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Porto Alegre, março de 2012

EDITORIAL

Sujeito de Mercado

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evereiro é tempo de carnaval, evento visto pela cultura europeia como festa pagã praticada pelos nativos. Através da convivência decorrente da diversidade da formação cultural brasileira, foi que o carnaval, também de tradição europeia, aqui se reinventou como festa burlesca e, reencontrando na cultura negra nacional seu marco regulatório para a formação de uma tradição de identidade cultural brasileira, tornou-se a principal fonte de divisas do mercado do turismo internacional no Brasil. Em que pese o povo negro ter oferecido seus valores para a consolidação material e simbólica da sociedade, não aconteceu

a tradução dessa oferta em resultados de qualidade de vida nos diferentes períodos e modos de desenvolvimento econômico no Brasil. Cabe salientar que somente no limiar do atual milênio começamos a perceber de maneira gradual o quadro de desvantagens perpetuadas secularmente. Com essa percepção, cresce a presença do esforço organizado de diversos setores da sociedade brasileira para o desenvolvimento de ações direcionadas a reduzir a exclusão social e ampliar a igualdade de direitos. Com isto, constatamos reflexos positivos de ascensão da população negra paralelamente ao momento de pujança econômica que o país vive. Dados entusiasmadores estão sinalizando a redução

da pobreza, o aumento dos postos de trabalho e da renda nacional, abrangendo os afrodescendentes que têm apresentado índices significativos de participação em setores importantes da economia, a exemplo da classe de maior evolução, a classe C, onde aprecem com 68% de representantes, conforme dados do IPEA 2011. Além disso, como constata o Censo de Amostragem Domiciliar (IBGE, 2010), 51% da população do Brasil são composta por negros (pardos e pretos), sendo, assim, a maioria população oficial.

distribuição modificada. Diante desse fenômeno mercadológico vivenciado, esse ambiente privilegiado nos permite olhar e propor uma nova estratégia de negócios direcionados a essa fatia de consumidores relevantes.

Constatamos com isto, um quadro de avanço socioeconômico nunca alcançado no país, alterando o modelo da pirâmide social que passa a ter sua forma de

A partir desses sujeitos de mercado percebemos a necessidade de informar suas demandas específicas e gerais para a sociedade.

Com base nos dados censitários recentes o jornal Nação Z elaborou seu plano de negócios na região sul: Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, que apresentam um universo de consumidores afrodescendentes de 5,6 milhões de pessoas.

OPINIÃO

As mulheres, os negros e a cor do poder

por Airton Fernandes Araújo

Doutorando em Antropologia - UFRGS

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om a nomeação de Maria das Graças Silva Foster para a presidência da Petrobrás e de Heleonora Menicucci de Oliveira para a Secretaria de Políticas para as Mulheres, as mulheres, vem demonstrando que estão cada vez mais ocupando os cargos de poder e de influência no governo federal, bem como no

cenário político do país, ainda que estejam atrás dos homens. Este fenômeno vem se consolidando principalmente após a chegada do Partido dos Trabalhadores no Palácio do Planalto. No primeiro mandato de Lula, tinham exatamente sete (7) mulheres no primeiro escalão do governo contra apenas uma (1) no primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso. Quando Dilma Rousseff foi eleita presidente da república em 2010, alçou ao poder nove (9) mulheres. Ainda no inicio do seu mandato teve que substituir por problemas de favorecimento ilícito da sua empresa de consultoria, o seu ministro forte da Casa Civil, Antonio Palocci. O fez por uma mulher, Gleisi Hoffmann, tornando-se a detentora de maior poder depois da presidente. Ainda que mulheres e negros tenham sido mais vitimados e excluídos da política institucional ao

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Fotografia Carlos Coutinho - Ireno Jardim Revisão Suzana Ribeiro

As matérias assinadas e os artigos reproduzidos nesta edição são de exclusiva responsabilidade de seus autores.

longo da historia política brasileira, a sorte dos negros e, principalmente, das mulheres negras não tem acompanhado esta consagração que ora vislumbramos. Após a redemocratização em 1985, somente o nosso rei do futebol, Pelé, foi ministro de Estado no primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso. Com Lula no poder, em 2003, Benedita da Silva, ocupou o cargo de ministra da Assistência Social, uma pasta que nasceu para ser “estratégica”, porém, Benê, saiu do governo e sua vaga não foi preenchida por outro negro ou negra. No mesmo governo, outro negro ocupou um cargo de ponta da elite política, Gilberto Gil, como ministro da Cultura. Gil, entretanto, exonerou-se, em 2008, e novamente, os negros perderam outra referência no poder. Situação idêntica a de Marina Silva do Meio Ambiente, que pediu demissão e não foi substituída por um negro. Recentemente um outro político

ocupou uma pasta de enorme poder e prestigio tendo em vista a copa do mundo de 2014 e os jogos olímpicos de 2016. Trata-se de Orlando Silva, ministro do Esporte, mas que caiu sob suspeita de irregularidades em convênios com ONGs e, também, não foi alguém da mesma raça a ocupar o cargo deixado por Silva. Desta forma, os negros atualmente estão ocupando somente a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), um órgão específico da questão racial, devido a isto, talvez, seria constrangedor substituir seus chefes por pessoas não negras. E, é esta Secretaria, ou, a Fundação Palmares, a fatia de bolo do poder que cabe aos negros. Ou seja, com pouco recheio e sem a cereja na cobertura. Portanto, o poder está cada vez mais vestindo saia e usando salto, porém, ainda tem cor.


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POLÍTICA

Um homem de confiança no poder Trazido do centro do país pelo atual governador Tarso Genro, Vinícius Wu, é um dos poucos negros a compor o primeiro e segundo escalões do governo. Acompanhou Tarso Genro nos ministérios da Educação e da Justiça e atuou na sua campanha eleitoral. Acredita que a Conferência Estadual da Igualdade Racial será um momento importante para colocar a questão na agenda política. Para ele o importante é corrigir ações e distorções discriminatórias históricas. por Emílio Chagas

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razido do centro do país pelo atual governador Tarso Genro, Vinícius Wu, é um dos poucos negros a compor o primeiro e segundo escalões do governo. Acompanhou Tarso Genro nos ministérios da Educação e da Justiça e atuou na sua campanha eleitoral. Acredita que a Conferência Estadual da Igualdade Racial será um momento importante para colocar a questão na agenda política. Para ele o importante é corrigir ações e distorções discriminatórias históricas. A relação desse carioca com o atual governador começou bem antes, quando foi Assessor Especial e Chefe de Gabinete da Secretaria de Reforma do Judiciário do Ministério do então Ministro da Justiça. Uma trajetória que começou no movimento estudantil, quando foi diretor da União Nacional dos Estudantes (UNE).

Sintonia com Tarso Genro “Comecei minha atuação política no movimento estudantil, no Diretório Central da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Depois compus com a direção da UNE”, relembra Wu. Os primeiros contatos com Tarso Genro, então Ministro da Educação, foram em torno dos debates sobre a reforma na Universidade e políticas como o Pró-Uni e cotas para os negros. “Foi aí que esses debates puderam aflorar no governo e nas universidades no Brasil inteiro. E a partir disso estabelecemos uma relação de colaboração política”, afirma.

Cotas e políticas afirmativas A relação se consolidou com a ida de Tarso para o Ministério da Justiça, em 2007, quando Vinícius foi convidado para trabalhar como assessor especial do novo ministro. “Desde então estamos juntos”, diz. A sintonia rendeu novo convite, desta vez para trabalhar na campanha eleitoral do governo do estado do Rio Grande do Sul. Com a vitória, mudou “de mala e cuia” para cá. Como Chefe de Gabinete do governador, Wu busca o diálogo, a transparência e uma postura republicana na definição das prioridades da agenda do mandatário máximo do Estado, usando novas ferramentas para promover a integração do governador com a sociedade civil. Uma das suas preocupações é, também, auxiliar o governador nas relações transversais entre as secretaria e relações sociais e políticas, um dos diferenciais deste governo. “Agora estamos juntos nesta tarefa de organizar um projeto transformador para o Rio Grande”, lembrando os compromissos dos

debates sobre as cotas e das distorções acumuladas historicamente em relação à presença dos negros na universidade. Debate este que envolve a nação em sua totalidade. Wu sempre marcou presença nessa luta. “Aqui não vai ser diferente. Sou favorável às políticas afirmativas, no serviço público e nas universidades”, afirma. Segundo ele, a situação aponta toda uma complexidade porque há uma resistência muito forte de diversos segmentos da sociedade, inclusive dos meios de comunicação e do poder judiciário. “Mas nós estamos dispostos a enfrentar este debate, partindo principalmente, num primeiro momento, do nosso sistema educacional”.

opinião, é também um fato gerador de uma série de ações discriminatórias e distorções.

Reestruturação da UERGS, importante para a inclusão negra

“É preciso corrigir ações e distorções discriminatórias históricas”

Acesso e permanência dos estudantes negros na universidade Ainda em relação à UERGS, acredita ser de extrema importância a sua reestruturação para criar condições plenas de funcionamento para prosseguir esta luta. Projeta ações da Secretaria de Educação e a de Ciência e Tecnologia para a criação de políticas de acesso, transporte e moradia para a comunidade estudantil negra. “Um dos principais entraves à presença dos negros na

Wu informa que nesse contexto de lutas e mudanças está a reorganização da UERGS, Universidade Estadual do Rio Grande do Sul. “Nela vamos enfrentar esses temas, inclusive com a presença dos afro-descendentes do Rio Grande. Isso vale também para políticas vinculadas com as comunidades e universidades federais, assim como o serviço público, porque nós sabemos que as ações afirmativas buscam corrigir distorções”, responde quando questionado sobre a presença da comunidade negra no funcionalismo. O carioca Vinícius não poderia deixar de observar a formação étnica do seu novo estado, registrando que há “todo um imaginário construído da imagem do gaúcho e sua colonização européia, o que não deixa de ser importante. Mas a formação do gaúcho também é muito heterogênea e como sabemos, a presença dos negros é fortíssima. Porém, fora do Rio Grande ainda tem aquela imagem que a população negra aqui é reduzida”. Isso, na sua

universidade é questão da permanência. Para isto governo e secretarias vão desenvolver um conjunto de ações que garantam não só o acesso, mas também a sua continuidade”. Também considera essenciais pesquisas e estudos acadêmicos capazes de mapear a presença do negro, atualmente, na universidade. Neste aspecto ressalta a importância de uma política de transversalidade, com as secretarias dialogando entre si, para resultados mais eficientes.

Presença negra no Governo

Foto: Carlos Coutinho/Nação Z

Em relação ao discutido Conselho Estadual de Desenvolvimento Econômico e Social, que começou com praticamente nenhuma representação da comunidade e do movimento negro (Sirmar Antunes, ator negro representa a sua categoria), Vinícius, frisa que o Conselho tem diversas representações e que o órgão não se encerra nesta composição, podendo passar por renovações. Lembra, contudo, que existem câmaras temáticas e de debates que subsidiam as discussões. “Ele tem uma formatação inicial, provisória. Os movimentos que queiram se inserir, devem atuar fortemente neste sentido. O tema pode perfeitamente adentrar o Conselho com a formação atual, mas é preciso haver uma mobilização que o coloque na agenda”, afirma. Mobilização esta que acabou garantindo, posteriormente, assento de representação das religiões de Matriz Africana no Conselho.

Estatuto da Igualdade Racial

Vinícius Wu, Chefe de Gabinete do Governador do Estado

Ao abordar a implementação do Estatuto da Igualdade Racial, proposto pelo Senador Paulo Paim (PT), Vinícius acredita que, em âmbito local, é importante o governo atuar com medidas concretas em conformidade com o Legislativo. Aponta que deverá ser realizada a Conferência Estadual de Igualdade Racial, momento de assegurar e avançar em conquistas como o percentual de 18% das vagas para afrodescendentes no concurso público do Magistério Estadual. “Nela deveremos reunir todas as iniciativas existentes no estado e fazer uma coordenação a partir do governo estadual. Abertura e diálogo o governador tem para isso”.


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ECONOMIA

Empresa de Gravataí contrata trabalhadores haitianos Imigrantes haitianos chegam a Gravataí para morar e trabalhar. por Lisandro Paim

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m busca de oportunidades no Brasil, um grupo de 14 haitianos está trabalhando e morando na cidade de Gravataí, Região Metropolitana de Porto Alegre/RS. São 13 homens e uma mulher que já estão na cidade desde o dia 20 de janeiro, realizando treinamento na empresa Massas Romena. Juntamente com o desempenho profissional, os estrangeiros dividem histórias da, saudade e muita superação, sendo notável, apesar dessas circunstâncias, seu bom nível cultural e educacional bem como seus esforços para agilizar o entrosamento com a cultura brasileira, inclusive com a língua portuguesa, o que buscam através da leitura constante nos momentos de folga. Os estrangeiros estão residindo em uma casa cedida pela empresa na parada 72. Eles já experimentam um grande assédio da imprensa nacional, que relata a história de vida do grupo que veio de um cenário de fome e miséria que assola o Haiti desde o terremoto de janeiro de 2010 – que alcançou 7 graus na escala Richter, deixando um rastro de destruição e cerca de 300 mil mortos. O grupo, que estava vivendo em um refúgio na cidade de Brasiléia, no Acre, foi recrutado pelo diretor industrial da empresa, Alexandro Rosa. Segundo informações do Governo Federal, são quase quatro mil imigrantes haitianos no Brasil. “Fizemos uma pré-seleção com homens em torno de 30 anos, em Brasiléia. Inicialmente traríamos 10 homens mas resolvemos encaminhar a contratação de 13 homens e uma

mulher, que já fizeram exames médicos e estão fazendo o treinamento”, contou o diretor administrativo da empresa, André Rosa, irmão de Alexandro. De acordo com o diretor, a adaptação com os outros funcionários da empresa está sendo muito interessante. “Eles têm uma postura profissional bem legal, são esforçados. Para conversar, o pessoal aqui até arrisca um ‘portunhol’. Esta troca de experiências culturais é muito boa para todos”, enfatizou. André Rosa frisa que as vagas preenchidas pelos haitianos estavam em aberto e, portanto, não estão tirando espaço de mão-de-obra das pessoas da região. Na Massas Romena, os haitianos irão receber um salário de R$ 814,00, além de benefícios como cesta básica e plano de saúde. Todos eles atuam no setor de corte e empacotamento e já estão com a situação regularizada no país e com a carteira de trabalho assinada. Sete trabalham no turno da noite e sete no turno do dia. Sobre a motivação da empresa para contratação dos haitianos, André Rosa explicou: “Primeiramente pela dificuldade de mão-de-obra, pois não estamos exigindo experiência e escolaridade, e em segundo lugar pelo que acompanhamos as notícias do que estas pessoas passaram no Haiti, agora elas terão a oportunidade de um recomeço a partir de um trabalho remunerado”.

Uma comitiva da África do Sul esteve no Estado para uma agenda de cooperação e rodada de negócios. Representada por 60 integrantes, entre eles autoridades do governo e empresários das áreas de cosméticos, vinhos, tecnologia de informação e prestadores de serviços, a visita teve como objetivo fortalecer os laços entre o país africano e o Rio Grande do Sul.

Nas horas de lazer, Jacksin prefere ler e escutar música, assim como os amigos que moram com ele na casa. Em Gravataí, os haitianos conheceram alguns pontos da cidade como o Parcão e a Igreja Matriz, mas até o momento preferem ficar no alojamento. Ele conta que mantém o contato com a família – a mãe, dois irmãos e duas irmãs – pela internet. O pai faleceu logo que ele saiu de casa e foi para a República Dominicana, onde morou por 1 ano e 3 meses. “Graças a Deus ninguém da família morreu no terremoto, apenas uma parte da parede da casa caiu. Pretendo trazer todos para morarem aqui comigo. Meu irmão é jogador de futebol e até falei com o presidente do Cerâmica (clube de futebol) para ele jogar lá”, disse.

Na tarde de quinta-feira (15), o governador Tarso Genro recebeu o embaixador da África do Sul, no Brasil, Mphakama Mbete. Entre os assuntos tratados, houve a troca de experiências dos organizadores da Copa de 2010, na África do Sul, com autoridades gaúchas - o país mobilizou-se para realizar as obras de infraestrutura para a competição. A troca de experiências - os legados de avanço tecnológico, a prospecção de negócios e o desenvolvimento econômico e social - que sul-africanos conquistaram após a competição foram bem recebidas pelo executivo gaúcho. O estado se prepara para receber os jogos em 2014.

Uma nova oportunidade Troca de experiências

Foto: Lisandro Paim/Nação Z

O haitiano Jacksin Etienne (à esquerda), trainee contratado pela empresa com o brasileiro André Soares, técnico em Segurança

por Tomas Edson Silveira

“Trabalhei 14 anos como professor de idiomas e para mim aqui é outra experiência. Tenho objetivo de ter a formação de Técnico em Segurança do Trabalho e crescer na empresa. E também posso dar aulas fora do horário de expediente”, comentou o haitiano.

Sobre o relacionamento com os funcionários ele resumiu: “Estamos aprendendo novas experiências. Todo mundo gosta e nos quer aqui e isso é muito bom”, salientou. No período que ficou na Brasiléia, as recordações não foram muito boas: “Lá às vezes faltava água para a higiene pessoal e havia muito barulho, pois eram muitas pessoas num mesmo lugar”.

O professor de Idiomas Jacksin Etienne, 30 anos, contratado como trainee na empresa, auxilia os colegas como intérprete, repassando as orientações para o trabalho. Jacksin fala fluentemente o inglês, espanhol, o francês, o creole (língua materna) e o português. Ele morava na capital Porto Príncipe e disse que foi incentivado pelo pai a sair do país para procurar uma vida melhor para a família.

Comitiva da África do Sul trata negócios no RS

O técnico em Segurança, André Soares, de 24 anos é o responsável pelo treinamento dos estrangeiros na empresa, além da integração com os outros funcionários. André, que trabalha há mais de dois anos na Massas Romena, conta como está sendo a adaptação com os novos funcionários. Questões sobre segurança do trabalho, utilização dos maquinários, normas de segurança e qualidade dos produtos são alguns itens que compõem o treinamento. “Tem sido uma vivência muito boa e uma nova expectativa, onde todos estamos aprendendo. Eu e o Jacksin temos um bom entrosamento e ele repassa as orientações para os funcionários que somente falam o francês e com os que falam espanhol me comunico diretamente”, afirmou. Ele conta que houve uma preparação prévia dos demais funcionários sobre a questão de comunicação e disse que todos os haitianos foram muito bem recebidos pela equipe. “Todos da equipe auxiliam no trabalho, prestam ajuda para que possam entender o processo produtivo; a aprendizagem tem sido muito boa, pois eles estão se empenhando muito e nos surpreendendo”, disse. E acrescentou: “Conversamos diariamente sobre a cultura do Haiti e do Brasil. Até já solicitei pro Jacksin para ensinar outros idiomas”, revelou o técnico em segurança.

No decorrer do dia, acompanhado do Cônsul Econômico, Willem Van der Spuy, o Embaixador reconheceu que o Estado pode se tornar um fornecedor comercial fundamental para a África do Sul. O governador reafirmou a disposição do executivo gaúcho em estreitar as relações comerciais entre o país africano e o Rio Grande do Sul. O encontro entre o executivo gaúcho e representantes do governo sul-africano é resultado de uma missão do governo brasileiro, em novembro do ano passado, da Assessoria de Cooperação e Relações Internacionais em conjunto com o Ministério do Desenvolvimento. Para encerrar o encontro, no final da tarde, no galpão do Palácio Piratini, a comitiva da África do Sul foi recebida por autoridades gaúchas para uma atividade cultural com música, dança e apresentação do grupo Tambores de Iansã. Antes de desembarcar em Porto Alegre a comitiva já havia passado por Curitiba e São Paulo (cidades-sede da copa do mundo), capitais em que os executivos sul africanos têm interesse comercial. Foto: Claudio Fachel/Palacio Piratini

Vice-governador recebeu embaixador, à esquerda, e comitiva no Galpão Crioulo


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POLÍTICA

As incertezas na regularização do território do quilombo de Morro Alto - RS por Ieda Cristina Alves Ramos Cientista Social, Mestre e Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural da Universidade Federal do Rio Grande do Sul

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exclusão do segmento populacional negro do acesso à propriedade da terra foi firmemente estabelecida por meio de atos do poder legislativo ao longo do tempo. Ainda no período escravocrata, a Lei de Terras de 1850 veio substituir o direito à terra baseado na posse, por um direito adquirido apenas mediante registros cartoriais que comprovassem o domínio dessa terra. Para que tal comprovação fosse válida era necessário um processo de medição precedendo o registro. O custo dessa medição impediu que os negros, em muitos casos, se não na maioria, efetivassem seus registros. Contudo, a exclusão imposta pela falta do documento da propriedade, não tornou totalmente invisíveis esses negros em sua condição de detentores de terras, pois os lindeiros que tiveram suas terras registradas precisaram definir seus limites e, para isso, utilizaram as referências do entorno que, em algumas situações, se constituíam de terras dos negros. Em alguma medida, essas indicações de limites demarcaram vácuos nos mapas de medição, mas também localizam a presença negra em diversas regiões.

Portanto, não se deve imaginar que esses grupos camponeses negros tenham resistido em suas terras até os dias de hoje porque ficaram isolados, à margem da sociedade. Na verdade suas identidades são configuradas e reforçadas a partir das relações que se estabelecem nas fronteiras com outros grupos, o que não significa que tenha existido simetria ou que não tenham sido assediados por diferentes formas de perda de territórios. Após a promulgação da Constituição Federal

brasileira de 1988 com o registro no artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, a identificação, reconhecimento e titulação dos territórios de quilombos deveria, como se postulava, dar fim às limitações jurídicas e administrativas para a regularização do território das comunidades remanescentes de quilombos. No entanto, não foi efetivada a sua implementação até a decretação de leis e instruções normativas para que se tornasse de fato uma prática no Estado Brasileiro. O Decreto 4887/2003, instituído no governo Luiz Ignácio Lula da Silva, tem um caráter mais abrangente e flexível, pois considera remanescentes de quilombo os grupos étnico-raciais, segundo critérios de auto-atribuição. O que poderia configurar ser soberana a manifestação de uma comunidade em relação a sua identidade quilombola para que a regularização do território para reprodução social, física, cultural e econômica se efetivasse de direito e de fato, vem sendo questionado e posto a prova cotidianamente de diversas formas, reforçando a incerteza nos procedimentos. Constantes campanhas difamatórias em relação às lideranças, tentativas de criminalização ou descrédito na questão quilombola e a interferência sobre as regras no processo de regularização de territórios de comunidades remanescentes de quilombo vêm instaurando um cenário que beira ao Estado de Exceção onde se considera a questão quilombola como caso de segurança nacional. A situação tem sido mostrada de tal forma a se pensar que os negros quilombolas estão tirando direito dos agricultores brancos, estão criando uma polaridade em nosso país que não faz parte do protagonismo dessas comunidades rurais, com declarações de que os quilombolas estariam racializando e gerando divisão na comunidade, como se os negros não fossem, também, agricultores e, por isso, não devessem estar ocupando áreas em espaço rural próprias para atividades de produção agropecuária, estando, portanto, em lugar errado. O cenário de certeza que deveria rondar os procedimentos para regularização fundiária do território do Quilombo Morro Alto, lo-

calizado nos municípios gaúchos de Maquiné e Osório, no litoral norte, se restringiu à crença que as famílias quilombolas depositaram nas promessas feitas, seja de forma direta, com declarações dos agentes públicos no cumprimento de suas funções técnicas, seja de forma indireta por meio de declarações públicas veiculadas na mídia, estabelecendo tempo médio para conclusão da elaboração do Relatório Técnico de Identificação e Delimitação de Território (RTID), que foi publicado em 15 de março de 2011 pelo INCRA. Independente da fonte garantidora dos prazos, em nenhum dos casos houve o cumprimento das promessas proferidas.

Foto: PPDR / UFRGS

As famílias quilombolas de Morro Alto sofrem hostilidades, desemprego, violências diversas por parte de alguns representantes Agricultores investem no replantio de espécies nativas na região da comunidade também sofrem quando a demanda pela regulamentação de seu território passa tir a reprodução social, cultural e econômica de a receber definições que têm assumido caráter sua família. Esta é a forma como sempre aconparalisante. As declarações feitas por representeceu e deveria ser mantida. Tentar mudar isso tantes de alguns setores do Estado brasileiro é criar conflito. que deveriam acompanhar e proteger a garantia desses direitos, alimentam a ideia de que MorÉ necessário que o Estado brasileiro consiga ro Alto é um caso complexo e que proceder de estabelecer um cenário onde a regularização acordo com os trâmites previstos na legislação fundiária do território dos quilombos não tende a desencadear muitos conflitos. Esse disseja posta em oposição à chamada paz nacurso, se apresenta hoje, como se a convivência cional observando-se que as famílias quilomentre negros e brancos ao longo da história do bolas fazem parte desse estado e são mereBrasil tenha sido marcada por uma relação harcedoras da garantia de segurança nacional. moniosa e que só agora o conflito esteja sendo Agricultores são índios, são negros, são braninstaurado. Do ponto de vista dominante, sim, cos e todos possuem direito ao território do é harmoniosa uma relação onde os dominados qual são detentores históricos de formas sinsaibam o seu lugar e não ousem querer garangulares, distintas e legítimas de apropriação.


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Porto Alegre, março de 2012

MUNDO

da redação com informações da AFP WASHINGTON, 23 Mar 2012 (AFP) - O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, designou a Jim Yong Kim - um cidadão americano de origem sul-coreana, que atualmente preside a Universidade de Dartmouth - como o candidato dos Estados Unidos à presidência do Banco Mundial (BM), abrindo assim a disputa com um colombiano e uma nigeriana. A apresentação ocorreu no dia no dia 23 de março, na Casa Branca. “É chegada a hora de um especialista em temas de desenvolvimento dirigir o organismo de desenvolvimento mais importante do mundo”, disse Obama, acompanhado pelo próprio candidato. Os aspirantes à presidência desta instituição de ajuda ao desenvolvimento tiveram até o final desta mesma data para apresentar sua candidatura à sucessão do americano Robert Zoellick. Devido a um acordo tácito entre Europa e Washington, a presidência do BM vai sempre para um americano, enquanto que a do FMI fica, via de regra, com um europeu. A nomeação de Jim Yong Kim constitui uma

surpresa, uma vez que seu nome não havia sido mencionado entre os possíveis candidatos dos Estados Unidos. Segundo uma fonte próxima ao BM, a Casa Branca exerceu “uma pressão colossal sobre Hillary Clinton”, a secretária de Estado do presidente Obama, para que ela assumisse o cargo, mas esta teria dito que pretende sair da vida pública após o final do mandato presidencial em curso.

Foto: Brendan Smialowski / AFP

Obama apresenta candidato ao Banco Mundial que competirá com colombiano e nigeriana

O ex-ministro da Fazenda da Colômbia, José Antonio Ocampo, a ministra de Finanças nigeriana, Ngozi Okonjo-Iweala e o economista americano, Jeffrey Sachs, já expressaram publicamente seu interesse em dirigir o BM. A Colômbia, no entanto, descartou a possibilidade de promover a candidatura de Ocampo à presidência do BM, argumentando que sua prioridade é a eleição de seu vice-presidente, Angelino Garzón, na direção da Organização Internacional do Trabalho (OIT). O país alega também que outro colombiano, Luis Alberto Moreno, já ocupa a titularidade do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Secretária de Estado dos EUA, Hillary Rodham Clinton, e o secretário de Tesouro Timothy F. Geithner com o Presidente Barack Obama e o candidato à presidência do Banco Mundial Jim Yong Kim , na Casa Branca.

governo teria “simpatia” por um candidato latino-americano, mas afirmou que Brasília ainda não possui posição tomada. Pimentel disse durante uma coletiva de imprensa com corresponsáveis que “a tradição brasileira é apoiar latino-americanos” e essa seria a “pre-

No Brasil, o ministro de Indústria e Comércio, Fernando Pimentel, expressou que o

ferência” do país. Contudo, no ano passado, o Brasil apoiou a candidatura da francesa Christine Lagarde ao FMI, em detrimento do mexicano Agustín Carstens.

Boni Yayi, chefe de Estado do Benin, é eleito presidente da União Africana da redação com informações da AFP ADIS ABEBA - O presidente do Benin, Thomas Boni Yayi, de 54 anos, foi eleito como presidente da União Africana (UA) por um ano, durante uma cúpula em Adis Abeba cen-

O antecessor de Boni Yayi neste cargo honorífico, o chefe de Estado da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang Nguema, que dirigia a UA até o momento, anunciou a designação de seu sucessor. “Felicito o novo presidente da União Africana (...) Boni Yayi”, disse Obiang.

trada no comércio interafricano. A 18ª cúpula da UA foi realizada em Adis Abeba, no fim de janeiro, em novas instalações financiadas pela China. Além do tema principal da cúpula, o comércio entre países africanos, também tiveram espaço no encontro os assuntos institucionais. Foto: Wole Emmanuel/AFP

Thomas Boni Yayi é o novo presidente da União Africana

“O desenvolvimento de nosso continente está em nossas mãos, estimados presidentes”, declarou o presidente de Benin.

Comissão da UA

O presidente cessante da Comissão da União Africana (CUA), o gabonês Jean Ping, vai continuar a dirigir provisoriamente o órgão executivo da UA até a reunião de julho, em Lilongwe, Malawi, apesar de não conseguir a sua reeleição. O acordo foi obtido durante a 18ª Cúpula da UA por sugestão do presidente ugandês Yoweri Museveni, para quem o vice-presidente e os respectivos comissários vão se manter na próxima reunião, em julho, em Lilongwe,

Malawi. O presidente da CUA tem de ser eleito com a maioria de dois terços de votos expressos, o que Jean Ping não conseguiu, obtendo apenas 32 dos 36 votos necessários. Nestas circunstâncias, os estatutos da união prevêem que seja o vice-presidente a assumir interinamente o cargo até a próxima cimeira. Mas, depois de muitos debates, concluiu-se que o presidente cessante, segundo os estatutos, tem quatro meses para entregar as pastas ao sucessor. Por isso mesmo não tendo conseguido a reeleição, deve continuar até a cúpula de Lilongwe ,em julho. Assim, também não foi eleito o vice-presidente nem comissários da CUA que aguardam a abertura de outras candidaturas. A eleição do presidente da comissão determina a distribuição dos primeiros comissários por regiões econômicas, uma vez que os estatutos vetam o pertencimento destes à mesma região do líder da instituição, e repartição por gênero.


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Porto Alegre, março de 2012

COMPORTAMENTO Música e diversão nos cinco anos do garoto Toumani Rodrigues Uma divertida festa infantil, com brincadeiras e muita música, marcou a comemoração do aniversário de cinco anos do garoto Toumani Rodrigues, filho do casal Vladimir e Kyzzy Rodrigues. O evento, que contou com a presença de amigos e familiares, foi realizado no dia 25/02 no salão de festas do Sintrajufe em Porto Alegre. Brinquedos como cama elástica e piscina de bolinhas fizeram a alegria das crianças. Após

cantarem o ‘parabéns’ ao aniversariante, os convidados entraram no ritmo ao som de samba, reggae e MPB. Músicos renomados da capital gaúcha e região subiram ao palco para animar a festa como os integrantes do Coral do Centro Ecumênico de Cultura Negra (Cecune), o saxofonista Jorge Cidade, o percursionista Luiz Mário Tavares e os cantores Raggamano Koyah, Nina Fola, Pamela Amaro, Nicol Barbosa, Malu Viana, Cassio Henrique, Joel da Silva e Renato Araújo, entre outros. Fotos: Dulcídio Azambuja

Toumani comemorou cinco anos de idade junto a amigos e familiares

Vladimir e Kyzzy Rodrigues com os filhos Toumani (5) e Oluyemi (1)

Vladimir e Kyzzy com as crianças no aniversário do filho Toumani

Casal comemora Bodas de Prata no litoral gaúcho

GASTRONOMIA

Dicas deliciosas com o Chef Mamadou Sene*

Foto: Arquivo da família

Um momento inesquecível para celebrar a alegria e amor de um casal. José Machado e Maria Helena Silva Machado comemoraram as Bodas de Prata com uma grande festa no dia 14 de janeiro, em um restaurante no município de Quintão, litoral gaúcho. E nem mesmo a chuva atrapalhou o sucesso do evento. Cerca de 100 pessoas participaram da confraternização, que reuniu familiares e amigos vindos de diferentes cidades.

Maria Helena e José Machado na comemoração de suas Bodas de Prata

A celebração da união foi cuidadosamente preparada pela esposa, que decorou o salão com as cores branco e prata. Um pastor abençoou as alianças e uma surpresa, elaborada pela filha Lôide Helena, de 48 anos, e o neto Pedro José, de 20 anos, emocionou os convidados: fotos da história da família e do casal foram projetadas em um telão. Um conjunto musical animou a festa com músicas românticas e de diferentes ritmos, colocando todos para dançar. José Machado, de 75 anos, nasceu em Porto

Alegre e é chaveiro com mais de 60 anos de profissão. Maria Helena Machado, 69 anos, é funcionária pública federal aposentada, e natural de São Gabriel. O casal reside em Porto Alegre, no bairro Jardim Leopoldina. “A festa foi maravilhosa e especial, pois reunimos nossos amigos e familiares. Construímos uma vida juntos há quarenta anos, e em janeiro comemoramos nossos 25 anos de união. O nosso casamento trouxe muita alegria para a nossa família”, enalteceu Maria Helena Machado.

Músicos animaram a festa - no detalhe Nina Folla e Jorge Cidade

Bacalhau em confit de cebola roxa Ingredientes: 1kg de bacalhau cortado em quadrados grandes 1kg de cebola roxa Suco de 6 limões 150ml de azeite de oliva 3 folhas de louro, 1 colher de sopa de pimenta do reino em grão preta 100g de azeitonas verdes 5 ovos cozidos 5 fundos de alcachofra cortada em tiras Preparo: Colocar o bacalhau numa tigela com água fria e deixar de molho por 24 horas para eliminar o excesso de sal. Cortar a cebola em tiras, marinar no suco de limão junto com o bacalhau e a pimenta em grao durante 20 minutos. Colocar o azeite de oliva numa panela e levar ao fogo. Assim que estiver bem quente, juntar a cebola com o bacalhau e cozinhar 25 minutos com a panela semi tampada. Acrescentar os fundos de alcachofra e cozinhar por mais 5 minutos mexendo de vez em quando. Servir em uma travessa com as azeitonas, os ovos cortados em rodelas guarnecido com arror com açafrão ou batata ao muros. Rendimento: 8 porções * Premiado chef internacional Mamadou Sène, docente do SENAC-RS. O consagrado gourmet, dono de um extenso currículo, frequentou o Curso de Cozinha da École Supérieure de Gastronomie de Dakar, Senegal, onde também trabalhou como cozinheiro do Club Mediterranée.


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Porto Alegre, março de 2012

COMPORTAMENTO

Miss e Mister Quilombola participam de eventos da comunidade negra Desde que foram eleitos no primeiro concurso de beleza negra promovido pelo Quilombo Manoel Barbosa, de Gravataí, em novembro passado, a Miss Quilombola, Bruna Santos Silva, 14 anos e o Mister Quilombola, Fabiano dos Santos, 16 anos, já receberam diversos convites para a participação em eventos da comunidade negra. Os jovens participaram de atividades como escolha de beleza estudantil em Alvorada, exposições e bailes de clubes sociais negros em Gravataí e Canoas, entre outros na região Metropolitana. por Lisandro Paim

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a foto ao lado, o registro dos representantes da beleza quilombola presentes no encerramento da Exposição itinerante ‘João Cândido – A Luta pelos Direitos Humanos’ e de Artes Visuais ‘Expressões Afro de Gravataí’, realizada em dezembro de 2011, na sede da Associação Cultural Beneficente Seis de Maio, clube social negro de Gravataí.

Foto: Banco de imagens / Nação Z

O concurso O concurso que escolheu os jovens mais belos do Quilombo reuniu as comunidades dos quilombos de Gravataí e Canoas, moradores de bairros vizinhos e representantes de entidades da cultura afro-brasileira do Município, em novembro. O concurso feminino contou com a participação de 12 candidatas, entre 12 e 21 anos. A categoria masculina teve a disputa de três jovens. Torcidas animadas incentivaram as jovens durante o desfile. O júri foi formado por representantes de entidades e apoiadores do Quilombo.

Representantes da beleza Quilombola A Miss Quilombola Bruna Santos Silva tem 14 anos, mora no Quilombo Manoel Barbosa e participou pela primeira vez de um concurso de beleza. Estuda no 1° ano do Ensino Médio e seus sonhos são seguir a carreira de modelo e conhecer o Rio de Janeiro. Perguntada sobre o que mudaria no Mundo se pudesse, ela respondeu: “Acabaria com a pobreza e o preconceito”. O Mister Quilombola Fabiano dos Santos, de 16 anos, é morador do Quilombo Manoel Barbosa e cursa o 3º ano do Ensino Médio. A corte masculina também é formada por Deivid Santos de Moraes, de 16 anos e Sandro Silva da Silva, que são respectivamente o Príncipe Quilombola e o Simpatia Quilombola.

Da esquerda Deivid Santos de Moraes, Príncipe Quilombola; Bruna Santos da Silva, Miss Quilombola e Fabiano dos Santos, Mister Quilombola

Saiba mais informações do concurso de beleza:

Vencedoras

Miss Quilombola Bruna Santos da Silva Princesa Quilombola Fernanda Santos de Moraes Simpatia Quilombola Vera Maria dos Santos

Vencedores

Mister Quilombola Fabiano dos Santos Príncipe Quilombola Deivid Santos de Moraes Simpatia Quilombola Sandro Silva da Silva

Clube 24 de Agosto comemora Tombamento Estadual por Lisandro Paim O Clube Social 24 de Agosto, da cidade de Jaguarão, região Sul do Rio Grande do Sul,

comemora o Tombamento Estadual, confirmado no dia 25 de janeiro deste ano pelo Governo do Estado, no Diário Oficial. Em um ato solene, realizado em dezembro passado, com a presença de diversas autoridades locais,

O Tombamento Estadual foi confirmado no Diário Oficial do Estado, do dia 24 de janeiro, com a Portaria N° 004/2012. Confira o texto: O Secretário de Estado da Cultura do Rio Grande do Sul, no uso das atribuições conferidas pelo art. 90, V, art. 221,V,”d” e “e” e art. 222 e seus parágrafos, da Constituição do Estado, fundamentando-se pela Lei 7.2431/78, combinada com o decreto-lei n.° 25/37 e, considerando a importância de preservar o prédio do Clube Social 24 de Agosto, no Município de Jaguarão, corroborado nos Autos do Processo Administrativo n.° 2627-1100/11-0, RESOLVE: Tombar o edifício da sede social do Clube 24 de Agosto localizado na Rua Augusto Leivas, 217, esquina com a Rua General Marques, tendo como base o Parecer Técnico Iphae N° 20/11, tomando-se integrante do patrimônio cultural do Estado, ficando ainda resguardado o seu entorno. Publique-se no Diário Oficial do Estado. Ratifique-se e registre-se no respectivo Livro Tombo Histórico do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado. Promova-se a averbação no Registro de Imóveis competente.

professores, pesquisadores, vereadores, secretários municipais e o representante do prefeito municipal, dirigentes do Clube 24 fizeram a entrega da documentação exigida no processo de tombamento estadual, junto ao IPHAE, do Governo do Estado do Rio Grande do Sul.

Foto: Divulgação

Sede do clube foi tombada como patrimônio histórico

Na ocasião, o diretor do órgão de proteção patrimonial, Eduardo Hahn, afirmou aos presentes que esse processo seria irreversível e que o tombamento estava próximo. O pedido feito pelo próprio Clube, em maio de 2011, teve o apoio da Secretaria de Cultura e Turismo do Município e de colaboradores agregados à causa. O clube também sediou, em janeiro de 2011, o Encontro Estadual de Clubes Sociais Negros onde as entidades manifestaram solidariedade ao Clube 24 de Agosto e elaboraram o

Plano Estadual dos Clubes Sociais Negros do RS. “Entendemos que esse processo de tombamento abre caminho para uma resolução da situação judicial da instituição, bem como incentivará que outros clubes negros façam esse pedido de tombamento, contribuindo, assim, para a valorização do patrimônio afro riograndense e brasileiro”, salientou o presidente do clube, Neir Madruga.


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Porto Alegre, março de 2012

CULTURA

Dentro das comemorações dos 240 anos de Porto Alegre, o Jornal Nação Z inicia uma série sobre os principais pontos que demarcam a presença do negro na capital gaúcha. Nesta primeira edição, você irá conhecer o Museu de Percurso do Negro, projeto que confere mais visibilidade à participação dos africanos e seus descendentes na história da cidade. A ideia é antiga, diz Pedro Rubens Vargas, historiador, especialista em museologia e um dos idealizadores do Museu de Percurso do Negro. Ela remonta, e atende, na verdade, a reivindicações de entidades negras desde a década de 80, quando surgiram as primeiras propostas de um centro de referência afro-brasileiro. A formatação do Museu de Percurso foi incluída no Plano de Trabalho do Projeto Monumenta em Porto Alegre, única das 26 cidades conveniadas com o projeto, em 2002. No ano de 2008, finalmente o projeto foi iniciado com a pesquisa antropológica que definiu os locais de referência para a etnia negra, onde começaram a ser erguidos os marcos e monumentos. O primeiro deles foi O Tambor, na Praça Brigadeiro Sampaio, em 2010 e o segundo a Pegada Africana, na Praça da Alfândega, durante a última Feira do Livro.

Foto: Vinicius Vieira

Museu de Percurso do Negro, nas pegadas da presença negra

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por Emílio Chagas

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o decorrer dos debates surgiu a constatação de que faltavam evidências da presença da etnia negra na história da cidade. Principalmente nos monumentos, na arquitetura, nos nomes de ruas, etc.”, diz o historiador. Mais: existia um progressivo esvaziamento da memória negra na capital, relegando ao esquecimento muitas áreas da cidade que eram habitadas majoritariamente por negros, com forte tradição cultural ligada às religiões de matriz afro-brasileiras. Exemplos: a Colônia Africana, que passou a chamar-se bairro Rio Branco e Montesserat, na primeira metade do século XX, o próprio carnaval que tinha uma circulação intensa de negros entre as regiões da Cidade Baixa e o centro da cidade. Todos lugares que tiveram estes passos apagados. A partir desta realidade surgiram sugestões de que fossem construídos marcos físicos (obeliscos ou outras formas) que orientassem estes espaços mencionados, além de outros, para a memória da presença negra na cidade. A proposta evoluiu até ganhar seu escopo atual, com a contribuição da arquiteta Helena Machado, da prefeitura, e militante do movimento, além das discussões encaminhadas pelas entidades. “O projeto do Museu postulou a presença de quatro marcos, ou esculturas, no espaço urbano, em pontos marcados pelo esquecimento da cultura negra”, diz Pedro – lembrando ainda a ideia de se trabalhar com guias, monitores artistas e griôs no processo de criação.

“O projeto do Museu postulou a presença de quatro marcos, ou esculturas, no espaço urbano, em pontos marcados pelo esquecimento da cultura negra” Pedro Rubens Vargas

Roteiros e pontos de convivência do negro na cidade Sobre o percurso, Pedro considera importante destacar que ele é baseado em alguns pontos que aparecem na pesquisa realizada pelo antropólogo Iosvaldyr Bittencourt Júnior, que orientou o trabalho dos artistas e a formação dos monitores. Na Porto Alegre de fins do século XVIII e XIX era grande o número de negros escravizados, que misturados a negros libertos, fugitivos e quilombolas transitavam por suas ruas. Eles estabeleceram vários roteiros e pontos de sociabilidade, de encontros, onde trocavam informações e projetavam a sua cultura. Entre estes pontos pode-se destacar as antigas fontes que abasteciam a população de água (carregada por escravos negros), o antigo cais do porto, onde hoje é a Praça da


CULTURA 10

Porto Alegre, março de 2012

nação Z Foto: Vinicius Vieira

O antigo Largo da Forca, atualmente, Praça Brigadeiro Sampaio, na rua dos Andradas, onde está instalado o Tambor Africano, primeiro símbolo cultural afro do projeto

Foto: Emílio Chagas

Alfândega, pontos de venda como o Mercado Público, igrejas como a do Rosário, e ainda pontos relacionados a roteiros de punição como era o Largo da Forca, nas proximidades da atual Praça Brigadeiro Sampaio e o pelourinho municipal na cercanias da Igreja do Rosário. A estes locais citados se juntam representações contemporâneas do espaço urbano como é o caso do Esquina Democrática e o Largo Zumbi dos Palmares, entre outros.

Etapas do projeto Pedro Rubens Vargas, historiador

Informa o historiador que, formalmente, conforme o contrato assinado entre o projeto Monumenta/Ministério da Cultura/IPHAN/

LEITURA Entre Brasil e África: construindo conhecimento e militância Autor: Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva O que foi revelado em “Entre Brasil e África: construindo conhecimento e militância” pode ser visto como o convite à vida feito por uma intelectual comprometida com os princípios da fraternidade e da justiça social. A professora Petronilha Beatriz Gonçalvez e Silva é doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Pós-Doutora em Teoria da Educação Pela University of South Africa, Pretoria, África do Sul. Indicada pelo Movimento Negro foi conselheira da Câmara de Educação Superior do Conselho Nacional de Educação, mandato 2002-2006. É coordenadora do Grupo Gestor do Programa de Ações Afirmativas da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

Secretaria Municipal de Cultura e o GT Angola Janga (entidade designada pelo Crab para contratar com o poder público), o projeto previa a execução de um marco, a formação de 15 monitores, e a publicação do livro Museu de Percurso do Negro, além de mais três marcos, ou obras públicas, está encerrado - já que todas as etapas citadas foram cumpridas. Entretanto, devido à importância deste projeto para a etnia negra e a recepção calorosa dada pela população negra, ressalta Pedro, a coordenação do Projeto Monumenta em Porto Alegre, e as organizações da sociedade civil e poder público municipal, vem se empenhando para que os demais marcos saiam do estágio de projeto e sejam erguidos no espaço público no decorrer de 2012.

CINEMA No último minuto A história de Escurinho: futebol, violão e fantasia Autor: Jones Lopes da Silva Uma merecida homenagem ao ídolo colorado Escurinho escrita pelo jornalista Jones Lopes da Silva, “No último minuto - A história de Escurinho: futebol, violão e fantasia”. As páginas resultaram de mais de quatro anos de entrevistas, com mais de 300 pessoas. Jones reconta os momentos de Escurinho em campo, mostra a história de um craque sonhador, que muito entrou nos jogos apenas nos últimos minutos. Fora o futebol, o livro também dá espaço a outras paixões do craque, como a música e o violão. Escurinho acompanhou a produção do livro até quase as últimas páginas, quando acabou falecendo em setembro de 2011.

Além do Apartheid Mostra discute raça, sexo e política Na África Contemporânea Essencialmente sincrética e miscigenada, a África do Sul destaca-se do “continente esquecido” como uma sociedade emergente em termos culturais, políticos e econômicos. À fusão racial promovida pelo colonialismo holandês e britânico entre os séculos XVII e XIX e os terríveis anos do Apartheid, somou-se a atual imigração originada em nações vizinhas, como o Zimbabue, fazendo do país um tabuleiro cultural cuja intrincada trama promoveu a assunção de uma cena artística contemporânea extremamente consistente e criativa. Para dar visibilidade a este movimento, a Coordenação de Cinema, Vídeo e Fotografia da Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre inaugura no próximo dia 27 de março, às 19h, uma nova programação em dois espaços na Usina do Gasômetro, Além do Apartheid – Raça, Sexo e Política na África Contemporânea, que inclui uma exposição na Galeria Lunara (5º andar) e uma mostra de 11 filmes na Sala P. F. Gastal (3º andar).

Com méritos de nova inclusão, a manifestação visível da “Pegada Africana” afirma a Praça da Alfândega como um dos lugares de existência do Museu de Percurso do Negro. Na praça, antigo Largo das Quitandeiras, raízes históricas adquirem nova visibilidade na forma de continente africano, concebida a partir de uma linha formada por sinuosos movimentos de matriz orgânica. Vinicius Vieira apresenta um desenho contemporâneo, modelado em aço, que envolve e ressignifica as pedras portuguesas do local, simbolizando a concretização de políticas públicas que resultaram da luta histórica por reconhecimento das culturas étnicas.


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CULTURA

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Arthur Bispo do Rosário: a poesia do fio, em exposição no Santander Cultural Instituição recebe expressivas obras do artista, cuja poética tem profundo impacto na teoria crítica da arte, na arte contemporânea, nas terapias ocupacionais e também na medicina. por Lisandro Paim

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Santander Cultural inaugura a exposição Arthur Bispo do Rosário: a poesia do fio, em 20 de março. A iniciativa completa o ciclo de aberturas de três mostras em março, que já inclui O Triunfo do Contemporâneo – 20 anos do Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul e Rever. A nova exposição, que fica em cartaz até 21 de abril, na galeria superior leste, está em sintonia com a filosofia do Santander pelo fomento da cultura com visão contemporânea, voltada aos movimentos globais ao mesmo tempo em que valoriza a brasilidade. São 239 obras que mostram o universo deste artista singular que, na complexidade do delírio, foi capaz de romper paradigmas e transgredir conceitos para elaborar uma grande obra. A expografia faz alusão às cenas fortes que contemplam alguns aspectos do universo da obra e do pensamento do artista. Bispo do Rosário passou a maior parte de sua vida internado em uma clínica para doentes psiquiátricos e lá produziu toda sua obra, que hoje é um importante patrimônio cultural brasileiro. Por meio de sua criação, acessamos um imaginário que serve de ponto de partida para um amplo processo de reflexão da arte contemporânea e da cultura popular.

Arthur Bispo do Rosário: a poesia do fio tem a parceria do Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea e dos curadores Wilson Lazaro e Helena Severo. “A obra de Arthur Bispo do Rosário se confunde com a sua própria vida e faz parte de um universo da criação de artistas que, como ele, desenvolveram a trajetória à margem da sociedade. Essa “vida-obra” tem a força de uma rebelião silenciosa e solitária”, destacam os curadores, que procuraram trazer contemporaneidade ao projeto”, ”, destaca a dupla de curadores. Já Carlos Trevi, Coordenador Geral das Unidades Culturais do Santander, salienta que “Arthur Bispo do Rosário foi um artista de vanguarda, de forma absolutamente intuitiva, sem receber qualquer treinamento técnico, conviver com outros artistas, ler livros especializados ou frequentar espaços de arte, e mesmo assim ele tem forte influência nas artes plásticas, moda, literatura, poesia, design, dança, cinema, teatro, fotografia e música”. Sobre Arthur Bispo do Rosário Durante cerca de 50 anos, Arthur Bispo do Rosário viveu alimentando-se de sua arte, recusando os tratamentos psiquiátricos — drogas, eletrochoques e lobotomia —, não frequentando os ateliês da arteterapia ou terapia ocupacional oferecidos como opção única da arte. Por meio da arte, Bispo superou limites, apropriou-se de sua loucura para elaborar trabalhos que provocam ressonâncias e são os mais vigorosos testemunhos da capacidade humana de criar. Sergipano de Japaratuba, Arthur Bispo do Rosário, seu nome de batismo, filho de Adriano Bispo do Rosário e Bladina Francisca de Jesus, nasceu em 14 de maio de 1909, segundo os registros da Marinha de Guerra do Brasil, onde serviu de 1925 a 1933. Mas, de acordo com os registros da Light, companhia de eletricidade do Rio de Janeiro, onde trabalhou até 1937, a data de

Fotos: Divulgação

seu nascimento seria 16 de março de 1911. Foi internado em 22 dezembro de 1938, no Hospício Nacional dos Alienados, na Praia Vermelha. Lá, foi diagnosticado com esquizofrenia paranoide e em 25 de janeiro de 1939 foi transferido para o pavilhão 11 do Núcleo Ulisses Viana, na Colônia Juliano Moreira. No período de 1940 a 1960, driblando a burocracia do hospício, Arthur Bispo do Rosário saiu e voltou diversas vezes à Colônia. Passou por várias ocupações até chegar à clínica pediátrica AMIU, em Botafogo. Lá, num quarto isolado do sótão, produziu grande parte da sua obra. Retornou definitivamente, em 1964, à Colônia Juliano Moreira, onde ficou até a sua morte, em 5 de julho de 1989, às 19h, de infarto do miocárdio, arteriosclerose e broncopneumonia.

Arthur Bispo do Rosário

Durante toda a sua permanência, utilizou o espaço da instituição como seu ateliê, onde criou as 804 obras que hoje estão aos cuidados do Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea. Em 1992 foram abertos os

processos de tombamento das obras no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e no Instituto Estadual do Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro (INEPAC).


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Porto Alegre, março de 2012

nação Z

por Tomas Edson Silveira

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elo segundo ano consecutivo, a Escola de Samba Estado Maior da Restinga conquistou o Carnaval de Porto Alegre de 2012. Com o tema enredo “Da mitologia à realidade a Tinga com a taça na mão! Vinhos do Brasil, sinônimo de qualidade, saúde, prazer e prosperidade”, a agremiação venceu com apenas um décimo de diferença em relação à vice-campeã Imperadores do Samba.

Foto: Ireno Jardim

Restinga comemora bi-campeonato e projeta o Carnaval de 2013

A escola da zona sul da capital homenageou a produção de vinho no Brasil. As 21 alas, os cinco carros alegóricos e os dois mil componentes contavam a história do produto através de suas fantasias e representações. O tema foi escolhido pela comissão de carnaval que, após analisar outros temas, viu ali uma grande possibilidade de fazer um bom desfile a partir do samba enredo que falasse do setor vinícola no país. Desde 2003, a escola de samba traz enredos com temas patrocinados ou que tenham parcerias com a sociedade civil, optando por temas que possibilitem incentivos , por parte de empresários, interessados no assunto. Um histórico recente de sambas enredos patrocinados. Esse ano não foi diferente: a escola aproveitou o crescimento do mercado do vinho (o Brasil é o quinto maior mercado no mundo) para buscar patrocinadores e parceiros. Para o presidente da Escola, Robson Machado Dias, o Preto, para proporcionar à cidade de Porto Alegre um bom espetáculo é necessário o apoio de parceiros que tenham interesse em divulgar seu produto no carnaval - esse ano a escola fez parceria com 10 vinícolas do Estado e com o Instituto Brasileiro do Vinho (Inbravin), através de um projeto de incentivo à cultura.

O mestre-sala Chula e a porta-bandeira Priscila Souza Abreu evoluem à frente da escola

- “A gente não pode ser hipócrita: para fazer um bom carnaval e contratar bons profissionais, precisamos de recurso. Então, com parceria fica mais fácil. A Tinga busca a cada enredo parceiros. É uma filosofia da escola para mostrar um carnaval diferenciado”, comenta. Para compor as fantasias e as alegorias do carnaval de 2012 os carnavalescos da escola passaram quinze dias na Serra Gaúcha, visitando vinícolas para conhecer de que forma o vinho gaúcho se tornou renomado em todo o país. O presidente afirma que o enredo foi totalmente comercial e que outras escolas também utilizam esses recursos para apresentar um carnaval de melhor qualidade para o público gaúcho e para os turistas.

Três décadas e meia de carnavais

Foto: Tomas Edson Silveira

Robson Machado Dias, o Preto, presidente da Escola de Samba Estado Maior da Restinga

A escola das cores verde, vermelho e branco, que tem como símbolo o cisne branco, completou 35 anos no dia 20 de março. Nessas três décadas e meia de existência já se consagrou campeã por 11 vezes. Por estar localizada no extremo sul de Porto Alegre, os integrantes da escola, em sua maioria, são moradores da comunidade. É o caso do

O presidente comenta o fato de que as escolas de samba da capital estão em um nível muito elevado, e a disputa é cada vez melhor.

“É preciso construir de uma maneira definitiva as instalações do Complexo Cultural do Porto Seco, para que a gente possa receber ainda melhor a população da cidade e os turistas. As escolas de samba fazem a sua parte, mas agora nós precisamos da parceria entre os governos municipal e estadual e das diversas empresas para que o carnaval do Rio Grande do Sul continue crescendo”, avalia

- O carnaval está no caminho certo. Eu estou muito feliz com essa competição que é cada vez mais acirrada. Se o título ficasse com a Imperadores do Samba ficaria bem, se ficasse com a Imperatriz Dona Leopoldina ou Bambas da Orgia, também. Nosso carnaval (competição) está muito nivelado.

A palavra que vai puxar o tema enredo de 2013 é “superação”. Após um intercâmbio cultural no Rio de Janeiro, os integrantes ficaram instalados em uma associação que presta auxílio à deficientes físicos, daí surgiu a ideia de um enredo que aborde a superação.

Na opinião dele, o carnaval de Porto Alegre está evoluindo, mas as melhorias só serão possíveis através de uma parceria entre os governos estadual, municipal e as empresas, possibilitando o aumento da infraestrutura do Complexo Cultural do Porto Seco.

- A ideia é falar da superação das pessoas, não só da superação do deficiente físico, mas a superação do ser humano. A Tinga vai trazer em 2013 um grande enredo buscando o tricampeonato do carnaval. Temos vários exemplos de superação aqui na comunidade, relata.

presidente Preto, hoje com 43 anos, que participa desde os seis anos de idade. Levado pelo pai, João Brasil, já passou por vários setores da escola e há três anos está à frente da presidência.

“A gente não pode ser hipócrita: para fazer um bom carnaval e contratar bons profissionais, precisamos de recurso. Então, com parceria fica mais fácil”


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Porto Alegre, março de 2012

CULTURA 13

No Paraná, negros também tem! por Marcilene Lena Garcia de Souza Doutora em Sociologia pela UNESP

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or muito tempo no Paraná houve uma tentativa de esvaziamento da história do Paraná sobre a contribuição dos africanos e seus descendentes. Negação da história e do valor da população negra para a construção da identidade paranaense. No Paraná, é possível identificar manifestações de matriz africana em diversas expressões culturais, nas festas populares, na literatura, na arquitetura, na engenharia, na matemática ou culinária. A resistência negra no Paraná esteve vinculada tanto ao cultivo da memória, através da religiosidade, da estética e da cultura, quanto às revoltas, fugas, e à formação de comunidades remanescentes quilombolas que também destacam o Paraná em função da quantidade deste perfil de comunidade.

Foto: Alberto Coutinho / AGECOM

possível falar do Estado do Paraná como sendo “Um Estado Europeu” sem revelar o quão africano é o Estado do ponto de vista da sua história e sua cultura. O Paraná é o Estado mais negro da Região Sul do Brasil. Precisamos conhecer de forma mais profunda o Paraná. Contar uma história mais justa do Estado para o país e para o mundo. Assim, o Bloco Carnavalesco Ilê Aiyê de Salvador ao problematizar a presença de negros no Sul do Brasil, oferece uma grande oportunidade nacional de apresentar aspectos da cultura negra que ainda encontram-se bastante invisibilizados no país. Também contribui para a discussão acerca do desenvolvimento do país, especialmente quando consideramos como o desenvolvimento social e econômico destes três estados que compõe a Região Sul do Brasil (Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná) teve com base o escravismo criminoso de africanos e seus descendentes. Vê-se, ainda, que no Paraná, por exemplo, do ponto de vista da construção de seu um imaginário, há um reforço em reproduzir um ideia de que este seria “um Estado Europeu”. Tal ideário, que por ora, poderia até mesmo se apresentar com sendo um discurso “modernizante”, na verdade, sabemos, corrobora e reproduz a invisi-

Estas características têm mostrado que não é

Bloco Ilê Aiyê de Salvador homenageou a cultura negra do sul do país no tema do carnaval de 2012

bilidade e da contribuição da população negra na história do Paraná, impactando, inclusive a forma de gestar as políticas públicas. Nota-se uma articulação entre “cultura dominante” e estratégias de “poder simbólico” quando este imaginário “Europeu”, por exemplo, alcança sucesso entre seus habitantes, mas, também fora do Paraná. Há um consenso estrutura-

“Carnaval no sul aqui também tem”

por Lúcia Regina Brito Pereira Doutora em Historia, PUCRS A invisibilidade do negro no sul do país começou a mudar após a incisiva intervenção do Movimento Social Negro. Isto é de longa data: desde os negros em movimento - entenda-se aqueles e aquelas que contribuíram e contribuem subjetivamente para a promoção do povo negro - até a efetivação de uma organização politicamente consistente das organizações negras culminando no que se chama atualmente de Movimento Social Negro. Quando falamos “começou a mudar” é porque esta realidade está longe de se tornar mais abrangente, isto é, as demais regiões do país ainda desconhecem a herança negra dos estados do sul, visto que a região é divulgada como próspera devido à colonização européia e que a presença negra teria sido pouco expressiva no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

De acordo com as determinações da Lei 10.639/2003, a Editora Grafset sediada na Paraíba elaborou a Coleção “A África Está em Nós”, que retoma a história africana e também resgata as africanidades presentes em todos os estados do país. No caso do Rio Grande do Sul coube a mim a coordenação desta produção (no prelo). Retomando a prática interativa e integrativa dos movimentos sociais negros, o presidente do Ilê Ayê, Antônio Carlos dos Santos, o Vovô, a partir da sugestão de um amigo acatou a ideia de mostrar os negros da região sul. Daí surgiu o tema do bloco em 2012: “Negros no Sul. Lá também tem”. E foi uma feliz conjunção de interesses, após a visita de integrantes do Ilê aos pontos onde a população e a cultura negras são mais expressivas, em Porto Alegre, Pelotas, Rio Grande e Santa Maria, uma delegação dos três estados foi convidada a ir até Salvador para a realização de atividade que integrou as comemorações da “Semana da Mãe Preta” onde e quando apresentamos aspectos relevantes da presença histórica dos negros no estado a todos os integrantes do bloco Ylê Ayê. Apresentamos aspectos históricos da presença negra no Rio Grande do Sul

relativos ao trabalho, as forças negras integrantes das diferentes batalhas nas quais mais se destacam os Lanceiros Negros, as Irmandades, associações, clubes passando pelos territórios negros urbanos e os quilombos. Igualmente apresentamos a especificidade da cultura negra na atuação das mulheres, na manifestação religiosa, na intervenção política, nos esportes e nas artes. Em relação à cultura carnavalesca salientamos a importância das associações e dos clubes negros que tiveram um papel preponderante na popularização deste evento. Esta raiz histórica oriunda da Colônia Africana, da Ilhota, em Porto Alegre, atualmente é representada pelas escolas de samba que proporcionam muito mais que a simples diversão, elas são territórios de preservação da identidade negra. Pois bem, acho que foi uma surpresa para a maioria das pessoas lá presentes da intensa história do povo negro no Rio Grande do Sul, no Paraná e Santa Catarina. É certo que a criatividade dos integrantes saberá contar objetivamente, no desfile do Ilê neste ano, a história condensada que lhes foi apresentada. Certamente esta será uma significativa contribuição para a divulgação da presença do povo negro no sul.

do ideologicamente do ponto de vista racial que merece ser problematizado para melhor compreender o Brasil. Salienta-se que estas políticas institucionalizadas de racismo que se manifesta na forma de hierarquização das diferenças culturais como se observa em muitos livros didáticos publicados, mas também no material publicitário é veiculado dentro e fora do país que impõe um perfil de diversidade étnico-racial presente no Paraná que invisibiliza a presença negra. Em muitas situações, pessoas de senso comum chegam a perguntar: “mas, há negros no Paraná?” Os negros (pretos e pardos) existem, sempre existiram e representam quase 30% da população no Estado. Assim, conhecer a história do Estado do Paraná e conhecer a Região Sul do Brasil a partir da contribuição econômica, social e cultural da população negra, permitirá o Brasil se conhecer e melhor compreender seus desafios sociais, culturais e simbólicos para a promoção da igualdade racial.


CULTURA

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nação Z

Irmandade do Rosário e suas tradições em Porto Alegre Ilustração: Acervo MJC/J. Gaudenzi

A importância da irmandade na Festa dos Navegantes, nas organizações sociais e na fé religiosa dos negros em Porto Alegre por Liane Susan Muller Profa. Mestre em História do Brasil

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o ano de 1871, quando da primeira festa dos Navegantes em Porto Alegre, a Irmandade do Rosário já havia se transformado em Arquiconfraria. O luxo, o poder, e a influência dos irmãos negros do Rosário eram bem conhecidos, tanto no meio religioso quanto entre os leigos da cidade. Isso por certo favoreceu a escolha de sua igreja para o que se tornaria uma tradição: a visita anual da imagem dos Navegantes. Em dezembro do ano anterior, enquanto o símbolo da devoção viajava de Portugal para o Brasil, mais especificamente para Porto Alegre, o 2 de fevereiro foi fixado como o dia da festa da santa das águas. Esse dia, na liturgia católica, sempre foi muito especial, pois representava o Dia da Purificação de Nossa Senhora ou de Apresentação do Senhor Jesus Cristo. Entre 1871, ano da festa inaugural, e 1881, quando aconteceu a primeira procissão por terra do Arraial dos Navegantes (e da capelinha de mesmo nome) para a igreja do Rosário, a imagem da santa dos marinheiros viveu na Capela do Menino Deus. Era de lá que, primeiramente no dia 1º de fevereiro e, mais tarde, no domingo anterior à festa, a imagem partia em procissão fluvial para

uma igreja localizada no centro de Porto Alegre. Ali ela deveria ser “conhecida, admirada e venerada”. Da mesma forma que a igreja sede foi escolhida no Arraial do Menino Deus por conta da numerosa colônia portuguesa que, em 1871, ali habitava, a igreja de N. Sra. da Conceição foi a escolhida para receber a visita da imagem dos Navegantes. Tanto quanto hoje, na Av. Independência, a igreja da Conceição avizinhava com a antiga Sociedade Portuguesa de Beneficência, atual Beneficência Portuguesa. Os homens que haviam encomendado a imagem eram todos portugueses e pretendiam manter fortalecida sua devoção dentro da comunidade.

ostentando seu maior esplendor. A solidariedade voltou a se manifestar na festa, pois em 29 de janeiro do mesmo ano, em anúncio no jornal A Reforma, a Arquiconfraria de N. Sra. do Rosário conclamou seus irmãos para que, pelas 4 horas da tarde, se reunissem, em corporação, isto é, com todas as vestes, pompas e circunstâncias, para acompanhar a imagem dos Navegantes da igreja da Conceição até a Capela do Menino Deus. O escrivão que assinava o chamamento era um dos mulatos de trajetória mais famosa em Porto Alegre: Aurélio Veríssimo de Bittencourt (escrivão e Prior da Irmandade do Rosário; secretário de município; fundador do jornal O Exemplo, periódico semanário totalmente voltado para a comunidade negra de então).

A adoração e o respeito dos negros já havia se manifestado em janeiro de 1871, quando os iates Porto Alegre; Rio Grande e Promptidão aportaram na capital gaúcha trazendo a primeira imagem dos Navegantes. Naquele dia, a Arquiconfraria do Rosário foi às ruas ostentando seu maior esplendor.

Não se sabe bem o porquê, mas o fato é que no ano seguinte a santa, em sua visita ao centro, pousou na igreja do Rosário. A adoração e o respeito dos negros já havia se manifestado em janeiro de 1871, quando os iates Porto Alegre; Rio Grande e Promptidão aportaram na capital gaúcha trazendo a primeira imagem dos Navegantes. Naquele dia, a Arquiconfraria do Rosário foi às ruas

Ilustração: Jean-Baptiste Debret

Não sabemos se a imagem dos Navegantes fixou a tradição de pousar no Rosário pelo prestígio que a Irmandade tinha. Essa bem pode ser uma das principais causas. Como também o fato de que a Igreja, mesmo sendo central, era a matriz de uma diocese enorme que se estendia até os limites da Aldeia dos Anjos, hoje Gravataí. Some-se a isto o fato do sincretismo existente entre a Iemanjá dos negros e a santa católica dos navegantes. O que é necessário dizer é que se os brancos foram os idealizadores e os criadores do nome oficial da festa, os negros foram os responsáveis por sua difusão e popularização. Prova disso é que os batuqueiros negros, muito embora tivessem e tenham ainda, em seus terreiros, comemorações próprias a Iemanjá, jamais deixaram de participar das procissões católicas. Sempre estiveram lá pagando promessas, carregando o andor, pousando nas águas do Guaíba as delicadas oferendas à protetora dos marinheiros e da cidade de Porto Alegre.

Cerimônia de coleta de esmolas realizada pela irmandade

A própria melancia, símbolo da festa e elemento indispensável da dieta escrava, atesta a penetração que o Navegantes tem dentro da comunidade negra. Pode-se dizer até mesmo que, hoje em dia, passados em torno de 40 anos da extinção da Irmandade do Rosário, a festa religiosa dos Navegantes é, ao lado do carnaval pagão, uma festa negra por excelência.

Fachada da antiga Igreja do Rosário fundada em 1828, na atual rua Vigário José Inácio

Desde 1872, ano em que a imagem de Navegantes passou a ser exibida na igreja do Rosário, homens negros de grande expressão social em Porto Alegre tomaram parte na festa, sendo, inclusive, destaques. É o caso, por exemplo, do maestro Joaquim José de Mendanha, mineiro, pardo ao que tudo indica, ativo Irmão do Rosário e, durante anos, condutor da orquestra que animava a festa dos Navegantes. Quando não era uma figura individual, um grupo inteiro de negros fazia sucesso nos festejos. Presença constante desde 1888, a Sociedade Musical Floresta Aurora, clube social negro que, infelizmente oscila hoje entre a permanência e a extinção, era requisitadíssima pela qualidade de suas interpretações musicais. Não se sabe ao certo por quantos anos ela se fez presente nas festas de Navegantes. O último registro em jornais, contudo, data de meados da década de 20. Outra figura de destaque, maestro também, foi o Prof. Joaquim José da Rocha. Ele passou a reger uma das orquestras que abrilhantava a festa dos Navegantes no mesmo ano em que se tornou Irmão do Rosário, 1890. Nove anos mais tarde, um terceiro maestro negro, Pedro Correia Borges, era o responsável pela regência da orquestra principal da festa. Vale ressaltar que, ao longo destes anos, no mínimo duas orquestras se revezavam na condução dos festejos. Tanto era assim que, em 1948, uma outra banda negra se fez presente na procissão de Navegantes, a Lira Oriental, cuja sede era o Areal da Baronesa, tradicional reduto negro. Segundo o Correio do Povo, a Lira ficou responsável pelo acompanhamento da imagem dos Navegantes da Igreja do Rosário até o Cais do Porto.


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EDUCAÇÃO Florianópolis sedia VII Congresso Brasileiro de Pesquisadores(as) Negros(as) – Copene

Geanine Escobar conquista prêmio de Iniciação Científica da UFPel Ilustração: Acervo MJC/J. Gaudenzi

por Lisandro Paim

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acadêmica Geanine Vargas Escobar foi premiada durante a Cerimônia de Encerramento do XX Congresso de Iniciação Científica Universidade Federal de Pelotas (UFPel) com o Troféu Jovem Pesquisador, em 1º Lugar na Grande Área das Ciências Humanas - Modalidade Pôster! O evento ocorreu em novembro passado.

Devido ao grande número de propostas de Simpósio Temáticos em avaliação, as as inscrições nos Simpósios Temáticos (Propostas de Minicursos e Oficinas, Apresentações Orais e Sessões de Pôsteres) iniciaram no dia 22/03. Os procedimentos para filiação e inscrição no Congresso bem como maiores informações sobre as inscrições podem ser obtidas no site do evento: www.abpn.org.br/copene.

Geanine, que se formou em fevereiro na primeira turma de Conservação e Restauro de Bens Culturais Móveis – (UFPel) do Rio Grande do Sul, teve como orientadora a Prof. Dra. Francisca Michelon. A pesquisa premiada aborda o tema “O Conservador em conflito: A Iluminação de Acervos em Exposições Museais com Proposta para Inclusão de Deficientes Visuais”, sendo fruto do trabalho de final de curso defendido pela aluna no início de dezembro.

Datas Importantes/Cronograma 13/03/2012 prazo limite para envio de propostas de simpósios temáticos (encerrado!) 22/03/2012 divulgação dos resultados.

“Essa premiação foi inesquecível por muitos motivos, especialmente por ter um significado político-cultural e de conquista de espaço dos negros na universidade, principalmente das mulheres negras na Universidade Federal de Pelotas, que é uma cidade de massiva população negra e ainda não aderiu o sistema de cotas”, ressaltou Geanine.

22/03 a 23/04/2012 inscrições nos simpósios temáticos. 26/04 a 08/05/2012 envio de carta aceite de apresentação nos simpósios. 01/05 a 31/05/2012 inscrições para ouvintes.

Saiba mais sobre a pesquisa premiada A pesquisa versa sobre a problemática do controle da Iluminação como fator determinante para a conservação de acervos, quando se trata de projetá-la em exposições cuja proposta é a inclusão de públicos de pessoas com deficiência visual. O trabalho busca ampliar a discussão sobre o papel do conservador como um agente cultural, pensando em como a sua posição em re-

A organização do VII Congresso Brasileiro de Pesquisadores(as) Negros(as) – Copene recebeu 55 inscrições para simpósios temáticos que integrarão a programação do evento, que acontecerá de 16 a 20 de julho em Florianópolis. A sétima edição do Copene terá como tema “Os desafios da Luta Antirracista no século XXI”, e contará com a participação de pesquisadores nacionais e internacionais.

16 a 20/07/2012 COPENE.

Geanine comemora o 1º Lugar do Prêmio de Iniciação Científica

lação à conservação dos acervos apresenta-se conflitante quando o museu se propõe a incluir públicos com deficiência visual. A pesquisa visa contribuir para sensibilização dos con-

servadores-restauradores para o trabalho com inclusão no interior da instituições culturais, propondo uma reflexão diante de medidas a serem tomadas no âmbito da Iluminação.

Evento: VII Congresso Brasileiro de Pesquisadores(as) Negros(as) (COPENE 2012) Local: será sediado na cidade de Florianópolis - SC Tema: “Os Desafios da Luta Antirracista no século XXI” Homenageados: Vicente Francisco do Espírito Santo (in memoriam) e os professores Abdias do Nascimento (in memoriam), Lélia Gonzalez (in memoriam) e Kabengele Munanga Quando: 16 a 20 de julho de 2012 Site: www.abpn.org.br/copene


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nação Z

Ginasta Adrian Gomes inicia preparativos para as Olimpíadas 2012 A atleta da superação contou para o Jornal NZ como foi a conquista e como serão os preparativos para a sua primeira participação nos Jogos Olímpicos. por Lisandro Paim

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pós garantir a vaga nas Olimpíadas de Londres em 2012, a ginasta gaúcha Adrian Gomes, 21 anos, atleta do Grêmio Náutico União, iniciou em fevereiro os preparativos para a sua primeira participação na maior competição esportiva do mundo. Recuperando-se de uma pequena cirurgia no minisco, Adrian Gomes está fazendo fisioterapia no clube e volta aos treinamentos já na segunda metade do mês, para iniciar uma série de participações em torneios neste ano. A Seleção de Ginástica Artística Feminina conquistou a vaga na disputa por equipes no início deste ano. A classificação foi garantida com o quarto lugar obtido no evento-teste, realizado na North Greenwich Arena, em janeiro. A equipe alcançou 217.985 pontos e carimbou passaporte para a próxima Olimpíada, assim como Itália, Canadá e França. A Seleção é formada pela unionista Adrian Gomes, Daiane dos Santos, Bruna Leal, Daniele Hypolito, Ethiene Franco, Jade Barbosa e Priscila Cobello. A equipe do Jornal Nação Z conversou com Adrian Gomes no Clube Grêmio Náutico União, em Porto Alegre, em fevereiro Ela contou como foi a emoção da conquista da vaga para as Olimpíadas 2012, a participação nos Jogos Panamericanos de Guadalajara, como é a rotina de treinamentos, a importância da família e do clube na carreira entre outras questões. Confira a entrevista: Jornal Nação Z - Como foi participar com a seleção brasileira na 16ª edição dos Jogos Panamericanos de 2011, em Guadalajara, no México? Adrian Gomes - Fiz uma boa preparação ao longo do ano com os meus treinadores Adriana Alves e Eliseu Burtet, e participei das seletivas para ser uma das cinco atletas convocadas pela seleção brasileira. Mas tive uma lesão na panturrilha durante o Mundial no Japão, faltando um mês para os Jogos Panamericanos. Fomos direto do Muncial para o Pan, onde comecei a treinar três dias antes da competição. Participei da competição por equipes, individual e no salto. Fiquei com a 4ª posição na final do aparelho salto dos Jogos Panamericanos. OBS: Na disputa por equipe, a Seleção Brasileira de Ginástica Artística somou 209.825 pontos, terminando na quinta posição na classificação final. A primeira posição ficou com os Estados Unidos, seguidos do Canadá e do

México. Jornal Nação Z - Qual é o sentimento de conquistar a tão desejada vaga para representar o Brasil nas Olimpíadas 2012 em Londres? Conte-nos como foi essa conquista. Adrian Gomes - Conquistamos a vaga para as Olimpíadas em um evento teste que reuniu sete países em Londres. Foi um pouco complicado para nós brasileiras pois estávamos em um período de férias em janeiro e tínhamos passado o ano novo longe da família (elas viajaram no dia 26 de dezembro). Mas valeu a pena! O evento foi um dia inteiro de competição, onde participei em todos os quatro aparelhos: salto, paralelo, trave e solo. Foi muito emocionante, quando vimos que havíamos obtido a classificação para as Olimpíadas 2012, a gente até chorou. É uma sensação muito legal, pois é algo que queríamos muito e graças a Deus conseguimos.

vida normal fora dos treinamentos? Adrian Gomes - Faço faculdade de Educação Fisica no IPA (Centro Universitário IPA-Metodista), mas tive que trancar para me dedicar aos treinamentos e participar das competições. Quando somos atletas precisamos nos privar de algumas coisas e ter consciência de que a alimentação, que é algo difícil de controlar, reflete depois no nosso desempenho.

Jornal Nação Z – Uma atleta leva uma

Jornal Nação Z - Para uma atleta de alto nível, o que representa participar de competições como os Jogos Panamericanos, Mundiais e as Olimpíadas?

Adrian Gomes Quando chega na hora da competição a gente está focada, mas pensa no pai, na mãe e em todas as pessoa que estão na torcida aqui no Brasil. A gente sabe do compromisso de dar o melhor e cumprir a prova até o final. Então é gratificante estar na seleção que é o sonho de todo o atleta. Dá pra dizer que somos previlegiadas e sou agradecida pelo carinho das pessoas que ficam na torcida pela gente que se prepara muito para representar bem o nosso país.

Jornal Nação Z - Como será rotina de treinamentos nos próximos meses, período preparatório para os Jogos Olímpicos? Adrian Gomes - Tenho treinamento todos os dias, inclusive nos feriados. Neste momento estou fazendo fisioterapia para me recuperar de uma pequena cirurgia no minisco - os meniscos são cartilagens presentes na articulação fêmurotibial (joelho), entre os côndilos do fêmur e da tíbia . Neste mês, teremos três dias com dois períodos de treinamentos e dois de um período. Começamos com aquecimento, preparação física, treino de flexibilidade e após vamos para os aparelhos seguindo a orientação dos treinadores. Jornal Nação Z - A importância da família e do clube na tua carreira como atleta. Adrian Gomes - Sou atleta desde os seis anos de idade, quando fui descoberta pela minha treinadora Adriana Alves no Centro de Treinamento da Escola Estadual Mané Garrincha (mesmo local onde foi descoberta a Daiane dos Santos). Então a Adri é minha segunda mãe e brinco que as gurias são minhas irmãs. Como passo mais tempo aqui do que em casa, o Clube virou a minha segunda família e dá todo o suporte que eu preciso como atleta. Muitas vezes viajamos durante um mês inteiro para outros países como parte da preparação para uma competição. Minha mãe e meu pai me incentivam muito e não me deixam desistir do meu sonho. O pai é mais rígido, participa dos treinos e cobra resultados da gente pois ele já foi atleta, jogador de futebol, e desistiu quando nasceram os filhos. A minha irmã também é atleta e faz ginástica rítmica aqui no clube.

diferença. Temos um bom relacionamento e elas gostam do meu jeito de brincar. Sou muito palhaça com elas.

Esta será a minha primeira participação nos Jogos Olímpicos, que é o torneio que reúne os melhores atletas do planeta, onde somente participam aqueles que se classificam. Tenho certeza que será uma experiência única e quando retomar os treinamentos com a treinadora Adriana Alves, vou ver se teremos uma preparação diferenciada neste período, buscando um desempenho cada vez melhor.

Foto: Ricardo Bufolin/ Photo&Grafia

Calendário de competições A atleta Adrian Gomes irá retomar, em fevereiro, os treinamentos visando a disputa de mais um desafio internacional. Ela antecipou para o Jornal Nação Z o calendário que inclui competições no Brasil e no exterior: • Março: Copa do Mundo de Ginástica em Doha, capital do Qatar; • Abril: Meeting Internacional de Ginástica, no Brasil (em local a ser definido)

Jornal Nação Z - Como é o convívio com as demais atletas da seleção? Adrian Gomes - O convívio é diferente aqui no clube, onde a mais velha tem apenas 15 anos e elas tem um humor diferente pela idade. E na seleção eu sou uma das mais novas, a Daiane (dos Santos) por exemplo, que é uma das mais experientes, tem uma diferença de 8 anos de

• Maio: Troféu Brasil de Atletismo 2012 • Logo após a seleção embarca para uma cidade próximo a Londres, na preparação final para os Jogos Olímpicos • Julho/Agosto: Jogos Olímpicos de Londres 2012


nação Z

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Livro resgata a história de Escurinho Com uma das sessões de autógrafos mais movimentadas da última Feira do Livro de Porto Alegre, o jornalista Jones Lopes da Silva, da equipe de esportes de Zero Hora, lançou o seu livro sobre o ex-jogador do S.C. Internacional dos anos 70, Escurinho, falecido no ano passado, famoso por seus gols de cabeça, geralmente nos minutos finais dos jogos, quando entrava para decidir. por Emílio Chagas

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ones diz que a ideia do livro ‘No Último Minuto – a história de Escurinho: futebol, violão e fantasia’, era do próprio jogador, desde quando parou de jogar. “Ele tinha planos de escrever a história de sua vida, da família e da paixão pela música”, diz o jornalista. Porém, só no início de 2007 que Escurinho procurou Jones propondo o projeto do livro. O futuro autor conhecia pouco a história do atleta, mas considerou “um bom desafio”.

muito debilitado, dificultando o trabalho e as conversas. Também a questão da pesquisa se basear principalmente na história oral, dificultou na busca de referências simbólicas do jogador, como os entornos da Ilhota, a Cabana do Turquinho, Jazz Paris, as grandes bandas negras, a reconstituição do universo dos cabarés, a convivência entre infantos e juvenis, o samba no mundo da noite e o lado B do supertime do Inter dos anos 70. “Todos esses fatos precisaram ser construídos quase do zero”, diz Jones. Foram quase 300 entrevistados, com 120 fitas cassete gravadas.

O negro no futebol, marcas Na relação negro e futebol, o jornalista acredita que Escurinho foi, sim, um propagador da cultura black, mas de uma maneira muito própria, sem grandes alardes. Com o seu cabelo black power, pantalonas, tocando violão nos bares das ruas João Pessoa e Lima e Silva, criou fama de boêmio. Porém não ia além de três copos de cerveja e não fumava. “Ele sorria fácil, não fugia de entrevistas, metia a boca na Direção quando se sentia prejudicado, expressava-se bem, tinha a ligação com a música, aparecia na noite, cantava em programas de rádio, atendia a convites na televisão, saía na escola de samba desde criança - mas fazia tudo isso com naturalidade, por temperamento”, observa Jones. Na verdade o seu perfil fugia um pouco à regra dos jogadores da época. No Inter, conviveu com alguns dos melhores craques da história do clube, como Falcão, Batista, Carpegiani, Valdomi­ ro, Lula, Figueroa, Manga e tantos outros.

Repercussão do livro

Sua única exigência era ir além de um livro sobre simples histórias de futebol. “Teria de ser uma narração que tentasse entender de onde ele veio e o que significou. Escurinho concordou com a ideia geral e adotamos um ritmo de trabalho que dependia em muito do seu tempo disponível”, afirma. Aliás, diz Jones que ele só decidiu dar a arrancada com o livro em 2007 porque, debilitado pela doença, já perdendo a visão, achava que tinha pouco tempo de vida.

As dificuldades As dificuldades foram muitas, principalmente em função da doença de Escurinho. Nos períodos próximos à hemodiálise, ele ficava

Foto: Zero Hora/Divulgação

Jones Lopes da Silva

“Confesso que esperava grande barulho porque se tratava de veicular o nome do Escurinho. Só com o tempo comecei a ver a dimensão do carisma desse cara. Era quase impossível passear com ele pelo centro da cidade. As pessoas paravam e choravam na frente dele.

“Ele sorria fácil, não fugia de entrevistas, metia a boca na Direção quando se sentia prejudicado, expressava-se bem, tinha a ligação com a música, aparecia na noite ... mas fazia tudo isso com naturalidade, por temperamento” Ele granjeou uma simpatia e um carisma tanto pelos gols salvadores de último minuto, quanto pela sua irreverência”, diz Jones, para quem, por todos estes motivos o livro só poderia ter mesmo uma grande repercussão. Comprovada, aliás, com mais de três horas de autógrafos na Feira do Livro.

COMEMORE OS 240 ANOS DA NOSSA CIDADE. Participe da Semana de Porto Alegre.

A festa dos 240 anos de Porto Alegre tem diversas atrações para todos os estilos e nos quatro cantos da cidade. Confira a programação completa em www.poa240anos.com.br


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ENTREVISTA ESPECIAL

Ministra da SEPPIR, Luiza Bairros

Um ano de avanços e desafios promovendo a igualdade racial no Brasil Dona de um extenso currículo nas áreas acadêmica, profissional e da militância social, a Ministra de Estado Chefe da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), Luiza Bairros concedeu entrevista exclusiva para Jornal Nação Z, durante a sua passagem pela capital gaúcha, em janeiro. Entre os destaques, Luiza Bairros ressaltou a importância do Movimento Social Negro para a implementação das políticas públicas e abordou assuntos como os desafios e avanços de seu primeiro ano à frente da Seppir, os casos recentes de racismo, a lei 10.639/03 na Educação, entre outros temas. por Lisandro Paim Nação Z - Como a Sra avalia 2011, que foi o Ano Internacional dos Afrodescendentes e os desafios do primeiro ano de sua gestão como integrante do governo Dilma? Ministra Luiza Bairros - Sem dúvida alguma, o grande desafio desse primeiro ano de governo esteve relacionado com articulação com os outros ministérios e o esforço de trazer novos atores para a agenda da igualdade racial. O que conseguimos está refletido no Plano Plurianual (PPA) 2012/2015, o documento que orienta as ações do governo federal nos próximos quatro anos. Isso foi muito importante no primeiro ano de gestão. O PPA incorpora a promoção da igualdade racial num programa específico, além de referendar a questão racial em 25 dos 65 programas temáticos. Isso dá a dimensão de como essa questão se ampliou dentro do governo federal. Temos um número expressivo de ministérios com a possibilidade de definir recursos para as atividades. E toda a nossa contribuição para a formulação do PPA foi baseada no Estatuto (da Igualdade Racial), que fez com que o Ministério da Saúde, por exemplo, inserisse na sua programação aquilo que a gente precisa fazer para finalmente implementar a política de saúde da população negra no Sistema Único de Saúde. Com relação ao Ano Internacional dos Afrodescendentes instituído pelas Nações Unidas, acreditamos que a Seppir cumpriu um papel importante na afirmação da Declaração e do Programa de Ação de Durban, em fóruns internacionais. A III Conferência Mundial contra o Racismo teve um efeito mais do que simbólico, especialmente na América Latina, onde seus resultados possibilitaram aos movimentos negros comprometer mais os governos da região com a agenda da igualdade racial. Do ponto de vista da Seppir, o Ano

foi importante para revigorar a relação com antigos parceiros e para abrir novas frentes de trabalho, que passarão a compor a pauta do Ministério nos próximos três anos. Também criamos um selo alusivo ao ano e lançamos a campanha ‘Igualdade Racial é Pra Valer’, centrada no estímulo a ações concretas de inclusão dos afro-brasileiros. Por fim, atendemos ao chamado da Secretaria Geral Ibero-americana para realizarmos o Afro XXI – Encontro Ibero-americano do Ano Internacional dos Afrodescendentes, no mês de novembro, em Salvador, numa parceria que envolveu também o Governo da Bahia e o Ministério das Relações Exteriores. Nação Z - Quais os principais projetos que serão desenvolvidos pelo governo federal para a população negra neste ano de 2012? Ministra Luiza Bairros - A implementação do Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial (Sinapir) é uma das nossas prioridades, por causa do papel que ele tem para ajustar as ações das três esferas de governo, bem como definir as competências da União, dos estados e dos municípios na execução das políticas de igualdade racial. Para nós é o principal ponto de regulamentação do Estatuto da Igualdade Racial. Fazemos uma aposta muito grande no Sinapir, como forma de tornar a igualdade racial um princípio importante de qualquer política pública no País. Também daremos prioridade às ações afirmativas, a exemplo da adoção de cotas no serviço público pelo Estado do Rio de Janeiro e a inclusão de temas da igualdade racial no programa de concursos no Estado do Rio Grande do Sul. Na pauta quilombola, o destaque deverá ser o atendimento mais intensivo às demandas das comunidades tituladas.

incorporando mais cinco estados onde os índices de vitimização da juventude negra tem se mostrado mais expressivo. A Cor da Cultura é um projeto muito rico, porque associa a produção de material audiovisual didático e paradidático e formação de professores, para fazer com que efetivamente esses conteúdos cheguem à sala de aula. Ele vem sendo desenvolvido pela Seppir desde 2005, com parcerias importantes como a Petrobras e a Fundação Roberto Marinho. Logo vamos anunciar ações conjuntas que estão sendo pensadas com o MEC, especialmente no que diz respeito à educação quilombola. Nação Z - Quilombos e mulheres negras foram pautas da agenda da ministra no Fórum Social Temático (FST). Como a Seppir está tratando estes dois temas no nível federal e como a sociedade civil e os movimentos sociais estão inseridos neste debate? Ministra Luiza Bairros - Estabelecemos vários compromissos com os ministérios visando às comunidades. O Programa Brasil Quilombola está passando por

Nação Z - A Seppir lançou em 2011 o Selo de Educação para a Igualdade Racial para premiar iniciativas exitosas na implementação da Lei 10.639/03. Quais são as principais ações do governo federal Luiza Bairros, Ministra de para que essa Lei seja Estado Chefe da Secretaria efetivamente implede Políticas de Promoção mentada em todas as escolas brasileiras? da Igualdade Racial Ministra Luiza Bairros (Seppir) - O ensino da história e da cultura africana e afro-brasileira, em todas as escolas do País, contribui para eliminar ideias preconceituosas de que os negros não tenham dado nenhum tipo de contribuição para a formação das sociedades, dentro e fora da África. Além do Selo, vamos, neste ano, expandir o projeto “A Cor Foto: Banco de imagens / Nação Z da Cultura”,

uma reformulação, mas já há novas ações em curso dentro do Plano Brasil sem Miséria. Para reforçar a inclusão produtiva, o Ministério do Desenvolvimento Agrário está levando assistência técnica e extensão rural aos quilombos. Também estamos fechando cerca de dez Planos com o objetivo de envolver mais os governos estaduais neste desafio. Sem eles, dificilmente os serviços de luz e de água chegam até as comunidades. No que se refere às mulheres negras, em 2011 o foco foi o trabalho doméstico. Junto com o MTE e a SPM investimos na aprovação da Convenção do Trabalho Doméstico Decente, na última Conferência da OIT, como meio também de apressar a votação da emenda constitucional que estende a esta categoria todos os direitos trabalhistas. Agora é apoiar a Câmara Federal para que isto se torne uma realidade no Brasil. Neste ano, a pauta de trabalho com as mulheres negras será definida a partir das propostas apresentadas pela Comissão correspondente do Conselho Nacional de Promoção


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Porto Alegre, março de 2012

Para reforçar a inclusão produtiva, o Ministério do Desenvolvimento Agrário está levando assistência técnica e extensão rural aos quilombos Nação Z - Nos últimos meses acompanhamos diversos casos de racismo e preconceito no Brasil, que tiveram grande repercussão nacional, a exemplo da criança que foi expulsa de um restaurante em São Paulo e o caso do estudante negro da USP, que foi agredido por um policial. Como a sra avalia esses casos recentes na sociedade brasileira que levaram a debates intensos, inclusive, sobre o papel das ações afirmativas? Ministra Luiza Bairros - O racismo é um fenômeno bastante elástico. Ele vai se adaptando às mudanças da sociedade. Por exemplo: as pessoas ligadas às religiões de matriz africana não se escondem mais, como faziam há anos atrás. Elas exercem sua cultura religiosa, na maneira como se vestem, nas contas que usam, por exemplo. E, na medida em que isso fica mais visível, há reações de intolerância também mais explícitas. Temos aí um fenômeno de dupla face. Embora ainda exista um número muito grande de pessoas negras em situação de pobreza e desemprego, também há pessoas negras em lugares que, até então, não ocupavam. Esse es­tra­nhamento da so­ciedade, com a presença do negro em lugares onde ele geralmente não estava é uma dimensão dessas mudanças e de como o racismo vai também se adaptando a elas e encontrando novas formas de se manifestar – nos bancos, shoppings, supermercados, escolas. Só a Ouvidoria Nacional de Promoção da Igualdade Racial registrou, no ano passado, 656 ocorrências. Destas, 220 se referiam a casos de racismo e de intolerância religiosa. Isto é muito expressivo, considerando que a Ouvidoria ainda não é um serviço divulgado amplamente. Penso que estes números serão bem maiores quando a Seppir implantar o disque denúncia. Estamos nos preparando para fazer esta implantação este ano. Nação Z - Qual a principal mensagem que a ministra passou em sua participação no Fórum Social Temático? Ministra Luiza Bairros - O que procurei passar nos debates, reconhecendo os nossos avanços e os muitos desafios que ainda temos a enfrentar, é que o motor do enfrentamento ao racismo no Brasil continua sendo os movimentos negros, nas suas diversas formas de expressão. Sem organização política, não existe política pública.

Governo tem 26 programas temáticos com foco na dimensão étnico-racial O governo federal tem diretrizes para a dimensão étnico-racial previstas em 25 programas temáticos do Plano Plurianual (PPA 2012/2015), documento que orienta as políticas públicas nos próximos anos. Isso, sem considerar o programa específico Enfrentamento ao Racismo e Promoção da Igualdade Racial, que tem 10 objetivos definidos, 25 metas e 36 iniciativas, totalizando R$ 97,6 milhões em nove ações da Lei de Diretrizes Orçamentárias, a LOA. Os dados foram apresentados pela Ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), Luiza Bairros, no dia 29 de março, como resultados da atuação da sua pasta no ano passado. “Concentramos nossos esforços nas formas de incidência sobre a gestão dos demais ministérios e na criação das condições para a institucionalização das políticas de promoção da igualdade”, afirmou a titular da Seppir, no Seminário

Promoção da Igualdade Racial, organizado pela bancada do Partido dos Trabalhadores na Câmara dos Deputados. Prioridades A ministra Luiza Bairros explicou que todas as metas da Seppir para 2012 visam estabelecer o Estatuto da Igualdade Racial (Lei 12.288/2010) como referência para a ação pública. Nessa perspectiva, a regulamentação e implementação do Sistema Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, o Sinapir, encabeçou a lista de prioridades. Proposto na lei, o sistema deverá integrar as informações e articulações do conjunto de políticas voltadas à superação das desigualdades étnico-raciais, com definição de papeis e atribuições para cada esfera de governo, semelhante, entre outros, ao Sistema Único de Saúde, o SUS. Outras prioridades apresentadas pela minis-

tra foram a ampliação da atuação da Ouvidoria Nacional de Promoção da Igualdade Racial, o aumento da presença negra na comunicação de governo e a institucionalização da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra. Também foi citada a meta de ampliação da adesão ao Plano de Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino da História e Cultura Afro-Brasileira e Africana. Segundo Luiza Bairros, este ano a Seppir tem ainda a proposta de implementação do Plano de Enfrentamento à Mortalidade da Juventude Negra – ação articulada no Fórum de Direitos e Cidadania; e do Programa Nacional de Ações Afirmativas. Outras prioridades visam os desdobramentos da campanha Igualdade Racial é pra Valer e a repactuação do Programa Brasil Quilombola com os demais ministérios para concentrar ação integrada nas 190 comunidades tituladas.

Perfil da Ministra da SEPPIR Luiza Bairros assumiu, em janeiro de 2011, o cargo de Ministra de Estado Chefe da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República (SEPPIR/PR) do governo Dilma Roussef. Luiza Bairros, nasceu em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, onde cursou a graduação em Administração Pública e Administração de Empresas, na Universidade Federal gaúcha. Mora em Salvador, Bahia, desde 1979, quando passou a atuar no Movimento Negro Unificado (MNU). Sua militância no movimento Foto: Elói Correia

da Igualdade Racial (CNPIR). A expectativa é que possamos reforçar o papel da Seppir no apoio às organizações de mulheres negras.

de mulheres teve início com a formação, em 1981, do Grupo de Mulheres do MNU. Participou ativamente das principais iniciativas do movimento negro na Bahia e no Brasil, sendo eleita, em 1991, como primeira Coordenadora Nacional do MNU, organização em que permaneceu até 1994. Em 1998, ao retornar de uma temporada de quatro anos nos Estados Unidos, onde cursou pós-graduação em Sociologia, na Michigan State University, tornou-se Pesquisadora Associada do Centro de Recursos Humanos (CRH), da UFBA, e fundou o Projeto Raça e Democracia nas Américas, em parceria com a organização norte-americana Conferência Nacional de Cientistas Políticos Negros. Trabalhou na então Secretaria do Trabalho e Ação Social do Estado da Bahia, gerenciando Programas de Apoio ao Trabalhador Autônomo e participando em pesquisas e estudos sobre o mercado de trabalho na Bahia e Região Metropolitana de Salvador. Dessa experiência, resultou sua dissertação de Mestrado em Ciências Sociais, “Pecados no Paraíso Racial: O negro no mercado

de trabalho da Bahia – 1950-1980”, na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Foi professora de Sociologia da Faculdade de Direito da Universidade Católica do Salvador (UCSAL). E de agosto de 2008 a dezembro de 2010, foi titular da Secretaria de Promoção da Igualdade do Estado da Bahia (SEPROMI), que tratava de políticas para mulheres e de igualdade racial. Como consultora do Sistema Nações Unidas no Brasil atuou no processo da III Conferência Mundial contra o Racismo e em projetos de interesse da população afrobrasileira. Entre os projetos de cooperação internacional nos quais atuou, se destaca o Programa de Combate ao Racismo Institucional (PCRI), implementado na Prefeitura da Cidade do Recife, Prefeitura Municipal de Salvador e no Ministério Público de Pernambuco, com o apoio do Ministério do Governo Britânico para o Desenvolvimento Internacional (DFID) e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Seus artigos sobre racismo, sexismo e o negro no mercado de trabalho foram publicados nas revistas Afro-Ásia, Análise & Dados, Caderno CRH, Estudos Feministas, Humanidades, e Força de Trabalho e Emprego, em livros de coletânea e em periódicos das Nações Unidas no Brasil. Tem apresentado trabalhos em diversos seminários, congressos e eventos similares, promovidos por universidades, agências governamentais, não governamentais e internacionais, abordando as questões racial, da mulher, de gênero e o enfrentamento ao racismo institucional.


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Porto Alegre, marรงo de 2012

Nação Z nº 1  

Primeira edição do jornal Nação Z

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