Skip to main content

Da cidade para o Litoral: A vida renasce nas areias da praia

Page 1

REPORTAGEM

Domingo 3.4.2011 JORNAL ABC

6

REPORTAGEM

Domingo 3.4.2011 JORNAL ABC

da cidade para o LITORAL

A vida renasce nas areias da praia Fotos Gabriel Guedes/GES-Especial

“A cidade não deixa nossa vida tranquila”

bom para peixe Pescaria é lazer esporádico para Köeller, que deixou Novo Hamburgo

A família dos jornais do Grupo Sinos na praia

INFORMAÇÃO ANO TODO A família de Garcia distribui jornais e comercializa anúncios no litoral

Quem deixou o Vale para viver no litoral norte pode contar com a conveniência de ler os jornais do Grupo Sinos na praia o ano todo em casa. Gilmar Rodrigues Garcia, 53 anos, é parte do contingente que adotou o litoral para viver. Há quatro anos, se desfez da casa em Campo Bom e trocou o local de trabalho de Novo Hamburgo para se tornar representante do ABC Domingo, Jornal NH, Jornal VS e Diário de Canoas para o litoral. “Quando recebi a proposta, vi no que iria agregar, daí aceitei”, conta. Todo dia, quando o leitor recebe um exemplar de um dos diários do Grupo Sinos,

leva para casa também o trabalho da família Garcia, que ajuda na venda de publicidade e distribuição dos exemplares aos assinantes. No começo, era apenas a mulher, Teresinha, 53, e o filho Jeferson, 22. Mais tarde, as filhas Amanda, 33, e Jaqueline, 29, além das netas Érica, 3, Natáli, 12, e Stephani, 12, migraram para Mariluz, balneário de Imbé que concentra boa parte de exmoradores do Vale. O filho Rafael, 26, ainda mora em Novo Hamburgo. “Hoje ninguém pensa em voltar. Aqui eu também consigo tirar um tempo para pescar e caminhar”, detalha Garcia.

um dos primeiros Koch está há 22 anos em Mariluz, em Imbé, onde mantém banca

co

TRABALHO QUE RENDE Reinheimer e Marle trabalham escutando o mar

Koch é precursor de tendência Quando Jones Koch, 58 anos, decidiu largar Canoas, ele tinha 36 anos e Imbé recém havia se emancipado de Tramandaí. Para o dono de banca de revistas em Mariluz, a mudança naquela época foi por motivos econômicos. “Eu trabalhava com o pai com construção”, lembra. Mas com a diminuição dos trabalhos, ele acabou permanecendo na praia até que ganhou a concessão da Prefeitura para abrir o negócio na Avenida Mariluz. “Morar aqui é tranquilo. Depois que fecho a banca, eu e a esposa vamos caminhar na praia”, conta. Apesar da vantagem do sossego, Koch pensa que ainda há muito o que ser feito na região. “Precisamos de um hospital regional e da Ponte da Sardinha”, sugere.

REFLEXOS Com mais pessoas, aumenta também o consumo de água e energia elétrica. Conforme a CEEE, em janeiro de 2010 eram 247.777 clientes na região, mas 2011 já começou com 255.621 ligações. A demanda por eletricidade também aumentou. A máxima em 31 de dezembro de 2009 foi de 271,36 MW e, um ano depois, já era de 284,30 MW. Em 12 municípios atendidos pela Corsan no litoral norte, o número de economias saltou de 170.652 em 2009 para 178.531 em 2010.

nti

Os campo-bonenses Jacir Leuck, 55 anos, e Maria Terezinha, 55, recomeçaram a vida no litoral norte. Após mudança mal sucedida na paradisíaca Itapema, em Santa Catarina, em 2005, o casal resolveu se estabelecer em Mariluz. Mas o retorno para o Estado também não foi fácil. Após um ano e dez meses, o chalé onde moravam pegou fogo. Ficaram apenas com a roupa do corpo. “Sempre há tempo de recomeçar. Foi o que fizemos”, lembra Maria Terezinha. E o recomeço foi com a ajuda da comunidade do litoral, que muito solidária, doou roupas e material de construção. Com a nova casa de pé, o ex-mecânico, que fazia apenas reparos domésticos na praia, virou artesão e começou a fazer tear de pente liço para a mulher, que já era artesã. “Hoje vendemos a máquina para todo o Brasil. A mulher ainda dá aula e vende também peças que produz com o tear em feiras. Aqui conseguimos viver tranquilos e gastando muito pouco, o que é ótimo”, pontua Leuck.

POPULAÇÃO O Censo do ano 2000 apontava os 22 municípios com 172.260 habitantes. Em 2010, totalizavam 299.080 pessoas. O crescimento de 7,36% ao ano contrasta com os 0,49% do total gaúcho

atl â

Da graxa para o artesanato

mentam a aposentadoria de Reinheimer serviços de pequenas reformas em casas de veranistas. “E trabalhar com isso, o barulhinho do mar, é tudo”, anima-se Marle. A jornada diária do casal começa às 7h30, com pausa para o almoço, encerrando às 18h30 no verão e às 17h30 no inverno, com direito a uma caminhada na praia no final do “expediente”. “Nenhum de nossos filhos nos desencorajou a mudança. Vim pra cá e hoje me sinto com se nunca tivesse morado em Campo Bom”, conclui Reinheimer.

O litoral norte é uma estreita planície espremida entre o Oceano Atlântico e as escarpas da Serra Geral no nordeste gaúcho. Os municípios que apresentam maior grau de urbanização e taxas de crescimento demográfico estão junto à orla marítima

N

no

uma hora e meia de viagem. O mesmo tempo que se perde nos congestionamentos na BR116”, compara. A instalação do Campus da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) em Tramandaí tem ainda animado a economia local. “A permanência de jovens também nos dá as melhores perspectivas”, festeja Garcia.

O barulho das máquinas das indústrias do Vale do Sinos fazem parte do passado do casal Edércio Reinheimer e Marle Weber, ambos com 56 anos. Ex-moradores de Campo Bom, dedicaram a vida ao trabalho em empresas de calçados e acessórios. Mas, com a aposentadoria de Reinheimer em novembro de 2009, a casa campobonense foi vendida e a família se mudou para Mariluz, em Imbé. “Aqui é outro tipo de vida”, decreta o industriário. Mas se engana quem pensa que os dois largaram a vida de trabalho. Hoje comple-

O litoral norte cresce acelerado

Abaixo, números de municípios litorâneos com forte presença de moradores oriundos da região:

Oce a

Conforme Garcia, a procura por imóveis para morar o ano todo tem aumentado. “Semanalmente há alguém querendo adquirir imóveis num local com a infraestrutura mais próxima, que tenha transporte coletivo e mais moradores fixos”, salienta. Para Garcia, este tipo de exigência é compatível com a facilidade de ligação da região com a Grande Porto Alegre. “É

Ao barulho do mar, trabalho rende mais

Osório Com orla reduzida a duas praias, cresceu só 1,26% ao ano, de 36.131 em 2000 para 40.201 em 2010

o

A opção de morar na praia tem provocado uma mudança no perfil da oferta de imóveis no litoral. Pessoas que antes buscavam imóveis próximos ao mar para ocupação na temporada agora querem em locais com maior oferta de infraestrutura, segundo o presidente da Associação das Imobiliárias e Corretoras de Imóveis de Tramandaí e Imbé (Aiciti), Carlos Garcia.

numa busca que durou cerca de três meses. “Até que nos decidimos por Atlântida Sul”, diz. A mudança, que sinaliza início de um período de paz, já que estavam deixando Novo Hamburgo também por causa da violência, foi uma quebra de paradigmas. “A gente gostava de lagoa. Morar perto do mar aberto é uma experiência diferente”, descreve. “Aqui não tem barulho, nem de cachorro. Lá (Novo Hamburgo), mesmo querendo desacelerar, não dá. A cidade não deixa nossa vida tranquila”, argumenta.

ântic

Novo perfil do comprador de imóveis

TECENDO A VIDA Após incêndio na chegada ao litoral, Leuck e Maria Terezinha recomeçaram com ajuda do tear

Trocar o bairro Operário, em Novo Hamburgo, pela pacata praia de Atlântida Sul, em Osório, não estava bem nos planos do funcionário público aposentado Marco Aurélio Köeller, 56 anos. Há pouco mais de dois anos e meio, ele e a mulher, Isolde Ilena, 56, tomaram a decisão de sair do Vale do Sinos. A praia era uma das opções de destino. “A gente sabia que muita gente estava vindo morar na praia e estava gostando”, lembra. A partir destes relatos, Köeller foi atrás de imóveis de Torres a Cidreira,

o atl

Trânsito caótico, violência, poluição do ar. Tudo isso, ainda em meio a um monte de concreto e asfalto, tem feito muita gente trocar o Vale do Sinos e a Grande Porto Alegre pela calmaria do litoral norte. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a região é a que mais cresce populacionalmente no Estado, num ritmo de 7,36% ao ano, enquanto o Vale do Sinos permanece praticamente estável, em 0,99%. E não é difícil achar quem esteja satisfeito com a mudança, como os personagens desta reportagem que revelam ao ABC Domingo a redescoberta da vida à beira-mar. Segundo o supervisor de informações do IBGE no Estado, Ademir Koucher, verificase que as taxas de crescimento do litoral norte estão consolidando uma nova região urbana, que cresceu muito também por força da construção civil. Os novos moradores – na maioria, pessoas maduras com vidas consolidadas – são bem recebidos. “Não é problema, estamos esperando de braços abertos”, afirma o prefeito de Imbé, Darcy Luciano Dias. “Mais pessoas o ano todo não impacta nossa infraestrutura”, reforça o prefeito de Osório, Romildo Bolzan Júnior. “Temos vida o ano todo, qualidade no acesso rodoviário, segurança, e uma boa rede de saúde. Novos moradores ajudam a movimentar nossa economia”, avalia o prefeito de Tramandaí, Anderson Hoffmeister.

Ocea n

Gabriel Guedes

7

Imbé Cresce 3,74% ao ano. Saltou dos 12.242 habitantes em 2000 para 17.606 em 2010. Tramandaí Cresce 2,99% ao ano. Tinha 31.040 em 2000 e agora possui 40.248 habitantes


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Da cidade para o Litoral: A vida renasce nas areias da praia by Gabriel Zanin Guedes - Issuu