sobretudo para quem vive exilado, a literatura, a arte, é um território para se habitado.

Como eu trabalho com filosofia, com a criação de teorias, e escrevi vários romances e a literatura sempre foi muito presente na minha vida, as artes visuais, que fazem parte da minha juventude, an davam bastante distantes da minha vida no Brasil. Mas, quando eu tive que sair do país, em 2018, me voltei para as artes visuais e senti essa necessidade de unir as gramáticas, unir as linguagens. Hoje, eu chamo esse meu método, esse meu procedimento, de anagramatologia. Ou seja, é um cruzamento das gramáticas que estão presentes não apenas na mi nha vida, mas na vida de todos nós, a gramática visu al, a gramática escrita e a gramática, vamos chamar assim, reflexiva. Filosofia, literatura e artes visuais podem se casar, podem se envolver e se entrelaçar e nos trazer outras experiências que são estéticas, mas que são também experiências subjetivas e que são, num sentido muito profundo, experiências éti co-políticas. Porque esse é o nosso chão, o nosso chão humano, o lugar onde a gente se constrói, o lugar da linguagem.

A filósofa, escritora e artista plástica Marcia Tiburi foi obrigada a deixar o país em 2018, depois de in sistentes ameaças de morte. A professora e ativista mergulha nas artes visuais, cujas obras estarão ex postas em Lisboa até 15 de janeiro

A filósofa, escritora e artista plástica Marcia Tiburi foi obrigada a deixar o país em 2018, depois de in sistentes ameaças de morte. A professora e ativista mergulha nas artes visuais, cujas obras estarão ex postas em Lisboa até 15 de janeiro

A senhora falou que teve de deixar o Brasil em 2018. Por quê?

Eu escrevi um livro em 2015 que se chama “Como

conversar com um fascista”. E foi o primeiro livro que denunciou a questão do fascismo que havia sido implantado no Brasil. A partir de então, come cei a receber muitos ataques de personagens da extrema-direita no Brasil. E, à medida que as coisas avançaram, o golpe (que derrubou Dilma Rousseff da Presidência da República), eu fiquei cada vez mais exposta. Sempre fui uma professora de filosofia mui to atuante na esfera pública pela natureza dos meus temas, sempre fui muito convocada a falar. Em 2018, em função dos ataques organizados, programáticos, pelo Movimento Brasil Livre (MBL), comecei a ser muito perseguida. O Movimento Brasil Livre invadia os lançamentos dos meus livros, me ameaçava, che garam a ameaçar de morte. Houve muitos ataques, a construção de uma campanha de difamação mui to grande. E eles continuam me perseguindo hoje, me perseguindo por meio de assédio judicial. Assim como (o presidente) Jair Bolsonaro, que também me persegue através de assédio judicial. Acabei, em fun ção de toda a complexidade do jogo político naquela época e da desmontagem, da destruição da esfera pública, ficando mais exposta e cada vez mais amea çada e lançada numa situação muito difícil. Então, recebi um convite, em 2018, para sair do Bra sil, feito por uma instituição chamada City of Asylum, fundada por Henry Reese, que estava ao lado de Sal man Rushdie no dia que ele foi atacado a facadas. Reese criou uma instituição para proteger escritores que recebem ataques perigosos mundo a fora. Fui recebida por ele no final de 2018. Depois disso, re cebi um convite de uma universidade dos Estados Unidos, onde ele tem essa instituição. E fiquei por lá, numa residência literária, esperando que as coisas melhorassem. Mas elas nunca melhoraram. Então, recebi um convite para ir para a França, para uma

GAZETA RIO 4 Estado do Rio de Janeiro, 03 a 05 de dezembro de 2022 MÚSICA
Quando essa arte visual ficou mais presente na sua vida?

universidade, para um curso de filosofia na Paris 8, onde estou até hoje. A partir disso, a minha vida mu dou, porque eu já não estava mais no Brasil, não era mais uma intelectual pública no Brasil. Depois, teve a pandemia, e eu comecei a me dedicar às artes vi suais. Recebi uma bolsa de artista, e a vida seguiu nessa linha. Continuei, evidentemente, as minhas aulas, escrevendo meus romances, meus ensaios, mas surgiu essa nova vertente do trabalho, que foi exposto em Paris. Lá a exposição se chamava “Terra Dourada”, com uma carga política muito mais forte. Mas, para Lisboa, resolvemos trazer esse recorte li gado ao nexo entre imagem e palavra, entre literatu ra e universo visual.

Este ano, então, foi a sua estreia nas artes gráficas?

Sim, as artes visuais surgiram este ano sim. Eu venho trabalhando já desde o final de 2018, mas as exposi ções começaram a acontecer agora em 2022, e espe ro poder levar isso ao Brasil. Tem uma parte da ex posição que é muito mais política e que eu acho que pode ser muito importante para esse momento em que o Brasil precisa retomar a sua democracia e con solidar suas instituições e, ao mesmo tempo, levar a sério a cultura, as artes, a educação, e saber que o fascismo também se instaura por meio da violência na linguagem. E as minhas obras falam também des sa violência simbólica, dessa violência das palavras.

Acredita que a exposição poderá ir para o Brasil já no próximo ano?

Olha, ela vai ser reinstalada em Paris, em outro espa ço, e há convites de outros países, mas, por enquan to, não existe nenhuma possibilidade de ir ao Brasil. Mas o sonho existe, a vontade existe.

A senhora trata sobre tortura em várias das obras. Por quê?

A tortura começou a aparecer no meu trabalho como uma metáfora da violência que se faz contra os povos colonizados, contra os povos escravizados, contra as mulheres. Então, é um tipo de violência perpetrada sem ter como objetivo a morte, mas lidando sempre com o poder que pode ser exercido sobre um corpo e sobre uma psique, sobre uma mente, dentro de um cálculo. Essa violência administrada, calculada e que organiza e manipula o sofrimento. Eu acredito que isso seja uma metáfora importante para entender não apenas os períodos mais autoritários e pesados, os anos de chumbo, como a gente diz, mas também para entender todo o processo do sistema patriarcal capitalista, racista, que atua contra os nossos corpos de uma maneira mais profunda, às vezes mais sutil, às vezes mais escancarada. Eu acredito que nós pre cisamos colocar o dedo nessa ferida, que tem a ver também com o abuso, a violência que o universo das tecnologias faz contra nós. A violência tecnológica também é um assunto para mim.

O fato de ser mulher agrava isso?

O fato de eu ser feminista agrava. Certamente, como mulher, como personagem, a gente sofre uma miso ginia, que é contumaz, instantânea, estrutural, está sempre presente. Por isso, as mulheres que têm consciência dessa condição, da sua condição de se res atacados violentamente pelo sistema patriarcal, se tornam feministas, se dizem feministas. Dizer-se feminista é dizer estou consciente e tentando en frentar e mudar o mundo no qual eu existo.

Lula venceu Bolsonaro nas eleições, mas o Brasil vai se livrar do bolsonarismo?

Acho que o Brasil vai se livrar do bolsonarismo, que foi um fenômeno específico, centrado na figura de

Bolsonaro. Mas o Brasil não vai se livrar do fascismo. Então, o bolsonarismo foi o fascismo de Bolsonaro, da época de Bolsonaro. Mas o fascismo continua, in felizmente, como continua pelo mundo. Então, nós precisamos, sem dúvida, de um projeto para um Bra sil democrático, um projeto que envolva educação, cultura, arte e que nos permita nos livrarmos, nos libertarmos desse fascismo. E isso não acontecerá sem muito trabalho.

O fato de Lula ter sido eleito com o apoio de uma ampla aliança política facilita o caminho para conter os movimentos fascistas?

Existem duas questões relacionadas ao fascismo. Uma é o fascismo de Estado, do qual se puxou o freio de mão com essa frente ampla política. É importante fazer com que esse fascismo não avance, o chama do cristo-fascismo, o plano de poder da bancada da bala, da Bíblia e do boi, de agentes da violência es tatal, dessa gente que busca justamente se colocar na esfera, no campo da decisão política. Isso precisa ser freado. Agora, existe um outro fascismo, que é o fascismo da sociedade civil. E esse a gente pre cisa de ações que podem, por exemplo, acontecer numa integração dos ministérios. Precisamos atuar na educação, na cultura e também no campo da co municação, ou seja, nas esferas que trabalham com a produção de discursos e com a produção ideológi ca. É absolutamente essencial que haja um trabalho envolvendo esses três setores, educação, cultura e comunicação. Mas eu acredito também que vai ser necessário criar uma espécie de grupo de trabalho, talvez uma secretaria, que seja capaz de trabalhar, de maneira transversal, em todos os setores da so ciedade para que seja possível desfascistizar e des nazificar o Brasil. Hoje, como se sabe, há mais de 500 células nazistas em operação no Brasil. Isso precisa ser desmantelado. Além disso, é preciso contar com a ajuda do sistema de Justiça, de segurança. Mas não dá para fazer isso desligado da questão da educação, da cultura, da comunicação. Ou seja, é um grande trabalho, inclusive para que isso não retorne daqui a dois anos. Veja, por exemplo, aquela gente que con tinua acampada ali na frente dos quartéis.

Onde foi que o Brasil errou? Como esse povo que defende ideias fascistas surgiu?

O Brasil errou no plano de educação, de cultura, de comunicação para a democracia. Para reverter isso, é preciso administrar, organizar e projetar tanto a educação, quanto a cultura e a comunicação para a democracia. Nada vai acontecer naturalmente. Agora, existe um projeto internacional, que é publi citário e despolitizante. Aliás, as duas coisas ao mes mo tempo. É um programa proveniente, sobretudo, dos Estados Unidos, com venda de um combo para diversos países, para a extrema-direita. Bolsona ro é um cliente desse tipo de projeto. Então, assim como publicitários podem vender Coca-Cola, podem vender ódio. E isso está acontecendo. É um erro da nossa parte acreditar que isso tudo surgiu esponta neamente, que é uma tendência natural da socieda de, não é. O ódio foi implantado. Quando eu escrevi “Como conversar com um fascista”, eu já falava que o ódio era implantado e contagioso. Falo isso porque passei a minha vida estudando esse tipo de assunto. Não era uma novidade para mim. Trabalhei como professora de filosofia, formada na teoria crítica, ou seja, aquilo tudo que Olavo de Carvalho falava — ele me atacava muito em 2015 —, contra os autores e os pensadores que sabiam sobre a teoria do fascismo. Conto isso porque quem conhece o funcionamento desse tipo de arranjo político fica menos surpreso com o que está acontecendo hoje. Por isso, eu, que sempre estudei esse assunto, o nazismo na Alema nha, o fascismo na Europa, um dia me dei conta de que o Brasil já tinha caído nisso também.

A senhora, teoricamente, foi arrancada de sua pátria mãe, do seu país. Como lida com isso?

Eu lido com arte, com luta, com literatura, com fi losofia. Mas é muito duro, muito difícil. E uma coisa importante: quando eu tive que sair do Brasil, saí da mesma maneira que muitos professores, intelectu ais, artistas, pessoas que não sabem que podem, de repente, se transformar em exiladas. Quando eu saí, não foi para me exilar. Eu não disse eu vou lá me exi lar. Eu não pensei isso. Eu pensei que eu sairia um pouquinho, que viajaria e, em pouco tempo, voltaria. Só que eu nunca pude voltar. Descobri, então, que era uma exilada quando comecei a participar de gru pos em que as pessoas tinham vindo de democracias destruídas. Me dei conta de que eu também tinha vindo de uma democracia destruída. Os exilados de hoje são pessoas que vêm de democracias destruí das e não, necessariamente, de ditaduras já conso lidadas. São pessoas que são ejetadas, expulsas de seus países, porque lá são ameaçadas de morte. E a quantidade de pessoas que depois foram violenta das, ameaçadas e mortas no Brasil? Assim, hoje fica mais fácil entender porque eu tive que sair, porque Jean Wyllys, Débora Diniz, Larissa Bombardi e tantos outros tiveram de sair.

A senhora acredita que o Brasil ainda tem jeito?

Ah, eu sou brasileira, tenho toda a esperança. A es perança é o meu nome do meio. Eu confio em alter nativas. Penso sempre em termos históricos, tanto que, atualmente, trabalho numa pesquisa sobre os

ciclos do fascismo. O Brasil conseguiu um feito incrí vel, que foi puxar o freio de mão. Agora, temos de trabalhar para que o fascismo não seja recuperado. Acho que a consciência já surgiu. Então, acredito muito que, a partir desse momento histórico, com a vitória de Lula, acompanhado dessa frente ampla política, ou seja, de muita gente que, inclusive, era golpista, mas que se arrependeu, essas pessoas se deram conta que nós precisamos fazer com que o Brasil avance e precisamos ir juntos. Acredito que, no futuro, nós teremos um país em que as minorias políticas hétero denominadas terão mais espaço. Eu confio muito na luta feminista. E assim por diante.

A senhora vive na França, há risco de aquele país seguir pelo caminho do Brasil com Bol sonaro e eleger um represente da extrema -direita?

Acho que, depois do que ocorreu no Brasil, que é um laboratório disso tudo — foi do neoliberalismo, foi fascismo —, a derrota de Bolsonaro fez muito mal a Donald Trump e a Marine Le Pen, e fará mal ao Chega (de Portugal), ao Vox (da Espanha), e assim por dian te. Bolsonaro deixou o Brasil em petição de miséria, destruiu o país economicamente, simbolicamente, moralmente, politicamente. A prova disso são as hordas de pessoas perturbadas, acanalhadas, que perderam o chão e o prumo. A violência sem igual. A França olha muito para o Brasil, assim como Portu gal. Então, acredito que as coisas não tendem a não avançar na Europa, porque o laboratório já sinalizou que o fascismo não é bom para ninguém. As frentes democráticas internacionais vão continuar se consti tuindo contra o avanço desse horror.

GAZETA RIO 5
MUSEU
Estado do Rio de Janeiro, 03 a 05 de dezembro de 2022

“Pausa para cena mulheres da independência”, em cartaz

de teatro no Paço Imperial homenageia mulheres essenciais da História do Brasil. Encenações gratuitas na hora do almoço

Que tal assistir a uma peça de teatro na hora do al moço? Essa é a proposta do projeto PAUSA PARA CENA – MULHERES DA INDEPENDÊNCIA, que acontece gratui tamente de 06 a 10 de dezembro no Centro Cultural Paço Imperial, na Praça XV. As cenas com duração de 20 minu tos e intérprete de Libras podem ser vistas de terça a sábado em dois ho rários: 12h30 e 13h (*06/12 sessões às 13h e 13h30). No palco, cinco atrizes se inspiram em mulheres essenciais para a História do Brasil ao propor um olhar histórico e particular para a trajetória e luta de cada uma delas.

Carol Haber apresenta “Conservando a Resistência” em homenagem a Joana Angélica, mártir católica considerada heroína da independência; Piton Niza

encena “Rebeldia em Dias de Lazer”, em que Luiza Mahin é quitandeira, mãe, geniosa, vingativa, revolucioná ria e livre por natureza. Em “Uma Re ceita de Luta”, Fernanda Sal é Maria Felipa em um encontro arrebatador com a sua ancestralidade. Sirléa Aleixo é Marianna Crioula em “Um Grito de Resistência”, onde ela se faz rainha e mostra que toda mulher é rainha. Em “Uma Receita de Luta”, Maria Lucas é uma mulher trans carioca buscando uma comunicação com Maria Quitéria, baiana que fingiu ser homem para lutar na guerra da independência do Brasil.

“Conhecer a história dessas mulheres revolucionárias contada por outras mu lheres com histórias de vida também marcantes é importante demais, sobre tudo nessa proposta de oferecer ao pú blico teatro gratuito durante a pausa do

almoço em um espaço cultural histórico como é o Paço Imperial. É uma mistu ra potente que precisa ser apreciada”, afirma Monique Vaillé, idealizadora do festival, realizado por Corbelino Cultu ral e Delas Cultura e com patrocínio do Governo do Estado do Rio de Janeiro e da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa, através do edital Re tomada Cultural RJ 2.

“PAUSA PARA CENA – MULHERES DA INDEPENDÊNCIA” é a terceira edição do Festival de cenas curtas na hora do almoço. “PAUSA PARA A CENA” es treou em 2020 com os solos de Moni que Vaillé encenados online. Em 2021, com o suporte da lei Aldir Blanc, foi a vez do “PAUSA PARA CENA _ FESTIVAL LIBRAS NA TELA” com apresentação de 27 mulheres “ao vivo” dividindo a tela com a intérprete de libras.

SERVIÇO

PAUSA PARA CENA – MULHERES DA INDEPEN DÊNCIA

Data: de 06 a 10 de dezembro de 2022 Hora: 12h30 e 13h00

Duração: 20 minutos

Local: Centro Cultural Paço Imperial Endereço: Praça Quinze de Novembro, 48Centro

Classificação etária: 16 anos Entrada: Gratuita

PROGRAMAÇÃO

06/12 13h00 – “Montada para Guerra” com Maria Lucas (Maria Quitéria)

13h30 - “Um Grito de Resistência” com Sirléa Aleixo (Mariana Crioula)

07/12 12h30 – “Conservando a Resistência” com Carol Haber (Joana Angélica)

13h00 – “Uma Receita de Luta” com Fernanda Sal (Maria Felipa)

08/12 12h30 - “Rebeldia em Dias de Lazer” com Piton Niza (Luisa Mahin)

13h00 – “Conservando a resistência” com Carol Haber (Joana Angélica -)

09/12: 12h30 – “Montada para Guerra” com Maria Lucas (Maria Quitéria)

13h00 – “Rebeldia em Dias de Lazer” com Piton Niza (Luisa Mahin)

*caso haja jogo da seleção do Brasil, não haverá programação neste dia 10/12: 12h30 – “Um Grito de Resistência” com Sirléa Aleixo (Mariana Crioula)

13h00 – “Uma Receita de Luta” com Fernanda Sal (Maria Felipa)

*caso haja jogo da seleção do Brasil, não haverá programação neste dia

Programação caso o Brasil avance na Copa do Mundo.

**09/12 haverá três sessões, caso haja jogo dia 10/12

12h30 – “Montada para Guerra” com Maria Lucas (Maria Quitéria)

13h00 – “Uma Receita de Luta” com Fernanda Sal (Maria Felipa)

13h30 “Rebeldia em Dias de Lazer” com Piton Niza (Luisa Mahin)

**10/12 haverá três sessões, caso haja jogo dia 09/12

12h30 – “Montada para Guerra” com Maria Lucas (Maria Quitéria)

13h00 - “Uma Receita de Luta” com Fernanda Sal (Maria Felipa)

13h30 - “Rebeldia em Dias de Lazer” com Piton Niza (Luisa Mahin)

GAZETA RIO 6 Estado do Rio de Janeiro, 03 a 05 de dezembro de 2022 TEATRO
Festival
*Em todas as apresentações haverá tradução em libras

“Onde estamos imersas” espetáculo criado pela coreógrafa Dani Lima

Há quase 10 anos sem criar uma obra inédita, a pesquisadora volta à cena propondo uma

corpo humano e o corpo do planeta, em colaboração

Como você percebe o seu cor po? Como um instrumento de uso ou como uma matéria se reinventando em constante relação com tudo que existe? Vivemos hoje em um momento de trans formação, com um futuro mais pressen tido do que imaginado. Parece neces sário fabular novas realidades e formas de pensar, de viver e de se relacionar. O corpo tem um papel importante nes te processo, porque é em sua relação com o mundo que reside a capacidade de fundar novas realidades perceptivas e gestuais. É a partir de práticas de ana tomia experiencial, na busca por inven tar novas narrativas para o corpo, que a coreógrafa Dani Lima criou o espetáculo “Onde estamos imersas”, que faz curta temporada, de 8 a 18 de dezembro, no Mezanino do Sesc Copacabana, com ses sões de quinta a domingo, às 20h30. Neste trabalho, que rompe um longo pe ríodo de abstinência na criação de espe táculos, a artista-pesquisadora convidou 10 colaboradores de várias gerações, vindos de contextos e trajetórias diver sos, para um desdobramento de sua pesquisa de doutorado. O resultado é um estudo performático e eco-somático, relacionando as dimensões micro e ma cro a partir da investigação da anatomia do corpo e do planeta.

“Estamos na crise do Antropoceno, essa era geológica na qual os efeitos da ação humana passaram a deixar marcas irre versíveis nos sistemas geológicos, bioló gicos e atmosféricos e sociais. Como po demos encontrar novos modos de seguir vivendo aqui?”, indaga Dani Lima. “Esta pesquisa busca instrumentar o poder de ação do corpo através da aprendizagem de um saber-sentir, relacionando em continuidade a matéria do corpo com a matéria do mundo. Treinar essa escuta do corpo é um gesto de sobrevivência”, acrescenta a coreógrafa.

A ideia do espetáculo surgiu a partir da

pesquisa de Dani Lima sobre uma me todologia experiencial de estudo de anatomia e fisiologia — o Body-Mind Centering, criado pela norte-americana Bonnie Bainbridge Cohen — que explo ra o movimento, o toque e a voz para compreender como a mente se expressa através dos vários sistemas do corpo e vice-versa. Durante a pandemia, a core ógrafa montou um laboratório online so bre o assunto, onde garimpou os artistas que partilham desta criação, explorando uma dramaturgia que pensa corpo e sub jetividade como matérias inseparáveis, desconstruindo a metáfora do corpo -máquina construída pela modernidade. “Dani começou partilhando conosco algumas práticas corporais de BMC e, a partir daí, iniciamos um processo cria tivo no qual experimentamos novas recombinações possíveis que surgem do encontro entre performers vindos de diferentes contextos e trajetórias. Foram dois meses e meio de um inten so processo através da exploração da corporalização, que vejo como sendo profundamente político e essencial nos dias de hoje”, avalia Babi Fontana, que está em cena e assina a assistência de direção. “Onde estamos imersas é um convite para pensarmos e sentirmos através do corpo: o que está dentro e o que está fora, aquilo que nos rodeia, nossas membranas, o que deixamos entrar e deixamos sair, onde permane cemos, insistimos em ficar, em viver...”, completa a performer Tais Almeida. “Onde estamos imersas” reúne ainda reflexões nascidas de diálogos com o pensador Ailton Krenak, com o filóso fo Emanuele Coccia, e com as biólogas Lynn Margulis e Donna Haraway, en tre outras personalidades. Propõe um compêndio de corpos-paisagens que fabulam novos gestos de cultivo, sin tonização, cuidado e conexão com cor pos humanos e não-humanos.

Onde estamos imersas

SERVIÇO:

Temporada: De 08 a 18 de dezembro de 2022

Sesc Copacabana / Mezanino: Rua Do mingos Ferreira, 160 - Copacabana Telefone: (21) 2547-0156

Dias e horários: Quinta a domingo, às 20h30.

Ingressos: R$ 30 (inteira), R$ 15 (meia -entrada) e R$ 7,50 (associado do Sesc) Lotação: 58 lugares.

Duração: 1h20

Classificação: 12 anos Funcionamento da bilheteria: de terça a sexta, das 9h às 20h. Sábados, domingos e feriados, das 13h às 20h.

Instagram: @ondeestamosimersas (www.instagram.com/ondeestamosi mersas)

GAZETA RIO 7 Estado do Rio de Janeiro, 03 a 05 de dezembro de 2022 TEATRO
reflexão sobre a relação entre o com 10 artistas, estreia, dia 8 de dezembro, no Sesc Copacabana

O espetáculo “A Filha da Virgem”, monólogo com texto e atuação de Wanderlucy Bezerra

Com única apresentação gratuita, no Teatro Alcione Araújo, no Centro, dia 7 de dezembro

Aatriz Wanderlucy Bezerra cres ceu em uma cidade do interior de Pernambuco, com muito carinho das duas mães adotivas que teve, mas desde cedo conheceu as ad versidades da vida: “pobre”, “nordestina”, “adotada”, “dentuça” e “feia” foram alguns dos muitos adjetivos recebidos na infância. Teve momentos de tristeza e depressão, mas nunca deixou de sonhar com dias melhores e em construir uma carreira de atriz. E é nessa mistura agridoce de uma vida de conquistas e adversidades que ela escreveu “A Filha da Vir gem”, monólogo autobiográfico em que atua sob direção de Sandra Calaça e Leo Carneva le e supervisão de Luiz Carlos Vasconcelos. A peça faz uma única apresentação gratuita, no Teatro Alcione Araújo – Biblioteca Parque Es tadual, no Centro do Rio, dia 07/12, às 15h, e contará com debate após a sessão. O espetá culo tem patrocínio do Governo do Estado do Rio de Janeiro, Secretaria de Estado de Cultu ra e Economia Criativa do Rio de Janeiro, atra vés do Edital Retomada Cultural RJ 2. Radicada no Rio de Janeiro desde 2008, Wa

nderlucy sempre acreditou que sua história poderia virar uma peça pois representa a vida de muitas mulheres brasileiras. Uma de suas principais motivações ao escrever o espetácu lo foi sensibilizar os pais e responsáveis sobre a responsabilidade de se educar uma criança e perceber os indícios de abusos na infância. Abandonada pelos pais biológicos, a atriz teve duas mães adotivas. Seu caráter foi construído com a educação rígida da sua segunda, uma mulher estéril, deixada pelo marido, manicure e criadora de porcos, mas que deu muito amor para essa única filha. Esses cuidados não foram suficientes para, naquele ambiente, evitar os abusos sofridos pela criança.

“Desejo alertar os pais, avós, tios, cuidadores de crianças e adolescentes para que tenham um olhar mais aguçado e percebam quando alguém está tendo um comportamento abu sivo com elas. As crianças, muitas vezes, se sentem culpadas e não relatam ou nem perce bem o abuso que sofrem”, comenta a autora.

“Quero compartilhar a minha história de vida que também é a de tantas outras mulheres e homens (nordestinos ou não), que já passaram

por abuso sexual, abandono de pais, bullying na infância, preconceitos em geral, mas, ape sar de tudo e todos, lutam a cada dia para que suas cicatrizes da alma não apaguem seu brilho e força interior”, acrescenta.

O espetáculo intercala cenas biográficas com danças, músicas e expressões populares que fizeram parte da vida de Wanderlucy Bezer ra naquele ambiente rico da cultura popular nordestina. “Criamos um espetáculo diverso, que é costurado através das danças, histórias e músicas da cultura popular, para tratar de assuntos como xenofobia, violência sexual na infância, violência sexual com a mulher, pe dofilia, aborto, adoção, gravidez, família, ma chismo, entre tantos outros”, reforça a dire tora Sandra Calaça. “O espetáculo fala de nós todos. Certamente, o público vai se identificar em algum momento, ou até mesmo vários. É uma história que abre portas para múltiplas discussões, por isso pretendemos convidar profissionais da área de psicologia, psiquia tria, psicanalistas, advogados, entre outros, para debates ao final das sessões”, completa o diretor Leo Carnevale.

Serviço:

A Filha da Virgem

Teatro Alcione Araújo – Biblioteca

Parque Estadual: Av. Presidente Vargas, 1.261

Dia e horário: 07/12, às 15h. A sessão contará com intérpretes de libras. Telefone: 21 2216-8501

Bate-papo com a atriz e convidados: 16h Ingressos: gratuitos, com retirada pelo Sympla: https://www.sympla.com.br/ evento/a-filha-da-virgem/1754850 ou no local a partir das 14h no dia da apresen tação.

Capacidade de público: 195 pessoas Duração: 1h Classificação Etária: 16 anos

GAZETA RIO 8
03 a 05 de
2022 TEATRO
Estado do Rio de Janeiro,
dezembro de

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Gazeta Rio - Caderno G - Edição de Sábado 03 a Segunda-Feira 05 de Novembro de 2022 by GAZETA RIO ONLINE - Issuu