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Um oásis cultural em São Chico

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PERFIL

DOMINGO 6.4.2008 JORNAL ABC

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Um oásis cultural em São Chico em 1999, a partir de textos escritos desde seus 11 anos de idaA professora de história Lu- de. Inclusive, a obra reverencia ciana Olga Soares, 63 anos, a Fundação Evangélica de Novo sempre foi incentivada pelo pai Hamburgo, que a apoiou. pecuarista a ler um livro todo dia Apesar do grande empreendie a cuidar bem dos animais e da mento, a livreira leva uma vida natureza como um todo. Nasci- simples e reclusa. A sua cachorda em Porto Alegre e criada des- ra, chamada Cor da Noite, e que de pequena em meio aos campos a acompanhou durante a entredo alto da Serra, no interior de vista para o ABC Domingo, é um São Francisco de Paula, Lucia- dos 22 cães que cria em sua casa, na nutre desde crianem Fazenda Faxinal ça uma paixão incon– localidade distandicional pelos livros. te 18 quilômetros do Tamanha devoção culcentro. Os animais minou com uma suntusão sua única comosa livraria no Centro panhia, já que Lude São Chico. Denociana não é casada, minado de Miragem, não tem filhos e nem o vistoso empreendimesmo rádio e telemento impressiona visão em casa. Todos também pelas possios dias a professora bilidades de aprovei- Luciana Soares deixa cedo a proprietamento cultural numa pequena dade, passando o dia na cidade e cidade do interior. retornando no final de tarde. Os cerca de dois mil metros Avessa a números, ela não requadrados da Miragem, inaugu- vela quanto gastou na construção rada em 15 de março, abrigam do empreendimento, desconsidegrande variedade de obras lite- ra o fato dele talvez ser desprorárias expostas à venda, além de porcional ao público em potenuma casa de chá e espaços pa- cial e diz acreditar num retorno ra exposições artísticas e centro de seu investimento. “Se existe de eventos. No futuro, a idea- futuro para esta humanidade loulizadora pretende construir um ca, é aqui, com a educação e a leicine-teatro. tura”, justifica a mulher de cabeO seu livro Miragem, que em- los grisalhos que se diz ter uma presta nome à loja, foi publicado alma com 18 anos de idade.

Fotos Fábio Winter/GES

Gabriel Guedes

PEDREIROS HOMENAGEADOS O projeto da obra foi concebido pelos arquitetos Claudia Tubino Fregapani e Ricardo Luis Segatti e privilegiou a diversidade e a valorização do resgate histórico da região. A construção está dividida em três pisos, com ambientes destinados à literatura, arte e gastronomia. A acessibilidade para deficientes físicos ocorre naturalmente, sem distinção, com rampas de acesso, elevador e banheiros únicos. Concluída a construção, toda equipe técnica e de execução – utilizando 100% de mão-de-obra local –, incluindo pedreiros, foi homenageada com fotos e uma placa com nomes, fixada numa parede interna. Na entrada princi-

pal, fica o amplo e diversificado acervo de livros, e o espaço em homenagem ao professor Carlos Wortmann, o primeiro professor de São Francisco de Paula e Canela. Nos fundos, está a livraria infantil. Já o salão de eventos, no pátio interno, tem a fachada do prédio como réplica do primeiro Banco Nacional do Comércio da cidade, de 1918. No jardim, a árvore símbolo da cidade, o plátano, e a estátua em bronze do padroeiro de São Chico. Para quem deseja visitar a Miragem, a livraria fica na Avenida Júlio de Castilhos, 811, no centro. O telefone é (54) 32443592. Funciona de segunda a sábado, das 9 às 18 horas, e nos domingos, das 11 às 19 horas.

COMPLETA: Luciana faz grande aposta em futuro com educação e leitura

Aficionada pela natureza da Serra Por onde se vê, há uma parte da história, até mesmo da paixão da professora Luciana Soares, de São Chico, principalmente pela sua natureza abundante. Crítica, ela lamenta que o imenso território do município já não seja mais o mesmo de antigamente. “Foi o lugar mais lindo que vi na minha vida. Era. Nossos campos já não existem mais, estão repletos de pinus (pinheiro de reflorestamento) e nossos plátanos estão sumindo. Evidentemente precisamos preservar tudo o que restou com urgência”, alerta, alfinetando a indústria madeireira da região. Mas na Miragem, segundo ela, não há nada de pinus, nem mesmo de madeira de araucária. “Usamos tudo madeira de demolição.” Defensora ferrenha da natureza e da harmonia entre os próprios homens e animais, como se pode notar, ela pretende ainda usar a técnica da permacultura (aplicação criativa integrando plantas, animais, construções, e pessoas em um ambiente produtivo, econômico e ecologicamente viável) na construção do cine-teatro. A casa de chá, uma das novi-

dades da livraria, ainda não está funcionando, mas oferecerá um ambiente caseiro, onde o público poderá tomar café, encontrar amigos e ler livros disponíveis como se estivessem em uma biblioteca. No cardápio, nada de origem animal e bebidas artificiais, apenas alimentos orgânicos. No Centro de Eventos, com capacidade para cerca de 80 pessoas, o salão é decorado com fotos antigas de São Francisco de Paula (foto ao lado). Mas nesta parte, a preocupação ambiental fica por conta da calefação. No rigoroso inverno serrano, o chão do salão possui sistema de aquecimento por energia solar. Na comercialização de livros, destaque para os infantis. “Não vendo livros que tenham passarinhos em gaiolas, peixes em aquários e outros animais presos”, avisa. Mas caminhando em meio aos corredores da Miragem, Luciana acha uma obra e aconselha a todo mundo ler: A Carta do Cacique Seattle, aquele que disse que um dia que “o que acontece à terra acontece à todos os filhos da terra”.

CHARME SERRANO, MAS SEM ELITISMO Enquanto atendia a reportagem do ABC Domingo, Luciana Soares, a quase todo instante interrompia a entrevista. Solícita, a empreendedora fazia questão de receber cada morador, não necessariamente um cliente, que chegava procurando por ela. Eram crianças, jovens, adultos, gente com ares de modernidade, outros com jeito de interior, gente simples. Até gaúcho serrano pilchado aparecia na livraria. É o cotidiano de São Francisco de Paula muito bem aceito por Luciana e que contrasta com o charme e luxo predominantes nas cidades vizinhas de Canela e Gramado, distantes aproximadamente 40 quilômetros. “Somos bem abertos”, assegura. Tudo começou a cerca de sete anos e meio. A Miragem funcionava em uma galeria na Avenida Júlio de Castilhos. “O meu amor pelos livros e o estímulo de nossos clientes resultou neste novo lugar”, completa. Mas não foi apenas isso. A saúde financeira do negócio influenciou. “Há quatro anos estávamos em um dilema: se fazia a maior livraria da Serra Gaúcha e se auto-afirmava ou então fechava. Foi feito o desafio”, confirma. Inaugurado o novo espaço, a filosofia de trabalho não mudou. “Sou uma apaixonada pelo que faço. Por que se fosse para pensar no dinheiro gasto, quem sabe, eu não o teria feito.” Ela diz ainda que a variedade de obras é a forma como vê o negócio. “Procuro ter de tudo, ao contrário de outras livrarias, que se guiam pela demanda”, explica. “O importante é que o livro esteja acessível ao povo de São Chico. Cerca de 60% de nossos clientes são daqui”, conclui. Para reforçar o elo com a cidade, uma imagem de São Francisco de Paula (foto abaixo), feita em ferro reciclado, abençoa a todo aqueles que visitam a simpática loja. Em breve até um pau de amarrar cavalo, como aqueles de antigamente, será colocado como forma de relembrar as origens da cidade.


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