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REPORTAGEM

UNIDOS PELO CINEMA Nascidos nos anos 20, na França, os cineclubes têm como principal missão garantir a exibição de filmes de arte seguida de debate. Parece pouco, mas a atividade, apesar de ter desaparecido de muitos lugares nos anos 80, está cada vez mais viva, tem o apoio de editais públicos e tem sido responsável pela formação de plateias em lugares onde não há uma única sala de cinema. A Graciliano revela histórias de cinéfilos alagoanos que decidiram dedicar parte de seu tempo à criação de cineclubes

TEXTO: FRANCISCO

RIBEIRO

ILUSTRAÇÃO: HEWAY

VERÇOSA

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REPORTAGEM Surgido na França, o cineclubismo influenciou gerações como os representantes da Nouvelle Vague, movimento responsável pela renovação do cinema. No registro histórico, durante o Festival de Cannes, os cineastas Claude Lelouch, Jean-Luc Godard, François Truffaut, Louis Malle e Roman Polanski. Todos foram cineclubistas

A

o propor novas formas de exibição e apreciação de filmes, alguns grupos de jovens entusiastas da sétima arte criaram espaços para a reflexão crítica e coletiva. Assim nasceram os cineclubes, lugares não apenas para projeção de filmes, mas também para o debate, a troca livre de ideias em torno do mesmo tema. Seus participantes também demostravam insatisfação com o que era ofertado pelo circuito comercial, o que ainda move os cineclubes existentes atualmente. A prática cineclubista chegou ao Brasil em 1928, dois anos após ser difundida na França. O cineclube carioca Chaplin Club foi o primeiro ambiente destinado a não somente

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exibir filmes, mas, também, a discuti-los. Lá, reunia-se a elite intelectual em busca de enriquecer seu repertório audiovisual. A organização do público em torno do cinema, tendo em vista a discursão da linguagem cinematográfica fez multiplicar esses espaços e outros tipos de encontros envolvendo cinéfilos. Em 1962, é criado o Conselho Nacional de Cineclubes (CNC), filiado à Federação Internacional de Cineclubes (FICC). A entidade continua ativa até hoje e possui o propósito de agregar as federações cineclubistas presentes nos estados, visando seu fortalecimento. Os anos seguintes foram de amadurecimento para o cineclubismo, o que trouxe

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melhorias na qualidade da programação e na sua estrutura. A efervescência cultural dos anos 60 fez surgir novos espaços de exibição, especialmente, nas universidades e nas escolas. “Levar cultura para o povo” tornou-se o lema dos cineclubistas na época. Apesar do entusiasmo, a trajetória desse movimento esbarrou na censura. Durante a ditadura militar, a maioria das entidades estaduais foi fechada ou proibida de atuar. A partir da redemocratização, no final dos anos 70 e início da década de 80, os cineclubes retomaram suas atividades. Em Alagoas, surge o CineUfal, vinculado à Universidade Federal de Alagoas, mas o lampejo da retomada não


Vanessa Mota

durou muito tempo. A década de 90 foi marcada pela redução da atividade cineclubista e o desaparecimento das principais entidades representativas. Segundo o cineasta paraibano Hermano Figueiredo, 51, um dos nomes responsáveis pela retomada dessa atividade no País, o hiato duraria, aproximadamente, 15 anos, até a sua rearticulação nos anos 2000. “Com o aparecimento do videocassete, as pessoas se deslumbraram com a possibilidade de ver cinema em casa. Essa introspecção também tem outros fatores, como, por exemplo, a diminuição das salas de cinema de bairro e o aumento da insegurança nos centros urbanos. Praticamente, tivemos 90% ou mais dos municípios brasileiros sem sala de cinema”, explica. Hermano costuma reafirmar a ideia de que o cineclube é a porta de entrada para o cinema nacional. “É através dele que se forma o espectador crítico, o jovem realizador, o crítico de cinema. Esse é um espaço de formação, resistência e criatividade”, diz o diretor do documentário Calabar, vencedor do Prêmio DOC TV 2006, em Alagoas. O extenso currículo que possui, tanto como produtor, quanto cineclubista, o fez receber um convite da Secretaria do Audiovisual, do Ministério da Cultura (MinC),

É através do cineclubismo que se forma o espectador crítico, o jovem realizador, o crítico de cinema. Esse é um espaço de formação, resistência e criatividade” Hermano Figueiredo | Cineasta

para compor a comissão de retomada do movimento junto a outros seis cineclubistas. “O grupo teve a missão de mobilizar os cineclubes já existentes e também os grupos cujas práticas eram similares a tal atividade, ou seja, que promoviam exibições de filmes sem fins lucrativos, apresentavam estrutura democrática e compromisso cultural ou ético. Depois disso, promovemos duas jornadas cineclubistas. A primeira, em 2003, para reorganização. E a segunda, no ano seguinte, para reinstitucionalização”, conta. Como consequência dessa iniciativa, foi instituída a Jornada Nacional dos Cineclubes, que já está em sua 29ª edição e ocorre a cada dois anos. Em setembro desse ano, aconteceu o Encontro Cineclubista do Nordeste, em Laranjeiras, Sergipe. O evento é uma espécie de prévia para as

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jornadas nacionais e conta com o apoio da Diretoria Regional Nordeste do Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros (CNC). A programação contemplou mesas de debates, que destacaram a importância do movimento cineclubista no Nordeste. Para o estudante de Ciências Sociais Nuno Balducci, 22, o encontro possibilitou o acesso aos aspectos políticos e culturais que norteiam a prática cineclubista. “Descobri a existência de leis que defendem o movimento. E é importante tomarmos conhecimento disso. A gente não faz pirataria, pois não ganhamos nada financeiramente. Apenas temos a vontade de exibir filmes e debatê-los em grupo”, diz. Segundo levantamento da ONG Ideário Comunicação e Cultura, atualmente existem cerca de 40 cineclubes em todo o Estado. Desse total, 16

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REPORTAGEM Ibateguara

Água Branca

Santana do Ipanema

Delmiro Gouveia

Palmeira dos Índios Paripueira Major Isidoro

Atalaia Igaci Maceió Boca da Mata

Taquarana

Arapiraca Lagoa da Canoa

Feira Grande

Número de cineclubes em Alagoas 1 1 4 1 1 1 1 1 1

Água Branca Atalaia Arapiraca Boca da Mata Coruripe Delmiro Gouveia Feira Grande Ibatequara Igaci

1 16 1 2 2 1 1 1 1

Lagoa da Canoa Maceió Major Isidoro Penedo Piaçabuçu Santana do Ipanema Paripueira Palmeira dos Índios Taquarana

Coruripe

Penedo

Piaçabuçu

Fonte: Ideário Comunicação e Cultura

estão na capital. Enquanto os outros 22 encontram-se no interior, distribuídos entre as seguintes localidades: Água Branca (1), Atalaia (1), Arapiraca (4), Boca da Mata (1), Coruripe (1), Delmiro Gouveia (1), Feira Grande (1), Ibatequara (1), Igaci (1), Lagoa da Canoa (1), Major Isidoro (1), Penedo (2), Piaçabuçu (2), Santana do Ipanema (1), Paripueira (1), Palmeira dos Índios (1) e Taquarana (1). O mapeamento aponta que o número de grupos ativos pode sofrer variações. “Os fatores determinantes da fragilidade do movimento vão desde o pequeno número de integrantes, que com o afastamento de algum deles

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provoca o encerramento das atividades, até as situações em que os cineclubes estão ligados a instituições, que por acumular muitos projetos, interrompem os que estão relacionados com essa prática. Portanto, a atividade cineclubista é muito oscilante”, esclarece Hermano Figueiredo, diretor da ONG responsável pelos dados. Em Alagoas, o período de efervescência do cineclubismo se deve a atuação do Cineclube Ideário, que desenvolveu uma assessoria de apoio à formação de cineclubes, e pelo lançamento do programa nacional Cine Mais Cultura. Essa iniciativa do governo federal buscou, através de

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editais e parcerias diretas, disponibilizar equipamento audiovisual de projeção digital, obras brasileiras do catálogo da Programadora Brasil e oficinas de capacitação cineclubista, atendendo prioritariamente as periferias dos grandes centros urbanos e municípios. Ao avaliar o cenário cineclubista alagoano, Hermano acredita que o movimento ainda tem muito a crescer. “Hoje, encontramos quase 40 grupos ativos. Isso mostra o quanto evoluímos. Entretanto, verificamos que existem cineclubes que são menos fortes quando comparados a outros, por isso é preciso que esses grupos


CINECLUBISMO NO DESTINO

Passava pouco das três horas da tarde quando a estudante de Jornalismo Nataska Conrado, 29, entrou no prédio da reitoria da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Ao olhar em volta, avistou um aglomerado de pessoas sentadas no chão, diante de uma grande tela branca que reproduzia as imagens vindas de um pequeno aparelho de projeção 16 mm. Surpresa com a projeção, Nataska juntou-se aos demais para assistir ao filme. Após o encerramento da breve sessão de cinema, o coordenador do evento, Hermano Figueiredo, promoveu um bate-papo para expor a plateia o que é a prática cineclubista e suas possibilidades. “Fiquei muito entusiasmada e no final daquela intervenção, apresentei-me a ele. A gente conversou um bocado, mas perdemos o contato”, lembra a estudante. Dois anos depois, à procura de novas experiências fora da universidade, ela enviou seu currículo para uma seleção de estágio na ONG Ideário Comunicação e Cultura. “Passaram-se alguns dias e recebi o convite para uma

entrevista. E felizmente, fui aprovada”, conta. Sem imaginar, Nataska passaria a trabalhar ao lado de Hermano e da escritora e roteirista Regina Barbosa, e justamente na produção de atividades como aquela que havia chamado sua atenção anos atrás, na reitoria da Ufal. Enquanto estagiária, foi se envolvendo com projetos vinculados ao cinema, como o Tela Tudo e o Acenda Uma Vela. Esse último apresenta como proposta a exibição gratuita de filmes em velas de jangada para comunidades que não têm acesso ao cinema. “Apesar de só acontecer no verão, devido ao clima favorável, é uma ação cineclubista, pois possui um caráter democrático”, ressalta. O desafio, assumido pela equipe, de exibir em suportes alternativos revelou-se a identidade da ONG Ideário. “É gratificante ver o reconhecimento das pessoas. Transformamos um meio de trabalho – a vela da jangada – num canal de acesso a bens culturais, nesse caso, o cinema. A jangada, até então sem utilidade num certo momento, ganhou uma nova função”, conta. Com a memória repleta de episódios marcantes, Nataska não esconde o desejo que possui de contá-los. “Em 2011, na ocasião do Festival Universitário de Cinema de Alagoas, decidimos fazer uma sessão especial do Acenda

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Nataska Conrado

reivindiquem políticas públicas para consolidar iniciativas que envolvam a produção audiovisual”, avalia.

Sem fins lucrativos, o cineclube Ideário realiza ações que buscam a valorização do cinema

Iniciado no Brasil em 1928, o cineclubismo teve sua primeira atividade no Rio de Janeiro. Desde o começo, a exibição de filmes era seguida por debates

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REPORTAGEM Com design minimalista, cartazes criados pela arquiteta e cineasta Alice Jardim para as sessões do cineclube Ideário

Uma Vela. Para isso, tivemos que alugar uma jangada a um pescador. ‘Pra que vocês querem a jangada? Pra exibir um filme?’, perguntou ele, incrédulo. Mesmo assim, acabou fechando negócio. À noite, o pescador apareceu para assistir ao filme. De longe, observava atento aquela cena, a qual se revelava inusitada para ele. No final, fomos pagá-lo, conforme prometido. Antes de colocar o dinheiro em suas mãos, ele disse: ‘Não, eu não quero dinheiro nenhum porque vocês transformaram a minha vela numa coisa linda. Eu que fui presenteado por vocês’”, relata, emocionada. Ao realizar exibições em regiões cuja população não tem acesso à sala de cinema, a ação cineclubista demonstra o compromisso assumido com a difusão do audiovisual sem restrições de público, direcionada para a população em geral e de cunho educativo. “Os cineclubes são uma alternativa ao circuito de exibição comercial, colocando em circulação obras que normalmente estão restritas ao grande público. Portanto, esse espaço promove e garante a difusão da atividade cinematográfica. Costumamos dizer, porque acreditamos muito: o cinema só se completa com o público. Filmes são feitos para serem vistos e todos nós somos o público”, defende a jovem cineclubista.

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Um pouco diferente de Nataska, o cineclubismo entrou na vida do produtor audiovisual e escritor alagoano Nivaldo Vasconcelos, 30, por insistência de uma amiga. E a primeira sessão da qual participou foi justamente no cineclube Ideário. “Demorei a aceitar o convite, pois imagina o que vem à mente das pessoas quando se fala em cineclubismo: um grupo de nerds ou jovens fanáticos por cinema reunidos, ou seja, um programa bastante enfadonho”, confessa. Mas bastou uma única sessão para

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que ele tomasse gosto pela coisa. Cinéfilo de carteirinha, Nivaldo costumava garimpar filmes nas prateleiras das locadoras. Logo após assistilos, era tomado pelo impulso de compartilhar com seus amigos o que acabava de ver. Dentro do cineclube não foi diferente, conforme conta Nataska. “Hoje, ele é a pessoa que mais conduz os debates”, afirma. De acordo com Nivaldo, o perfil do público frequentador de cineclubes é imprevisível, e esta característica lhe


Bruno Alves

chamou a atenção. “Não tem como prever quem vai ser o espectador da próxima sessão”, diz. A presença constante nas sessões motivou Nataska a convidá-lo para fazer parte da coordenação do cineclube. Na época, o grupo contava com participação de Alice Jardim, Amanda Nascimento, Lis Paim e Flora Paim, todas apaixonadas por cinema. As duas últimas, afastaram-se da organização em função de uma temporada de estudos no exterior – Lis foi cursar Cinema em Buenos Aires. “No entanto, mesmo a distância, elas dão um jeito de contribuir de alguma forma”, assegura Nataska. De cineclubista a cineasta, Lis seguiu um caminho comum entre os realizadores audiovisuais no País, bem como Nivaldo, que já atuou como assistente de direção em produções locais, a exemplo dos curtas-metragens O que Lembro, Tenho e KM 58, do jornalista e cineasta Rafhael Barbosa. “Estar envolvido com o cineclubismo me permitiu entrar em contato com pessoas que estão fazendo cinema no Estado. Isso foi algo muito bacana porque abriu diversas portas para mim”, afirma ele. CINEMA NO INTERIOR

Foi com o propósito de facilitar o acesso a bens culturais que o historiador e professor

universitário alagoano Sérgio Onofre, 50, decidiu levar a prática cineclubista para a cidade de Penedo. Para isso, criou o cineclube CineArt Popular Penedo, um programa de extensão vinculado à Ufal. “O projeto lança um debate sobre a recuperação dos espaços de exibição pela cidade, os quais estão todos desativados. O cinema é uma realidade restrita aos grandes centros urbanos. A maioria dos munícios do interior não possui equipamento cultural algum”, diz. Em 2008, o CineArt Popular Penedo foi contemplado através de um edital nacional lançado pela Secretaria de Educação Superior (Sesu), do Ministério da Educação, com recursos para adquirir equipamentos e pagar bolsistas que levariam a ação adiante. Desde 2010, a população que reside no Centro e nas comunidades mais distantes da cidade vem sendo beneficiada pelo programa. Segundo Onofre, as sessões realizadas em regiões de difícil acesso trazem certos desafios: “Quando chegamos nesses locais a nossa preocupação é, em primeiro lugar, encontrar a rede elétrica para ligar os equipamentos, o que nem sempre é algo fácil. Essa é apenas uma entre as dificuldades que enfrentamos. Assim, improvisar virou regra.” A cada ano, o professor e sua equipe de alunos bolsistas

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O produtor, escritor e cineclubista Nivaldo Vasconcelos (foto) vê na diversidade do público um dos pontos positivos da atividade

vão modificando a “fórmula” para atrair maior número de espectadores. “Aos poucos, percebemos que para manter um público participativo durante os debates, seria preciso iniciar as sessões mais cedo do que o previsto. E antes do longa-metragem, passamos a exibir um curta. Desta forma, os debates sempre acontecem e contam com mais participação da comunidade”, afirma. Antes da interrupção das atividades do CineArt Popular devido à greve dos docentes nas universidades públicas, entre os meses de maio e setembro de 2012, o professor de Turismo da Ufal, no campus

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REPORTAGEM Nataska Conrado

O projeto Acenda uma Vela tem como objetivo levar exibições gratuitas de filmes a comunidades que não têm acesso ao cinema

Penedo, Sandro Medeiros, 41, não costumava faltar nenhuma sessão. “Os filmes exibidos sempre buscaram desenvolver o ‘olhar para a arte’ dos espectadores, desvencilhandose do entretenimento fácil e rápido”, avalia. Para ele, o cineclube tenta educar uma nova geração de cidadãos através do cinema, depois que as salas de exibição da cidade foram fechadas. “O modelo de negócio que leva o cinema ao público é dominado por grandes distribuidoras, cujo foco é os grandes centros de consumo, notadamente em shopping centers, desprestigiando os pequenos núcleos urbanos. Então, tentar resgatar uma prática há muito já esquecida na cidade, não é nada fácil, ainda mais com a concorrência das TV’s abertas, DVD’s, internet etc. Isso tudo torna o ideal do CineArte Popular, de certa forma, utópico mas, ao mesmo

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tempo, heroico e por isso mesmo precisa ser prestigiado e valorizado”, pontua. Outra cidade que conta com o entusiasmo e a perseverança de apaixonados pelo cinema está situada a 113 km de distância de Maceió: em Taquarana também não há salas de exibição, obstáculo que não parece assustar a Subsecretária de Cultura da cidade, Salete Oliveira, 40. Mesmo sem receber o apoio da população, ela decidiu seguir em frente com seu projeto de levar cinema para toda a comunidade. Até que, em 24 de agosto de 2010, nasceu o cineclube Cine Mais Taquarana. “A população não acreditava que num município de médio porte poderia ter uma sala de cinema. Mas através de um edital do governo federal consegui montar o cineclube. Na sessão de inauguração, exibimos o filme Cinema Paradiso, do diretor italiano

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Giuseppe Tornatore, e a emoção tomou conta de todos os presentes”, recorda. MEMÓRIA

Nos anos 80, o estudante de Filosofia Washington da Anunciação dificilmente encontrava espaço para descansar entre as obrigações acadêmicas e as funções de coordenador do extinto cineclube da Universidade Federal de Alagoas, o CineUfal. Sozinho, era ele o responsável por quase todas as tarefas que mantinham o cineclube semanalmente em atividade: entrar em contato com a distribuidora, buscar o filme em 16 mm na rodoviária, avaliar a situação da película, fazer a divulgação da sessão, preparar o auditório do Espaço Cultural da Ufal para a exibição e coordenar os debates. Ainda na juventude,


Washington compreendera que para realizar qualquer atividade relacionada a cinema no Brasil é preciso saber lidar sempre com alguns contratempos. Hoje, aos 55 anos, ele ainda lembra alguns episódios que fazem parte da história do CineUfal: “Foram quase seis anos à frente do cineclube. Naquela época, as dificuldades eram imensas. Só para você ter uma ideia, o planejamento das sessões do ano todo era feito em janeiro e o custo era altíssimo, pois a gente tinha de pagar a distribuidora, a transportadora etc. O CineUfal só existia porque recebia verbas da reitoria, através da Pró-reitoria de Extensão. Agora é que eu me dou conta do quanto executar cada sessão era dispendioso e cansativo, mas também muito gratificante”, rememora Washington, atualmente professor do curso de Teatro da Ufal. As sessões aconteciam sempre aos sábados à noite, e reunia a elite intelectual, cineastas alagoanos ou simplesmente cinéfilos. Não era difícil encontrar entre o público nomes conhecidos da produção audiovisual local como Celso Brandão, Benvau Fon, Elinaldo Barros e Almir Guilhermino. Diretores consagrados e escritores prestigiaram o evento, a exemplo do escritor Ferreira Gullar e do diretor de cinema Lima Barreto (O Cangaceiro, de 1953). “Os

debates pegavam fogo. Era cada um tentando mostrar que sabia mais sobre a linguagem cinematográfica, o contexto em que o filme foi produzido etc., mas se alguém discordasse da opinião do outro, a confusão estava feita”, lembra. Washington integrou o Conselho Nacional de Cineclubes, representando Alagoas. Ele conta que, como integrante do conselho, conseguiu ampliar a variedade de filmes a serem exibidos em Alagoas, através do contato direto com a distribuidora Embrafilme e com os consulados. “O resultado foi a realização de mostras internacionais de cinema”, diz. Para montar a programação, ele diz que contava com as dicas do crítico e professor Elinaldo Barros, na época já um nome bastante respeitado quando o assunto era cinema. O CineUfal encerrou as atividades lentamente. As mudanças administrativas ocorridas na universidade reduziram as verbas destinadas ao cineclube e o público foi ficando cada vez menor. Assim, quando as sessões eram realizadas, o pequeno número de espectadores não justificava os altos custos da produção. O fim definitivo aconteceu em 1989. Sem disfarçar certa nostalgia, Washington declara: “Vivemos grandes momentos. É muito bom resgatar essa história”.

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HISTÓRIAS DE CINECLUBE • O escritor Ferreira Gullar é conhecido por não tolerar qualquer tipo de provocação. Em passagem por Alagoas, ele participou de uma sessão do extinto cineclube da Ufal, o CineUfal. Durante o debate, Gullar teceu uma crítica negativa sobre o filme exibido. Seu posicionamento provocou a reação imediata de um espectador, que discordou, grosseiramente, da sua opinião. “O escritor ficou muito nervoso e mandou o rapaz ir pra aquele lugar”, conta Washington da Anunciação. • Nas sessões do CineUfal, o debate sempre foi o momento mais aguardado pelos cinéfilos. “Eles faziam uma exibição de quanto sabiam sobre o filme. Era um show à parte. Certa vez, exibimos O Cangaceiro (1953, premiado no Festival de Cannes), escrito e dirigido por Lima Barreto. Naquela noite, Elinaldo Barros ficou mais de uma hora falando sobre o filme. O pessoal ficou encantado. Mas nem sempre era assim. Caso alguma pessoa discordasse da opinião de outras nos debates, começava então uma disputa para mostrar quem sabia mais”, relembra. • A informalidade é uma das principais características dos cineclubes. Se acontecer algum problema durante a exibição, nada de vaias ou reclamações. O jeito é esperar ou oferecer uma mãozinha para solucionar o problema. • O movimento cineclubista é bastante organizado. As federações estaduais estão vinculadas ao Conselho Nacional de Cineclube (CNC), que por sua vez está filiado à Federação Internacional de Cineclubes (FICC). Alagoas ainda não possui uma organização estadual. • A Federação Internacional de Cineclubes (FICC) é a organização mundial representativa dos cineclubes e foi constituída em 1947, durante o Festival de Cannes, na França. Os dirigentes da FICC integram o Comitê Consultivo da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Hoje, a entidade agrupa mais de 30 países, com cerca de 50 federações nacionais.

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Unidos pelo cinema