A super classe REPORTAGEM
Gabriel Guedes
Comprar eletrodomésticos e móveis, decorar a casa, trocar o celular velho por um repleto de funções multimídia e viajar a passeio são alguns dos sonhos agora plenamente realizáveis por um segmento cada vez mais significativo da sociedade brasileira. Oprimida durante anos por sucessivos e errôneos planos econômicos, a classe média, especialmente o segmento C, passa a prevalecer em 2008 como o maior estrato de consumo do Brasil. Esta espécie de revolução foi novamente alvo de estudo, desta vez divulgado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), somando-se aos diagnósticos já apresentados pelo Instituto Ipsos e a Consultoria Nielsen. Nos três relatórios, os números comprovam algo na realidade unânime: o brasileiro, principalmente aquele das camadas situadas na base da pirâmide social, está melhorando de vida e ascendendo nas faixas de renda. Em 2007, conforme a pesquisa Ipsos, pelo menos 46% dos 180 milhões de habitantes do Brasil estavam na classe média. A marca supera o número da classe D/E, com 39%, e o da A/B, com 15%. Em apenas dois anos, a D/E deixou de representar mais da meta-
DOMINGO 10.8.2008 JORNAL ABC
de da população. No estudo da FGV, otimismo: 24,47% da População Economicamente Ativa (PEA) nas seis principais regiões metropolitanas do País, estima-se, vão sair da miséria e há a probabilidade de que 14,76% ingressem na classe C ainda este ano. Para o autor da pesquisa da FGV, Marcelo Neri, o incremento na participação da classe média na PEA não se deve a programas assistenciais como o Bolsa Família, por exemplo, e sim à iniciativa privada e ao próprio esforço das pessoas em conquistar um ofício de carteira assinada. “Na verdade, a nova classe média é aquele grupo emergente que cresceu a partir do próprio trabalho”, afirma. O coordenador do mestrado de Economia da Unisinos, André Azevedo, compartilha da mesma análise. “Desde 2006 o consumo vem sendo puxado pelas famílias e vai continuar expandindo”, acredita. SEMELHANÇA Mais relevante ainda é que as pessoas agora na camada C aumentaram a renda média mensal de 580 reais para R$ 1,1 mil. É como se a população equivalente duas vezes à de Portugal, de 10,5 milhões, tivesse saído da miséria. “Se a economia cresce, a tendência é que a sociedade evolua junto”, avalia
o sociólogo da Unisinos José Luiz Bicca de Mello. Ele compara o momento no Brasil, desconsiderando as proporções, semelhante ao vivido pela China. No embalo das transformações, começam a surgir também novas realidades na sociedade brasileira. Entre elas, lembra o sociólogo, as famílias estão ficando menores e, por isso, também gastando mais com itens não considerados essenciais. Formado há cinco anos em odontologia, Rogério Abascal Oberto, de 28 anos, se encaixa neste contexto. Jovem, conseguiu a independência financeira por meio da faculdade e hoje está na camada mais superior da classe C. O dentista iniciou a carreira em uma clínica privada e atualmente tem consultório próprio. “Hoje consigo gastar mais com lazer e com eletrônicos. Está mais viável para isso.” Recentemente ele comprou um celular e um player de música digital. Para o futuro, Oberto, que já tem plano de previdência privada, quer ainda aplicar o dinheiro que conseguir guardá-lo. Fotos Gabriel Guedes/GES-Especial
Emprego rápido mantém planos A vontade de crescer da família Peroni, residente no bairro Feitoria, em São Leopoldo, quase perdeu sentido quando o metalúrgico Geraldo Peroni, 38 anos, ficou sem emprego na metade de maio. Com dois filhos, os gêmeos Eduardo e Ricardo, 11, e na dependência apenas da renda da mulher, a auxiliar de enfermagem Gisela, 38, a situação era preocupante e os desejos, adiados. Mas o susto passou rápido. Em 15 dias, Peroni foi contratado pela Cordoaria São Leopoldo – produtora de cabos para ancoragem de embarcações e plataformas de petróleo – e os projetos puderam ser retomados. Para esta família, safra da nova classe média, com renda pouco superior a R$ 1 mil, tudo ainda soa como novidade. A casa onde moram foi presente dos familiares. Até o ano 2000, eles residiam em uma muito simples e úmida no bairro Campina, zona norte leopoldense. “Quando nos mudamos, pagamos um financiamento de oito anos para fazer as melhorias. Agora, estamos vendo a possibilidade de financiar de novo para terminar a casa”, adianta Gisela, que reconhece a facilidade do crédito. “É quase como se fosse abrir crediário em loja.” Depois da casa, a prioridade é recuperar o veículo, vendido em tempos de aperto. “A gente tinha um Palio 97. Mas com certeza pretendemos comprar de novo, mas quando der. Queremos cursar faculdade em 2009”, anseia ela, que quer estudar Gastronomia. Geraldo está dividido entre História ou Publicidade e Propaganda. No futuro, claro, será a vez dos filhos.
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Banda larga à vontade A casa dos Peroni (foto acima) faz parte da realidade da nova classe média. Tem computador e Internet banda larga (ao lado), usado bastante pelos garotos Eduardo e Ricardo, mas também usufruído por Geraldo e Gisela. “Hoje, há bastante facilidades pela rede. Mas foi um investimento mais em função das crianças. Estudar ficou melhor com a Internet”, explica Gisela. Igual à família deles, há mais de 1 milhão de brasileiros que compraram computadores nos últimos 12 meses, em um exemplo prático dos novos gastos da classe, agora não mais restritos apenas ao trivial, como alimentação, educação e saúde.