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N.º 225 Abril 2011 Mensal 2,00 €

TempoLivre www.inatel.pt

Destacável Viagens Primavera/Verão 2011

Vidas seniores

Parar é Morrer Entrevista Fernanda Freitas Viagens Copenhaga Memória Parque Mayer


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Sumário

Na capa Foto: António Pedro Santos

18 ACTUAL

Vidas Seniores - Parar é Morrer Vidas activas e exemplares de vários seniores…o bilhete de identidade atribui-les mais de 70 anos. Mas, na prática, têm um espírito mais jovem e mais vontade de viver do que muitos adolescentes. Cinco histórias que provam que velhos só mesmo os trapos...

5 6

24 EDITORIAL

CARTAS E COLUNA DO PROVEDOR

8 16

NOTÍCIAS

CONCURSO DE FOTOGRAFIA

38

MEMÓRIA

Maria João Duarte socorre-se das memórias de Vítor Pavão dos Santos para evocar os tempos áureos do Parque Mayer

40

OLHO VIVO

42

A CASA NA ÁRVORE

67

ENTREVISTA

Fernanda Freitas, Milionária de afectos Jornalista portuense, primeiro na rádio, depois na televisão, Fernanda Freitas está, há cinco anos, aos comandos do Sociedade Civil. O programa diário do Canal 2 não é campeão de audiências mas tem um notável reconhecimento público. Desafiada, um dia, a contar histórias às crianças dos hospitais pediátricos, aceitou e hoje é uma voluntária militante. E, também, embaixadora do Ano Europeu do Voluntariado.

O TEMPO E AS PALAVRAS Maria Alice Vila Fabião

68 70

OS CONTOS

30

DO ZAMBUJAL

VIAGENS

CRÓNICA Álvaro Belo Marques

Viagens Primavera/Verão 2011 DESTACÁVEL DE 12 PÁGINAS

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BOA VIDA CLUBE TEMPO LIVRE

Passatempos, Novos livros e Cartaz

Copenhaga de sabor latino Breve roteiro da capital dinamarquesa, em jeito de ‘aperitivo’ para os viajantes que apostem nos Cruzeiros nórdicos, promovidos pelo Turismo Inatel.

34 RITUAIS

A Romaria da Senhora do Almurtão

Revista Mensal e-mail: tl@inatel.pt | Propriedade da Fundação INATEL Presidente do Conselho de Administração: Vítor Ramalho Vice-Presidente: Carlos Mamede Vogais: Cristina Baptista, José Moreira Marques e Rogério Fernandes Sede da Fundação: Calçada de Sant’Ana, 180, 1169-062 LISBOA, Tel. 210027000 Nº Pessoa Colectiva: 500122237 Director: Vítor Ramalho Editor: Eugénio Alves Grafismo: José Souto Fotografia: José Frade Coordenação: Glória Lambelho Colaboradores: António Costa Santos, António Sérgio Azenha, Carlos Barbosa de Oliveira, Carlos Blanco, Gil Montalverne, Humberto Lopes, Joaquim Diabinho, Joaquim Magalhães de Castro, José Jorge Letria, José Luís Jorge, Lurdes Féria, Manuela Garcia, Maria Augusta Drago, Maria João Duarte, Maria Mesquita, Pedro Barrocas, Rodrigues Vaz, Sérgio Alves, Suzana Neves, Vítor Ribeiro. Cronistas: Alice Vieira, Álvaro Belo Marques, Artur Queirós, Baptista Bastos, Fernando Dacosta, Joaquim Letria, Maria Alice Vila Fabião, Mário Zambujal. Redacção: Calçada de Sant’Ana, 180 – 1169-062 LISBOA, Telef. 210027000 Fax: 210027061 Publicidade: Direcção de Marketing (DMRI) Telef. 210027189; Impressão: Lisgráfica - Impressão e Artes Gráficas, SA Rua Consiglieri Pedroso, n.º 90, Casal de Sta. Leopoldina, 2730-053 Barcarena, Tel. 214345400 Dep. Legal: 41725/90. Registo de propriedade na D.G.C.S. nº 114484. Registo de Empresas Jornalísticas na D.G.C.S. nº 214483. Preço: 2,00 euros Tiragem deste número: 156.679 exemplares


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Editorial

V í t o r Ra m a l h o

Exemplos seniores

O

aprofundamento das relações da Fundação Inatel com os seus associados e com a sociedade civil em geral preenchem as referências do presente número da Tempo Livre. E preenchem-no a justo título, face às preocupações da instituição em responder de forma crescente e solidária às exigências dos associados numa maior e mais diversificada qualidade de serviços que presta. É com este propósito que a Tempo Livre dá testemunho de exemplos de associados seniores, com mais de oitenta anos de idade que nos mais variados domínios de actividade se recusam a parar. Ouvi-los, confrontar as suas experiências pessoais é não apenas encorajar à generalização de uma prática de vida saudável como também recolher ensinamentos para respostas inovadoras da Inatel em novos domínios, como são os casos do "Turismo Natureza", e a "Conversa Amiga", programa que beneficia já e com êxito de um vasto conjunto de voluntários. O voluntariado como é sabido não escolhe idades. E porque não escolhe, a entrevistada que foi seleccionada para este número, Fernanda Freitas, não procura reflectir apenas o rosto da "Sociedade Civil", pro-

grama com que nos aparece diariamente na RTP2. A jornalista assume discretamente o voluntariado como uma obrigação cívica e é regular por isso a sua presença nas visitas a crianças internadas nos nossos hospitais. É um exemplo que se regista e que a Tempo Livre não poderia deixar de salientar. Servir em solidariedade implica também conceber e aprofundar os programas que tradicionalmente a Inatel realiza, como é o caso das viagens para as estações da Primavera e do Verão. Daí o destacável que apropriadamente incluímos também neste número, possibilitando a todos os que delas queiram usufruir uma informação adequada. Informação que também envolve a primeira Agência inaugurada com um rosto mais arejado da Inatel, no caso em Vila Real, a que seguirão Aveiro e Santarém; a recente reabertura da excepcional Unidade Hoteleira de Linhares da Beira após obras de grande beneficiação que muito a valorizaram; ou o Ciclo de Conferências de Desporto que se iniciou com a intervenção do Prof. Fernando Seara na Universidade Lusófona, em Lisboa, promovida pela Inatel. n

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Cartas A correspondência para estas secções deve ser enviada para a Redacção de “Tempo Livre”, Calçada de Sant’Ana, nº. 180, 1169-062 Lisboa, ou por e-mail: tl@inatel.pt

Reservas Fiz uma reserva online dia 14 de Fevereiro cerca das 18h00, para a Unidade da Foz do Arelho. Cerca das 23h00, do mesmo dia, constatei que não poderia usufruir dessa estadia em virtude de um imprevisto na minha vida familiar, pelo que enviei um email a solicitar a anulação da

reserva, que já tinha sido paga na totalidade. A resposta que me deram é que tal não era possível, pois a reserva teria que ser anulada 48h antes. Ora, tal não era possível, pois a reserva tinha sido feita menos de 48h antes! Aceito que não poderei receber a totalidade do valor, mas considero inaceitável ter que pagar a totalidade, quando avisei menos de sete horas depois de fazer a reserva! Ana José, Portalegre

50 anos na INATEL Completaram, este mês, 50 anos de ligação à Fundação Inatel os associados: Celestino Costa, de Cascais; Augusto Urbano e Mª Leonor Rodrigues, de Lisboa; Reinaldo Santos e Joaquim Pombinho, de Porto.

Coluna do Provedor A CARTA DO LAZER das Aldeias Históricas

Kalidás Barreto provedor@inatel.pt

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foi um importante trabalho da Inatel cuja edição de dez roteiros, em 2000, despertou tanto interesse que, em 2002, tornou inadiável a reedição de um novo volume que, para além de uma síntese desses dez, abrangeu a divulgação, em oito volumes, dos recursos das dez aldeias e dos 23 concelhos que as envolvem. O êxito desta edição foi enorme e exemplar, como recordam alguns associados, com uma equipa técnica que desenvolveu um trabalho excelente. Curiosamente, estes associados são de diversos escalões etários que vêm perguntando se não é a altura da Fundação Inatel continuar esse belíssimo trabalho, alargando a outras aldeias onde os factos históricos são recordações importantes. Como escrevia o então presidente da Direcção, Dr. Eduardo Graça, na nota introdutória à publicação dos roteiros, estavam em causa projectos que “apostam na integração no meio através de programas, acções e actividades destinadas a promover o desenvolvimento local e regional, assegurando a participação das comunidades locais (…)

associados à criação de equipamentos e programas, de dimensão física e económica adequada à capacidade de acolhimento da região respectiva, permitindo uma oferta variada, multidisciplinar, criadora de empregos e indutora do desenvolvimento da economia local”. Como assinalava, ainda, Eduardo Graça, esses projectos tinham, igualmente, o objectivo de “atrair, através de informação fidedigna, fluxos de visitantes e a promoção de actividades de animação cultural e desportiva assim como a formação de recursos humanos locais”. Tais “desafios do desenvolvimento, crescimento contínuo e sustentável das actividades de lazer” - referia, então, o mesmo responsável da Fundação - integram “princípios como os da democratização, acessibilidade económica e física, respeito pelo ambiente e pelas comunidades locais promovendo o desenvolvimento local e regional”. É deste exemplo inovador, em cuja continuidade o antigo presidente da Inatel apostava, que vários associados falam e sugerem para outras belas aldeias do nosso País. n


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Notícias

Agência IN Vila Real

Festa do Jazz do São Luiz l Abril

é o mês da Festa do Jazz do São

Luiz, já na sua nona edição, do projecto A Lua de Maria Sem e de mais um Clube da Palavra. No alinhamento da 9ª Festa do Jazz do São Luiz estão, como sempre, os nomes dos já consagrados, Mário Laginha, Bernardo Sassetti, Maria João, João Paulo Esteves da Silva, entre outros, mas também os mais recentes projectos e l No

âmbito do seu programa de modernização das várias áreas de actuação, e procurando criar uma ligação mais próxima e dinâmica com

os seus associados e beneficiários, a Fundação Inatel iniciou, em Vila Real, no passado dia 22 de Fevereiro, o processo de remodelação das suas 24 delegações, transformando-as em "Agências IN". Nestas novas agências, os associados terão acesso a um conjunto de produtos e serviços da Fundação, nomeadamente viagens com desconto ou telemóveis TMN com preços mais baixos. Na cerimónia inaugural da agência de Vila Real, estiveram presentes o presidente da Inatel, Vítor Ramalho, o presidente do município, Manuel Martins, e o governador civil, Alexandre Chaves.

músicos. E entre os emergentes as escolas voltarão a estar no centro das atenções, este ano com 17 combos dos mais variados pontos do país.

Documentário Inatel sobre o património Imaterial l Registar

o património português, através

da recolha das práticas e tradições orais de norte a sul do país, descobrindo a riqueza rítmica de cada paisagem sonora e explorando a ideia de um país culturalmente diversificado, é o objectivo do documentário que Tiago Pereira - autor e realizador com experiência e premiado com trabalhos nesta área - está a realizar, por iniciativa do departamento de Cultura

Linhares da Beira

da Inatel. Com este documentário, cuja apresentação está prevista para Maio,

lA

Unidade Hoteleira de

pretende-se, no essencial, descobrir e

Linhares, localizada no

transmitir as influências a que as

coração da aldeia histórica de

comunidades foram expostas, e o modo

Linhares da Beira, reabriu ao

como estas se foram actualizando nas

público em Março, após

suas práticas quotidianas, num

interregno para obras de

paralelismo constante e dinâmico com a

beneficiação.

história nacional.

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"História do Cinema em sete realizadores" l

A Fundação INATEL organiza,

nos dias 14 e 15 de Maio, no Cinema City Classic Alvalade, em Lisboa, o workshop "História do Cinema em 7 Realizadores". Viagem pela história do cinema, com abordagem a alguns filmes e realizadores que marcaram a 7ª Arte (irmãos Lumiére, Fritz Lang,

"Inatel 75 anos das colónias de férias da FNAT à rede hoteleira do século XXI"

Orson Welles e Steven Spielberg, entre outros), esta iniciativa será uma a oportunidade para cinéfilos, estudantes de audiovisual e público em geral, conhecerem o contexto cinematográfico de

lA

adesão de cerca de 300 novos associados à Inatel, que beneficiaram da promoção de isenção de jóia, foi um dos pontos salientes da presença da Fundação no mais importante certame de turismo do país, a BTL (Bolsa de Turismo de Lisboa), que teve lugar em Fevereiro último, na FIL. Outro facto a destacar da presença da Fundação na BTL 2011 foi o lançamento do livro "INATEL 75 anos: das Colónias de Férias da FNAT à rede Hoteleira do Séc. XXI". Coordenada por Ana Xavier, com pesquisa de Maria Fernanda Rollo, Ana Paula Pires e Paulo Lopes, fotos Gonçalo de Sá e redacção de Lígia Reys e Ana Bilé Serra, a obra, de inegável qualidade gráfica - com descrições e história dos espaços envolventes, e ilustrada com belíssimas imagens das unidades - dá conta da evolução da oferta hoteleira da Fundação desde as primitivas

colónias de férias à actualidade. No uso da palavra no lançamento, que decorreu no auditório da BTL, Ana Xavier lembrou a importância do Estado social no tempo presente, sublinhando a função exemplar da Inatel nesse campo. Carlos Mamede, vice Presidente da Fundação, a par de palavras de louvor para os autores da obra, historiou a evolução e o papel da FNAT/INATEL ao longo de 75 anos na oferta turística a largas camadas da população com menores recursos e vincou a importância económica da rede hoteleira na obtenção de receitas que suportem a função social e cultural da instituição. O livro - que inclui três vouchers de alojamento com uma noite gratuita - pode ser adquirido nas agências Inatel por 20 euros (associados), 25 euros (não associados), ou 30 euros nas lojas Fnac.

cada um destes autores e o seu importante contributo para a história do cinema. As inscrições estão abertas, de 26 de Abril a 13 de Maio, no Cinema City Classic Alvalade (Av. de Roma nº100, na Loja Fundação INATEL (Rossio), Parque de Jogos 1º de Maio (Alvalade - tel.: 210 027 148) e cultura@inatel.pt. Preço: 25 euros / Ass. INATEL: 20 euros

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Notícias

Cem anos de turismo em Portugal l Assinalar os marcos históricos de 100 anos de turismo nacional, bem como debater o seu futuro e a sua importância económico-cultural, a par do posicionamento actual do país no mundo, particularmente no espaço lusófono, são os objectivos do Centenário do Turismo em Portugal, iniciativa que conta com o patrocínio do Presidente da República e o apoio do Governo. Exposições, conferências e concertos, a realizar em Abril e Maio, integram o conjunto de celebrações que evocam a institucionalização do sector turístico na orgânica do Estado português, em 1911. A Comissão Nacional do Centenário do Turismo em Portugal, presidida pelo arquitecto Jorge Mangorrinha, e que inclui, entre os

vogais, o vice-presidente da Inatel, Carlos Mamede, preparou um Programa com origem nas comunidades científica e empresarial, contando com a adesão de dezenas de entidades académicas, autárquicas e empresariais. De 30 de Abril a 1 de Julho, decorre, no Fórum da Maia, a exposição "100 Anos de Turismo nas Páginas da Ilustração Portuguesa", revista profundamente representativa de um conjunto de ideias da sua época. No eixo 'rede de reconhecimento', a decorrer em Chaves (13 de Abril e 4, 11, 18 e 25 de Maio) e Macedo de Cavaleiros (9 de Abril), haverá conferências com especialistas nacionais e espanhóis sobre diferentes experiências e modalidades turísticas.

Artistas de Angola na Galeria de do Casino l Vai

realizar-se, de 16 de Abril a

11 de Maio, na Galeria de Arte do Casino Estoril, uma exposição de Artistas Angolanos, que abrangerá as modalidades de pintura, escultura e fotografia e que envolverá uma homenagem ao pintor Albano Neves e Sousa, um dos artistas que mais e melhor pintou a riquíssima temática daquele grande País. Foram convidados para participar nesta exposição artistas nascidos em Angola, mas também artistas que ali residiram durante grande parte da sua vida.

Ana Tecedeiro no Round the Corner "De Portugal a Cipango…" l Até

Junho próximo, o Paço

dos Duques (Guimarães) está patente "De Portugal a Cipango", uma exposição que nos leva em viagem pela Epopeia dos Descobrimentos Portugueses" e onde avultam, a par das tecnologias da época, as figuras do Infante D. Henrique, Gil Eanes, Bartolomeu Dias, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, Camões, Pedro Nunes e Duarte Pacheco Pereira. Esta "viagem por lugares, culturas, tradições e cheiros de África, Índia, China e Japão", é ilustrada por l Até

21 do corrente, na galeria Round the Corner, do Trindade, está patente um

objectos da colecção do Paço

trabalho de Ana Tecedeira, "Construção para encantar meninas bonitas". Natural de

dos Duques, desde o mobiliário

Santarém (1979) Ana Tecedeiro é Mestre em Artes Visuais - Intermédia pela

à escultura, dos têxteis às

Universidade de Évora e Licenciada em Pintura pela Faculdade de Belas-Artes da

porcelanas passando pela

Universidade de Lisboa.

pintura e pelas armas.

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Notícias

VI Festival Internacional da Máscara Ibérica lA

6º edição do Festival Internacional da Máscara Ibérica terá, a 30 de Abril, o seu ponto alto, no Rossio em Lisboa, com o habitual desfile, considerado o maior na Europa e que, este ano, traz à capital portuguesa grupos de toda a Península Ibérica, Sardenha, Irlanda e Bulgária. Para além do Desfile, o Rossio volta a receber mais uma edição da Mostra das Regiões de 28 de Abril a 1 de Maio, com animação e promoção institucional/turística e cultural da oferta de cerca de 16 regiões ibéricas distribuídas por 21 stands. Zamora, Cantábria, Principado das Astúrias, Turismo do Alentejo, TGLA - Turismo do Grande Lago do Alqueva, EDIA,

Aldeias do Xisto, Associação de Artesãos da Serra da Estrela, Adraces, Municípios de Mogadouro e Seia, para além das tasquinhas ibéricas desde o Alentejo às Astúrias. O programa inclui espectáculos de palco de música tradicional e moderna, arruadas, dias temáticos (Zamora, Sexta e Cantábria, Sábado) gastronomias no Hotel Tivoli, workshops, exposições, artesanato ao vivo e muito mais. A Inatel que integra as entidades apoiantes do Festival, terá, durante o evento, um balcão da Fundação, no Rossio, com o objectivo de divulgar os nossos serviços e angariar novos Associados.

Portugal O'Meeting 2011 lO

POM - Portugal O'Meeting

2011, que decorreu em Alter do Chão na primeira semana de Março, envolveu 1800 atletas de 35 países, com destaque paras as equipas da Finlândia, Suécia e Suíça, com numerosos participantes. Organizado, uma vez mais, pelo Grupo Desportivo 4 Caminhos, associado colectivo da Fundação INATEL, o POM 2011 considerado o maior evento mundial da modalidade - teve o apoio das câmaras de Portalegre, Crato, Alter do Chão, da Federação Portuguesa de Orientação e da Direcção Desportiva da Fundação. Integradas no ranking mundial da Federação Internacional de Orientação (IOF WRE) e no

Festival de Natação

ranking da Taça de Portugal da Federação Portuguesa de Orientação, as provas do POM, que tiveram a presença de atletas de nível mundial, registaram as seguintes classificações: Masculina: 1º - Thierry Gueorgiou (FRA) - 28:41; 2º - Oleksandr Kratov (UKR) - Feminina: 1º Simone Niggli-Luder (SUI) - 34:04; 2º - Maja Alm (DEN) - 34:43; 3º (exe quo) Venla Niemi (FIN) e Tove Alexandersson (SWE) - 34:44

lO

Festival de Carnaval, que decorreu em meados de Março nas piscinas da

Fundação no Parque de Jogos 1º de Maio, teve a participação de 240 alunos da Escola de Natação INATEL, dos seis aos 14 anos, que competiram entre si num ambiente de sã e fraterna camaradagem desportiva. 12

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Conferências Inatel Desporto l A Direcção Desportiva da INATEL iniciou em Março, com o prof. Fernando Seara, um Ciclo de Conferências destinado a abrir o espaço à discussão e interacção entre os agentes do fenómeno desportivo e a todos os interessados na valorização de uma sã "cultura desportiva". Sob o tema "O Desporto em Mudança", o actual autarca de Sintra e potencial candidato à presidência da Federação Portuguesa de Futebol abordou diversos aspectos do mundo desportivo, sublinhando, numa dinâmica interactiva com os presentes, a necessidade de maior transparência e convergência dos múltiplos agentes e organismos do desporto nacional. No final da conferência, realizada na Universidade Lusófona, Moreira Marques, administrador da Inatel, ofereceu a Fernando Seara o livro comemorativo dos 75 anos da Fundação, seguindo-se um animado convívio e um elogiado "appetizer", preparado e apresentado pela equipa de Adélio Duarte. A próxima conferência terá lugar a 6 de Abril, na Agência do Porto da Fundação INATEL - Casa Jorge de Sena. Serão oradores prof. Carlos Resende e o Atleta Olímpico João Brenha. Tema: Gestão Desportiva e Gestão de Carreiras.

Taça Fundação INATEL lO

sorteio da fase final da Taça INATEL de futebol

vai ter lugar no próximo dia 7 de Maio na agência do Porto da fundação. Iniciado em Setembro último, o torneio nacional da modalidade envolveu cerca de 7500 atletas em representação de cerca de 300 equipas de Portugal Continental e das Ilhas. No dia 1 de Maio termina a Fase de Agência com as respectivas finais que definirão as 16 equipas apuradas, que vão disputar um lugar na Final, a realizar no Parque de Jogos 1.º de Maio, em Lisboa, no dia 5 de Junho. O sorteio da fase final terá, a par dos representantes das equipas finalistas, a presença de vários convidados e figuras do desporto e incluirá um momento musical por CCD's associados da Fundação e um cocktail de convívio para todos os participantes.

Moreira Marques, administrador da Inatel, entrega a Fernando Seara o livro comemorativo dos 75 anos da Fundação


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Notícias

Turismo e natureza

"Bike Friendly INATEL" Aliar à hotelaria actividades que permitam usufruir, em pleno, da beleza paisagística envolvente, é uma das fortes apostas da INATEL Turismo através do inovador projecto "Bike Friendly INATEL" com trilhos para passeios a pé ou de bicicleta, orientados por GPS. lO

interesse pela natureza e pelas actividades de ar livre, aproveitando as potencialidades do GPS, um equipamento fundamental para determinar a posição geográfica e dar a conhecer as coordenadas de um determinado lugar, são o mote para a área de Turismo e Hotelaria da Fundação INATEL inovar e reforçar a oferta de produtos na sua rede hoteleira. Neste sentido, foi apresentado aos jornalistas na unidade de Fornos de Algodres (Vila Ruiva), em Março último, um projecto, pioneiro em Portugal, intitulado "Bike Friendly INATEL" que, há semelhança do praticado em muitos países estrangeiros, apresenta condições especiais para acolher de forma adequada os amantes e praticantes de

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BTT que viajam com a sua bicicleta. O projecto, delineado em cooperação com a empresa "A2ZAdventures", identificou na proximidade de cinco unidades hoteleiras da INATEL - Piódão, Manteigas, Alamal, Castelo de Vide e Vila Ruiva - diversos percursos/trilhos específicos para BTT com diferentes níveis de dificuldade, que serão disponibilizados por GPS e que permitem a cada ciclista escolher o trilho que mais desejar. A unidade hoteleira, por sua vez, passa a integrar um conjunto de serviços de suporte à modalidade, que vão desde o local apropriado para guardar em segurança a bicicleta, à "estação de serviço" para lavar e realizar pequenas reparações antes, durante e no final de cada passeio, ao tratamento de equipamento de ciclista e, ainda, à disponibilização de um menu com sugestões alimentares

ideais à prática da modalidade. Este novo produto, pioneiro no país, em conjunto com os trilhos pedestres que integram a iniciativa "Caminhar com a INATEL", lançados com idêntica filosofia em 2010, reforçam os serviços disponíveis na hotelaria e, sob a tónica da preservação da saúde, permitem usufruir do melhor que a natureza oferece. No encontro com os jornalistas presentes, Carlos Mamede, vicepresidente da INATEL e responsável pela área de Hotelaria e Turismo da Fundação, sublinhou "a aposta no turismo de natureza" e convidou a imprensa a experimentar "in loco" um trilho pedestre e um percurso de BTT, convite aceite e claramente desfrutado pelos respectivos participantes. Também António Vilela, coordenador deste projecto Inatel, deu conta das próximas iniciativas de BTT, nomeadamente "os 100km INATEL - unir em quatro dias algumas unidades hoteleiras - e o grande percurso de BTT, em 2012, que envolverá toda a rede hoteleira do continente". n Glória Lambelho (texto e fotos)


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Fotografia

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XV Concurso “Tempo Livre”

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Regulamento 1. Concurso Nacional de Fotografia da revista Tempo Livre. Periodicidade mensal. Podem participar todos os associados da Fundação Inatel, excluindo os seus funcionários e colaboradores da revista Tempo Livre. 2. Enviar as fotos para: Revista Tempo Livre - Concurso de Fotografia, Calçada de Sant’Ana, 180 - 1169-062 Lisboa. 3. A data limite para a recepção dos trabalhos é o dia 10 de cada mês.

Menções honrosas [ a ] Alberto Cardoso, Lisboa Sócio n.º 8248 [ b ] Sérgio Guerra, S.João do Estoril Sócio n.º 204212 [ c ] Fernando Ledo, Viana do Castelo Sócio n.º 349141 [a]

4. O tema é livre e cada concorrente pode enviar, mensalmente, um máximo de 3 fotografias de formato mínimo de 10x15 cm e máximo de 18x24 cm., em papel, cor ou preto e branco. 5. Não são aceites diapositivos e as fotos concorrentes não serão devolvidas. 6. O concurso é limitado aos associados da Inatel. Todas as fotos devem ser assinaladas no verso com o nome do autor, morada, telefone e número de associado da Inatel.

[ 1 ] Maria Silva, Cacém Sócio n.º 493267 [ 2 ] Osvaldo Mendes, Lisboa Sócio n.º 498359 [ 3 ] Miguel Teotónio, Beja Sócio n.º 454082

7. A «TL» publicará, em cada mês, as seis melhores fotos (três premiadas e três menções honrosas), seleccionadas entre as enviadas no prazo previsto.

[b]

8. Não serão seleccionadas, no mesmo ano, as fotos de um concorrente premiado nesse ano 9. Prémios: cada uma das três fotos seleccionadas terá como prémio duas noites para duas pessoas numa das unidades hoteleiras da Inatel, durante a época baixa, em regime APA (alojamento e pequeno almoço). O prémio tem a validade de um ano. O premiado(a) deve contactar a redacção da «TL».

[c]

10. Grande Prémio Anual: uma viagem a escolher na Brochura Inatel Turismo Social até ao montante de 1750 Euros. A este prémio, a publicar na «TL» de Setembro de 2011, concorrem todas as fotos premiadas e publicadas nos meses em que decorre o concurso. 11. O júri será composto por dois responsáveis da revista T. Livre e por um fotógrafo de reconhecido prestígio.

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Vidas seniores

Parar é morrer O bilhete de identidade dá-lhes a todos mais de 70 anos. Mas, na prática, têm um espírito mais jovem e mais vontade de viver do que muitos adolescentes. Cinco histórias que provam que velhos só mesmo os trapos...

ara além da solidão, a morte do marido trouxe a Giovanna Bessone outra coisa: a vontade de deixar de andar a pé nos altos e baixos da vila de Caxias. Por isso, dois anos depois de ficar viúva, aos 57, tirou a carta de moto e arranjou o meio de transporte que ainda hoje a leva para qualquer lado. A acelera Honda não dá possibilidade a grandes correrias, "a moto não dá mais de 50 km/h, mas eu nunca chego lá, ando a 30 ou a 40", e as andanças são só pela zona perto de casa. Em Caxias não há quem não a conheça. É a senhora velhinha que anda de moto, para alguns.

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Para os mais jovens que se cruzam com ela na estrada e ficam de olhos esbugalhados é a "avozinha terrível"! Quem por ela passa, luvas na mão para combater o frio, um kispo quente ou uma capa de borracha quando chove, capacete aberto que deixa vislumbrar os seus ondulados cabelos brancos, não consegue deixar de largar uma gargalhada. As amigas também se riem e não escondem que até têm uma pontinha de inveja. A maioria delas já deixou de conduzir e passa a vida a pedinchar boleia às que ainda se aventuram na estrada. A única filha acha piada a esta forma de vida da mãe, mas não esconde que tem medo que lhe aconteça alguma coisa. E já acon-

teceu. Um táxi em contramão valeu-lhe um braço partido. Nem depois do susto pensou deixar o seu veículo de lado, nem tão pouco a família a "obrigou" a pendurar o capacete. Quando quis comprar uma moto nova, valeuse de algumas revistas da especialidade que o neto lhe levou lá a casa e concluiu que dentro do que estava disposta a pagar a Honda "é a melhor e mais leve. A Yamaha era muito boa, mas já estava desbotada e era muito pesada. A moto nova tem sido um sucesso e até o senhor padre a tem elogiado!" Giovanna olha para a moto como o seu mote de viragem. É a sua forma de se manter livre, de

Giovanna Bessone e, na página da esquerda, Julieta Infante

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fazer as suas coisas sem precisar de ajudas e, no fundo, é o que lhe permite não ficar horas intermináveis em casa a ver televisão. Claro que, às vezes, também fica recostada no sofá da sua sala com janela com vista para o Tejo, o gato Girassol aninhado na manta, e a televisão sintonizada na RAI Uno, canal da sua Itália. Ultrapassada a fasquia dos 80, não pensa muito nas rugas e na passagem do tempo. "Nunca me senti infeliz. Oxalá tenha possibilidade de viver mais anos com saúde. Eu sei que a velhice ataca sempre, mas não me sinto obcecada a pensar no futuro."

Pedalar aos 82

Álvaro Santos chega a fazer 80 km por dia no Verão

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Álvaro Santos também sente assim. Aos 82 anos é um homem feliz e realizado, sabe que parar é morrer e esse é um verbo com que não se preocupa. "Eu sei que tenho que morrer e isso não me causa qualquer obstáculo e preocupação. Não me posso queixar da vida que tenho vivido até aqui. Não gosto é de estar parado." Por isso, ainda dentro da barriga da mãe começou a pedalar. Contas feitas, assim já lá vão 82 anos e nove meses a peda-

lar. Álvaro Santos não fez do ciclismo profissão, mas já deve ter mais quilómetros nas pernas que muitos atletas à séria. Não há dia em que não vista o fato de treino para andar de bicicleta, mas não só. No ginásio da Escolinha da Bicicleta faz quase todos os dias duas horas de preparação no ginásio. Por este par de horas de exercício chega a perder 1,5kg, o suficiente para abater os doces a que não resiste. "Gosto de bolos, de gelados, de tudo o que seja doce e bem feito. Não resisto a chocolates, pastéis de nata, tarte de requeijão, doce de ovos e trouxas-de-ovos", explica. E no dia de ir fazer análises não há resultados que o assustem: "Não tenho diabetes nem colesterol." Tirando este pecado, o professor de bicicleta faz tudo para se manter em grande forma: três refeições por dia e nunca bebeu álcool nem fumou. O café é que lhe estraga um pouco a alimentação saudável, chega a beber seis a sete por dia. O pequeno-almoço, embora em quantidades reduzidas, é para estômagos resistentes: um prato de Nestum com mel ou uma chávena de chá com leite com pão lá dentro. Pesa 65kg, mede 1,78m e diz que a actividade


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física transmite-lhe mais alegria e satisfação. E foi talvez por sempre ter feito desporto que há cerca de onze anos conseguiu ultrapassar uma grave doença: "Tive um linfoma. Fiz quimioterapia e radioterapia. Este último tratamento deixoume sem glândulas salivares, por isso tenho que comer tudo muito bem passado e em pequenas quantidades." Nada que lhe roube a alegria de viver. E muito menos de andar de bicicleta. Durante a semana faz os seus passeios a pedalar e ensina pessoas de todas as idades a andar de bicicleta na Escolinha da Bicicleta. No Verão chega a fazer 80 km por dia só para ir comprar o jornal e tomar o pequeno-almoço. Mas 80 nem é o número mais impressionante. Já foi de Lisboa a Coina, o que são 114km ida e volta, já foi de Sesimbra ao Algarve, o que significa que em dois dias percorreu mais de 330km em cima da sua bicicleta. "Quando deixar de fazer desporto deixarei de ser eu! O desporto é fundamental para a preservação da saúde." Na sua vida já foi atleta em várias áreas: futebol, voleibol, andebol, natação… Por isso, se os pulmões aguentam e se o coração pede para sentir a adrenalina de ginasticar os músculos, porquê ficar parado?

Os livros e a dança Elsa Noronha não conhece Álvaro, mas partilha com o atleta a ideia de que ficar parado é uma perda de tempo. O seu dia começa às oito da manhã e só acaba de madrugada, lá por volta das duas. Essas 18 horas quase são curtas para tudo o que gosta de fazer: ler, escrever, ir aos ensaios do coro que frequenta há 15 anos, tocar piano, mexer no computador ou frequentar as aulas de informática em que está inscrita, pintar, desenhar, cozinhar, ir cantar à Escola de Jazz Seixal, na Amadora, dançar. Viver, simplesmente. "Não sei o que é estar parada um quarto de hora. Tenho necessidade de expandir o que anda cá dentro. Adoro dançar. Todas as costelas dançam quando a música toca. No meu dia-a-dia, arrumar a casa é a última coisa que me ocorre fazer!" Talvez por isso os inúmeros livros que já leu, e outros tantos que ainda tem para ler, acumulam-se na cozinha, na casa de banho, na sala, debaixo da cama. Lê

para se cultivar, lê porque faz parte do seu trabalho: declamadora de poesia. "A vida não são só rosas/ e mesmo que fosse/ as rosas têm espinhos e nem por isso as deitamos fora/ É a vida..." declama para nos abrir o apetite. Os 76 anos não lhe tremem as palavras e é talvez com a mesma segurança com que aos dez anos declamou o "Bate leve, levemente" que ainda hoje enche salas de pessoas ávidas de ouvir poesia, sua ou dos outros. Elsa Noronha tem uma vontade infinita de aprender. Por isso mesmo, sempre que sabe do início de um curso que lhe interessa, lá está ela. "Aprendemos até ao fim dos dias. Um dia que não aprenda é um dia vazio. Tenho uma ânsia enorme de saber. Não é para exibir o que sei, é para poder conversar com outras pessoas." Declamar poesia não é brincadeira de miúdos. "Já ensaiei em frente ao espelho. Ainda hoje perco dezenas de horas a estudar um poema para perceber a mensagem e a investigar na internet. Frequentei cursos intensivos de colocação e de projecção de voz, outros de expressão corporal. Preparo-me bastante quando vou dizer poesia." Em dias de trabalho, escolhe a roupa a preceito e conjuga-a com os temas das palavras que vai ler. Com o passar do tempo, a eterna estudante também lida bem, apesar das maleitas que o constante tic-tac do relógio já lhe tem trazido. "A passagem dos anos está a retirar-me a locomoção e a vista. Mas só o bilhete de identidade e os ossos é que me dizem que idade tenho", brinca. Ainda por cima, são tantos os sonhos que faltam realizar: terminar o curso de pintura, fazer o curso de informática musical, conseguir cantar sem papel na mão, aprender a tocar piano na perfeição e nunca deixar de conduzir. Porque no dia em que

O dia de Elsa Noronha começa às oito da manhã e só acaba de madrugada

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já não puder entrar no seu carro e partir para onde quiser, a sua casa vai tornar-se demasiado pequena e vazia. Aí sim, Elsa Noronha, a poeta do dizer, a senhora da trancinha vai morrer. De tristeza.

Vida de artista Na vida de Henrique Teixeira não há lugar para tristezas. É um sedutor. Casaco de cabedal comprido. Boina preta. Anéis nos dedos. Discurso inflamado quando fala de música... e de mulheres. Por isso, sente que ainda tem muito para dar no que toca ao amor. "Tenho capacidade para fazer mais um filho", afirma, cheio de vida. Até agora já teve três filhos e três netos, quatro casamentos e outras paixões intermédias. Assume que tem sorte com as mulheres, que sempre foi um mulherengo e que o mais provável é que até se volte a casar. Tudo isto sem nunca usar a palavra mágica: "Nunca disse 'amo-te' a nenhuma mulher! Apenas digo 'gosto muito de ti!" E, pelos vistos, chega. Para Henrique Teixeira, cantor romântico de profissão, amor só nas letras de música de Tony de Matos que habitualmente canta. Em jovem era electricista e só vestia a pele de cantor à noite. Agora, altura que já podia estar de pés enfiados nas pantufas, prefere fazer-se à vida e provar que tem tão boa ou melhor voz do que aos 18, quando começou. Três noites por semana canta numa casa de fados, em Alfama, onde só ganha 20 euros por noite. Sempre que é solicitado, reúne a sua banda, "Os Galitos", para cantar de kizomba até ao "La Bamba" em bailes, casamentos, o que for. "Gosto de cantar, por isso não fico em casa. Canto por prazer, mas também por dinheiro." Orgulha-se de já ter cantado ao lado de nomes tão sonantes da música nacional como António Calvário, Tony de Matos, Simone de Oliveira e Madalena Iglesias. Henrique Teixeira delira com a vida de artista. Gosta de estar em cima de um palco. Não passa sem uma boa dose de aplausos. Faz espectáculo quando canta e nem se importa quando as fãs mais atrevidas se agarram a ele. Tudo faz parte da performance de quem escolheu a vida de cantor para viver e... morrer. "Gostava de morrer no palco a cantar", assume emocionado. No palco é um jovem que pula e dança e que não sente que já, ou só, tem 73 22

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anos. "Nada me faz sentir que tenho esta idade, nem as dores. Penso sempre que há pessoas com 20 ou 30 anos que têm as mesmas dores." Dessa forma, a morte também não faz parte dos seus pensamentos. "Quando ela chegar vou com a consciência tranquila de que cumpri com a obrigação melhor que muitos outros."

A sénior modelo A outra artista desta história é Julieta Infante. Mão na anca, olhar fixo na objectiva, corpo esguio. Julieta tem pose e postura de manequim e faz disso o seu modo de vida. Gosta de roupa, de saber o que está na moda e de aparecer. Faz parte de agência de modelos Chiado Factory e passa os dias a ir a castings. "Lembram-se do anúncio do Sapo onde estão duas senhoras na paragem de autocarro? Uma delas sou eu! Já fiz publicidade ao Skip, a todas as redes de telefones, a quase todos os supermercados…" Antigamente foi apanhadora de malhas de meias, bordadora à máquina e durante vários anos fez venda directa de tupperwares e roupa. Foi este último trabalho que lhe abriu ainda mais o apetite para a moda. A morte do marido foi o impulso que faltava. "Fiquei viúva repentinamente e senti que não podia ficar em casa a viver aquela tristeza. Já tinha feito figurações em concursos e achei que podia enveredar por essa área." A família é o que de mais importante Julieta tem na vida, por isso a manequim dá muita importância ao que os três filhos e seis netos pensam do seu trabalho. "Tenho uma família que me adora e eles sabem que o que eu faço é sempre com muito respeito." Mesmo quando vai dançar, passatempo que adora e que ocupa grande parte dos seus tempos livres, não vai para lá à procura de namoricos. Como manequim que é, a sua aparência dá nas vistas, o que leva a alguns piropos na rua. Julieta acha piada, mas não lhes dá muito crédito. "Não me considero assim tão bonita", justifica. Mas tem cuidados com o corpo. "Uso um bom creme hidratante. Faço uma alimentação saudável. Não bebo bebidas alcoólicas e como poucos doces." O vasto guardaroupa ajuda a compor a imagem. Tal e qual muitas adolescentes, de manhã muda de roupa as vezes que forem precisas para se sentir bem com o que vê reflectido no espelho. Brincos e colares a condizer com a toilette nunca faltam. A boina dá estilo, esconde o cabelo quan-

do não está assim tão bem arranjado e aquece a cabeça no Inverno. No tempo frio prefere as calças, mas quando a temperatura começa a subir não prescinde de vestidos e saias. Quando vai às compras também se destaca da maioria das senhoras da sua idade: gosta de cores fortes e de lojas pouco clássicas. "Gosto de andar vestida de cor-de-rosa, de verde, de azul, de roxo… E não gosto nada de roupa para a minha idade. Uso calças de ganga e sempre que é preciso também calço uns ténis." O toque final é dado com um batom de tons claros e as unhas sempre bem arranjadas, também elas pintadas de cor discreta. Há beleza em todas as idades. n Mónica Menezes (texto) António Pedro Santos (fotos)

Julieta Infante faz parte de agência de modelos Chiado Factory e passa os dias a ir a castings. Henrique Teixeira, na página da esquerda, "Gostava de morrer no palco a cantar"

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Entrevista

Fernanda Freitas Milionária de afectos Jornalista portuense, primeiro na rádio e mais tarde na televisão, Fernanda Freitas está, há cinco anos, aos comandos do Sociedade Civil. O programa diário do Canal 2 pode não ser campeão de audiências mas leva a melhor no reconhecimento público. Um dia foi desafiada a ir contar histórias às crianças dos hospitais pediátricos, aceitou e hoje é uma voluntária militante. E agora também embaixadora do Ano Europeu do Voluntariado.

Como despertou para o voluntariado? Foi há sete anos, na Casa do Gil, estava a acontecer a Hora do Conto. Identifiquei-me imenso com os contadores de histórias e disse: que divertido que é, eu que gosto de falar e de partilhar histórias… depois explicaram-me que eles iam aos hospitais durante um determinado número de horas e faziam esta dinâmica com as crianças. E desafiaram-me. Disse que pelo menos gostava de experimentar. Fiz uma formação e experimentei. Correu bem logo à primeira. Disponibilidade e o entusiasmo são factores essenciais para fazer voluntariado… Sim, temos de estar felizes, porque se não o estivermos nunca conseguiremos chegar ao outro, mudar a vida do outro para melhor... Voltei aos hospitais pediátricos e de lá não saí, já lá vão quase sete anos. É uma experiência maravilhosa. Naquelas horas sei que as crianças esquecem que estão com soro, com medicamentos, com tratamentos invasivos e os pais durante uma hora e tal distraem-se. E depois escrevem-me a dizer: que bênção que foi o meu filho ter sorrido e já não sorria há 15 dias. E eu levo sempre umas histórias muito giras, muito interactivas, ninguém fica indiferente. Como faz essa selecção? Tenho o cuidado de saber que posso chegar à pediatria e ter desde bebés a adolescentes até aos 18. Tenho que levar alguma coisa que dê para 24

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estimular todas as idades. O que não é nada fácil. Mas encontrei uma história da qual sou fã, chama-se a Arca do Não É. É hilariante, porque quem escreveu esta história, Miguel Neto, mistura por exemplo uma sardinha e um gato, o que dá um Sargato. E qual é a chatice? É que o gato come o rabo da sardinha, está sempre a comer-se. E só o Sargato já dá uma festa. E depois todas as histórias são escolhidas tendo em conta os valores nos quais acredito: a inclusão; a não-violência; tenho meninos de muitas religiões; famílias monoparentais e numerosas; etnias diferentes... Não posso chegar lá e contar. E é muito bom fazer esta construção, até para mim, sou melhor ser humano desde que sou voluntária. Costumo dizer: sou multimilionária de afectos, porque enche-me de uma maneira… Recebe-se mais do que se dá? Sim e não nos devemos sentir mal por isso. Não devemos ter aquele espírito da caridade, estamos aqui só para dar… Não! É uma troca, eu dou-te isto e tu dás-me um sorriso, é o que peço. E continua a fazer voluntariado… Sempre, agora só mensalmente. Com o ano europeu do voluntariado, no qual também sou voluntária, não ganho um tostão por ser presidente, as tarefas são outras e as acções que faço são mais viradas para adolescentes nas escolas. É o público alvo? É um público que eu pessoalmente prefiro.


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Entrevista

Sempre que me convidam, faço acções de divulgação do que é o ano e para que serve, e o que é ser voluntário. Acho que o nosso ritmo de vida, a nossa escola, os pais e a sociedade não estão a dar ferramentas aos adolescentes para cultivarem essa generosidade. Como assim? A certa altura não conseguimos levá-los às actividades; não somos voluntários porque achamos não ter tempo e pensamos que o melhor para os nossos filhos é a casa, a educação, os brinquedos todos. E a minha pergunta é: e pô-los em contacto com o mundo real? Dizer-lhes há meninos que precisam da tua ajuda e podes fazer a diferença? Nas escolas lanço desafios e eles, por norma, ajudam. Passados seis meses vou lá monitorizar, porque acho importante saberem que alguém espera que eles cumpram – é o compromisso. E a resposta? Extraordinária. Há uma escola que não tinha estruturada a ajuda que poderia dar, porque há o preconceito de que só se pode ajudar indo para o outro lado do mundo. E perguntei-lhes: antes de atravessar o mundo, porque não atravessam a rua? Talvez haja à volta do vosso bairro, da vossa escola que precisa da vossa ajuda… Foram ao lar de idosos da rua e começaram a ensiná-los, uns a ler e outros a trabalhar com o computador; recolheram roupa para o Centro Porta Amiga, ofereceram-se como voluntários para o Somos pessoas Banco Alimentar… Assim, de um iguais e um dia desafio. E do que é que os miúdos poderemos ser mais gostam? De serem desafiabeneficiários de dos… voluntariado. …e sentirem-se úteis. Precisamos sempre Exacto. O melhor que se pode todos uns dos dizer a uma pessoa é: tu és útil, tu outros és capaz e fazes falta. Começo sempre as minhas acções perguntando-lhes o que é mais importante na vida. E dizem o pai, a mãe, o namorado, os amigos…e depois pergunto quanto é que isso custa. E eles põem-se a pensar. Pois é, não custa nada. As melhores coisas da vida são grátis e o ser voluntário é grátis e tem um retorno emocional brutal. E os miúdos estão mais permeáveis… …a receber este tipo de informação de que não estavam à espera. Porque os pais não têm tempo e não faz parte do

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curricula a escola ser solidária, esse é o grande desafio. Por isso é que adoro ir a escolas. Todas as Quintas-feiras vou a duas em diferentes zonas do país. Comecei por Lisboa mas agora tenho Pombal, Leiria, Coimbra, ando por aí. Vai ser uma volta a Portugal do voluntariado (risos). Neste ano europeu há 500 acções programadas e mostras um pouco por todo o país… Sim. Mas o mais curioso é que isso é o que sabemos que vai acontecer. Mas a maior parte das vezes nem sabemos. Só nos dão conta depois ou porque lemos num jornal local… Para dar início ao ano abrimos com uma mostra de voluntariado no Forum Picoas. Como somos um pouco ambiciosos, e em vez de se fazer só em Lisboa, arriscámos alargar o conceito a outras cidades. E vamos fazer no Porto, em Aveiro, em Évora, Portalegre, Setúbal, Madeira, Bragança, Braga, Coimbra, Leiria, Lamego Açores… São mostras locais. Sim, ou seja, na nossa região a oferta de voluntariado é esta e estão lá as instituições todas. Em Lisboa tivemos 16 instituições por dia e durou uma semana, tivemos 6500 visitas. Foi acima da média europeia; num dia fizemos o mesmo que em três dias na Áustria. O mais engraçado é receber emails de cidades mais pequenas que perceberam o conceito e tomaram a iniciativa de o replicar nas freguesias. Oliveira de Azeméis vai fazê-lo, acabo de receber um convite para ir abrir a volta municipal. Estas coisas são estimulantes. Até hotéis nos telefonam a pedir para usar o nosso logotipo, para que os clientes saibam que eles são solidários com o Ano Europeu do Voluntariado. Mas quem faz o voluntariado ainda não é valorizado. E esse é o grande o grande objectivo. Não podemos ter uma visão empoeirada, somos pessoas iguais e um dia poderemos ser beneficiários de voluntariado. Precisamos sempre todos uns dos outros. E os miúdos perguntam-me se por ajudar os amigos não se é voluntário. Não, és boa pessoa. Dou sempre a imagem da senhora a atravessar a rua: estás na passadeira, vê-la com os sacos e ela pede-te ajuda para atravessar a rua. Atravessas a rua, pousas os sacos e vais à tua vida, foste boa pessoa. Mas se tu combinares todas as Segundas fazeres essa tarefa, já estás a ser voluntário, a assumir um compromisso. Nós


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temos os picos de generosidade concentrados ou nas catástrofes, como aconteceu na Madeira, ou no Natal. E eu quero que isto seja diário. E você? Todos os dias, conjugo o verbo ajudar na primeira pessoa. E se um dia precisar de ser ajudada, que bom que é essas pessoas estarem disponíveis para me ajudar. E isso é valorizar quem faz o voluntariado e o próprio valor do voluntariado. Um país mais voluntário só pode ser um país mais feliz. E quem diz que já faz a sua parte fazendo o seu trabalho e pagando os impostos, está no seu direito, só acho que está a perder uma parte da vida que é fabulosa. E eu posso dizer isso porque só há sete anos comecei a ser voluntária. Se eu soubesse tinha começado aos 19. Eu já ajudava. No clube onde fazia karaté ajudava a organizar a parte de secretaria e não era suposto. Mas nunca fui voluntária. Agora tenho o compromisso, está na agenda. Aquele dia, aquela hora vai fazer a diferença na minha vida e na dos outros. Há números do voluntariado em Portugal? Há, mas são de 2001; agora queremos fazer esse balanço e analisar o que está a correr bem e menos bem nos bancos locais de voluntariado. Vamos ainda fazer várias conferências. A primeira é em Maio, na Gulbenkian, sobre a identidade cultural dos voluntários do Mediterrâneo. Vamos trazer boas práticas de outros países, para além de Portugal, de Espanha, França, Itália, Grécia, Malta e Chipre. Temos também um congresso sobre voluntariado empresarial, outro sobre o papel das fundações no voluntariado.

E termina com a Lotaria do Voluntariado? Ainda não sabemos. Na Europa, o ano começou no Dia do Voluntário, a 5 de Dezembro. E nós queríamos que em Portugal acabasse aí, em festa. A Lotaria do Voluntariado anda à roda nesse dia – a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e os Jogos da Santa Casa tiveram a amabilidade de se juntar a nós e estão a fazer mais coisas. Há cinco anos regressou à RTP, com o programa Sociedade Civil, onde se apela à cidadania. O que tem sido mais estimulante neste trabalho diário? Para já, este ambiente de que a sociedade civil existe em Portugal, pode fazer muito e faz. Começamos sempre com notícias positivas, é fundaO melhor que se mental e marca muito, tanto pode dizer a uma quem lá vai fazer notícias como pessoa é: tu és útil, tu os convidados. Mas só podemos és capaz e fazes fazer um balanço positivo de um falta programa que tendo audiência muito residual, tem o reconhecimento do público e dos parceiros. Já ganhou 12 prémios de jornalismo, e tenho convidados que me dizem só ir a este tipo de programas, porque têm tempo e espaço para falar e discutir ideias. Têm já 120 parceiros que todos os dias contribuem com novidades. Há alguma história mais recente que lhe tenha despertado mais a atenção? Fazemos as eco-famílias, uma parceria com a Quercus, onde se dá ferramentas às pessoas para pouparem dinheiro e o ambiente, é um projecto de sustentabilidade ambiental e económica. A petição do Direito à Alimentação, apesar de não ter sido específico do Sociedade Civil, partiu da iniciativa de um piloto que primeiro lançou uma ideia no Facebook e depois criou uma petição. Associei-me, fui convidada para ser embaixadora do projecto porque é uma acção da sociedade civil. Evitar que as cantinas deitem refeições para o lixo para depois as pessoas lá irem buscar as refeições, é ridículo, é uma questão de saúde pública e de dignidade. Temos o alto patrocínio do Presidente da República, foi a primeira pessoa a assinar este protocolo, o que me deixa muito orgulhosa. São duas acções da sociedade civil que tive muito orgulho em partilhar. n Manuela Garcia (texto) José Frade (fotos)

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Viagens

Copenhaga Capital nórdica com sabor latino A capital da Dinamarca é um destino que nos leva mais longe. A pé ou de bicicleta pode-se percorrer uma cidade que desperta diferentes sensações cada um regressará com as suas para contar. O mais surpreendente na viagem é sentir algum calor latino neste povo da Escandinávia.

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ista do céu, junto da pequena janela oval do avião, de olhos bem abertos, uma imagem que ressalta à chegada a Copenhaga é a das torres eólicas no mar - uma energia que parece saudar os visitantes no movimento giratório das pás. Já com os pés assentes na terra, eis a surpresa de encontrar um povo nórdico que sabe acolher com calor os turistas, que não se esquiva às perguntas curiosas de quem vem de fora, que responde em inglês, que não se importa de estar ao nosso lado dois ou três minutos com o mapa na mão a indicar o caminho mais rápido para chegar ao destino. Copenhaga é relativamente pequena. A pé ou de bicicleta descobrem-se com alguma facilidade os sítios que merecem uma visita. Num primeiro olhar pela cidade saltam à vista os pináculos verdes, a arquitectura colorida, os canais que fazem recordar Amesterdão, o movimento constante de gente a pedalar nos corredores das bicicletas. O som das campainhas faz-se ouvir sempre que algum peão confunde os corredores das bicicletas por uma zona pedonal e atravessase para procurar o melhor ângulo para tirar uma fotografia. O melhor retrato da cidade tira-se, em cada momento ou espaço, quando se pára demoradamente para observar as gentes e os lugares com a certeza de que viajar é olhar - como dizia Sophia de Mello Breyner Andersen, que escreveu A

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Menina do Mar e que nos faz evocar um outro grande escritor, Hans Christian Andersen, tão importante para Copenhaga, autor do conto A Pequena Sereia. Marco emblemático da cidade é precisamente a Pequena Sereia pousada numa rocha a olhar o mar - estátua encomendada por Carl Jacobsen, magnata da cerveja Carlsberg. Não será, provavelmente, o melhor nem o maior monumento do mundo, mas é a principal atracção portuária de Copenhaga. O passeio pelas margens de um dos mais longos embarcadouros do mundo (o maior é o de Miami) e por Kastellet (fortaleza edificada para protecção contra o povo sueco usada uma vez contra os ingleses) eleva os olhos para novos horizontes.

Pulsar a cidade Um outro porto onde apetece atracar é no canal Nyhavn. Uma âncora à entrada de Nyhavn perpetua a memória dos marinheiros que morreram na II Guerra Mundial. O canal, cheio de barcos, de frente para casas cheias de cor, restaurantes e bares, onde antes havia bordéis e tabernas, é uma das zonas mais pitorescas da cidade. Nas casas que outrora pertenceram aos mercadores imaginou Andersen o seu primeiro conto, O Isqueiro Mágico, escrito no n.º 20, em 1835. A caminho de Nyhavn passa-se por Kongens Nytorv (Nova Praça do Rei), uma das zonas mais elegantes da cidade. Ali perto, pode fazer compras em Strøget, onde há de tudo um pouco. A


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Viagens

também colecções de arte

muito mais do que um parque

impressionista e pós-

de diversões, num ambiente

VISITAR

impressionista dinamarquesa

mágico para crianças e

COMER

O Nationalmususeet, para

e francesa; a Fábrica de

adultos, onde Walt Disney se

Pratos típicos e acessíveis:

conhecer a história e a cultura

Cerveja Carlsberg, com uma

inspirou numa visita em 1950.

Frikadeller: Almôndegas de

da Dinamarca e colecções de

exposição que narra a história

porco e vitela fritas em

antiguidades gregas e

da cervejaria e de marcas de

ÚTEIS

manteiga com batatas; Stegt

egípcias; a Ny Carlsberg

cerveja e direito a uma visita

Os museus fecham à

Flaesk: Costeletas de porco e

Glyptotek - galeria de arte com

guiada às antigas instalações

segunda-feira e há museus

molho de salsa com batatas;

uma colecção de antiguidades

e a provas de cerveja.

grátis. O Copenhagen Card dá

Smorrebrodsmad: Sanduíche

da Grécia, Egipto, Roma e

Se tiver tempo, o viajante

descontos e entradas em mais

aberta (pão de centeio) com

Costa Mediterrânica. Tem

pode, ainda, visitar o Tivoli,

de 60 lugares.

bife com molho de rabanete.

GUIA

loja da Lego, por exemplo, leva-nos para um mundo de fantasia, onde brilham os olhos de miúdos e graúdos. Os mais crescidos regressam, aqui à infância. O regresso ao passado é vivido também no Bairro Latino, onde se sente de maneira especial a pulsação da cidade. É lá que se encontram a primeira universidade da Dinamarca e alguns edifícios medievais. A Torre Redonda com 34,8 m de Cruzeiros INATEL altura e a sua rampa em espiral são um ícone a não Copenhaga é uma das cidades que perder - no topo, uma os participantes dos Cruzeiros panorâmica de 360 graus da Fiordes da Noruega+Alemanha e parte velha da cidade que se Dinamarca poderão visitar nas grava na retina. Merece viagens previstas para Junho, Julho ainda a pena uma passagem e Agosto próximos. Os cruzeiros, pela Igreja da Trinitatis ou com duração de nove dias, têm espreite-a através do vidro, passagem por outras cidades da logo na entrada da rampa. Alemanha, Dinamarca e Noruega. Noutro lugar imperdível Inscrições e outras informações nas da cidade está a Igreja de Agências Inatel. Mármore, cuja cúpula é uma das maiores da Europa com 31 metros de diâmetro. O modelo foi a de São Pedro da cidade do Vaticano. Entre a igreja e a praça octogonal está o Eixo Dourado. É na praça aristocrata que vive a família real. A Guarda Real Dinamarquesa rende de duas em duas horas, quando a rainha está em casa. Na extensão do eixo está a Ópera - uma construção moderna que causou polémica. Noutro ponto assinalável para o povo dinamarquês, onde se ouve outro tipo de música, situa-se o Parlamento. Reza a História que foi aqui, no século XI, que o bispo Absalon cons32

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truiu um castelo que ardeu em 1794. O actual castelo neobarroco foi concluído em 1928. Outro castelo a ver é o de Rosenborg. À volta está um dos parques mais bonitos de Copenhaga. Rosenborg é usado como cofre do reino. É na cave que estão as jóias da coroa da Dinamarca. Como escreveu Italo Calvino em As Cidades Invisíveis, nenhuma cidade é igual a outra. Calvino tinha razão. Quem viaja nunca regressa o mesmo quando parte. n Sílvia Júlio (texto e fotos)


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Rituais

Mistérios da Páscoa em Idanha - a - Nova

A Romaria da Senhora do Almurtão A romaria em honra da Senhora do Almurtão, "a Virgem insofrida das praganas da planície", no dizer de Miguel Torga, é celebrada, na terceira segunda-feira, após a Páscoa, no meio das campanhas ou campina, a sete quilómetros da multissecular e arraiana Vila de Idanha-a-Nova, no Distrito de Castelo Branco. culto à Senhora do Almurtão remonta documentalmente a 1229, data do foral concedido a Idanha-a-Velha onde, ao demarcar os limites da Egitânia, já menciona: "ad Sanctam Mariam Almortom". O local de culto a Nossa Senhora do Almurtão tem raízes muito profundas de origem pagã conforme se comprova com o aparecimento, ali bem próximo, de uma ara dedicada a um deus lusitano. Os ranchos de romeiros, eivados de alegria sã, fortes e resistentes, calejados pelo labor diário do nascer ao Sol-pôr, em espírito de festa, com os seus típicos trajes arraianos, faziam da caminhada, para a romaria, um divertimento onde, natural e espontaneamente, ao som do milenar adufe, cantavam as mais belas quadras do seu muito rico Cancioneiro. Por que deixaram de vir a pé, em dia de romaria, já não param no artístico

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Cruzeiro, todo de soberbas formas cilíndricas, nem lá dançam e nem cantam ao som dos adufes, contemplando com paixão a acolhedora casa caleada da Virgem e o amplo terreiro. Senhora do Almurtão, / Já cá vamos ao cruzeiro, / Vamos ver as alegrias / Que vão no vosso terreiro. A Romaria inicia-se, na véspera, no Domingo de manhã, com a Missa que costuma ser transmitida, radiofonicamente, a nível nacional pela Rádio Renascença e a nível regional pela Rádio Urbana. É certo que, à beira do recinto, abundam os feirantes, os carrosséis são ensurdecedores e os vendedores da banha da cobra tornam-se, por vezes incómodos. Mas, tudo vale a pena, no dizer de Fernando Pessoa, quando a alma dos romeiros


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se enche, na altura em que, ao cair da noite, os ranchos dos devotos das terras circunvizinhas, que resistem ao abandono das suas tradições religiosas, essência das suas crenças e sentimentos, essência da sua fé e nobreza interior, se aproximam espontaneamente do portal da casa caleada da Virgem e cantam debaixo do gracioso alpendre as Alvíssaras, acompanhadas do toque do milenar adufe, por mãos hábeis e leves como uma pena, embora carregadas de anos. Senhora do Almurtão, / À vossa porta cheguei. / Tantos anjos me acompanhem / Como de passadas dei. No recinto, no artístico coreto, a Filarmónica Idanhense anima o arraial, até que aconteça o vistoso fogo-de-artifício, seguido do estrondoso fogo preso que ecoa ondulante, no manto de silêncio que envolve toda a campina. Dentro da ermida, enquanto para muitos dos romeiros que se sentam nos bancos, é tempo de rezar, de perdão, de misericórdia, e de contemplar, em silêncio, a serena, encantadora e sedutora imagem da Virgem, outros, entram, calmamente, pela coxia ou pela porta lateral, por vezes, meigamente acotovelando-se, até que se aproximam junto da mesma. Chegados, também é tempo de contemplar a imagem da Senhora do Almurtão, é tempo de breves preces, de pedido de graças a conceder, de agradecimento por outras concedidas. De seguida, recolhem da bancada que circunda a imagem da Virgem do Almurtão um registo, ou seja, uma das suas fotos de vários tamanhos e depositam a oferta da sua devoção. Na segunda-feira, dia do feriado concelhio, é o

dia grande da Romaria. Em frente da ermida, no terreiro, um mar de gente aguarda a chegada da imagem da Virgem do Almurtão, para se dar início à Missa campal, em que costumam concelebrar cerca de trinta sacerdotes, alguns vindos da vizinha Espanha. Após a Missa campal, a Procissão e o Adeus, é o partilhar, à sombra das azinheiras, das merendas, em que não faltam os ovos verdes, a torta de S. Romão, os panadinhos de galinha, os bolinhos de bacalhau, os borrachões e a prova do vinho do garrafão do vizinho do lado. Os ranchos de romeiros das freguesias circunvizinhas, não partem sem se despedirem da Senhora, cantando as Alvíssaras, ao som dos arcaicos adufes e ao ritmo do maravilhoso bombear do coração, debaixo do harmonioso alpendre de três arcos, num sentir, colectivo e espontâneo, de fervorosa e viva devoção. Senhora do Almurtão, / Aqui me tendes defronte, / Dai-me saúde Senhora, / Como d´ água tem a fonte. Nestes tempos da globalização deste terceiro milénio em que nos toca viver e volvidos quase oito séculos de devoção das gentes arraianas do concelho de Idanha à Mãe de Deus, com o nome de Virgem do Almurtão, na pureza da sua encantadora e sedutora imagem, vestida com arte e mil e um carinhos, constata-se que continua a contagiar os milhares de romeiros, que marcam presença, em cada Romaria, vindos de Norte a Sul do País e da vizinha Espanha, sendo considerada na actualidade a mais concorrida e afamada da Beira Baixa. n António Silveira Catana (texto e fotos) ABR 2011 |

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Memória

O Parque e a Revista à Portuguesa Nestas memórias que vou alinhando na "Tempo Livre" várias vezes me tenho socorrido de outras memórias do meu amigo Vitor Pavão dos Santos. Vítor, que foi o grande e entusiástico criador do Museu do Teatro (odisseia que segui anos a fio) é como eu um devorador de teatro mas também de música e de cinema e das artes em geral. Recorro a ele sempre que me falta uma data, uma referência, a palavra certa. Costumo dizer que o Vítor é uma enciclopédia viva.

O Palmira Bastos no tempo em que fazia revista (“Olaré, quem brinca”, de 1937)

E cá estou eu, uma vez mais, a ir buscar ao seu magnífico álbum sobre a Revista à Portuguesa, um pouco da história do nosso teatro mais popular, a Revista.

Há 88 anos no Parque A Revista à Portuguesa que sempre conhecemos no Parque Mayer não nasceu ali. Muito tempo antes de 15 de Junho de 1922, (data da inauguração do Parque e também do Teatro Maria Vitória) já os lisboetas viam teatro de revista no Condes, no Teatro Ginásio ou no Príncipe Real. Famoso foi então o empresário Sousa Bastos (que viria a casar com um jovem actriz, Palmira Bastos, essa mesmo, a Palmira que tantos êxitos teve no chamado teatro sério do D. Maria II). As revistas que Sousa Bastos apresentava no Teatro da Rua dos Condes eram êxitos absolutos ("Sal e Pimenta", "Talvez te escreva" e, a primeira de todas, "Tim tim por tim tim"). Este empresário, que também era autor, já não assistiu à inauguração do Parque pois morreu em 1911. Mas deixou implantado nos costumes dos alfacinhas o hábito de ir ao teatro rir com as piadas políticas e ver as vedetas de pernas ao léu.

Os famosos do Parque Se nesse tempo existissem as revistas cor-derosa era certo saber tudo sobre artistas como Julia Mendes, Estêvão Amarante, Ângela Pinto, Nascimento Fernandes ou Adelina Abranches. E, anos mais tarde, lá encontraríamos Laura Costa, Lina Demoel, Hortense Luz, Eva Stachino ou Maria das Neves. E, da parte dos homens, Carlos Leal, Manuel Santos Carvalho, Costinha ou Vasco Santana. Mas nem vale a pena referir nomes pois são tantos e tão talentosos que o cinema, frequentes vezes, ia roubá38

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los ao palco do Maria Vitória e do Variedades para as suas produções. Variedades? Sim, quatro anos depois do Maria Vitória nasce mais um teatro no parque de diversões que um militar chamado Luís Galhardo construiu num terreno arborizado por detrás do Palácio Mayer. Dois teatros, casas de comes e bebes, barracas de tiro ao alvo, recintos de boxe, cabarés, uma espécie de Luna Parque para onde, durante anos, correu meia cidade para não dizer meio país.

Os autores em liberdade Sem censura, que surgiria mais tarde, os autores davam largas à sua imaginação e não se espantava quem, em 1924, ouvia Vasco Santana a cantar o "Alfaiate Político": "O senhor Cunha Leal / compra bom mas veste mal / E o Bernardino no Verão / usa calças de alçapão / O senhor Norton de Matos / tem p´ra mais de trinta fatos / Já o tio Brito Camacho / tem só um e muito em baixo / O Amâncio de Alpoim / esse veste assim, assim... / E o senhor Veiga Simões / compra fato a prestações / O Germano e o Urbano / vestem sempre de bom pano." A cantoria ia por ali fora e terminava deste jeito: "E o Zé Povinho...esse então / usa fato à Pai Adão..." Já com a censura ao leme, os autores passavam as chamadas passas do Algarve para fazerem valer os seus textos. Com mais ou menos imaginação, conseguiam fintar os censores e daí os muitos "santo antónios" (referência a António Salazar) que apareciam em rábulas de revista. Em 1936 Beatriz Costa, na revista "Arre Burro", cantava o novo fado do 31: "O 31 / hoje em dia é comum / é tudo a dar / a cascar /arrear / em Portugal / é que é só conversar / falazar, falazar..." E já que falámos em Beatriz Costa juntemoslhe os nomes de António Silva, Mirita Casimiro, Hermínia Silva, Teresa Gomes ou Costinha, que, com Vasco Santana, constituíam a guarda avançada das vedetas mais queridas do público. Revista sem "girls" não é revista. E elas não se faziam rogadas quando as despiam ou lhes punham as pernas ao léu. "Girls" ou coristas, vestidas (ou despidas) por alguns dos mais talentosos figurinistas da época, as que tinham uns pingos de talento passavam a chefes de quadro para

darem as deixas ao compère (Eugénio Salvador foi um dos mais famosos). Artistas como José Barbosa, Sara Afonso, Almada Negreiros, Jorge Barradas ou Stuart Carvalhais deixaram muito do seu talento fixado em cenários e figurinos da Revista. Mas talvez Pinto de Campos, pela fantasia e pela originalidade, tenha sido o que melhor entendeu o que era o teatro de revista e o marcou com a excelência do seu trabalho.

Gente do nosso tempo São tão de nossa casa que nem seria necessário referir nomes como os de Laura Alves, Raul Solnado, José Viana, João Villaret, Irene Isidro, Ribeirinho ou os ainda mais de nossa casa, Marina Mota, Carlos Cunha, Ivone Silva, Camilo de Oliveira, Maria João Abreu. São tantos e tão talentosos que o teatro de revista não corre risco de morrer. Já o mesmo não podemos dizer do Parque Mayer que, com projectos e declarações de intenções dos vários poderes, vai morrendo lentamente à espera do que há-de vir. Lembro-me de quando morreu a Beatriz Costa, o ainda deputado, José Niza, ter lembrado: "Provavelmente a Câmara Municipal de Lisboa vai atribuir o nome de Beatriz Costa a uma rua, a uma praça ou a uma avenida, mas aquilo que ela seguramente desejaria era que dessem de novo vida ao Parque Mayer e que de novo este parque viesse a ser a pequena "Broadway alfacinha", onde ela viveu tantos anos. Esperemos que assim venha a acontecer, porque ela assim gostaria que fosse". Esperemos que assim aconteça. Porque, como disse um dia André Brun: "tirem tudo ao alfacinha, mas não lhe tirem a revista". No Parque Mayer. Sempre. n Maria João Duarte ABR 2011 |

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Olho Vivo

O mistério de Henrique VIII Uma arqueóloga e uma antropóloga de Cambridge descobriram que os insucessos matrimoniais e reprodutivos de Henrique VIII se deveram a uma incompatibilidade sanguínea com as suas seis mulheres. O sangue do rei possuía o antigene Kell, que provocava abortos nas suas mulheres "Kell positivas". Problemas genéticos associados, o chamado sindroma de McLeod, explicam a transformação de Henrique, afável e saudável até aos 40 anos, num tirano desequilibrado e doente que executou duas das suas esposas, rompeu com a Igreja de Roma e acabou a vida quase sem poder mexer as pernas.

Gosto pelos terramotos Um artigo da revista Evolução Humana da Universidade de York afirma que o ser humano tem particular (e inexplicável) propensão para se instalar prioritariamente em locais do planeta sujeitos a terramotos, em especial sobre falhas tectónicas. A existência de grandes cidades actuais em zonas de grande actividade sísmica é bem conhecida, mas agora arqueólogos ingleses, franceses e sul-africanos, a trabalhar no continente africano, admiram-se por encontrar vestígios de grandes povoados préhistóricos em zonas muito instáveis, mantendo-se desertos os pontos menos sísmicos.

Duas línguas em paz Físicos e matemáticos da Universidade de Santiago de Compostela contrariam a ideia de que duas línguas não podem coexistir numa sociedade, sem que a mais poderosa extinga a outra. Baseados na experiência do castelhano e do galego, elaboraram modelos matemáticos que mostram que um certo nível de bilinguismo numa determinada população pode levar à coexistência pacífica dos dois idiomas. Os estudos anteriores só levavam em conta o número de falantes de cada idioma e não os cidadãos bilingues. Quando um número significativo de pessoas fala fluentemente as duas línguas não existe risco de extinção de uma delas.

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Mães tristes, bebés pequenos As grávidas deprimidas e ansiosas têm bebés mais pequenos e com mais problemas de saúde na primeira infância, segundo indica um estudo feito entre mulheres das zonas rurais do Bangladesh. A investigação indica que a saúde mental da mãe influencia a mortalidade infantil e fragiliza as crianças ainda mais do que a pobreza ou a má nutrição. Mais de setecentas grávidas foram seguidas entre os seis meses de gravidez e os oito meses pós-parto.

Gugudadá Falar com os filhos pequenos, entre os 3 e os 6 anos, numa linguagem de "gugu-dadá" é asneira e dificulta, mais tarde, a adaptação à linguagem da escola, não só pela falta de vocabulário, como pela incapacidade de compreender termos mais abstractos e frases mais elaboradas. Uma cientista holandesa, Lotte Henrichs, estudou 150 crianças, durante três anos, e verificou que a linguagem académica era naturalmente adquirida pelos miúdos que, em casa, usavam palavras "adultas" e eram ouvidos nas conversas de família.


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A n t ó n i o C o s t a S a n t o s ( t ex t o s ) A n d r é L e t r i a ( i l u s t r a ç õ e s )

Novo crustáceo ibérico Os amantes ibéricos do marisco estão de parabéns. Foram descobertos na bacia do rio Guadalquivir dois novos crustáceos, da espécie leidigia, já identificados por cientistas da Universidade de Barcelona. São fósseis vivos, segundo os cientistas, que habitam lagoas na Extremadura espanhola, mas podem ser comuns em toda a Península e até nas margens do Mediterrâneo. Têm cerca de um milímetro de comprimento e já existem há uns 250 milhões de anos, pelo que a sua evolução é muito lenta. Mas há esperança de que cresçam nos próximos milhões de anos...

Meninas lêem as instruções A razão por que as meninas ganham mais com a aprendizagem do que os rapazes pode ter sido descoberta por psicólogos britânicos da Universidade de Abertay, que andaram a estudar macacos gibões. Na utilização de uma ferramenta nova para executar uma tarefa, as fêmeas a quem era previamente apresentada a dita utilizavam-na muito melhor do que aquelas que a recebiam sem "instruções". O trabalho era executado três vezes mais depressa. Por seu lado, os gibões-machos não ganhavam nada com o "estudo" prévio da ferramenta. Os psicólogos entendem que isto se deve ao facto de as fêmeas serem naturalmente mais cautelosas diante de novos objectos ou situações.

Alzheimer no fígado A revista americana Neuroscience Research publicou a 3 de Março um estudo que pode abrir caminho a novos tratamentos da doença de Alzheimer. Usando ratos, uma equipa de cientistas descobriu que a origem das placas que se criam no cérebro dos doentes pode estar no fígado e não na própria massa cinzenta. Primeiro identificaram três genes que protegem o cérebro dos ratos. Depois, concluíram que quanto menos proteína beta-amilóide, a grande responsável pelas placas, se desenvolver no fígado, menos placas surgirão no tecido cerebral. Vão agora adaptar estes conhecimentos a eventuais novas terapias do Alzheimer.

Desemprego de alto risco Os homens e mulheres desempregados têm queixas mais duradouras de saúde física e mental do que os seus pares que têm trabalho, segundo um estudo de dois médicos publicado na revista alemã Deutsches Ärzteblatt International. O estudo apoiase nas conclusões do Instituto Koch que analisou durante dois anos o estado de saúde dos alemães. Os desempregados entre os 30 e os 59 anos são os que mais se queixam de problemas do sono, distúrbios de ansiedade e toxicodependência.

A taluda não muda ninguém A Universidade de Gutemburgo foi estudar os vencedores de grandes prémios de lotaria sueca e concluiu que as histórias de sortudos que derretem o dinheiro em pouco tempo, contraem dívidas e se tornam infelizes são excepções à regra: quem ganha a taluda ou o euromilhões mantém uma vida normal e consome com prudência. Mais de quatrocentos novos milionários responderam a um inquérito e só uma ínfima minoria deixou as ocupações ou empregos que tinha antes da sorte grande. A riqueza súbita só os mudou na medida em que lhes deu um sentimento acrescido de segurança, liberdade e independência, segundo afirmaram. ABR 2011 |

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A Casa na árvore Susana Neves

A heróitrina A nudez, a cor e a dormência ajudam a Eritrina a vencer.

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o patamar superior do Jardim Botânico da Ajuda, Lisboa, onde o dragoeiro, com mais de 300 anos, sobrevive suspenso por uma estrutura monumental, e um inesperado pavão branco passa pelos visitantes com lentidão aristocrata, descobrimos uma árvore que usa a nudez para atrair colibris. Algumas semanas antes da Primavera chegar, a "Árvore flor-de-coral", "Erythrina Coralloides DC", oriunda da América (do Arizona ao México) não dispondo de perfume para atrair as minús-

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culas aves polinizadoras (em Portugal, outras são as espécies que lhe sugam o pólen) apresenta-se despida de folhas para melhor seduzir, para melhor ser vista com a sua exótica coroa de flores vermelhas (Erythrina provém da palavra grega erythros=vermelho). Impossível não reparar nela, impossível não a preferir no meio de um elenco de outras árvores igualmente notáveis, memória do tempo em que as colecções botânicas europeias serviam a educação dos príncipes e exaltavam a glória dos Impérios. Como é possível confirmar pela leitura do livro "Jardim Botânico da Ajuda", de Cristina CastelBranco e Ana Luísa Soares, 1999, a Corte Portuguesa, nos séculos XVIII e XIX, deleitava-se no contacto com a natureza, visitando regularmente o Jardim, cujas espécies gostava de ver conservadas, protegidas e enriquecidas através de várias expedições botânicas às nossas colónias. Apesar da capa do livro reproduzir uma belíssima ilustração de uma espécie de Eritrina - sobre a qual o reputadíssimo botânico Avelar Brotero (1744-1828) escrevera, num artigo publicado pela "Linnean Society of London", em 1824 - não coincide com a "Coralloides", nem é esta muito frequente nos nossos jardins, embora haja notícia de ter sido plantada em algumas ruas do Parque das Nações. Ao consultar o "Jornal de Horticultura Prática" (JHP) online, também nenhum artigo encontrámos que a mencionasse, aparecendo, no entanto, várias referências a outra espécie, a "Erythrina Crista-Galli L.": cuja flor simboliza a Argentina e o Uruguai e as folhas venenosas auxiliavam os índios sul-americanos na caça com arco e flecha. É então, através de um artigo de 1871, publicado no JHP, que ficamos a saber a data provável da introdução em Portugal da "E. Crista-Galli L.", conhecida por Coraleira ou Eritrina Crista de Galo: "A sua introdução nos nossos jardins data de 1690, e já se acha bastante espalhada", o que resulta, diz o autor do texto, A. J. de Oliveira e Silva, da facilidade de a árvore se reproduzir por sementeira em estufa no nosso país ou na falta de sementes serem elas adquiridas em "qualquer estabelecimento belga ou francez".


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Fotos: Susana Neves

Num artigo publicado dois anos mais tarde, no mesmo periódico, aconselham-se várias técnicas de protecção desta "Fabaceae" contra as geadas do Inverno, e em nota refere-se: "No Porto e subúrbios vegeta muito bem ao ar livre e conhecemos bastantes exemplares bem desenvolvidos", mas nunca se menciona a informação curiosa de as sementes das Eritrinas, tal como as da alfarrobeira, terem servido como unidade de peso das pedras preciosas. Nem se recorda a sua utilização na confecção de pulseiras e colares pelos índios ou se aponta a durabilidade e resistência da semente à água ("sea beans") como mais uma estratégia para se expandir em quase todos os continentes. Não sendo sempre nutritivas, as sementes venenosas e lindíssimas (vermelhas ou castanhas) das Eritrinas seduzem muitos pássaros que as ingerem mas nem sempre conseguem digerir. Mesmo que essa sedução não aconteça, até porque alguns se apercebem do engodo, estão preparadas para resistirem à deterioração durante algum tempo. Esta capacidade ou "dormência" das "sementes" (sobretudo as "miméticas", que parecem nutritivas) foi recentemente estudada pelos investigadores da Escola Superior de Agricultura da Universidade de São Paulo ("Esperteza Vegetal", Fábio de Castro, Ambiente Acreano, Abril, 2010) e contribui para a sua "heroitricidade". Digamos que os cientistas têm vindo a descobrir o que a tradição oral ameríndia já intuíra, senão vejamos a lenda da índia Anahí, que foi apanhada pelos invasores espanhóis e condenada à morte. Ataram-na a uma árvore e lançaram o fogo. Para surpresa de todos os que a observavam, ela começou a cantar em honra da floresta e de manhã as suas cinzas transformaram-se em flores de Eritrina ("Crista-Galli"). A Eritrina é pois uma árvore símbolo da coragem dos povos da floresta, e talvez por isso, seja também a preferida dos chefes zulus ("Erythrina Caffra Thunb.", África do Sul), à sombra das quais gostam de ser sepultados. Entre os zulus, só é eleito chefe aquele que defende as árvores. n Nota - Todas as imagens são de uma Erythrina Coralloides D.C., Jardim Botânico da Ajuda. ABR 2011 |

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58 CONSUMO "E dura, e dura…" garante a publicidade a uma marca de pilhas e baterias. Que outros produtos poderão, hoje em dia, fazer uma publicidade semelhante? Pág. 46 l LIVRO ABERTO As obras biográficas, autobiográficas e memorialísticas estão em maré alta…em destaque "A Rainha Vitória", de Jacques de Langlade. Pág. 48 l ARTES Atenção à mostra de Carmo Pólvora, em Leiria, e aos mais recentes trabalhos de Zé Andrade no Clube de Jornalistas. Pág. 50 l MÚSICAS Duplo CD de Eros Ramazzotti, com 26 temas gravados ao vivo pelo cantor e compositor, durante uma digressão mundial. Pág. 52 l NO PALCO "A Mãe", de Bertolt Brecht, encenada por Joaquim Benite, regressa à cena, desta vez no Trindade, de 14 a 30 de Abril. Pág. 54 l CINEMA EM CASA Uma antologia de Marco Ferreri e o premiado filme de David Fincher, "A Rede Social", são destaques na selecção de Abril. Pág. 56 l GRANDE ECRÃ Em Abril chega às salas "Num Mundo Melhor" da dinamarquesa Sussane Bier, vencedorsurpresa do óscar para melhor filme estrangeiro. Pág. 57 l TEMPO INFORMÁTICO Internet Explorer V.9, TV a 3D, NetBooks e Blu-Ray, novidades em destaque no universo comunicacional, sempre a avançar. Pág. 58 l AO VOLANTE O Nissan LEAF, primeiro veículo 100% eléctrico, chegou e promete revolucionar a forma como conduzimos. Pág. 61 l SAÚDE Algumas doenças de cancro são evitáveis se modificarmos os comportamentos de risco que lhe estão associados. Pág. 59 l PALAVRAS DA LEI As dívidas ao condomínio prescrevem no prazo de cinco anos, se não for intentada a respectiva acção de execução durante esse prazo. Pág. 60 l

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Boavida|Consumo

Comprar, deitar fora, comprar novo "E dura, e dura, e dura…" garante a publicidade a uma marca de pilhas e baterias. Que outros produtos poderão, hoje em dia, fazer uma publicidade semelhante?

Carlos Barbosa de Oliveira

ôs a mesa com desvelo, no intuito de a impressionar. A velha toalha bordada pela mãe, cheirando a novo, os candelabros que herdara do avô, os talheres de prata, o serviço de Cantão, contrafacção virtuosa, comprado há anos em Hong-Kong, os copos de cristal por quem a ex-mulher se embeiçara numa visita à Feira da Ladra, mas que deles se desinteressou quando reacendeu a chama do amor no coração de um homem quinze anos mais novo. Na hora da despedida, deixou-lhe um bilhetinho na cómoda da entrada: "Fica com os copos de cristal. O João detesta essas porcarias" Quando leu o bilhete sentiuse magoado. Os copos tinhamlhe custado uma fortuna e a indiferença dela, no momento da despedida, ferira-o como uma lâmina a lacerar-lhe a pele. Fixou o olhar nos copos para se certificar que Adélia, a empregada que lhe permanecia fiel há mais de uma década, seguira as suas instruções, deixando-os imaculados de qualquer impressão digital. Só viu recordações estilhaçadas. Suspirou ao ritmo da campainha que acabara de tocar. Correu a acender as velas encarnadas, compradas à pressa na loja dos chineses lá do bairro. Afivelou um sorriso forçado, procurando apagar os vestígios das recordações. Era a primeira vez que recebia Isabel em sua casa. A jovem entrou, depositou-lhe um beijo leve nos lábios e reteve-se um momento a olhar a cómoda da entrada, onde repousavam envelopes com facturas por pagar. Sentaram-se no sofá da sala para um aperitivo. Ela estreou uma garrafa de Porto de 1979, que ele guardava para uma ocasião especial, ele optou por um whiskey com 35 anos, cuja data de nascimento lhe era desconhecida. Pediu um momento para ver o assado.

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Quando voltou à sala, Isabel observava o bordado da toalha. " Que maravilha! Quem fez isto?" " A minha mãe" "Já ninguém borda assim hoje. Já não há tempo para fazer estas coisas. A minha mãe tem algumas toalhas bordadas pela minha avó, mas nada que se compare com esta maravilha. Parabéns à tua mãe…" O jantar decorreu com conversa mole. Isabel desdobrou-se em rasgados elogios ao assado e à couve - flor gratinada que lhe servia de acompanhamento. Ele perdia-se nos olhos azuis de Isabel, com o mesmo enlevo com que contemplava as águas do Atlântico junto à Quinta da Marinha. Na altura de preparar o café, ela insistiu em acompanhá-lo à cozinha. " Não me digas que foi nesta velharia que assaste aquele pitéu!?"- espantou-se Isabel apontando para um forno eléctrico que repousava na banca da cozinha. " Claro que foi, qual é o espanto?" "Mas esse forno parece do tempo da II Guerra, Frederico. Com fornos tão giros e modernos, como é que guardas uma coisa dessas? Qualquer dia é uma relíquia…" " Pois… é velho mas funciona. Nunca avariou! É como esta máquina de café. Não tenho máquina de café Expresso, nem comprimidos de café à George Clooney para impressionar as mulheres. Aqui só café à moda antiga. Espero que gostes…" Isabel gostou. Pediu mais um para acompanhar a tarte de frutos silvestres que Adélia confeccionara com desvelo. " A tua empregada também trabalha com aquele forno, Frederico?" " Claro… achas que ia comprar um forno só para ela?" "Coitada da senhora, qualquer dia despede-se…" Frederico sentiu-se picado e aproveitou a deixa para ANDRÉ LETRIA


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fazer uma longa dissertação sobre a obsolescência dos produtos. " Sabes uma coisa, Isabel. A obsolescência dos produtos é, na maioria das vezes, programada pelos fabricantes, para nos obrigarem a comprar coisas novas e rejeitar as velhas, mesmo que ainda estejam em bom estado de funcionamento. Hoje em dia, tudo funciona de modo a deteriorar-se rapidamente. Antigamente tínhamos as peças de substituição, os electrodomésticos eram reparados. Hoje, isso é uma raridade. Ou a reparação é impossível, ou fica de tal maneira cara, que os consumidores optam por comprar um novo. Hoje, a sociedade de consumo funciona num ciclo vicioso: Comprar, Deitar Fora, Comprar Novo. O consumo é o grande motor da economia e não pode gripar. É preciso que os produtos tenham menos durabilidade, para que sejam trocados mais vezes. Queres um exemplo? No século passado, os grandes fabricantes de lâmpadas decidiram encurtar o prazo de duração, de 2500 horas, para mil! Mas, o pior, é que a tecnologia permite produzir lâmpadas com duração superior a cem mil horas, mas ninguém as fabrica. Sabes porquê?" " Parece-me lógico, Frederico…se fossem feitas para durar esse tempo todo vendiam-se muito menos lâmpadas, algumas fábricas tinham de fechar e aumentava o desemprego…" " Agora vê o outro lado da questão… Como os produtos duram menos tempo, consomem-se muito mais recursos naturais e há muito mais lixo. Principalmente lixo electrónico, que é prejudicial ao ambiente. Estás a ver as consequências do consumismo? Se queremos proteger o ambiente, precisamos de criar um modelo de desenvolvimento mais sustentável, onde a obsolescência não funcione como motor da economia". "Ora, ora… se todos pensassem como tu, não havia progresso…" " Gostas dos Pink Floyd, Isabel?" "Adoro. Tenho lá em casa vários CD deles" " Então vais ouvir uma relíquia que aqui tenho". Frederico levantou-se e abriu a porta de uma cómoda onde guardava centenas de discos em vinil". "Tu tens discos em vinil? Mas isso já não é música, de certeza, é zumbideira…" "Estás enganada. Ouve só o I wish you were here"… Isabel espantou-se com o som magnífico que brotava da aparelhagem "Pois é, Isabel. As pessoas aderiram em massa ao CD, mas só agora começaram a perceber que o som dos discos de vinil é muito superior. O segredo é ter uma boa aparelhagem e tratar os discos com muito cuidado, para conservar a qualidade do som. Por isso, muita gente está a voltar

aos discos de vinil. É que às vezes, o progresso e as novas tecnologias não significam qualidade. Nós é que nos tornamos cada vez menos exigentes e, assim que surge uma novidade, corremos entusiasmados atrás dela, sem cuidar de saber se não vamos ficar a perder quando trocamos um aparelho velho por um novo. Muitas vezes, as marcas lançam produtos novos só porque detectaram que estavam a durar tempo demasiado. Anunciam uma pequena inovação e os consumidores vão atrás, ignorando que estão a comprar um produto menos durável do que o anterior" " Bem, está na hora de ir andando"- disse Isabel dissimulando um bocejo. Frederico acompanhou-a até ao carro. Antes de arrancar, Isabel perguntou: " Como é que se chama isso de provocar a diminuição de vida das coisas, Frederico?" " Obsolescência!" " Está, não vou esquecer. Obrigado pelo jantar!" Frederico voltou para casa. Ao meter a chave à porta, teve um pressentimento. Depois daquela conversa, entrara em obsolescência no coração de Isabel. n


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Boavida|Livro Aberto

Da biografia da rainha Vitória ao universo do marquês de Sade O aumento do interesse pela história da vida privada como forma de conhecimento da própria História faz com que seja hoje uma boa aposta editorial o lançamento de obras biográficas, autobiográficas e memorialísticas de qualidade.

José Jorge Letria

or isso se destaca a edição, com a chancela de Publicações Europa-América, da biografia “ A Rainha Vitória”, do francês Jacques de Langlade. Trata-se de um texto exemplar para o conhecimento da monarca, da sua obra e dos valores morais e sociais nela predominantes. Vitória, que foi coroada aos 18 anos, teve um dos mais longos reinados da História e foi uma soberana arguta e atenta aos sentimentos do seu povo, que a idolatrava, atribuindo-lhe o mérito de ter consolidado e expandido o império britânico. Mas há aspectos mais secretos e por isso mais sedutores da vida desta rainha de baixa estatura mas de grande visão que o biógrafo também trata com grande detalhe e rigor. A não perder.

P

“UM ENCONTRO” (Quixote) é uma colecção de ensaios do escritor checo há muito radicado em Paris Milan Kundera. Homem da escrita de ficção mas também um ensaísta profundo e inspirado, Kundera defende o primado da arte numa época e num contexto civilizacional que sistematicamente desvaloriza a arte e o pensamento. Kundera escreve sobre as obras de criadores como Francis Bacon, Fellini, Philipe Roth, Dostoievski ou Gabriel García Marquez, mas também sobre Anatole France ou Curzio Malaparte. Autor de outras colectâneas de ensaios como “A Arte do Romance” ou “Os Testamentos Traídos”, Milan Kundera partilha com o leitor não só a visão sobre grandes criadores mas também os seus conceitos pessoais de memória, exílio e modernidade, sempre de forma cativante. POUCOS ESCRITORES há que sejam tão marcados nas suas obras ficcionais pelas obras e pelas vidas de outros escritores como o catalão Enrique Vila-Matas, como fica uma vez mais demonstrado com a publicação de “Dublinesca” (Teorema), obra na qual estão ominipresentes James Joyce e o seu romance “Ulisses”. Vila-Matas é duplamente um 48

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escritor literário, porque escreve romances de muita qualidade e porque faz da literatura uma referência temática quase constante na sua já vasta obra. Mais um livro e não perder de um escritor que se tornou de culto para leitores de muitos países. Também em matéria de ficção, destaque, em português, para “O Crepúsculo de Sagitário”(D. Quixote), o novo romance de Nuno Júdice, poeta e ensaísta, com auspiciosas incursões nos territórios da ficção. Neste livro, Nuno Júdice homenageia de forma exemplar a obra e a figura do Marquês de Sade, sempre controversa e atraente, fazendoo com um engenho narrativo apreciável, nunca impedindo que esteja presente na efabulação e no trabalho de escrita o poeta que também é. DESTAQUES ainda, em matéria de ficção narrativa recente, para uma reedição de “O Factor Humano” (Casa das Letras”, de Graham Greene, para “Na Casa de Honey” (Teorema), de Elmore Leonard, para “A Hora dos Pássaros Mortos” (Teorema), do espanhol Ignacio Martínez de Pisón, para mais uma reedição do notável “O Grande Gatsby” (Publicações Europa-América), de F. Scott Fitzgerald, e para o interessantíssimo “O Filho de Campos de Ourique Outras Histórias” (D. Quixote), do português António Ferreira, nascido em Lisboa em 1960. Realce também para “As Ruas Presas às Rodas” (Edições Afrontamento), de António Rebordão Navarro, uma narrativa intensa e envolvente que nos remete para o ano de 1936, o do início da Guerra Civil de Espanha. Um escritor para ler e reler.n


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Boavida|Artes

Carmo Pólvora, 35 anos de Desenho e Pintura Trinta e cinco anos depois de começar a pintar, Carmo Pólvora regressa à terra Natal, Leiria, para assinalar a efeméride com uma exposição no Edifício Banco de Portugal, até 10 do corrente mês.

Rodrigues Vaz

diálogo com a poesia tem alimentado o universo de Carmo Pólvora, que deu forma a um percurso na linha de uma abstracção lírica com uma evidente componente surreal. A sua outra linha de força é a água, que tem celebrado de diversas formas, em pinceladas firmes e decididas, esboçando sempre sugestões que ficam apenas por umas leves linhas de contorno que ordenam a composição, mas que se tornam dinamicamente compreensíveis. Para Seurat a arte é harmonia, para Cézanne essa harmonia deve ser paralela à da natureza. Por isso, Carmo Pólvora escolhe sempre dentro da sua temática elementos naturais, perseguindo essa harmonia retiniana da percepção, servida por uma apurada técnica. O que é evidente nesta mostra. Artista plástica e professora, Carmo Pólvora vive e trabalha em Lisboa. É licenciada em Pintura, com pós-graduação pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa.

O

Outro registo de teor completamente diferente enforma a exposição de Carlos Dugos que está patente ao público até dia 23 no Centro Cultural de Cascais. Essencialmente simbolista, procurando no esoterismo e nas teorias ocultistas agora tão em voga uma razão para a vida e para a necessidade do conhecimento, a pintura de Carlos Dugos é servida por uma técnica perfeccionista, que vive de grandes efeitos visuais, especialmente de luz, resultantes de uma sábia graduação dos volumes e da minúcia dos detalhes e recortes. Como refere Manuel Cândido Pimentel, "Na sua pintura (o cânone, como símbolo original da arte, que é, nele, em simultaneidade metafísica), o ritmo puro da Criação está, de facto, na luz, na proporção, no figurativismo geométrico, na atracção pelo número. É graças a esse cânone original, que o Pintor crê habitar no fundo de tudo, que a sua pintura, podendo ser apocalíptica nalguns casos, é, no entanto, de extraordinária serenidade." ZÉ ANDRADE NO CLUBE DE JORNALISTAS

RICARDO PAULA E CARLOS DUGOS

Entretanto, a Galeria MAC - Movimento Arte Contemporânea, Lisboa, apresenta de 5 a 28 deste mês os últimos trabalhos de Ricardo Paula subordinados ao título "Parto hoje à meia-noite para o fim". Senhor de um traço tão fluente como dúctil, onde é visível a sua origem como profissional de artes gráficas na publicidade, Ricardo Paula continua a inspirar-se no corpo humano, em especial o da mulher, que trata como um memorial, testemunho de um questionamento interior. Como diz no catálogo Álvaro Lobato Faria, "Na sua obra há, não só o espaço que apenas com o olhar se vislumbra, mas, também e sobretudo, a sugestão das coisas de que gostamos sem as vermos. Nada sobra, nem um só traço que não seja essencial." 50

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Por último, é de realçar a nova exposição do artista plástico angolano Zé Andrade, aliás Zan, que vai estar no Clube de Jornalistas, em Lisboa, até ao dia 18 do corrente. Intitulada "À Suivre", tem como epígrafe um texto do poeta angolano Albano Cardoso, velho companheiro dos tempos do jazz da Luanda dos Anos 60, em que o Zan compunha textos jazzísticos para o semanário "A Palavra", qual José Duarte de Angola, e fazia sessões de divulgação da Grande Música Negra para os estudantes do Liceu Nacional Salvador Correia. As composições apresentadas estão a condizer com tudo isto. O quotidiano servido como se de jazz se tratasse. Bem sincopado, sobressaltado, próprio de quem aprendeu, "mesmo sem companhia, a contemplar o arcoíris e a beleza da vida".n


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Boavida|Músicas

Eros Ramazzotti revisitado ao vivo Poucas ou quase nenhumas notícias nos chegam da música italiana. Por isso aqui se regista a edição do duplo-CD “21.00: Eros – Live WorlTour 2009/2010”, de Eros Ramazzotti. Uma revisitação ao vivo.

positores estrangeiros, para quem trabalhou ou ao lado de quem actuou, nomeadamente Cher, Joe Cocker, Rod Stewart, Elton John… O duplo-CD de Eros Ramazzotti de que aqui damos notícia é, pois, um interessante documento sobre a vasta obra do músico e no qual nos são dados a ouvir alguns dos principais sucessos do cantor. Ali estão, naturalmente “Cosas de La Vida” e “Piú Bella Cosa”, duas das mais emblemáticas cantigas de Ramazotti. Deste mesmo trabalho discográfico foi feita uma edição especial de duplo CD + DVD, com um livro de 40 páginas sobre a obra do autor.

Vítor Ribeiro

esta colectânea recentemente publicada integramse 26 temas gravados ao vivo pelo cantor e compositor, durante uma digressão mundial que levou Ramazzotti aos quatro continentes. Nascido em Roma, em 1963, Eros Ramazotti continua a ser, porventura, um dos mais destacados autores da música pop/rock italiana, tendo conseguido que o seu trabalho rompesse as fronteiras de Itália e fosse devidamente apreciado um pouco por todo o mundo. Ainda adolescente, Eros começou por percorrer o “caminho” dos concursos e festivais musicais que proliferam em Itália, designadamente o “clássico” Festival de Sanremo, acabando por conquistar “a pulso” o reconhecimento do público italiano e estrangeiro. Ramazotti acabou assim por se transformar numa espécie de herdeiro natural de Eugenio Finardi, 58 anos, outro destacado cantor e músico pioneiro do rock italiano, cuja carreira tem sido marcada por uma activa intervenção política e social. De sucesso em sucesso, Eros Ramazotti também foi sendo reconhecido por outros grandes intérpretes e com-

N

PASSIONE EM CD

Dois CDs acabam de ser editados com a banda sonora da telenovela Passione transmitida pela SIC. No primeiro daqueles trabalhos discográficos – Passione – integram-se 14 temas assinados por outros tantos cantores e/ou compositores brasileiros, de entre os quais destacamos Lenine, Djavan, Ivan Lins, Adriana Calcanhoto, Angela Maria e Cauby Peixoto. O segundo CD – Passione Internacional – conta com 16 temas de cantores e/ou autores estrangeiros, designadamente John Mayer, Diesel e Nina Simone. n

CONCERTOS GOTAN PROJECT EM LISBOA

DIAS DA MÚSICA NO CCB

Obras de 88 compositores, entre

Os Gotan Project efectuam um único

Sessenta e cinco concertos integram

os quais Ravel, Strauss, Kurt Weil,

concerto no Coliseu de Lisboa, dia

a programação da edição de 2011

Rachmaninov, Stavinsky, Copland,

8 de Abril, pelas 21h00. Este grupo, que

de Dias da Música, subordinada ao

Shostakovich, Gershwin, Mahler,

criou um género peculiar de música –

tema “Da Europa ao Novo Mundo”,

Janacék, Dvorak, Manuel de

tango electrónico – é constituído por

que decorre de 15 a 17 de Abril no

Falla, Astor Piazzola ou Heitor Villa-

Phillipe Cohen Solal, Eduardo Makaroffe

Centro Cultural de Belém (CCB), em

Lobos, serão tocadas durante

e Christoph H. Muller.

Lisboa.

três dias.

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Boavida|No Palco

Brecht no Trindade No palco principal do Trindade, o Teatro de Almada apresenta, de 14 a 30 de Abril, a “A Mãe”, de Bertolt Brecht, encenação de Joaquim Benite.

Maria Mesquita

Albuquerque, Carlos Gonçalves, Carlos Santos, Celestino Silva, Daniel Fialho, Laura Barbeiro, Luzia Paramés, Manuel

elagea Vlassova, é uma mulher como tantas outras… analfabeta, pobre, trabalhadora. Um filho morreu, ela própria luta contra a doença, mas durante o movimento revolucionário – Outubro de 1917, Moscovo – surge como uma lutadora, porta-bandeira do seu partido, cor da revolta, voz do povo. Um povo que se fartou de viver à margem e desígnios de um governo totalitário e desigual, onde as classes sociais estavam separadas por fossos profundos. E fá-lo sempre de bom humor e dedicação à causa. Uma história política contada e cantada, naquilo que muitos críticos declaram como um comentário humanista ao capitalismo crescente e desenfreado que leva à desintegração da civilização em várias pequenas ilhas. Levada à cena, pela primeira vez, em Berlim, durante a ascensão de Hitler, a peça foi censurada pelo Partido Nazi que prendeu o actor principal.

P

FICHA TÉCNICA: De: Bertold Brecht; Tradução da peça e das

letras das canções: Yvette K. Centeno, Teresa Balté; Encenação: Joaquim Benite; Direcção musical: Fernando Fontes. Voz e elocução: Luís Madureira; Cenário: Jean-Guy Lecat; Figurinos: Sónia Benite, Ana Rita Fernandes; Desenho de luz: José Carlos Nascimento; Assistente de encenação: Rodrigo Francisco; Interpretação: Alberto Quaresma, André

Mendonça, Marco Trindade, Marques d’Arede, Miguel Martins, Paulo Guerreiro, Paulo Matos, Pedro Walter, Sofia Correia, Teresa Gafeira, Teresa Mónica; Produção: Companhia de Teatro de Almada

Da solidão

A vida de três mulheres nas remotas terras da Rússia são a base para a encenação de Nuno Cardoso da peça “As três irmãs” de Anton Tchekhov, para ver de 14 Abril, até 22 Maio na Sala Garrett do Teatro Nacional D. Maria II. Num texto aparentemente sem diálogo, apresentam-se três mulheres, Irina, Olga e Macha. De uma infância feliz e despreocupada em Moscovo, vivem agora enclausuradas com o irmão numa casa de família nos confins da Rússia, num exercício diário contra a solidão e a monotonia. Cada uma delas é diferente da outra e aparentemente os seus problemas diários, despidos de qualquer importância relativa, são suficientes para as colocar à prova. Enquanto se debatem com as escolhas de uma vida pessoal que as pode levar para longe dali, acabam por criar muros à sua volta, como se fosse torres de Babel inacessíveis aos outros mortais, e, ao desejarem regressar à sua cidade natal, sonhando com os momentos felizes, acabam por ficar sozinhas enquanto observam a sua nova cunhada a tomar as rédeas da casa e do seu irmão. Contrariando a tendência de pensar que todo o discurso é frívolo, identifica-se a cada palavra dita, que com este texto revelam-se as perguntas mais básicas e ao mesmo tempo, mais importantes que o ser humano tenta fazer: qual o significado da vida, do sofrimento, dos sonhos e dos pesadelos que lhes seguem, qual a importância afinal da solidão e quais as consequências disso tudo. FICHA TÉCNICA: De: Anton Tchekhov; Tradução: António

Pescada; Encenação: Nuno Cardoso; Cenografia: Fernando Ribeiro; Figurinos: StoryTailors; Desenho de luz: José Álvaro Correia; Com: Daniel Pinto, Isabel Abreu, João Grosso, José Neves, Luís Araújo, Manuel Coelho, Maria Amélia Matta, Maria do Ceú Ribeiro. Criação: Ao Cabo Teatro; Co-produção: TNDM II e AO CABO TEATRO 54

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Boavida|Cinema em Casa

Porque é Abril... Abril, sempre Abril, com opções adequadas aos dias serenos e luminosos da liberdade reencontrada: antologia de homenagem a um cineasta (Marco Ferreri) ousado e livre; espaço ao celebrado e premiado filme de David Fincher que narra a criação do revolucionário Facebook; a lúcida desmontagem da crise financeira mundial em "Wall Street – O dinheiro nunca dorme", de Oliver Stone, e uma boa surpresa no regresso de George Clooney em "O Americano". Sérgio Alves MARCO FERRERI

Catherine Deneuve, Michel

Fincher; COM: Jesse

LaBeouf, Carey Mulligan,

Marco Ferreri, controverso,

Picoli, Roberto Benigni, Ben

Eisenberg, Andrew Garfield,

Josh Brolin, Frank Langella;

iconoclasta e com uma obra

Gazarra, Ornella Mutti;

Justin Timberlake, Rooney

EUA, 133m, cor, 2010; EDIÇÃO:

única de inconformismo, iro-

Itália/França, 502m, Cor,

Mara, Armie Hammer; EUA,

Castello Lopes Multimédia

nia e salutar subversão, foi

1969/1981; EDIÇÃO: Atalanta

120m, Cor, 2010; EDIÇÃO: Pris

Filmes

Audiovisuais

tantes da cine-

A REDE SOCIAL

WALL STREET - O DINHEIRO

nal, acaba de realizar um tra-

matografia

Harvard, final de 2003, Mark

NUNCA DORME

balho na Suécia e viaja para as

europeia dos

Zuckerberg, um jovem

Duas décadas depois, e o ou-

montanhas de Abruzzo (Itália)

anos 60/70 e

solitário, com dificuldades de

trora temível especulador bol-

para fazer uma pausa e repen-

figura incon-

relacionamento, decide, uma

sista Gordon Gekko sai da

sar a vida. Enquanto constrói

tornável do cinema italiano,

noite, desiludido com uma

prisão. Estala a crise financeira

uma arma para um cliente, o

como assinalou Gilles Jacob,

colega, construir um programa

mundial, colapso

seu último trabalho, torna-se

director do festival de

informático que reune todos

das Bolsas, e

amigo dum Padre e apaixona-

Cannes, aquando da sua

os alunos do campus e ajuda

ruína de milhões

se por uma prostituta…George

morte: "O cinema italiano

a conhecer miúdas novas. E

e milhões de

Clooney regressa em grande

perdeu um dos seus maiores

nasceu o Facebook …Escrito

pessoas e empre-

estilo, como actor e produtor,

um dos nomes

O AMERICANO

Jack, um assassino profissio-

mais impor-

sas no até então

artistas". Começou na arte

por Aaron

com alguns trabalhos docu-

Sorkin - Óscar

próspero mundo ocidental. O

cuidada de Anton

mentais e publicitários, sem-

de melhor

sucessor do antigo corrector

Corbijn - "Control"

pre em ascensão até ao cele-

argumento

da bolsa é o seu futuro genro,

(2007) - nesta

brado Urso de Prata, em

adaptado - e

Jake, que escuta os conselhos

adaptação do

Berlim/1979 pelo filme "O

realizado de

e absorve a antiga experiência.

romance de

numa realização

forma bri-

Os tempos mudaram e Gekko,

Martin Booth " A Very Private

integra esta preciosa antolo-

lhante por David Fincher

embora fiel a si próprio, já não

Gentlemen". Rodado quase

gia/homenagem que inclui "A

("Seven - Sete Pecados

tem o poder e a importância

integralmente na pequena

Semente do Homem" (1969),

Mortais", "O Jogo", "Clube de

que tinha mas … Um elenco

localidade da região centro de

"Dilinger Morreu" (1969),

Combate"), o filme é uma

de qualidade - Michael

Itália, Castel del Monte, "O

"Não Toques na Mulher

incursão magnífica na história

Douglas, Shia Laboeuf e Carey

Americano" combina acção,

Branca" (1974) e "Contos da

da criação da rede social mais

Mulligan - ritmo adequado,

suspense e romance num

Loucura Normal (1981). Uma

importante do Mundo que já

argumento sólido e realização

cenário único e com um ritmo

obra única e singular de

contribuiu para o derrube de

competente (Oliver Stone), o

original. Uma bela surpresa.

reflexão sobre o homem, a

governos e líderes políticos.

filme é uma lúcida desmon-

TÍTULO ORIGINAL:

sociedade e a vida e que

Montagem intensa - outro

tagem da crise financeira glo-

American; REALIZAÇÃO: Anton

Ferreri, numa entrevista, sin-

Óscar - um elenco jovem e

bal e dos desvarios neolib-

Corbijn; COM: George

tetizou bem: "A Vida é feita

promissor, eis uma excelente

erais.

Clooney, Violante Placido,

de histórias de amor e morte".

oportunidade para descobrir

TÍTULO ORIGINAL:

TÍTULO ORIGINAL: Marco

este "admirável mundo novo".

Money never sleeps;

Refúgio das Crianças", que

REALIZAÇÃO: Marco COM: Marcello 56

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Ferreri;

Ferreri;

Mastroianni,

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TÍTULO ORIGINAL:

The Social

Network; REALIZADOR: David

REALIZAÇÃO: COM :

Wall Street -

Oliver Stone;

Michael Douglas, Shia

The

Paolo Bonacelli, Thekla Reuten, Filippo Timi; EUA, 105m, cor, 2010; EDIÇÃO: Pris Audiovisuais


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Boavida|Grande Ecrã

Prova de talento Este Abril chega às salas "Num Mundo Melhor" da dinamarquesa Sussane Bier, o vencedor-surpresa na corrida ao óscar para que fora nomeado ("melhor filme estrangeiro") em detrimento do favorito "Biutiful", do mexicano Alejandro González Iñarritu.

Joaquim Diabinho

ntes de mais uma constatação: não deixa de ser curioso sentir-se no filme da proeminente cineasta nórdica alguma "coincidência", quer na abordagem dos traços psicológicos individuais quer nos processos narrativos, com a obra de Iñarritu.É também evidente, aqui e ali, uma parecença na exploração do universo social, na análise dos comportamentos e motivações mais profundas e mais íntimas do ser humano. Bier aborda em "Num Mundo Melhor" ("Haeven", no original, que se pode traduzir por "vingança") a questão recorrente da violência e do perdão, elaborando um exercício sobre as limitações do indíviduo na tentativa de controlar a sociedade cada vez mais complexa e o combate para preservar a sua vida pessoal (e privada) sobretudo no que toca ao dever de se defender, a si e aos outros, das ameaças que provém dum mundo para o qual há que encontrar outro modelo mais justo e de valores dignos. Drama sentimental, magníficamente filmado, "Num Mundo Melhor" narra a história de um médico da ajuda internacional a trabalhar num campo de refugiados em África que retorna a casa para enfrentar os problemas do

A

desgaste conjugal e ajudar o filho que sofre de "bullying" na escola, sem imaginar que as suas vidas se vão cruzar com as de um outro pai e filho a recuperarem da morte da mulher/mãe. De certo modo, Sussane Bier -que é portatora de uma inequívoca honestidade de propósitos - cumpre (e bem) a tarefa não muito agradável de transpôr para o ecrã algumas das nossas mais inquietantes certezas e fá-lo com olhar depositado nas nossas mais prementes esperanças num mundo melhor. Quer dizer: o tempo e o modo de um tocante humanismo. PARA TODOS!

Do realizador de "Ice Age"/"A Idade do Gelo", a hilariante e atribulada aventura de uma arara apaixonada e dos expedientes a que recorre para conquistar o coração quase emperdenido da sua amada. Em "Rio 3D", o realizador Carlos Saldanha não se poupa a meios nem a imaginação para fascinar os mais novos. Excelente capacidade narrativa e técnicamente irrepreensível. n ABR 2011 |

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Boavida|Tempo Informático

Sempre a melhorar Net, Televisão e algo mais… As novidades no domínio das tecnologias de comunicação não param

Gil Montalverne

ajuda@gil.com.pt

om o novo Internet Explorer V.9, lançado há dias pela Microsoft, os utilizadores irão notar melhorias significativas no desempenho, uma experiência mais "limpa" que coloca o foco nos websites favoritos e melhorias na interface do utilizador com melhor controlo na gestão dos tabs, opções de afixação de sites à barra de tarefas e menor número de notificações - tudo mudanças para navegar melhor. Vale a pena experimentar. Faça download em http://www.microsoft.pt/ie9

C

QUEM JÁ VIU A TV a 3D ficou entusiasmado e apenas se aborrece com aqueles óculos necessários mas incómodos. A Hama resolveu o problema e arranjou uns óculos 3D activos, especialmente concebidos para televisores 3D da Samsung, com várias vantagens. Extremamente leves (47 gramas) e confortáveis sobre óculos normais, utilizam leve e potente bateria de lítio (CR2032) com autonomia de 70 horas para ver um filme de longa-metragem por dia durante 1 mês, desligam-se automaticamente quando não detectam a presença de sinais relativos a 3D. Em termos ergonómicos, o formato arredondado foca a visão do utilizador no televisor. Preço: 79,90 €. OS NETBOOKS conquistaram os utilizadores. Práticos, leves

e cómodos, fazem tudo (ou quase) o que é trivial para o utilizador comum. Resolvido o problema do leitor de CD/DVD 58

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com uma unidade amovível, restava o problema do som que não agradava e até evitávamos devido ao hardware incipiente da reprodução sonora, uma limitação que era praticamente impossível de contornar… até agora. Pois está tudo resolvido com uma pequena placa. A 7.1 Surround" USB Sound Card da Hama, funciona com qualquer versão de Windows - desde o 98SE até W7, consegue de facto simular som ambiente 7.1 em colunas estéreo ou auscultadores e até fazer gravações com um microfone convencional. Possui para tal duas tomadas mini-jack universais de 3,5 mm. Dispõe de um equalizador com diversas predefinições (jazz, rock, música clássica, etc.) e melhora substancialmente a reprodução de música, podendo também ser adicionados efeitos de som. Preço: 22,90 €. PRIMEIRO FOI O CD, depois o DVD e agora o Blu-Ray. Sempre e cada vez mais espaço, mais capacidade para os nossos ficheiros. O novo disco BD-RE DL 2x da Verbatim, oferece 50GB de capacidade, o que o torna no suporte ideal para realizar cópias de segurança diárias, testes de aplicações de vídeo e software ou gravações de vídeo doméstico e vídeo profissional. A camada Hardcoat Scratch Guard protege contra riscos, impressões digitais, pó, gordura e água. Por sua vez, a tecnologia SERL assegura excelente compatibilidade de gravação e também excelente capacidade de regravação até 1.000 vezes (PVP:9€). Faltavam leitores e gravadores acessíveis. Pois a Denon, apresenta o BDP1611UD: o primeiro leitor Blu-ray 3D do mundo com leitura universal, isto é, além dos Blu-ray e Blu-ray 3D, é igualmente capaz de reproduzir discos CD, DVD, SuperAudioCD e DVD-Audio. Permite, ainda, a leitura de ficheiros de música, fotos e vídeos a partir de computadores, dispositivos de armazenamento USB e em rede (tipo NAS) bem como reprodução directa de vídeos a partir do YouTube. n


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Boavida|Ao Volante

Nissan Leaf revoluciona A motorização com emissões zero é, finalmente, uma realidade. O Nissan LEAF chegou e promete revolucionar a forma como conduzimos. Após décadas de desenvolvimento, o Nissan LEAF está repleto de tecnologias inovadoras, tornando-se no primeiro veículo 100% eléctrico, funcional e com produção em massa a nível global.

Carlos Blanco

s entregas do Nissan LEAF (primeiro veículo eléctrico do mundo verdadeiramente funcional e económico) estão prestes a iniciar-se, no seguimento da estreia mundial da versão de produção no recente Salão Automóvel de Paris. As primeiras entregas do Nissan LEAF serão processadas já no próximo mês de Dezembro, no Japão e na América do Norte. Para o primeiro trimestre de 2011 está agendada a entrega aos primeiros europeus, mais concretamente em Portugal, foi em Janeiro, seguido de Irlanda, Países Baixos e Reino Unido. Estes serão os primeiros condutores do mundo a desfrutarem do futuro da motorização: o Nissan LEAF é o primeiro automóvel eléctrico real a ser vendido em todo o globo. Um cinco lugares com alimentação a bateria, que é prático e confortável... e que é uma realidade, aqui e agora. “Isto é apenas o início. A Nissan já anunciou o desenvolvimento de versões zero emissões do reconhecido e premiado NV200, furgão ligeiro e de transporte de passageiros, e temos já outros veículos eléctricos puros em preparação para lançamento”, disse Pierre Loing, Vice-

A

Presidente de Planeamento e Estratégia de Produto e Director da Unidade Comercial de Emissões Zero na Nissan International SA, sede da Nissan na Europa. “O Nissan LEAF e o furgão comercial ligeiro eléctrico serão os primeiros dos quatro veículos 100% eléctricos da Nissan a entrar no mercado, nos próximos anos.” Com as baterias compactas e eficientes de iões de lítio e o poderoso motor eléctrico, o Nissan LEAF tem uma autonomia de 160 km, com o seu sistema de carregamento rápido a precisar de apenas 30 minutos para restaurar até 80% a carga da bateria. A aceleração de resposta instantânea é consistente com a velocidade máxima superior a 140 km/h. O Nissan LEAF será construído no Japão, nos EUA e no Reino Unido, enquanto as baterias de iões de lítio, de tecnologia de ponta, serão construídas em Portugal e em França, assim como no Japão, EUA e Reino Unido, o que faz da Aliança Renault-Nissan o maior fabricante mundial de veículos eléctricos e baterias para veículos eléctricos. n

O sistema de carregamento rápido precisa apenas de 30 minutos para restaurar até 80% a carga da bateria ABR 2011 |

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Boavida|Saúde

Cancro: os sinais de alarme que deve conhecer O cancro é uma das principais causas de morte no mundo ocidental. As origens desta terrível doença são múltiplas, embora algumas sejam evitáveis, se modificarmos os comportamentos de risco que lhe estão associados. Assim, para combater este flagelo, é preciso unir esforços entre os profissionais de saúde e a população em geral.

M. Augusta Drago

medicofamília@clix.pt

abemos que existem muitos tipos de cancro, uns são curáveis, outros nem tanto. Mas todos têm uma característica em comum: quanto mais precoce for o diagnóstico, mais eficaz será o tratamento e melhor será o seu prognóstico. É para que todos possam estar alerta e para que possamos reconhecer os sinais e sintomas que acompanham a maioria dos cancros no seu início que me proponho partilhar convosco os sinais de alarme dos tumores mais frequentes. Uma vez identificados, ou mesmo apenas suspeitados, devem ser rapidamente transmitidos ao médico, para que este peça os exames necessários e esclareça a situação. Há sinais muito inespecíficos – estou a referir-me apenas a adultos –, tais como a falta de apetite, o emagrecimento que ocorre sem justificação, a falta de forças, as dores articulares ou musculares sem causa aparente e o mal estar geral, que podem estar presentes na fase inicial do tumor, mas também são comuns a muitas outras doenças. Estes sintomas gerais e/ou o aparecimento de uma tumefacção em qualquer parte do corpo são motivo de consulta médica. Para além destes, existem outros sinais e sintomas mais específicos para alguns tipos de cancro: Dentro dos cancros da pele, o mais temido é o melanoma. Tem a aparência de uma mancha muito escura e irregular e é mais frequente nas pessoas da cidade, de pele clara, que se expõem episodicamente ao sol, no Verão, sem usarem protecção adequada. As pessoas que têm sinais na pele devem vigiá-los todos os meses. Se notarem modificações na forma, tamanho, cor, se sentirem comichão ou se sangrarem, isso é motivo para ir ao médico. Já sabemos que o tabaco é a principal causa de cancro do pulmão. Também os cancros da boca e da laringe são mais frequentes nos fumadores. Nestes, qualquer alteração da voz, tosse persistente ou expectoração abundante e ou com sangue devem ser prontamente esclarecidas.

S

60

TempoLivre

| ABR 2011

O cancro dos intestinos é mais frequente nas pessoas que têm uma alimentação desequilibrada e pobre em fibras. Este tumor cresce no lúmen do intestino e pode ocasionar alterações na espessura das fezes. Estas tornamse mais finas, pode também provocar alternância de diarreias com fezes duras. Devemos estar atentos ao funcionamento dos intestinos. Se houver alterações significativas e persistentes do ritmo, da consistência e da cor das fezes e/ou se estas forem negras é porque contêm sangue, o que deve ser prontamente investigado. Aumento da frequência urinária, urgência e falsas vontades ou sangue na urina são queixas que é igualmente urgente relatar ao médico, porque podem ser o primeiro sinal de tumor nas vias urinárias. Nos homens, a partir da meia-idade, a diminuição da força do jacto urinário, a sua interrupção, fragmentação ou “salpicos” podem ser um sinal de cancro da próstata e deve ser estudado. Também as mulheres, depois da menopausa, se tiverem perdas de sangue vaginal, mesmo que seja em pequena quantidade, devem procurar uma explicação junto do seu médico assistente. Isto não invalida que todas as mulheres, a partir do momento em que têm vida sexual activa, devam ir ao ginecologista anualmente e seguir as suas orientações. Nomeadamente, devem fazer o auto-exame mamário mensal, depois de cada período menstrual, porque qualquer nódulo que se palpe, retracção do mamilo ou enrugamento da pele deve ser visto rapidamente pelo médico. Para terminar e resumidamente transcrevo o Código Europeu contra o Cancro: «Não fume; evite a obesidade; pratique exercício físico diariamente; consuma diariamente mais vegetais e menos gorduras; modere o consumo de bebidas alcoólicas; proteja-se do sol; as mulheres devem participar nos rastreios dos cancros da mama e do colo do útero (Papanicolau); homens e mulheres devem participar no rastreio do cancro do cólon e recto»; acrescente-se ainda que as jovens devem fazer a vacina para o HPV [Vírus do Papiloma] e todos nós devemos, de acordo com as normas da DirecçãoGeral de Saúde, fazer a vacinação contra a hepatite B. n


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Boavida|Palavras da Lei

Execução de dívida ao condomínio e acto de Advogado ?

Somos oito condóminos, mas temos um que há anos não paga a

quota mensal acordada em reunião (onde nunca vai). Quando eu fui administradora ainda tentei através de uma advogada (a quem paguei 120 euros) e também ela me vigarizou pois não fez nada. Já mais duas administrações me sucederam e a situação continua. Não sabemos que fazer. Que aconselham? Sócia devidamente identificada

Pedro Baptista-Bastos

avendo um caso em que haja uma dívida respeitante a encargos ou falta de pagamento de quotas ao condomínio, que se arraste e aumente sem haver uma solução apresentada pelo devedor à administração, deve esta apresentar a situação em assembleia de condóminos, devidamente convocada para o efeito, ser apreciado e apresentado o valor em dívida, bem como a proposta de se cobrar coercivamente a quantia, através do respectivo processo judicial. Votada favoravelmente esta proposta em todos os seus aspectos formais, é descrita e apresentada em acta devidamente elaborada para o efeito, nos termos do artigo 1432º, do Código Civil. Essa acta passa a ter força de título executivo contra o condómino devedor, nos termos do artigo 6º, nº 1 do D.L. nº 268/84, de 25 de Outubro. Munido desse documento, tem o administrador do condómino legitimidade para agir em juízo contra esse

H

ANDRÉ LETRIA

devedor, em nome do condomínio, nos termos conjuntos dos artigos 1437º, nº 1 e 6º, nº 2 do D.L. nº 268/84, de 25 de Outubro. Regra geral, mandata-se um advogado para intentar a respectiva acção de execução para pagamento de quantia certa sobre estas dívidas, prosseguindo a execução os seus trâmites normais. Note-se que desconhecemos o valor da dívida em causa, apresentada pela nossa leitora, quer o prazo de vencimento dessas mesmas dívidas – sobre este último aspecto, tenham os leitores em atenção que as dívidas ao condomínio prescrevem no prazo de cinco anos, se não for intentada a respectiva acção de execução durante esse prazo – artigo 310º, al g) do Código Civil. Se o advogado foi devidamente mandatado para esse efeito e nada fez, sem ter havido uma justificação cabal e coerente para essa falta, deve a leitora proceder à rescisão unilateral do mandato forense, contactar outro advogado e, se for caso disso, participar a situação ao Conselho de Deontologia da Ordem dos Advogados da sua área de residência. n ABR 2011 |

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ClubeTempoLivre > Passatempos Palavras Cruzadas | por José Lattas

1

HORIZONTAIS: 1-Bombas de destruição maciça; Afluente do

1

Douro. 2-Cônjuges; Terramoto. 3-Alumínio (s.q.); Laços apertados; Imensa; Imediatamente. 4-Rente; A ti; Grito de dor; Governador de uma cidade, distrito ou região, do Império Turco. 5-Substância doce fabricada pelas abelhas; Endurecimento; Raspa. 6-Óbice; Alvor; Ave de migração, abundante em Portugal de Abril a Setembro (inv.). 7-Um dos santos populares; Embarcação; Índio (s.q.). 8-Base aérea; Cortejar; Vereadores. 9-Unidade de medida agrária; Carne do lombo dos bovinos, entre a pá e o cachaço; Perfume. 10Renque; Nesse lugar; Prata (s.q.); Calor. 11-Ruténio (s.q.); Assistência Médica Internacional (sigla) (inv.); Ceifas; Samário (s.q.). 12-Maldição; Lendas. 13-Manso; Alívio.

2

pensador chinês (1893-1976); Nome masculino. 2-Análogo; Cobertor; Ata. 3-Artigo definido (pl.); Sobrara; Aspecto. 4Jornaleiro; Escol. 5-Que já não existe (pl.); Nome feminino; Assim seja!. 6-Tira para cingir a cintura, em algumas peças de vestuário; Zela; Governanta. 7-Aquelas; Apatetada; Aliança Democrática (sigla). 8-Lã de carneiro; Normas. 9-Apelido; Ajustam; Preposição. 10-Antigo imposto de transmissão; Rio da Suíça; Juro. 11-Cidade italiana, na foz do Rio Tibre; Variedade de calcedónia, usada em joalharia. 12-Única; Protactínio (s.q.); Érbio (s.q.); Pedido de socorro, no mar. 13Livro de poemas de António Nobre; Voz da ovelha (pl.); Nota musical. 14-Mosteiro em Belém. 15-Patear; Quartos.

3

4

5

6

7

8

9 10 11 12 13 14 15

3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 SOLUÇÕES (Horizontais) 1-ATÓMICAS; SOUSA. 2-CASADOS; SISMO; V. 3-AL; NÓS; VASTA; JÁ. 4-B; RÉS; TE; AI; BEI. 5-MEL; CALO; APARA. 6MAS; AURORA; ALOR. 7-ANTÓNIO; NAU; IN. 8-OTA; ADULAR; EDIS. 9-ARE; ACÉM; AROMA. 10-B; ALA; AI; AG; SOL. 11-RU; IMA; SEGAS; SA. 12-ANÁTEMA; MITOS; S. 13-SERENADO; OÁSIS.

VERTICAIS: 1-Rei de Israel (874-853 a. C.); Político, militar e

2

Ginástica mental| por Jorge Barata dos Santos

N.º 25 Preencha a grelha com os algarismos de 1 a 9 sem que nenhum deles se repita em cada linha, coluna ou quadrado

N.º 25

62

TempoLivre

| ABR 2011

SOLUÇÕES


75:Layout 1 23-03-2011 12:55 Page 1


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ClubeTempoLivre > Novos livros

ACADEMIA OLÍMPICA

que despedaçou o seu

nos

Crónicas de Allaryia, uma

DE PORTUGAL

coração e, a dois dias do

programas

saga épica de grande

concerto, Scott terá de

seniores da

sucesso.

PICTOGRAFIA OLÍMPICA.

ensaiar, esquecer Envy e

INATEL e faz

HISTÓRIA E ESTILO

amar Romana. Será que

uma

BOMBAIM - A Um Mundo

GRÁFICO

consegue?

homenagem

de Distância

a todos os

Thrity Umrigar A riqueza e opulência de

Carlos Rosa Dedicada à evolução gráfica

CLUBE DO AUTOR

dos pictogramas usados em contexto

A CASA DOS AMORES

olímpico, a

IMPOSSÍVEIS

obra passa

Cristina López Barrio Paixão, ódio, vingança e um

em revista

que se cruzaram com ele nos inúmeros locais que

Sera Dubash

visitou.

escondem os abusos que sofre no

EDIÇÕES MINERVA

casamento e

alguns

certo

DIÁLOGOS COM JOHANN

paradigmas

realismo

SEBASTIAN BACH

com a vida paupérrima de

do design das últimas oito

mágico são

Delmar Domingos de

Bhima, que vive num imenso

décadas, em especial o

os

Carvalho

bairro de lata. O que

contributo de Otl Aicher nos

condimentos

Uma edição

poderão ter em comum estas

Jogos Olímpicos de Munique

deste

dedicada aos

duas mulheres? Uma

romance

em 1972.

contrastam

mistérios da

elegante reflexão sobre a

histórico. Na linha das sagas

vida e obra

natureza das classes sociais

ÂNCORA EDITORA/

familiares da história da

de Bach.

e do poder na Índia.

EDIÇÕES COLIBRI

literatura, a obra acompanha

Pela ficção

várias gerações e momentos

entra-se num

AS PIRÂMIDES DE

DICIONÁRIO DE FALARES

históricos distintos,

diálogo imaginário entre

NAPOLEÃO

DAS BEIRAS

combinando o real e o

Domingos de la Rosa e o

Vítor Fernando Barros Uma interessante recolha de

mágico.

compositor do séc. XVII que

William Dietrich Após um jogo de cartas em

passa em revista

Paris, Gage fica na posse de

vocábulos

O SEGREDO DE AFONSO III

acontecimentos que

um estranho medalhão.

típicos das

Maria Antonieta Costa A vida e

marcaram a história ao

Preso e acusado de

longo do tempo.

assassínio acaba integrado

Beiras, com

na armada

respectivos

morte de

significados

Afonso III são

e contexto de

alvo de uma

utilização,

investigação

OBLÍVIO

conquistar o

rigorosa e de

Egipto. Os

uma hábil reconstrução de

Filipe Faria Tomados pelo desânimo, os

uma época de intrigas e

companheiros desta

contra a sua

interessantes manobras

aventura enfrentam um

vida sucedem-se e, este

políticas.

crucial desafio. Na mais

aventureiro americano, vê-se

SCOTT PILGRIM E A

Entre Lisboa e Roma, este

negra hora de Allaryia, a

envolvido num dos maiores

TRISTEZA INFINITA

romance guia-nos numa

Sombra ergue-se triunfante,

enigmas da história. Um

Bryan Lee O'Malley Scott enfrenta a maldade dos

viagem à época medieval.

mas nem tudo o que parece

thriller que evidência os

organizada em forma de dicionário.

BOOKSMILE

sete ex-

EDIÇÃO DE AUTOR

namorados de

64

TempoLivre

napoleónica

EDITORIAL PRESENÇA

que irá

atentados

é, e ainda

contrastes entre Oriente e

falta jogar a

Ocidente.

última

Romana. Um

PLENITUDE

cartada...

deles

O VII e

conquistou

António Rosado Pisco O livro reúne o contributo e a

último

O CIENTISTA DISFARÇADO

Envy, aquela

história das viagens do autor

volume das

Investigando os Pequenos

| ABR 2011

EUROPA-AMÉRICA


64e65_NL:sumario 154_novo.qxd 23-03-2011 15:24 Page 77

Acidentes do Dia-a-dia

acompanha o leitor da cela

Peter J. Bentley Pequenos episódios do dia-a-

da prisão onde Hitler redigiu

PAULUS EDITORA

de Deus. Inclui referência a episódios como: a

a obra aos corredores do

O ENVANGELHO DE JOÃO

descoberta do bebé no Nilo,

actual governo da Baviera.

PAULO II

a sarça-ardente, a separação das águas do mar Vermelho,

o esquecer a

CULTIVE ALIMENTOS NO

João Paulo II A obra reúne comentários

torneira a

SEU APARTAMENTO

extraídos de

Dez Mandamentos no monte

correr fazem

Como Cultivar os seus

homilias,

Sinai.

parte de um

Próprios Alimentos em

mensagens e

padrão de princípios

Espaços Pequenos

documentos

científicos que regem o

que permitem

mundo.

Maria Finn A obra apresenta, passo a

A obra dá resposta a muitas

passo, mais de 50 propostas

dúvida, entre elas o facto de

de cultivo em

interpretou o texto bíblico.

Paulo Coelho Um relato pessoal e

um raio nunca cair duas

pequenos

João Paulo II leva-nos ao

surpreendente que revela

vezes no mesmo sítio ou, o

espaços. Em

interior do mistério do

como uma grave crise de fé

motor funcionar com óleo

vasos ou no

anúncio cristão e convida-

leva o autor a

alimentar.

pátio aproveite

nos a actualizá-lo nas nossas

procurar um

as potencia-

trevas e luzes do nosso

caminho de

quotidiano.

renovação e

dia tão simples como

compreender como Woytila viveu e

a aliança e a entrega dos

PERGAMINHO O ALEPH

O GRANDE GATSBY

lidades da sua casa e cultive

F. Scott Fitzgerald Uma sátira ao "Sonho

produtos saudáveis, tais como: ervas aromática,

A VIDA DEPOIS DO 50

Americano" e um retrato da

tomate, vagens de baunilha,

América nos anos 20 do

cogumelos, videiras e outras

Isabel Antunes Para encarar a vida com

século XX, onde o autor

maravilhas que a terra

mais alegria e

em busca da amizade, amor

idolatra os ricos, apesar de

oferece.

criatividade, a

e fé, enfrentando sem medo

obra com

os desafios da vida.

crescimento

não se conformar com uma

espiritual. Guiado por sinais, o autor percorre vários continentes

certa decadência causada

OSCAR WILDE E OS CRIMES

prefácio do

pelo materialismo

DO VAMPIRO

Pe. Vítor

desmedido. Um clássico da

Feytor Pinto,

literatura norte-americana

Gyles Brandreth Numa glamorosa festa dos

que assinala o 70 aniversário

duques de Albemarle, em

reais e apresenta sugestões

ABALARAM O MUNDO

da obra.

1890, a atenção de Oscar

para superar as

Tony Allan Uma análise rigorosa às

relata casos

VOGAIS AS PROFECIAS QUE

Wilde recaí

transformações físicas, os

MEIN KAMPF - HISTÓRIA DE

no jovem

medos e as angustias que

profecias dos

UM LIVRO

actor Rex

afectam as pessoas a partir

últimos 4000

Antoine Vitkine Em que condições foi escrito

LaSalle que

dos 50 anos. Uma obra que

anos. Do

alega ser um

ajuda a envelhecer com

Antigo

vampiro.

naturalidade.

Testamento às

o livro e quais as razões que levaram Hitler a dissimular a

Quando a duquesa é

sua própria obra e a publicar,

encontrada morta com duas

MOISÉS - HISTÓRIA DE UM

profecias e premonições, a

em França, uma versão

marcas no pescoço, o

SALVAMENTO

obra inclui referência a

falsa?

Príncipe de Gales

Achim Buckenmaier À volta de Moisés

famosos videntes, místicos e

mais recentes

Um estudo rigoroso que

desesperado e a fim de

lança um

evitar escândalo pede a

entrelaçam-se

seculares, casos de Merlim,

novo olhar

Wilde e a Conan Doyle que

histórias e

Joana d'Arc, Nostradamus,

sobre o

investiguem o crime. O que

mistérios que

Da Vinci, Pastorinhos de

nacionalismo

descobrem ameaça destruir

revelam o

Fátima e outros.

eo

a família real… e a

percurso de

extremismo e

reputação de Wilde.

um homem

profetas religiosos e

Glória Lambelho ABR 2011 |

TempoLivre 65


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ClubeTempoLivre > Cartaz

na Capela de S. Miguel, Univ.

cargo da Associação Cultural

"Zona J" em Perre.

de Coimbra; dia 30 às 21h - X

Desertuna - Tuna Académica

Jogos Tradicionais Dia 10 às

Concertos Dia 9 às 21h- XII

Encontro de Grupos de

da UBI, na Covilhã.

15h em Monte de S. João Novo

Encontro de Coros no Cine

Cantares da Assoc. Sempre a

Teatro dos B.V. de Condeixa-a-

Aprender, no Cine Teatro de

Nova; dia 15 às 21h - 14º

Condeixa-a-Nova.

Encontro de Orq. Ligeiras em

Teatro Dia 25 às 21h30 - peça

Fotografia Até ao dia 28 de

Passos, Merufe; dia 23 às 09h

Covões; dia 16 às 21h - Orq.

"O Palheiro" pelo Grupo de

Maio - Exposição (In) Slow

- Rota das Capelas e Templos

Experimental Dixie&Pop e

Arzila no Centro Beira

Motion, na Galeria do Paço da

Românicos, no Jardim

Ensemble de Música Ligeira da

Mondego, em Sto. Varão

Cultura, Guarda.

Público de Viana do Castelo.

VIANA DO CASTELO

VISEU

COIMBRA

Caminhada Dia 17 às 19h -

GUARDA

Trilho Pedestre/Caminho dos Mortos em Senhor dos

UMSA em Covões; dia 17 às

Formação inscrições para o

17h - XIX Aniv. da Filarmónica

curso de Iniciação à Pintura,

Adriano Soares, em Vilela; dia

40 horas (Sáb. - 15h às 17h).

17 às 16h - 142º Aniv. da

Pesca de Mar Dia 17 - 13ª

Concertinas Dia 10 às 15h -

Evento Cantar Das Almas

Filarmónica União Taveirense

Prova no Bico da Lusitânia.

VI Encontro de Tocadores de

Santas, às 21h, nos dias: 9 em

Concertina e Cantadores ao

Tourigo, dia 16 no Lg. da

Desafio em Rio Frio.

Misericórdia em Mangualde,

Cinema Dia 16 às 21h30 -

dia 16 em Travassos e às 6.ªs-

em Taveiro; dia 25 às 21h30 Sax Ensemble no Centro de

COVILHÃ

Artes e Espectáculos da Figueira da Foz; dia 29 às 21h30

Evento Dias, 8, 9 e 10 -

"Uma História de Violência"

feiras de Quaresma, entre as

- Chorale Joseph Kosma e

Concentração de tunas, VIII

no CC de Vila Praia de

23h e as 24h, junto ao cemitério

Choral Poliphónico de Coimbra

Festubi, e muita animação a

Âncora; dia 29 às 21h30 -

em Abraveses.


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O Tempo e as palavras M a r i a A l i c e Vi l a Fa b i ã o

Nippon banzai A Lua? / Já não é a mesma. / A Primavera? / Já não é a Primavera de outrora. / Só eu não mudei. // Ariwara No Narihira1

D

e súbito, o maremoto da notícia irrompe das profundezas do silêncio, atravessa a barreira do credível, mergulha-nos no espanto mais absoluto. Tsunami. No Japão. À nossa volta, as imagens do acontecer quase em tempo real atraem-nos para si com a força irresistível de um sorvedouro, e o mundo é criação de um pintor surrealista sob o efeito de um alucinogénio: carros navegam às centenas no mar alto, enquanto barcos se mantêm delicadamente poisados na crista de um telhado, como se na crista da vaga, seu berço natural. Sob os escombros, há vozes que chamam em vão, há choros de criança, a que só o silêncio dos pais responde, porque há silêncios-para-nunca-mais. Paradoxalmente, ao caos criado pela sua amada natureza, responde o japonês com um respeito pela ordem “de uma estranheza simultaneamente gritante e sussurrante”, como diria o psiquiatra francês Christophe Paradas, para quem a cultura japonesa é “um mosaico de silêncios, um arquipélago de meias palavras”, onde convivem intimamente os pares antagónicos, aparentemente inconciliáveis, “vulgaridade e beleza” e “tradições de sempre e ultra-modernidade”. Condicionante desta psicologia de reserva é vulgarmente considerada a insularidade do país, a cujo povo, nos séculos em que Portugal e outros povos com orla costeira ousavam fazer-se ao mar e ir em demanda de outras paragens (nem sempre com as melhores intenções, evidentemente!), não foi dado, durante 212 anos! deixar o país sob pretexto algum. Desse isolamento, nasceu o mito de uma misteriosa Ilha do Ouro, “Uma ilha grande, de gente branca, de boas maneiras, formosa e de uma riqueza incalculável”, a que os vizinhos chineses davam nome Ji-Pan-Ku, “Local onde Nasce o Sol”, de que o aventureiro italiano Marco Polo ouvira falar durante a sua permanência na corte mongol e cuja fama espalhara na Europa sob o nome de Cipango, ou Zipango. Desde 1511, no reinado de D. Manuel I, que os Portugueses sulcavam os mares da China em missões de evangelização, comércio legal e pirataria. Todavia, a primeira referência ao Japão deve-se a Tomé Pires, que na Summa Orientalis Que Trata do Mar Roxo athee aos Chiis

(1514) já usa a forma malaia Japun, Japang, e se refere à Ilha de Japaom, de que tivera conhecimento na China. Curiosamente, a relação efectiva de Portugal com o Japão ficou a dever-se a uma tempestade que, no dia 23 de Setembro de 1543, impeliu para Tanegashima o junco chinês que transportava três portugueses. Segundo a crónica Teppôki (O Livro dos Mosquetes, 1606), da autoria do monge Zen Nanpo Bushi, o intérprete chinês garantira: “Estes homens bárbaros do Sudeste são comerciantes. Compreendem até certo ponto a distinção entre superior e inferior, mas não sei se existe entre eles um sistema próprio de etiqueta. Bebem em copo sem oferecerem aos outros; comem com os dedos, e não com pauzinhos, como mós. Mostram os seus sentimentos sem nenhum pudor. Não compreendem os caracteres escritos. São gente sem morada certa, que troca as coisas que possuem pelas que não têm, mas, no fundo, não são perigosos.” Não só foram os Portugueses (entre os quais S. Francisco Xavier) os primeiros Ocidentais a penetrar no Japão, como a língua usada nas negociações foi o português. Dessa relação, são testemunho os mútuos empréstimos linguísticos que se mantêm nas duas línguas. Assim, falam ainda português os Japoneses quando comem pão - PAN, ou pão-de-ló - PANDORO, ou um confeito - KOMPEITO, ou um churrasco - SHURASUKO. Ou quando bebem álcool - ARUKORU pelo copo - KOPPU; quando vestem a capa - KAPPA; quando usam sabão - SHABON, e fumam um cigarro - TABAKO. Ou ainda em mais umas trezentas ocasiões, dizem. Os Portugueses falam japonês, quando arranjam flores IKEBAMA, quando vestem um QUIMONO, quando praticam JUDO, quando dobram ou desdobram um “tapete” TATAME, comem SUSHI, ou… se metem num avião para se transformar num CAMICASE , que é como quem diz: num piloto suicida. Ou então, (com o meu pedido de desculpa, se não estiver correcto) quando, em homenagem a tantas vítimas e a tanta coragem, desejam: NIPPON BANZAI! (Dez mil anos de vida, Japão!) n 1

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Os contos do

Como nos filmes

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opinião geral, entre os que conheciam mais de perto Sebastião Gabito, era de que se tratava de um tranquilo cidadão, sem vícios nem mistérios. Consideravam-no, mesmo, desprovido de ambições e de sensualidade, nunca alguém o tinha encontrado na companhia de mulheres. Todavia, na mente de Sebastião habitava uma. Amante de cinema, deslumbrara-se por Michelle Pfeifer ao vê-la em “Ligações Perigosas”. Seguiua. Gravava todos os filmes passados nos canais de televisão que incluíssem Michelle, procurava-a nas lojas de vídeo, levou-a para casa em “dê-vêdês”. Aqueles olhos verde-mar, a cabeleira loira e farta, o sorriso fascinante que oscilava entre a ternura e a malícia, provocaram um estrondo de encantamento na até então serena vida de Sebastião Gabito. Quando começou a abraça-la num álbum com fotografias recortadas das revistas, Michelle tomou conta dos seus serões. Via e revia os filmes, vibrava, como se a beijasse, de cada vez que acrescentava uma foto dela no álbum volumoso. Ele compreendia que Michelle, no seu trabalho de actriz, tivesse de se enroscar com outros, em cenas de amor e volúpia. Pura representação. Só o incomodavam um pouco os trechos fílmicos em que ela se enrolava com o Bruce Willis, parecia vê-la a ultrapassar as marcas do fingimento e entregar-se ao papel com despudorado prazer. Odiou Bruce Willis. Numa noite de maior desembaraço, Sebastião sacudiu o acanhamento e escreveu uma carta a Michelle Pfeiffer. Veio-lhe o ��mpeto ao ler numa revista o endereço do que seria, talvez, o agente, se não a própria residência dela. A carta era uma labareda de paixão em cinco folhas. Dois meses depois, ao abrir a caixa do correio, encontrou um envelope com carimbo de Los Angeles. Abriu-o, curioso, e de dentro saiu uma foto de Michelle, lindíssima como sempre. Pulou de contentamento. É certo que Michelle bem poderia ter acrescentado algumas linhas de apreço pelo amor que 68

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ele lhe revelara. Mas, enfim, era bela resposta aquela foto em que a deusa tocara com as mãozinhas mimosas. De então em diante era como se a relação se materializasse, distinguiu a foto com moldura de prata e pendurou-a no quarto, em frente da cama. Seria a primeira imagem no despertar de cada dia e a última a olhar antes do sono. No entanto, provavelmente, sonharia com ela. Só não gostara muito de a ver no papel de mulher-gata no filme “Batman” e, muito menos, quando contracenava com o Bruce Willis. Todos sabemos como a vida abunda em surpresas. Mas não se imaginaria surpresa tão grande como a de Sebastião ao entrar num restaurante de estrada. Nossa Senhora, era Michelle quem servia ás mesas! Os olhos, o cabelo, a traquinice do sorriso, a elegância do corpo perfeito, deixaram-no extasiado, depois soltou uma exclamação - chamamento: - Michelle! A visada voltou-se e toda ela era Michelle, porém disse: - Joaquina. O meu nome é Joaquina. Voltou, uma vez e outra ao restaurante do soberbo encontro. Declarou-se apaixonado, ela começou por rir, um riso fascinante como o da Pfeiffer, e Sebastião suplicou: - Sim, Joaquina é um bonito nome mas permita que a trate por Michelle. Ela não viu razão forte para contrariar essa vontade mas quis saber o porquê. Sebastião escusou-se mas, num novo encontro, já distante do restaurante em que Joaquina servia ás mesas, juntou a explicação à proposta de casamento. Foi logo depois de ela aceitar que desse o nó, com todos os papeis e cerimoniais cada vez menos usados. Joaquina quase exigiu: - Diz-me, Sebastião por que carga de água decidiste tratar-me por Michelle e assim pretendes fazer ao longo da nossa vida como marido e mulher. ANDRÉ LETRIA


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Então, ele abriu a alma. Disse da fascinação pela Pfeiffer e era como se não traísse a mulher dos seus mais ternos e carnais desejos se ela, provisoriamente Joaquina, concordasse em ser Michelle, não só de corpo e espírito, também de nome. Ela ouviu, divertida, depois disse: - Posso compreender-te, Sebastião, pois comigo passa-se algo semelhante. - Semelhante? - Sim. Na verdade, ainda garota apaixonei-me por um actor que protagonizava uma série de televisão. Sebastião desdenhou: -AH, a televisão e as frágeis paixonetas que pode provocar! Quem era? Alguém de quem eu me possa lembrar? A nova Michelle revirou os olhos verdes, agitou a cabeleira da cor dos trigais, contou: - Sim, deves recordar-te da série “Modelo e detective”, ele fazia par com a famosa Cybill Shephard. O Bruce Willis, pois! Sebastião torceu a cara numa expressão de desagrado. Logo esse. Quis passar ao sorriso de troça quando disse:

- O Bruce Willis é um canastrão. Péssimo actor. E feio. Joaquina-Michelle, porém ia lançada e com o olhar perdido num espaço imaginário prosseguiu: - Adoro-o! Não me canso de rever os filmes,”Tempo de violência”,”A Cidade do Pecado”, aquele do arranha-céus, até quando vi “O Chacal”, em que faz de terrorista, não conseguia evitar a vontade de cair nos braços dele. Tu compreendes, não compreendes, Sebastião? Ele agitou-se na cadeira, encolheu os ombros: - Com franqueza, não compreendo bem, Michelle. Se fosse um James Stwart, um Henry Ford… - Ora, esses são bem mais antigos, imagino-os como papás, vovós! – discordou a nova Michelle. – O Bruce Willis é um duro meigo, com aquele ar malandro que me deixa de rastos! Sabes que recorto as fotografias dele e as tenho num álbum? Enciumado, Sebastião pôs fim à conversa. Não se voltaria a falar de Bruce Willis e, para todo o sempre, Joaquina encarnaria a Michelle Pfeiffer. Assim chegaram ao dia do matrimónio. Sebastião, de fraque, aguardava à porta da igreja e viu a sua Michelle sair do luxuoso automóvel, esplendorosa no vestido longo e branco. Passava como uma deusa pelo magote de convidados ou simples curiosos, quando, bruscamente, se deteve na frente de um calmeirão de pulôver azul: - Bruce Willis! – gritou ela. – Que surpresa maravilhosa, querido Bruce, cheguei a pensar que jamais nos iríamos encontrar! - O meu nome é Gustavo Adalberto – murmurou o homem, confuso mas enfeitiçado pela visão daquela loira tão semelhante á Michelle Pfeiffer. Ela estendeu os braços, ele abraçou-a. - Leva-me, Bruce, agora que, finalmente, os nossos caminhos se cruzaram, leva-me contigo para a felicidade total. Levantando-a nos braços musculosos, o homem iluminou o rosto com um sorriso só igual ao do Bruce Willis e correu para a viatura em que a noiva tinha chegado. Arrancou e Sebastião, fulminado, viu ainda, antes da curva, o vestido branco a voar pela janela. Foi como nos filmes. n ABR 2011 |

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Crónica

O saxofonista Álvaro Belo Marques

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Cláudio trabalhava numa firma de distribuição de correio e de encomendas mas, sempre que tinha um tempinho livre, ia com o seu saxofone para o pé do Joelzinho, um mendigo do bairro, andrajoso e com as pernas torcidas como se as tivessem partido quando estava numa posição do Yoga. O Joelzinho era muito estimado no bairro mas Cláudio, por ser pobre, pouco o podia ajudar. Ele sentava-se ao pé de uma grande árvore e estendia a mão. O saxofonista amador punha-se então sentado a seu lado, num tronco horizontal da árvore e tocava. Nesses dias a receita do Joelzinho subia em flecha. Não podia era ser em todos. Uma tarde de dueto - um pedia e o outro tocava -, disse o Joelzinho: - Você, Cláudio, não pode tocar outras coisas? - Não gosta do meu reportório? - Não é isso. - Então o que é? - Está aqui um gajo, todo empenado, que só ouve do ouvido esquerdo, e você senta-se ao lado desse ouvido e toca invariavelmente as mesmas coisas… podia, ao menos, tocar do lado do outro…ou mudar de reportório… Cláudio pensou, olhando para o instrumento. Depois disse: - Eu já toquei o concerto para saxofone e orquestra de Aaron Copland, nos bons tempos… - Você desculpe-me, Cláudio, mas o Aaron Copland nunca escreveu um concerto para saxofone e orquestra. - Como é que você sabe, Joelzinho? - Eu fui professor de música. - Foi professor de música?! - Não foi bem de música… fui professor de História da Música… - Você foi professor de História da Música e está aqui a pedir esmola?! O saxofone também olhou, admirado. - É. - Conte lá, puxa! Como é que você chegou até aqui. - É simpático da sua parte não dizer "desceu até aqui". Mas o caso ou acaso é que… Meteu a mão no esfarrapado casaco e tirou uma pastilha de mentol. Com a mão boa, desembrulhou-a

e meteu-a na boca. Chupou um bocadinho e contou: - Dava aulas e apaixonei-me por uma aluna muito mais nova. Gabriela. Foi uma paixão doida. Passámos a viver juntos e éramos muito felizes. Depois tive um acidente de viação. Fiquei todo quebrado e ela morreu. Levei seis meses no hospital para recuperar… recuperar isto que você vê. Mas tive logo que fugir no dia da alta do hospital pois o pai da Gabriela queria matar-me. Não o podia fazer enquanto eu estava rodeado de médicos, enfermeiros e seguranças. Mas depois podia. O hospital está a mais de mil e quinhentos quilómetros daqui. Vim com o dinheiro do seguro que logo acabou. - Essa é obra, amigo! Há quanto tempo foi isso? O desastre. - Há oito anos, 4 meses e seis dias. - E a culpa foi sua? - Foi de ambos. Estávamo-nos a beijar. E chovia. - Áh! - Sei que ele tem vindo atrás do meu rasto. Um dia apanha-me. - Nem pense nisso! Ele já se esqueceu. - Ele era de ideias fixas como um touro e disse uma coisa em que acreditei: "Eu vou até ao fim do mundo para o liquidar!" Não disse "matar". Disse "liquidar", o que demonstra muito mais determinação. O Cláudio tinha que fazer e viu também que o concerto de hoje já estava estragado. Abriu o estojo e guardou o saxofone. Levantou-se e sacudiu as calças das notas que tinham caído do instrumento e que, por isso, não foram tocadas. - E é precisamente hoje. O saxofonista viu logo um homem possante a aproximar-se deles com uma carabina na mão. - É o pai da Gabriela? - perguntou o Joelzinho, sem necessidade. Imediatamente o Cláudio se pôs à sua frente, com o estojo contra o peito seguro pelas duas mãos. O touro disparou e o Cláudio caiu sobre o Joelzinho. O povo da rua agarrou o homem e desarmou-o, esperando pela polícia. Joelzinho estava vivo mas não se podia mexer com o peso do Cláudio em cima dele. Cláudio então levantou-se a custo, olhando horrorizado para o estojo desfeito e o saxofone furado pela bala que era para ele. Ficou vivo, mas com o saxofone morto. n


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