REPORTAGEM
Os ventos que trazem otimismo para a região Eduardo Andrejew Gabriel Guedes
O ar frio soprou com força na primeira metade do mês. E isso foi mais do que suficiente para aquecer a economia e as expectativas de cidades da Serra e proximidades. O inverno, que começou hoje, promete ser um dos melhores dos últimos anos do ponto de vista turístico. Esta é a aposta de localidades que tornam o frio uma atração, como Gramado e Canela – só para ficar nos exemplos mais consagrados. Junho teve uma longa sequência de dias gelados. E embora os flocos de neve tenham sido raros, houve uma verdadeira avalanche de turistas nos finais de semana. E o movimento se mantém. Uma boa maneira de medir isso é a lotação dos hotéis.
Júlio Manoel Cardoso, presidente do Sindicato da Hotelaria, Restaurantes, Bares e Similares da Região das Hortênsias, afirma que a procura por vagas em hotéis é satisfatória mesmo no meio da semana. No feriadão de Corpus Christi, lembra, a lotação dos associados aos sindicato – que correspondem a 60% do setor da região – chegou a 100%. “Se for como no último final de semana, estamos no céu”, anima-se. E A CRISE? Com tanto entusiasmo, uma pergunta é inevitável. Em tempos de crise mundial, não parece contraditório o movimento na região serrana? Na opinião do secretário de Turismo de Gramado, Gilberto Tomasini, não há contradição alguma. A crise, na verdade, está beneficiando o
turismo local. Muitos turistas decidiram não viajar ao exterior e optaram por buscar o lazer mais perto. Tomasini acredita que haverá inclusive um crescimento de 10% em relação ao ano passado nos negócios do setor turístico por conta do frio. “Este ano será o grande momento da Serra”, aposta. O mesmo otimismo é compartilhado por cidades como Canela, Nova Petrópolis e São Francisco de Paula. E os bons ventos gelados entusiasmam até mesmo localidades que não exploram tanto o frio como atração turística. Cidades como Morro Reuter, Dois Irmãos e Ivoti, por exemplo, se beneficiam com a venda de malhas e com restaurantes e cafés coloniais. Em todos os lugares, a chegada do frio está sendo tratada como uma boa notícia.
DOMINGO 21.6.2009 JORNAL ABC
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SÃO FRANCISCO DE PAULA, 1994
Quando a neve Julho de 1994 marcou a última nevada mais forte e generalizada no Rio Grande do Sul. A paisagem esbranquiçada retratada em municípios como São Francisco de Paula (foto acima), chegou a ponto de interromper rodovias na Serra.
Com pesquisa histórica da MetSul Meteorologia e do observador da Estação Meteorológica de Campo Bom e autor do livro A Neve no Brasil, Nilson Wolff, o ABC Domingo mostra que, apesar de rara, a queda de neve, a chamada nevada, não é incomum em solos MetSul
FRIO ANIMA A ROTA ROMÂNTICA Gramado
O turismo é responsável por nada menos que 80% do PIB de Gramado. O Festival de Cinema e os tradicionais cafés coloniais fizeram a fama da cidade. Segundo o secretário de Turismo, Gilberto Tomasini, a expectativa é de um incremento de 10% em comparação à temporada de 2008. São aguardados de 900 mil a 1 milhão de visitantes em Gramado.
Canela
Em Canela, terra de belas paisagens e do Festival de Bonecos, a aposta é mais alta: crescimento de 15%. O secretário de Turismo da cidade, Ditmar Dellmann, observa que só neste mês houve um aumento 10% superior ao mesmo período em 2008. Numa cidade onde mais de 60% do PIB se apoia no turismo, é uma boa notícia. Nova Petrópolis A cidade é referência no setor de malharias, mas já investe em hotelaria (1,4 mil leitos) e conta com 33 estabelecimentos de gastronomia (restaurantes e cafés coloniais). De acordo com o secretário de Turismo,
Fábio Winter/GES
Daniel Camargo, o turismo já está em quarto lugar na arrecadação da cidade e tende a crescer. São Francisco de Paula Com um setor de hotelaria incipiente (mil leitos) e uma gastronomia atrativa, São Francisco de Paula abre seu espaço. O secretário de Turismo, Indústria e Comércio da cidade, Eron Sidinei Ferreira França, calcula um aumento de 10% do movimento na cidade com o frio. Quando há eventos como a Festa do Pinhão, o público ultrapassa os 20 mil. Dois Irmãos O secretário de Agricultura, Turismo, Indústria e Comércio, Sérgio José Fritzen, diz que o faturamento da cidade costuma crescer 20% neste
período graças ao comércio e à gastronomia. Na última semana, a hamburguense Neuza Dieter, 54 anos, dava uma olhada de leve nas ofertas de uma grande malharia localizada na BR116. “O frio estimula”, reconhece. Morro Reuter A diretora do Departamento de Turismo de Morro Reuter, Vera Schneider, diz que os três meses de inverno são “fortes” para a gastronomia, com cafés coloniais, fábrica de chocolate e restaurantes com bufê de sopas. “O movimento cresce acima de 30% ”, garante. “Hoje somos o degrau da Serra”, orgulha-se. E também há o comércio de malhas. Ivoti Mesmo sem dispor de dados numéricos, a secretária de Desenvolvimento de Ivoti, Maria Elena Engelmann, garante que a cidade, por estar na Rota Romântica, acaba beneficiada pelo movimento na Serra. Há malharias, cachaçarias, comércio diversificado e, é claro, cafés coloniais.
Erechim, 1918 Onda de frio mais forte do século 20 no Estado cobriu de neve o solo de algumas cidades da metade norte por quase dez dias.
MetSul
Caxias do Sul, 1944 Vários eventos de forte nevada foram registrados na década de 40, coincidindo com eventos climáticos de El Niño de forte intensidade.
VACARIA, 1955 A neve veio acompanhada da menor temperatura registrada no Estado: 9,8ºC negativos na cidade vizinha de Bom Jesus.