REPORTAGEM
DOMINGO 22.3.2009 JORNAL ABC
Boias contra furacões no sul Gabriel Guedes
Com boias meteorológicas operantes nas águas do Oceano Atlântico da costa gaúcha e catarinense naquele mês de março de 2004, seria possível ter uma ideia da intensidade do furacão Catarina. No próximo dia 28 o fenômeno – que atingiu o litoral norte do Estado e o sul de Santa Catarina – completa cinco anos sem que estes equipamentos estejam monitorando o clima em alto mar. O diretor do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Antonio Divino Moura, defende que com pelo menos duas boias na região seria possível saber a intensidade do vento, por exemplo, e por consequencia, alertar a população em terra. A boa notícia é que a Marinha do Brasil pretende até o final do ano instalar uma boia na costa de Rio Grande e outra próxima ao Cabo de Santa Marta, em Laguna, Santa Catarina. A boia possui instrumentos que funcionam como uma estação meteorológica, mas fornecendo também dados do oceano. Informações climáticas, como temperatura, velocidade dos ventos e pressão, são transmitidas via satélite para um centro de previsão no continente. Na costa brasileira estão em funcionamento seis boias, nenhuma na região sul e sudeste do País. A que funcionava perto de
O PRIMEIRO FURACÃO DO ATLÂNTICO SUL NA ERA DOS SATÉLITES Arquivo/GES
os ESTRAGOS Na madrugada do dia 28 de março de 2004, o furacão Catarina atingiu 26 municípios catarinenses e gaúchos, como Torres (foto acima). A tempestade destruiu 35 mil casas, deixou 15 mil desabrigados, 60 feridos, pelo menos quatro mortos, alguns desaparecidos e prejuízo de mais de R$ 1 bilhão Nasa Earth Observatory
Florianópolis foi desativada em 2005, após uma ressaca. A de Rio Grande foi retirada para manutenção em 2006 e nunca mais foi reposta.
O FENÔMENO Segundo o meteorologista da Metsul Luiz Fernando Nachtigall, o Catarina (foto ao lado) foi um furacão de cerca de 800 km de diâmetro quase de categoria 2 na escala Saffir-Simpson, que vai de 1 a 5, com vento contínuo ao redor de 150 km/h e rajadas De acordo com o diretor do Centro de Hidrografia da Marinha (CHM), responsável pelo serviço meteorológico marinho nacional, capitão-de-mar-e-guerra Antonio
de até 200 km/h. O vento intenso durou até 12 horas com chuva torrencial que acumulou até 200 milímetros. O furacão rapidamente se desintegrou ao ingressar no continente devido ao atrito do relevo da Serra Geral, com montanhas de mais de mil metros de altitude Fernando Garcez Faria, por meio do Programa Nacional de Boias serão instaladas até o primeiro semestre de 2009 cinco delas entre Cabo Frio, no Estado do Rio
Janeiro, e Rio Grande, justamente em pontos decorrente de fenômenos extremos no oceano, como a formação de furacões, que acontece em mar aberto. “Elas funcionarão como um sistema de alerta antecipado, além de aferir a qualidade dos modelos de previsão do tempo”, explica. Outro benefício, ressalta Garcez, é possibilidade de contribuir com pesquisas, como estudos sobre erosão costeira. A aquisição dos oito equipamentos, fabricados no Canadá, estão orçados em cerca de R$ 4 milhões. PREPARADOS O dono de uma rede de postos de combustíveis em Torres Edgar Denardi, 62 anos, viu o telhado de um de seus estabelecimentos se despedaçar e o seu apartamento – no 14o andar de um edifício à beira-mar – balançar com o vento do furacão. “Do alto dos edifícios ainda dá para ver os telhados malhados, sinal da troca recente das coberturas”, conta. Segundo Denardi, há gente com dificuldade em fazer seguros na região enquanto espera pelo pior. “Quem não tem proteção contra furacão não recebeu a indenização até hoje”, revela ele, sem medo de um novo furacão. “Segundo os meteorologistas pode ser o primeiro de uma série”, arrisca o empresário, que da próxima vez espera não ser pego de surpresa. Arte Diogo Fatturi/GES
O alerta que vem de Manhattan Alexandre Aguiar
Realizou-se em Nova York, nos Estados Unidos, entre os dias 8 e 10 de março, a Conferência Internacional de Mudanças Climáticas. Representei a MetSul Meteorologia e tive a chance de conversar com alguns dos maiores cientistas do planeta em suas áreas de atuação. Uma das minhas maiores curiosidades, afinal o encontro trazia alguns dos principais pesquisadores mundiais de furacões, foi saber do Catarina. Questionei William Gray, professor emérito da Universidade do Colorado e considerado por muitos o maior expert mundial em ciclones, sobre a tese de Al Gore de que o Catarina teria sido o primeiro furacão do Atlântico Sul e que a tempestade foi resultado do aquecimento global. “Não, vocês possivelmente tiveram outros furacões antes da era dos satélites e, apesar de ser um fenômeno atípico na região, não pode ser vinculado ao aquecimento global e pode se repetir”, disse-me Gray. Conversei longamente com Stanley Goldberg da Divisão de Pesquisas de Furacões do NOAA, órgão de Meteorologia do governo dos Estados Unidos. Goldberg voou em um avião P-3 caça-furacões dentro do Katrina, antes da
Alexandre Aguiar/Divulgação
William gray
Pioneiro no estudo de furacões, Gray citou o Catarina (foto) tormenta arrasar a costa do Golfo do México em 2005. Goldberg fez eco às afirmações de Gray. Quando disse a ele que não existe um plano de contingência sequer para o caso de novo furacão, a resposta foi enfática. “Não há porque ir à bancarrota, mas, se acontecer de novo, as autoridades vão estar muito agradecidas se estiverem preparadas. É esperar o melhor, mas se preparar para o pior”, declarou. Foi o que me disse também Richard Keen, professor do Departamento de Ciências Atmosféricas da Universidade do Colorado. “Em climatologia, se aconteceu antes, pode ocorrer de novo”. Joe Bastardi, meteorologista-chefe
da AccuWeather, a maior empresa privada de Meteorologia do mundo, descreveu o Catarina como uma tempestade excepcional. “O processo de formação foi o oposto àquele esperado pelas teorias do aquecimento global”, descreveu. Em comum, entre todos os cientistas com quem conversei em Manhattan, o alerta de que não estamos livres de um novo furacão no Brasil.
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AS BoIAS
Marinha do Brasil/Divulgação
Alexandre Aguiar é diretor de comunicação da MetSul Meteorologia
Das cinco novas boias que serão instaladas na costa da região sul e sudeste do País, três já estão na Marinha, em Niterói, Rio de Janeiro, aguardando montagem e instalação (foto acima) Os equipamentos fornecerão, via satélite, dados meteorológicos e oceanográficos da costa brasileira. As boias tipo 1 são fundeadas a 70 metros de profundidade e as do tipo 2, ancoradas a 200 metros da superfície