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Caixa Geral de Depรณsitos Porto 1923-(1928)

JOรƒO PARDAL MONTEIRO


Fig. 1 Fachada do edifício, fotografia da época Arquivo do Atelier PMA – Fotografia de Girão da Exposição de Homenagem ao Arqto PPM


Fig. 2 Alçados COSTA, Francisco (direc. redac.) A Filial do Porto da Caixa Geral de Depósitos, projecto do Arq. Pardal Monteiro – Arquitectura, Revista Mensal, Construção, Decoração, Belas-Artes, Arqueologia, Ano IV nº21, Lisboa, Outubro/ Novembro 1931.pp. 92-93.

O edifício-sede da “Caixa Geral de Depósitos” no Porto situa-se na

Tratando-se de um lote em gaveto, utiliza um corpo cilíndrico, remata-

Avenida dos Aliados e foi projetado pelo arquiteto Porfírio Pardal Mon-

do por uma cúpula semiesférica, suportado por colunado pétreo, como

teiro, em 1923, e concluída a sua construção em 1928.

articulação dos dois corpos ao longo das ruas.

A agência do Porto de 1923 foi, naquele período, o maior projeto de Por-

A entrada faz-se pela esquina, penetrando no edifício até um átrio cen-

fírio Pardal Monteiro e também o mais ambicioso que realizou para a

tral octogonal de duplo pé-direito, rematado por uma enorme claraboia

Caixa Geral de Depósitos, tendo a obra sido concluída apenas em 1928.

de ferro e vidro. A utilização do betão torna-se aqui mais evidente, per-

Na monumental Avenida dos Aliados, marcada pelo plano e edifícios

mitindo uma espacialidade mais aberta, onde o controle da luz, a cor

de Marques da Silva, o arquiteto realiza uma arquitetura de expressão

e os elementos decorativos de feição Art Deco introduzem um sentido

institucional, adotando uma linguagem neoclássica de escala urbana e

de contemporaneidade. O exterior do edifício oferece uma aparência,

cosmopolita, retirando partido da estereotomia da pedra granítica de

uma imagem, uma visão neoclássica e monumental. O interior faz o

grande rigor e beleza que reveste toda a fachada, aliada às suas habituais

contraponto: é uma surpresa resultante do ambiente Art Deco obtido

preocupações com os critérios funcionais e construtivos do edifício.

essencialmente pelo desenho dos ferros e lambris. A modernidade da

É relatada, na revista mensal Arquitectura em artigo de 1931 sobre o edi-

obra é evidenciada por este jogo de opostos e de sóbrios detalhes de-

fício, a razão dum exterior tão clássico:

corativos, reflexo da sua deslocação à Exposição de Artes Decorativas de 1925, em Paris. Com a obra em fase de construção adiantada, será

«Certo que ao autor ser-lhe-ia mais grato realizar uma fachada

no interior que vai ter a sua maior influência, na aplicação dos mate-

moderna tal como resolveu e adotou nos magníficos interiores dessa

riais, na simplificação das formas, no abandono das formas clássicas e

obra, mas, os pontos de vista das entidades superiores, ao tempo, não

no desenho de todas as serralharias, de gosto muito marcado Art Deco.

aprovariam uma coisa que nessa época se consideraria não um avan-

São esses detalhes que modernizam a obra 2 e que irão marcar os reflexos

ço da arte, mas um devaneio».

dessa corrente.

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Fig. 3 Galeria, fotografia atual. Fotografia do arquivo do Forte de Sacavém do SIPA (IHRU)

Este átrio central octogonal é coberto por uma claraboia envidraçada com vitral de magnífico desenho Art Deco, executado com recurso a vidros coloridos que são também utilizados nas janelas para o exterior e na separação para os espaços envolventes, trabalho executado, como em quase todas as obras do arquiteto, pelo vitralista Ricardo Leone. Os oito pilares de betão de suporte de toda a estrutura do vestíbulo octogonal, revestidos com Azulino de Cascais, são conjugados em harmonia com belos mármores, magníficos baixos-relevos de Anjos Teixeira 3, António da Costa 4, Henrique Moreira 5 e Alexandre da Silva 6, aplicados nas paredes deste conjunto. Fig. 4 Pormenor do aspeto artístico do interior.

Em toda a obra nota-se fortemente a influência do seu autor, sendo o por-

Fotografia de Girão. Espólio do Estúdio Mario Novais depositado na BAFCG

menor arquitetónico cuidado ao mais insignificante dos seus detalhes. Os acabamentos do vestíbulo de entrada e simultaneamente sala de atendimento do público são todos vistos e pormenorizados pelo autor do projeto, incluindo algum mobiliário encastrado, nomeadamente os balcões. Os gabinetes da direção são muito cuidados do ponto de vista dos acabamentos e do mobiliário, que no entanto pensamos não ter sido desenhado pelo arquiteto, salientando-se a pintura decorativa de Martinho da Fonseca (1890-1972). 7 As salas de trabalho comuns são cuidadosamente estudadas do ponto de vista funcional, o mobiliário, no entanto, não tem os traços característicos do arquiteto.


Fig. 5 Planta da estereotomia do vestíbulo e hall COSTA, Francisco (direc. redac.) A Filial do Porto da Caixa Geral de Depósitos, projecto do Arq. Pardal Monteiro – Arquitectura,Revista Mensal, Construção, Decoração, Belas-Artes, Arqueologia, Ano IV nº21, Lisboa, Outubro/ Novembro 1931.p. 99.

Tecnicamente o edifício representa um avanço para o que se fazia nesta época, em Portugal. Antes do projeto e, mais tarde, durante a construção, Porfírio visita o que de mais avançado se fazia na Europa em instalações bancárias. Em 1923 faz a primeira viagem de estudo ao estrangeiro e desde esse ano até 1927 faz sucessivas viagens a Espanha, Itália, França, Alemanha, Bélgica, Holanda, Suíça, Áustria, Checoslováquia, Polonia, etc. Não está preocupado apenas com a arquitetura, parte funcional, construtiva e estética. Preocupa-o a parte técnica do edifício, nomeadamente a segurança dos cofres-fortes, a instalação elétrica, ascensores, grupo de socorro, sinalização, telefones e dispositivos de segurança. «… Além dos casos principais que a largos traços referi, outros de menor importância mas que dévem ser conscienciosamente estudádos, há que ter em consideração. Fig. 6 Porta de elevador com duas faces em ferro forjado artístico COSTA, Francisco (direc. redac.) A Filial do Porto da Caixa Geral de Depósitos, projecto do Arq. Pardal Monteiro – Arquitectura, Revista Mensal, Construção, Decoração, Belas-Artes, Arqueologia, Ano IV nº21, Lisboa, Outubro/ Novembro 1931.p. 96

Para não fatigar limitar-me-ei a referir o que se reIaciona com o numero, disposição e modo de abrir das portas; a disposição e sinais de alarme; o da independencia dos serviços de administração e de direcção; o da iluminação de socorro; o contrôIe dos documentos; o das rondas de vigilância; o da protecção das “caixas”; o das entrádas, ponto, vestiários, refeitórios e instalações do pessoal; etc.» 8 A iluminação artificial é toda indireta, foi estudada pelo engenheiro Alfredo de Azevedo em colaboração com De Corte, executada pela Casa G. Perez, Limitada, do Porto e coordenada pelo engenheiro Gustavo d’Avila Perez. Foi realizada de forma a produzir uma distribuição uniforme da luz e evitar o encandeamento,


Fig. 7 Primeiro piso. Arquivo do atelier PMA Fotografia de Girão. Espólio do Estúdio Mario Novais depositado na BAFCG

gendo toda a superfície do «hall», permite a graduação da sua iluminação

COSTA, Francisco (direc. redac.) - A Filial do Porto da Caixa Geral de Depósitos, projecto do Arq. Pardal Monteiro – Arquitectura. Revista Mensal, Construção, Decoração, Bela-Artes, Arqueologia. Lisboa: [s.n.] , Ano IV nº21, (1931), p.86.

em função tanto das necessidades do serviço como das horas que tem de

2 GRAVATO,

«A divisão em diferentes círcuitos é feita de forma que cada um dêles abran-

funcionar.» 9 De salientar a casa forte de alta segurança, avisadores, cofres particulares, aquecimento central e, mais uma inovação inédita em Portugal, um grupo eletrogéneo de emergência acoplado a acumuladores prontos a fornecer energia, para que em caso de falta de tensão não houvesse falha de corrente,

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M. Adriana P. Rodrigues – Trajecto do Risco Urbano, A Arquitectura na cidade do Porto, nas décadas de 30 a 50 do século XX, através do estudo do conjunto da Avenida dos Aliados à Rua de Ceuta. Porto: [s.n.], 2004. Dissertação de Mestrado em História da Arte em Portugal apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto, p.86. Artur Gaspar dos Anjos Teixeira (1880- 1935). Filho de um Arquiteto e sobrinho de Escultores, demonstrou os seus dotes de artista, não só na Escultura, como também a nível do Desenho, da Aguarela, da Caricatura, da Ilustração e da Música. 3

«A sinalização e alarme é do que há de mais moderno e melhor no género,

da Costa (1899-1970) Escultor discípulo de Simões de Almeida (sobrinho) e de Bourdelle aquando da sua estadia em Paris de quem recebeu forte influência. Trabalhou na grande Exposição do Mundo Português em 1940, assim como na anterior Exposição Universal de Paris de 1937 para a qual executou a estátua do Presidente Carmona patente no Pavilhão de Portugal.

sendo os aparelhos fornecidos pela casa especialista Fichet, de Paris, o que

5 Henrique

quase tudo o que uma instalação bancária hoje teria.

é sobeja garantia. Para dar uma ideia’ da importância da instalação eléctrica, da sua segurança e da garantia do seu funcionamento, basta dizer que a mesma é alimentada por uma cabine, transformadora própria ligada a rede publica, tendo alêm disso um grupo eletrogéneo de reserva. A potência da cabine é de 70 K. V. A.» 10

4 António

Araújo Moreira (1890 - 1979) Formado pela Academia Portuense de Belas Artes, onde foi aluno do mestre António Teixeira Lopes 6 COSTA,

Francisco- Ob. Cit.,(1931), p.86.

7 Martinho

da Fonseca (1890-1972), discípulo de Columbano. Sem possuir o brilho e a coerência do seu mestre, manifesta aqui uma sólida capacidade de representação. Pintou por exemplo o retrato de Bustorff Silva, que figurou no Salão da Primavera nas Belas Artes de 1947. Vale a pena destacar também na década de 1930, o Retrato do Presidente Bernardino Machado (1935), realizado já depois do final do seu mandato. Construindo a figura dentro dos valores tradicionais que caracterizam a obra deste pintor, pode-se considerar, no entanto, este retrato um dos melhores da galeria dos presidentes. MONTEIRO, Porfírio Pardal - O que conheço sobre Instalações Bancárias. Lisboa: [Documento dactilografado do Espólio PMA] 1935, p.18. 8

A execução desta obra foi da responsabilidade do construtor Amadeu Gaudêncio. A importância deste projeto do ponto de vista arquitetónico e técnico é demonstrada nas conclusões do articulista da revista Arquitectos: «Pode, portanto, a Caixa Geral de Depósitos orgulhar-se de possuir um edifício que graças ao valor e conhecimentos técnicos do seu arquitecto é o primeiro do seu género no nosso pais.» 11

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COSTA, Francisco - Ob. cit.,(1931), p.88.

10 IDEM,

Ibidem.

11 Ibidem,

p.87.


ORGANIZAÇÃO

APOIOS

PARCEIRO

Caixa Geral de Depósitos - Culturgest Porto  

"A agência do Porto de 1923 foi, naquele período, o maior projeto de Porfírio Pardal Monteiro e também o mais ambicioso que realizou para a...

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