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Água em Araricá e Nova Hartz: No puro improviso

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REPORTAGEM

Domingo 30.5.2010 JORNAL ABC

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REPORTAGEM

Domingo 30.5.2010 JORNAL ABC

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Como sanar a falta de distribuição?

Água em Araricá e Nova Hartz

No puro improviso

NOVA HARTZ água de nova fonte

A estratégia para levar água tratada encanada consiste em um projeto de longo prazo, sustentável, que atenda à demanda pelo menos nos próximos 30 anos. E ainda cobrando da população tarifa justa. Para Araricá, recursos já estariam assegurados, afirma o prefeito Flávio Foss. “Apresentamos projeto na Funasa e prometeram a inclusão no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) 2”, adianta, apesar de ainda não ter previsão de início.

No entanto, o primeiro passo foi dado com a criação da Companhia Municipal de Abastecimento de Água. Antes de apostar em um projeto próprio do município, Foss revela que houve diálogo com a Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan), mas que não teria evoluído por causa dos custos. O prefeito conta que a água virá de cinco poços a serem perfurados, cada um com estação compacta de tratamento. E cada

edificação da cidade terá um hidrômetro. “Hoje não tenho como cobrar porque a distribuição é arcaica.” Nova Hartz criou recentemente a Águas da Nascente Companhia Municipal de Água e Esgoto. Conforme o prefeito Antônio Elson Rosa de Souza, a autarquia gerenciará a rede. “Faremos convênio com a Corsan, que fornecerá água a partir de Parobé. Nossa responsabilidade será fazer o transporte (por adutora) até um

reservatório na parte mais alta entre os dois municípios”, explica. Quanto aos recursos, Souza diz ter lutado em Brasília. “Minha esperança é contar com o PAC 2. Tenho feito pressão, me apegado a pessoas influentes para conseguir isso.” Alternativas como uso do Rio dos Sinos e da barragem do Arroio da Bica, no caso exclusivo de Nova Hartz, foram descartadas. As causas apontadas foram o alto custo e insuficiência hídrica, respectivamente. Arte/GES

Araricá e Nova Hartz não têm água tratada e sistema de distribuição. Fundamental na saúde da população, básico para o desenvolvimento de um município, a falta deste serviço contrasta com o restante da realidade da região, reconhecida pelo alto índice de desenvolvimento humano e qualidade de vida, comparável a de países europeus.

Gabriel Guedes

Chove, o tempo não melhora. Os morros estão cobertos por um denso nevoeiro e as cascatas das encostas, caudalosas. Na cidade, um caminhão com tonéis cheios de água passa de casa em casa. A abundância que rodeia Araricá e Nova Hartz contrasta com a realidade diária dos cerca de 23 mil moradores das duas cidades, que precisam lidar com poços secos ou muitas vezes contaminados por não contar com sistema para distribuição de água tratada. Uma contraditória situação que mantém Araricá e Nova Hartz, em pleno 2010, como duas exceções em meio aos outros 51 municípios da região que são abastecidos regularmente há anos ou décadas. Para acabar com o improviso e garantir que a água saia da torneira com qualidade, ambas prefeituras precisarão desembolsar, juntas, R$ 17 milhões. Coordenador estadual da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), Gustavo de Mello, afirma que problemas como os de Araricá e Nova Hartz são comuns no Norte e no Nordeste do País, onde há pouca água, ou, quando há, é de qualidade duvidosa. “O Rio Grande do Sul, exemplo em qualidade de vida, precisa quebrar este paradigma. É estarrecedor o que acontece em Araricá e Nova Hartz.” Na região, em determinados municípios a água tratada até não chega a todos. O problema destas duas cidades é que simplesmente não existe o que chegar. A falta de água boa nas torneiras reflete no Índice de Desen-

volvimento Humano Municipal (IDH-M). No resultado mais recente do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), em 2003, Araricá está na posição 955, com 0,780, e Nova Hartz em 655, com 0,800. Índices classificados como médios, semelhantes ao de países como Paraguai, Filipinas e México em 2003. Distante 30 quilômetros, Ivoti, por exemplo, com toda a cidade contando com água tratada, tem índice 0,850 e é a 25a colocada do País e a melhor da região, configurando padrão de vida próximo ao do europeu. O IDH-M é obtido pela média dos índices de renda, longevidade e educação. RAZÕES O prefeito de Araricá, Flávio Foss, conta que a falta de investimentos se deve também ao pequeno porte do município e a dificuldade em obter recursos federais ou do Estado. “Eu tenho R$ 7,5 milhões de orçamento. E a rede de água custa o mesmo valor. Eu teria que fechar a prefeitura por um ano inteiro”, ironiza. O prefeito de Nova Hartz, Antônio Elson Rosa de Souza, compartilha da opinião de Foss. “Somos as duas cidades da Grande Porto Alegre que não têm água. Mas não é uma demanda só da prefeitura. Precisamos de ajuda.” No entanto, o coordenador da Funasa credita a questão a uma lacuna deixada em branco por cerca de duas décadas. “Ficamos mais de 20 anos sem fonte de investimentos, tanto para distribuição de água quanto ao tratamento de esgoto”, lembra Mello.

Fotos Diego da Rosa/GES

O CAMINHO DA ÁGUA

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“É um problema de saúde pública”

DOCE E SALGADA Schmidt afirma que há poços em Nova Hartz com água salobra

Médicos costumam dizer que água tratada é a melhor vacina contra doenças. Mas sem o serviço, a população de Araricá e Nova Hartz fica apreensiva com a própria saúde. Os prefeitos reconhecem que, sem água, manter os cidadãos saudáveis custa mais ao orçamento. “Quando Porto Alegre extinguiu os poços artesianos, deu um passo à frente na qualidade da água. Mantê-los hoje é um problema de saúde pública”, expõe o coordenador gaúcho da Funasa. “A gente (prefeitura) distribui hipoclorito de sódio para desinfetar a água. Mas com a água tratada, a expectativa é reduzir em três vezes

menos os atendimentos na saúde pública”, prevê Flávio Foss. Em Nova Hartz, análises de laboratório de diversos poços apontaram problemas graves na água do subsolo. “Laudos mostram coliformes fecais. Também temos muitos casos de diarreia. E a falta de flúor tem causado grande número de cáries em crianças”, enumera Antônio Elson Rosa de Souza. Um dos moradores mais antigos, Ernani Schmidt, 64 anos, conta também que alguns poços de Nova Hartz vertem água salobra (mais salgada que a doce e menos que a do mar). “Água tratada é saúde”, frisa o aposentado.

2 1 - Funcionários da Secretaria de Obras de Araricá abastecem tonéis com água de um poço da prefeitura 2 - Caminhão transporta os tonéis para distribuição. Acompanha ainda um kit com mangueiras e bomba d’água 3 - No destino final, a água é bombeada para os reservatórios do bar de Santos

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Araricá chegou a decretar emergência Água é fundamental para o negócio de José Claudio Rodrigues dos Santos, 51 anos, dono de um bar e restaurante vizinho à prefeitura. Ele recebe água da administração municipal, que três vezes por semana abastece dois reservatórios de 500 litros. “Tenho um poço e não posso usar. Está contaminado”, lamenta. “No ano passado fizeram um teste. Desde então não usei mais”, conta. Perto dali, a dona de casa Iraí Grings, 44, uma das poucas a receber água por meio da ramificação da tubulação do poço da prefeitura, ferve o líquido antes de beber e cozinhar. “Eu tinha um poço artesiano de 44 metros e secou. Mas tomo cuidados por causa da contaminação”, justifica. Em 2007, após uma sucessão de casos de contaminação por coliformes fecais, e em 2008, com poços secando devido à estiagem, foi decretada por duas vezes situação de emergência. “Foi um caos. Tinha gente doente e começamos a desconfiar da água, quando foi constatada contaminação. Depois, se a gente não fosse abastecer, seria uma calamidade”, lembra o prefeito Flávio Foss.

FUTURO para Santos, água do poço ainda é boa, mas pode se deteriorar

Temor da contaminação ronda moradores de Nova Hartz Moradora do bairro Primavera, em Nova Hartz, a costureira Elisa da Silva, 37 anos, mudou-se recentemente. A família está satisfeita com o novo lugar, que conta com água encanada, oriunda de um poço comunitário construído pela prefeitura. “Na outra casa a gente tinha poço próprio. Mas sempre ficava com medo da água, que pudesse estar com problema”, confessa. E o temor de Elisa ecoa por todos os lados da cidade. No Canto Kich, além dos riscos de deslizamentos de terra, os moradores torcem para que a água não seja contaminada. O local ocupado pelo bairro é vizinho

a um antigo lixão, segundo o diretor de Limpeza Urbana da Secretaria de Meio Ambiente e Agricultora, Cary Camargo. “Eu estou há 10 anos aqui. Agora que me mudei para uma nova casa, com ajuda de parentes paguei 500 reais parcelado e fiz um novo poço de 66 metros de profundidade. A água ainda está boa, mas sei que pode piorar”, conta o industriário, empregado numa fábrica de calçados, Jerri dos Santos, 39 anos, que mora com duas filhas. Santos diz que gasta cerca de 80 reais mensais de energia. “Mas com a água encanada, posso baratear isso”, anima-se.


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