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N.º 243 Dezembro 2012 Mensal 2,00 €

TempoLivre www.inatel.pt

Hotéis Inatel Os dias tranquilos Destacável de 16 páginas

Entrevista Isabel Jonet: “As pessoas têm de ser mais solidárias”


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Sumário

Na capa DESTACÁVEL DE 16 PÁGINAS

Dias tranquilos nos hotéis Inatel A TL dá conta, em 16 páginas bem ilustradas desta edição, dos novos preços e virtualidades das múltiplas e atractivas unidades hoteleiras da Fundação Inatel. Espaços renovados e diversificados, situados em diferentes lugares do continente e regiões autónomas, os hotéis Inatel são uma boa alternativa de repouso e lazer para os associados e beneficiários da Fundação.

5 6

18 EDITORIAL CARTAS E COLUNA DO PROVEDOR

8 16

NOTÍCIAS CONCURSO DE FOTOGRAFIA

38

MEMÓRIA

Igrejas Caeiro

ENTREVISTA

Isabel Jonet Líder de 20 bancos alimentares que movimentam diariamente 600 pessoas e envolvem mais 36 mil em cada uma das duas campanhas anuais de recolha de alimentos, Isabel Jonet manifesta um natural orgulho na sua activa e profunda ligação ao "maior movimento na sociedade civil portuguesa desde o pósguerra".

24 TERRA NOSSA

40 42 63 64

OLHO VIVO A CASA NA ÁRVORE

30

O TEMPO E AS PALAVRAS

ARTESANATO

Maria Alice Vila Fabião

Júlia Ramalho Há meio século que das mãos de Júlia Ramalho, uma das mais prestigiadas oleiras de Barcelos, saem figuras de barro com uma assinatura própria.

OS CONTOS DO ZAMBUJAL

66

Aveiro: a arte e o mar A ria dá a Aveiro um carácter singular no conjunto das cidades portuguesas. Mas a dita "Veneza" nacional soube projectar-se além ria. O crescimento económico, iniciado no final do século XIX com a via-férrea, criou uma burguesia dinâmica e cosmopolita. A universidade, projecto nascido na década de 70 do século XX, trouxe um novo élan à cidade.

CRÓNICA António Costa Santos

35 TEATRO AMADOR

45 62

BOA VIDA PASSATEMPOS

O grupo intergeracional de teatro amador (40 actores dos oito aos 89 anos), criado pelo Teatro da Trindade, no âmbito do Ano Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade entre Gerações, tem asas e consegue voar.

Revista Mensal e-mail: tl@inatel.pt | Propriedade da Fundação INATEL Presidente do Conselho de Administração: Fernando Ribeiro Mendes Vice-Presidente: José Manuel Soares; Vogais: Jacinta Oliveira Santos e Álvaro Carneiro Sede da Fundação: Calçada de Sant’Ana, 180, 1169-062 LISBOA, Tel. 210027000 Nº Pessoa Colectiva: 500122237 Director: Fernando Ribeiro Mendes Editor: Eugénio Alves Grafismo: José Souto Fotografia: José Frade Coordenação: Teresa Joel Colaboradores: António Costa Santos, Carlos Barbosa de Oliveira, Carlos Blanco, Gil Montalverne, Humberto Lopes, Joaquim Diabinho, Joaquim Magalhães de Castro, José Jorge Letria, José Luís Jorge, Manuela Garcia, Maria Augusta Drago, Maria João Duarte, Maria Mesquita, Pedro Barrocas, Rodrigues Vaz, Sérgio Alves, Sousa Ribeiro, Susana Neves, Vítor Ribeiro. Cronistas: Alice Vieira, Álvaro Belo Marques, Artur Queirós, Baptista Bastos, Fernando Dacosta, Joaquim Letria, Maria Alice Vila Fabião, Mário Zambujal. Redacção: Calçada de Sant’Ana, 180 – 1169-062 LISBOA, Telef. 210027000 Publicidade: Direcção de Marketing (DMRI) Telef. 210027189; Impressão: Lisgráfica - Impressão e Artes Gráficas, SA - Rua Consiglieri Pedroso, n.º 90, Casal de Sta. Leopoldina, 2730-053 Barcarena, Tel. 214345400 Dep. Legal: 41725/90. Registo de propriedade na D.G.C.S. nº 114484. Registo de Empresas Jornalísticas na D.G.C.S. nº 214483. Preço: 2,00 euros Tiragem deste número: 142.351 exemplares


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Editorial

Fernando Ribeiro Mendes

Dias tranquilos em tempos inquietos

E

ste é o primeiro número da Tempo Livre editado sob a responsabilidade da nova Administração da Fundação INATEL. É natural, por isso, que aproveite o ensejo para transmitir a todos os Associados algumas mensagens simples sobre como se irá orientar o nosso trabalho nesta grande instituição, ao iniciarmos este novo ciclo da sua vida já longa. A Fundação INATEL, sendo a herdeira da velha Fundação Nacional para Alegria no Trabalho, e do Instituto Nacional para o Aproveitamento dos Tempos Livres dos Trabalhadores que sucedeu àquela, na era democrática, tem atualmente uma missão bem definida. Promove as melhores condições para a ocupação dos tempos livres e do lazer de todos, desenvolvendo e valorizando o turismo social, a criação e fruição cultural, a atividade física e desportiva, bem como a inclusão e a solidariedade social. Nesta medida, é parte integrante dos instrumentos de politica pública orientados para a realização da cidadania social. Tal como se destaca na presente edição, a INATEL propõe dias tranquilos, designadamente através da sua rede de hotéis, a uma população de beneficiários cuja plena realização pessoal passa e continuará a passar, em todas as idades da vida, pela ocupação do tempo livre de forma ativa e criadora, colocando ao alcance de todos o direito ao lazer, a fruição cultural e o desporto. O que é ainda mais importante quando estamos confrontados com o duro facto de vivermos tempos inquietos que nos obrigam a mudar o nosso modelo de vida, excessivamente alavancado no crédito abundante que hoje não é mais sustentável. Dito isto, há que repensar as nossas formas de intervenção. Trata-se de salvaguardar o essencial da actividade INATEL em todas as suas vertentes. Desde logo no acesso à nossa oferta turística e hoteleira, cuja qualidade crescente é por todos reconhecida, e que queremos projetar ainda mais através de programas para todos, sem prejuízo da necessária

diferenciação que se exige a quem serve gente diferente, com gostos e sensibilidades variadas, que importa respeitar e satisfazer da melhor maneira possível. Mas também pelo apoio às atividades culturais e desportivas, com tanta expressão nos milhares de CCD que, em todo o país, mobilizam tanto jovens como seniores para numerosas e ricas iniciativas de cultura, na música, no canto, no teatro ou nas belas artes, bem como para a prática e a competição desportiva. Brevemente, iniciaremos programas nas tradicionais e em novas áreas de intervenção INATEL, diversificados e mobilizadores. Nos tempos inquietos que vivemos importa fazer mais com menos, chamando à participação energias latentes no universo INATEL, ao mesmo tempo que o procuramos alargar. Em todas estas frentes de intervenção queremos chamar às nossas atividades mais e mais cidadãos e cidadãs e, neste sentido, aprovamos já a isenção da taxa de inscrição para novos associados no ano de 2013. Daremos a maior atenção aos programas sociais dirigidos aos que têm especiais necessidades. Em tempos de austeridade orçamental teremos de ser particularmente inovadores a este respeito. Lazer e trabalho não são oposições irredutíveis, antes se devem apoiar mutuamente, criando emprego para desenvolver o lazer ao mesmo tempo que se oferecem ocupações de tempos livres aos que trabalham. Também a Revista Tempo Livre irá conhecer novo formato no próximo ano, mais compaginado às restrições orçamentais de 2013, mas cada vez mais próxima de todos. Ao iniciar funções, a nova Administração quervos dizer, sem margem para dúvidas: nós confiamos nos associados INATEL. A vós só vos queremos pedir o benefício da dúvida quanto ao trabalho que ora iniciamos. Sendo quadra de festa familiar e religiosa, queremos também desejar-vos Feliz Natal e Bom Ano Novo. n Presidente da Fundação INATEL DEZ 2012 |

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Cartas A correspondência para estas secções deve ser enviada para a Redacção de “Tempo Livre”, Calçada de Sant’Ana, nº. 180, 1169-062 Lisboa, ou por e-mail: tl@inatel.pt

Carta da prisão

Encontro-me detido no Estabelecimento Prisional de Castelo Branco, e tive o prazer de ler a revista "Tempo Livre", que me foi oferecida por alguém, e sobre a qual deixo aqui expresso o meu parecer muito positivo, e as minhas felicitações pelo óptimo trabalho que desenvolvem e produzem. Aproveito também para vos dizer que a leitura é algo muito importante para mim (e para outros reclusos, claro), pois aqui o tempo é mais pesado que o tempo do mundo real, aqui ele não corre, não anda, pura e simplesmente se arrasta, e arrasta mui vagarosamente… As revistas, os livros, os textos são efectivamente bons companheiros, digo até amigos, porque muitas vezes conseguem até levar-nos em grandes viagens sem sequer podermos partir. Luís Esteves, E. P. de Castelo Branco

“Palavras da Lei”

A resposta à pergunta constante na página 75, da revista "Tempo Livre" de Outubro, está errada. Visa esta tão só tranquilizar o consulente. A resposta correcta é: "face ao testamento outorgado pela tia do consulente, a sobrinha da testadora não lhe sucede, não tem qualquer direito à

herança". Sucedendo-lhe como única herdeira testamentária a esposa do consulente e na hipótese desta não lhe sobreviver, a sua filha. Qualquer pessoa pode dispor, por testamento, da totalidade do seu património desde que não tenha herdeiros legitimários. São herdeiros legitimários: o cônjuge, os descendentes e os ascendentes (art. 2157º do Código Civil). No caso em apreço, a tia do consulente não tem herdeiros legitimários. Logo pode dispor da totalidade do seu património a favor da tia do consulente, e na hipótese desta não lhe sobreviver, a favor da filha deste. Assim, a esposa do consulente, ou a filha deste, na eventualidade daquela não sobreviver à testadora, será a única herdeira da testadora, não havendo quem lhe prefira ou com ela concorra à sucessão na herança aberta por óbito da testadora. Alberto da Costa Santos, sócio nº 14340

50 anos na INATEL

Completam, este mês, 50 anos de ligação à Fundação Inatel os associados: Manuel João Ramada Anacleto, do Porto; Isidoro Mendes Felix Ribeiro, de Portalegre; Virgílio Pereira Fernandes, Lisboa.

Coluna do Provedor MUITOS SÃO os associados que estão preocupados com

O rigor de uma gestão, pautada por critérios de com-

o futuro da INATEL e que, por diversas ordens de razão,

provada competência e acompanhada de perto e certifica-

manifestam as suas opiniões. Num universo de 250.000

da por uma fiscalização homologada pelo Ministério da

associados individuais, mais os cerca de 4000 colectivos

tutela e pelos órgãos sociais, com a participação dos

(Centros de Cultura e Desporto), sem esquecer os milhares

Sindicatos, assegurará a eficácia da modernização estatutá-

de utentes dos diversos Programas da Fundação, são múlti-

ria da INATEL, com vista à auto sustentabilidade.

Kalidás Barreto

plos os ecos que nos chegam, dessas preocupações: – Será que a INATEL vai acabar? Será que a suas

de negócios. A Fundação tem funções sociais que o Estado

provedor@inatel.pt

funções sociais se mantém? Será que o seu património se

deve preservar, com a participação activa e atenta das cen-

conserva, se melhora e é aumentado sem o guloso apetite

trais sindicais nos seus órgãos estatutários. A INATEL é, há

de concorrentes privados?

muitas décadas, um organismo transversal da sociedade

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A INATEL não é nem poderá ser uma simples agência

São perguntas legítimas, suportadas nos objectivos

portuguesa, um espaço único, familiar e plural de convívio,

estatutários de serviço público da Fundação, cujo acção –

lazer e cultura de sucessivas gerações. E esta é uma das

de inegável importância na economia social do país – está

importantes bases sociais: a solidariedade familiar. Todos

em perfeita sintonia com a Constituição da República que

os anos se festejam os que atingem os 50 anos de ligação ao

estabelece: "Incumbe ao Estado assegurar o desenvolvi-

INATEL. Porque as suas memórias são a História da INA-

mento sistemático de uma rede de Centros de Férias, em

TEL, a matriz das suas funções sociais.

cooperação com organização social". É uma norma do arti-

O Mundo está nas mãos daqueles que têm a coragem

go 54 (alínea D) da Constituição de 1976 que tive a honra

de sonhar, lutar e viver os seus sonhos. E dizia Jean-Paul

de subscrever e que as revisões de 1982, 1989, 1992, 2005

Sartre: "Não importa o que passado fez de mim. Importa é

confirmam.

o que farei com o que o passado fez de mim." n


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Notícias

Nova Administração da Fundação Inatel or decisão do Conselho de Ministros (Resolução nº 41/2012), entrou em funções no passado dia 30 de Outubro o novo Conselho de Administração da Fundação Inatel, substituindo o anterior CA, cujo mandato tinha, entretanto, cessado. O novo CA tem a seguinte composição:

P

FERNANDO RIBEIRO MENDES, presidente, economista, doutorado em ciências económicas pelo Institut d' Etudes Politiques de Paris. Exerceu diversos cargos e funções no sector privado e no sector público, nomeadamente as de Secretário de Estado da Segurança Social (1995/1999) e da Indústria, Comércio e Serviços (2001/02). Ensina no Instituto Superior de Economia e Gestão em Lisboa e tem publicado diversos trabalhos sobre temas de políticas sociais e de responsabilidade social.

Altruísmo e Mérito do Município de Paços de Ferreira, por relevantes serviços prestados ao Concelho. ÁLVARO DA SILVA AMORIM DE SOUSA CARNEIRO, vogal, mestre em Sociologia do Trabalho, doutorando em Ciências do Trabalho no ISCE, detentor de várias pós-graduações, eleito vereador da Câmara Municipal de Lisboa, professor universitário do ISCTE-IUL (convidado), técnico superior na Câmara Municipal de Cascais, membro do Conselho Científico e Directivo do OPBPL-ISCTE-IUL, tem obras publicadas, membro de várias associações, condecorado e tem um louvor por serviços prestados na Câmara Municipal de Lisboa. Possuidor de várias ações de formação tem desenvolvido múltiplas iniciativas, acções e actividades em instituições sociais, culturais e desportivas.

JOSÉ MANUEL DA COSTA SOARES, vice-presidente, licenciado em Engenharia Civil pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, membro de vários conselhos de administração em empresas privadas, foi vogal do Conselho Administração da EP – Estradas de Portugal, Entidade Pública Empresarial (EP – Estradas de Portugal, E. P. E.), foi eleito em vários mandatos como vereador da Câmara Municipal de Paços de Ferreira, foi membro do Conselho Geral da Santa Casa da Misericórdia de Freamunde, foi presidente da Assembleia Geral da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Freamunde. Foi galardoado com a Medalha de Ouro de

JACINTA DO ROSÁRIO FERNANDES OLIVEIRA SANTOS, vogal, licenciada em Filosofia, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, pós-graduada em Comunicação e Marketing Político, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, da Universidade Técnica de Lisboa, e mestranda em Ciência Política no mesmo Instituto. Iniciou a sua actividade profissional na Rádio e em Televisão. Foi produtora, realizadora e apresentadora de programas no Grupo Renascença. Produziu e coordenou, em articulação com organismos públicos e privados, eventos de âmbito cultural e recreativo. Exerceu ainda assessoria na área da comunicação política e consultadoria em comunicação e marketing.

Fernando Ribeiro Mendes

Álvaro Carneiro

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José Manuel Soares

Jacinta Oliveira Santos


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Protocolo Inatel/ Minas Gerais l "Fomentar o intercâmbio entre dirigentes, quadros superiores e quadros técnicos das duas Instituições" e "promover o mútuo conhecimento das respectivas instalações e equipamentos, bem como dos serviços prestados pelas suas unidades de hospedagem, e ainda o contacto com o mercado local e seu potencial turístico", são alguns dos pontos centrais do protocolo que a Fundação Inatel celebrou, em Novembro último, com o Serviço Social do Comércio do Estado de Minas Gerais (SESC MG), no Brasil. O acordo, rubricado pelos presidente e vice-presidente da Inatel, respectivamente, Fernando Ribeiro Mendes e José Manuel Soares, e pelos Director e Superintendente Hospitalidade e Turismo do SESC MG, respectivamente Rodrigo Penido Duarte e Luiz Neves de Souza,

abrange, ainda, o mútuo acesso dos associados das duas entidades às respectivas unidades hoteleiras e de férias. As duas organizações – assinala o documento – consideram ser do seu interesse dar continuidade ao intercâmbio de experiências nas áreas em que

desenvolvem as suas actividades, em particular, fomentando o intercâmbio cultural e o turismo social". Presentes, também, no acto de assinatura do acordo, os administradores da Fundação, Jacinta Oliveira Santos e Álvaro Carneiro.

“Olhando pelo Mundo” l Na Galeria de Arte do Casino do Estoril está patente, até 13 do corrente, a exposição fotográfica "Olhando pelo Mundo", de Alexandre Costa, João Vicente, Álvaro Barcelos e António Herrarte. A exposição fotográfica do projecto "Olhando pelo Mundo" é fruto de um livro de dois fotógrafos voluntários da Associação Médicos do Mundo. Um sonho que começou com um livro oferecido por João Vicente a Alexandre Costa, no Natal de 2010 e, como os sonhos também se realizam, teve o seu início a 26 de Dezembro 2011. De Alcochete partiram para a Tierra del Fuego, na Argentina e, de sul para norte, chegaram ao Alasca, nos Estados Unidos, através de

dezasseis países. Ao longo dos territórios visitados foram privilegiados os transportes terrestres e marítimos de cada país, seguindo a rota da estrada pan-americana. A exposição serve, igualmente, como plataforma de lançamento do livro com o mesmo nome, com o qual os autores pretendem contribuir solidariamente para a Associação Médicos do Mundo.

“Da Terra e da Água” lA

Inatel Porto foi palco, no

primeiro dia de Dezembro, do lançamento do livro "Da Terra e da Água", de José Manhente, edição Mosaico de Palavras. A apresentação, no auditório da Fundação, esteve a cargo de Sérgio Almeida, jornalista do "Jornal de Notícias". DEZ 2012 |

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Notícias

Dia Europeu do Turismo intervenção, a importância e o peso que este segmento da população significa para o sector turístico e, naturalmente, para a economia do país. Promovida no âmbito do Dia Mundial do Turismo, a conferência de Bruxelas pretendeu promover a discussão sobre como a herança industrial europeia pode contribuir para a diversificação da oferta turística na Europa e, em simultâneo, como o desenvolvimento de estratégias na área do turismo podem constituir uma forma de evitar o aumento do desemprego e da depressão económica.

l O projecto europeu Calypso e, designadamente, o desenvolvimento do sector turístico dirigido a públicos seniores – onde Portugal, através da Fundação Inatel, é um dos países pioneiros no desenvolvimento deste sector de actividade – foi o tema central da intervenção de Rui Calarrão (na foto) na conferência comemorativa do Dia Europeu do Turismo, realizada em Bruxelas. Presente na capital belga em representação da Inatel, o responsável dos programas de turismo sénior em Portugal destacou, ainda, na sua

Prémio Literário Agustina Bessa-Luís l Com

o romance "A Vida Inútil de José Homem", a

psicóloga Marlene Correia Ferraz (Viana do Castelo, 1980) venceu a 5ª edição do Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís, destinado a autores com menos de 35 anos. O Júri, presidido por Vasco Graça Moura, ao eleger o romance "A Vida Inútil de José Homem", tomou em consideração "uma apreciável desenvoltura narrativa e uma relação criativa com a língua portuguesa". O romance – refere ainda a acta do Júri – "evidencia situações dramáticas da memória histórica portuguesa africana, num enquadramento interessante e, em certa medida, original".


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Adira ao débito directo a forma de pagamento mais cómoda e segura oferta de 2 vouchers nos hotéis Inatel A Fundação INATEL tem ao dispor dos

qualquer reserva (sem limite de noites),

adiram ao pagamento da quota anual

seus Beneficiários Associados diversas

quarto duplo, em regime APA, válido

pelo sistema débito directo, para

formas de pagamento da sua

até 30.06.2013.

regularização da quota de Associado

quotização anual, designadamente

2.Voucher de 1 noite extra, em igual

INATEL.

através de débito directo, multibanco,

regime ao da reserva efectuada, válido

Para tal, basta aderir ao pagamento da

CTT, Payshop, cheque e numerário, e

até 27.12.2013.

quota anual pelo sistema de débito

através de uma das várias Agências

Condições: os vouchers são válidos nas

directo, através dos seguintes meios:

Distritais.

unidades hoteleiras da Fundação Inatel,

multibanco ou de home banking, via

Como campanha de motivação para a

excepto na UH Graciosa e durante a

internet, utilizando as referências

adesão ao sistema de débito directo, a

época especial; sujeitos a disponi-

indicadas no aviso de pagamento;

Fundação INATEL promove, durante o

bilidade, não podendo ser utilizados

numa das Agências Distritais da

período de 1 de Dezembro de 2012 a 15

cumulativamente, nem em simultâneo

INATEL, na sede da Fundação INATEL,

de Fevereiro de 2013, uma campanha

com outras campanhas em vigor.

na Calçada de Sant’Ana, n.º 180 - 1169-

de Adesão ao Débito Directo, com

A campanha destina-se aos

062 (secção de Associados) ou em

oferta de dois vouchers de estadia nas

beneficiários associados individuais e

qualquer Agência Distrital da

unidades hoteleiras da Fundação:

aos equiparados a beneficiários

Fundação INATEL, das 10h00 até às

1.Voucher de 20% de desconto em

associados da Fundação INATEL que

17h00, de segunda a sexta-feira.


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Notícias

Inatel promove Cante alentejano

“Dei por mim, a brincar…” l "Dei

por mim, a

brincar…" traz ao Museu da Água de Coimbra uma nova forma de abordar o que é a responsabilidade social de todos nós. O ninho não é apenas um berço de pássaros, é também símbolo de protecção e união. É o tema da exposição da pintora Teresa Gonçalves Lobo, patente até 14 de Janeiro no belíssimo espaço museológico que se enquadra no Parque da lA

Fundação INATEL, através da sua Agência de Beja, em parceria com as autarquias de Beja, Serpa e Almodôvar e outras entidades locais, associou-se às celebrações do Ano Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade Entre Gerações com a realização do espectáculo "Gerações do Cante – Alentejo Solidário" cuja estreia decorreu a 7 de Novembro, no Teatro Pax Júlia, em Beja, com a participação de grupos corais dos três concelhos e de um coral de Castro Verde.

A iniciativa – repetida em Serpa e Almodôvar – visou, ainda, contribuir para a preservação e valorização do Cante como património cultural imaterial de elevada singularidade e simultaneamente proporcionar à comunidade local e ao público infanto-juvenil a possibilidade de desfrutaram e assistirem a um espectáculo inovador e representativo da riqueza e diversidade das práticas musicais de tradição oral do Baixo Alentejo.

Cidade, edifício que outrora albergou a Estação de Captação de Água.

“O agente da Catalunha” l Com

o romance "O agente da Catalunha", (ed. Planeta), Cesário Borga faz a sua

estreia no mundo da ficção. Numa Lisboa onde política, guerrilha e espionagem traçam os rumos da Europa, o antigo jornalista da RTP, Flama, Capital, Diário de Lisboa e O Jornal, apoiado no seu conhecimento da história peninsular do século XX, viaja pela sangrenta guerra civil espanhola com uma surpreendente história de amor entre o português Jorge, 'rebaptizado' Jordi, miliciano das barricadas republicanas, e a bela guerrilheira catalã, Alba. De regresso a Lisboa numa missão de combate aos regimes dos dois ditadores ibéricos, Jordi – agora Jorge – enfrenta a GNR e apaixona-se pela compatriota Isaura…sem deixar de amar Alba. Com elas, em Lisboa, desafia o destino, deambulando pelos bairros embalados pelo fado e povoados de gente resignada… 12

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“Vidas de Enfermeiras” l Reparar a lacuna da historiografia portuguesa da segunda metade do século passado sobre a história das mulheres na área da saúde foi o objectivo de Marília de Freitas, autora do livro "Vidas de Enfermeiras", editado pela LusoCiência. Licenciada em História pela Faculdade de Letras de Lisboa, Mestre em Ciências Sociais e antiga enfermeira e docente na Escola de Enfermagem de Saúde Pública, a autora apresenta 25 biografias de enfermeiras portuguesas – nascidas entre 1860 e 1949 – que exerceram a sua actividade tanto na área da prestação directa de cuidados como nas áreas da docência, da gestão e investigação. Vinte e cinco

mulheres cujo percurso – assinala o prefácio de Teresa Santos – contradiz "o estigma da proveniência social e da incompetência geral".

"Um Novo Portugal" l Editado

recentemente pela Fronteira

do Caos, o livro "Um Novo Portugal – ideias de, e para um país", é uma colectânea de artigos publicados ao longo dos últimos 25 anos em diversos jornais e revistas pelo sociólogo e jornalista Octávio dos Santos. Como sublinha o autor, em jeito de prefácio, o livro "ilustra" a sua "evolução pessoal, mental, ideológica, de (inconsciente) republicano comunista, na esquerda, a (consciente) monárquico conservador, na direita", tendo em comum, "em todo o percurso, inalterável, sempre a vontade de apontar, denunciar, problemas e de propor, expor, soluções".


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Notícias

Premiados do concurso Mostras Gastronómicas l Lista dos premiados no sorteio dos premiados do concurso Mostras Gastronómicas, promovido pelo departamento de Turismo e Hotelaria Inatel: 1º prémio - Um cruzeiro no Mediterrâneo, para duas pessoas, em camarote duplo exterior. Sorteada Anabela de Jesus Vitor Manuel, Lisboa; 2º prémio - Uma viagem no programa Belezas do Sul, para uma pessoa, em regime de meia-pensão. Sorteado Fernando Gonçalves, Torres Vedras; 3º prémio - Uma viagem no programa Belezas do Sul, para uma pessoa, em regime de meia-pensão. Sorteado António Henrique de Moura, Gaia; 4º prémio - Uma viagem às Flores, para

uma pessoa (viagem, alojamento, pensão completa). Sorteada Marica Helena Caldas Pereira, Caldas da Rainha; 5º prémio - Um Cruzeiro no Douro, dois dias, para duas pessoas. Sorteado Mário Jorge Moura Casanova, Matosinhos; 6º prémio Uma Viagem nacional da Fundação Inatel, quatro dias, para duas pessoas. Sorteado Feliciano M. Carvalho, Valença; 7º prémio - Uma Viagem nacional da Fundação Inatel, dois dias, para duas pessoas. Sorteada Maria Clara Santos, Albufeira; 8º prémio Uma Viagem nacional da Fundação Inatel, dois dias, para duas pessoas. Sorteado António Boleo Teles, Teixoso; 9º prémio - Uma estada na UH Vila

Pormenor do sorteio

Ruiva, cinco dias, para duas pessoas, em pensão completa. Sorteada Ana Carpinteiro, Santo André; 10º prémio Uma estada na UH Albufeira, cinco dias, para duas pessoas, em pensão completa. Sorteada Maria Vanda Caroça, Lisboa; 11º prémio - Um fimde-semana na UH Piodão, dois dias, para duas pessoas, em pensão completa. Sorteada Lina Benedito, Azeitão.


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Fotografia

[ 1 ] Sérgio Guerra, S. João do Estoril Sócio n.º 204212

XVII Concurso “Tempo Livre” [1]

[ 2 ] Ana Antunes, Póvoa de Stª. Iria Sócio n.º 314302 [ 3 ] Ricardo Deodato, Mafra Sócio n.º 516217

[3]

[2] 16

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Regulamento 1. Concurso Nacional de Fotografia da revista Tempo Livre. Periodicidade mensal. Podem participar todos os associados da Fundação Inatel, excluindo os seus funcionários e colaboradores da revista Tempo Livre.

Menções honrosas

2. Enviar as fotos para: Revista Tempo Livre - Concurso de Fotografia, Calçada de Sant’Ana, 180 - 1169-062 Lisboa.

[ b ] Paulo Sousa, Sardoal Sócio n.º 391686

[ a ] Américo Monteiro, Pedroso Sócio n.º 63451

3. A data limite para a recepção dos trabalhos é o dia 10 de cada mês.

[ c ] Maria Silva, Cacém Sócio n.º 493267

4. O tema é livre e cada concorrente pode enviar, mensalmente, um máximo de 3 fotografias de formato mínimo de 10x15 cm e máximo de 18x24 cm, em papel, cor ou preto e branco.

[a]

5. Não são aceites diapositivos e as fotos concorrentes não serão devolvidas. 6. O concurso é limitado aos associados da Inatel. Todas as fotos devem ser assinaladas no verso com o nome do autor, morada, telefone e número de associado da Inatel. 7. A «TL» publicará, em cada mês, as seis melhores fotos (três premiadas e três menções honrosas), seleccionadas entre as enviadas no prazo previsto.

[b]

8. Não serão seleccionadas, no mesmo ano, as fotos de um concorrente premiado nesse ano. 9. Prémios: cada uma das três fotos seleccionadas terá como prémio duas noites para duas pessoas numa das unidades hoteleiras da Inatel, durante a época baixa, em regime APA (alojamento e pequeno almoço). O prémio tem a validade de um ano. O premiado(a) deve contactar a redacção da «TL». Nota: De acordo com a tabela em vigor, a época alta inclui fins de semana.

[c]

10. Grande Prémio Anual: uma viagem a escolher na Brochura Inatel Turismo Social até ao montante de 1750 Euros. A este prémio, a publicar na «TL» de Setembro de 2013, concorrem todas as fotos premiadas e publicadas nos meses em que decorre o concurso. 11. O júri será composto por dois responsáveis da revista T. Livre e por um fotógrafo de reconhecido prestígio.

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Isabel Jonet “As pessoas têm de ser mais solidárias…” Líder de 20 bancos alimentares que movimentam diariamente 600 pessoas e envolvem mais 36 mil em cada uma das duas campanhas anuais de recolha de alimentos, Isabel Jonet manifesta um natural orgulho na sua activa e profunda ligação ao "maior movimento na sociedade civil portuguesa desde o pósguerra". A recente polémica e as críticas de que foi alvo não a afectaram. Solidariedade é palavra de ordem de Isabel Jonet, consciente de que a estrutura que dirige é vital para a sobrevivência de mais de 300 mil portugueses altamente carenciados. "Estou aqui pelas pessoas que precisam…", sublinha a também presidente da Federação Europeia de Bancos Alimentares, convicta de que, tal como noutros momentos difíceis da nossa História, os portugueses saberão "dar a volta" à grave crise actual. 18

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Entrevista

O Banco Alimentar (BA) obteve, em 2008, uma ajuda de 170 mil toneladas de víveres para um universo de 250 mil pessoas. Em 2012, os números serão, certamente, outros? Temos, actualmente, 20 bancos alimentares contra a fome espalhados por todo o país que em conjunto apoiam 2.160 instituições. E são essas instituições que estão a distribuir alimentos a 336 mil pessoas. Como funciona a distribuição? Os bancos alimentares não entregam comida directamente à população. Existe um extenso leque de instituições de solidariedade social de âmbito nacional que o BA selecciona e acompanha na sua actividade. Essas instituições entregam a comida sob a forma de cabazes de alimentos ou de refeições confeccionadas servidas em lares de idosos, creches, lares de crianças. O papel do BA, desde há 20 anos, centrou-se na estruturação de uma vasta rede de apoio às instituições. Nós apoiamos as instituições e as instituições apoiam, por sua vez, as pessoas mais carenciadas. O número de pessoas carenciadas, auxiliadas pelo BA, aumentou, portanto, nos últimos anos… Esse acréscimo é, no meu entender, consequência de duas coisas: por um lado há mais bancos alimentares e portanto podemos abranger mais instituições e mais pessoas; mas, por outro lado, há uma deterioração na situação financeira de muitas famílias, nos últimos anos, fruto do desemprego, mas também do endividamento. E não podemos esquecer o facto de haver, no nosso país uma grande franja da população idosa empobrecida, muito empobrecida. São pessoas atingidas por aquilo a que eu chamo a pobreza estrutural. Há, em Portugal, um milhão de idosos que vive com menos de 280 euros por mês, e há 1 milhão e 800 mil pessoas que vive com menos de 600 euros mensais. E essas pessoas que vivem com os 600 euros, são pessoas que vivem de pensões e que vêem o seu valor reduzido pelo aumento dos impostos, como o IVA, e ficam numa situação muito difícil. E os desempregados vêem o respectivo subsídio a diminuir… O primeiro grande surto de desemprego foi em 2009, e há muitas pessoas que estão agora a ficar sem subsídio de desemprego. A situação que vivemos agora é particularmente crítica e é por isso que as pessoas têm que ser ainda mais soli-

dárias, porque muitas das pessoas que foram para o desemprego em 2009, neste momento ficaram sem o subsídio de desemprego. E a situação tende a piorar, porque a perspectiva de superação da crise é muito longínqua… ou seja, os bancos alimentares vão ter que dar uma resposta maior. Mas, essa não será a boa resposta… Pois não. O ideal era que os bancos alimentares não precisassem de existir. Porque significava que não havia pessoas que precisavam de ajuda alimentar. A ajuda alimentar não é comparável com mais nenhuma outra. Quando uma pessoa pede ajuda para comer, está a pedir aquilo que é a base da sua vida. É a base de tudo. Quando se precisa de ajuda para comer é quando se chegou ao limite do desespero. Em Portugal, há, felizmente, uma almofada de segurança que são as Instituições de Solidariedade Social (ISS) que muito contribuem para minimizar a situação. Quando uma Sei que está a colaborar numa pessoa pede ajuda rede semelhante para a Grécia… para comer, está a Estive lá, recentemente, com esse pedir aquilo que é objectivo e essa rede é vital. Ao base da sua vida contrário de Portugal, onde a Igreja Católica estruturou, há séculos, uma rede de instituições – misericórdias, conferências de São Vicente de Paulo, paróquias, conventos – com uma vasta obra social, na Grécia, a Igreja Ortodoxa não tem essas ligações, porque não tem esta vocação e falta uma rede estruturada de assistência social, de emergência social. Os Estados, os Governos, por muito que queiram, não conseguem chegar a cada pessoa, porque não têm a rede montada. Uma coisa é falar de emergência, outra coisa é falar de direitos garantidos. Todos nós queremos que o Estado garanta direitos. Todos, independentemente da nossa ideologia, e do credo. Mas, temos que acudir a situações de emergência, precisamente porque há pessoas que precisam de ajuda para comer. É o Estado social em causa? Quando me vêm falar em garantir o Estado Social, para garantir o Estado social temos que repensar todo o modelo que existe subjacente à concepção de Estado social, numa Europa e num mundo onde por exemplo a esperança de vida aumentou de 60 para 80 anos, onde muitas pes-

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Entrevista

soas vivem largos anos com uma pensão de reforma. Então, é este modelo que não é sustentável, e é por isso que temos de repensar o modelo, exactamente para que ele se possa manter, para acudir às situações de emergência. Nós, todos, gostaríamos que houvesse prosperidade económica, só que a Europa mudou… Mas o problema não se esgota no aumento da longevidade. Em causa estará a necessidade de crescimento económico, um problema europeu face ao crescimento dos chamados países emergentes noutros continentes… A Europa mudou, o peso da Europa no mundo mudou muito. Não é só com a abertura da China, há a Índia, o Brasil, África … São, de repente, países para os quais não olhávamos com tanta atenção, porque estávamos quase fechados numa Europa que se julgava auto-suficiente. E o que é que aconteceu? Estes países começaram a competir com os produtos europeus e com toda a As críticas não economia europeia em condições me afectam nada de concorrência desigual. Então, porque eu não estou o que é que nós temos hoje? aqui por mim, estou Temos países que não têm esses aqui pelas pessoas direitos sociais garantidos, apareque precisam cem no mercado com produtos mais baratos, feitos com salários baixos, onde não há garantias nenhumas. De facto, eu não gostava nada que o Estado Social e aquilo que são as conquistas de bem-estar que a Europa e esta União Europeia trouxeram a seguir à Segunda Grande Guerra fossem postos em causa. Por isso mesmo é que há que repensar todo este modelo para não serem postos em causa. É, também, presidente da federação europeia dos bancos alimentares e sabe que há 80 milhões de europeus na pobreza… …E 18 milhões de europeus com fome. Uma situação impensável há bem pouco tempo e, sobretudo, era impensável que os Estados membros não iam estar unidos numa resposta de emergência. E aquilo que se passa é que, ainda muito recentemente, a presidência do Chipre propôs o corte de 20% nas políticas de coesão, e as políticas de coesão são aquelas onde as políticas sociais se integram. E o que acontece é, de repente, vemos a reconstrução europeia do pósguerra posta em causa nos seus pilares de âmbi-

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to social. E isso é muito preocupante. O facto de metermos a cabeça debaixo da areia não vai fazer com que se consiga mudar. O empobrecimento é inevitável? O empobrecimento é inevitável, mas eu penso que na vida de muitos de nós esse empobrecimento é, sobretudo, um defraudar de expectativas e de hábitos. Quando eu andei na universidade – acabei o curso há 30 anos – havia uma dezena de carros estacionados. Hoje, todas as universidades têm grandes parques de estacionamento porque muitos dos alunos vão de carro. Portanto, há toda uma maneira diferente de viver. Dou-lhe outro exemplo: os meus dois filhos mais pequenos, uma vez por semana, podem comer um gelado. E uma vez, houve um meu filho que disse assim: Oh mãe, posso comer um hambúrguer McDonald's? Um hambúrguer às cinco da tarde? Mas, você quer comer um bife às cinco da tarde? E ele respondeu-me: Não, mãe, aquilo é uma sanduíche. Ou seja, há toda uma maneira diferente de olhar para a vida: para mim, um hambúrguer é uma refeição, um almoço. Para ele, é uma sanduíche. As sociedades evoluem… Esta maneira de olhar para o mundo, que mudou muito rapidamente, envolve um conflito geracional, um conflito determinado por diferentes perspectivas ou valores relativamente aos bens, à maneira como olhamos para os bens. E os países emergentes vão enfrentar, futuramente, estes problemas. A China não tinha, até há pouco, as mínimas condições, mesmo de habitabilidade, e vemos, hoje, uma vasta e crescente classe média chinesa absorver aquilo que é a nossa maneira de viver europeia. E, portanto, daqui a uns anos, eles também vão sofrer daquilo que nós estamos a padecer agora. Um futuro sombrio, em perspectiva? Eu acho que é um cenário de reajustamento. Há sempre reajustamentos que são necessários… quando os rios vão cheios de mais, transbordam, e têm que voltar ao leito normal. A natureza é uma grande mestra. No caso português, penso que o que tinha acontecido é que se calhar não olhávamos com realismo para aquilo que eram todas as capacidades reais, económicas, não só financeiras, dos vários países da zona em que estamos integrados. E o que é certo, é que não temos praticamente indústria, a produção portu-


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guesa é muito reduzida. Agora, começam a aparecer algumas pequenas empresas, muito eficientes, muito tecnológicas. E, eu penso que é isto que vai salvar Portugal. Um conjunto de pequenas empresas que vão gerar outra vez o auto-sustento. Porque nós perdemos essa noção. Aqui, à volta de Alcântara, a maior parte das mercearias e a maior parte do pequeno comércio, que eram para sustento de uma família, fecharam. Porque as pessoas entenderam que não valia a pena. Nestes últimos tempos, houve uma grande desvalorização do trabalho, e do trabalho enquanto dignificante para o homem. Mas o desemprego não pára… Há muito desemprego. O desemprego é, talvez, o maior flagelo que há na sociedade portuguesa actualmente. E vai aumentar muito no próximo ano. Mas temos de ser realistas e procurar adaptarmo-nos e superar as dificuldades. Vai ser difícil, mas eu acho que os portugueses já tiveram outras alturas em que souberam resistir e dar a volta. E acredito que vamos dar a volta. A emigração tem crescido… é uma das alternativas? A Europa já não é destino para os nossos emigrantes. Nos anos 60, saíram muitos emigrantes para a Alemanha, França, Luxemburgo. E deixaram, sobretudo o Norte do país, num estado de desertificação tremenda. A emigração está, de facto, a aumentar, o problema é que os que vão emigrar agora são pessoas qualificadas, e nós vamos perder uma geração de pessoas qualificadas que vão para o Brasil, vão para Angola, vão para os EUA, para a Inglaterra, para a Alemanha. Mas pode ser que voltem. Tenhamos esperança que voltem e que o país seja capaz de criar condições atractivas para que voltem. Há muitas empresas que apoiam o Banco Alimentar? O Banco Alimentar vive basicamente dos donativos, doações diárias de excedentes da indústria agro-alimentar, da agricultura, dos mercados abastecedores. Há, também, os produtos de um programa comunitário de apoio alimentar a carenciados. E há os produtos originários das duas grandes campanhas anuais de recolha: a campanha de Maio e a campanha de Dezembro. Essas campanhas são muito importantes para os Bancos alimentares, porque só elas permitem angariar produtos relativamente aos quais não há

excedentes de produção. Por exemplo, não há excedentes de produção de azeite, nem de atum, nem de salsichas, nem de arroz, nem de massa. Produtos mais duradouros… … E, relativamente aos quais não há excedentes de produção. Porque, por exemplo, a coca-cola aguenta muito tempo, mas não é um produto básico. Nós podemos ter o armazém cheio de coca-cola, se calhar havia quem gostasse, mas não é um produto básico, e os produtos básicos são os mais necessários no dia-a-dia. O programa europeu de apoio alimentar parece estar, no entanto, em risco… Vai acabar da forma como o conhecemos. O modelo actual do programa comunitário de apoio alimentar, criado há 20 anos, termina em 2013. A partir de 2014, funcionará outro programa que é um fundo para as pessoas mais desprotegidas criado pelos estados-membros, com uma dotação bastante inferior à do actual programa comu… fiz uma opção nitário, com muito menos verbas. de vida. E quando se Haverá menos produtos. Por isso faz uma opção de temos lançado um conjunto de vida pelo outras iniciativas, caso, por exemvoluntariado como eu plo, da campanha papel por alifiz, que envolve toda mentos, e que nos ajudam a cona minha família, é seguir colmatar um pouco o uma vocação de decréscimo dos produtos que vida vêm no âmbito desses programas e até do decréscimo das doações da indústria agro-alimentar. Como principal responsável do nosso Banco Alimentar sabe quais são as zonas do país mais afectadas… Neste momento é claríssimo: à volta de Setúbal, no Grande Porto, em Braga e aqui nas zonas mais periféricas de Lisboa. São áreas onde havia muitos imigrantes que trabalhavam na construção civil. Esta indústria atravessa uma enorme crise, não há obras públicas, e estas pessoas, com poucas qualificações, não arranjam emprego em mais lado nenhum. Daí o aparecimento de bolsas de pobreza. E muitos imigrantes já começam a regressar aos seus países, ao Brasil e aos países de Leste, por exemplo. O mesmo não acontece com os imigrantes africanos, eles não vão voltar a casa, porque a situação nos seus países não é melhor e muitos deles já são portugueses. Temos, assim, à volta de Lisboa, comunidades de popu-

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lação africana com elevadas taxas de natalidade e problemas de desemprego ou com empregos clandestinos e, portanto, sem protecção social declarada, mas com acesso às urgências dos hospitais e os filhos às escolas… São pessoas que voltarão aos seus países. Adquiriu, graças às suas funções, uma rara experiência e conhecimento da sociedade portuguesa… Não admite ter outros cargos ou funções? A nível governamental, por exemplo? Não aceitava. Porquê? Porque eu penso que cada pessoa tem as suas características e as suas competências. Eu, numa determinada fase da minha vida, fiz uma opção de vida. E quando se faz uma opção de vida pelo voluntariado como eu fiz, que envolve toda a minha família, é uma vocação de vida. Então, nunca poderia assumir nenhum tipo dessas funções, não é o meu perfil. Pelo que vejo, e sinto, as reacções negativas suscitadas pelas suas declarações num programa televisivo não a afectaram muito? Penso que houve um conjunto de más interpretações e, depois, o que houve foi uma bipolarização estranha da sociedade portuguesa, que passou muito pelas redes sociais. E, nas redes sociais há muito soundbytes. As pessoas não lêem, não ouvem e comentam por cima. Mas, sobretudo comentam anonimamente e impunemente. E portanto, permitem-se todo o tipo de comentários mesmo que sejam descontextualizados. As pessoas que ouviram a totalidade da entrevista per22

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ceberam a mensagem que eu quis transmitir. E é uma mensagem clara e realista. O que se verificou é que há muitas pessoas que falam só por falar, sem saber aquilo que estão a falar, ignorando o contexto e o conjunto das minhas palavras. Depois, a comunicação social amplifica... Eu, francamente, tinha que lhe dizer isto: não me afectou nada porque eu não estou aqui por mim, estou aqui pelas pessoas que precisam. E tenho um imenso orgulho em todos os voluntários e todos os colaboradores dos 20 bancos alimentares que vão continuar a fazer tudo aquilo que é a sua missão, porque há quem precise. No dia em que não houver quem precise, então nós esperamos não estar cá. Então, aí já pode ter outras funções, outro papel na sociedade? Pois é, mas eu tenho muitas coisas. Há, também, a Entreajuda. O banco alimentar contra a fome de Lisboa esteve na génese da sua criação. A Entreajuda existe há oito anos, funciona também aqui na Avenida de Ceuta, e tem um objectivo estatutário mais estruturante e menos assistencialista. A Entreajuda proporciona gestão e organização às instituições do terceiro sector e abriu um banco não alimentar, um banco de bens e equipamentos, com o maior site português de voluntariado, que é a bolsa de voluntariado, com projectos também na área de saúde. Portanto, eu ainda tenho muito com que lidar, além de que tenho cinco filhos… e espero ter muitos netos! n Eugénio Alves (texto) José Frade (fotos)


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Aveiro A ar

A ria, singular acidente hidrográfico da costa portuguesa, resultante do recuo do mar, dá a Aveiro o seu carácter singular. A primeira referência escrita conhecida de Aveiro consta do testamento da condessa Mumadona Dias, no século X, que refere Suis terras Alauario et Salinas.

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rte e o mar

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lugar, mais tarde, foi elevado a vila, mas a instabilidade da ligação entre a ria e o mar mantiveram Aveiro e a região apagada e insalubre por largos períodos. Em 1759, D. José promoveu-a a cidade e em 1808 foi finalmente concluída com sucesso a barra, o canal que fendeu as areias do litoral até ao oceano e permitiu Aveiro respirar com outro desafogo. Cresceu o movimento do porto, as salinas prosperaram e a pesca avançou, ao mesmo tempo que novas ideias políticas faziam o seu caminho no país, e o liberalismo encontrava em aveirenses como José Estêvão uma das mais combativas figuras. (Esse lastro revolucionário ficaria e durante o século XX iriam realizar-se na cidade os Congressos da Oposição Democrática, iniciativas de luta contra o Estado Novo.) O caminho de ferro chegou a Aveiro em 1864 e o crescimento económico e a industrialização iam tornar-se uma realidade, desenvolvendo-se novas actividades como a cerâmica, e no virar do século XIX para o século XX, uma burguesia activa marcará a face da cidade com as suas casas Arte Nova.

O

1. Exemplo de janela Arte Nova 2. Antiga Capitania 3. Fachada do museu de Arte Nova 4. Ponte do canal de S. Roque 5. Interior do museu de Arte Nova 6. Centro cultural e de congressos 7. Sé Catedral 8. Túmulo de Santa Joana, no Museu de Aveiro

Da Arte Nova à Arquitectura Contemporânea A Art Nouveau, a Arte Nova, foi um movimento artístico internacional que deixou marcas em várias cidades do país, e em Aveiro de forma particular. Filho da burguesia urbana foi um estilo que atingiu a sua máxima expressividade na arquitectura e nas artes aplicadas. Tudo aconteceu em três décadas, dos finais de Novecentos até à I Grande Guerra. Em Aveiro o exemplo mais eloquente desta arte

orgânica onde brilham as linhas dinâmicas ondulantes é a Casa Major Pessoa. Com uma situação privilegiada, debruçando-se sobre o Grande Canal, a casa, da autoria do arquitecto Francisco da Silva Rocha, o principal protagonista da Arte Nova na cidade, foi construída entre 1907 e 1909 e serviu de habitação até 1995. Agora, desde o início de 2012, é o Museu Arte Nova de Aveiro, funcionando como "centro interpretativo da extensa rede de motivos Arte Nova disseminados por toda a cidade de Aveiro", como esclarece o folheto entregue aos visitantes. São 28 os espaços classificados, diversificados nas suas funções, e proporcionando um passeio que se estende praticamente por todo o aglomerado urbano. A maioria está ali em volta, a Casa dos Ovos Moles, onde, sim, se pode saborear e adquirir o refinado doce, a férrea Praça do Peixe, o edifício da Assembleia Municipal, antes Capitania do porto, e avançando, ao fundo do Canal do Côjo, a volumosa fábrica Jerónimo Pereira Campos, adaptada a novas e diversificadas funções. Mas na cidade nada é estanque, nem podia ser, e ao mesmo tempo que o visitante se estende pelas ruas os seus sentidos vão captando sons, cheiros, vida, no plano do património construído vai encontrar outros testemunhos, anteriores e posteriores à erupção da Arte Nova e que são matéria contemplativa, prazer para os olhos. Tal é o caso do Museu de Aveiro, acomodado no antigo convento de Jesus, onde a Princesa Santa Joana se recolheu. O museu "propõe uma visita segundo duas vertentes: o percurso monumental – dependências do antigo convento, como a Igreja, Coro Alto, Sala de Lavor e capelas devocionais; e a exposição permanente – colecções de

“Ovos-Moles…” Os ovos-moles de Aveiro surgiram como

qualidades, além de que abriu a todos a

ovos-moles de Aveiro, massa muito cremosa

forma de dar destino às gemas de ovo que

possibilidade de saborear uma iguaria que

obtida através de açúcar em ponto e gema

sobravam das claras que as freiras dos

diríamos divina.

de ovo, foram o primeiro produto da doçaria

vários conventos aqui existentes utilizavam

Revelando-se sob a forma de elementos

portuguesa a receber a certificação de

para engomar os hábitos. Extintos os

marinhos, conchas, búzios, peixes,

Identificação Geográfica Protegida. Diversos

conventos no século XIX, o fabrico de ovos

envolvidos em massa de hóstia, ou então em

estabelecimentos da cidade comercializam

-moles transitou para mãos 'profanas' sem

barricas de cerâmica ou madeira de choupo

os ovos-moles, especialmente nas

que, certamente, tal lhes alterasse as

(que não altera as qualidades da massa), os

proximidades do Canal Central.

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Terra Nossa

DORMIR

GUIA

estacionamento privativo.

INATEL de Santa Maria da Feira. Localizada a curta

PASSEIOS DE BARCO

INFORMAÇÕES

distância de Aveiro, esta

NA RIA

Posto de Turismo (Turismo do

unidade hoteleira dispõe de 80

Alquimia do Mar,

Centro de Portugal);

quartos totalmente equipados,

Tel. 919 550 750;

Rua João Mendonça, 8,

bar, restaurante, piscina, sala

Ecoria, Tel. 967 088 183;

3800-200 Aveiro;

de jogos, court de ténis, sala

RiaNorte, Tel. 968 888 897;

Tel. 234 420 760

de reuniões e WI-FI. Parque de

Viva a Ria, Tel. 969 008 687

deixando a sua marca no Campus, abre-se excepção ao edifício da biblioteca, cuja autoria cabe a Álvaro Siza Vieira.

A Ria, os Moliceiros e as Bicicletas

história e de arte do Museu, dos séculos XIV - XV ao século XIX ..." E agora, fazendo uso de uma liberdade que os textos permitem, saltamos até novas zonas citadinas, até ao Campus Universitário de Santiago. A Universidade, um projecto nascido na década de 70 do século XX, trouxe um novo élan à cidade, e também a forte projecção do nome Aveiro. Dezenas de edifícios distribuídos por uma vasta área constituem um corpo onde intervieram os mais prestigiados arquitectos portugueses, situação que enriqueceu a cidade com a oferta de novas linguagens nesse campo. Fugindo à citação de todos os nomes que ao longo dos anos foram 28

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Os moliceiros eram embarcações da ria, hoje são (essencialmente) embarcações da cidade. O mesmo acontece com o mercantel, de maior tamanho, e que era usado no transporte de sal e outras mercadorias. O moliceiro é uma embarcação esguia, marcada por um elegante exotismo, leme de grandes dimensões, proa e popa altas e recurvas, ostentando pinturas em cores vivas que quase sempre incidem na interpretação de temas brejeiros. Concebidos para a recolha de moliço – plantas aquáticas abundantes na ria e usadas como fertilizante - os moliceiros foram salvos do desaparecimento pelos prazeres do turismo. O palco, onde se movem no presente, são os canais da cidade: Canal Central, Canal de São Roque, Canal do Côjo, Canal das Pirâmides, Canal do Paraíso. É do Canal Central, que faz a sua trajectória pelo coração de Aveiro, que usualmente partem os passeios fluviais que se tornaram obrigatórios em qualquer visita à cidade. Dali avança-se pelos demais caminhos de água que sulcam a cidade conduzindo até locais como o bairro da Beira Mar, com as suas casas simples reflectindo um arco íris de cores na água, ou a marinha de sal da Troncalhada, convertida em ecomuseu. Outra forma de ver e sentir a cidade, desafiadora e com mais autonomia, é numa BUGA, bicicleta de utilização gratuita de Aveiro. Não tem o estatuto de ícone da ria e da cidade, como o moliceiro, mas já faz parte da paisagem urbana, uma prenda que a cidade oferece aos seus habitantes e a quem a visita. n José Luís Jorge (texto e fotos)


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Artesanato

Júlia Ramalho

“Será que fui eu que Há meio século que das mãos de Júlia Ramalho, uma das mais prestigiadas oleiras de Barcelos, saem figuras de barro. Herdou a arte da avó, Rosa Ramalho, mas afirmou uma assinatura singular nas peças de característico vidrado cor de mel que têm o seu nome.

caminho de Braga a Galegos de São Martinho parece longo de tanto ziguezague. O trajecto afina pelo diapasão minhoto, especialmente na nota da sinuosidade, com muitas curvas e contracurvas. Alcança-se o destino e parece que nem chegamos a sair dos subúrbios de Braga. Mas a continuidade das aglomerações urbanas não é unânime: aqui e ali irrompem entre o casario cenários de courelas e vinhedos em latada, coisa tipicamente nortenha e minhota. Já em Galegos de São Martinho, não há que andar muito para percebermos que pisamos terra de oleiros. As ruas são pródigas em placas a anunciar oficinas de artistas, uns mais velhos, outros ainda pouco mais do que debutantes, que nisto das artes do barro, como em tantas outras, o tempo é o grande mestre. Num certo trecho, corta-se por uma quelha à direita e logo ali damos com um painel oficioso, desses certificados pela autoridade autárquica, a informar os forasteiros da vizinhança do ateliê de Júlia Ramalho: só há que volver duas vezes à esquerda num espaço de meia centena de metros, ignorar outras placas alusivas a oficinas de artistas concorrentes e estamos à beira de uma casa alva, sem nada que a distinga particularmente das demais das redondezas. No quintal, porém, a cerâmica vidrada em tons de mel fincada nos muros anuncia que estamos a dois passos da oficina do nome maior das artes do barro na freguesia: Júlia Ramalho,

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a ceramista que herdou o apelido e a arte da famosa Rosa Ramalho, sua avó.

Uma vida a moldar o barro Rosa Ramalho, a grande referência na mestria do figurado popular de Barcelos, dispensa apresentações. É dos nomes maiores da arte popular em Portugal, evocado no Museu da Olaria de Barcelos, não vá o viajante passar distraído por aquelas terras. Júlia Ramalho não precisa, bem entendido, da caução do apelido familiar. Ao fim de cinquenta anos a moldar o barro, Júlia conquistou, também, um lugar privilegiado no universo dos ceramistas populares em Portugal e é recordada, igualmente, no acervo do Museu da Olaria. Para quem aprecie andanças museológicas, há uma surpresa no ateliê de Júlia Ramalho: uma sala com centenas de peças expostas, algumas delas réplicas de encomendas de clientes. Não é improvável que se dê ali de caras com algum artista concorrente a mirar as peças, à procura de uma que lhe caia no goto. No dia em que passamos por lá, Júlia Ramalho recebia a visita de um membro do clã Baraça, outra família de conhecidos oleiros barcelenses. "É assim mesmo, de vez em quando compramos uns aos outros", explicou o visitante. Uma espécie de espionagem industrial à escala minhota? Júlia está a preparar uma fornada, não tardará a acender o forno – que agora é eléctrico – daí a umas horas. Tem um dos filhos ao lado, e ambos moldam a estrutura base de uma figurinha sim-


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e fiz isto?”

ples, para responder a uma encomenda de várias dezenas de peças. Um tipo de trabalho rotineiro, mais "alimentar" do que estimulante. Que grande artista, afinal, os não teve? O primeiro boneco saiu-lhe das mãos há bem meio século, tinha dez anos. "Aprendi com a minha avó, há mais de cinquenta anos. Era um bonequinho. Tenho o retrato e um bonequinho igual ao pé do retrato. Foi a primeira peça que me deu dinheiro". O boneco apareceu depois de outros brinquedos: "Eu já fazia gaiolas para grilos, fazia cestinhas para brincar… As gaiolas quem pagava era a rede do capoeiro. Ia ao capoeiro das galinhas e desfazia a rede, fazia-lhe um buraco… e com aquele araminho é que eu fazia a gaiola". Eram tempos em que toda a infância era obrigada a inventar. "Costuma-se dizer que a necessidade faz o engenho e como a canalha não tinha acesso a brinquedos, fazia os seus próprios brinquedos".

Se a avó ensinou ou não, isso é outra história, porque está bem de ver que ensinar e aprender são duas coisas distintas. "Nem era preciso ensinar, basta a gente ser criada no mesmo sítio e estar a ver, a gente vai deixando desenvolver a imaginação…". Não tardou a começar a trabalhar a sério: "Eu tinha aí treze ou catorze anos, mas não me colectei, a minha avó também não…". Mas a lei andava atenta, como sempre, aos que estão mais à mão de semear – ou de colectar: "Depois ainda andaram aqui a querer mandá-la prender…". Sob o mesmo tecto, neta e avó trabalhavam lado a lado, mas não formavam bem uma equipa. "A minha avó trabalhava aí sentada e eu trabalhava com ela, trabalhávamos as duas, mas eu não trabalhava para ela. Alguns netos trabalhavam, davam umas horas, e ela pagava, mas eu nunca trabalhei para ela". O acordo entre as duas já dava a entender que Júlia haveria de seguir o DEZ 2012 |

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Artesanato

seu próprio caminho dentro da arte. "Ela trabalhava desse lado e eu deste… No fim eu punha o nome dela, mas a peça era para mim! E o dinheiro da venda dava-o aos meus pais". Júlia Ramalho conciliou esses primeiros anos de aprendizagem da modelação do barro com as obrigações escolares, saltando de um para outro mundo. "Comecei a trabalhar aos dez anos e já tinha saído da escola, da terceira classe. Mas depois voltei à escola para fazer a quarta… e voltei para fazer a quinta e a sexta. Quando tinha oportunidade de fazer mais um ano de escolaridade, ia fazer". Júlia Ramalho não precisou da escola para ser quem é – as actividades escolares eram um complemento um tanto suspeito, e de duvidoso prestígio, aliás, num tempo e numa terra em que a prioridade era assegurar o rendimento familiar. "Eu devia estudar, mas com dez anos já fazia peças que davam dinheiro, então… A minha mãe não queria que eu fosse estudar porque depois me habituava a ser malandra. O meu pai deixava, mas lembro-me de ouvir a minha mãe dizer ao meu pai: 'depois habitua-se a andar aí com a saca dos livros e não quer trabalhar, nós não temos dinheiro para a pôr a estudar e depois ela tem de vir para casa e não vai querer trabalhar'. E eu ouvi aquilo e ainda fiquei mais 32

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desgostosa e desisti de teimar". Júlia tornou-se quem é sem a escola ou apesar da escola – e talvez o excesso de escola, um ano ou dois a mais, quem sabe?, a tivessem subtraído à arte da olaria e ao universo cultural minhoto e português. A escola foi um intervalo, afinal, na vida verdadeira, a da criação artística. A sala de trabalho é ampla, uma dezena de metros de comprimento por cinco ou seis de largura, o forno ao fundo, bancadas e prateleiras à volta, e a velha mesa, que já serviu outras gerações, junto a uma janela. É aí que Júlia e o filho António se sentam a moldar o barro. De vez em quando, como se não estivéssemos ali mesmo ao lado, lança uma pergunta ao filho: "Sabes o que a Teresa ontem me disse?" A Teresa é uma


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filha, professora, que volta e meia mete as mãos no barro. "Já me rende, mãe". A filha professora ajeita-se, mas mais certo é ser António a fazer-se continuador da tradição familiar. "Andou por Inglaterra, agora está aqui a trabalhar comigo".

"Isto é tudo galos!" Tem ideia de quantas peças já fez? "Milhares… Gostava de as ver todas juntas… Há peças que eu fiz uma vez porque alguém me pediu… Outras, fico a olhar para elas e pergunto será que fui eu que fiz isto"? Júlia não tem cópias de todas, só às vezes faz um exemplar para guardar, daquelas por que ganha mais afecto. De algumas, conserva fotografias. A mania das réplicas vem de longa data, "há para aí setecentas e tal peças", a maioria encaixotadas. Há figuras que se tornaram emblemáticas da sua produção. Os "Pecados" e a "Medusa", por exemplo. E muitas outras, de timbre satírico. Continua a inventar? "Que remédio! A última ainda só está na imaginação. Vão fazer o festival da moda em Barcelos e eu é que costumo fazer as prendas…". Uma parte do que sai do ateliê corresponde, efectivamente, a encomendas institucionais. "Vai haver também um encontro de coros, tenho que

pôr os galos a cantar… Não temos outra maneira, isto é tudo galos…", ironiza, rematando a graça com uma gargalhada. Muitos fregueses particulares, nacionais e estrangeiros, procuram-na nas feiras – como a do Estoril, que frequenta há décadas – e pedem-lhe peças. "Se não gostarem, não há problema eu fico com elas". Arte ou profissão, o Estado abstém-se de tais distinções: "Vou fazer também cem galos para a Câmara, esses têm de ser facturados… Senão vêm aí o Vítor a dizer 'você andou a fazer peças sem factura' e depois é que são elas!" Para que não haja dúvidas sobre o ministro, da classe dos que se ocupam só de contas, Júlia imita-o falando arrastadamente. A mestria desta grande oleira de Barcelos não se cinge ao barro, que anda a moldar há cinquenta anos. Há tempos passou por Barcelos uma equipa de televisão japonesa e ela foi a estrela da fita, com instantâneos de trabalho e muita conversa para um documentário. E não só: os nipónicos fartaram-se de merendar em casa dela, rojões e sarrabulho incluídos. Parece que ficaram encantados com a arte culinária de Júlia. Afinal, não são também os rojões, de certa maneira, uma expressão de arte popular minhota? n Humberto Lopes (texto e fotos) DEZ 2012 |

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Teatro da Trindade

“Um bando de gente feliz que voa” O grupo intergeracional de teatro amador, constituído por quarenta actores, dois oito aos 89 anos, alguns deles utentes de estabelecimentos da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, criado pelo Teatro da Trindade, no âmbito do Ano Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade entre Gerações, tem asas e consegue voar.

Durante os ensaios, o apoio da Santa Casa foi extremaideia de constituir um grupo de teatro amador, do Teatro da Trindade, defendida pela mente importante para viabilizar a presença de alguns deles, directora artística, Cucha Carvalheiro, para muitos não tinham meios para suportar as despesas de transquem "fazia todo o sentido, não só oferecer porte, outros não tinham níveis de autonomia de mobilidaaos associados da Fundação e ao público do de. Algumas assistentes sociais, que acompanharam quem Teatro a fruição cultural, mas também a oportunidade de necessitava de apoio, "a determinado momento tiveram vonpassarem pela experiência da criação", aguardava a oportu- tade de integrar o grupo", – recorda Catarina – desde o início e no decorrer do processo de criação, todas as pessoas que nidade de concretização. O projecto adiado foi substituído por algum envolvimen- mostraram vontade de participar, "foram bem-vindas". to de amadores, muitos deles associados da Fundação Inatel, que participaram em produções e co-produções, nomeada- "Segredos" partilhados mente, em "Vozes de Trabalho", 2010, "Vale" e "Barioná", No verão passado, ao fim de sete sábados, sete manhãs, e três 2011, "As ruas são tão tristes, precisam de mais luz", 2012. dias de ensaio, o esperado "bando de aves" – rouxinol, pavão, No âmbito das comemorações do Ano Europeu do coruja, pato, papagaio, arara, ganso, pombo, águia, andorinEnvelhecimento Activo e da Solidariedade entre Gerações, ha, pica-pau, rola – invadiu o palco do Teatro da Trindade. o antigo projecto de criar um grupo de teatro amador, teve a O espectáculo "Segredos", durante quatro dias, encheu a justa ocasião para se materializar, foi então quando a direc- sala com música e alegria, encantou e envolveu o público, tora do TT desafiou Catarina Gonçalves, TERESA GONÇALVES/SCML "para o dirigir e ela teve a ideia feliz de nele interessar a Santa Casa da Misericórdia". Para encontrar pessoas interessadas em integrar este grupo de teatro intergeracional, a Santa Casa teve um papel relevante na divulgação, difundiu a informação tanto nos lares de idosos, como nos centros de apoio à infância. O grupo "transformou-se num projecto maior: intergeracional, e de verdadeira inclusão social, uma vez que a Catarina conseguiu juntar jovens e idosos institucionalizados, a outros cidadãos de todas as idades e proveniências, operando um daqueles milagres com que o Teatro, arte colectiva por excelência, tantas vezes nos surpreende e gratifica", sublinha Cucha Carvalheiro.

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Teatro da Trindade

convidado a participar na dança. A construção do espectáculo surgiu da ideia de contar uma história, baseada no conto infantil "Pinóquio", e o grupo foi desafiado a salientar o que há "de mais ou menos importante" nesta narrativa. Catarina Gonçalves, partindo da história do "Pinóquio", que considera "ter um peso moralizador excessivo", pretendia falar dos valores que estão na base da construção de uma sociedade equilibrada – verdade, integridade, medo, mentira - e que cada elemento do grupo falasse dos seus próprios valores, para encontrar em si próprios o que há de comum nos outros. Ao longo das sessões foram partilhados muitos segredos, algumas pessoas revelaram uma relação difícil com o passado, com vontade de estar com os outros sem estarem marcadas pelo seu universo social e história de vida. Alguns segredos foram a base de construção do espectáculo. "Foi – lembra Catarina – um trabalho de filtração de emoções, de confiança, de partilha, onde todos éramos pessoas com segredos. O 'lucro' subjectivo deste projecto é impossível quantificar, mas a formação de consciências, o desenvolvimento do sentido crítico e a elevação de auto-estima, são uma enorme conquista". Foi um trabalho de multidisciplinaridade, corpo e voz, canto, dança, leitura de poesia, rigor de técnica, posicionamento em palco, ritmo, com acesso à dimensão total da construção do espectáculo, cenografia, figurinos, construção de cena, luz e som. O principal objectivo de Catarina foi que este "bando de gente feliz que voa", formado por um grupo de pessoas completamente distintas, de diversas proveniências sociais, culturais, ideológicas, etárias, tivessem suficiente confiança para "subir ao palco, com a dimensão e a dignidade do Trindade". Nos últimos dias de ensaio foram criados "pilares de confiança e energia de grupo", o que no início lhes parecia assustador diluiu-se num ambiente de segurança, com a mensa-

gem de que "não devemos ter medo daquilo que nos faz sentir bem". A direcção do TT teve – acrescenta Catarina Gonçalves – uma necessidade moral e social de tentar optimizar os recursos, potenciando a criação de projectos que fazem necessariamente parte da missão de um Teatro público e, por isso, não acrescentou despesa à produção deste espectáculo, cuja cenografia teve o apoio da Câmara de Lisboa, que ofereceu ramos e troncos de árvores, a Santa Casa, por sua vez, contribuiu com centenas de folhas, recolhidas nos espaços verdes dos centros de apoio, e toda a equipa do TT colaborou para a concretização deste projecto.

Produzir mais esperança Com experiência já na direcção de outros grupos, Catarina descobriu "com esta equipa fantástica de pessoas, que fazia isto o resto da vida". O grupo intergeracional incluiu elementos dos CCD da Fundação, estagiários da escola alemã, profissionais da Casa da Moeda, cidadãos vários no activo, aposentados, crianças e adolescentes. É o caso de Maria Helena, 66 anos, jornalista aposentada, que adiou o sonho da representação "ao longo da vida profissional". Já aposentada, participou em telenovelas e séries televisivas, onde se cruzou com Cucha Carvalheiro que a informa da criação do grupo. Interessada em dedicar o resto da vida a um trabalho sem limite de idade, "pisar este palco teve um grande significado, já que é uma das salas mais bonitas de Lisboa". Actualmente encena uma peça de Natal, com o grupo de teatro da Casa da Moeda e quer continuar no grupo intergeracional. "É uma pena esta paragem devido às obras", lamenta. Célia, 56 anos, espanhola, residente em Lisboa, há 18 anos, ao saber da criação deste grupo sentiu que era "a oportunidade de realizar um grande sonho". Teve uma sensação

FOTOGRAFIAS: JOSÉ FRADE

Catarina Gonçalves, encenadora 36

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Maria Helena

Célia

Fernanda


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TERESA GONÇALVES/SCML

de convívio familiar, "junto dos mais novos, era criança, ao lado dos jovens, era adolescente, e com os mais idosos, era adulta… foi uma experiência muito rica, quero continuar, para melhorar o meu desempenho". Fernanda, 51 anos, administrativa, soube do casting através de uma amiga no Facebook, teve curiosidade, e a experiência "superou tudo o que pudesse imaginar". O convívio ajudou-a a ultrapassar um período difícil da vida, "todos estavam ligados por um gosto, tudo parecia mágico".

Paulo

Marisa

Paulo, 40 anos, formado em psicologia, integra um grupo de teatro amador do ISPA, recorda que "foram criados laços muito fortes entre as pessoas, e que a diferença de idades se dissipou… era curioso ver o olhar dos novos dirigido aos mais velhos, com respeito, e como Patrícia, 89 anos, olhava para todos com um olhar jovem". Considera ter evoluído como actor. "Pisar o palco do Trindade foi muito enriquecedor, espero continuar". Marisa, 33 anos, doutoranda em Comunicação e Artes, movida por uma paixão pelo teatro, quando soube do casting através do Facebook do TT, apresentou-se na audição, onde todos foram escolhidos. Depois foi o deslumbramento, o grupo "tão heterogéneo, tem uma força, uma magia, que tornou tudo mais especial… sinto falta, estou desejosa de continuar". A direcção da Santa Casa já manifestou interesse em apoiar a continuidade do projecto, com o empréstimo de uma sala, durante o período de obras do TT. "As gerações mais jovens e as mais antigas – acentua Catarina – precisam de acreditar que é essencial materializar, no nosso código genético está inscrita a vontade de construir, mas têm de ser dadas mais ferramentas operacionais. As pessoas sentem necessidade de ser produtoras de vida e geradoras de esperança". Em breve, o grupo intergeracional terá um novo projecto, um olhar construtor vai motivá-los a voar mais, «a partir das palavras e do amor das árvores» (A. Ramos Rosa). n Teresa Joel DEZ 2012 |

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Memória

Perfil de Igrejas Caeiro "Perfil de…" foi exactamente assim que Igrejas Caeiro chamou à série de entrevistas que realizou para o Rádio Clube Português com nomes destacados da cultura, do espectáculo, da vida portuguesa dos anos cinquenta e sessenta. programa, que incluía nomes tão diversos como Jaime Cortesão, Aquilino Ribeiro, Natália Correia, António Silva ou João Villaret ou de brasileiros que passavam, então, por Lisboa, como Maria Della Costa ou Erico Veríssimo, foi emitido entre Outubro de 1954 e Novembro de 1960. A censura acabou por proibir o "Perfil" depois de uma entrevista de Caeiro ao escritor Manuel Mendes.

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Fátima e revolução soviética Igrejas Caeiro gostava de dizer que tinha nascido num ano de contrastes: 1917, o ano da revolução soviética e, simultaneamente, o do aparecimento da Virgem de Fátima. Quando morreu, em 19 de Fevereiro deste ano, com 94 anos, foi referido como "um nome marcante e dos mais populares da rádio, do teatro, do cinema e da televisão em Portugal". Assim foi de facto. Igrejas Caeiro (Francisco), filho de gente humilde, aos 10 anos já trabalhava como paquete numa firma para ajudar ao sustento da família. Caeiro contava, com alguma graça, que foi exactamente por essa altura que a mãe lhe fez umas calças compridas. Paquete durante o dia, estudos à noite e ainda arranja tempo para se interessar por teatro frequentando um curso da arte de dizer e representar. Tinha então 17 anos.

À procura de um actor Aos 22 anos, Caeiro cumpria o serviço militar em Tavira mas não desligava do que se passava em Lisboa e foi assim que, regressado à capital, decidiu concorrer ao concurso "À procura de um actor", iniciativa do "Diário de Lisboa", com a colaboração da Emissora Nacional e do Teatro Nacional D. Maria II. De eliminatória em eliminatória, Caeiro conseguiu o primeiro lugar. Em 8 de Maio de 1940, Francisco Igrejas Caeiro, 23 anos, pisa o palco do primeiro Teatro do país interpretando a peça de Ramada Curto, "O Caso do Dia". Foi o início de uma grande e feliz carreira que se estenderia ao cinema, à rádio, à televisão. E sempre ajudando a família. A rádio aparece na vida do actor quando um dirigente da Emissora Nacional lhe pergunta se não quer ser locutor. Era o tempo de grandes nomes como João da Câmara, Maria de 38

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Resende, Olavo d'Eça Leal. Como diria um dos intérpretes de "Casablanca", para Igrejas Caeiro foi o início de uma bela e longa amizade. Rádio e Caeiro unidos para sempre.

Zequinha e Lelé Um encontro com Irene Velez deu em casamento e, três anos depois, deu em "Zequinha e Lelé". Nelson de Barros e Anibal Nazaré escreviam os diálogos e o casal namorava à moda antiga: ela, a "Lelé" à janela e ele, o "Zequinha", na rua. Os diálogos eram divertidos mas Vasco Santana, o "Zequinha", tinha um processo de representar que desmanchava o mais sisudo. Igrejas Caeiro dizia que uma das razões para o grande êxito dos diálogos ficava a dever-se àquele ar característico que o Vasco, o "Zequinha", sabia imprimir em contraste com o tom de ingénua de Irene Velez, a "Lelé".

Uma nota de quinhentos… Primeiro foi "Portugal a Cantar", a seguir o "Comboio das seis e meia", depois a "Volta a Portugal em Bicicleta" e, finalmente, o grande êxito que arrastaria multidões e seria o ponto máximo da carreira de Caeiro. Falo de "Os Companheiros da Alegria", um espectáculo ao vivo que se apresentava por Portugal inteiro com Igrejas Caeiro na apresentação, bons artistas de variedades e um concurso chamado "À procura de uma estrela", onde Caeiro dava uma nota de quinhentos aos concorrentes. Por essa altura, anos 50, os portugueses repetiam a toda a hora o slogan inventado pelo apresentador: "Uma nota de quinhentos não se pode deitar fora…" O espectáculo ia percorrendo o País e acabou por ser transmitido pelo Rádio Clube Português. O êxito foi tal que se dizia que Igrejas Caeiro ainda ia ser candidato à Presidência da República… A verdade é que o apresentador e empresário reconhecia que a sua popularidade estava no auge, que ganhava muito dinheiro e as lotações esgotadas repetiam-se. E três anos passados, com os bolsos cheios, Igrejas Caeiro decide alugar o Teatro da Trindade para, além do programa "Os Companheiros da Alegria", apresentar teatro todas as noites. É quando chega o despacho ministerial a proibir Caeiro de trabalhar em qualquer actividade dependente da Direcção de Espectáculos. Motivo? A resposta a um inquérito onde Caeiro elogiava Nehru, chefe do


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Governo da União Indiana, quando já se preparava a invasão de Goa, Damão e Diu.

Nasce o "Perfil de um Artista Impedido de apresentar "Os Companheiros da Alegria" ao vivo, Igrejas Caeiro recorre à Rádio produzindo programas infantis, teatro, e criando o já citado "Perfil de um Artista". Ficaram para a História cerca de 300 entrevistas com personalidades da cultura, do desporto, do espectáculo. Entre Outubro de 1954 e Novembro de 1960, Caeiro entrevistou muita gente de todos os quadrantes (do Padre Raul Machado e Bibi Ferreira a Cardoso Pires ou Tónia Carrero). Igrejas Caeiro reconhece que trabalhar no Rádio Clube Português num programa como o "Perfil" só foi possível porque Marcelo Caetano tinha chegado à Presidência. Foi ele que lhe levantou a suspensão. "Era um homem afável e inteligente". Entre todos os entrevistados do "Perfil", Caeiro destacava Jaime Cortesão, Aquilino Ribeiro e José Cardoso Pires, mas também António Sérgio e Fernando Namora.

O cinema e o teatro na vida de Caeiro

Igrejas Caeiro numa apresentação no antigo cinema Mundial. Em baixo, com Santos Fernando e Ferro Rodrigues, uma famosa dupla de Humoristas

Pode dizer-se que Igrejas Caeiro foi um verdadeiro "homem dos sete instrumentos", pois entretanto já participara em filmes de Leitão de Barros ("Camões"), de António Lopes Ribeiro ("Amor de Perdição"), de Manuel Guimarães ("O Trigo e o Joio") e ,desde há muito, que pensava em ter um teatro onde pudesse apresentar peças e autores do seu agrado. Aconteceu em 1969. Fundou então o Teatro Maria Matos que inaugurou com "O Tombo no Inferno", de Aquilino Ribeiro, seguida de "A Relíquia", de Eça de Queiroz. Seguemse as proibições e os cortes da Censura. Caeiro perde muito dinheiro e decide desfazer a sociedade. "Desfeita a sociedade, proibido de trabalhar em público, julguei que estava perdido. Foram momentos muito tristes da minha vida."

A festa do 25 de Abril O 25 de Abril apanha Caeiro na Emissora Nacional e, quando o convidaram para ser deputado da Assembleia Constituinte, contou ele, até chorou. "Era a alegria imensa de poder contribuir para a reconstrução do país, em liberdade". Foi deputado, dirigente do Partido Socialista, vereador da Câmara Municipal de Cascais, director de programas da Emissora Nacional. Reformado, já sem teatro, sem rádio, sem televisão, aceitou a presidência da Fundação Sara Beirão que ajudava os mais idosos, principalmente artistas. A Sociedade Portuguesa de Autores atribuiu-lhe o Prémio de Consagração de Carreira em 2005 e a Medalha de Honra em 2007. Francisco Igrejas Caeiro morreu no dia 19 de Fevereiro deste ano. Tinha 94 anos. n Maria João Duarte DEZ 2012 |

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Olho Vivo

Catatua engenhosa Uma catatua austríaca, de seu nome Fígaro, criada em cativeiro em Viena, está a surpreender os zoólogos por ser capaz de construir ferramentas, habilidade que as suas congéneres na natureza nunca demonstraram ter. Fígaro usa o bico e as garras para cortar paus que lhe permitem chegar a objectos desejados que estejam fora do alcance. As capacidades de Fígaro estão a ser estudadas por cientistas de Oxford que têm filmado a ave em pleno fabrico e utilização dos utensílios.

Animação contra a ansiedade As crianças que vêem desenhos animados antes de serem anestesiadas e operadas denotam menos ansiedade face à intervenção cirúrgica, segundo um estudo publicado na revista da associação Internacional de Anestesistas IARS. A experiência foi feita na Coreia do Sul e os desenhos animados reduziram a ansiedade em 130 pacientes com idades entre os 3 e os 7 anos, que iam ser submetidas a pequenas intervenções cirúrgicas como a extração das amígdalas.

Elefante que fala Um elefante asiático chamado Koshik consegue imitar a fala humana, proferindo várias palavras em coreano que são imediatamente entendíveis pelas pessoas. O animal enfia a tromba na boca para proferir os sons. O paquiderme está a ser estudado por uma equipa da universidade de Viena. 40

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Bactérias falantes As bactérias falam umas com as outras através de moléculas que produzem para comunicar. O fenómeno é importante na propagação de uma infecção. Agora, cientistas suecos estão a afirmar que as células do nosso corpo também se "avisam" umas às outras dos perigos de infecção e ataques das bactérias. O estudo é da universidade de Linköping e foi publicado na revista PLoS Pathogens. A descoberta pode melhorar o tratamento de infecções resistentes aos antibióticos.

Bebés de Verão Um estudo da faculdade de economia da universidade da Columbia Britânica revela que a data de nascimento de uma pessoa pode afetar a sua ascensão até ao topo da hierarquia de uma empresa. Dos 500 presidentes de conselhos de administração estudados, só 6,13 por cento nasceram em Junho e apenas 5,97 em Julho. Em comparação, 12,53 por cento da amostra nasceram em Março e 10,67 por cento em Abril. As razões ainda estão por descobrir.


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A n t ó n i o C o s t a S a n t o s ( t ex t o s )

O bocejo dos cachorros

E o cabelo crescerá O medicamento americano para o glaucoma, bimatoprost, causa o reaparecimento de cabelo nas pessoas calvas. Tem sido explorado comercialmente para fazer crescer as pestanas, mas os dados publicados na revista Faseb são os primeiros a mostrar que a droga pode fazer recrescer cabelo humano a partir do couro cabeludo mais liso. Este tratamento para a calvície está a ser estudado por uma equipa da universidade britânica de Bradford.

Que o bocejo é contagioso toda a gente sabe. E que o ser humano vai ficando progressivamente mais susceptível ao contágio, à medida que cresce e envelhece, também. Agora, um estudo publicado na revista científica Cognição Animal prova que essa susceptibilidade ao bocejo dos outros também não afecta os cachorros de tenra idade, aumentando à medida que o cão se torna adulto. Segundo o estudo, o bocejo por contágio é um sinal de empatia com os próximos, ausente nos bebés humanos e nas crias caninas.

Figurinha milenar Arqueólogos da Universidade de Barcelona descobriram na gruta de Can Sadurni, em Begues, a mais antiga figurinha humana da Península Ibérica, um torso com um braço completo e metade de outro, que foi datada de há 6500 anos. Há alguns meses, os mesmos arqueólogos revelaram na zona os mais antigos vestígios da produção de cerveja.

Medo diminui a distância Cientistas ingleses publicaram uma investigação na revista Current Biology que indica que o medo afecta a nossa percepção da distância a que se encontra o que nos provoca esse receio. Os psicólogos que estudam as fobias concluíram que julgamos mais perto do que está efectivamente qualquer objecto que constitua uma ameaça à nossa integridade. DEZ 2012 |

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A Casa na árvore Susana Neves

Azinhas de Natal Árvore sagrada dos celtas, o azevinho sempre cresceu na lentidão.

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uma crónica de 1889, publicada no Jornal de Horticultura Prática, Eduardo Sequeira sugere que se adopte um ramo de laranjeira ornamentado com luzes, brindes e flores de camélia como "árvore do natal" portuguesa, em vez de se usar o pinheiro e o azevinho. Uma sugestão que fundamenta em razões geográficas e culturais: "Mas no norte, n`aquellas regiões onde a neve impera, cobrindo desde bem cedo tudo com o seu branco lençol, os vegetaes resistentes, e por isso os vegetaes sagrados, os vegetaes queridos, são o pinheiro e o azevinho (…) Mas entre nós, o azevinho e o pinheiro não teem as tradicções do norte, e tanto podem elles servir para árvore do natal, como outra qualquer". Através destas afirmações é possível deduzir que apesar do azevinho (Ilex aquifolium L.) ser um símbolo da quadra natalícia em muitos países europeus, reminiscência das Saturnália – festividades romanas de culto a Saturno que se realizavam no mês de Dezembro e implicavam troca de presentes, entre eles ramos de azevinho – em Portugal, no final do século XIX era um "símbolo importado", destinando-se esta Aquifoliaceae sobretudo a outras práticas. Evidentemente, a adopção desta

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moda estrangeira agravou a tendência para a extinção do azevinho (sobretudo a "árvore fêmea", que produz as atractivas e tóxicas bagas vermelhas) tornando-se necessário implementar medidas legais que o protegessem, como veio a efectivar-se a 4 de Dezembro de 1989, através do Decreto-Lei nº 423/89, que proíbe e penaliza com pesadas coimas o corte do azevinho espontâneo. O abate de azevinho em Portugal estava então ancestralmente ligado a outras práticas e celebrações, como é possível confirmar pela leitura de "Tradições Populares e Portugal", de 1882. Escreve o seu autor, o linguista, arqueólogo e etnógrafo José Leite de Vasconcellos: "A`meianoute do S. João vae muita gente colher o azevinho; andam em roda d`elle a dançar, a tocar violas e a cantar: "Azevinho, meu menino, /Aqui te venho colher, /Para que me dês fortuna/No comprar e no vender, /E em todos os negócios/Em que me eu me metter." Nesta ocasião deitam-lhe vinho em borrifos; depois cortam-no e põem-no à entrada de casa, ou em sítio escondido." E o prolífico investigador, acrescenta ainda: "Quando troveja, é também bom queimá-lo". A atribuição de poderes benignos, protectores e mágicos a esta "planta relíquia" que poderá ter aparecido na Terra há cerca de 15 milhões de anos, coexistia em Portugal com o seu aproveitamento na pecuária. Numa edição de "O Archivo Rural", de 1860, exalta-se o seu uso na alimentação dos animais, sobretudo enquanto "forragem verde" das vacas leiteiras. Conhecedor da agricultura da Bretanha, Olímpio Leite escreve: "Este azevinho dáse aos animaes tres vezes por dia, triturado e misturado com feno. (…) As vacas leiteiras exigem de 150 a 200 kilogrammas, 4 por cento do peso bruto de feno, para serem convenientemente nutridas".


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Fotos: Susana Neves

O primeiro nome científico "ilex" resulta da semelhança entre as folhas do azevinho e da azinheira (Quercus ilex L.); "aquifolium" quer dizer folha com agulha

O reconhecimento do valor nutricional das jovens folhas de azevinho justificava ainda a sua utilização na ementa dos cavalos destinados "a acções de natureza militar". (Fernando Catarino, "Do Castanheiro ao Teixo", FLAD, Público, 2007). E quando a mobilização dos animais por via nutricional não era suficiente utilizavam-se os ramos flexíveis da árvore como chibatas para os forçar ao trabalho. Outra utilização perversa do azevinho aparece descrita na bibliografia oitocentista: apanhar passarinhos com o visco da casca. O processo de extracção e a aparência do visco sugeriu aos autores uma adjectivação fortemente visual e repulsiva, veja-se o texto de "Flora Pharmaceutica", 1825: "A casca interior bem limpa da exterior, reduzida a pasta por meio da contusão mettida em hum vaso, e posta de parte até apodrecer, e então lavada para se lhe separarem as fibras lenhosas dá o optimo visco aucupario, que he huma massa resinosa, verde, mollissima, plastica, hum tanto fluida,

tenacissima, ductil em compridissimos fios, adhesiva". A todas estas utilizações (sem falar das artesanais e medicinais), a árvore sagrada dos celtas sobreviveu. Em Portugal, sobretudo no norte, é possível ainda encontrar alguns espécimes isolados de grande porte, mas somente nas serras do Gerês (na mata do Ramiscal), Monchique e Sintra sobrevivem vários espécimes juntos, ou seja, é possível ver um azival, azevinhal ou aziveiro, possível sub-bosque de um antigo carvalhal. O azevinho não se importa de viver à sombra dos carvalhos ou de outras árvores cuja companhia aprecia. Toda a sua aplicação está em crescer um centímetro por ano para atingir uma longevidade multissecular. As agulhas das folhas dos ramos inferiores (razão do seu segundo nome científico) e o veneno das bagas (a que são imunes as aves disseminadoras das sementes) foram algumas das suas sábias estratégias para viver no prazer da lentidão. n DEZ 2012 |

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46 CONSUMO Mais segurança na circulação rodoviária é o objectivo da nova regulamentação comunitária sobre veículos automóveis e pneus. Pág. 46 l LIVRO ABERTO Em destaque, o novo livro de António Lobo Antunes, "Não É Meia Noite Quem Quer", e "Citações e Pensamentos de Camilo Castelo Branco", Pág. 48 l ARTES As obras de João Vieira, falecido em 2009, voltam a ser mostradas até 31 de Janeiro próximo, na Galeria Valbom, em Lisboa. Pág. 50 l MÚSICAS Com "Rui Veloso e Amigos", o autor e intérprete "revisita", com outros cantores, 13 dos seus mais popularizados temas. Pág. 52 l NO PALCO "Timão de Atenas", de Shakespeare, no Teatro de Almada, assinala o regresso de Joaquim Benite à encenação. Pág. 54 l CINEMA EM CASA Três excelentes documentários em foco: É na Terra Não é na Lua, de Gonçalo Tocha, sobre a ilha do Corvo; Women are Heroes; e Oceanos. Pág. 55 l GRANDE ECRÃ "Amor", de Michael Haneke, premiado em Cannes, retrata de forma sóbria e ao mesmo tempo dura e subtilmente comovente o drama de um casal de octogenários. Pág. 56 l INFORMÁTICO A PT lança, este mês, o cloudPT um serviço de cloud storage onde podem ser armazenados e geridos todos os documentos digitais. Pág. 58 l AO VOLANTE À semelhança das evoluções a que assistimos nos produtos tecnológicos do dia-a-dia, o novo modelo 208 da Peugeot marca um verdadeiro salto de gerações. Pág. 59 l SAÚDE Os sintomas – tosse, febre, expectoração e dores musculares que não cedem, ou se agravam – devem alertar-nos para uma eventual pneumonia. Pág. 60 l PALAVRAS DA LEI Em questão, um caso de doação com reserva de usufruto em inventário com reclamação da relação de bens apresentada. Pág. 61 l

BOAVIDA

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Boavida|Consumo

Automóveis mais seguros Assegurar mais segurança na circulação rodoviária é o objectivo da nova regulamentação comunitária sobre veículos automóveis e pneus que entrou em vigor no pretérito dia 1 de Novembro.

Carlos Barbosa de Oliveira

E

ntrou em vigor, no dia 1 de Novembro, um conjunto de regras que impõem novas regras de segurança para os veículos a motor. Entre as medidas agora tornadas obrigatórias – resultantes da entrada em vigor do regulamento geral de segurança aprovado em 2009 – merecem destaque: Sistema de alerta para o cinto de segurança. O assento do condutor estará equipado com um sistema de alerta (visual ou auditivo) de esquecimento do cinto de segurança, que avisará o condutor que deve apertar o cinto de segurança. Cadeiras para bebé. Os veículos deverão estar equipados pelo menos com dois pontos de encaixe para as cadeiras de bebé (ISOFIX), que deverão estar totalmente integrados nos assentos traseiros. Estes pontos de encaixe podem ser utilizados com as cadeiras de bebés compatíveis, o que permitirá uma melhor estabilidade para a cadeira do bebé; Indicadores de mudança de velocidade. Os automóveis terão de ser equipados com indicadores de mudança de velocidade, de molde a ajudar os condutores a economizar carburante e a reduzir as emissões de CO2. Segurança da bagagem. Os assentos traseiros contíguos à mala bagageira deverão ser suficientemente resistentes para proteger os passageiros contra a movimentação da bagagem em caso de uma colisão. Alerta para perda de ar dos pneus. Os pneus dos veículos de passageiros deverão estar equipados com um sistema de controlo da pressão dos pneus que detecte toda a perda de pressão de ar e o assinale ao condutor. O risco de furo será assim reduzido de maneira significativa. Os furos podem causar graves acidentes, pelo que a boa pressão dos pneus irá garantir também obter-se uma distância de travagem mais curta, mais economia de combustível e uma redução das emissões de CO2. A preocupação com uma melhor segurança dos pneus está igualmente patente no Regulamento 1222/2009, sobre rotulagem de pneus, que entrou também em vigor no pretérito 46

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dia 1 de Novembro. Assim, desde aquela data, os pneus novos destinados a veículos ligeiros, comerciais e pesados comercializados na UE (independentemente da sua origem) terão nova rotulagem/etiquetagem obrigatória reflectindo os respectivos níveis de desempenho. Pretende-se, com a nova rotulagem, clarificar a qualidades dos pneus, especificamente quanto a três atributos: a resistência ao rolamento; a aderência em piso molhado e o ruído exterior de rolamento Esta informação irá permitir uma maior e melhor informação sobre o produto a adquirir, ajudando a fazer melhores escolhas e uma maior sensibilização sobre a importância dos pneus na segurança rodoviária. A nova rotulagem/etiqueta apresenta algumas semelhanças com as etiquetas de eficiência energética que já existem nos electrodomésticos e abrange três áreas específicas: (ver caixa Interpretação das etiquetas) Eficiência energética (consumo de combustível). O pneu é classificado de A a G, de acordo com a resistência ao rolamento e que pode resultar numa poupança de até 7,5% de combustível; Segurança. A classificação do pneu é igualmente estabelecida de A a G, de acordo com a distância de travagem em piso molhado, que se pode traduzir numa diminuição de até 18 metros na travagem 80 km/h-0 km/h; Conforto acústico.O pneu é classificado através da representação das ondas sonoras e do valor absoluto em dB do ruído exterior de rolamento. A informação agora disponibilizada ao consumidor permitirá comparar mais facilmente os pneus entre si e, desse modo, influenciar as decisões de compra dos consumidores, no sentido de escolher pneus mais seguros, mais silenciosos e mais eficientes em termos energéticos. É importante, no entanto, pedir o aconselhamento do revendedor para conhecer o desempenho global do pneu que pretende adquirir. Normalmente é um profissional especializado que o poderá ajudar a fazer a escolha mais apropriada para o seu veículo. n JOSÉ ALVES


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Como interpretar a etiqueta/rótulo do pneu A primeira informação

A segunda informação

A terceira e última

apresentada (à esq. da

(à dir. da etiqueta)

informação (na parte

etiqueta) está

refere-se à aderência

inferior da etiqueta) é

relacionada com a

em piso molhado. Está

de carácter ambiental,

resistência ao rolamento à qual está

associada a um ícone retratando

relacionado com o ruído exterior de

associada um ícone de uma bomba

condições climatéricas adversas

rolamento. A informação aqui

de combustível, e vai de uma escala

(nuvens e chuva), e vai igualmente de

prestada está associada ao ícone de

de A (verde) a G (vermelho),

uma escala de A a G, significando que

um altifalante emitindo umas ondas

significando A uma maior eficiência

um pneu de classe A garante uma

(num máximo de três) e medido em

e/ou uma menor resistência ao

distância mais curta de travagem

decibéis. A um maior n.º de ondas

rolamento. Quanto menor for a

(uma melhor prestação em termos de

coloridas corresponderá um pneu

resistência, menor será a energia

travagem, portanto).

mais ruidoso (podendo produzir até

despendida e a quantidade de

mais 6 decibéis de ruído do que um

combustível gasto.

pneu com apenas uma onda colorida).


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Boavida|Livro Aberto

António Lobo Antunes, Camilo, a ideia de Deus e tempo de biografias Já com um livro pronto para publicar em 2014, António Lobo Antunes, mantendo o pendular ritmo de produção de um grande escritor profissional, lançou "Não É Meia Noite Quem Quer" (D. Quixote), para muitos um dos seus melhores livros e aquele que aparenta ter uma maior carga autobiográfica, embora, na realidade, todos os romances a tenham, de uma maneira ou de outra.

José Jorge Letria

E

ste é o 28º livro de uma das mais importantes vozes de sempre e uma das mais justamente internacionalizadas da literatura portuguesa, por conseguir retratar de forma ao mesmo tempo lírica, épica e trágica o Portugal que fomos e somos. Em época de comemorações camilianas, a Casa das Letras acaba de lançar "Citações e Pensamentos de Camilo Castelo Branco", com organização de Paulo Neves da Silva, mais um título para enriquecer uma colecção de referência que inclui citações, pensamentos e aforismos de alguns dos maiores nomes da literatura mundial, de Jorge Luís Borges a Eça de Queirós. Um livro para ter à cabeceira e para ir lendo e relendo, ao mesmo tempo que se descobre ou redescobre a obra do autor de "A Queda dum Anjo". Do exaustivo, rigoroso e fascinante trabalho de reflexão filosófica e teológica do Padre Carreira das Neves, membro da Academia das Ciências, nasceu "Deus Existe? Uma Viagem Pelas Religiões" (Editorial Presença), obra de cerca de 450 páginas na qual 48

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Carreira das Neves nos revela de que forma a ideia de Deus atravessa civilizações, culturas e épocas, sintetizando e aprofundando tudo aquilo que, no Homem, é inquietação, ansiedade, desejo de imorta lidade e temor da morte. Um livro que, muito mais do que dar respostas, abre caminho para novas meditações e perguntas. A não perder, por crentes e não crentes. Em matéria de textos biográficos de qualidade, destaque para "Rómulo de Carvalho/ António Gedeão Príncipe Perfeito" (Editorial Estampa), uma viagem de lembranças e afectos pela vida do poeta e cientista cumprida pela sua filha, a escritora Cristina Carvalho, que escreveu uma obra vinda do coração mas que abre portas para quem queira ter um conhecimento mais detalhado e profundo da obra e da vida do autor de "Lágrima de Preta". Destaque também, com a chancela da Oficina do Livro, para uma nova edição de Maria Barroso – Um Olhar sobre a Vida", da autoria da jornalista e escritora Leonor Xavier, também biógrafa de Raul Solnado e do ex-ministro de Marcelo Caetano, Rui Patrício. Para quem se interessa pelo período dramático da


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Guerra Colonial que, na recta final da ditadura, custou a vida a dezenas de milhares de portugueses e africanos, a Oficina do Livro editou "Heróis do Ultramar - Histórias de Bravura nos Campos de Batalha da Guerra Colonial", de Nuno Castro, e "Os Que Vieram de África - O Drama da Nova Vida das Famílias Chegadas do Ultramar", de Rita Garcia. Depois de mais de três décadas de quase silêncio e preconceito sobre este tempo e este drama histórico assiste-se à profusão, quase moda, de edições sobre a guerra e o fenómeno do retorno, sendo conveniente que o preconceito ideológico que gerou a longa omissão não dê agora origem a uma glorificação apologética de um período da História Contemporânea que deverá ser abordado e analisado com serenidade, rigor e distanciamento e nunca com ligeireza e inclinação para o "fait-divers". Não será esse o caso dos dois títulos aqui mencionados, mas nunca é de mais deixar o alerta, pois a matéria, mesmo havendo no governo uma quase

maioria de ministros e secretários de Estado com origem nas ex-colónias, continua a ser sensível, controversa e marcada por formas várias de ressentimento a que a política e a ideologia não costumam ser alheias. Destaque, por outro lado, para duas obras de ficção narrativa de qualidade, a ter em conta nas escolhas para o Natal: "O Bairro da Estrela Polar" (Casa das Letras), do escritor, criminalista e autarca Francisco Moita Flores, e ainda para "A Ilha" (D. Quixote), do grande escritor húngaro do século XX Sándor Márai. As Edições Sílabo deram à estampa "A Fenomenologia Enquanto Lugar Total da Vida – Diálogo poéticoamoroso entre Merleau-Ponty e alguns pensadores e artistas", da escritora e ensaísta Gilda Nunes Barata, autora de uma obra já extensa e diversificada que também incluir a literatura infantil. O presente ensaio acessibiliza ao público a tese de doutoramento da autora em Filosofia na Universidade Nova de Lisboa.n


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Boavida|Artes

O Corpo e a Letra de João Vieira na Galeria Valbom, em Lisboa Três anos após a sua morte, as obras do artista plástico João Vieira voltam a ser mostradas até 31 de Janeiro próximo, na Galeria Valbom, em Lisboa, o que foi o seu espaço preferencial durante os seus últimos anos de vida. Rodrigues Vaz

A

presentada em jeito de homenagem pelo seu filho, o conhecido músico Manuel João Vieira, ele próprio igualmente artista plástico, esta exposição, que se intitula Década e integra um conjunto de peças produzidas entre 1985 e 2008, traduz com eficácia as grandes linhas da sua obra, que se desenvolveu ao longo de mais de cinco décadas fundamentalmente sob o signo do experimentalismo interdisciplinar em torno de duas temáticas: o corpo e a letra. Do corpo, especialmente ligado aos primeiros trabalhos e aos actos performativos então realizados em Portugal como pioneira manifestação, João Vieira chega à letra, registando a partir da forma do corpo as possibilidades gráficas da sua transformação em letra. Como diz no excelente e completo catálogo Paulo Simões Rodrigues, "À semelhança do que sucede com as máscaras, rostos reduzidos à estilização dos seus elementos estruturantes mais simples – as cores, os tons, as texturas, os traços e as formas –, as imagens apropriadas não deixam de ser reconhecíveis. Mas é esse "efeito de semelhança", como foi notado atrás, que afirma, precisamente, a autonomia da recriação, projecção no mundo de um olhar sobre a pintura do passado – reforçada pela alteração irónica dos títulos." ARMANDA PASSOS NA GALERIA SÃO MAMEDE

Por seu turno, igualmente a galeria São Mamede apresenta um peso pesado da arte em Portugal, a artista portuense Armanda Passos a Lisboa, que regressa com a exposição intitulada Óleos de Pequeno Formato, que ali vai estar patente até 15 de Janeiro de 2013. Natural de Peso da Régua, Armanda Passos vive e trabalha no Porto, onde se licenciou em Artes Plásticas pela Escola Superior de Belas Artes. A sua pintura coloca-se num lugar sem precedência tanto pelos temas plásticos elegidos – as famosas "mulheres de Armanda" – como pelos acentos do respectivo tratamento. Daí a sua forte e tão sedutora originalidade no quadro das tendências da pintura atual. 50

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Pinturas de João Vieira (em cima) e Armanda Passos


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Como salienta a historiadora de Arte Sylvie DeswarteRosa no texto de apresentação do catálogo, "Mais do que histórias, Armanda cria, direi eu, "quadros poéticos", ou antes como explica Lessing no Laokoon (Berlim, 1766), "fantasmas poéticos" ou "sonhos acordados". Afinal, qualquer um de nós é provavelmente capaz de ter sonhos acordados, se ficarmos atentos e nos prepararmos para isso. Mas só muito poucos o fazem. Fê-lo Opicinus de Canistris no século XIV nas imagens cartográficas antropomorfas criadas em segredo ao longo da noite em Avinhão durante o Grande Cisma; fê-lo Hieronymus Bosch no século XV nos Países Baixos em vastas visões delirantes como o tríptico das Tentações de Santo Antão do Museu das Janelas Verdes, em Lisboa. Armanda Passos entra nesta genealogia de artistas." METÁFORAS

Por sua vez, o Centro Cultural de Cascais apresenta até 30 do corrente uma exposição de Mariam Nowinski, professor na Academia de Belas Artes de Varsóvia e reitor da

Faculdade de Artes Visuais e Design do Instituto Polaco-Nipónico de Tecnologia da Informação de Varsóvia, intitulada A Metáfora no Cartaz e no Desenho. Trata-se de uma exuberante colecção de cartazes e desenhos caracterizados por visualidade e imaginação surpreendentes da qual ressalta a criatividade pura deste mestre designer polaco. A sua arte já circulou por toda a Europa culta, foi às Américas e ao Extremo-Oriente, chegando finalmente a Portugal sob o patrocínio da Embaixada da Polónia em Lisboa, numa iniciativa conjunta da Fundação D. Luís I e do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Cascais. n


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Boavida|Músicas

Rui Veloso e Vicente Palma: o presente e o futuro da música portuguesa Em tempo de crise, o CD acaba por ser uma alternativa menos dispendiosa para as prendas de Natal. Em defesa da cultura e da indústria nacionais, aqui se sugerem dois trabalhos de autores portugueses e/ou uma oferta economicamente mais arrojada, para os apreciadores de ópera. Vítor Ribeiro

A

primeira chamada de atenção vai para o álbum "Rui Veloso e Amigos", no qual o autor e intérprete parte à "revisitação" de 13 dos seus mais popularizados temas, na companhia de oficiais do mesmo ofício. Rui Veloso consegue surpreender-nos não só no plano formal, designadamente no que se refere à natureza dos arranjos musicais, mas também na escolha dos amigos convidados, oriundos de "escolas" e gerações muito diversificadas. No material de promoção fornecido à Comunicação Social destacam-se os duetos com os Expensive Soul e com Camané, nos temas "Mr. Dow Jones" e "Conceição", respectivamente. Mas os melómanos podem ainda ser surpreendidos pelas intervenções de gente tão diversa como Jorge Palma, Afonso Pais, Luís Represas, Rão Kyao, Carlos do Carmo, Dany Silva, Maria João e Mário Laginha, JP Simões, Bernardo Sassetti, Ricardo Ribeiro, Tito Paris e Zeca Medeiros. Este encontro de Rui Veloso com amigos encerra com "Fado Pessoano", no qual intervêm Manuel João Vieira, Boss AC, Ana Sofia Varela, Paulo Flores, Lura, Tcheka, Zé Ricardo, Manecas Costa e Luanda Cozetti. "PARTO" DE VICENTE PALMA

Não menos surpreendente é o álbum de estreia do cantor e compositor Vicente Palma, cerca de 30 anos, com o título genérico "Parto". Este primeiro trabalho de grande fôlego de Vicente integra 14 temas, 13 dos quais com textos e músicas do próprio cantor. A excepção é "Para Rosalía", cantiga de 52

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José Niza e Curro Enríquez popularizada por Adriano Correia de Oliveira. Filho do cantautor Jorge Palma, Vicente trabalhou ao longo dos anos com o pai, cujas naturais influências o jovem músico não renega, antes pelo contrário. Vicente foi, no entanto, trilhando o seu próprio caminho e é hoje, sem dúvida e com mérito, um compositor de invulgar consistência e um intérprete de voz segura e cristalina. "Parto" não será talvez um trabalho de fácil adesão por parte do chamado grande público. Constata-se, de resto, que Vicente Palma não optou pela via da facilidade, ao conceber um CD que o coloca no patamar dos nossos melhores jovens compositores. O futuro próximo da música portuguesa passa por este Vicente Palma. VOZES DA ÓPERA ITALIANA

No âmbito do catálogo EMI Classics, acaba de publicarse a colectânea "Voices of Italian Opera", uma caixa com um total de cinco CDs. Mais de quatro dezenas de cantores imortais interpretam outros tantos temas de entre os mais emblemáticos da ópera italiana, gravados no século XX. Os melómanos poderão encontrar ali as vozes de, entre outros, Carlo Bergonzi, Montserrat Caballé, Maria Callas, José Carreras, Enrico Caruso, Beniamino Gigli, Tito Gobbi, Alfredo Kraus, Mario del Monaco…n


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Boavida|No Palco

De “O Grande Salão” à 'lição' de Timão… Facebook, a rede social mais famosa e utilizada no mundo, é o ponto de partida para a encenação de "O Grande Salão", com estreia marcada para 19 do corrente no Teatro Municipal de São Luiz.

Patrícia Carreira; Som/luz: Nuno Barracas; Direcção técnica: Mafalda Oliveira; Produção: ZDB, Materiais Diversos "A MÃE", DE TREMBLAY…

Maria Mesquita

I

maginemos uma sala de "chat"… uma das actuais janelas dialogantes da Net, mas em vez de funcionar por um computador, ser mesmo uma sala, grande, com várias pessoas, muitas pessoas, todas diferentes e todas iguais. Cada uma com os seus ideais, maneira de ser e interesses próprios, falando de futebol, música, política, dos filhos, dos cães e gatos, revelando façanhas ou inventando uma vida que, simplesmente, não é real. Esta é a história de "O Grande Salão", um local que se espera complexo e ao mesmo tempo supérfluo, onde todos querem saber da vida uns dos outros, mas depois dizem que não, que existe uma grande falta de privacidade e que as pessoas se expõem cada vez mais. Será acima de tudo um espaço de lazer, onde se pode dizer tudo, expressar qualquer coisa, tanto como forma de declaração universal de felicidade, como de pena e purga. Um espaço onde se fala, sobretudo, da vida neste planeta, mas à escala humana e instantânea.

"Pelo prazer de a voltar a ver" é a peça em cena no Teatro Aberto até 23 de Dezembro. Obra autobiográfica do canadiano Michel Tremblay com várias representações internacionais, a peça é um hino às relações mãe/filho, sem nos deixar levar pela vaga sensação, um quanto bizarra, por vezes, do complexo de Édipo. Nesta encenação, as atenções focam-se sobretudo na mãe do narrador, uma mulher cheia de vida, provocando risos e lágrimas a todos os que se encontram na plateia, e a quem está ao lado dela, evocando a sua presença, em palco. É ela que rouba a cena, com os seus monólogos e diálogos com o filho, tal como as nossas mães o fazem quando estão presentes em qualquer sala. É acima de tudo uma homenagem de amor a quem nos deu a vida e nos criou. FICHA TÉCNICA: Autor: Michel Tremblay; Versão, Dramaturgia

e Encenação: Marta Dias; Cenário: Rui Francisco; Figurinos: Bernardo Monteiro; Realização: Vídeo Nuno Neves; Luz: Tasso Adamopoulos; Interpretação: Luís Barros e Sílvia Filipe UMA 'LIÇÃO' EM ALMADA

"Timão de Atenas", de Shakespeare, estreia a 20 de Dezembro no Teatro Municipal de Almada, regressando depois em Janeiro, para uma apresentação mais prolongada. É o regresso de Joaquim Benite à encenação com a história exemplar de um mecenas, homem de bem, generoso, mas ingénuo que constata – ao ver-se arruinado – a indiferença, e até escárnio, dos outrora beneficiários da sua generosidade…Timão saberá, no entanto, dar-lhes, aos falsos 'amigos' (e a todos nós) espectadores a devida lição. Uma peça didáctica em tempo de sombras e desilusão…

FICHA TÉCNICA: Direcção: Martim Pedroso; Dramaturgia:

Martim Pedroso, Nelson Guerreiro; Co-criação e Interpretação:

FICHA TÉCNICA: Autor: William Shakespeare; Encenação:

Catarina Guerreiro, Chullage, Elmano Sancho, Hugo

Joaquim Benite; Interpretação: Luís Vicente, Marques

Bettencourt, Inês Rosado, Íris Cayatte, João Villas-Boas, Juana

D'Arede, Paulo Matos, Ivo Alexandre, André Gomes, Alberto

Pereira da Silva, Manuel Sá Pessoa, Maria Ana Filipe, Maria

Quaresma, Manuel Mendonça, Miguel Martins, João Farraia,

Stattmiller, Marina Albuquerque, Miguel Damião, Paula Só,

Pedro Walter, Celestino Silva, Teresa Gafeira, Joana

Paulo Duarte Ribeiro, Pedro Castanheira, Sandra Simões,

Francampos, Jeff de Oliveira; Versão dramatúrgica: Yvette K.

Sofia Ferrão, Tânia Leonardo; Assistência à encenação:

Centeno; Cenário: Jean-Guy Lecat.

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Boavida|Cinema em Casa

Do Corvo às crianças de Tóquio... Três excelentes documentários dominam esta selecção mensal: É na Terra Não é na Lua de Gonçalo Tocha sobre a ilha do Corvo; Women are Heroes do fotógrafo J.R dedicado à condição feminina e Oceanos sobre a vida marinha assinado por uma dupla em grande forma. A fechar um grande filme japonês, baseado num facto real e insólito: Ninguém sabe de Hirokazu Koreeda sobre quatro crianças, sozinhas, num apartamento em Tóquio. Sérgio Alves

É NA TERRA NÃO É NA LUA

WOMEN ARE HEROES

OCEANOS

NINGUÉM SABE

Documentário longo e origi-

Estreado no final do último

Oceanos é um trabalho docu-

Esta é história de quatro cri-

nal realizado na pequena ilha

Verão, Womens are Heroes é

mental que procura captar a

anças que durante semanas

do Corvo, no arquipélago dos

um filme inovador assente no

realidade dos oceanos numa

viveram sozinhas num

Açores, em

trabalho do fotógrafo J.R, que

perspectiva ambiental.

pequeno apartamento.

pleno Oceano

captou rostos de mulheres

Realizado em autênticos san-

Deixadas pela mãe, ausente por

Atlântico. Olhar

inscritos em painéis nas ruas

tuários marinhos, o filme, pro-

motivos de trabalho numa

fresco assinado

de alguns dos locais mais

duzido pela Disney, é assinado

outra cidade, as crianças procu-

pelo jovem rea-

pobres do mundo. Das favelas

por uma dupla de realizadores,

ram sobreviver, com pouco

lizador Gonçalo

do Rio de Janeiro, passando

Jacques Perrin e Jacques

dinheiro e comida,

Tocha que nos

pelo Quénia e pelas ruas da

Cluzaud, que viajou por mais

sem se fazerem

de 70 locais distintos.

notar no prédio

transporta para o dia-a-dia da

Índia, até ao

população local, os seus

Cambodja, o

Oferecendo uma visão

hábitos e tradições e a difícil

filme é uma

única sobre os mares do pla-

condição insular. Depois da

belíssima

neta, o filme segue a rota das

sua primeira obra, Balaou

homenagem

baleias, acompanha a busca

Drama insólito, eivado de

(2007), Gonçalo Tocha assina

às mulheres.

de alimento das gaivotas,

humanismo, Ninguém Sabe é

agora um filme mais eficaz,

Seleccionado

observa as

um trabalho sensível que abor-

onde vivem. Mas, a sobrevivência tem um custo …

em forma de registo diário da

para a semana da crítica do

inúmeras

da com rigor o quotidiano

sua passagem pela remota

festival de Cannes de 2010 e

espécies mari-

árduo destes jovens. Inspirado

ilha açoriana. Com um olhar

com uma passagem tímida

nhas e deixa

num facto real – que ficou co-

atento, o realizador recorre à

pelas salas nacionais, o filme

um retrato

nhecido como o "caso das qua-

voz off para fazer avançar a

é o resultado do material fil-

completo da

tro crianças abandonadas de

narrativa, bem como a

mado enquanto o autor

vida dos

Nishi-Sugamo, em 1988 – e

fotografias antigas da ilha

fotografava e entrevistava as

mares.

assinado pelo realizador

para ajudar a compreender a

mulheres nos diferentes

Vencedor do César para me-

nipónico, Hirokazu Koreeda, é

evolução desta ilha única.

locais por onde passou. Nas

lhor documentário em 2011, e

um filme belíssimo que conta

TÍTULO ORIGINAL:

palavras sábias foi uma tenta-

nomeado para outros

com um elenco de jovens

É na Terra

não é na Lua; REALIZADOR:

tiva de "captar a essência da

prémios, o filme é o resultado

actores competente num regis-

Gonçalo Tocha;

humanidade" na paisagem

de um apurado e complexo

to impressionante (Yagira Yuya,

Documentário; Portugal,

urbana através de murais com

processo de produção, dadas

que interpreta o mais velho dos

180m, Cor, 2011; EDIÇÃO:

imagens poderosas.

as dificuldades enfrentadas

quatro irmãos, ganhou o

Alambique

TÍTULO ORIGINAL:

pela equipa na rodagem do

Prémio de Melhor Actor em Cannes). Imperdível!

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Women are

Heroes; REALIZAÇÃO: J.R;

documentário.

Documentário; França, 80m,

TÍTULO ORIGINAL:

Cor, 2011; EDIÇÃO: Leopardo

REALIZAÇÃO:

Filmes

Jacques Cluzaud; Docu-

Koreeda; COM: Yuya Yagira,

mentário; França/Suiça/

Ayu Kitaura, Hiei Kimura;

Espanha, 104m, Cor, 2009;

Japão, 141m, cor, 2004;

EDIÇÃO:

EDIÇÃO: Leopardo

Oceans;

Jacques Perrin e

Zon Lusomundo

TÍTULO ORIGINAL: Dare

mo

Shiranai; REALIZAÇÃO: Hirokazu

Filmes


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Boavida|Grande Ecrã

Modos de ver Vem aí "O Hobbit", último filme do neo-zelandês Peter Jackson, a insistir, suspeita-se, num modelo estafado de entretenimento. Valha-nos Haneke e Hitchcock!

Joaquim Diabinho

N

ão valerá a pena chover no molhado, isto é, lamentar que as opções de Jackson tenham sucumbido a uma visão pós-moderna que vê no recurso sistemático às imagens computorizadas o meio por excelência para atingir o fim: a criação de um outro modelo de cinema que sacrifica quase tudo o resto, como ficou bem patente há anos no híper exibicionismo visual que empestou "King Kong", o "remake" do célebre clássico de 1933, realizado por Merian Cooper e Ernest Schoedsack. Seguirá "Hobbit" o mesmo caminho? Na dúvida, se verá lá mais para o meio do mês. Conhecida que é a predilecção de Michael Haneke pelo universo humano e os tempos que vivemos, não surpreenderá de todo o seu particular interesse pelo envelhecimento e a morte que estão no cerne de "Amor", seu último filme premiado em Cannes este ano. O que é surpreendente é a solidez da sua narrativa, a forma sóbria e ao mesmo tempo dura e subtilmente comovente como Haneke põe em cena o drama de um casal de octogenários – George e Anne, professores de música clássica – desencadeado pela enfermidade de um deles, a proximidade inexorável do sofrimento e da morte. O que surpreende ainda é o modo como Haneke nos dá a ver – em planos

sequência captados praticamente num único décor – o mundo dos personagens, George e Anne. E, se olharmos bem, bem no fundo, "Amor" reflecte uma visão de muito daquilo que também sabemos serem pedaços da nossa realidade. E que dizer do regresso, este mês, às salas de "Vertigo – A Mulher que Viveu Duas Vezes", eleito este ano o melhor filme de todos os tempos pela revista de cinema britânica Sight & Sound? Antes do mais, que os filmes de Hitchcock não envelhecem, pelo contrário continuam a causar um permanente e invulgar interesse, – não apenas pelas histórias mas fundamentalmente pela forma como elas nos são contadas – que não cessa de mexer com o espectador mais exigente. Isto quer dizer também que a totalidade da obra de Alfred Hitchcock permanece viva, e bem –, para além dos tempos. De modo que, ao rever "Vertigo", em cópia restaurada (obrigado, Midas Filmes), o público cinéfilo de hoje vai ter o enorme privilégio de olhar/ver um certo cinema do passado e nele descobrir a força do poder da imagem, com os seus mistérios, sombras e paixões, que nunca mais esquecerá. E isso é belo, porque não só desejará prolongar esse prazer visual, como se sentirá tentado a fixá-lo na retina da memória como um dos grandes momentos, raros e sublimes, da história do cinema. n DEZ 2012 |

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Boavida|Tempo Informático

Soluções de armazenamento: Nuvem ou SuperDisco rígido Quem se lembrar dos tempos em que guardávamos ficheiros em disquetes, entretanto descontinuadas, e também das Zips e Jazes, com 120, 250 e 1000 megabytes, também hoje obsoletas, à medida que os ficheiros iam sendo cada vez maiores, depara agora com outros dispositivos e formas para armazenar aquilo que não quer perder: vídeos, fotografias, backups, etc.

Gil Montalverne

E

ajuda@gil.com.pt

tudo isso ocupa cada vez mais espaço. E tudo isso queremos guardar. Nada queremos perder. Pois bem. Podemos fazê-lo. As empresas aproveitaram as modernas tecnologias para nos fornecer dois meios diferentes: Um em suportes físicos de grande capacidade e o outro em suporte virtual, a que foi dado o nome de "cloud" ou nuvem, sendo garantido que qualquer deles é seguro de forma a não perdermos o que neles guardamos. Discos externos de grande capacidade estão fisicamente junto de nós e é possível trabalhar com dois em paralelo de forma a tudo o que é gravado num seja ao mesmo tempo gravado no outro (sistemas NAS). A probabilidade de avaria nos dois ao mesmo tempo é quase nula. O alojamento na "cloud" existe algures em grandes servidores com réplicas espalhadas em diversos locais. Teremos acesso aos nossos ficheiros onde quer que nos encontremos e com qualquer dispositivo de ligação à Net. A opção dependerá das nossas preferências: espaço necessário, facilidade de acesso e respectivos custos. O espaço na nuvem é gratuito numa variedade de ofertas, cuja lista indicamos no final desta página, mas sempre limitado a 5, 7 ou 10 gigas de capacidade. Para mais espaço, paga-se uma pequena mensalidade. Teoricamente e fazendo registo em todas elas seria possível ter mais de 100 gigas. Entretanto a Portugal Telecom anunciou o lançamento para Dezembro da cloudPT um serviço de cloud storage que permitirá que todos os portugueses tenham 16 Gb de espaço na "nuvem" onde poderão armazenar e gerir todos os seus documentos digitais. Como dissemos a vantagem 58

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da nuvem é a disponibilidade de acedermos aos nossos ficheiros em qualquer lugar com qualquer dispositivo ligado à Net. Para mais espaço e menos acessibilidade, apenas quando estivermos junto ao disco externo em casa ou no local para onde o transportarmos, o que não é muito cómodo, pagaremos por um preço que pode oscilar entre os 250 e 360 Euros. Fabricantes como Iomega ou a dLink apresentam soluções de dois discos NAS, para a gravação em paralelo. O Iomega StorCenter ix-200 possui dois discos rígidos que trabalham em conjunto. Existe nas configurações de 1T, 2T e 4T sendo essa a soma da capacidade de armazenamento dos dois discos. Possui também uma porta de rede gigabit, uma porta USB e o transformador de energia. O novo D-Link Cloud NAS DNS 320L tem dois discos de 1 Terabyte mas podem ser instalados 2 discos de 3 Terabytes. Ligado ao router oferece a funcionalidade Cloud da dLink para acesso e sincronização remota. n Procurar no Google por "free cloud storage"( Skydrive, Google drive, DropBox, Media Drive, Symform, etc)


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Boavida|Ao volante

Novo Peugeot 208 O despertar dos sentidos À semelhança das evoluções a que assistimos nos produtos tecnológicos do dia-a-dia, o novo modelo 208 da Peugeot marca um verdadeiro salto de gerações.

Carlos Blanco

C

ompacto, ágil e eficiente, o 208 está à frente do seu tempo. A sua ergonomia e o seu espírito intuitivo projectam-no sempre para mais modernidade. Encarnação de uma regeneração desejada pela marca do leão, sob todos os ângulos, o novo 208 concretiza e sublima os novos códigos estéticos da marca e suscita instantaneamente a emoção. Grelha flutuante, assinatura luminosa, faróis traseiros em boomerang, cada detalhe foi desenhado em total coerência. Com linhas esculpidas e atléticas, simultaneamente puro e sofisticado, o seu estilo projecta a marca francesa para uma modernidade renovada e sedutora. O interior do novo 208 desmultiplica a promessa de inovação do estilo exterior. O seu design apurado e definitivamente contemporâneo reflecte-se num habitáculo original e moderno, que alia conforto, elegância e tecnologia. Com o seu posto de condução intuitivo e uma habitabilidade generosa, a vida a bordo do 208 proporciona um sentimento de bem-estar imediato. Com o 208, a ergonomia do interior foi inteiramente repensada e simplificada. O painel de bordo integra um Touch Screen que está posicionado de forma ideal ao alcance dos nossos dedos. A partir do nível Active, o condutor tem acesso às diversas funções (rádio, kit mãos livres Bluetooch, leitura de ficheiros de música através da ligação USB ou em streaming áudio). Conectividade e espírito intuitivo enraízam assim o 208 no seu tempo e reforçam a ligação íntima e natural entre o automóvel e o seu condutor. Com a aplicação Peugeot Connect Apps, o 208 propõe ainda uma chave 3G dedicada a cada condutor com GPS integrado. Mediante pagamento de uma mensalidade, os ocupantes do 208 têm acesso à Internet a partir do seu veículo através de um abrangente portal multi-serviços e aplicações práticas e seguras que simplificam o dia-a-dia. Informações de trânsito ViaMichelin, estado dos estacionamentos mais próximos, estações de serviço mais baratas, meteorologia, guias Michelin, função de roadbook,

call center da Peugeot, enfim toda uma panóplia que disponibiliza uma oferta rica de serviços conectados. O novo 208 conseguiu a façanha de ser compacto aumentando a sua habitabilidade, com espaço nos lugares traseiros e um porta-bagagens mais generoso, aliado a um rendimento a nível da arquitectura muito optimizado. O tecto panorâmico (opcional) em vidro desmultiplica a sensação de espaço e contribui para o bem-estar dos passageiros. O 208 que ensaiámos proporciona uma regeneração da experiência de condução. Incorpora as noções de agilidade e de eficiência. Para uma redução máxima do peso do veículo, foi levada a cabo uma verdadeira "caça ao excesso de peso", para gerar, de uma forma global, uma "espiral virtuosa", em benefício do domínio do consumo, das emissões de CO2, da segurança passiva e dos desempenhos do automóvel. No que respeita a motorizações, a nova geração de motores de três cilindros (diesel e gasolina) permite obter uma verdadeira melhoria em termos de consumo e de emissões de CO2, proporcionando ao mesmo tempo um bom nível de desempenho. As versões de 1.0 e 1.2 VTi permitem ao 208 propor versões a gasolina com emissões de CO2 de 99g/km e de 104g/km. As suas potências variam entre os 68 e os 115 cavalos. Os preços do novo Peugeot 208 em Portugal (disponível em versões de 3 e 5 portas) variam entre os 12.700 euros e os 21.550 euros. n DEZ 2012 |

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Boavida|Saúde

Pneumonias adquiridas na comunidade Os sintomas – tosse, febre, expectoração e dores musculares que não cedem, ou se agravam, com o tratamento habitual da gripe – devem alertar-nos para a eventualidade de estarmos perante uma pneumonia. Neste caso, é necessário que o doente seja rapidamente observado pelo médico.

M. Augusta Drago

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medicofamília@clix.pt

doente com pneumonia tem dificuldade em respirar, porque os seus pulmões estão inflamados e infectados. Os líquidos retidos nos alvéolos pulmonares impedem que se realizem as trocas gasosas que aí têm normalmente lugar. A respiração é difícil e a baixa na concentração de oxigénio em circulação provoca a sensação de falta de ar, cianose (lábios e unhas roxas), o doente tem tosse com expectoração abundante, dor torácica acutilante quando inspira e a temperatura sobe causando suores e calafrios. A pneumonia adquirida na comunidade, no inverno, durante os surtos de gripe, é uma doença aguda, causada por bactérias claramente identificadas e para as quais há tratamento. No entanto, não deixa de ser uma grande preocupação para os profissionais de saúde, pois é a primeira causa de internamento hospitalar entre a população mais idosa e também a responsável por um número significativo de óbitos que aumenta com a idade dos doentes e com a presença de patologias crónicas, frequentes nestes grupos etários.

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As pneumonias no idoso institucionalizado são quatro vezes mais frequentes do que no idoso a viver na comunidade. Neste grupo etário, esta doença pode apresentarse com sintomas diferentes do adulto jovem. Os idosos muitas vezes queixam-se de falta de apetite, prostração e, com frequência, de alterações do estado mental. O risco de pneumonia no idoso aumenta na presença de desnutrição, tabagismo, doença respiratória crónica (bronquite, asma, enfisema, etc.), insuficiência cardíaca, insuficiência renal, diabetes, doença psiquiátrica e todas as doenças debilitantes ou malignas. Os agentes responsáveis pela pneumonia tanto podem ser vírus como bactérias ou fungos. No entanto, as infecções por bactérias são as mais frequentes. A maior parte das bactérias que causam pneumonia são habitantes usuais das nossas vias respiratórias. Mantêm-se inofensivas, enquanto o sistema imunitário do seu hospedeiro se encontrar íntegro, mas no momento em que este fica debilitado as bactérias potencialmente patogénicas ganham força, multiplicam-se e difundem-se pelo organismo, causando a pneumonia. A pneumonia tem tratamento e este depende do agente ou agentes patogénicos que estão na sua origem. Quanto mais precocemente se iniciar o tratamento, melhor será o prognóstico. Mas, como sempre, o melhor tratamento é a prevenção e esta reveste-se da maior importância, dada a gravidade destas infecções em especial naquele grupo de pessoas, acima referidas, com maior risco. Duma maneira geral, a prevenção deve ser feita a partir dos 50 anos com a vacinação anual contra a gripe. Para as pessoas com mais de 65 anos deve juntar a essa a vacina contra o pneumococo e não esquecer os cuidados globais de saúde, como a higiene oral, o posicionamento correcto na cama, o controlo das doenças crónicas, a conservação da mobilidade, uma alimentação saudável e o apoio familiar.n


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Boavida|Palavras da Lei

Doação com reserva de usufruto em Inventário – Conferência de Interessados ?

Uma tia minha, mulher de muitas posses e bens, fez-me uma doação sob reserva de usufruto, devidamente

registada, sobre um seu imóvel até ao seu falecimento. A minha tia faleceu, o meu tio casou de novo e, passados alguns anos, faleceu. A sua viúva abriu Inventário e apresentou como único bem na relação o imóvel sobre o qual recaia a doação com reserva de usufruto. Reclamámos da relação de bens apresentada, juntando registos que provavam a existência de outros bens; no entanto, o advogado que nos representava, em sede de conferência de interessados declarou que prescindia da nossa reclamação. Nos autos ficou como único bem a minha casa; pedi ao tribunal para aceitar de novo a reclamação, o que me foi recusado. Pode-se requerer a redução por inoficiosidade na parte da casa, ou unicamente sobre o usufruto? E posso pedir responsabilidades à advogada que prescindiu da reclamação, apesar de estar com os documentos em causa? Sócio devidamente identificado - Porto.

Pedro Baptista-Bastos

A

nalisando esta situação do nosso sócio, comecemos pela estranha decisão de, em sede de conferência de interessados, a minha colega ter prescindido da reclamação. O nº 1 do artigo 1352º do Código de Processo Civil determina que: "resolvidas as questões suscitadas susceptíveis de influir na partilha e determinados os bens a partilhar…" o que significa que o juiz já deveria ter nos autos a oposição por vós aduzida, bem como os registos dos outros bens imóveis e/ou de crédito de acordo com o artigo 1343º do C.P.C., quanto mais não fosse para dar cumprimento ao nº 3 do artigo 1353º do C.P.C, que nos diz que, em conferência de interessados, o Juiz delibera sobre a "... forma de cumprimento dos legados e demais encargos da herança." Tivesse ou não havido oposição tempestivamente apresentada no prazo legal, a minha colega poderia, durante a conferência de interessados, ter apresentado "quaisquer questões cuja resolução possa influir na partilha", nos termos da alínea b) do nº 4 do artigo 1353º do C.P.C., isto é, suscitado oficiosaJOSÉ ALVES

mente a junção dos documentos que determinariam a existência doutros bens em questão. Logo, deveria ter havido não só oposição ao inventário assim como, durante a conferência, a apresentação de qualquer facto ou prova susceptível de influenciar, determinar e resolver que bens entrariam na partilha, os documentos referidos que determinariam não só a existência de outros bens, assim como a prova pleníssima da existência da doação sob reserva de usufruto sobre o imóvel. Por isso, aconselho-o a ir ao Tribunal requerer certidão do auto da conferência de interessados, de modo a verificar o porquê da minha colega ter prescindido da reclamação. Munido desse documento, pode exigir explicações à minha colega e, se não ficar satisfeito, apresentar queixa ao Conselho Distrital da Ordem dos Advogados da área. A questão da redução por inoficiosidade da doação recai sobre o lado da viúva; reduzir por inoficiosidade uma doação é uma acto que defende quaisquer excessos que afectem o montante da quota disponível que cabe a um herdeiro legitimário, e ela vai, com certeza, requerer nos autos a redução da doação efectuada sobre o único imóvel que falsamente arrolou. Daí que a questão final seja: como poderemos defender o nosso sócio? Pode defender-se já nos termos do nº 2 do artigo 1365º, opondo-se à redução como donatário e fazendo ver ao Tribunal que existem outros bens em causa; vai ser notificado para se opor antes das licitações sobre o imóvel. Além disso, quer nos momentos processuais descritos no nº 2 do artigo 1373º do C.P.C., e especialmente no nº 1 do artigo 1388º do C.P.C., pode o nosso sócio defender-se requerendo a anulação da partilha, demonstrando que a viúva, sabendo da existência de outros bens, ocultou-os com dolo e má fé. No entanto, para agir adequada e rapidamente e saber em pormenor o momento processual destes autos, aconselho-o a entrar em contacto com outro advogado. n DEZ 2012 |

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ClubeTempoLivre > Passatempos Palavras Cruzadas | por José Lattas

VERTICAIS: 1-Moderados; Freguesia do concelho de Vila Real de Santo António. 2-Prefixo que se emprega quando o radical começa por b ou p; Elemento de composição que traduz a ideia de ombro; Medida agrária; Analogia. 3-Consentimento; Certa. 4-Apelido; Barco de pesca usado na zona de Setúbal. 5-Desaba; Bajula; Calor. 6-Planta de onde se extrai um suco resinoso e amargo, que se utiliza em medicina; Medida de tempo que corresponde à revolução da Terra em torno do Sol; Chupe. 7-Nome feminino; Brotar. 8-Apelo; Lisonja. 9-Após; Galga (invertido). 10-Apelido; Serviços secretos de informação e espionagem dos Estados Unidos; Escutei. 11-Preposição; Abastada; Vício. 12-Engenhos; Agrava. 13-Queima; Janota. 14Preposição; Marchará (invertido); Dono; Níquel (s.q.). 15-Escapavas; Contusão (pl.).

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1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 SOLUÇÕES (Todas as letras nas HORIZONTAIS) 1-PIA; CAPTARA; ZEF. 2-AM; VALA; TETA; MU. 3-R; AEIOU; RIERA; G. 4-COMI; ELVAS; TRAÍ. 5OMEGA; AOS; FEDRA. 6-SOMADA; Z; CASEIS. 7-UNO; TIR. 8-CAVALO; M; ATOLAM. 9-AREIA; GEO; ÂNIMO. 10-CERA; MELÃO; EROS 11-E: ALIAR; LUCRO; S. 12-LA; ARMA; AVIA; NA. 13-ARO; AERÓBIO; LIS.

HORIZONTAIS: 1-Lavabo; Adquirira; Cidade onde esteve cativo D. Fernando, após o desastre de Tanger, em 1437 (invertido). 2-Antes do meio-dia (sigla); Fosso; Seio; Macho. 3-As primeiras letras ou rudimentos de qualquer arte ou técnica; Apelido do treinador chileno, que em Portugal, treinou as equipas do Belenenses, do Benfica, do Porto e do Sporting. 4-Manjei; Concelho do distrito de Portalegre; Apunhalei. 5-Fim; Preposição e artigo (pl.); Personagem de drama de Eurípides. 6Acumulada; Concilieis. 7-Singular; Transportes internacionais rodoviários (sigla). 8-Mamífero da família dos Equídeos; Enlodam. 9-Praia; Prefixo de origem grega, que expressa a ideia de terra; Firmeza. 10Mandriice; Fruto com polpa suculenta, doce, branca ou amarelada; Deus do amor, na mitologia grega. 11-Federar; Benefício. 12-Nota musical; Meio; Despacha; Sódio (s.q.). 13-Circulo; Que tem necessidade de ar ou oxigénio livre, para viver; Rio que banha Leiria.

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Ginástica mental| por Jorge Barata dos Santos

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Preencha a grelha com os algarismos de 1 a 9 sem que nenhum deles se repita em cada linha, coluna ou quadrado

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SOLUÇÕES


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O Tempo e as palavras M a r i a A l i c e Vi l a Fa b i ã o

Lamento por uma língua vexada […] E era uma vez um mar e em seus/ pergaminhos de esmeralda / os reis e os pontífices lavraram / a escritura das ilhas, das antilhas / dos continentes com seus promontórios e seus vales. / […] Mar Oceano de Dionisios e do Infante / no fim do mar sem fim. / […] E os cavaleiros do mar galopam as águas / no sertão do mar […] E navegam o espaço / para onde? / E navegam o tempo / para quando? E navegam a espuma /para quê? […] Nas espumas do mar só eu leio agora / seus nomes esquecidos / e celebro seus nomes marinheiros.[…] Gerardo Mello Mourão, in: Invenção do Mar, Carmen Saeculare, Ed. Record, Rio de Janeiro, 1997

É

tempo de partida. Nervosas, as velas, pandas já, estremecem no vento na ânsia de zarpar. Gemem as enxárcias, retesadas pelo esforço de firmarem os altos mastros e os mastaréus, e os madeirames do bojo – pino verde dos verdes pinos do rei Dinis – rangem suavemente sob a carícia húmida da língua desse enganoso mar de beira-cais. O mar. Mar Oceano. Mar nosso. Universo abissal devorador de homens e embarcações, morada do Leviatão, com quem coabitam os monstros que ilustram as cartas de marear dos imaginativos cartógrafos holandeses. De Cristóforo Colombo, soubera ter visto três sereias a saltar bem alto no mar, tão feias, porém, com suas caras de homem, que nem necessitara da ajuda divina para lhes resistir como Ulisses. Por Pero Roiz Soares, tivera notícia de “um peixe que seu comprimento podia ser até dez léguas das de Holanda” e cujos olhos distavam quase uma légua um do outro e tinham cinquenta pés de diâmetro. Viera morrer à praia, sufocado com uma ilha que engolira, à míngua de alimento. Quando se desfizera aquele corpo monstruoso e a ilha se separara dele, vira-se que os seus habitantes se encontravam gelados nos matos de que ela estava coberta. No seu ventre, tinha ainda uma embarcação inteira e muitos pedaços de outras, talvez perdidas em algum naufrágio. De outros monstros assim ouvira relatos, de fenómenos estranhos, como a de uma luz fantasmagórica que em noites de tempestade se acendia no alto da mastreação, a que davam o nome de Fogo de São Telmo, e de outros cuja lembrança o faz benzer-se três vezes, invocando o auxílio de S. Jorge e S. Telmo, tactear com a mão direita e relíquia que a mãe lhe pendurara ao pescoço e com a esquerda, o saquinho com o poderoso pó de sapo virgem, que, a ocultas, lhe dera a velha ama. Como tantos outros antes dele e muito outros depois dele, acompanha a expedição como língua, turgimão ou jurabaça (do malaio jurubahasa), intérprete, co-artífice de vaga expansionista como de outra jamais se falou, e fá-lo encap-

sulado nos seus medos, nas suas crenças e nas suas superstições. A sua presença é indispensável para o êxito das missões; à sua competência nas línguas autóctones se deve a implantação do português, como língua franca onde quer que chegue. Não obstante, semi-deus na Grécia antiga pela sua capacidade de mediador linguístico, capaz de múltiplas tarefas simultâneas (intérprete, assistente de governadores e de juízes, administrativo), não lhe é poupado qualquer dos sofrimentos do mais humilde dos marinheiros da frota. Por isso, no momento da partida, ele olha o mar e treme. No ano da graça de 2012, tradutora de profissão, ainda que não intérprete, preparo-me para escutar a estrangeira que das germânicas paragens vem trazer-nos as missangas, os espelhos e as palavras de salvação, como, in illo tempore, os nossos álvares e tantos outros dos nossos levaram a outras gentes primitivas em terras ignotas. Deve ter-se enganado, porém, na rota, a teutónica senhora, ou desconhecer (ela ou os seus serviços diplomáticos – aterroriza-me a sugestão do Mostrengo de que possam ter sido os nossos…) que é visita de um país com uma língua soberana, talvez sombria como a fome, mas com uma articulação própria, uma musicalidade própria, toda em clave de Fá em quarta linha, porque é muito diferente aqueloutra, sua filha, quente e luminosa, porém, como o sol dos trópicos, gerada em duros trabalhos pelos nossos cavaleiros do mar, em que a descuidosamente escolhida intérprete nos transmite as suas boas novas e nos fere o legítimo orgulho na nossa língua vexada. No país vizinho, eurocrata demasiado importante para falar a sua língua, prefere, mais uma vez, afirmar-se num fluente espanhol involuntariamente entremeado de envergonhadas palavras portuguesas… Por isso, oiço e tremo. Quem defenderá a desprezada língua que os nossos línguas deram ao Mundo e por que os nossos cavaleiros do mar deram a vida? Feliz Natal, Senhoras e Senhores Leitores! n DEZ 2012 |

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Os contos do

O homem de luto

À

porta lateral da igreja, a que dá acesso às capelas mortuárias, o primeiro encontro de quem chegava era com os fumadores. Ao que dizem os médicos e as estatísticas, estão estes entre os primeiros a transitar para o lugar central da reunião fúnebre designada por velório. Silêncios, rostos fechados, aqui e além conversas sobre as virtudes do falecido ou, mais amplas, acerca da triste inevitabilidade da morte. Em ajuntamentos tais, no entanto, sobrevivem outras preocupações e programas que suspendem a vénia a quem é riscado do número dos vivos. Há olhares para os relógios, a medir o tempo para se apresentar num jantar festivo, outras cuidando de chegar a casa a horas de assistir à transmissão de um jogo de futebol. Uma mulher de vestido amarelo destoava um pouco da mancha predominantemente escura que assinalava a entrada. Destoava também pelas risadinhas, de todo inadequadas na circunstância, com que sacudia conversas brandas. Alguém comentou, ouvindo-a, que ela tinha sido namorada do morto na distante época da faculdade. E lembrou, como nesses tempos, sim, eram naturais os risos e folguedos, mais não fosse pela essencial alegria agora perdida pelo homenageado – alegria de viver. Não era a mulher de amarelo, contudo, quem despertava a maior curiosidade. Essa, apontava a um homem vestido de luto total, dos sapatos ao fato e à gravata. Todo de negro. – Não sei. Mas para tão rigoroso luto será familiar, talvez residente em terra distante. Passeando-se sozinho pelo pátio fronteiro, o homem puxava fumaça e ia espreitando quem chegava para, lépido, expressar a mágoa pelo falecimento. Acontece que entre o vasto número de amizades do extinto se encontrava gente a quem se dá o mal pensado nome de figuras públicas. Então, o homem de preto aproximava-se,

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estendia ambas as mãos prendendo nelas a do recém-chegado, e dizia, magoadamente: – Que perda! Que perda! Alguns o abraçavam, sem palavras, uma cantora famosa foi mais longe: – Imagino a sua dor. Todos estamos chocados por esta notícia horrível. E o homem: – Que perda! Que perda! Entrou na capela e olhou a viúva, enrolada com a filha num abraço de desgosto e de encorajamento para o suportar. Junto à urna, perfilado como em sentido, um senhor alto permanece de olhos fechados, dir-se-ia que recordava episódios partilhados com quem se despedira do mundo dos vivos. Deveria ser alguém importante, deduziu o homem de luto total, pois a ele se dirigiam outras figuras importantes. E assim discorrendo, aproximou-se também ele abordou a figura hirta e disse: – Que perda! Que perda! Com o tempo, a capela regurgitava de gente e tanta gente pesarosa adensava a tristeza do momento. Crescia, também, a cobertura de flores colocadas junto à urna, como salpicos de festa de um adeus definitivo. O homem de luto completo voltara à rua, juntando-se aos pequenos grupos de fumadores ou, simplesmente, dos que ali recordavam obras ou qualidades humanas do agora inexistente. Viu uma senhora a limpar ao lenço os olhos humedecidos e de pronto se aproximou a afirmar como a entendia: – Que perda! Que perda! Puxou pelo maço de cigarros e afastou-se um pouco quando um jovem o abordou, pedindo: – O senhor desculpe o atrevimento, mas importava-se de me dar um cigarro? Raramente fumo, mas em alturas destas parece que um cigarro ajuda a suportar.


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– Ora essa – disse o senhor de luto perfeito estendendo o pacote de cigarros. E logo acrescentou: – Que perda! Que perda! – Se há pessoas que deviam viver para sempre, o meu tio era uma delas – disse o rapaz. – Ai era sobrinho? Bem compreendo. Mas nem era necessário pertencer à família para pensar o mesmo. Que perda! Que perda! Ainda esboçou o rapaz uma interrogação, sobre quem era e de onde vinha aquele senhor tão de luto, nunca o vira nas reuniões familiares ou de companhias mais próximas. Desistiu, porém, de prosseguir a conversa e foi sentar-se na borda de um canteiro a saborear o fumo. Levantou-se, de pronto, ao ver chegar o presidente da câmara, de quem recebeu condolências, tal como as recebeu o próprio homem totalmente de preto que correria a aproximar-se. Embora não o conhecesse, o presidente da câmara não foi JOSÉ ALVES

insensível ao trajar lutuoso do homem e apertouo num abraço. – Que perda, senhor presidente! Que perda! –Disse ele. Choram-se os mortos mas é importante que os vivos se tratem e na hora sacramental do jantar foi-se esvaziando o templo. Em certo momento, junto à urna, o homem esmeradamente de preto notou apenas a figura quebrada da viúva com a filha por companhia. Em respeitosos passos se lhe acercou então e, de joelho em terra, seguroulhe as mãos e disse, em voz ainda mais magoada: – Que perda! Que perda! Respondeu a senhora com um choroso "obrigada" e o homem continuou a prendê-la pelas mãos. E acrescentou: – Sei que não é a melhor altura, mas o senhor doutor devia-me uns dinheiros. Não se preocupe agora, temos tempo. Depois do funeral, com sua licença, irei visitá-la. n DEZ 2012 |

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Crónica

António Costa Santos

Um Ano Novo assim-assim

O

ano de 2012 ficará na História, entre outras razões, porque houve quem esperasse que ele trouxesse o fim do mundo, segundo os intérpretes mais competentes do calendário dos maias. Caso a profecia se cumprisse, acabava-se a própria História. Portanto, 2012 safou-se à tangente de nunca mais ser recordado. Nem ele, nem ano nenhum. Devemos estar contentes por isso, se bem que os observadores portugueses mais cínicos afirmem que teria sido melhor que a profecia maia se cumprisse, uma vez que 2012 é para esquecer e 2013 será de susto. Mas isso são os críticos, uns pessimistas e exagerados. Ao contrário dos profetas da desgraça, temos provas do que afirmamos. E a melhor prova de que o mundo não acabou é termos chegado a imprimir esta crónica. Fôssemos acreditar na profecia e nem escrevê-la, quanto mais publicá-la. Agora, o próprio leitor pode fazer o teste. Basta guardar a revista até ao fim do mês e experimentar reler a presente crónica, digamos, no dia de Natal, quando a consoada terminar e já não houver mais nada para fazer. Uma consoada em que se divide meia posta de bacalhau e três batatas por seis parentes come-se num foguete e as crianças, como ficaram a chuchar no dedo no que toca a presentes, vão querer deitar-se cedo para irem experimentar de manhã os brinquedos do chinês, antes que estes deixem de funcionar como é costume. O Pai Natal devia estar sem bateria e não leu as SMS que lhe enviaram (os miúdos já não escrevem cartas, mandam mensagens, ou deixam

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| DEZ 2012

os pedidos no voice mail e, se por acaso se portaram mal, esperam que o Pai Natal não tenha Facebook e, portanto, não haja visto as fotografias que foram publicando: "O Zezinho a gozar com a profa LOL"; "Eu a dar banho ao gato da minha irmã e a ela LOL"). Por isso, não houve prendas de jeito. Ou então foi porque o velhinho das barbas, emigrante na Lapónia, afinal é português e não recebeu o décimo terceiro. Mas não falemos de coisas tristes, neste mês da Popota, da paz e da alegria.

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ronto, como estávamos a dizer, se o leitor reler esta página nessa altura, é porque a vida humana não se extinguiu e prossegue em 2013, ao contrário de quatro feriadinhos, pois, devendo por isso ficar agradecido à sorte. É certo que o IRS do próximo ano vai ir-nos ao bolso muito acima das nossas possibilidades; é verdade que o desemprego vai aumentar mais do que os subsídios e que qualquer dia um emprego será o primeiro prémio do Totoloto e mesmo assim só em semana de jackpot; é provável que tenha de entregar a casa ao fisco, por conta do IMI, e ir viver com a família para um campo de refugiados no Iraque ou no Líbano – há sempre sítios onde a vida é mais fácil que em Portugal, basta que não ande por lá a troika –, mas, vendo bem, o que é isso comparado com o fim do mundo anunciado pelos maias? Vá, um Natal Mais ou Menos para todos e um 2013 Assim-Assim, pelo menos. São os meus votos – e não são em branco. n


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