Galeria António Prates - Ken Rinaldo - Novembro/Janeiro 2014

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KEN RINALDO «Virtual to Real Blooming: Dreams of Spring» 29 NOV 2013 - 10 JAN 2014

«Red Back Blond», tinta ultrachrome HDR s/ papel LS Premium Satin s/ PVC e alumínio, 100 x 142 cm, 2013. «Red Back Blond», ultrachrome HDR ink on LS Premium Satin paper on PVC and aluminum, 100 x 142 cm, 2013.

ANTÓNIO PRATES A

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Av. António Augusto de Aguiar 58 D. 1050-012 Lisboa. Tel. +351 213 571 167 Fax +351 213 571 168 galeria@galeriaantonioprates.com Horário: 2ª a 6ªf. 11.00h-20.00h.


«Bee Seed», tinta ultrachrome HDR s/ papel LS Premium Satin s/ PVC e alumínio, 100 x 142 cm, 2013. «Bee Seed», ultrachrome HDR ink on LS Premium Satin paper on PVC and aluminum, 100 x 142 cm, 2013.

dISPOSITIVOS PARA A NATUREZA Miguel Matos “A arte promete o mais distante e até mesmo o mais remoto futuro” - Rainer Maria Rilke1 São raras as vezes em que o público lisboeta tem oportunidade de conhecer os avanços de ramos da arte ainda pouco conhecidos ou divulgados como a bioarte e a digital art. No entanto, figuras como o galerista António Prates e o artista Leonel Moura insistem em realizar regularmente exposições que nos trazem notícias sobre um campo infinito de possibilidades que ainda não é suficientemente compreendido. Pelas mãos de António Prates temos tido acesso a grandes exposições como a de Miguel Chevalier. Por seu lado, Leonel Moura organizou em 2009 a enorme mostra Inside, na Cordoaria Nacional, em Lisboa, onde expôs o artista Ken Rinaldo, entre muitos outros representantes desta área. A ideia em si do cruzamento de instrumentos, ideias e recursos vindos dos campos da ciência, da botânica e da arte já não é novidade. O que constitui novidade é RILKE, Rainer Maria, Da Natureza, Da Arte e Da Linguagem, Large Books, Lisboa 2009

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a inovação de cada um dos projectos realizados. Existe ainda, em Portugal, e infelizmente, uma dificuldade de acesso directo às propostas que aparecem vindas dos (ainda) poucos artistas que por todo o mundo se dedicam à investigação e à criação nestes domínios. Chamam-lhe bioarte, conceito de vida manipulada com propósitos artísticos que se cruza frequentemente com a arte digital, estando esta exposição na perfeita intersecção entre estes dois movimentos artísticos. Nesta exposição, e olhando para os Cascading Gardens de Ken Rinaldo, é-nos apresentada uma escolha. Podemos ver esta instalação sob o ponto de vista científico, da engenharia, da agricultura ou mesmo da arte, ou ainda misturando tudo isto. O que torna este tipo de arte pouco fácil de tipificar é exactamente esta fragmentação de elementos e o reunir de todos eles. O que Ken Rinaldo introduz neste sistema de cultivo já praticado em todo o mundo é uma proposta de esteticização deste método, transformando-o e reorganizando os seus elementos que podem ser aplicados a uma janela, por exemplo. A transformação da disposição tipicamente horizontal de um jardim ou uma horta numa instalação vertical torna possível a presença destes jardins em qualquer


«Starfish», tinta ultrachrome HDR s/ papel LS Premium Satin s/ PVC e alumínio, 100 x 142 cm, 2013. «Starfish», ultrachrome HDR ink on LS Premium Satin paper on PVC and aluminum, 100 x 142 cm, 2013.

local, com funções alimentares, psicológicas e de reciclagem ambiental. O ambiente urbano verticalmente construído serve de cenário e ponto de partida para um método de cultivo ecológico, sustentável e funcional, mas também visualmente atractivo. O contraponto destes dispositivos artificiais para a vida vegetal é composto por uma série de imagens digitalmente produzidas em que Ken Rinaldo representa sementes de plantas imaginárias. Se a natureza dotou as plantas de possibilidades reprodutivas - através das sementes - e apetrechou as mesmas com capacidades de deslocação, fixação, multiplicação, etc, o artista, nestes trabalhos, imaginou as necessidades das suas próprias sementes. De seguida, criou capacidades, apêndices e acessórios que as tornariam mais capazes de garantir a continuidade da sua espécie. Tudo isto é explorado de forma pictórica, ficando o observador encarregado de usar também a sua imaginação para atribuir funcionalidades e propósitos às pilosidades, texturas, extensões, torsões e outras formas orgânicas de tais estruturas. Estas pequenas bombas de vida poderiam fixar-se, agarrar-se, partir-se e abrir-se soltando os seus

esporos, resistir a ventos, chuvas e nevões... Funções que se depreendem pelas capacidades insinuadas nestas imagens. Podemos também imaginar as magníficas plantas que nasceriam a partir destas hipotéticas sementes. Selecção natural? Premonições de uma possível evolução no reino vegetal? O próprio termo “evolução” tem sofrido uma evolução e tornouse um processo que pode ser influenciado com a ajuda da tecnologia2. Curiosamente, algumas destas formas desenvolvidas digitalmente por Ken Rinaldo fazem lembrar outros organismos vivos não pertencentes ao reino vegetal, como insectos, animais anelídeos ou moluscos, por exemplo. Na verdade, se não nos dissessem que se trata de sementes imaginárias, poderíamos pensar que se trata de imagens microscópicas muito ampliadas de vírus ou bactérias, por vezes com um aspecto ameaçador e em desenvolvimento de algo que sugere perigo. Algumas destas sementes são apresentadas em estádios de transição, abrindo-se ou esticando apêndices, indicando fases de mutação ou de crescimento para novas formas. As cores vibrantes,

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PAUL, Christiane, Digital Art, Thames & Hudson, Londres, 2003 3


«Bird Bone», tinta ultrachrome HDR s/ papel LS Premium Satin s/ PVC e alumínio, 100 x 142 cm, 2013. «Bird Bone», ultrachrome HDR ink on LS Premium Satin paper on PVC and aluminum, 100 x 142 cm, 2013.

as texturas elaboradas e a tridimensionalidade das imagens impressas tornam estes trabalhos vivos, como se tais criaturas pudessem ser tocadas ou conseguissem extrapolar a sua superfície pictórica para contaminarem o solo. “A arte digital oferece um verdadeiro reservatório de formas impossíveis de imaginar de outro modo, uma quantidade ilimitada de formas representando, por exemplo, objectos em três dimensões (...). O computador pode permitir traçar as figuras mais inimagináveis, onde poderosas equações possuem uma pluralidade de parâmetros funcionais, capazes de satisfazer o nosso inconsciente óptico”, escreveu Herlander Elias3. Pelas formas estranhas e até ameaçadoras, pela fantasia que convocam, pelas cores e ambiente onírico de ficção científica, pelas manchas que apelam ao nosso subconsciente, poderse-ia dizer que esta série, gerada por um cérebro humano e usando o computador como instrumento, possui elementos surrealizantes. Mas isso apenas atesta a complexidade do trabalho de Rinaldo. Já não sabemos o que é real ou imaginado, se estas imagens se reportam a algo existente antes delas e é essa a primeira pergunta que surge ao observá-las. Em analogia, “a realidade virtual vem demonstrar que o nosso cérebro não faz distinção entre o mundo físico e o imaginado. Coisa que já sabíamos a partir 4

dos sonhos, mas que adquire uma outra dimensão, fenomenológica, já que agora temos estes novos sonhos perfeitamente acordados”, disse Leonel Moura. Nesta exposição vemos que tudo se cruza. Já não é só Bioarte, já não é só Digital Art e afasta-se da robótica típica de muitos projectos anteriores deste artista. De facto, torna-se uma obra difícil de caracterizar, embora possua uma componente visualmente exuberante. Ainda segundo Leonel Moura, “(...) aquilo que efectivamente assinala a emergência de um novo paradigma na arte é a construção deliberada de uma nova vida essencialmente transhumana, parte biológica, parte artificial”4. Esta exposição é uma ode à natureza, criando novas formas e condições de a fazer proliferar, seja em estruturas artificiais auto-sustentáveis como nos jardins hidropónicos e vermipónicos, adaptados às necessidades urbanas e com componente estética, seja no exercício de imaginação que é a criação de imagens de sementes futuristas e criadas pelo homem. Um jardim do futuro cruza-se com uma solução para o presente numa exposição em que a natureza e a arte se interpenetram. 3 ELIAS, Herlander, Néon Digital – Um Discurso Sobre os Ciberespaços, Universidade da Beira Interior/Labcom, 2007 4 MOURA, Leonel, Vida 2.0: O Novo Paradigma da Arte in Inside: Arte e Ciência, Ed LxXL, Lisboa, 2009


«Sprongee», tinta ultrachrome HDR s/ papel LS Premium Satin s/ PVC e alumínio, 100 x 142 cm, 2013. «Sprongee», ultrachrome HDR ink on LS Premium Satin paper on PVC and aluminum, 100 x 142 cm, 2013.

DEVICES FOR NATURE Miguel Matos “Art always promises the most distant and then even more remote future.” - Rainer Maria Rilke It is relatively rare that the people of Lisbon have the opportunity to get to know the advancements of certain art currents that are still little known or disseminated such as bioart and digital art. However, figures such as gallerist António Prates and artist Leonel Moura insist on regularly presenting exhibitions that bring us news on a field of infinite possibilities that is not yet sufficiently understood. By the hand of António Prates we have had access to great exhibitions such as that of Miguel Chevalier. Parallel to this, in 2009 Leonel Moura organized the huge exhibition Inside, at the Cordoaria Nacional, in Lisbon, where Ken Rinaldo showed his work, among many other representatives of this field. The idea in itself of the crossing over of instruments, ideas and resources originating in the field of science, botany and art is no longer new. What is new is the innovation of each one of the projects realized. In Portugal, there is still, and unfortunately, a

difficulty in directly accessing the proposals that arise from the (as yet) few artists that all over the world dedicate themselves to investigation and creation in these realms. They call it bioart, a concept of life manipulated for artistic purposes that frequently is intertwined with digital art; and this exhibition sits at a perfect intersection between these two artistic movements. In this exhibition, and looking at Ken Rinaldo’s Cascading Gardens, we are presented with a choice. We can observe this installation from a scientific, an engineering, an agricultural or even an artistic point of view, or mix all of these together. What makes this kind of art difficult to typify is exactly this fragmentation of elements and the reunion of them all. What Ken Rinaldo introduces into this system of cultivation that is already practiced around the world is a proposal to aestheticize this method, transforming it and re-organizing its elements that may be applied to a window, for example. The transformation of the typically horizontal disposition of a garden or vegetable plot into a vertical installation makes it

RILKE, Rainer Maria, Da Natureza, Da Arte e Da Linguagem, Large Books, Lisbon 2009

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«Papoose Seed», tinta ultrachrome HDR s/ papel LS Premium Satin s/ PVC e alumínio, 100 x 142 cm, 2013. «Papoose Seed», ultrachrome HDR ink on LS Premium Satin paper on PVC and aluminum, 100 x 142 cm, 2013.

possible for these gardens to be present in any location, with nutritional, psychological and environmental recycling functions. The urban environment that is vertically constructed serves as the scenario and starting point for a method of ecological cultivation, that is sustainable and functional, but also visually attractive. The counterpoint to these artificial devices for plant life is composed of a series of images that are digitally produced in which Ken Rinaldo represents seeds from imaginary plants. If nature endowed plants with reproductive possibilities – by way of seeds – and equipped those same seeds with the ability to be transported, to fix themselves to a location, to multiply, etc., the artist, in these works, imagined the needs of his own seeds. Following this, he created abilities, appendices and accessories that would make them more capable of guaranteeing the continuity of their species. All this is explored pictorially, and the observer is in charge of also using their own imagination to attribute functions and purposes to the pilosities, textures, extensions, torsions and other organic forms of such structures. These small bombs of life could fix, attach, break and open themselves releasing their spores, resist winds, rainstorms and blizzards… Functions that can be detected by the abilities insinuated in these images. 6

We can also imagine the magnificent plants that might blossom from these hypothetical seeds. The very term “evolution” has suffered an evolution and become a process that can be influenced with the aid of technology2. Curiously, some of these forms digitally developed by Ken Rinaldo are reminiscent of other living organisms that do not belong to the plant kingdom, such as insects, annelid animals or molluscs, for example. In truth, if we were not told that these are imaginary seeds, we might have thought we were looking at greatly enlarged microscopic images of viruses or bacteria, that at times look menacing and in development of something that suggests danger. Some of these seeds are presented in stages of transition, opening or extending appendices, indicating stages of mutation or of growth into new forms. The vibrant colours, the elaborate textures and the three-dimensionality of the printed images make these works seem alive, as if such creatures might be touched or were able to extrapolate their pictorial surface to contaminate the ground.

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PAUL, Christiane, Digital Art, Thames & Hudson, London, 2003


«Platical», tinta ultrachrome HDR s/ papel LS Premium Satin s/ PVC e alumínio, 100 x 142 cm, 2013. «Platical», ultrachrome HDR ink on LS Premium Satin paper on PVC and aluminum, 100 x 142 cm, 2013.

“Digital art offers a veritable reservoir of forms that are impossible to imagine otherwise, an unlimited quantity of forms representing, for example, objects in three dimensions (...). The computer may allow for the representation of the most unimaginable figures, where powerful equations possess a plurality of functional parameters, able to satisfy our optical unconscious”, wrote Herlander Elias3. Due to the strange and even menacing forms, to the fantasy they evoke, to the colours and onyrical environment of science fiction, and due to the colour fields that appeal to our subconscious, one might say that this series, generated by a human brain and using the computer as instrument, possesses surrealistic elements. But that just attests to the complexity of Rinaldo’s work. We can no longer distinguish between what is real or what is imagined, whether these images hark back to something that existed before them or whether that is the first question that occurs to us while observing them. To make an analogy, “virtual reality shows us that our brain does not distinguish between the physical world and an imagined one. This we already knew through dreams, but it now acquires another dimension, a phenomenological one, since now we have these new dreams while perfectly awake”, said

Leonel Moura. In this exhibition we see that everything is intertwined. This is no longer just Bioart, no longer just Digital Art and it moves away from the typical robotics of many previous works by this artist. In fact, it becomes a work that is difficult to characterize, though it possesses a visually exuberant component. Again, according to Leonel Moura, “(...) what effectively marks the emergence of a new paradigm in art is the deliberate construction of a new life that is essentially trans-human, part biological, part artificial.” 4 This exhibition is an ode to nature, creating new forms and conditions for its proliferation, whether that occurs through self-sustaining artificial structures such as hydroponic and vermiponic gardens, adapted to urban needs and with an aesthetic component, or whether it occurs through the exercise of imagination that is the creation of images of futuristic seeds created by man. A garden of the future is enmeshed with a solution for the present in an exhibition where nature and art interpenetrate one another.

3 ELIAS, Herlander, Néon Digital – Um Discurso Sobre os Ciberespaços, Universidade da Beira Interior/Labcom, 2007 4 MOURA, Leonel, Vida 2.0: O Novo Paradigma da Arte in Inside: Arte e Ciência, Ed LxXL, Lisbon, 2009

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«Spronglee», tinta ultrachrome HDR s/ papel LS Premium Satin s/ PVC e alumínio, 100 x 142 cm, 2013. «Spronglee», ultrachrome HDR ink on LS Premium Satin paper on PVC and aluminum, 100 x 142 cm, 2013.

SER DIFERENTE Leonel Moura

A arte, mesmo quando tudo parece perdido, mostra sempre uma impressionante capacidade de se renovar. E hoje em que a banalidade, cultural e artística, impera atravessamos de novo um tempo de grandes mudanças. Não se trata já de pequenos efeitos formais ou meros jogos derivativos. As mudanças são radicais, profundas. Prendem-se com os conceitos, as referências e os processos criativos. Prendem-se sobretudo com uma apropriação do conhecimento científico, numa espécie de re-encontro entre arte e ciência. Os motores da mudança são os próprios artistas. Nem podia ser de outra forma. Os apreciadores, os que refletem sobre arte, os que a veneram ou colecionam não têm capacidade para gerar mudança. E quando a têm já não são mais críticos, galeristas ou colecionadores, são artistas. Não se trata de uma questão moral e muito menos de uma reivindicação profissional. Trata-se do domínio da condição. Ser artista é uma maneira de se ser uma coisa concreta, distinta de outras maneiras 8

de se ser. Não implica desvalorização dos outros, nem menos apreço por tanta outra atividade positiva. Implica simplesmente que se é diferente. Enquanto artista admiro naturalmente outros artistas. Sobretudo aqueles que realizam obras que marcam brilhantemente essa diferença. Ken Rinaldo é um deles. Essa admiração não vem só do facto de utilizar conhecimentos científicos e tecnologias similares às que eu próprio uso, como é caso da robótica, mas porque o faz afirmando a distinção fundamental da criação artística face à ciência. A arte não é objetiva. É uma técnica de imaginar o impossível.


«Push Pull Seed», tinta ultrachrome HDR s/ papel LS Premium Satin s/ PVC e alumínio, 100 x 142 cm, 2013. «Push Pull Seed», ultrachrome HDR ink on LS Premium Satin paper on PVC and aluminum, 100 x 142 cm, 2013.

TO BE DIFFERENT Leonel Moura

Art, even when all seems lost, always shows an impressive capacity for renewing itself. And today, where both cultural and artistic banality reigns, great changes are once again taking place. I don’t speak of small formal effects or mere derivative games. The changes are radical, profound. They concern concepts, references and creative processes. Most of all they stem from an appropriation of scientific knowledge, in a kind of re-encounter between art and science. The motors for change are the artists themselves. It could not be any other way. The appreciators, those who think about art, those who admire it or collect it, do not have the ability to generate change. And if they do they are no longer critics, gallerists or collectors, they become artists.

or a reduced appreciation for so much other positive activity. It simply implies that one is different. As an artist I naturally admire other artists. Mainly those who create works which brilliantly mark that difference. Ken Rinaldo is one of them. That admiration comes not only from the fact that he uses scientific knowledge and technology similar to those I myself use, as is the case of robotics, but because he does that by affirming the fundamental distinction between artistic creation and science. Art is not objective. It is a technique for imagining the impossible.

This does not regard a moral issue and much less a professional statement. It is in fact a question of condition. To be an artist is a way of being something concrete, which is distinguishable from other ways of being. It does not suppose the devaluing of others, 9


«Worm Seed», tinta ultrachrome HDR s/ papel LS Premium Satin s/ PVC e alumínio, 100 x 142 cm, 2013.

SEMENTES=FUTURO

«Worm Seed», ultrachrome HDR ink on LS Premium Satin paper on PVC and aluminum, 100 x 142 cm, 2013.

Ken Rinaldo Como é que os animais, as plantas e os insectos desenvolvem relacionamentos? Estas são questões que têm sido exploradas por filósofos desde o início dos tempos. Nesta época cyber-equipada, como é que estas relações se alteram e como é que são afirmadas e coevolvem? Uma forma é permitir-lhes que se entrelacem ao longo do tempo natural, sendo o tempo natural a instanciação ideal da verdadeira co-evolução. Outra forma é através do design, utilizando a velocidade acelerada do avanço tecnológico para criar sistemas que acreditamos emular esses relacionamentos coevoluídos. Esta exposição é sobre algumas dessas experiências, nos âmbitos da arte e da ciência, tudo isto guiado pela pesquisa e pelo questionamento da natureza dos sistemas naturais e perguntando quais são as lições aí contidas. A minha investigação acerca dos sistemas vivos colocou-me numa trajectória há mais de trinta e cinco anos atrás, de emular e criar objectos interactivos e instalações de arte que toldam os limites entre as

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entidades vivas e não-vivas. A evolução da minha obra envolve o desenvolvimento de interfaces robóticos únicos para humanos e outras espécies, bem como evoluir constantemente abordagens de olhar para sistemas de vida artificial e técnicas de programação e interacções com sistemas biológicos. Nas minhas obras, a integração de elementos orgânicos e electromecânicos afirmam uma confluência e uma co-evolução entre material vivo e material tecnológico em evolução. Filosoficamente, creio que é imperativo que os sistemas tecnológicos reconheçam e modelem a sabedoria evoluída dos sistemas vivos naturais, para que possam inerentemente fundir-se, de forma a permitir um planeta terra emergente e interdependente. Vejo actualmente os seres humanos a compreender melhor os aspectos estruturais e formais dos sistemas naturais e agora estamos a começar a compreender os processos naturais em si mesmos, o que poderá permitir aos sistemas tecnológicos agir e comportar-se com base em formas evolutivas e ligadas aos processos.


«Skroing», tinta ultrachrome HDR s/ papel LS Premium Satin s/ PVC e alumínio, 100 x 142 cm, 2013. «Skroing», ultrachrome HDR ink on LS Premium Satin paper on PVC and aluminum, 100 x 142 cm, 2013.

ser vistas como o mais precioso dos desenvolvimentos pois carregam a próxima geração no seu interior.

As obras produzidas para esta exposição são sistemas naturais. A exposição irá apresentar a minha obra continuada na utilização da natureza como modelo para projectar o futuro e expandir conceitos de várias obras anteriores que se debruçam sobre os sistemas naturais como modelo. Para esta exposição, eu contrasto sementes artificiais imaginativas e coloridas modeladas em 3-D, e observar a sabedoria evoluída das plantas e a sua capacidade de se propagarem através da utilização do vento, da água e do pêlo dos animais como forma de disseminar os seus genes. As sementes são o futuro da planta e estas obras existem como modelos de flores futuras, ainda por desabrochar.

Na minha investigação das sementes e nas diversas e extensas leituras que fiz sobre o tema, penso que o livro The Bizarre and Incredible World of Plants1 capta perfeitamente a questão: “As mudas teriam de competir pelo espaço, pela água e pelos nutrientes com a planta mãe e com os seus irmãos; e iriam também provavelmente encontrar outros perigos e outras condições desfavoráveis tais como predadores e doenças, possivelmente já atraídas pela planta mãe. O facto de viajarem dá-lhes a oportunidade colonizarem novos locais, e assim expandirem o alcance da espécie.

As obras são produzidas através de investigação e estudo da morfologia das sementes e das estratégias das plantas. A incrível variedade de plantas e formas de plantas e as estratégias intrigantes que utilizam na disseminação dos seus genes é fascinante.

No fim de contas, a sobrevivência não só do indivíduo mas de toda a espécie está dependente da semente e desta chegar a um local adequado para germinar e estabelecer-se. Uma vez amadurecida, uma fruta tem de alcançar a sua verdadeira função biológica de alguma forma, que é a dispersão das sementes.

Como as plantas estão enraizadas no solo e não podem viajar, as sementes são uma estratégia evolucionária importante para a propagação e podem

STUPPY, KESSELER & HARLEY, The Bizarre and Incredible World of Plants, Papadakis Publisher, Londres, 2009.

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«Duck», tinta ultrachrome HDR s/ papel LS Premium Satin s/ PVC e alumínio, 84 x 119 cm, 2013. «Duck», ultrachrome HDR ink on LS Premium Satin paper on PVC and aluminum, 84 x 119 cm, 2013.

O papel crucial que as frutas e as sementes desempenham na vida de uma planta explica a grande variedade de estratégias de dispersão que as plantas desenvolveram ao longo da evolução. As estratégias para a dispersão – condições metereológicas que envolvem vento, água, animais e seres humanos ou uma força explosiva proveniente da própria planta são reflectidas numa pletora aparentemente infindável de diferentes cores, tamanhos e formatos.” As obras desta exposição são conflações de formas animais, lições naturais e métodos que iriam transportar a potencial semente, que é ilustrada de modo hiper-realista transgénico. Bee seed por exemplo é um olhar sobre a forma de uma abelha, os pêlos da perna da abelha imaginados com as cores da abelha. Outras obras sugerem sementes entremeadas com aspectos formais da forma humana. Como artista, tenho interesse nas sementes como uma estratégia – estou obcecado com a ideia; que a tecnologia é também uma semente. É uma semente de conhecimento, de ideia e de comportamento que é concretizada e por vezes propagada na cultura. Enquanto que seria fácil por

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exemplo olhar para todas as tecnologias negativas que têm impacto no nosso futuro e em quem nos estamos a tornar, como artista escolhi focar as minhas energias na criação soluções do mundo real que plantam ideias e soluções reais para o futuro. Tecnologias que promovem a agricultura urbana para a cultivação de plantas e legumes comestíveis que possam alimentar a humanidade são um exemplo claro de soluções práticas do mundo real. O projecto Cascading Gardens TM utiliza os princípios do design biofílico para criar um ambiente mais calmo e natural. Nesta instalação viva criada para a nova Galeria António Prates, plantas domésticas providenciam oxigénio aos espaços interiores e fornecem efeitos psicológicos salubres, através da estética da cor. O sistema de bombeamento de água torna este jardim quase auto-sustentável e no inverno a evaporação dos recipientes de plantação devolve humidade ao edifício. A cor dos grow bags absorve a luz do sol nos meses de inverno e irradia o calor para o interior da sala.

Numa

versão

de

exterior

de

Cascading


«Shrill», tinta ultrachrome HDR s/ papel LS Premium Satin s/ PVC e alumínio, 84 x 119 cm, 2013. «Shrill», ultrachrome HDR ink on LS Premium Satin paper on PVC and aluminum, 84 x 119 cm, 2013.

Gardens é possível cultivar os nossos próprios legumes comestíveis enquanto se reprocessa restos ecológicos de comida doméstica através de minhocas vermelhas tigradas (nativas dos E.U.A.). A água da chuva é recolhida dos telhados e canalizada para barris de chuva e bombas movidas a luz solar levam a água aos recipientes de plantação mais elevados para fazer cair a água em cascata, regando de planta em planta. Micro-processadores movidos a luz solar com sensores de humidade monitorizam constantemente o nível de humidade das raízes, e quando as raízes estão secas, as bombas de água são activadas. Com a ajuda da gravidade, a água da chuva pinga de saco em saco, purificando a água e alimentando os legumes comestiveis.

purificando a àgua e alimentando as plantas com nutrientes, proporcionando longevidade. Esta exposição, tanto na sua forma virtual como na sua forma real, celebra o esplendor pleno da natureza como inspiração, para o artificial e para o natural. Em obras anteriores tentei também criar sementes de ideia e solução para o futuro e esta exposição, planta mais uma semente cultural. O entrelaçar simbiótico entre humanos, as suas máquinas inteligentes e os seus sistemas alimentares já chegaram até nós.

No último saco deste jardim, minhocas vermelhas tigradas comem os restos de comida, enquanto que as bactérias, os bichos-de-conta, colêmbolos e fungos ajudam na compostagem ao criar um fertilizante natural para os legumes. Dentro destes sistemas vivos, água pinga de saco em saco,

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«Skroing», tinta ultrachrome HDR s/ papel LS Premium Satin s/ PVC e alumínio, 84 x 119 cm, 2013. «Duck», ultrachrome HDR ink on LS Premium Satin paper on PVC and aluminum, 84 x 119 cm, 2013.

Seeds=FUTURe Ken Rinaldo How do animals, plants and insects develop relationships? These are questions which have been probed by philosophers since the beginning of time. In our cyber-enabled times, how do these relationships change and how are they asserted and co-evolve? One way is to allow them to intertwine over natural time, with natural time being the ideal instantiation of true co-evolution. Another way is by design, using the rapid speed of technological advancement to create systems we believe emulate those co evolved relationships. This exhibition is about some of those experiments, within the realms of art and science all guided by probing and questioning the nature of natural systems and asking what are the lessons within. My research into living systems set me on a path over thirty-five years ago, to emulate and create interactive objects and art installations that blur the boundaries between living and non-living entities. The evolution of my artwork involves the development of unique robotic interfaces for humans and other species, as well as constantly evolving

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approaches to looking at artificial-life systems and programming techniques and interactions within biological systems. In my works, integration of the organic and electro-mechanical elements assert a confluence and co-evolution between living and evolving technological material. Philosophically, I believe it is imperative that technological systems acknowledge and model the evolved wisdom of natural living systems, so they will inherently fuse, to permit an emergent and interdependent earth. I see humans now better understanding the structural and formal aspects of natural systems and now we are beginning to understand the natural processes themselves, that may also allow technological systems to act and behave in evolutive and process based ways. The works produced for this exhibition are natural systems. The exhibition will realize my continued work in using nature as model for designing the future and build on many previous works looking at natural systems as model. For this exhibition, I contrast colorful, imaginative artificial 3-D modeled seeds, looking at the evolved wisdom


«D4 Seed», tinta ultrachrome HDR s/ papel LS Premium Satin s/ PVC e alumínio, 84 x 119 cm, 2013. «D4 Seed», ultrachrome HDR ink on LS Premium Satin paper on PVC and aluminum, 84 x 119 cm, 2013.

of plants and their ability to propagate based on exploiting wind, water and animal fur, to spread their genes. Seeds are the future of the plant and these works exist as models of future flowers, yet to bloom. The works are produced through research and study into the morphology of seeds and plant strategies. The incredible variety of plants and plant forms and the intriguing strategies they have come to utilize in spreading their genes are fascinating. As plants are rooted in the ground and cannot travel, the seeds are an important evolutionary strategy for propagation and can be seen as the most precious of developments as they carry the next generation within.

already attracted by the parent plant. Traveling gives them the chance to colonize new sites, thus expanding the range of the species. In the end, the survival of not only the individual but of the entire species is dependent on the seed of reaching a suitable place of germination and establishment. Once ripe, a fruit has to somehow fulfill it true biological function, which is the dispersal of the seeds.

In researching seeds and reading widely I think The Bizarre and Incredible World of Plants1 captures it perfectly with:

The crucial role the fruits and seeds play in the life of a plant explains the great variety of dispersal strategies that plants have developed during the course of evolution. The strategies for dispersal – weather involving wind, water, animals and humans or an explosive force from the plant itself are reflected in a seemingly endless plethora of different colors, sizes and shapes.”

“The seedlings would have to compete for space, light, water and nutrients with the parent plant and their siblings; and they would probably also encounter other unfavorable conditions and hazards such as predators and diseases, possibly

The works within this exhibition are conflations of animal form, natural lessons and methods that would carry the potential seed rendered in hyper-realistic transgenic fashion. Bee seed for example is a look at the form of the bee,

STUPPY, KESSELER & HARLEY, The Bizarre and Incredible World of Plants, Papadakis Publisher, London, 2009.

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«Cascading Gardens», vista da instalação. «Cascading Gardens», installation view.

the hairs of the bee leg imagined with the coloring of the bee. Other works suggest seeds intermingling with the formal aspects of human form. As an artist, I am interested in seeds as a strategy - I am obsessed with the idea; that technology is also a seed. It is a seed of knowledge, idea and behavior actualized and sometimes propagated in culture. While it would be easy to, for example, look at all the negative technologies that have impacted our futures and who we are becoming, as an artist I have chosen to focus my energies, on creating real world solutions that plant ideas and real solutions to the future. Technologies that promote urban agriculture for growing edible plants and vegetables to feed humans are one clear example of real world practical solutions. The project Cascading GardensTM uses the principles of biophilic design to create a more natural and calming environment. In this living installation, built for the new Galeria Antonio Prates, houseplants provide oxygen to the indoor spaces and provide salubrious psychological effects, through the aesthetics of color. The water pumping system makes this garden almost self-sustainable and in winter evaporation from the planters adds moisture back into buildings. The color of the bags absorbs sunlight in winter months and radiates heat back into the room. In an outdoor version of Cascading Gardens you are able to grow your own edible vegetables while reprocessing green household food 16

scraps with red wiggler worms. Rainwater is collected from roofs and funneled into rain barrels and solar powered pumps lift the water to the top planters to cascade watering from planter to planter. Solar powered microprocessors with moisture sensors constantly monitor the moisture level of the roots, and when the roots are dry the watering pumps are activated. With gravity the rainwater drips from bag to bag cleansing the water and feeding the edible vegetables. In the last bag of this garden, red wiggler worms eat the kitchen scraps, while bacteria, sow bugs, springtails and fungi further help to compost creating a natural fertilizer for the vegetables. Within these living systems, water drips from bag to bag, cleansing the water and feeding the plants nutrients, for long life. This exhibition in both virtual and real form, celebrates the full splendor of nature as inspiration, for artificial and the natural. Past works have also looked to creating seeds of idea and solution to the future and this exhibition, plants another cultural seed. Symbiotic intertwining between humans, their intelligent machines and their food systems are now upon us.




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