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EDITORIAL

DE IGUAL PRA IGUAL

Maria Becchi

S Editora

ão 26 entre 497. Nove entre 55. 55 entre 513. 13 entre 81. Estas são as proporções, respectivamente, de prefeitas e deputadas estaduais no Rio Grande do Sul, deputadas federais e senadoras da república. Infelizmente, esta é a nossa realidade atual e deve ser encarada: seja pela sobrecarga de

Dezembro de 2017

atividades domésticas ou pela sociedade machista, estamos longe de sermos devidamente representadas nos cargos eletivos. Apesar de todo este cenário antagônico, em menos de duas décadas, elegemos, pela primeira vez, uma governadora, uma presidente da república e uma senadora. A presidência da assembleia legislativa foi ocupada, de forma inédita, depois de 180 anos, por uma mulher. Isso demonstra a existência de um enorme avanço em pouquíssimo tempo. As primeiras prefeitas, as primeiras vereadoras a presidirem suas câmaras municipais e diversas outras lideranças femininas provam que, sim, é possível, apesar de todos os esforços extras e de todas as dificuldades que tiveram de lidar para chegar onde chegaram. São exemplos de que a competência supera o preconceito e que uma gestão ética e responsável é sempre reco-

nhecida e isto não depende do gênero.

SUPERVISÃO GERAL: Lucio Vaz revistaemevidencia@gmail.com

REVISÃO: Maria Becchi

EDIÇÃO: Maria Becchi mariabecchis@gmail.com DESIGN: Neo WS - neows.com.br

ANUNCIE: 51 98320-2414 revistaemevidencia.com.br

JORNALISTA RESPONSÁVEL: Paulo Batimanza - MTB 15085 FOTOGRAFIA: Chico Pinheyro

A primeira edição da Em Evidência Mulher trás opiniões, entrevistas e perfis de mulheres que se destacam na sociedade e na política. Trata-se de um registro histórico que, de certa forma, também é nossa homenagem a elas e, através de suas respectivas figuras, a todas as mulheres que lutam à sua maneira por uma sociedade mais justa, mais igualitária e menos preconceituosa. Lugar de mulher não são as páginas policiais de jornais ou revistas, como vítima usual de violência e abuso sexual. Nosso lugar é à frente da sociedade, do município, da associação e da entidade, sem preconceito, sem opressão e sem receber menos que nossos colegas pelo mesmo cargo. Nosso lugar é onde a gente quiser!

SITE: Bryan Meller - bryanstar@pop.com.br ENVIO DE MATÉRIAS: atendimentoemevidencia@outlook.com FOTOS DE CAPA: Fábia Richer - Carlota Pauls Yeda Crusius - Chico Pinheyro Nádia Gerhard - Tonico Alvarez Silvana Covatti - Chico Pinheyro Simone Leite - Rebecca Walker


Ano 8 - Especial UVB - 2017

ÍNDICE

Prefeita reeleita de Cristal

CONGRESSO EM EVIDÊNCIA

26

CAPA

30

Maria do Rosário

Fábia Richter

Yeda Crusius

ÚLTIMA PALAVRA

39

A mulher não pode ser lembrada apenas no período eleitoral

82

OPINIÃO - Maria Helena Sartori........................................................ 6

MULHERES EM EVIDÊNCIA...............................................................52

ENTRE ASPAS........................................................................................... 8

MULHERES EM EVIDÊNCIA...............................................................54

Vitória feminina se dará pela conquista, não por imposição

O que pode ser feito para aumentar a participação da mulher na política?

PREFEITAS EM EVIDÊNCIA CLENI PAZ............................................................................................... 12

Maira Caleffi

Beatriz Luchese Peruffo

OPINIÃO - Marcela de Farias Vargas............................................56 Lugar de mulher

MARCIA TEDESCO................................................................................. 13

VEREADORAS EM EVIDÊNCIA DILETA DE VARGAS PAVÃO...............................................................58

SELMIRA MILECH FEHRENBACH..................................................... 14

PATRÍCIA LÚCIA BAGATINI................................................................59

CLAUDIA MORESCHI TOMÉ............................................................... 15

FERNANDA MELCHIONNA.................................................................60

ADRIANA KÁTIA TOZZO......................................................................16

MARA CRISTINA SANGALLI...............................................................62

ELIANI MESACASA TRENTIN............................................................. 17

GISELDA COSTA BASSAN...................................................................63

JUSENE PERUZZO................................................................................18

ROSANGELA LAZZARE MONTEPÓ..................................................64

IVETE ZAMARCHI LUCHEZI............................................................... 19

MARINA PORTO.....................................................................................66

MARGARETE SIMON FERRETTI........................................................20

LAOZANE DINON..................................................................................67

CATEA ROLANTE................................................................................... 21

SIRLEI DE AZEVEDO CANCI...............................................................68

TÂNIA TEREZINHA DA SILVA.............................................................22

MALU KUHN HOLZ...............................................................................69

Alegrete

Balneário Pinhal Turuçu

Fagundes Varela Itatiba do Sul Camargo

Santa Cecília do Sul Ibiraiaras

Nova Santa Rita Doutor Ricardo Dois Irmãos

AMVRS......................................................................................................25 Corinha Mollig fortalece a AMVRS

CONGRESSO EM EVIDÊNCIA.............................................................28

Ibirubá

Boa Vista do Sul Porto Alegre Nova Araçá

Formigueiro

Campinas do Sul Manoel Viana Porto Mauá

Taquaruçu do Sul Cristal

CARLA MARIA BUGS............................................................................70 Jacuizinho

SOFIA CAVEDON ................................................................................... 71 Porto Alegre

Ana Amélia Lemos

CAPA..........................................................................................................33

PMDB MULHER...................................................................................... 74

CAPA..........................................................................................................36

OPINIÃO - Alexandra Baldisserotto..............................................76

CAPA | FLASH......................................................................................... 41

PRIMEIRA-DAMA...................................................................................77

CAPA..........................................................................................................46

EM EVIDÊNCIA.......................................................................................78

ADPERGS.................................................................................................50

OPINIÃO - Viviane Nery Viegas.......................................................80

Silvana Covatti

Nádia Rodrigues Gerhard

Imagens de atuações de destaque de Fábia Richter Simone Leite

Uma história de luta feminina

Regina Perondi

Além da política partidária

Amor e dedicação contra as desigualdades sociais O exemplo de Muitos Capões

Humanização como política pública de estado e a função social do delegado de polícia


OPINIÃO

VITÓRIA FEMININA SE DARÁ PELA CONQUISTA, NÃO POR IMPOSIÇÃO Maria Helena Sartori

Secretária de Políticas Sociais do Rio Grande do Sul

A

s pessoas são políticas por natureza. No convívio diário, na vida em sociedade, independentemente de gênero ou classe social. Minha participação vem desde os tempos dos movimentos estudantis, atuei em causas sindicais e acompanhei as diversas campanhas eleitorais do No entanto, Sartori. Esta caminhada me preparou para o cargo de deputada estadual por dois mandatos, deu-me a chance de presidir comissões importantes no legislativo e ser a primeira mulher a ocupar a liderança de governo no parlamento, posição de destaque que causou um certo desconforto entre alguns homens na época, mas superamos o preconceito, e os tempos já demonstraram evolução.

precisamos ainda mais. Devemos usar nossa força para efetivar uma maior participação, equivalente a nossa representatividade. Dados da ONU mostram que o Brasil ocupa uma das últimas posições no ranking mundial de representação feminina nos parlamentos

A história nos mostra como foi difícil a participação feminina no mercado de trabalho, no acesso ao conhecimento e no exercício da cidadania. As mulheres ganharam o direito ao voto somente na década de 1930. A primeira parlamentar gaúcha só foi eleita em 1950. Uma mulher líder de governo, só em 2006. Uma presidente do parlamento gaúcho, só em 2016.

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Conseguimos alguns cargos de destaque em todos os poderes. No entanto, precisamos avançar ainda mais. Devemos usar nossa força para efetivar uma maior participação, equivalente a nossa representatividade. Dados da ONU mostram que o Brasil ocupa uma das últimas posições no ranking mundial de representação feminina nos parlamenavançar tos.

Nós, mulheres, somos 52,13% do eleitorado, maioria nas universidades, nas aprovações em concursos públicos. Mesmo assim, ainda lutamos por equiparação salarial. Não basta estabelecer que partidos políticos e coligações reservem, para as mulheres, 30% das vagas nas disputas eleitorais. O protagonismo feminino ocorre quando a mulher firma-se como construtora do conhecimento, da sua identidade e da sua autonomia.

A ação social e política que a mulher assume é fortalecida pela afetividade, o que contribui para vencer tradicionais obstáculos. A dimensão de gênero identifica-se com as lutas pelo direito à diferença, ela se expressa no sentido de não alterar a essência feminina, o modo de ser e de agir das mulheres, sem comparações nem discriminações.


ENTRE ASPAS

O QUE PODE SER FEITO PARA AUMENTAR A PARTICIPAÇÃO DA MULHER NA POLÍTICA?

SILVANA COVATTI DEPUTADA ESTADUAL PELO PP

É nosso dever, como cidadãs e como representantes públicas, promover a discussão em torno da necessidade das mulheres estarem presentes nas corporações privadas e nas esferas públicas, pois ainda temos muito a avançar. Uma maior participação das mulheres na vida política das nossas comunidades virá com a real valorização da mulher e sua participação concreta em todas as esferas da sociedade. E isso depende de uma profunda mudança de cultura, cuja execução está atrelada ao conjunto das nossas vontades, à educação, ao que transmitimos aos nossos filhos, a nossa autoestima, à forma como vemos o mundo.

ANY ORTIZ DEPUTADA ESTADUAL PELO PPS

Precisamos romper algumas ideias estabelecidas de onde a mulher pode estar. Lugar de mulher é onde ela quiser, inclusive na política. Sou uma otimista quanto à presença de mais mulheres nos espaços de poder, mas temos que mostrar que as câmaras de vereadores, prefeituras e assembleias são locais que necessitam da participação feminina dando mais pluralidade e equilíbrio nas discussões de temas que atingem toda a sociedade.

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STELA FARIAS DEPUTADA ESTADUAL PELO PT

Não existe possibilidade de uma democracia plena sem a participação integral das mulheres, em todas as instâncias partidárias. O mínimo que um partido político deve priorizar, seja qual for a sua orientação ideológica, é que seus quadros sejam divididos igualmente entre homens e mulheres. Ainda que mais da metade da população brasileira seja de mulheres e tenha havido certos avanços pontuais, o ambiente político ainda é o mesmo do século 18, dominado por homens, resistente a mudanças e preconceituoso.


REGINA BECKER

MIRIAM MARRONI

DEPUTADA ESTADUAL PELA REDE

DEPUTADA ESTADUAL PELO PT

Os espaços que as mulheres conquistaram foram resultado de duras batalhas. A igualdade é prevista em lei, mas, no parlamento, foi necessário estabelecer cotas de gênero para garantir nossa representação. Devemos reconhecer nossa importância histórica nas lutas contra todo o tipo de injustiça que atentam contra a vida e integrar os movimentos para construir um fazer político ético e comprometido com as causas sociais. Somente assim, iremos avançar para um patamar de igualdade, de justiça e de respeito.

A participação das mulheres vinha em uma crescente, mas como o cenário nacional é de extremo retrocesso, não sairia a participação feminina na política imune dessa onda devastadora. Porém, o acesso à informação e a possibilidade de expressar opiniões, principalmente em redes sociais, pode e deve contribuir para uma maior participação e atuação das mulheres na política. Nós, mulheres, não podemos abrir mão deste espaço.

ZILÁ BREITENBACH DEPUTADA ESTADUAL PELO PSDB

Nas últimas eleições municipais, vimos o número de mulheres eleitas cair, no país e no estado, mostrando que, apesar de conquistas significativas, ainda precisamos avançar em nossa legislação. Necessitamos que os partidos estimulem a participação efetiva das mulheres em cargos eletivos, dando condições de não serem apenas candidatas para preencher o quantitativo determinado pela legislação, mas, sim, concorrer de forma igualitária com os homens e serem eleitas. Devemos estar em maior número nos diretórios para termos voz ativa e debater sobre a distribuição de recursos nas eleições.

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ENTRE ASPAS

MANUELA D’AVILA DEPUTADA ESTADUAL PELO PC do B

As mulheres são apenas 10% das parlamentares no Brasil, um número muito baixo em comparação ao eleitorado brasileiro, que é de 53% de mulheres. Ou seja, não estamos devidamente representadas. É preciso que falemos mais sobre isso, que possamos aprofundar esse debate nos meios de comunicação com o intuito de dar mais publicidade a esse desequilíbrio na representatividade das mulheres no meio político. A história de que mulheres não votam em mulheres é uma falácia, o que é preciso é que elas tenham mais espaço para mostrar suas ideias. E também é preciso que os partidos políticos deem um real espaço e apoio às candidaturas femininas.

JULIANA BRIZOLA DEPUTADA ESTADUAL PELO PDT

Acredito que a exclusão da mulher na vida política é um reflexo da exclusão da mulher na sociedade. Não falo como deputada, mas como mãe, como filha e como mulher que enfrenta a opressão de uma sociedade ainda machista. É necessário promover a conscientização da importância da nossa atuação no cenário político, criação de penalidades severas aos partidos que não cumprirem a determinação legal de incentivo à participação das mulheres, oferecer possibilidades iguais às dos homens dentro dos partidos e, sobretudo, promover o combate ao machismo na sociedade.

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LIZIANE BAYER DEPUTADA ESTADUAL PELO PSB

É importante salientar que, nós mulheres, somos administradoras natas. Fazemos política diariamente a partir de casa, na administração do lar, das finanças da família, no mercado de trabalho, na conversa com o vizinho, enfim. E precisamos ampliar nossa representatividade na política participando nas eleições não só como cabos eleitorais, mas concorrendo a cargos eletivos.


Os exemplos de mulheres que venceram preconceitos histรณricos e hoje administram importantes prefeituras em nosso estado.

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PREFEITAS EM EVIDÊNCIA

ENTREVISTA

CLENI PAZ Prefeita de Alegrete Maria Becchi | Colaboração: José Rubens

Foto: ASCOM/Prefeitura de Alegrete

Em sua opinião, quais as principais características que diferenciam um mandato administrado por uma mulher? Prestamos mais atenção a pequenos detalhes, somos intuitivas e mais sensíveis. Temos um jeito próprio de liderar e de fomentar a cooperação de todos os setores que fazem parte de uma administração, não buscando, assim, o controle sobre as pessoas e, sim, incentivando que elas façam suas tarefas tendo noção da importância do trabalho que executam. Ao mesmo tempo que possuímos características que nos distinguem dos homens, entendo que, no dia-a-dia da gestão, não diferenciamos ninguém por gênero e nem damos privilégio apenas para o nosso, pois trabalhamos com a diversidade e a utilizamos para encontrar um equilíbrio que favoreça as ações administrativas. Como a senhora analisa a realidade atual do municipalismo? Existe alguma ferramenta realmente efetiva para que os prefeitos tenham uma participação maior na distribuição da verba pública? Há muitos anos, talvez décadas, os prefeitos lutam por uma maior participação nos recursos que são centralizados junto ao governo federal. É a tão sonhada e buscada revisão do pacto federativo. O que produzimos em nosso município, gera recursos que não ficam integralmente conosco, restando apenas uma parcela de valores que é devolvido à administração municipal. Ao mesmo tempo, os municípios absorvem serviços e despesas que deveriam ficar à cargo dos governos estadual e federal. Isso atinge pesadamente nossas finanças e obriga os gestores a cortarem

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Cleni Paz, primeira mulher eleita prefeita em 186 anos de história do município de Alegrete custos muitas vezes essenciais, sob pena de responsabilização perante os tribunais de contas do estado e da união. A única forma de resolvermos isso é a soma dos esforços de todos os gestores públicos municipais e das associações e federações de municípios, fazendo uma pressão constante junto ao governo federal para que sejam alteradas. Como a senhora analisa a participação feminina na política gaúcha e qual seu conselho àquelas que gostariam de ingressar na vida pública? Ainda estamos longe, muito longe mesmo, de conseguirmos uma repre-

sentatividade feminina adequada na política. Ainda somos poucas, tanto eleitas quanto participando da política de forma geral. Em nosso governo, temos diversas mulheres como secretárias e diretoras, escolhidas por sua qualificação e conhecimento na área. Eu venci preconceitos e tive que ultrapassar diversas barreiras para estar, hoje, nesta condição que me encontro. E digo: Vale a pena! A vida pública tem suas dificuldades, algumas bem pesadas. Mas compensa quando verificamos que nossas ações trazem benefícios para a comunidade e que conseguimos trazer melhor qualidade de vida para as pessoas na cidade que vivemos e amamos.


ENTREVISTA

MARCIA TEDESCO Prefeita de Balneário Pinhal Maria Becchi

Prefeita Márcia, conte-nos um pouco sobre a sua trajetória política. Em 1995, me envolvi na comissão de emancipação de Balneário Pinhal, participando com um grupo de homens e mulheres em prol desse movimento. Em 1996, fui convidada a assumir os departamentos de Cultura e Turismo, ligados a secretaria de

Educação, onde tivemos a oportunidade de idealizar e realizar o Festival Estadual do Mel. Entre 2001 e 2004, assessorei a Amlinorte na área de turismo. Em 2004, também fui secretária de Turismo do município de Osório. Nas eleições de 2004, fui eleita a primeira vereadora mulher de Balneário

Pinhal, sendo reeleita em 2008. Em 2011, fui escolhida, pelas companheiras de partido, presidente estadual do PTB Mulher-RS e, em 2016, com muito orgulho, fui eleita a primeira prefeita de Balneário Pinhal. A senhora foi a única candidata mulher a ser eleita no litoral norte gaúcho. O que isso significou para a senhora?

Foto: Jarbas Ferreira

Como líder de um movimento político partidário que atua nesse sentido, vejo que a mulher pode fazer a diferença nos espaços de liderança, construir, de uma forma diferenciada, soluções para os problemas da sociedade. Sempre costumo dizer que o espaço existe, cabendo às mulheres não ter medo de disputá-los. Eu espero que a minha eleição e o respeito que tenho tido pelos colegas prefeitos possam inspirar para que cada vez mais mulheres estejam à frente do comando dos seus municípios. Passado o primeiro ano de mandato, quais as prioridades para os próximos três que ainda restam?

Sobre a participação feminina na política: “Sempre costumo dizer que o espaço existe, cabendo às mulheres não ter medo de disputá-los”

Administrar exige uma visão apurada das necessidades e das oportunidades que diariamente se apresentam ao município. Vamos seguir atuando para promover gestão e controle voltados a buscar uma realidade justa e sustentável para o equilíbrio financeiro, sem deixar de atender as necessidades da população. Queremos estabelecer metas de capacitação dos servidores, promovendo melhorias de serviços oferecidos aos cidadãos e cidadãs. Posso afirmar que Balneário Pinhal terá investimentos essenciais na educação, na saúde e no turismo como mola propulsora para o desenvolvimento do comércio e da geração de emprego e renda.

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PREFEITAS EM EVIDÊNCIA

ENTREVISTA

SELMIRA MILECH FEHRENBACH Prefeita de Turuçu Entrevista: Paulo Batimanza | Colaboração: Sérgio Correa

Foto: Sérgio Correa

Quais os motivos que levaram a senhora a ingressar na vida pública? Meus vínculos com a comunidade começaram muito cedo, primeiro na educação, através da minha formação em história. Posteriormente, o fato de ser proprietária de um estabelecimento comercial nas áreas de ferragem, material de construção e veterinária me permitiu estar próxima da população, além de também conseguir vivenciar os problemas do comércio no município. Mesmo com diversas atividades, nunca me afastei do meio rural onde, ainda hoje, tenho atividade como produtora rural, atuando no plantio de soja, vivendo e conhecendo as necessidades do produtor rural. O fato de, ao longo do tempo, ter estabelecido este vínculo com a comunidade, tanto da área urbana quanto rural, despertou-me o desejo de contribuir, desta vez como gestora pública. No ano de 2000, quando ingressei na política, tinha como um dos meus objetivos o desenvolvimento do município. O que significou para a senhora assumir a prefeitura do seu município? Assumir a prefeitura do município de Turuçu pela terceira vez, acredito ter como principal significado o reconhecimento da comunidade pelo trabalho desenvolvido nos dois mandatos anteriores. Fui eleita prefeita no ano de 2000, assumi em 2001, cumpri o primeiro mandato e me reelegi em 2004 para o segundo. Agora, reassumi a prefeitura para o terceiro mandato e isso tra-

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Esta é a terceira vez que a prefeita Selmira é escolhida para governar o município de Turuçu duz a certeza de que realizamos um bom trabalho. Gosto muito da política feita com responsabilidade e de forma séria, pois respeito cada voto que a mim foi confiado. Este respeito à política e também à minha história de vida me levou, neste momento em que as pessoas estão perdendo a confiança na política e nos políticos, a aceitar o desafio de assumir o terceiro mandato para resgatar a confiança na política e fazer a diferença. O seu partido (PMDB) foi o que mais elegeu mulheres nas prefeituras do RS nas últimas eleições. A que fatores a senhora atribui tal cenário? Hoje, é perceptível a necessidade de participação do público feminino,

não só no poder executivo, mas também nos demais poderes e em todos os segmentos da sociedade. As mulheres devem ocupar o seu espaço na política. Os partidos devem ter como premissa a busca incansável por uma nova maneira de fazer política, com clareza, transparência e comprometimento. É necessário saber para onde queremos ir, como e os motivos pelos quais estamos indo, de modo a identificar e buscar habilidades e competências nas pessoas para ajudar nesse projeto de mudança política. Acredito que nós, mulheres, temos demonstrado nosso trabalho como agentes nessa transformação e a comprovação se materializa com o número de mulheres eleitas.


PERFIL

CLAUDIA MORESCHI TOMÉ Prefeita de Fagundes Varela Maria Becchi

Foto: ASCOM/Prefeitura de Fagundes Varela

Claudia Moreschi Tomé (PP), prefeita de Fagundes Varela, ao lado dos pais, filho e marido

C

laudia Moreschi Tomé esteve, desde cedo, envolvida e participando da história de Fagundes Varela, presenciando o processo de emancipação e crescimento do seu município. Começou sua vida pública quando, aos 30 anos de idade, assumiu a Secretaria Municipal de Saúde e Assistência Social e, em seguida, elegeu-se vice-prefeita por duas gestões consecutivas. Atualmente, é prefeita de seu município pelo Partido Progressista, que sempre foi defendido por toda a sua família, desde a então Arena. A proposta de seu governo, de fazer uma

gestão solidária e participativa, está sustentada nos princípios progressistas, dando ênfase às relações humanas, construindo uma administração aberta, participativa, com muito diálogo e presença constante junto à comunidade. Neste sentido, tem priorizado as atitudes de cunho social. Sobre a identificação de sua família com a comunidade, Cláudia afirma: “A história da minha família se funde com a do município, e manter esta relação viva e produtiva é, hoje, mais do que uma realização, é obrigação, um compromisso que é uma prioridade profissional e pessoal.”

Em seu primeiro ano de mandato como prefeita, Claudia priorizou a continuidade das ações iniciadas no mandato em que era vice-prefeita, com destaque para a implementação de tempo integral na Escola Municipal Caminhos do Aprender. “Nossas creches já atenderam toda a demanda da comunidade em tempo integral. Acredito que a educação é o principal pilar de uma sociedade, por isso vamos seguir priorizando as escolas e, em 2018, todas as crianças, até o 3º ano do ensino fundamental, estarão em dois turnos na escola.”

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PREFEITAS EM EVIDÊNCIA

PERFIL

ADRIANA KÁTIA TOZZO Prefeita de Itatiba do Sul Texto: Célio Fiabani | Edição: Maria Becchi

N

ascida em Itatiba do sul, Adriana Kátia Tozzo tem 45 anos e é mãe de Leonardo e Nicolli. Formada em História e em Gestão Pública, com especialização em História Econômica e Gestão Escolar, Adriana foi professora da rede pública municipal e estadual, coordenadora pedagógica, diretora da E.E.E.M. Profª Fernandina Rigoti e Secretária Municipal da Saúde, Meio Ambiente e Assistência Social no período de 2001 a 2006.

em seus dois mandatos, a participação popular e a ampliação das políticas públicas voltadas à educação, saúde, fortalecimento da agricultura

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Ao ocupar o cargo de prefeita municipal, me espelho nas mulheres Itatibenses, em sua força e coragem Adriana Tozzo Prefeita de Itatiba do Sul

Esteve envolvida na política desde muito cedo, influenciada pela família. Em 1998 , filiou-se ao Partido dos Trabalhadores (PT), participando ativamente do fortalecimento do partido no município e fazendo parte da coordenação de campanha nos anos de 2000, 2004 e 2008. Em 2012, foi escolhida pelo partido para concorrer ao cargo de prefeita na coligação “Frente Popular, a força que vem do povo” (PT/ PPS), ocasião em que foi eleita com 55,52% dos votos, sendo a primeira mulher a comandar o executivo municipal em Itatiba do Sul. Em 2013, exerceu o cargo de presidente da Associação dos Municípios da região do alto Uruguai (AMAU). Reeleita em com 2016 58,64% dos votos, Adriana priorizou,

familiar e participação da mulher na política. Assegurou a participação feminina no governo municipal, reservando às mulheres 50% dos cargos nas secretarias municipais, direção, coordenação e cargos de confiança, bem como a participação expressiva na formação dos conselhos municipais.

Foto: ASCOM/Prefeitura de Itatiba do Sul

“Ao ocupar o cargo de prefeita municipal, me espelho nas mulheres Itatibenses, em sua força e coragem, procurando, com honestidade, conhecimento, transparência e delicadeza, construir um governo que assegure a participação da mulher e que promova o fortalecimento, seguindo na luta pela ampliação dos nossos direitos.”


ENTREVISTA

ELIANI MESACASA TRENTIN Prefeita de Camargo Paulo Batimanza

Como a senhora analisa a participação política das mulheres na sua região? Ao se falar da região, tivemos exemplos de outros municípios em que mulheres ocuparam o cargo de prefeita e, quanto a vereança, a mulher está muito presente, significa então, um despertar feminino para cargos públicos. São, primeiramente, barreiras culturais desmoronando e, por conseguinte, provar que a mulher é capaz tanto quanto e não precisa se curvar diante do contexto social, até então, no domínio dos homens.

Quais foram as principais ações da sua gestão neste primeiro ano de mandato? Quanto aos diferenciais propostos nesta administração, estão pautados pela participação e envolvimento de todos, autonomia na execução das atividades de cada secretário, mas com responsabilidade, respeito ao dinheiro público e sua boa aplicação, austeridade, pois, como sabemos, pela máxima da economia “os recursos são escassos e as demandas altas”, integração entre executivo e legislativo com reuniões semanais, contato permanente com a população ouvindo e atendendo suas reivindicações, visita permanente nas atividades de cada secretaria, reuniões semanais com os titulares das secretarias para melhor conduções da gestão, melhoria e renovação permanente da frota mu-

Há 16 anos na vida pública, Eliane já foi secretária de Educação e vice-prefeita, antes de se tornar a primeira mulher a governar o município de Camargo Foto: ASCOM/Prefeitura de Camargo

nicipal e valorização das pessoas. Entrega de cinquenta casas para moradores de Camargo, início do saneamento básico com canalização do esgoto, melhoria das estradas com colocação de brita, inicio do ginásio de esportes no distrito do Paraiso, inauguração da casa do mel em São Pedro, adequação de grande parte das tubulações na comunidade de Tunas, inauguração da ponte na divisa com Vila Maria na comunidade de Arranca Toco, reforma da ponte divisa com Nova Alvorada na comunidade de Passo da Laje, ampliação do cemitério municipal, reorganização da Associação Comercial e projeto que culminou com a língua italiana como segunda língua oficial em Camargo. Toda a gestão está balizada em um olhar da qualidade para a melhoria continua. A eficiência para o resultado. Em sua opinião, quais as principais características que diferenciam um mandato administrado por uma mulher? Partindo do princípio de que uma prefeitura é um órgão prestador de serviços e que no transcurso das atividades recebe recursos das mais variadas atividades econômicas do municípios e deve aplica-los em benefício da população nada diferencia um administrador de outrem. Acredito que se tratando de características temos que voltar o olhar para os aspectos da mulher, da mãe, do feminino que impregna o contorno deste espaço administrativo público. Olhamos para o trato com as pessoas, a visão do belo e do detalhe, o senso forte de igualdade e respeito, é estar como mãe de um município, um olhar sistêmico e de foco, sensibilidade com a situação e necessidade das pessoas. Enfim, um governar com empatia e humanidade.

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PREFEITAS EM EVIDÊNCIA

ENTREVISTA

JUSENE PERUZZO Prefeita de Santa Cecília do Sul Entrevista: Maria Becchi | Colaboração: Silvio Pozzer

Nosso estado vive um cenário bem antagônico quando se fala da participação feminina na política. O seu caso é uma dessas raras exceções. Conte-nos um pouco da sua trajetória política. Meu primeiro mandato foi como vereadora, sendo a 1ª mulher eleita vereadora na cidade e a mais votada até hoje. Atuei no legislativo por

quatro anos, onde defendi projetos de interesse da comunidade. Em 2009 e 2010, fui Secretária Municipal de Saúde. Em 2013, fui eleita a 1ª prefeita de Santa Cecília do Sul com 58,95% dos votos válidos e fui reconduzida em meu segundo mandato com 66,81% dos votos válidos. Não é segredo que administrar um município tem se tornado uma tarefa cada dia mais difícil. De que forma a senhora e sua equipe têm lidado com tal cenário? O segredo é deixar a casa em ordem e ter responsabilidade com o dinheiro público. Gastamos menos do que arrecadamos e mantivemos a folha de pagamento em 37%. Essas atitudes fizeram com que o município de Santa Cecília do Sul fosse, no ano de 2015, o 3º município que mais investiu sobre a receita líquida, atingindo o patamar de 25,2%. Em 2016, nossa administração foi a 17ª do Estado em

Liderança: a primeira mulher eleita a um cargo no executivo em 50 anos de história da Amunor Foto: ASCOM/Prefeitura de Santa Cecília do Sul

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investimento na área da educação e a 15ª em investimento na área da saúde. A senhora também é reconhecida por sua constante atuação nas federações municipalistas. Tal dedicação foi reconhecida com a eleição para a presidência da Amunor, a Associação dos Municípios da região Nordeste. Quais serão suas prioridades? Frente à Amunor, vou defender nossos municípios, sempre ouvindo as reivindicações das minhas colegas prefeitas e dos colegas prefeitos. Sei do grande desafio que é assumir a presidência de uma associação de tamanha importância para a região e para o estado. Também reconheço a força e grandeza que cada município representa para a nossa região e me sinto preparada e capaz para buscar alternativas para solucionar os problemas e atender as demandas dos municípios. Como a senhora analisa a participação feminina na política gaúcha? A participação da mulher na política ainda é pouco expressiva. Embora já tenhamos obtido grandes avanços, ainda é necessário percorrermos um longo caminho para atingirmos a igualdade na conquista dos espaços políticos. Certamente, quanto mais mulheres ocuparem espaços no executivo e no legislativo, mais mulheres serão motivadas a participar. A mulher possui um dom natural para o cuidado e amor ao próximo. Meu conselho é de que as mulheres devem participar da vida política e serem portadoras de uma nova forma de governança, baseada na solidariedade, no humanismo, na ética e no respeito.


ENTREVISTA

IVETE ZAMARCHI LUCHEZI Prefeita de Ibiraiaras Entrevista: Maria Becchi | Colaboração: Jociane Spagnol

O que significou para a senhora ser escolhida para comandar o executivo municipal de Ibiraiaras? Um grande desafio com imensa responsabilidade. Entrei na política há pouco mais de 2 anos e nunca tive pretensões nesta área. Minha vida profissional foi dedicada ao magistério estadual, o que muito me orgulha.

Tive, inclusive, a oportunidade de ser diretora da Escola de Ensino Médio Antônio Stella. Paralelamente, sempre exerci atividades voluntárias, mas nunca com o intuito de me promover para chegar ao cargo que hoje exerço. É certo que isso me ajudou a tomar a decisão de concorrer, mesmo porque sempre trabalhei com pessoas e busquei, através das minhas ações, o bem

comum, o que foi um diferencial avaliado pelos eleitores, que viram, em nosso projeto, a oportunidade de dar a Ibiraiaras um futuro melhor. A senhora acredita que exista alguma diferença marcante na forma de administrar entre um homem e uma mulher? Quais seriam elas? A mulher tem particularidades que as diferenciam não apenas na gestão pública, mas em outras atividades. Penso que, embora existam diferenças no agir, o mais importante é focar nos objetivos e finalidades da gestão, que devem ser o bem comum, através de projetos e ações que venham ao encontro dos anseios e necessidades do município, buscando, assim, a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos. E é com esse espírito e determinação que estamos trabalhando. De que forma as mulheres poderiam ampliar sua participação na vida política?

Ivete dedicou sua vida profissional ao magistério e ingressou na política há pouco mais de 2 anos Foto: ASCOM/Prefeitura de Ibiraiaras

A mulher tem um papel muito importante na sociedade, que, por muitos anos, ficou em segundo plano, mas que agora está cada vez mais presente em nosso meio, principalmente depois que houve a abertura democrática e a diminuição do preconceito até então existente. A política é o campo em que se tomam as decisões que influenciam o modo de vida de todas as pessoas, por isso é importante e necessário que hajam representantes de ambos os gêneros para que as coisas aconteçam de maneira a atender com equidade as demandas públicas. Para isso, penso que as mulheres precisam, cada vez mais, ter a consciência de que nosso papel é fundamental, não como forma de competir com os homens, mas como uma soma de esforços para o bem comum. EM EVIDÊNCIA | Ano 8 - Nº 59 - 2017

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PREFEITAS EM EVIDÊNCIA

ENTREVISTA

MARGARETE SIMON FERRETTI Prefeita de Nova Santa Rita Entrevista: Maria Becchi | Colaboração: Jesiel Boschetti

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os últimos anos, a administração pública de Nova Santa Rita tem sido reconhecida com a obtenção de importantes prêmios de gestão. Em 2015, 2016 e 2017, a cidade foi agraciada com o Prêmio Gestor Público, sendo que, em 2016, passou a integrar a seleta lista de 16 municípios detentores do maior troféu do Prêmio, quando foi escolhida como a melhor prática de gestão do ano, com o projeto de captação de recursos. O modelo de gestão bem sucedido levou Margarete a assumir seu segundo mandato consecutivo. A prefeita, que faz parte da atual diretoria da Famurs, pretende continuar fazendo história, uma vez que

está muito perto de se tornar a primeira presidenta da entidade. Confira abaixo a entrevista exclusiva concedida à revista Em Evidência.

O seu nome é o mais cotado para assumir a Famurs. Além disso, a senhora participa ativamente das atividades da entidade. Como a senhora analisa tal possibilidade?

Depois de um mandato com muitos avanços, o que seus eleitores podem esperar para os próximos anos?

Tenho consciência da enorme responsabilidade que é estar à frente de uma entidade como a Famurs. Há 42 anos que a entidade é administrada por homens. Se receber de meus pares esta confiança, representarei todas as prefeitas e prefeitos com muita dedicação e trabalho.

O grande desafio será conseguir acompanhar o crescimento da cidade e construir políticas públicas de regularização fundiária, mobilidade urbana, infraestrutura, saúde, educação… Temos que estimular a vinda de novos empreendimentos, negócios e empresas, para ampliar a economia. Como a senhora analisa a realidade do municipalismo hoje? Quais seriam as mudanças necessárias para que cheguemos ao menos perto do ideal? Cada vez mais aumenta a responsabilidade dos municípios. A comunidade cobra serviços de qualidade. É urgente uma nova divisão do bolo tributário, pois o governo cria programas, leis e não diz de onde sairão os recursos, e os municípios acabam tendo que resolver.

Foto: ASCOM/Prefeitura de Nova Santa Rita

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EM EVIDÊNCIA | Ano 8 - Nº 59 - 2017

Como a senhora analisa a participação feminina na política gaúcha? O que pode ser feito para que tenhamos uma participação maior? Temos, hoje, menos de 30 prefeitas, aproximadamente 6%. Ainda é muito tímida a participação das mulheres na política. Precisamos garantir espaços de debate e diálogo sobre temas de interesse comum. Incentivar as escolas a tratar sobre este assunto com as meninas e formar lideranças femininas. Acredito que, a partir do final do século passado, começamos a ocupar cargos de destaque na política. No governo do estado, com a Yeda Crusius; no senado, com a Emília Fernandez; na presidência da República, com a Dilma Rousseff; na Assembleia Legislativa, com a Silvana Covatti. Repare que são mulheres de quatro partidos distintos e acredito que todas elas mostraram seus potenciais. Eu faço parte de uma turma ainda muita seleta de prefeitas reeleitas, mas não deixa de ser uma prova de que o eleitorado já amadureceu a ponto de não deixar que a questão do gênero seja decisiva na hora de escolher. Tenho certeza que a igualdade é uma questão de tempo. Cabe a nós, mulheres, apenas acelerar este processo. Acredito que nossa democracia só será plena quando tal igualdade for real.


ENTREVISTA

CATEA ROLANTE Prefeita de Doutor Ricardo Maria Becchi

Por que a senhora escolheu a vida pública? Acho que não se trata exatamente de uma escolha. Acredito que, como qualquer outra profissão, é uma questão de vocação e missão. Mas tenho certeza que a principal causa desta escolha tem a ver com a relação da minha família com a comunidade. Sou filha de políticos e natural de Arvorezinha. Meu marido, Nilton Rolante, é natural de Caraá e foi prefeito de Doutor Ricardo de 2005 a 2012, quando tive a oportunidade de assumir como Secretária de Assistência Social. Assim que casamos, há quase trinta anos, escolhemos Doutor Ricardo para construir nossa vida. Foi justamente a receptividade da comunidade que me encorajou a tentar retribuir. Assim, nós dois trabalhamos juntos com toda a cidade no intuito de alcançar a emancipação do município, o que ocorreu em 1995. E como foi este processo? Muito desafiador, como qualquer processo de emancipação... Mas também foi um momento que serviu para unir ainda mais a população.Tive a felicidade e a honra de ser a segunda mais votada. Também quero deixar registrado que, já em seu primeiro pleito, Doutor Ricardo elegeu duas mulheres para ocupar as cadeiras da câmara municipal, o que demonstra um alto nível de politização do eleitorado. A senhora falou da receptividade da comunidade em relação a sua família. Seu marido foi prefeito em duas ocasiões e agora a senhora ocupa a cadeira de prefeita. Fale-nos um pouco mais desta relação. Existe um ditado que diz que nosso lar é onde está nosso coração. Acredito que esta relação, quase simbiótica,

Vereadora, secretária e prefeita: quando findar seu mandato, a prefeita terá prestado 20 anos como servidora pública de Doutor Ricardo, a terra do Filó Foto: ASCOM/Prefeitura de Doutor Ricardo

se deu por uma questão de identificação de valores mútuos. Acredito muito no trabalho, no respeito ao próximo e na força da família. Doutor Ricardo é como uma grande família. Quando findar meu mandato, serão 20 anos de prestação de serviços à comunidade, divididos entre câmara, secretaria e prefeitura. Considerando que a cidade terá apenas 24 anos, você pode concluir o que esta comunidade significa pra mim. Ocupando o posto político mais alto de Doutor Ricardo, qual marca a senhora pretende deixar para a história do município? Sinceramente, não me candidatei para realizar uma ambição pessoal. Acho que, se fui bem sucedida até agora, foi porque desde sempre compreendi o real

significado da função de um servidor público. Minha obrigação é manter um município que acolha seus cidadãos e que ofereça infraestrutura para que tenham uma vida digna e feliz. Para isso se realizar, é necessário manter o funcionalismo sempre alerta, incentivando aqueles que cumprem seu papel de forma exemplar e mudando, se isto for necessário. Acredito que uma característica minha seja a sensibilidade, bom senso, autenticidade e olhar igualitário para todos, para o bem estar da comunidade e suas necessidades. Claro que não posso descuidar da legalidade, gestão e ser justa, tomando as atitudes que julgar necessárias. Estou, juntamente com o vice-prefeito Álvaro Giacobbo e a equipe da administração municipal, trabalhando pelo nosso lugar, Doutor Ricardo.

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PREFEITAS EM EVIDÊNCIA

ENTREVISTA

TÂNIA TEREZINHA DA SILVA Prefeita de Dois Irmãos Maria Becchi | Colaboração: Leonardo Boufleur

A senhora, além de ser a única prefeita negra do estado, é uma das poucas a serem reeleitas. A quais fatores a senhora atribui tal cenário?

Foto: Leonardo Boufleur

Primeiramente, gostaria de deixar

claro o nível de maturidade que o eleitorado de Dois Irmãos alcançou ao me escolher para comandar o executivo municipal. Fui eleita e reeleita não pela minha condição de mulher e negra, mas pelo trabalho desenvolvi-

do no município. Isso deve servir de exemplo para todas as outras cidades do Rio Grande do Sul e do país, uma vez que o fator decisivo não foi cor ou gênero e, sim, a competência e a honestidade. Sobre a reeleição, atribuo à ótima equipe de trabalho, ao planejamento de gestão feito com metas e responsabilidade, além da transparência de tudo o que fizemos para a comunidade. Nos empenhamos para dar nosso melhor em cada trabalho. Por que a reeleição é tão difícil no RS? Acredito que a reeleição é tão difícil devido às dificuldades de governar um município. Já é difícil manter todos os serviços já existentes e as contas em dia. Além disso, o município é o último e o menos prestigiado na hora de distribuir a arrecadação dos impostos, enfrentamos a cobrança imediata da população, pois é na cidade que a vida acontece. O prefeito está sob a rígida lei de responsabilidade fiscal, enfrenta uma burocracia histórica para realizar ações que poderiam beneficiar a população de um dia para o outro. Com todas essas barreiras, fica difícil executar todas as melhorias que gostaríamos que fossem feitas, o que traz um desgaste natural. Como a senhora analisa a participação da mulher na política gaúcha?

Tânia, reeleita em 2016, foi a única mulher negra a ser eleita para o cargo de prefeita no estado do Rio Grande do Sul

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Nesta última década, houve um aumento da participação feminina na política, e é necessário continuarmos incentivando o empoderamento das mulheres, mas temos que conscientizar o eleitor de que não se deve votar na candidata ou candidato por ser homem ou mulher e, sim, por acreditar em seus projetos.


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AMVRS

CORINHA MOLLIG FORTALECE A AMVRS Sob a batuta da prefeita, a AMVRS consegui avanços importantes em 2017 Silvia Trovo

S

endo presidida pela primeira vez por uma mulher, a AMVRS, ao longo deste ano, focou esforços primando a união dos prefeitos das 12 cidades que a integram, e concentrou forças em ações em defesa de garantia à segurança pública no Vale do Sinos. Sob a batuta da prefeita de Sapiranga, Corinha Molling, a AMVRS liderou e protagonizou projetos como o do cercamento eletrônico da região que, por meio de recursos de emendas parlamentares federais, será possível cercar as cidades com câmeras com tecnologia OCR. A parceria com o Governo do estado do RS, que conveniou com a União, garantirá o investimento dos recursos neste projeto há muito tempo desejado pela região. A consolidação do consórcio público CPSINOS foi outro passo importante em 2017 para a AMVRS, que atua na aglutinação de interesses coletivos com a finalidade de promover a integração do Vale do Sinos, o 2º maior produto interno bruto do RS e região com grande potencial exportador e talento para produção calçadista e serviços. Por meio do recém implantado CPSINOS, será possível realizar não apenas compras coletivas, mas contratar serviços e promover ações regionais de interesse coletivo. Neste ano, o tema segurança pública foi pauta constante na AMVRS, que realizou, a cada mês, debates comunitários sobre a importância de presídios na reconstrução da segurança social. Com a parceria de autoridades no assunto, o seminário “Presídios: a Responsabilidade Também é Sua”, percorreu diversas cidades sob jurisdição da AMVRS, levando, às comunidades, conhecimento e conscientização de que, qualquer so-

A consolidação do Consórcio Público dos Municípios do Vale dos Sinos (CPSINOS) foi outro passo importante para a AMVRS em 2017, presidida pela prefeita de Sapiranga, Corinha Molling Foto: Silvia Trovo

lução para os problemas de falta de segurança na região, passa pela construção de casa prisionais e a comunidade precisa estar aberta ao diálogo. Também numa homenagem aos 180 anos da Brigada Militar no RS, a AMVRS concentrou, em Sapiranga, a homenagem regional dos prefeitos à corporação, num evento que reuniu mais de 600 pessoas

no Centro Municipal. Também com vistas a colaborar com o bem estar da comunidade, a AMVRS promoveu, em novembro, o seminário “O Protagonismo dos Municípios na Segurança Pública”, reunindo, no Auditório Azul da Universidade Feevale, em Novo Hamburgo, experiências exitosas de cidades gaúchas na área se segurança pública. EM EVIDÊNCIA | Ano 8 - Nº 59 - 2017

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CONGRESSO EM EVIDÊNCIA

ENTREVISTA

MARIA DO ROSÁRIO Deputada Federal Maria Becchi

Como a senhora avalia o cenário da participação feminina na política brasileira? Avalio como muito negativo. Há quase 90 anos, as brasileiras conquistaram seus direitos políticos, antes mesmo de países como a França, a Suíça e outros. Contudo, seguimos ocupando o 155º lugar no ranking de participação feminina nos parlamentos. A sub-representação é tão profunda que, se somássemos todas as mulheres eleitas na história da Câmara dos Deputados, não alcançaríamos sequer a metade

do total de 513 deputados que compõe uma única legislatura. Na prática, isso significa que a vida das mulheres não está em suas mãos. Somos mais da metade da população, mas as leis que regem o que fazemos com nossos corpos, que regulamentam nosso lugar no mundo são escritas quase que exclusivamente por homens. Sendo a maioria do eleitorado formado por mulheres, esta participação não deveria ser mais ampla?

porque uma democracia realmente representativa não pode ser baseada na exclusão, e é isso o que ocorre quando 90% da Câmara é formada por homens. Destaco, porém, que se olharmos outros contingentes populacionais veremos que o tamanho do seu eleitorado não se reflete automaticamente nos espaços de decisão. O Congresso Nacional é branco, masculino e possui uma média de idade altíssima, nada mais distante das características predominantes do povo brasileiro.

Essa proporção deveria ser mais ampla

Para enfrentar essa situação, é preci-

Na foto, uma ilustração fiel da realidade atual do cenário político brasileiro

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ENTREVISTA Fotos: Divulgação

so que sejam promovidas mudanças institucionais, tais como: distribuição mais igualitária de recursos para campanhas, reserva de cadeiras para mulheres, negros e negras, e indígenas, combinadas a medidas que, no plano cultural, contribuam para a construção de uma sociedade livre do machismo e do racismo, em que as oportunidades não se fechem em função do gênero, raça ou condição social de um indivíduo, tal como acontece hoje. Até que ponto o fato de a presidente Dilma ser mulher influenciou na aplicação do impeachment? O afastamento da presidenta Dilma se deu fundamentalmente em função de divergências entre os setores mais retrógrados da sociedade brasileira, e o projeto político escolhido pelo povo por quatro eleições consecutivas. A oposição mais raivosa fazia ataques constantes de conotação sexual à Dilma, enquanto outros oscilavam

(...) se olharmos outros contingentes populacionais veremos que o tamanho do seu eleitorado não se reflete automaticamente nos espaços de decisão. O Congresso Nacional é branco, masculino e possui uma média de idade altíssima, nada mais distante das características predominantes do povo brasileiro

“Nesta legislatura, fui a única mulher eleita deputada federal pelo Rio Grande do Sul, Estado que já teve mulheres dentre as mais votadas, mas que, em 2014, registrou esse retrocesso”, afirmou a deputada federal Maria do Rosário

dizendo que esta era uma marionete de Lula ou que era dura demais, estressada, e até mesmo histérica. Estereótipos nos quais a todo o momento nós, mulheres, somos enquadradas. O fato de as críticas ultrapassarem o âmbito político e se diferenciarem tanto das que são dirigidas aos homens na mesma condição exibem a face machista do golpe. Em seu gabinete existe algum plano para incentivar a participação feminina na política? Sim, existe. Nesta legislatura, fui a única mulher eleita deputada federal pelo Rio Grande do Sul, Estado que já teve mulheres dentre as mais votadas, mas que, em 2014, registrou esse retrocesso. Foi por reconhecer as inúmeras di-

ficuldades enfrentadas pelas mulheres na política e a fragilidade expressa pela baixíssima representação feminina do meu estado no Parlamento, que nosso mandato criou o projeto “Podemos Mulheres!”. Este visa contribuir para que as mulheres percebam a ação do machismo no nosso dia a dia, bem como a necessidade de uma atuação coletiva que nos permita romper as barreiras que ainda nos são impostas. Assim, desde 2015, temos buscado fortalecer o compromisso de atuar junto às lutas das mulheres gaúchas do campo e da cidade, junto aos movimentos e categorias profissionais, incentivando o lançamento de candidaturas femininas por meio de um processo de formação política e criação de redes de apoio constantes, que já tem apresentado resultados.

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CONGRESSO EM EVIDÊNCIA

ANA AMÉLIA LEMOS Senadora da República Maria Becchi

Em recente pesquisa, a senhora aparece como a melhor parlamentar do congresso entre os 594 parlamentares avaliados. A que fatores a senhora atribui este resultado? Tenho uma equipe que me ajuda e que, mesmo pequena, quando comparada aos demais gabinetes do senado, tem uma produtividade exemplar, que é avaliada. Procuramos, sempre que possível, valorizar o desempenho de cada um. Maior estímulo, maior produtividade. Tenho cuidado, também, com a qualidade da produção legislativa. Não basta propor muitas leis, mas sim leis que sejam necessárias. Hoje, cinco leis e uma emenda constitucional de minha autoria estão em vigor, isso em sete anos de mandato, além de cerca de 90

Creio que, com a Lava Jato, é cada vez mais importante o papel do Ministério Público, da Polícia Federal, do Poder Judiciário, da mídia e das redes sociais, as quais levo muito a sério e faço um trabalho muito atento no combate à corrupção. Esse acompanhamento da sociedade em relação ao que está sendo feito é de enorme relevância

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projetos apresentados, todos elaborados com apoio de especialistas em cada assunto e com todas as partes envolvidas ouvidas, para garantir o equilíbrio necessário. Fico feliz cada vez que encontro uma pessoa relatando o resultado, para sua vida, de uma lei minha. É bom lembrar ao cidadão que um projeto de lei tem uma longa tramitação. Primeiro no senado e depois na câmara, em várias comissões técnicas. Mesmo com resistências e conflitos de interesse, sempre trabalhei junto aos relatores do senado e da câmara para que as leis pudessem ser aprovadas. Também destaco que, desde que assumi o mandato, em 2011, gasto apenas 30% da verba que tenho à disposição. Abri mão do auxílio-moradia e utilizo a cota da gráfica para imprimir livros que são enviados a estudantes ou instituições públicas de ensino, em vez de imprimir discursos ou outros materiais. Preciso dizer, por fim, que todas as minhas iniciativas legislativas são sugeridas pela sociedade. A senhora é oriunda de um estado onde, apesar de haverem fortes expoentes políticos do gênero feminino, a participação proporcional ainda fica muito aquém. Por que a senhora acredita que este cenário ainda persiste no meio político? Nós temos, hoje, duas deputadas federais, Yeda Crusius e Maria do Rosário, mas poderíamos ter mais. Já tivemos uma senadora, Emília Fernandes, já tivemos uma governadora, temos várias prefeitas eleitas - 26 em todo o Estado - que têm grande destaque e fazem um trabalho extraordinário. Meu partido tem mulheres prefeitas com avaliações positivas em suas gestões, inclusive sendo reeleitas. Cito também o exemplo da prefeita de Dois Irmãos, minha amiga Tânia Terezinha da Silva, que é mulher e é negra, uma figura notável, um

Espero que cada vez mais as mulheres gaúchas sejam protagonistas, participando da política e sendo candidatas


ENTREVISTA exemplo de combatividade. Também temos número razoável na Assembleia, onde uma correligionária progressista, Silvana Covatti, para minha alegria, foi a primeira mulher a presidir a Casa em 180 anos de história. A Assembleia ainda tem outras parlamentares muito

atuantes. O número de vereadoras também vem aumentando. Tem estados que não elegem mulheres. Então, o Rio Grande do Sul, mesmo o número não sendo tão elevado, ainda tem alguma representatividade. Espero que cada vez mais as mulheres gaúchas sejam protaFoto: Assessoria de Imprensa/Senadora Ana Amélia

Em Evidência A senadora Ana Amélia Lemos, foi capa da edição n°15.

gonistas, participando da política e sendo candidatas. A senhora é reconhecida por sua postura idônea e de grande lisura. Como a senhora analisa esse escândalos intermináveis no congresso? A senhora acredita que as recentes prisões de grandes nomes da política podem representar uma nova etapa na história do nosso país? Creio que, com a Lava Jato, é cada vez mais importante o papel do Ministério Público, da Polícia Federal, do Poder Judiciário, da mídia e das redes sociais, as quais levo muito a sério e faço um trabalho muito atento no combate à corrupção. Esse acompanhamento da sociedade em relação ao que está sendo feito é de enorme relevância. É preciso que o eleitor tenha critérios rigorosos para fazer suas escolhas. O voto é secreto e democrático. Mas, na hora de dar o seu voto, o eleitor precisa avaliar o que o parlamentar fez e o que poderá fazer. No dia da posse da procuradora-geral da República, Raquel Dodge, passamos por uma depuração do sistema político brasileiro. É por isso que temos que passar agora e acho que a eleição de 2018 é a grande prova. Por que a senhora acha que o Partido Progressista tem os seus melhores números eleitorais no Rio Grande do Sul? Tradicionalmente, desde o início de sua formação, quando era o bipartidarismo, o partido sempre se posicionou com atitudes e comportamento coerentes e lideranças com conduta ética. O partido é organizado e sempre teve presidentes comprometidos. Temos uma base forte no interior e, agora, também na região metropolitana, e prefeitos que fazem gestões sérias e transparentes.

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CAPA

YEDA CRUSIUS Primeira mulher a ocupar o cargo de governadora no estado do Rio Grande do Sul Maria Becchi

Foto: Alexsandro Loyola

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Demorou muito para chegar o tempo em que mulheres alcançassem postos de liderança nos três poderes e também em entidades sociais de destaque em nosso estado. A senhora alcançou o lugar mais alto deles, sendo a primeira mulher a governar o RS. O que isto significou na sua vida e quais foram, em sua opinião, os principais obstáculos encontrados nesta trajetória? A senhora acredita que o simples fato de ser mulher tornou o processo mais desafiador? Certamente sim, e foi desafiador. Por isso firmei meu compromisso em fazer com que o caminho aberto pelas pioneiras possa ficar como lembrança do passado, o quanto antes melhor, porque haver mais mulheres em postos de comando indica que a sociedade se tornou mais aberta, menos preconceituosa, mais respeitosa no que tange à questão da mulher. Há

um infinito ainda a fazer nesse campo, que vai da mudança no mundo do trabalho, no qual empresas privadas também devem ser abertas na redução das desigualdades, até a educação para a igualdade e para a paz. Mais especificamente na política, vivemos um enorme paradoxo em relação à realidade da participação feminina na vida pública. Como explicar tal realidade, uma vez que nosso eleitorado é majoritariamente formado por mulheres? De que forma esta realidade pode ser modificada? Os partidos políticos ainda não assimilaram essa agenda que é mundial, a agenda da participação política das mulheres. Leis já foram feitas, como a Lei das Quotas, e instituições como o Tribunal Superior Eleitoral estão atuando para fazer com que uma maior igualdade no preenchimento de es-

ENTREVISTA

(...) firmei meu compromisso em fazer com que o caminho aberto pelas pioneiras possa ficar como lembrança do passado, o quanto antes melhor, porque haver mais mulheres em postos de comando indica que a sociedade se tornou mais aberta, menos preconceituosa, mais respeitosa no que tange à questão da mulher.

Foto: Robson Gonçalves Paula

Atualmente, a deputada federal também é presidente do PSDB Mulher

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Foto: George Gianni

CAPA

Os partidos políticos ainda não assimilaram essa agenda que é mundial, a agenda da participação política das mulheres. Leis já foram feitas, como a Lei das Quotas, e instituições como o Tribunal Superior Eleitoral estão atuando para fazer com que uma maior igualdade no preenchimento de espaços políticos seja mais efetiva.

(...) porque haver mais mulheres em postos de comando indica que a sociedade se tornou mais aberta, menos preconceituosa, mais respeitosa

paços políticos seja mais efetiva. Nós, do PSDB Mulher, temos feito cursos de capacitação para candidatas e para eleitas, e em número de votos dos eleitores obtivemos um crescimento que, embora pequeno, mostra que esse é o caminho: capacitação e conscientização para a questão da mulher na política. Recentemente, a senhora afirmou que, apesar das melhorias que a lei Maria da Penha tem trazido ao combate à violência feminina, ainda seria necessário aprimorar o texto que trata da violência contra as mulheres. De que forma isso poderia ser feito e, em sua opinião, por que, apesar das recentes modificações, o Brasil ainda está entre os cinco mais países com maior número de feminicídio? A cultura da violência impera no

Em Evidência A então governadora, Yeda Crusius, foi capa da edição n°3.

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ENTREVISTA

país, e isso tem resultado em crescimento significativo na violência doméstica e, em especial, na violência contra a mulher. Além do aprimoramento no campo das leis, é fundamental agir todos os dias na mudança de cultura, através da educação e de políticas públicas para a prevenção da violência, como fiz com meu PPV (Programa de Prevenção da Violência), no nosso governo, que reduziu os índices de criminalidade e de violência. Alguns especialistas apontam muitas semelhanças entre o seu governo e o do atual governador, José Ivo Sartori, principalmente no que tange à preocupação do saneamento das dívidas públicas. Até que ponto a senhora acha que tal afirmação é verídica? A senhora apoia o parcelamento do salário do funcionalismo público, por exemplo? Ninguém apoia parcelar o salário dos servidores sem governar com uma perspectiva de melhora. Tem sido um imperativo do governo Sartori, que herdou um déficit de 20 bilhões de reais e total incapacidade de pagar as contas em dia. Ao contrário do período anterior, que fez o contrário quan-

to às finanças públicas, governando com total irresponsabilidade nessa área, o atual governo tenta saneá-las, como é de sua responsabilidade, já que se propôs a governar o estado falido. Essa é a nossa semelhança: responsabilidade fiscal. A senhora é formada em economia e já foi “administradora” do Rio Grande do Sul. Em sua opinião, se o nosso estado fosse uma empresa, já estaria falido? Tomei a decisão política de usar bem o dinheiro público, então governei o estado de 2007 a 2010 conquistando melhoria nos indicadores sociais e investimentos em todas as áreas, além de colocar as finanças em ordem. Agi como administradora de uma empresa pública da qual dependem todos, em todas as áreas. Mas se o estado fosse uma empresa com as políticas que adotou em sequência ao nosso governo, faliria sim. É por isso que, falido como está, está dependendo de credores como a União para fazer a sua “recuperação judicial”.


CAPA

PERFIL

SILVANA COVATTI Primeira mulher Presidente da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul Texto: Bruna Longaray | Edição: Maria Becchi

Foto: ASCOM/ALRS

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CAPA Foto: Chico Pinheiro/Revista Em Evidência

Perfil Político

Silvana Franciscatto Covatti é natural de Frederico Westphalen. Antes de se tornar uma campeã de votos na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, Silvana se dedicou, como voluntária, aos bastidores da política durante mais de vinte anos, ao lado do marido Vilson Covatti. Nesse período, Silvana Covatti assumiu a Presidência da Mulher Progressista do RS. Em 2006, concorrendo pela primeira vez, foi eleita deputada estadual com a maior votação entre as mulheres, conquistando 65.547 votos. Em 2010, foi a mais votada da Assembleia Legislativa, com 85.604 votos. Nas eleições de 2014, superou sua própria votação obtendo 89.130 votos, maior votação da Bancada Progressista no parlamento gaúcho.

Ao final de seu mandato, Silvana devolveu aos cofres públicos R$ 38,5 milhões. Esse dinheiro foi economizado com a diminuição de viagens, diárias e outros gastos que puderam ser evitados.

Pela primeira vez, em 180 anos de história do parlamento gaúcho, uma mulher foi eleita presidente da Assembleia Legislativa

Em 2016, Silvana viveu um dos maiores desafios de sua vida pública: Foi a primeira mulher a assumir a Presidência da Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul.

Presidência da Assembleia Legislativa do RS

PL 187/2013, Institui o Programa “Mulher na Política”, dispondo sobre medidas de incentivo à participação feminina na política.

PEC 239/2015: Determina a exigência de nível superior e prova de título para concurso público da brigada militar e corpo bombeiros.

PL 497/2015: Isenta a taxa de solicitação de segunda via de Carteira de Identidade - CI, Carteira Nacional de Habilitação – CNH e do Certificado de Registro e Licenciamento de Veículo – CRLV, para pessoas vítimas de calamidade pública ou em situação decorrente de caso fortuito ou força maior.

PL 260/2015: Garante a divulgação dos direitos das pessoas com neoplasia maligna – câncer – pelos órgãos públicos do estado do Rio Grande do Sul, mediante links ou interfaces de constatação e acesso.

PL 128/2014, Dispõe sobre a participação do estado do Rio Grande do Sul no Programa Minha Casa Minha Vida, estabelecendo regras equânimes na prestação de contas do Programa de Ações Habitacionais.

Principais Projetos de autoria de Silvana Covatti na Assembleia

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Pela primeira vez, em 180 anos de história do parlamento gaúcho, uma mulher foi eleita presidente da As-

PL 183/2011, Institui, no âmbito do Rio Grande do Sul, o Dia Estadual de Prevenção e Enfrentamento ao Crack, associando o incentivo ao esporte, cultura e arte. PL 50/2007, Declara integrante do patrimônio histórico e cultural do Estado o dialeto “Talian”, originado dos italianos e descendentes radicados no Rio Grande do Sul.


PERFIL

Pela primeira vez, em 180 anos de história do parlamento gaúcho, uma mulher foi eleita presidente da Assembleia Legislativa

sembleia Legislativa. No dia três de fevereiro de 2016, Silvana Covatti passou a exercer o comando da “Casa dos Gaúchos”. O Rio Grande estava ansioso por esta experiência, concedida com o apoio unânime dos demais 54 parlamentares. Inicialmente, houve muita expectativa com relação ao desempenho de uma mulher no comando de uma instituição composta, historicamente, por uma maioria masculina.

Tudo isso em um ano atípico, com Olimpíadas e eleições municipais. Em âmbito nacional, o país enfrentava a pior fase das crises econômica e política. Os índices de desemprego subiam junto dos indicadores de inflação, ao mesmo tempo em que a presidente da república sofria o impeachment. No Rio Grande, esse cenário agravou a crise das finanças públicas, com reflexo direto na prestação de serviços públicos como saúde, educação e segurança.

Em Evidência Silvana Covatti foi destaque na revista Em Evidência em várias ocasiões, com relevância especial nas edições 14 e 54, nas quais foi a protagonista da matéria de capa.

Diante desse enorme desafio, Silvana estabeleceu princípios que orientaram o trabalho de sua equipe e comunicaram ao Rio Grande a maneira como estava sendo exercido o mandato: Igualdade, participação e gestão. Ao final de seu mandato, Silvana devolveu aos cofres públicos R$ 38,5 milhões. Esse dinheiro foi economizado com a diminuição de viagens, diárias e outros gastos que puderam ser evitados. Com essa economia, foi possível utilizar o dinheiro para finalidades mais importantes, como o atendimento em saúde.

Governadora Interina do Estado do Rio Grande do Sul

Enquanto presidente da Assembleia Legislativa, a deputada Silvana Covatti assumiu o Governo do Estado do Rio Grande do Sul durante o período de quatro dias, no mês de janeiro de 2017.

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CAPA

NÁDIA RODRIGUES GERHARD Vereadora e primeira mulher a comandar um Batalhão de Polícia Militar no Rio Grande do Sul Entrevista: Maria Becchi | Colaboração: Carolina Correa Fotos: Tonico Alvarez

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ádia Rodrigues Silveira Gerhard é natural de Porto Alegre, tem 49 anos, filha única de sargento da Brigada Militar e de professora estadual, é casada e mãe de três meninos. Formada em Letras, já foi professora, com especialização em psicologia escolar pela PUCRS. Hoje, é Tenente Coronel da Reserva da Brigada Militar e teve uma trajetória profissional pioneira na instituição, a qual ingressou em 1989 e atuou por 27 anos na linha de frente do policiamento ostensivo. No ano de 2007, no posto de Major, foi a primeira mulher designada para comandar um Batalhão de Polícia Militar no estado do Rio Grande do Sul. Assumiu, então, o 40º BPM, sediado em Estrela, e com responsabilidade administrativa e operacional por 11 municípios do Vale do Taquari. Em 2012, repetiu o ineditismo, foi designada e comandou por três anos na Capital, o 19º BPM, com atuação em toda a zona leste de Porto Alegre. No mesmo ano, implementou e coordenou a Patrulha Maria da Penha no Rio Grande do Sul, projeto ousado e pioneiro em âmbito nacional, onde, pela primeira vez na história, a Polícia Militar teve como objetivo fazer cumprir as medidas protetivas de urgência, protegendo as mulheres vítimas de violência doméstica. Em 2015, como Diretora de Justiça na Secretaria Estadual de Justiça e Direitos Humanos, foi responsável pela elaboração e publicação do Plano Decenal de Medidas Socioeducativas do Estado. Em 2016, a Comandante Nádia elegeu-se vereadora em Porto Alegre. Como parlamentar, tem dedicado o mandato a ações voltadas especialmente à segurança pública, à defesa dos direitos da mulher e ao empreendedorismo, propondo diversas ações nesta linha.

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ENTREVISTA Também foi eleita procuradora especial da mulher, na Câmara de Vereadores de Porto Alegre, e é a vice-presidente da Comissão de Defesa do Consumidor, Direitos Humanos e Segurança Urbana (CEDECONDH). O que significou para a senhora ser a primeira mulher a comandar um batalhão da Brigada Militar? Fico muito orgulhosa de ter sido a primeira mulher a comandar um Batalhão de Polícia Militar em nosso estado, pois esta assunção teve vários significados... Para a Brigada Militar, foi uma quebra de paradigmas. Esta nova visão da mulher comandante foi necessária para a credibilidade e perpetuação da instituição, uma vez que teve que se adaptar aos novos tempos, onde vemos que a mulher moderna participa de todos os setores e tem sido protagonista de muitas atividades. Para as mulheres brigadianas, reforçou a convicção de que podemos atuar com a mesma tenacidade, profissionalismo e parceria com os colegas homens. Para as gaúchas, comprova que lugar de mulher é onde ela quiser, pois, com competência, postura e conhecimento, ela desempenha qualquer função. Para mim, a consciência da responsabilidade e imensa gratidão aos colegas de farda que ombrearam lado a lado as mais diversas missões para que pudéssemos entregar um bom serviço à sociedade. A senhora também atuou com destaque na Secretaria Estadual de Justiça e Direitos Humanos. Fale-nos um pouco desta experiência. A minha passagem pela SJDH, secretaria que hoje também engloba a Secretaria do Trabalho, foi de grande importância e de muito aprendizado. Fui Diretora de Justiça, e responsável pela construção do Plano Decenal da Socioeducação do Estado; também posso pontuar o trabalho desenvolvido no PROTEGE (Programa de Proteção à Testemunha Ameaçada), onde o estado protege aqueles que denunciam e podem ajudar na elucidação de crimes graves. No PROTEGE, além de haver sempre buscado otimizar

Como parlamentar, Nádia tem dedicado o mandato a ações voltadas especialmente à segurança pública, à defesa dos direitos da mulher e ao empreendedorismo

Política, para mim, não é uma profissão, mas uma vocação que exercemos em todos lugares, em quase todos os momentos. os recursos humanos e materiais, reestabelecemos o Conselho Deliberativo do PROTEGE (CONDEL), com maior autonomia e poder de decisão acerca dos casos de inclusão e desligamento do programa, o que com certeza aprimora e concede credibilidade ao PROTEGE. A senhora é um dos expoentes da lei Maria da Penha. Como anda esta luta tão importante na conquista dos direitos das mulheres? No decorrer dos anos, assistimos um aumento no óbito e maus tratos de mu-

lheres vítimas de violência doméstica em nosso estado. Constatamos que, ano após ano, mulheres morreram dentro de seus lares, local que deveria servir de refúgio, de acolhimento, de proteção, de unidade familiar. Estas mulheres tiveram suas vidas ceifadas por agressores que, infelizmente, não foram devidamente impedidos pelo poder público. A violência doméstica atinge milhares de mulheres independente da idade ou classe social. A maioria dos casos ocorre dentro de casa e os agressores são os maridos, companheiros ou pessoas com

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ENTREVISTA

“(...) vemos que a mulher moderna participa de todos os setores e tem sido protagonista de muitas atividades.”

quem a vítima possuía relação afetiva. De acordo com as estatísticas apresentadas, de cada três mulheres, uma sofreu ou irá sofrer violência doméstica no Rio Grande do Sul. O exposto inquieta e envergonha toda a sociedade gaúcha e por este motivo, a Patrulha Maria da Penha se faz necessária como política transversal, que resulta na erradicação desses índices. A lei 11.340, mais conhecida como Lei Maria da Penha, foi uma grande conquista para as mulheres brasileiras, completando 11 anos em 2017; neste mesmo ano, a Patrulha Maria da Penha completou seu quinto ano de atuação e comprovou a sua eficiência e eficácia ao garantir o cumprimento da lei. A Patrulha não atua sozinha: conta com uma rede de colaboração que envolve a Polícia Civil, Ministério Público, Instituto Geral de Perícias, SUSEPE, redes de

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assistência social e saúde, entre outros, buscando assegurar não apenas a proteção da mulher como também de sua família. Fico lisonjeada ao relembrar o trabalho que resultou na implantação da Patrulha Maria da Penha no RS. Este constituiu saldo exitoso de um esforço concentrado e conjunto, onde muitos deram a sua contribuição culminando na adoção de um instrumento fundamental para a segurança das mulheres gaúchas. A senhora foi eleita em sua primeira experiência eleitoral. Além disso, seu nome é contado como certo para concorrer ao legislativo estadual. Até que ponto estes fatores influenciarão sua decisão em uma possível candidatura em 2018? Primeiramente, quero agradecer aos

6.809 eleitores que votaram em mim na primeira vez que concorri, pois compreenderam a minha proposta. Eu não sou política. Política, para mim, não é uma profissão. Mas uma vocação que exercemos em todos lugares, em quase todos os momentos. Quando a gente se mobiliza na vizinhança para ter mais segurança em nossa rua, quando os pais se unem para manter a creche do bairro aberta, quando defendemos um colega que sofreu um ato de racismo ou homofobia... Em todos estes casos, estamos fazendo política. Por isso, eu repito: a política faz parte de nossas vidas. Portanto, vamos colocar a nossa vida, a nossa alma e o nosso coração para fazer a diferença. Sobre o cenário de 2018, tudo ainda está indefinido, mas, enquanto eu for útil, enquanto eu puder ajudar, enquanto a minha voz ampliar a voz da sociedade, eu estarei na política lutando.


CAPA

PERFIL

FÁBIA RICHTER Prefeita reeleita de Cristal Maria Becchi

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urante 90 dias, a equipe da revista Em Evidência foi em busca das mulheres que estão escrevendo a história do Rio Grande. Não aquelas que ficaram “por trás de um grande homem”, mas aquelas que, contra todas as probabilidades, arriscaram suas carreiras, sacrificaram o pouco tempo com a família e saíram da zona de conforto para dar a cara à tapa, tudo nome da vontade de fazer a diferença em prol do bem comum. Para a maioria delas, a política se apresentou como novidade, e talvez, por isso mesmo, a maioria delas parece trazer consigo uma esperança quase inocente, um idealismo real de acreditar que realmente podem fazer acontecer. No melhor sentido da expressão, “não sabia que era impossível, foi lá e fez”. Não podemos afirmar que Fábia Richter é a melhor prefeita, apenas escolhemos a história dela como foco principal da revista por sua sua biografia conter todas as faces de um caleidoscópio brutal que algumas pessoas enfrentam na tentativa de obter a oportunidade de melhorar a vida das pessoas, mas são barradas única e exclusivamente por sua condição física, ou seu gênero, se assim soar melhor. Grande parte das prefeitas que hoje administram os municípios gaúchos foram reeleitas, algumas com vantagens esmagadoras sobre seus oponentes. Agora, imagine quantas candidatas poderiam estar sendo reeleitas neste momento... Imagine quantos eleitores foram prejudicados por seu próprio preconceito… Richter não veio de família tradicional, nem é esposa de alguém rico e influente. Ao contrário, é divorciada, tem dois filhos e seu companheiro discreto também é um homem que respeita sua competência, provando que, ao lado de uma grande mulher, também está um grande homem, talvez até maior que aquele outro, do início deste texto.

Do hospital para o gabinete

Fábia optou por servir, desde sempre. E foi em sua rotina de enfermeira que entendeu que salvar vidas é uma questão muito mais complexa do que as emergências dos postos de saúde podem lidar. Que segurança não é prender, que saúde não é remediar… Em ambos os casos, se trata de prevenção, afinal, todos os problemas pessoais formam mazelas sociais de um grande mosaico chama-

Fotos: Carlota Pauls

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PERFIL

Liderança regional: Fábia também presidiu a Associação dos Municípios da Costa Doce, por dois mandatos

do cidade, estado e país. A saída para ajudar um indivíduo é transformar o cenário inteiro, é ter a competência e o poder de decidir. Nisso está a vocação de todos aqueles bem intencionados que escolheram a política, pois a política é o único meio e, acredite, não há outro. Desde o grêmio estudantil até a presidência da república.

Vencendo o preconceito

Como toda as mulheres e como todos aqueles que sofrem a opressão do preconceito, Fábia sentiu a inevitável necessidade de provar o quanto aqueles

Em Evidência A prefeita de Cristal, Fábia Richter, já foi capa da publicação.

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que atravancavam seu caminho estavam errados. Fez um mandato dentro das possibilidades, com pouco dinheiro e muita criatividade. Fortaleceu a estrutura social do município, investido a máquina pública no bem-estar das pessoas e humanizando seu gabinete. Colheu os frutos numa reeleição arrasadora quando dobrou as cadeiras do partido na câmara e conseguiu o apoio até da oposição, numa atitude nobre da comunidade de Cristal, que se mostrou acima da pequenices e do mau exemplo vindo das instâncias superiores.

Na atitude de Fábia, a coragem daquelas que podem mudar

Do jeito que chegamos até aqui não dá mais. Foram os homens que nos tiraram das cavernas, e nos trouxeram sãos e salvos ao topo do reino animal. Mas, de repente, o planeta ficou pequeno e o progresso e se tornou apenas o último

modelo do celular, do carro, do anúncio na televisão e a evolução estagnou na superficialidade do imediatismo materialista. Contra isso, há uma enorme necessidade de reagir. Pessoas como eu e você já viram este filme e sabem que ele tem sempre o mesmo fim. Ao ser moderno, não basta mais a forma, ele carece de conteúdo. É hora de dar passagem às mulheres, é hora da sensibilidade. Precisamos do amor da mãe para socorrer uma humanidade que clama por novas formas de ser e de perceber. Vamos nos permitir, de Angela Merkel a Donald Trump há um abismo bem fácil de perceber. O Rio Grande da vanguarda, da coragem que só a bondade tem, precisa voltar os olhos às mulheres. Precisamos de Fábias, Jusenes, Clenis, Marcias, Selmiras, Cláudias, Adrianas, Ivetes, Margaretes, Cateas e Tânias, mas, mais do que isso, precisamos de eleitores com impetuosidade suficiente para apostar no diferente.


CAPA | FLASH

PERFIL

FÁBIA RICHTER Seja representando seu município ou grandes entidades como a CNM e a Famurs, confira, nas imagens que seguem, as atuações de destaque desta liderança regional

Fotos: Acervo Pessoal

Maria Becchi

Troféu Mulher Cidadã 2017 Na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, prefeita é agraciada, diante presença de diversos deputados estaduais

Reeleições 2016 Abraço emocionado no pai, Adelso Richter, no dia da vitória

Tudo ao mesmo tempo, agora Na imagem, juntamente com sua assessora, Silvana. O ritmo de Fábia é, com certeza, um dos seus diferencias de gestão

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CAPA | FLASH

CNM Em dois momentos, na Câmara dos Deputados de Brasília. Durante discussão na Comissão da Saúde e palestrando para secretários de saúde de todo o país

Piratini Ao lado do governador, José Ivo Sartori e diversas lideranças do sul e centro-sul do estado, apresentando demandas das regiões

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PERFIL

Fecomércio/RS Em debate sobre a duplicação da BR 116

Congresso Sendo recebida pela senadora Ana Amélia Lemos

Colegas Ao lado de lideranças femininas, durante o 1º Congresso da Mulher, realizado pela Famurs e coordenado por Fábia Richter

Instituto Educacional Dimensão - Camaquã Ao lado de alunos do curso técnico de Enfermagem e com o grupo de trabalho da instituição, que coordena há mais de 15 anos

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CAPA | FLASH

Cooperação Com mulheres da Cooperativa de Desenvolvimento do Trabalho da Mulher (Mulher Coopera)

Família Ao lado do marido, Ângelo Márcio Marinho

Família Com os filhos, Rafaella e Otávio Richter

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Consciência Com equipe da saúde em atividade do Outrubro Rosa

Revitalização da Praça Central de Cristal Movimento comunitário permitiu que todos os envolvidos ajudassem na plantação


PERFIL

Semana Farroupilha Durante a data, cavalgando nas ruas de Cristal

Equipe Junto aos colegas de trabalho

PSB Ao lado dos colegas da bancada do partido na câmara

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CAPA

SIMONE LEITE Primeira mulher a presidir a Federasul Maria Becchi | Fotos: Tonico Alvarez

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Além de ser a primeira mulher a presidir a Federasul, a senhora é a primeira presidente eleita através de uma eleição com duas chapas, e não por aclamação, como fora até então. O que isso representou para a senhora e como a senhora lida com tamanha responsabilidade? A eleição com duas chapas representou um grande passo de independência e de democracia para a Federasul e uma grande conquista pessoal e profissional para mim, como empresária, além da abertura da entidade para o voto direto das filiadas. Acredito que essa vitória foi ao encontro da proposta de renovação esperada pela entidade, sendo uma responsabilidade dupla, ao ser a primeira mulher a presidir a Federação e ainda ter sido eleita numa disputa. Essa conquista me incentivou a buscar ainda mais uma mudança efetiva e positiva para a entidade, mostrando a força empresarial feminina para o cresci-

mento do Rio Grande do Sul. A Federasul costuma ter uma postura mediadora entre políticos e empresários, vide os convidados do “Tá na mesa”. Em sua opinião, qual a importância deste diálogo contínuo e de que forma tal ação pode ser benéfica aos entes da Federação? Por muito tempo, a Federasul foi proibida de falar sobre política. Mas não falar sobre um assunto que interfere diretamente na nossa rotina e na nossa economia, não é mais possível. Nós precisamos discutir sobre política, compreender, conhecer e debater sobre ela. E nada melhor do que discutir isso dentro da classe produtiva, que trabalha, na prática, para o desenvolvimento do estado. Percebemos que já era hora de agirmos como cidadãos e como empresários, criando um espaço de discussão rico e voltado à troca de opiniões. Não

podemos mais terceirizar a responsabilidade, chegou a hora de agirmos, por isso, além de discutir, precisamos participar ativamente. Nosso silêncio e nossa omissão causaram essa grave crise, eu acredito que está em nossas mãos liderar e transformar esse novo momento.. Fale-nos um pouco do seu mandato. Quais as principais ações e metas que a senhora pretende alcançar até o final de sua gestão? Em um ano de mandato, posso dizer que muito já foi feito na Federasul, um verdadeiro renascimento aos 90 anos. Com a mudança no nosso estatuto, passamos a abrigar todas as associações empresariais, além da eleição direta e democrática. Criamos a Escola de Líderes, que tem como objetivo incentivar e preparar pessoas, com a base de valores da classe produtiva, a ocuparem espaço de

Sabemos que os homens estão mais inseridos e têm melhores oportunidade, mas entendemos que nossa sensibilidade, carisma e determinação são fundamentais para a construção de uma sociedade mais desenvolvida.

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Além de ser a primeira mulher a presidir a Federasul, a chapa de Simone Leite foi a primeira a ter de enfrentar uma eleição contra outros candidatos

decisão, de maneira organizada, com foco na superação da crise socioeconômica. Nosso propósito é envolver a classe produtiva nos debates públicos e incentivar maior participação dos empresários em cargos de liderança. Acredito que já estamos no caminho certo, mas ainda há muito a ser feito. Estamos trabalhando para maior interação com os municípios do interior e pretendemos continuar sensibilizando as associações. Além disso, este é o primeiro em doze anos, que entregaremos o financeiro da Federasul com superávit, graças a um controle rigoroso de gastos e a uma reorganização institucional. E a outra novidade é que inauguramos nossa nova sede, no Palácio do Comércio, numa área de 600 metros quadrados com espaço para receber as filiadas. Uma sede moderna, transparente e democrática

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com a cara da nossa gestão. A senhora é a atual presidente do PP Mulher/RS. De que forma está a preparação para aquelas filiadas que pretendem se candidatas ano que vem? Existe algum trabalho neste sentido? Estamos percorrendo o estado com seminários de capacitação para mulher que tem vocação, coragem e iniciativa para participar ativamente da política. Sabemos que os homens estão mais inseridos e têm melhores oportunidade, mas entendemos que nossa sensibilidade, carisma e determinação são fundamentais para a construção de uma sociedade mais desenvolvida. Tenho me dedicado muito a incentivar as mulheres a ocuparem espaço de decisão nos seus municípios.

Existe, na Federasul, algum programa ou espaço que prestigie a mulher empresária? Sim. A Federasul constituiu, no final de 2016, o Conselho da Mulher Empreendedora, voltado à sensibilização e ao incentivo do desenvolvimento de lideranças femininas no estado. Nossa proposta foi reunir mulheres fortes e competentes para percorrer o Rio Grande do Sul e desenvolver uma rede de núcleos empresariais femininos. Com esse grupo, visitamos várias cidades do interior gaúcho, criando um ambiente para troca de experiências, engajamento e união de esforços para o reconhecimento da força feminina no ambiente dos negócios. As dificuldades são as mesmas, por isso entendemos que, juntas, conseguimos superar as adversidades e há um fortalecimento mútuo.


ADPERGS

ASSOCIAÇÃO DOS DEFENSORES PÚBLICOS DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL Uma história de luta feminina ASCOM/ADPERGS | Fotos: Maria Becchi

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undada em 30 de dezembro de 1981, com a denominação de Associação dos Assistentes Judiciários do Rio Grande do Sul, após a Constituição Federal de 1988 e a Constituição Estadual de 1989, a Associação dos Defensores Públicos do Estado do Rio Grande do Sul (ADPERGS) passou, em 13 de junho de 1991, à atual denominação. Sensível às novas perspectivas da Instituição, a ADPERGS teve participação decisiva no processo de consolidação da autonomia administrativa, financeira e orçamentária da Defen-

soria Pública, assegurada no artigo 134 e parágrafos da Constituição Federal, de modo a garantir a melhoria das condições de trabalho, bem como a valorização das defensoras e defensores públicos do estado. E a Associação dos Defensores Públicos do Estado, que teve como presidentes, em sua maioria mulheres, não foi diferente da própria instituição da Defensoria Pública do Estado que, quando da sua criação, teve seu cargo máximo ocupado por uma mulher: a primeira defensora pública-geral do estado, Cleomir de Oliveira Carrão.

Sensível às novas perspectivas da Instituição, a ADPERGS teve participação decisiva no processo de consolidação da autonomia administrativa, financeira e orçamentária da Defensoria Pública

ASSOCIAÇÃO SEGUNDO A PRESIDENTE JULIANA COELHO Somos protagonistas de uma história que se concretiza a cada dia. Atualmente, a Defensoria Pública do Estado, integrada por 410 agentes, tem 247 mulheres à frente da carreira. Estamos, ao lado da importante atuação masculina, fazendo ser respeitada a igualdade de gênero, ocupando cargos de execução e direção. Uma instituição permanente e essencial, com nome feminino, Defensoria Pública, representa a força da mulher na liderança e defesa dos direitos da parcela mais vulnerável da população brasileira. Somos fortes e não desistimos do sonho que hoje

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se tornou realidade. Parabéns a todas as mulheres que, com muita luta e liderança, fizeram a Defensoria Pública ser uma realidade reconhecida como a instituição da confiança dos gaúchos

e de maior importância dentre as carreiras jurídicas. E a ADPERGS representa o início e a continuidade dessa luta pelo reconhecimento e fortalecimento.


EM 35 ANOS DE HISTÓRIA, 11 MULHERES JÁ PRESIDIRAM A ADPERGS. FORAM ELAS: • Terezinha Rita Portanova Mendes Ribeiro • Maria Dinair Acosta Gonçalves • Genice Selaimen Cuozzo • Tânia Maria Cauduro Farina • Cleomir de Oliveira Carrão • Aléria Damasceno Silva • Conceição Marilú Cardoso Carvalho • Maria de Fátima Záchia Paludo • Adriana Birnfeld Praetzel • Patrícia Kettermann • Lisiane Zanette Alves

Parabéns a todas as mulheres que, com muita luta e liderança, fizeram a Defensoria Pública ser uma realidade reconhecida como a instituição da confiança dos gaúchos... Juliana Coelho Presidente da ADPERGS

MAIORIA FEMININA: Em 35 anos de história, 11 mulheres e cinco homens presidiram a ADPERGS Fotos: Maria Becchi/Revista Em Evidência

Hoje, a presidência é exercida por mais uma representante, Juliana Coelho de Lavigne. E não apenas a presidência é ocupada por uma mulher, mas a diretoria é majoritariamente feminina, sendo assim composta: primeira vice-presidente, Bárbara Bernardes de Oliveira Sartori; secretária-geral, Ana Maria Nery Paes; secretária-executiva, Jimenes Mary Rosa de Araújo Chimeli; tesoureira, Luciana Gomes de Faria, e o único homem, segundo vice-presidente, Clóvis Adão Pizzamiglio Bozza Neto.

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MULHERES EM EVIDÊNCIA

MAIRA CALEFFI Presidente do Imama e Femama Maria Becchi

Como está a luta pelo diagnóstico precoce e tratamento do câncer de mama? Quais os principais avanços e perspectivas para 2018? Ainda há muito a ser feito por mais acesso a diagnóstico e tratamento ágeis e de qualidade. Mas, para 2018, pacientes de câncer de mama metastático vão usufruir de uma grande conquista: a inclusão no SUS das terapias alvo trastuzumabe, a ser disponibilizada até fevereiro, e pertuzumabe, até junho. Pacientes nesse estágio da doença ainda não contam com acesso a terapias alvo, o que fará enorme diferença em suas vidas. Isso é resultado do esforço e mobilização da sociedade civil organizada, com destaque para o trabalho da Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (Femama) ao lado de ONGs de sua rede, como o Instituto da Mama do Rio Grande do Sul (Imama). O câncer de mama é uma das principais causas de mortalidade feminina. Na sua opinião, quais deveriam ser as prioridades dos legisladores municipais em relação ao assunto? Cabe a eles atender as demandas da população. O Imama tem várias oportunidades para contribuir na identificação de prioridades, sendo uma fonte legítima das necessidades da sociedade civil. Entre as prioridades, o legislativo pode considerar a promoção do diagnóstico precoce, criando projeto de lei para que o diagnóstico ocorra em

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Foto: Chico Pinheiro/Revista Em Evidência


Foto: Lenara Petenuzzo

ENTREVISTA até 30 dias no SUS. Ou ainda, a adoção da notificação compulsória do câncer para elevar a qualidade dos dados sobre a doença, permitindo uma melhor gestão de recursos para promover diagnóstico e tratamento. A formação de frentes parlamentares e subcomissões de oncologia são importantes estratégias para legislar a favor do combate ao câncer. Quais benefícios já existentes os gestores poderiam usar em favor das cidadãs gaúchas? É importante que os gestores participem das reuniões das Comissões Intergestores Regionais e dos Conselhos de Saúde, pois são espaços que refletem as demandas da sociedade e os respectivos cenários. Além disso, é fundamental fazer valer os direitos de pacientes constituídos em lei, como a Lei dos 60 Dias, que determina início do tratamento em até 60 dias após a confirmação do câncer, no SUS. A senhora também preside a Femama. Quais as principais diferenças e semelhanças entre as entidades?

Idealizado, em 2006, pelo Imama, o Femama conta, hoje, com cerca de 70 ONGs associadas em todo o país

O Imama existe desde 1993, com atuação focada no estado do Rio Grande do Sul, entidade sem fins lucrativos que luta pela afirmação dos direitos fundamentais da mulher com câncer de mama. Foi o Imama que idealizou a Femama, em 2006, como uma coalizão nacional, que conta hoje com cerca de 70 ONGs associadas em todo o país, com o objetivo de articular, propor, conscientizar e defender políticas públicas alinhadas de atenção à saúde da mama.

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MULHERES EM EVIDÊNCIA

BEATRIZ LUCHESE PERUFFO Presidente da Comissão da Mulher Advogada OAB/RS Maria Becchi

Sobre a representatividade da mulher na política gaúcha: o Rio Grande do Sul está em último lugar no ranking de prefeitas eleitas e, na ALRS, há apenas nove deputadas. A senhora, que representa uma entidade tão importante como a Comissão da Mulher Advogada OAB/ RS, como analisa esta situação? Por que, mesmo o eleitorado sendo majoritariamente feminino, esta situação não se reverte? Mulher não vota em mulher? Primeiramente, são inegáveis os avanços da condição de vida das mulheres no Brasil, inclusive na política, pois este era um território totalmente masculino, por se tratar de poder. Hoje, as mulheres conseguiram, sim, este espaço, diante de muito trabalho e muitas lutas. Mas ainda há muitos caminhos a serem trilhados e percorridos. Porque? Porque este avanço está sendo muito lento. Posso até citar, inclusive, a questão das mulheres laranjas na política, que concorreram, mas não realmente. Algumas nem sabiam que estavam concorrendo. Hoje, existe um trabalho muito forte do MP para combater estas práticas. Nós, da Comissão da Mulher Advogada OAB/ RS, também estamos preocupadas com isso, tanto que estamos organizando um evento para fevereiro de 2018: “Lugar de mulher também é na política”. Nós precisamos fomentar a participação efetiva das mulheres, onde elas realmente levantem o braço e se posicionem pelos seus ideais. Sobre a máxima que afirma: “mulher não vota em mulher”, digo que devemos que quebrar os padrões que nos foram impostos. Acredito que a rivalidade que existia antigamente entre as mulheres já está se esvaindo e que, hoje, nos tratamos com mais respeito e sororidade. Então, mulher vota em

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mulher, sim. Esta mudança está acontecendo. Isto eu percebo tanto nas associações das quais faço parte, quanto na OAB, aonde fazemos um trabalho nacional para buscar espaços de poder para as mulheres. Nós, da revista Em Evidência, acreditamos que o gênero não deve ser fator predominante na hora da escolha, mas também é inegável que mulheres e homens sejam diferentes entre si. A senhora acredita que exista, entre estes, diferenças na gestão, seja de um município, uma entidade ou governos estaduais? Isto não sou eu que estou falando: há diversas pesquisas que comprovam que a mulher tem um grau de instrução, hoje, maior, no sentido de que ela se prepara melhor para assumir as posições. Claro que temos exceções, mas é visível que, quando uma mulher aceita um cargo de poder, é porque realmente está capacitada para ele. Creio que esta exigência seja uma característica feminina, justamente porque o que exigem de nós, também é superior. E nós estamos, sim, preparadas, e capacitando as que ainda não estão. O empoderamento feminino se dá, justamente, por dois fatores: o conhecimento e o aumento da auto-estima. Então, a mulher que possua estes dois elementos, está preparada para assumir qualquer cargo, em igual condições de oportunidade de qualquer homem. Claro que a

mulher tem suas peculiaridades. É nítido que somos mais sensíveis, o que é uma vantagem quando se trata de inteligência emocional. Mas para finalizar, o importante é que tenhamos igualdade de oportunidades, o resto se dá naturalmente.

Foto: Luciane Valente


ENTREVISTA Foto: Luciane Valente

BEATRIZ MARIA LUCHESE PERUFFO Foto: Tom Dinarte

• Advogada atuante há mais de 29 anos. • Pós-Graduada em Direito Empresarial. • Pós-Graduada em Gestão de Pessoas. • Formação em Biopsicologia e Practitioner em Programação Neurolinguística. • Conselheira Seccional da OAB/RS. • Presidente da Comissão Estadual da Mulher Advogada da OAB/RS. • Membro Consultora da Comissão Nacional da Mulher Advogada do Conselho Federal da OAB. • Representante da OAB/RS no “Comitê Gaúcho Gestor Impulsor do Movimento He for She” na Assembléia Legislativa do RS. • Presidente da BPW Bento Gonçalves RS – Associação de Mulheres de Negócios e Profissionais. • Empresária administradora da Beatriz Peruffo Desenvolvimento Pessoal e Profissional. • Fundadora e administradora da Rede Mulheres Mais Felizes, com mais de 8.000 mulheres. • Conferencista há mais de 24 anos, com perfil dinâmico e inovador, suas palestras motivacionais abordam temas como: ética, questões de gênero, relações humanas, atendimento ao cliente, gestão de pessoas, liderança, relacionamentos interpessoais, qualidade de vida e felicidade, visando o desenvolvimento pessoal e profissional dos participantes.

Nós sabemos que, desde o final do século XX, as mulheres vêm ganhando espaços maiores e de mais importância. Mas, na sua opinião, dado o cenário atual, quando esta igualdade se tornará plena? Quando o número de mulheres e homens irá se igualar, tanto na política como no mercado de trabalho? Eu espero que mais rápido do que os número prevêem. Nós, da Comissão da Mulher Advogada OAB/RS, estamos trabalhando para que este tempo diminua, que é muito grande. Creio que, se permanecermos no ritmo atual, nem

as minhas netas, que ainda nem as tenhos, irão presenciar este momento. Por isso estamos nos adiantando e batalhando para que isto aconteça, pois, independentemente de quão longe este dia está, o importante é fazer a mudança acontecer hoje. Existe uma frase que diz: “Se não eu, quem? Se não agora, quando?”. Devemos ser os agricultores de um futuro com melhores relações entre homens e mulheres (sejam elas pessoais ou profissionais) e com mais políticas públicas em prol das mulheres, porque só a mulher sabe das dores que passa.


OPINIÃO

LUGAR DE MULHER

E

Marcela de Farias Vargas

Presidente eleita da Apergs para o biênio 2018/2019

m pleno século XXI, a ras, 9 são ocupadas por mulheres, núluta pela igualdade de mero que não ultrapassa os 17%. gênero é tema latente na sociedade e ainda enconSe nem tudo são flores, não se pode tra diversos entraves. Seja no mercanegar que avançamos, ainda que em do de trabalho, seja no meio social, as ritmo lento, progredindo em espaços mulheres seguem tradicionalmente sofrendo discrimimasculinos, como nação apenas por no caso das carreiras sua condição de jurídicas de estado gênero. E neste avanço incluo- (poder judiciário, Ministério Público, me, pois, com muito Preterição nos condefensoria pública e tratos de trabalho orgulho, fui eleita advocacia pública). em razão de possí- por meus colegas Atualmente, em nível gravidez e por vel federal, as presidedicação aos fi- – procuradores do dências do Supremo lhos, menor chance estado do Rio Grande Tribunal Federal e de promoção pelos do Superior Tribunal do Sul – para ocupar mesmos motivos de Justiça são ocuacima elencados, o cargo de presidente padas por mulheres, salários inferiores da Associação dos Ministra Cármen Lúàqueles recebidos cia Antunes Rocha e pelos empregados Procuradores do Ministra Laurita Vaz. do sexo masculino, Estado (Apergs) no No Ministério Púexclusão na distriblico Federal, ocupa biênio 2018/2019, buição dos cargos o cargo de Procurade liderança; bem, sendo a terceira dora-Geral da Repúos exemplos são in- mulher a ocupar tão blica a Procuradora findáveis. Raquel Dodge, enrelevante posto quanto na AdvocaImportante indicacia-Geral da União dor de que o Brasil o cargo máximo é precisa evoluir na exercido pela Minisquestão da igualdatra Grace Mendonça. de feminina está estampada na representatividade das mulheres na classe E neste avanço incluo-me, pois, com política, decisiva nos rumos da sociemuito orgulho, fui eleita por meus codade. Dados de Pesquisa Nacional por legas – procuradores do estado do Rio Amostra de Domicílio, divulgada pelo Grande do Sul – para ocupar o cargo de IBGE, em 2013, apontam que 51,4% da presidente da Associação dos Procupopulação é do sexo feminino , porém, radores do Estado (Apergs) no biênio nas eleições realizadas em 2014, foram 2018/2019, sendo a terceira mulher a alçadas ao cargo de deputada estaduocupar tão relevante posto. Aliás, a Proal 51 mulheres de um total de 513 vacuradoria-Geral do Estado do Rio Grangas, enquanto no senado federal foram de do Sul, que tem por característica ser eleitas 13 mulheres de um total de 81 de vanguarda, é marcada pela inclusão vagas, consistindo, respectivamente, feminina, o que serve de alento e como os seguintes percentuais: 9,94% e 16%. exemplo de que a realidade da mulher No Estado do Rio Grande do Sul, o papode e deve mudar; pois, afinal, lugar de norama não é diferente. Das 55 cadeimulher é onde ela quiser.

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Conheça o perfil das vereadoras que estão fazendo a diferença em suas comunidades.

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PERFIL

DILETA DE VARGAS PAVÃO Vereadora e Presidente da Câmara de Vereadores de Ibirubá, em 2017 Texto: Junior Knoff | Edição: Maria Becchi

C

om pouco mais de 62 anos de emancipação, o município de Ibirubá, na região do Alto Jacuí, teve, em 2017, sua segunda presidente mulher no legislativo municipal. Dileta de Vargas Pavão

das Chagas é uma mulher de fibra, conhecida por sua personalidade forte e seu posicionamento definido na luta pela população. A presidente Dileta possui uma história de dedicação ao próximo e um trabalho de mais de 20 anos pela saúde de seus munícipes, trabalho esse que serviu de base para sua eleição a uma das 11 cadeiras do legislativo municipal no último pleito. Enquanto presidente da câmara de vereadores durante o ano de 2017, Dileta promoveu diversas mudanças e atualizações no trabalho do

legislativo. Incluiu, em seu planejamento, a campanha “O vereador mais perto de você”, levando as sessões até os bairros e comunidades do interior, aproximando o trabalho dos vereadores da população. Na transparência, proporcionou à população o acompanhamento das sessões do legislativo através das redes sociais. Lutou também pela inclusão dos jovens na renovação do cenário político nacional, desenvolvendo o projeto “Vereador Mirim”, com 11 vereadores representando as escolas do município de Ibirubá, trazendo indicações de suas comunidades escolares, de seu bairro e desenvolvendo trabalho nas mais diferentes abordagens que a sociedade atual exige. Além de seu empenho para a modernização do trabalho do legislativo, economizou recursos utilizados ao longo do ano, devolvendo aos cofres públicos, antes mesmo do final de seu mandato, um montante de quase R$1.000.000,00 (um milhão de reais).

Dileta assumiu, interinamente, a prefeitura no ano de 2017

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Conseguiu, ainda, batalhar em demandas de suma importância na vida do seu povo, como no aumento do efetivo da Brigada Militar, a aplicação de recursos na modernização do Hospital da Comunidade, a manutenção do quadro de Médico Perito na agência do INSS no município e diversas outras demandas primordiais na vida do ibirubense. “Acredito que o que me trouxe até aqui foi, acima de tudo, a determinação de lutar pelo próximo. Essa energia inesgotável é uma característica de muitas Brasil afora, por isso acredito no poder da mulher para transformar a sociedade, seja a nível municipal, estadual ou federal.”


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PERFIL

PATRÍCIA LÚCIA BAGATINI Vereadora e presidente da Câmara de Vereadores de Boa Vista do Sul em 2017 Texto: Paulo Batimanza | Edição: Maria Becchi

“Política na veia”

A vereadora Patrícia Lúcia Bagatini costuma dizer que “tem a política na veia”. Foi observando as ações do avô, e, posteriormente, de seu pai, que, logo cedo, aprendeu as artimanhas e os meandros da arte de fazer política. Todo esse aprendizado já foi posto em prática quando, em seu primeiro dia como vereadora no mu-

nicípio de Boa Vista do Sul, a jovem de 33 anos percebeu as dificuldades que iria enfrentar durante seu mandato, a grande maioria delas pelo simples fato de ser mulher. Patrícia estava prestes a assumir a presidência da câmara, em 2013, quando um acordo pré-estabelecido foi rompido. “Poderia ter desistido naquele momento, mas segui lutando pois

acreditava no meu trabalho. Hoje, estou presidindo a Câmara de Vereadores de Boa Vista do Sul pela segunda vez.” Fato este que foi motivo de orgulho não apenas para a vereadora Patrícia, mas também para seu pai, Gilmar Bagatini, que foi o vereador mais votado de Boa Vista do Sul em dois pleitos.

Parceria com o executivo

Segundo a vereadora, ser político é carregar as esperanças do povo que acredita num futuro melhor, apesar de todas as incertezas e frustrações. Com a ajuda do executivo, Patrícia implementou a Feira do Produtor Rural, uma ideia que, além de incrementar a economia local, serve de fomento à agricultura familiar no município. A Feira, que é um sucesso no município e acontece todas as sextas feiras das 11 às 18 horas, já se tornou um atrativo turístico. Como afirma a vereadora: “Sempre trabalhei pelo povo e, assim, consegui implementar esta ideia que tem servido de complemento na receita de muitas famílias”.

Sobre a realidade feminina na política

Foto: ASCOM/Câmara de Vereadores de Boa Vista do Sul

A vereadora Patrícia é bem realista em relação ao machismo na sociedade, mas também acredita que as mulheres também possuem sua parcela nesta triste realidade: “Todos nós sabemos dos preconceitos sofridos pelas mulheres, seja na política ou qualquer outro ambiente. Porém, creio que a maior barreira seja nós mesmas, quando deixamos de nos impor, quando não apoiamos umas às outras ou quando deixamos de fazer algo por acreditar que aquilo é uma exclusividade masculina.”

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“LUGAR DE MULHER É ONDE ELA QUISER” Fernanda Melchionna, vereadora mais votada em Porto Alegre nas eleições de 2016 Maria Becchi

Foto: Ascom/Câmara de Vereadores de Porto Alegre

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ENTREVISTA Em sua opinião, o atual cenário da participação feminina na política é reflexo de uma sociedade machista? Acredito que a ampliação da participação feminina na política das ruas e dos parlamentos é reflexo do crescente processo de rompimento com a lógica da nossa sociedade machista que sempre determinou que espaço das mulheres deveria ser o doméstico e dos homens o público. A nossa cultura patriarcal sustenta essa divisão sexual do trabalho até hoje e isso obviamente ainda sustenta a ideia de que a política é feita para homens. Felizmente, nessa última década, a luta das mulheres atingiu um novo patamar e o nosso lema passou a ser “lugar de mulher é onde ela quiser”. As mulheres passaram a reivindicar não somente bandeiras históricas da luta feminista (pela descriminalização do aborto, contra a violência de gênero, equidade salarial), mas colocaram-se no centro do cenário político protagonizando lutas que mostravam o seu descontentamento com a casa política apodrecida, trazendo à tona a falência das democracias representativas e de ditaduras em vários países. Ao lado de outros setores sociais, as mulheres foram linha de frente de uma sequência de mobilizações que despontaram desde 2011, como a Primavera Árabe no Norte da África e no Oriente Médio, os Indignados da Espanha, o Ocuppy Wall Street nos EUA, as Jornadas de Junho no Brasil até esse ano, em que tivemos uma série de protestos contra o ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha e a bancada fundamentalista e uma Greve Internacional de Mulheres, sob o chamado do movimento feminista internacional, com muito peso nos EUA. A retomada do feminismo no mundo, portanto, refletiu na negação das atuais estruturas de poder. No Brasil, por exemplo, tivemos diversas jovens e feministas eleitas pelo PSOL em 2016. A ampliação das candidaturas do nosso partido, para além do estímulo interno através das cotas de 50% para candidaturas femininas, é a demonstração de que as mulheres querem ter voz: além das ruas, também nos parlamentos. Mas eu sempre digo que não

basta ser mulher, tem que estar do lado certo, pois nem todas estão defendendo as lutas feministas e contribuindo com a construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Muitas, inclusive, vão na contramão do que as mulheres trabalhadoras precisam, por exemplo, sendo favoráveis às reformas (Trabalhista, Previdenciária) que retiram direitos do povo. É preciso ter mais mulheres que estejam comprometidas com as bandeiras de luta da população e dos movimentos feministas.

Por mais que haja um crescimento da participação das mulheres na política, a lógica dominante da nossa cultura é a que privilegia os homens na ocupação dos espaços de poder, dos cargos diretivos e no ganho dos maiores salários

Sendo a maioria do eleitorado formado por mulheres, até que ponto a máxima: “mulher não vota em mulher” é verdadeira? Por quê?

I​ sso é um reflexo da nossa da sociedade machista. Por mais que haja um crescimento da participação das mulheres na política, a lógica dominante da nossa cultura é a que privilegia os homens na ocupação dos espaços de poder, dos cargos diretivos e no ganho dos maiores salários. Não é à toa que o Brasil ocupa o 154º lugar dentre os 193 países no ranking de participação feminina nos cargos legislativos, à frente apenas de alguns países árabes, do Oriente Médio e de Ilhas Polinésias, segundo os dados da União Interparlamentar. Pouco mais de 10% dos deputados federais são mulheres no país e temos uma vereadora para

cada 7 vereadores, em média, no país. ​Além disso, a tripla jornada de trabalho, o cuidado dos filhos, o trabalho doméstico, tudo isso faz com que, embora as mulheres sejam maioria quantitativa nas associações de moradores e nos grêmios estudantis, por exemplo, isso está muito longe de se reproduzir na política dentro do parlamento. Além dos reflexos do machismo, há o caciquismo dos partidos do regime, que têm sempre os homens como protagonistas. Por isso, nós, do PSOL, temos orgulho de ter dentro do partido cotas de 50% para as mulheres, inclusive nos cargos de direção, como parte de uma política de desconstrução de uma cultura machista e de construção do empoderamento das mulheres. Certamente, isso foi fundamental para a eleição de uma bancada feminista do PSOL. A senhora foi a vereadora mais votada de Porto Alegre nas últimas eleições. A quais fatores atribui este fato? A senhora acredita que o gênero influenciou neste resultado? Por quê? ​ obre a minha votação, acredito que a S expressividade em eleger uma mulher, jovem e de esquerda como a mais votada da cidade de Porto Alegre é reflexo dessa onda feminista e também do anseio da população por nova alternativa política e econômica. Além de um reconhecimento do nosso trabalho da luta incansável pelos direitos do povo, contra a corrupção, pela valorização dos serviços públicos e contra os privilégios dos ricos e dos políticos – que é parte de um trabalho coerente que o PSOL, como um todo, sempre desenvolveu, através de figuras reconhecidas pela sociedade, como Pedro Ruas (que já foi o vereador mais votado em 2012) e Luciana Genro (que já foi deputada federal, estadual e nossa candidata à presidência). De fato há um simbolismo muito importante o fato de uma mulher ter sido a mais votada na nossa capital. A nossa votação é motivo de orgulho, não apenas por eu ser mulher, mas por construir um mandato que luta também em defesa da moradia popular, contra o racismo e da LGBTfobia, da defesa da cultura e por demais causas sociais. EM EVIDÊNCIA | Ano 8 - Nº 59 - 2017

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ENTREVISTA

MARA CRISTINA SANGALLI Vereadora e presidente da Câmara de Vereadores de Nova Araçá em 2017 Maria Becchi

A senhora assumiu a presidência da Câmara de Vereadores de Nova Araçá já na sua primeira eleição. O que isso significou para a senhora? Um enorme desafio, tendo em vista a responsabilidade que o cargo exige. Ainda que muitos subestimem o papel de vereador, é importante salientar que ele é o agente público mais próximo do eleitor. Além disso, é nossa a responsabilidade de aprovar o orçamento municipal, bem como as leis que irão reger nossa comunidade. Ao mesmo tempo, sinto-me honrada em presidir o legislativo municipal e, neste sentido, tenho

dado o melhor de mim para que Nova Araçá continue acreditando no potencial das mulheres. A senhora é oriunda do setor agrícola, além de ser uma típica mulher da serra de origem italiana. Até que ponto estes fatores influenciam em seu perfil político? Tenho muito orgulho de minhas origens. Me criei na roça, trabalhando duro nas plantações de milho e soja em um típico sistema de agricultura familiar. Acredito muito no poder transformador do trabalho. Responsabilidade, respeito e, principalmen-

te, o aprendizado de atuar em grupo, respeitando aquelas opiniões diferentes das nossas, são virtudes que o trabalho agrega ao ser humano. Minha família é tipicamente italiana e não é segredo pra ninguém a importância do significado das palavras “família” e “trabalho” para nós. Nada foi fácil para nossos antepassados, que chegaram à serra do estado com quase nada, em lugares ermos e de difícil acesso, região esta que é, hoje, uma das mais proeminentes e prósperas do estado. Estes conceitos e esta fibra do povo italiano trago em meu coração e, sim, norteia meus princípios e minhas ações. Nova Araçá, recentemente, em levantamento do Idese, surge como o sexto município mais desenvolvido do estado. Sendo a senhora uma das lideranças do município, como recebe esta notícia?

Foto: ASCOM/Câmara de Vereadores de Boa Vista do Su

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Com alegria e orgulho. E acho que compartilho deste sentimento com todo o cidadão araçaense. Acho que é interessante este tipo de pesquisa para que as pessoas reavaliem conceitos como progresso, modernidade e toda esta eloquência que geralmente costuma ficar apenas no campo ideológico. Somos um município pequeno, formado por gente simples com costumes simples, considerados muitas vezes ultrapassados. Mas, veja bem, estou aqui, cedendo esta entrevista para uma edição sobre as mulheres que se destacaram no estado, porque fui eleita por um eleitorado sábio o suficiente para superar um preconceito que ainda atinge as grandes cidades do estado. Ficar em sexto lugar entre 497 municípios mostra que Nova Araçá está no caminho certo e que o desenvolvimento só é pleno com qualidade de vida.


ENTREVISTA

GISELDA COSTA BASSAN Vereadora e presidente da Câmara de Vereadores de Formigueiro em 2017 Maria Becchi

Conte-nos um pouco sobre sua trajetória política. Esta já é a minha 5ª eleição: 1996 eleita, 2000 reeleita, 2004 segunda suplente, 2012 primeira suplente, e, em 2017, reeleita novamente, sendo a mais votada do PMDB e eleita presidente da Câmara de Vereadores de Formigueiro. Fui escolhida para ser a coordenadora do PMDB Mulher da Quarta Colônia e faço parte do diretório estadual do PMDB Mulher. O que significou para a senhora assumir a presidência da câmara de vereadores? Assumir a presidência da câmara municipal de vereadores significou mais do que apenas exercer a função legislativa presidindo o plenário, orientando e dirigindo os processos legislativos, proferindo votos de desempate nas liberações, promulgando leis, decretos e resoluções. Assumir a presidência foi algo muito importante na minha vida, pois eu e os demais vereadores ditamos o destino da nossa cidade, e, para isso, temos que ter muito conhecimento, habilidades, ética, honestidade e compromisso com o povo, para exercer essa função, e assim ter a certeza de que estamos no caminho, além da satisfação de dever cumprido. Sou mãe, mulher, dinâmica, determinada, mas também sou coração, abraço e conforto. Como a senhora analisa a realidade da mulher na política brasileira? A Constituição Federal de 1988 consagrou o princípio constitucional da igualdade, afirmando que “todos são iguais perante a lei”, que “homens e mulheres

A presença da mulher nos espaços de poder é necessária para o aperfeiçoamento e consolidação da democracia

Foto: ASCOM/Câmara de Vereadores de Formigueiro

são iguais em direitos e obrigações”. De acordo com dados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral, 52,13% dos eleitores que estavam aptos a votar nas eleições municipais de 2016 eram mulheres, porém, quando avaliamos a representação feminina na política, é possível concluir que as mulheres não estão exercendo os direitos políticos e eleitorais em condições de igualdade. A participação feminina nas esferas de governo é ínfima, e continua refletindo o desequilíbrio histórico de gênero

nas funções públicas. O Brasil ocupa uma das últimas posições no ranking mundial de representação feminina nos parlamentos, de acordo com números divulgados pela ONU. A presença da mulher nos espaços de poder é necessária para o aperfeiçoamento e consolidação da democracia. Apesar dos avanços já constatados, ainda há muito a ser feito para mudar o quadro atual da pouca presença de mulheres na esfera político-partidária no Brasil e superar a desigualdade de gênero na política.

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ROSANGELA LAZZARE MONTEPÓ Vereadora e presidente da Câmara de Vereadores de Campinas do Sul em 2017 Maria Becchi

O que significou para a senhora assumir a presidência da câmara em 2017?

tão, usava o mesmo para ambos os poderes.

Assumir a presidência da câmara municipal me encheu de honra, alegria e orgulho. Por outro lado, encarei como um desafio, pois tenho a plena consciência da dedicação que o cargo requer. Acredito que todo vereador vai concordar comigo quando afirmo que é sempre um ano atípico, pois, além dos compromissos como parlamentar municipal, ainda acumulo algumas responsabilidades extras. Acredito que é dever do presidente incentivar o protagonismo da casa legislativa, conduzir de forma imparcial e com serenidade as seções e, principalmente, fazer da câmara de vereadores um espaço em que se trabalhe priorizando os anseios e as necessidades da população.

Mantivemos ações importantes como a transmissão das sessões pela rádio em tempo real, contratos com entidades de comunicação, alimentação dos veículos de transparência através da internet para que a população acompanhe os gastos do legislativo municipal, entre outros. Em sua opinião, quais as principais características que diferenciam um mandato administrado por uma mulher?

Quais foram as principais ações desenvolvida na casa durante seu mandato? Por ser um município de pequeno porte, fizemos questão de manter a máquina enxuta, mantendo os servidores existentes sem fazer novas contratações, mas também tentamos separar um pouco as ações do executivo, criando um CNPJ próprio para a câmara de vereadores, que, até en-

É possível termos nossa participação e empoderarmos os espaços que nos estão disponíveis com igualdade, sem medidas compensatórias, não apenas para cumprir política de cotas, para preencher o quantitativo determinado pela lei eleitoral, mas, sim, para criarmos condições que estabeleçam

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Penso que não podemos advogar exclusivamente para as mulheres, mas de forma muito mais ampliada, como representante do cidadão, independente da questão de gênero. Só assim valerá nossa representação política. O ser humano está além do seu sexo.

(...) nós, mulheres, somos mais sensíveis ao social, diferenciando um pouco do modo de fazer política dos homens. Nosso olhar amplia-se um pouco além nas questões sociais.

A responsabilidade não está relacionada ao gênero, porém, pela nossa sensibilidade, estendemos os diálogos para soluções mais democráticas. Penso que nós, mulheres, somos mais sensíveis ao social, diferenciando um pouco do modo de fazer política dos homens. Nosso olhar amplia-se um pouco além nas questões sociais.

Tentei levar para a câmara a concepção da produtividade e da busca de resultados, muito provavelmente devido a minha formação acadêmica. Muito embora saibamos das diferenças que existem entre o setor público e o setor privado, somos todos assalariados, e gerar resultados é obrigação de todo profissional.

um maior equilíbrio entre homens e mulheres no plano da representação política.

No legislativo municipal que presido, a mesa diretora possui duas mulheres, uma da situação e outra da oposição, o que demonstra o grau de amadurecimento da democracia em nosso legislativo. Sabemos que, quanto mais vagas o sexo feminino conquistar nos espaços políticos, mais igualitário será nosso município, mostrando que há uma preocupação em reduzir as diferenças entre homens e mulheres, e uma valorização destas na comunidade.

O vereador é o primeiro ente público a ser procurado por qualquer eleitor, o que torna sua responsabilidade ainda maior. A senhora acredita que exista certa desvalorização do cargo? Ainda temos uma questão cultural com relação ao vereador, ao legislador. Primeiro porque temos a influência de


ENTREVISTA Foto: Arquivo pessoal

Rosangela Montepó presidiu a Câmara de Vereadores de Campinas do Sul em 2017 outras esferas governamentais onde o cidadão acompanha as informações e coloca todos no mesmo perfil, na mesma conduta, inclusive; também acredito que a maioria das pessoas confundem as responsabilidades de cada poder, sugerindo ações aos vereadores que não são de sua competência, que não pode ser feito, onde só o executivo tem poder para tal, na maioria das vezes, deixando o legislador até constrangido, pois este sente a frustração do cidadão.

Quanto à desvalorização do cargo, percebe-se que grande parte dos legisladores municipais se sentem frustrados porque a população transfere muitas expectativas e espera muito de nós, vereadores, mas acredito que, na maioria das vezes, quem causa isso somos nós mesmos, vereadores, quando queremos abraçar o mundo. Precisamos deixar mais claro qual é nosso papel e mostrar à comunidade o quão importante somos e quão importante são as

leis que pelo legislativo são analisadas e votadas e da ação fiscalizadora que o vereador tem como competência, cuidando da aplicação dos recursos e observando o orçamento. Apesar de não executarmos a obra, somos o ouvido do povo para o governo, somos o elo que permite indicar, recomendar a ação. É nosso dever acompanhar o poder executivo, principalmente em relação ao cumprimento das leis e da boa aplicação e gestão do dinheiro público.

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ENTREVISTA

MARINA PORTO Vereadora e presidente da Câmara de Vereadores de Manoel Viana em 2017 Maria Becchi

O que significou para a senhora assumir a presidência da câmara do seu município? Orgulho-me muito, não apenas por ter sido eleita presidente, mas por ser meu terceiro mandato. Além do reconhecimento do povo, também tive o reconhecimento dos meus colegas vereadores. Sabemos que, muitas vezes, o andamento dos trabalhos desses poderes é interrompido apenas pela prática da política partidária. O que estou tentando desenvolver é o entendimento entre os entes políticos, para que se tenha maior celeridade e agilidade nos processos da máquina pública. Outro significado importante de estar na presidência foi a realização do projeto “Vereador jovem”, pois fiquei lisonjeada com a oportunidade de ir até as escolas e iniciar o processo de construção da consciência cidadã em nossos jovens. Quais motivos levaram a senhora a entrar na vida pública? A maior motivação, sem dúvidas, foi a intenção de poder ajudar, representando pessoas que pensam como eu penso, além de acreditar que, como representante dos cidadãos, teria mais visibilidade diante de entidades de apoio, para que nossas comunidades tivessem voz e vez. Quais motivos levaram-na a optar pelo PMDB? Escolhi o MDB, que trago de berço. Reafirmei tal escolha na época em que tive a

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Às mulheres que almejam seguir a carreira política, digo a todas: Venham! Venham com força, com garra e estejam preparadas para fazer a diferença. Saibam que a tarefa é árdua, mas lembrem-se que só quem não desiste de seus objetivos é quem realiza seus sonhos.

oportunidade de votar pela primeira vez. Queria escolher um candidato em que eu acreditasse... Foi quando vi Ulysses Guimarães, nosso herói, junto com Tancredo, Simon e tantos outros que lutaram pelas Diretas Já. Confiei nesta sigla pelas postura destes na época. Escolhi pela visão de centro-esquerda, que lutaram e lutam hoje pelo direito dos trabalhadores, mas sem desmoralizar os que dão emprego. Como a senhora avalia a participação feminina na política gaúcha e qual seu conselho àquelas que gostariam de ingressar na vida pública?

Infelizmente, a participação da mulher ainda é muito tímida. Eu acredito em uma representação na câmara, onde as regiões dos estados possam ver eleitos seus representantes. Hoje, ao meu ver, não temos a merecida representação feminina, principalmente pelas dificuldades inerentes de conciliar os papéis de mãe, dona de casa e profissional. Além da falta de reconhecimento, sofremos o preconceito pelo simples fato de sermos mulheres. Na minha vida pública, tento sempre dar o melhor de mim, como forma de exemplo e inspiração às mulheres, pois acredito que ações valem mais que palavras. Às mulheres que almejam seguir a carreira política, digo a todas: Venham! Venham com força, com garra e estejam preparadas para fazer a diferença. Saibam que a tarefa é árdua, mas lembrem-se que só quem Marina presidiu a Câmara de não desiste de seus objeVereadores de Manoel Viana tivos é quem realiza seus em 2017 sonhos. Foto: ASCOM/Câmara de Vereadores de Manoel Viana


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PERFIL

LAOZANE DINON Vereadora e presidente da Câmara de Vereadores de Porto Mauá em 2017 Texto: Paulo Batimanza | Edição: Maria Becchi

N

ção de Porto Mauá. Já na primeira eleição ocorrida no município, em 1992, Laozane garantiu sua cadeira no legislativo municipal. Esta peemedebista de berço é formada em Educação Física e defensora ferrenha da causa feminista, mas nem por isso sua relação com os colegas é turbulenta.

Foto: Jarbas Ferreira

ão é exagero afirmar que a vereadora Laozane Dinon é digna de um status muito maior que presidente de câmara de vereadores, afinal de contas, ela foi uma das figuras que participou ativamente dos trâmites burocráticos e políticos para funda-

Em 2017, foi eleita para ocupar a presidência da câmara de vereadores de sua cidade. Neste ano, a presidente implementou projeto que torna obrigatório palestra antidrogas e anti-álcool nas escolas a partir do primeiro ano do ensino fundamental até o último ano do ensino médio. Também propôs ao executivo projeto que regulamenta o ressarcimento do crédito educativo através da prestação de serviços médicos por parte dos alunos da faculdade de medicina. Em comum nos projetos, a preocupação com a formação do caráter e o bem-estar dos estudantes, prioridades que elegeu devido a sua forte ligação com o setor educacional.

Recordista de mandatos

Durante mais da metade de sua vida, Laozane esteve trabalhando em prol de seu município. Ao final do seu mandato, serão 28 anos servindo à comunidade porto-mauense. “Entrei na política porque senti que era a melhor forma de poder ajudar as pessoas. Procuro sempre representar os interesses da população perante o poder público, legislar olhando o município com um todo, isto é, ver os dois lados, que seria dos munícipes e do município. Exerço com muito zelo a função de fiscalizadora do município”, afirmou Dinon.

Sobre a participação da mulher na política

Laozane Dinon presidiu a Câmara de Vereadores de Porto Mauá durante o ano de 2017

Segundo Laozane, “a causa do baixo número de mulheres na política começa dentro dos partidos políticos, pois ainda são instituições muito fechadas, machistas e que ignoram o avanço que as mulheres já conseguiram fazer na sociedade”.

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PERFIL

SIRLEI DE AZEVEDO CANCI Vereadora e presidente da Câmara de Vereadores de Taquaruçu do Sul em 2017 Texto: Paulo Batimanza | Edição: Maria Becchi

Graduada em Pedagogia e em Serviço Social e Pós-graduada em Serviço Social, Sirlei de Azevedo Canci iniciou a vida pública há 14 anos, quando decidiu concorrer a uma vaga no legislativo pela primeira vez. Se filiou ao Partido Progressista (o mais atuante em sua região na época) ainda muito jovem, e nele permanece até hoje. “Sempre me inspirei no trabalho que o PP desenvolveu na minha cidade”, afirma Sirlei. Concorreu pela primeira vez em 2004, quando ocupou o cargo de 1ª suplente. Entre os anos de 2005 e 2006, foi chefe do departamento de ações em saúde, na 19° coordenadoria Regional de Saúde. Foi eleita como vereadora pela primeira vez em 2008, licenciou-se do cargo em 2009 e 2010 para assumir a

Foto: ASCOM/Câmara de Vereadores de Taquaruçu do Sul

Perfil

Secretaria Municipal de Assistência Social e Habitação. Desde então, Sirlei foi reeleita em todos os pleitos.

Ação destacada

Sirlei é conhecida por estar sempre atenta à fiscalização do dinheiro público. Sua postura em participar ativamente das atividades da administração municipal na busca de recursos financeiros é o principal motivo de tantas reeleições, afinal de contas, há quase 10 anos, a edi ocupa cadeira na casa do legislativo municipal. Atua intensamente no papel de mediadora entre população e prefeito. Atenta aos munícipes nas suas prioridades, busca sempre ouvir, permitindo que sejam ouvidos e intervindo pelos interesses da comunidade. Dentre suas recen-

Em 2017, Sirlei assumiu o cargo de prefeita interina de Taquaruçu do Sul tes ações na conquista de recursos, destacam-se a construção do Centro Cultural, no valor de R$ 300.000,00; os recursos recentemente empenhados no valor de R$ 250.000,00, para obras de calçamento em estradas do interior e R$ 150.000,00 que contribuirão na renovação do parque de máquinas.

Sobre o papel da mulher na política

Foto: ASCOM/Câmara de Vereadores de Taquaruçu do Sul

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A vereadora atribui a fibra da mulher como característica comum àquelas que conseguiram alcançar postos eletivo no poder público. Segundo ela, “a mulher gaúcha não desiste com facilidade dos seus objetivos, nem diante de uma dificuldade. Ao contrário, ganha ainda mais força para tornar possíveis as ações planejadas. E, diante disso, sem desmerecer a competência masculina, a mulher busca sempre administrar de forma diferenciada, considerando todo o contexto, conciliando razão e emoção”. Com o objetivo de homenagear a mulher taquaraçusense, Sirlei fundou o “Troféu Mulher Cidadã”, para prestigiar aquelas que prestaram e silenciosamente ainda prestam trabalhos relevantes à comunidade, que se destacaram e se destacam de alguma forma.


ENTREVISTA

MALU KUHN HOLZ Vereadora e presidente da Câmara de Vereadores de Cristal em 2017 Maria Becchi

Foto: Adriane Braga

Existe uma máxima que afirma que, para as mulheres, é muito mais difícil conciliar as atividades do lar e as atividades profissionais. A senhora acredita que isso seja uma das principais barreiras que impede as mulheres de chegar na vida pública? Como a senhora lida com esta questão? Conciliar as atividades do lar com as atividades profissionais, juntamente com o preconceito, são, na minha visão, as principais barreiras para as mulheres chegarem à vida pública. Vida agitada e falta de tempo são duas características que me acompanham muito. De um lado, a dedicação ao cargo público, reuniões, busca por resultados. De outro, a vida pessoal, cuidar da casa acompanhar o desenvolvimento do filho. Administrar o tempo parece simples mas, com tantas responsabilidades, muitas vezes o trabalho acaba em casa ou os problemas do lar são resolvidos no ambiente profissional. Para amenizar a situação, conto com o apoio da família e procuro ter qualidade no tempo que estou em casa, principalmente na presença do meu filho. Além destas barreiras que a senhora mencionou, sabemos que o fato de haver poucas mulheres em cargos eletivos muito se deve ao fato de também não haver um número expressivo de candidatas. Que conselho a senhora daria àquelas mulheres que pensam em ingressar na vida pública? Acredito que, na essência feminina, existam muitas características que vão ao encontro dos requisitos de um servidor público. A vontade de auxiliar, a sensibilidade e a facilidade de atuar em grupo são fatores primordiais àqueles que almejam uma carreira bem sucedida na área. No meu caso, atuei em um período relativamente curto, mas, em

Malu Kuhn Holz presidiu a Câmara de Vereadores de Cristal em 2017 apenas sete anos na política, já estou no meu segundo mandato e ocupando a presidência da Câmara. Além disso, temos a nossa prefeita, que teve aprovação de seu mandato confirmado depois de sua recente reeleição. Estamos, sem dúvida, presenciando uma nova era de amadurecimento da democracia, uma vez que o eleitorado já não prioriza tanto a questão do gênero. O que digo às mulheres que cogitam ingressar na vida pública é que não esperem mais e engrossem nossas fileiras para que a nossa voz fique mais forte e seja mais ouvida. Em 2017, Cristal teve mulheres à frente do legislativo e executivo. Até que ponto a senhora acredita que isso fez diferença na administração do município?

Acredito que fez uma grande diferença no número de ações sociais. Nossa prefeita é enfermeira por formação, logo, esta vontade de fazer o bem ao próximo que ela possui em sua vocação é facilmente percebida na importância que seu gabinete dispõe à população. Pessoalmente, nutro uma admiração pela Fábia. Somos mulheres da mesma formação ideológica e filiadas ao mesmo partido. Este ano foi muito produtivo para nossa cidade e acredito que também é motivo de orgulho para a nossa comunidade, uma vez que, em apenas dez municípios do estado, tivemos uma prefeita e uma presidente de câmara em 2017. Isto também demonstra que, no município de Cristal, a mulher é respeitada e seu trabalho é reconhecido por todos. EM EVIDÊNCIA | Ano 8 - Nº 59 - 2017

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VEREADORAS EM EVIDÊNCIA

PERFIL

CARLA MARIA BUGS Vereadora e presidente da Câmara Municipal de Vereadores de Jacuizinho em 2017 Texto: Nérina Mota | Edição: Maria Becchi

Foto: ASCOM/Câmara de Vereadores de Jacuizinho

N

atural da cidade de Espumoso, cidade mãe do município de Salto do Jacuí, do qual houve a emancipação do município de Jacuizinho, Carla Maria Bugs construiu sua família com João Miguel Schaefer Fiuza e seus dois filhos, Carlos Miguel e Ana Laura. É agricultora e graduada em Ciências Econômicas. Já foi servidora pública em duas ocasiões: quando ocupou o cargo de Agente Administrativo e cargo de Secretária Municipal de Saúde. Na sessão de posse e instalação da legislatura,

Principais ações da vereadora Carla Maria Bugs • Promoveu a discussão política em diversas áreas, como a segurança pública; • Participou de atividades na Marcha dos Prefeitos, em Brasília, encaminhando e conversando com políticos para liberação de verbas para Jacuizinho; • Fez de seu mandato uma busca pelos direitos dos menos favorecidos, encaminhando pedido por benefícios na atividade agrícola dos quilombolas; • Faz defesa constante da bacia leiteira, da fruticultura e da agroindústria familiar; • Atuou intensamente na questão do Plano Plurianual, quando, pela primeira vez, o poder legislativo fez emendas impositivas; • Defende projetos que incentivam a instalação de novas empresas para desenvolvimento de emprego e renda no município; • Encaminhou a criação da ouvidoria, não somente para cumprir a obrigatoriedade da lei de transparência, mas para criar um canal de comunicação com o povo.

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Carla contribui de forma efetiva para aquisição do Parque de Eventos do município, quando, ao sanear as contas do Poder Legislativo, possibilitou a utilização de R $120.000,00 na aquisição do imóvel foi eleita presidenta da mesa diretora, cargo exercido no ano de 2017. A sua família trabalha em prol da coletividade há três gerações. Seu avô, Luiz Pereira Nunes, ocupou o cargo de vereador, quando Jacuizinho ainda pertencia a Soledade. Como presidente da casa, tomou a iniciativa e condução na realização da Mesa Redonda – Mulher em Destaque, onde foram convidadas todas as mulheres da comunidade para discutir políticas públicas, além de criar a primeira promotoria da mulher, que tem como finalidade a defesa e promoção de igualdade de gênero, autonomia, empoderamento e representação das mulheres, bem como as formas de discriminação e violên-

cia contra a mulher. Realizou, também, a Primeira Jornada da Mulher, com a participação da reitora da Universidade de Cruz Alta (Unicruz), de políticos da região, deputadas, entre outros profissionais da área social, tendo como público alvo as mulheres e como tema principal “O que temos, o que queremos”. Segundo Carla, este contato com as mulheres não só aumenta o enfoque de suas participações da vida em comunidade mas, também, coloca a mulher como agente da política, numa condição transformadora do seu papel e da importância dele para resgatar valores sociais, familiares e comunitários.


VEREADORAS EM EVIDÊNCIA

ENTREVISTA

SOFIA CAVEDON A vereadora, que já foi presidente da Câmara de Vereadores da capital gaúcha, em entrevista exclusiva à revista Em Evidência. Confira Maria Becchi

Foto: Elson Sempé Pedroso/CMPA

A vereadora e a câmara: Como presidente da Câmara de Vereadores de Porto Alegre, em 2013, durante oficialização da programação relativa ao Dia Internacional da Mulher A senhora já foi presidente da Câmara Municipal de Porto Alegre. Conte-nos um pouco o que esta experiência significou em sua carreira. Foi, com certeza, o ano mais forte de exercício do mandato conferido pela população. Procurei dar continuidade nos projetos inovadores como o “Câmara nos Ônibus”: uma vez por semana acompanhando trechos com os passageiros, estimulando sua denúncia das irregularidades e insuficiências do sistema público de transporte. O “Câmara na Comunidade”, que levou vereadores, vereadoras, imprensa e órgãos do governo aos mais diversos recantos da cidade, para conhecer problemas e constatar demandas. Assim também a

“Caravana das Boas Práticas Pedagógicas”, que, desta vez, evidenciava, pela via positiva, os resultados de investimento em educação e as necessidades que ainda restavam. Assim que foi uma gestão intensa, incomodativa, a serviço da cidadania, da qual muito me orgulho e que muito me ensinou! O estado tem apenas 26 prefeitas eleitas de um total de 497 prefeituras. Neste ranking, somos os últimos no país. Como explicar tal fenômeno em um eleitorado majoritariamente feminino? Mulher não vota em mulher? Por quê? A diminuta participação das mulheres na política resulta do sexismo: a pre-

determinação de papel, lugar, condição da mulher que culturalmente se impõe e a coloca em condição inferior e submetida aos homens. Disso vem a naturalização de sua responsabilidade quase exclusiva com as tarefas de reprodução da vida, cuidado com a casa e filhos, sem tempo para a formação e atuação política. A violência contra a mulher é evidência dessa desigualdade e as rupturas com essa cultura tem que ser dar desde a educação até a efetividade das políticas públicas preventivas e protetoras. Sua ausência nos espaços políticos aumenta o abismo na garantia de direitos entre homens e mulheres. Para uma sociedade democrática de verdade, precisamos de homens e mulheres em igualdade!

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INFORME PUBLICITÁRIO

Dinheiro Verde: Uma oportunidade de arrecadação e desenvolvimento para estados e municípios

Em outubro deste ano foi sancionada a Lei Federal 13.493, que cria o PIV – Produto Interno Verde, que visa contabilizar as riquezas ambientais do Brasil, como já ocorre em alguns países desenvolvidos. Tal iniciativa reforça a necessidade dos entes públicos de reconhecerem mecanismos capazes de realizar a mensuração do ativo florestal, um bem intangível, incorpóreo, transacionável. Há dez anos, ou seja, muito antes da Lei Federal, uma iniciativa da sociedade civil brasileira organizada, chamada Brasil Mata Viva – que não contou com o envolvimento ou o apoio do poder público (e apesar dele), atenta a esta necessidade de contabilização da riqueza gerada a partir do patrimônio ambiental, criou um novo modelo de organização econômica, capaz de gerar significativas riquezas e desenvolvimento social, proporcionando o crescimento econômico dos municípios, estados e,

Contatos

conseqüentemente, do País. Em 2017, o modelo do Brasil Mata Viva, que já vinha atuando com sucesso na esfera privada, passou a atuar junto aos entes sub-nacionais (estados e municípios) e conseguiu atribuir valores monetários ao serviço de preservação do patrimônio natural, inclusive das áreas públicas, como parques e unidades de conservação que, até então, eram tratadas como custo pelos municípios e estados. E o valor da riqueza gerada é bem significativo. Uma das atratividades para os entes públicos é a capacidade que o modelo possui de gerar valor às unidades de conservação públicas e de aumentar a arrecadação, devido aos impostos inerentes à comercialização do ativo de conservação florestal. Segundo Wilson Tomanik, diretor do Brasil Mata Viva, “apenas as unidades de conservação públicas estaduais poderão gerar mais de R$ 300 bilhões anuais, ocasionado num aumento de arrecadação de mais de R$ 78 bilhões por ano (somando-se os impostos municipais, estaduais e federal).” O estado de Goiás, pioneiro em instituir o modelo, o qual denominou de “Programa Tesouro Verde”, vai gerar 16 milhões de Créditos de Floresta

Vitório Francisco Rizoto, CEO da VFR, no e-mail vitorio@vfrnepar.com.br ou Dalvi Soares de Freitas ex-prefeito de Dom Feliciano e Consultor da Foccus Consultoria, no e-mail foccusconsultoriaeassessoria@gmail.com


anualmente, o que significa, em valor de face, cerca de R$ 1,2 Bilhão ao ano. Esse recurso será incorporado ao patrimônio público, transformando os bens proporcionados pela floresta nativa em recursos financeiros. O modelo visa estimular a expansão da base econômica em consonância com a dinâmica da economia verde. Vários municípios e estados estão aderindo com muita velocidade ao modelo. Além de Goiás, que foi pioneiro, o estado do Piauí já regulamentou o Programa Tesouro Verde. Entre os municípios, seis já regulamentaram, entre eles Goiânia e Barretos (SP). Segundo Tomanik, “existem conversas avançadas e promissoras com vários outros estados, como São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Amapá, Maranhão e com mais de 150 municípios, incluindo várias capitais.” Pelas estimativas apresentadas, se o estado do Rio Grande do Sul contabilizar os ativos gerados nos seus parques estaduais, terá R$ 3 bilhões a mais no seu PIB anualmente e, ao regulamentar a demanda através do Programa Tesouro Verde, proporcionará uma movimentação financeira no estado de aproximadamente R$ 9 bilhões. Com relação à capital gaúcha, os números também impressionam, serão R$ 57 milhões em ativos florestais e uma

movimentação de R$ 1 bilhão. Se a agricultura brasileira, há décadas, tem se mostrado o oásis de prosperidade em meio às tantas crises locais e mundiais, chegou à vez do Patrimônio Ambiental Brasileiro colocar o País em destaque o cenário mundial. Ainda mais relevante é destacarmos que o modelo Brasil Mata Viva surgiu sem a participação de governos e que, apenas após a implantação do modelo via iniciativa privada, é que os entes públicos começaram a aderir, por uma necessidade econômica, que se sobressaiu aos interesses políticopartidários. O modelo está disponível a todos os gestores públicos brasileiros, sem custo ou contrapartida - que não a de regulamentar. Prefeitos e Governadores atentos devem buscar iniciativas como essa para gerar novas e significativas riquezas, atrelando o benefício ambiental a um ciclo completo de desenvolvimento sustentável, que protege a vida e gera novas riquezas para a região onde os projetos de geração estão localizados. A VFR Negócios e Participações e a Foccus Consultoria e Assessoria representam a Brasil Mata Viva no Rio Grande do Sul e Santa Catarina para implantação junto aos entes Públicos e organizações privadas.


PMDB MULHER

REGINA PERONDI Presidente do PMDB Mulher do Rio Grande do Sul Maria Becchi

Seu partido foi o que mais elegeu prefeitas e vereadoras no RS. A que fatores a senhora atribui esse resultado? Acredito na força das mulheres do PMDB. Ao longo de duas gestões à frente do PMDB Mulher do Rio Grande do Sul, posso garantir que o processo de interiorização, possibilitando que companheiras pudessem debater iniciativas de atuação política, especialmente através da série de eventos Diálogos PMDB Mulher RS, estabeleceu um novo e ousado envolvimento e engajamento. Sempre com parceria do PMDB e da Fundação Ulysses Guimarães do estado, peemedebistas de centenas de municípios, em 19 edições dos eventos Diálogos, tiveram a oportunidade de construir o discurso e o foco de trabalho conosco. Percebemos com alegria que mais e mais candidatas com vontade de se elegerem foram surgindo no ano passado. O PMDB Mulher efetivamente marcou sua participação nas campanhas femininas criando o Grupo de Trabalho Candidatas Vencedoras, que atuou em duas frentes: visitamos mais de 50 municípios prestigiando as candidatas à prefeita e vice-prefeita e fornecemos material de propaganda a todas as candidatas à vereadora. Empregamos os cinco por cento do Fundo Partidário nas campanhas femininas. Resultado: somos campeãs nominais nacionais de vereadoras eleitas. Como funciona a dinâmica do PMDB Mulher, quais as principais ações e objetivos? Nossa dinâmica é baseada no Planejamento Estratégico Nacional: empoderamento político, superação da violência contra a mulher, dignidade

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no mercado de trabalho e saúde integral da mulher.

é referência para que possamos encontrar líderes nos municípios.

A partir desta orientação, promovemos reuniões e debates para dar voz às nossas filiadas. O Diálogos PMBD Mulher RS, por exemplo, desde 2013

De que forma a senhora acha que a ala feminina do partido pode influenciar no resultado das eleições do ano que vem?

Foto: Galileu Oldenburg

(...) somos campeãs nominais nacionais de vereadoras eleitas

O PMDB Mulher orienta sua gestão e suas ações para o empoderamento político feminino com igualdade, equidade e justiça social. Entre os nossos objetivos estão garantir o direito de participação, voz e voto nas decisões e ações partidárias; assegurar a representação junto aos órgãos do partido que elaboram as diretrizes e o programa de atuação partidária e as plataformas de governo. Nas eleições de 2014, reivindicamos e conseguimos participar da plataforma do candidato José Ivo Sartori e contribuímos efetivamente na construção do documento “O Rio Grande que queremos”, após participar de todas as 15 edições regionais do “PMDB que eu quero”. Lideramos um colegiado de mulheres de todos os partidos da coligação, realizamos muitos debates e ações de campanha. Em dezembro de 2013, reunimos quase mil mulheres no Teatro Dante Barone, no exitoso Congresso Estadual do PMDB Mulher. O tema do Congresso foi “Diálogos e Vitórias”, como culminância dos eventos criados naquele ano. Pesquisa interna realizada no evento, nos respaldou para defender com ardor a candidatura de José Ivo Sartori, que ainda não havia sido lançada, na pré-convenção em 2014. Estamos prontas e afiadas para influenciar positivamente o resultado da eleição majoritária ao governo e ao senado em 2018. E queremos fazer a diferença elegendo mulheres do PMDB para a Assembleia Legislativa e para a Câmara dos Deputados. Fale-nos um pouco sobre o circuito de discussões que o PMDB Mulher vem promovendo, quais as principais metas para 2018?

ENTREVISTA

Nas eleições de 2014, reivindicamos e conseguimos participar da plataforma do candidato José Ivo Sartori e contribuímos efetivamente na construção do documento “O Rio Grande que queremos”, após participar de todas as 15 edições regionais do “PMDB que eu quero”

A presença permanente nas decisões partidárias e a ocupação do espaço e eleitoral são e continuarão sendo nossas pautas. Em 2018, vamos fortalecer o nosso trabalho por intermédio de nossas parlamentares municipais. Uma inovação do nosso núcleo foi a criação do Fórum Permanente das Vereadoras, que certamente será uma parceria ativa nas nossas próximas vitórias. As vereadoras são sempre item de pauta dos Diálogos, que conta também com momento chamado de Vivências, quando são ouvidos relatos de líderes locais e regionais. Temos estimulado o debate e a conscientização sobre sororidade, conceito social e político de amizade e de respeito entre as mulheres. Estaremos fomentando o programa Mulheres Transformadoras, lançado este ano pelo PMDB Mulher Nacional. Teremos novo Congresso Estadual. Continuaremos a realizar rodas de conversa dentro das nossas bandeiras. E vamos entrar de pé direito no ano eleitoral com nosso grupo de trabalho Mais núcleos em 2017, Mais candidatas em 2018.

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OPINIÃO

ALÉM DA POLÍTICA PARTIDÁRIA

Alexandra Baldisserotto

Jornalista e ex-primeira-dama de Caxias do Sul

A

palavra “política” costuhá outras esferas em que a mulher ma remeter na maioria pode (e deve) atuar politicamente. A das vezes ao conceito de defesa de sua categoria profissional política partidária. Que, e de boas condições de trabalho; os aliás, é um espaço de atuação legítimo movimentos sociais; a difusão da pose no qual as mulheres não precisam se responsável de animais; o combate provar mais nada à violência; a propara ninguém. moção da saúde, da Temos prefeitas, educação, da espirigovernadoras, vetualidade, do esporreadoras, deputa- Sonho com uma te, da arte... das, presidentes de sociedade onde não partidos políticos, A família é outro secretárias de go- seja necessário o fórum importante. verno, senadoras, sistema de cotas e Foi no núcleo famie tivemos também liar que surgiu o que uma mulher na onde os movimentos considero um dos presidência da Re- aconteçam de forma maiores cases de lipública. Isto comfeminina do natural, evidenciando derança prova que a preRio Grande do Sul: a sença das mulheres as pessoas com Associação Caxiense na política parti- mais capacidade dos Clubes de Mães dária está mais do (ACMCS). A entique consolidada. de liderança, dade, fundada em E acredito que, se ética, caráter e 1975, hoje aglutina chegamos até aqui, cerca de quatro mil competência, foi por competênmulheres de todos cia e não somente independente os cantos da cidade. por causa das tais do gênero ou São formadoras de cotas. Defendo que opinião solidárias e a mulher ocupe os característica. influentes em suas espaços de poder comunidades. por ser líder e comAliás, nos mais dipetente – não por ser mulher. Claro que não é assim tão versos rincões do estado, há mulheres simples, pois, mesmo com todos os que são verdadeiros símbolos de lideavanços e conquistas, o preconceito rança. Além dos clubes de mães, atuam nas associações de moradores, nas ainda está presente. Sonho com uma igrejas, nas escolas. São agentes polísociedade onde não seja necessário ticos porque ajudam a transformar as o sistema de cotas e onde os movicomunidades onde vivem. Nos postos mentos aconteçam de forma natural, de trabalho, não é diferente. evidenciando as pessoas com mais capacidade de liderança, ética, caráter e Seja qual for o segmento, a atuação competência, independente do gênepolítica (partidária ou não) é a marca ro ou característica. das mulheres do século XXI. E este é No entanto, além da política partidáapenas o começo de uma caminhada. Nós viemos para ficar. ria, que rege o sistema democrático,

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PRIMEIRA-DAMA

PERFIL

AMOR E DEDICAÇÃO CONTRA AS DESIGUALDADES SOCIAIS Projetos mantidos pelo gabinete da primeira-dama de Farroupilha auxiliam centenas de pessoas carentes no município Texto: Renata Parisotto | Edição: Maria Becchi

Foto: Adroir Fotógrafo

Francis é empresária do ramo farmacêutico e, como primeira-dama do município, realiza ações voltadas ao meio ambiente, saúde, combate às desigualdades e injustiças sociais

“E

u me emocionei com uma mãe. Com o filho no colo e muito nervosa ela me disse que o marido estava trabalhando, era caminhoneiro, e tinha deixado R$ 50 para ela comprar pão e leite. Nesse meio tempo, a criança ficou doente e precisava de um antibiótico que custava mais de R$ 100. Ela não tinha dinheiro suficiente para comprar. Felizmente, nós tínhamos o medicamento e podemos entregar a ela. Nesse momento, tudo já valeu a pena”, conta a primeira-dama de Farroupilha, Francis Somensi. A situação, que fez com que a farmacêutica e empresária do ramo se emocionasse ao lembrar, aconteceu na

Farmácia Solidare, local idealizado e organizado por ela, onde estão armazenados diversos tipos de medicamentos doados por cidadãos, consultórios médicos, operadoras de saúde, distribuidoras, laboratórios e drogarias. Além de contribuir para o tratamento de saúde de muitos moradores, a iniciativa reduz o desperdício e o descarte incorreto de remédios e evita a automedicação. Para Francis, o sentimento é de gratidão. “É gratificante, é um dia que eu passo tranquila e me sinto com o dever cumprido.” Desde que entrou em operação, em 2015, a Solidare já recebeu mais de 700 mil itens e ajudou mais de 6 mil pessoas. A Farmácia foi reconhecida com o 1°

lugar no Prêmio Boas Práticas da Famurs e com o Troféu Prêmio Gestor Público, em 2016. Outra iniciativa importante que Francis deu continuidade ao iniciar suas atividades como primeira-dama, em 2013, é o projeto Querer Bem. Dezessete mil fraldas geriátricas e absorventes são doados mensalmente a cerca de 170 pacientes acamados e/ou paraplégicos. Para o futuro, a primeira-dama sonha em ampliar os serviços ofertados, através de uma atenção diferenciada aos usuários. “Temos um trabalho de orientação muito grande para fazer, de mostrar às pessoas um novo sentido na vida”, finaliza.

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EM EVIDÊNCIA

O EXEMPLO DE MUITOS CAPÕES O pequeno município de Muitos Capões mostrou ao resto do estado que a palavra “progresso” não dependente necessariamente de avanços tecnológicos. Muito antes das grandes cidades que se orgulham de suas atitudes vanguardistas, o município foi o único entre os 497 do Rio Grande do Sul a escolher duas mulheres para administrar a prefeitura. Um exemplo de civilidade e de democracia, não só dos eleitores, que tiveram o discernimento para priorizar o que realmente importa em um candidato, mas também do partido (DEM) e de suas candidatas, que ousaram em uma chapa feminina. A revista Em Evidência entrevistou a prefeita Rita de Cássia, que falou desta conquista histórica. Confira abaixo Entrevista: Paulo Batimanza

Muitos Capões entrou para a história como a única prefeitura do estado a ser comandada por duas mulheres, a senhora e sua vice. O que a levou, juntamente com seu partido, a formarem uma chapa exclusivamente feminina? Na verdade, acredito que não foi o gênero o fator determinante e acho que compartilho deste pensamento com o eleitor que nos escolheu para administrar o município, muito embora seja normal as pessoas acreditarem que foi proposital a formação desta chapa. O que me levou a convidar a Elenise, foi a empatia e certeza de que serei bem substituída caso isso seja necessário. Vimos, recentemente, no exemplo da presidência da república, a importância de escolher um

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Únicas: Rita de Cássia Pereira e Elenise Aves Cabral, prefeita e vice-prefeita em Muitos Capões Foto: ASCOM/Prefeitura de Muitos Capões


ENTREVISTA

Não há preconceito que supere o talento e a competência, mais cedo ou mais tarde alcançaremos a igualdade sonhada por nossas antepassadas, mas é preciso ter consciência de que temos que ser duas vezes melhores para alcançar o mesmo reconhecimento.

vice que realmente esteja comprometido com o projeto de gestão. No meu caso, nós duas somos do mesmo partido, da mesma família e temos o mesmo amor amor por nossa comunidade. Por que Muitos Capões escolheu duas mulheres para governar o município? Porque nosso eleitorado alcançou uma maturidade eleitoral que, além de ser rara, deve servir de exemplo para o resto do Rio Grande do Sul, afinal, é o único município administrado por duas mulheres. Eu, particularmente, sonho com o dia em que isto seja tão comum como é nos milhares de municípios que são administrados por dois homens. Nosso eleitor olhou para a nossa proposta de gestão, para o nosso histórico de dedicação e amor ao município, para os fatores e requisitos que realmente importam na hora de votar. Menos 6% de nossas prefeituras são comandadas por mulheres. Apesar disso, mais da metade do eleitorado é formado por mulheres. O que está acontecendo? Mulher não vota em mulher? Não acredito que mulher não vota em mulher. Acredito que é natural o receio de escolher uma mulher justamente porque existem poucas comandando municípios, câmaras e entidades em geral. É similar àquele trabalhador que quer entrar no mercado de trabalho mas não tem a experiência que lhe é exigida. Mas a história mostra, inclusive no nosso estado, que as mulheres que têm obtido este voto de confiança, têm correspondido. No RS, a porcentagem de mulheres reeleitas é bem acima da média, o mesmo acontece com vereadores que assumiram a presidência das câmaras mais de uma vez. Não há preconceito que supere o talento e a competência, mais cedo ou mais tarde alcançaremos a igualdade sonhada por nossas antepassadas, mas é preciso ter consciência de que temos que ser duas vezes melhores para alcançar o mesmo reconhecimento. EM EVIDÊNCIA | Ano 8 - Nº 59 - 2017

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OPINIÃO

Viviane Nery Viegas

Mestre em Direito e vice-presidente da ASDEP

HUMANIZAÇÃO COMO POLÍTICA PÚBLICA DE ESTADO E A FUNÇÃO SOCIAL DO DELEGADO DE POLÍCIA

H

á pouco tempo, estivemos diante de dar um passo à frente na luta contra a violência de gênero e/ou familiar. A aprovação do PLC nº 07/2016 com a possibilidade de ter as medidas protetivas de urgência deferidas pelas autoridades policiais representaria uma vitória social para as mulheres na efetivação de seus direitos, dentro do paradigma constitucional posto no Artigo 226, § 8º da Constituição Federal de 1988. Em que pese o veto parcial no tocante ao tema, é fundamental que essa discussão permaneça aberta. A ampliação de acesso aos mecanismos de defesa das mulheres posto na Lei Maria da Penha se retroalimenta pelo pressuposto do próprio sistema normativo: a integração sistemática de todas as instituições que compõem o sistema de justiça criminal e demais sistemas assistenciais, com o fim único de coibir e conter os delitos que envolvam violência de gênero e/ou familiar. A alteração legislativa viria ao encontro da construção de políticas públicas humanizadas para o enfrentamento desta violência. Parte-se do pressuposto que, para poder construir políticas públicas voltadas ao atendimento humanizado, especialmente na área da segurança pública, é necessário conhecer o desenvolvimento social e cultural de cada comunidade e, de forma mais ampla, de cada grupo social (vulnerável ou não), analisando-se a interação do indivíduo e da sociedade no seu processo de socialização.

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O aparato de segurança pública, enquanto direito social a ser concretizado, deve atender ao primado da dignidade da pessoa humana, e mais, deve atendê-lo de forma a não limitá-lo e a efetivá-lo de acordo com a dignidade pessoal e concreta de cada pessoa humana, o que coaduna com esta nova perspectiva. A temática dos direitos humanos e da humanização de procedimentos exige uma virada paradigmática no que se refere ao enfrentamento da violência, e, mais, na perspectiva das políticas públicas de atendimento às mulheres vítimas de violência de gênero, a humanização de procedimentos (ou alteração paradigmática) passa, no momento seguinte, pela necessidade de primar por uma atuação articulada e transversal, visando o atendimento integral e dinâmico dessas mulheres. O agir estatal deve estar voltado ao sujeito, à pessoa humana, e, portanto, deve atentar para as mazelas sociais pertinentes. O atendimento integral da vítima é um ato de responsabilidade estatal, mas também é um ato de cidadania e as instituições devem acompanhar esses avanços. Daí a função social do delegado de polícia, enquanto primeiro garantidor dos direitos fundamentais, ou seja, aquele que tem o primeiro contato com a vítima e com a realidade que a cerca. Um ato ampliativo legal, que fomenta a proximidade e, mais, a solução de conflitos de forma imediata e efetiva, merece prosperar, em nome das mulheres. Isto, sim, atende ao paradigma constitucional.


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ÚLTIMA PALAVRA

A MULHER NÃO PODE SER LEMBRADA APENAS NO PERÍODO ELEITORAL Adriane Cerini

Presidente do PR Mulher/RS

O

Brasil ocupa a 115ª posi- dos pela Justiça Eleitoral. Entendemos ção no ranking mundial que a participação da mulher na políde presença feminina no tica não é tarefa fácil. A dificuldade de parlamento, dentre os participar ativamente advém, muitas 138 países analisados pelo Projeto Mu- vezes, da sobrecarga que recai sobre ela. lheres Inspiradoras (PMI). A nação que Quase 40% das famílias brasileiras são apresenta o maior percentual de mu- mantidas, hoje, por mulheres, exclusilheres no parlamento é a Ruanda, com vamente. Ela, muitas vezes, trabalham 63,8. No parlamento fora, fazem as tarefas brasileiro, há somente domésticas praticamen10% de mulheres. Já te sozinhas, cuidam dos foi muito pior. A parfilhos, etc. Tudo isso, ticipação de mulheres Entendemos que sem contar a violência no parlamento federal a participação da que a mulher enfrenta brasileiro cresceu 87% dentro de casa. O Mapa entre janeiro de 1990 mulher na política da Violência 2015, dinão é tarefa fácil. e dezembro de 2016, vulgado pela Faculdade passando de 5,3% para A dificuldade Latino-Americana de 9,9%. A média munCiências Sociais, aponde participar dial subiu de 12,7%, ta que 55,3% das morativamente em 1990, para 23%, tes violentas de mulheem 2016. Segundo es- advém, muitas res são cometidas no tudos da PMI, o Brasil vezes, da ambiente doméstico e só deverá alcançar a 33,2%, por parceiros sobrecarga que igualdade de gênero ou ex-parceiros. Temos no parlamento Federal recai sobre ela. muito por fazer. Emem 2080. Até lá, temos bora representem 7 mimuito que fazer. É por lhões a mais de votos, isso que o Partido da as mulheres estão longe República do Rio Grande ter uma representade do Sul adotou uma postura que tem ção à altura no parlamento. Em 2014, como objetivo aumentar a participação só 11% dos cargos em disputa em todo da mulher na política. O presidente do o país ficaram com candidatas. No PR/RS, Deputado Federal Giovani Che- Congresso, a bancada feminina tem 51 rini, montou o novo diretório estadual deputadas (9,94% das 513 cadeiras) e do PR/RS, composto por 50% homens 13 senadoras (16% das 81 vagas). Dee 50% mulheres. Todos os diretórios finitivamente, a mulher não pode ser municipais devem seguir rigorosamen- lembrada apenas no período eleitoral. te essa orientação. Não é possível que Ela precisa participar ativamente da os partidos preencham as vagas com vida partidária, em condições igualitámulheres, com candidaturas do faz de rias, podendo se manifestar, impositiconta, apenas para não serem penaliza- vamente, como militante e dirigente.

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Revista Em Evidência - Edição 59  
Revista Em Evidência - Edição 59  

Revista de política, economia e negócios no RS. Nesta edição, uma amostra da força das mulheres na política do estado.

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