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reportagem

Pequenos problemas,

GRANDES ESTRAGOS

Domingo 28.3.2010 JORNAL ABC

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OBSERVANDO DE PERTO O ABC Domingo percorreu esta semana 5 dos 19 municípios da sub-bacia do Rio Cadeia para conferir a situação do manancial. Veja como está cada ponto indicado pelos números no mapa. MARIA 1SANTA DO HERVAL

3Presidente Lucena

Primeira cidade após a nascente do rio, mantém ainda margens preservadas devido ao relevo acidentado e campanhas de reflorestamento. Na sequência, há uma barragem, a cascata de 125 metros e a usina hidrelétrica da CEEE. O nível era normal e, a água, pouco turva.

Na ponte que leva a Linha Nova, dá para avistar parte de uma plantação de milho que praticamente avança rio adentro, num sinal claro da devastação da mata ciliar, que corrobora a erosão. A água segue barrenta e descendo devagar.

Fotos Gabriel Guedes/GES-Especial

Gabriel Guedes

São Sebastião do Caí enfrentou sequência de três enchentes em menos de 60 dias no segundo semestre 2009. Em outubro do mesmo ano, em reportagem do ABC Domingo, a ribeirinha Plenilda Rühmann, com 69 anos, dizia sentir saudades de quando navios passavam pelo rio. “Agora só passa caiquinho”, indicava. A constatação de dona Plenilda é apenas uma das que revelam o assoreamento do Caí. Questão longe de ganhar repercussão e que surge de pequenas, mas numerosas, intervenções em seus afluentes, como no Rio Cadeia. Intervenções que, no entanto, se transformam em prejuízos sempre mais devastadores para quem convive com as cheias. O assoreamento é o transporte de sedimentos que se acumulam no fundo dos leitos dos rios, deixando-os mais rasos. Um dos diversos motivos que aceleram este processo é a falta de mata ciliar. No Cadeia, principalmente em Picada Café, com comunidades próximas ao rio, é comum que as roças avancem até a barranca, dificultando a manutenção das florestas nas propriedades rurais. “A vegetação densa das margens protege a propriedade. Ajuda na retenção da água da chuva. O assoreamento diminui e, com ele, as enchentes”, argumenta o assistente técnico estadual de florestas da Emater, Dirceu Slongo. Antigamente Em Picada Café, o motorista e industriário Charles Heylmann, 29 anos, tem notado alterações no Rio Cadeia. “As margens estão desbarrancando e o leito está mais obstruído”, aponta. “Alterações assim são comuns em quase todos os cursos d’água na bacia do Caí”, denuncia o secretário executivo do Comitê Caí, Ricardo Litwinski. O ex-coordenador da Defesa Civil de São Sebastião do Caí, Castor Becker Júnior, afirma que na enchente de setembro de 2009, a água do Cadeia atingiu pontos da cidade que nunca havia afetado. “E olha que já tivemos cheias maiores”, observa. As enchentes de antigamente aconteciam sob muita água. Entre os anos de 1878 e 1996, 7 das 13 cheias tiveram média de 13,85 metros de elevação do Caí. Entre 1997 e 2003, seis das nove enchentes registraram média de elevação de 12,82 metros. Nas cheias de 2005 a 2009, a média oscilou para 13,17 metros, provando que já não é preciso tanta chuva para fazer o Caí sair do leito. “O assoreamento agrava as cheias porque vai elevando a calha. As enchentes se tornam maiores”, alerta o secretário Litwinski.

MINERAÇÃO: saibro é extraído em Picada Café e utilizado em estradas

Picada 2 Os impactos na utilização do saibro Café

José 4São do Hortêncio

A extração de saibro para colocação em estradas, mesmo que licenciadas e autorizadas pela Fepam para operação, impactam além das áreas mineradas, na encosta da serra. Há quem afirme que o material escorra livremente para o Rio Cadeia, acelerando o assoreamento. A geóloga da prefeitura de Picada Café, Vera Viech, afirma que “O saibro não é arrastado a ponto de obstruir o rio”. “A colocação de saibro nas estradas prejudica também, mesmo que pouco”, contrapõe Dirceu Slongo, da Emater. De qualquer maneira, conforme a engenheira agrônoma responsável pelo licenciamento ambiental em Picada Café, Luciane Franzen, está em estudo a dragagem em dois pontos. “Perto da prainha e outro próximo à Igreja Evangélica”, detalha. Hoje, segundo Luciane, o Ca-

Na antiga ponte de ferro, o rio é assinalado por um trecho em corredeira. Há uma parte com pouca mata ciliar rio acima. Rio abaixo, na curva, um dos poucos pontos com mata ciliar virgem notados pela reportagem, mas que está situado sob um pequeno morro.

deia passa permanentemente sobre a ponte baixa. “Antigamente não era assim”, compara. O prefeito de São José do Hortêncio, Clóvis Luiz Schaeffer, pensa de forma semelhante. “Vamos licenciar a retirada de areia e cascalho do rio”, avisa. O chefe do Executivo de Presidente Lucena, Baltasar Hansen, afirma que não pretende dragar o rio e a população está ciente da importância da mata ciliar. Bióloga da prefeitura de Santa Maria do Herval, Fabiana Bassegio diz que são feitas anualmente campanhas de reflorestamento. A reportagem tentou até as 18 horas da última sexta-feira contato com a prefeitura de Lindolfo Collor e Fepam, mas não obteve resposta. O Ibama, por não ser responsável pela fiscalização, optou por não se manifestar.

Há quiosques e construções muito próximos do rio. Roças avançam rumo ao leito do Cadeia. O desbarrancamento das margens, causado pela falta de mata ciliar, demonstra o processo de erosão que deflagra o assoreamento do Rio Cadeia. A água estava de cor barrenta.

5Lindolfo Collor

Mais próximo à foz, o Cadeia desce vagaroso. O rio é largo. Mas a vegetação ciliar não chega a ser densa, com pontos praticamente ausentes. Mas há regiões de várzea, com mata fechada. A água é barrenta e há pontos com bancos de areia em meio ao leito.

O Rio cadeia

É uma das sub-bacias do Rio Caí, drenando área de 19 municípios. O rio nasce a 800 metros de altitude, na Serra Grande, entre Igrejinha e Gramado. A foz no Caí, a 10 metros de altitude, ocorre em São Sebastião do Caí.

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Região do médio Vale do rio caí O Cadeia faz parte da área que compreende desde Caxias do Sul até São Sebastião do Caí, que alterna trechos de escoamento lento com os de corredeiras.

Pequenos problemas, grandes estragos  

São Sebastião do Caí enfrentou sequência de três enchentes em menos de 60 dias no segundo semestre 2009. Em outubro do mesmo ano, em reporta...