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universal, ao modelo de um imperativo categórico, mas no fato de que a democracia somente se vai efetivando à medida que se amplia, à medida em que aquilo que chamamos “nós” engloba seres humanos que, antes, eram apenas um amorfo e impessoal “eles”. Rorty considerava imperioso o reconhecimento de sua postura etnocêntrica. Entretanto, se tomarmos a expressão etnocentrismo nos moldes que a tradição filosófica e as ciências sociais – especialmente a Antropologia e a Sociologia – têm-nos apresentado há séculos, assumir tal postura seria uma completa incongruência com o desejo de ampliação das intenções-nós acima ventilado. Ora, se o etnocentrismo for tomado como a postura, consciente ou não, de elevar os próprios valores ao status de valores universais, ou o fato de um povo considerar a própria ideia de bem como aquilo que deveria ser almejado por todos os outros povos – uma forma de narcisismo cultural –, então é coerente entendê-lo como uma causa potencial de muitos conflitos violentos (incluindo-se nisto a possibilidade de guerras religiosas e até de etnocídio) entre os povos. Como um filósofo se diz etnocêntrico e defende a aproximação, via diálogo includente, entre as pessoas (no interior da mesma sociedade) e entre os povos via diálogo intercultural? É com o fito de responder a esta pergunta que estabeleço, a seguir, alguns pontos importantes em relação ao conceito de etnocentrismo no pensamento rortyano. a) Em Rorty a expressão etnocentrismo é redescrita. Prática corrente na literatura rortyana, a redescrição é a técnica-método de ressignificar uma expressão linguística, utilizando-a constantemente sob uma acepção nova, ou uma abrangência diferenciada, de maneira que paulatinamente ela passa a compor um vocabulário muito singular para o autor, e a estabelecer total coerência no contexto formado com as outras ideias circundantes. É através deste método de ressignificação que Rorty subtrai a carga de negatividade que costuma estar associada à palavra etnocentrismo. Para ele, ser etnocêntrico é ter a consciência de que toda e qualquer pessoa está sempre imerso em sua
Redescrições - Revista online do GT de Pragmatismo, ano VII, nº 1, 2016