Caderno Final de TGI II

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“o modo como você é, eu sou, o modo como os homens são na terra, é habitar […]” Martin Heidegger – Construir, Habitar, Pensar (1971)

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ONDE O PEIXE PÁRA | Especulações da Memória nos galpões do Engenho Central de Piracicaba

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Agradecimentos Dedico este trabalho àqueles que me trouxeram a esse mundo, que estiveram ao meu lado no trilhar dos caminhos, e que serão responsáveis pelos frutos ainda a frente: meus pais, Batista e Adalgisa, meus irmãos, Fabrício e Fabiano, meus tios, Edison e Alaíde, meus primos Edinho e Fernanda. Nesse caminho também sou grato por aqueles que sempre me apoiaram, com os quais tive o prazer de aprender e compartilhar dos sabores da vida e da amizade, em especial: Brunão, Vitão, Mussa, Jordão, BCC, Fushigami-san, Vertamatti e ao parceiro que deixa saudades, Marcito. Agradeço aos mestres, responsáveis por despertar esse instigante interesse pela arquitetura, pela cidade e pela paisagem. Em especial, Luciana, João Marcos e Fujioka pela contagiante paixão pelo tema e disposição, e Suzuki, pela experiência. Também compartilho o prazer desse trabalho com todos aqueles que desbravaram noites adentro nos tortuosos (e divertidíssimos) caminhos da graduação, nos papos de bancão, nas disputadas pizzadas da SAAU, nas discussões infindáveis... muito aprendi com vocês, sobre a arquitetura e sobre a vida. Resta-me ainda agradecer as grandes amizades que foram construídas aqui: Musumeci, Barbosa, Leitão, Vergara, Eleutério, Mélina, Capobianco, Irmão Italianos, Bill, Mei, Nina, pessoal da SAAU, e outros que, por ventura, possa ter esquecido aqui, obrigado. Enfim, muito obrigado, Lisandra, por todo o apoio, companheirismo e amor, sempre fiel, mesmo nos momentos em o tempo se fecha... muito obrigado.

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Índice | ANSEIOS EMERGENTES |

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DE UM ALUNO

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DE SEUS PERSONAGENS

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DE UM LUGAR

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| O HABITAR DAS MARGENS |

27

O RIO

31

A HISTÓRIA CONSTRUÍDA

37

O PASSADO VELADO

47

| REHABITANDO AS MARGENS |

52

COMPLEXO ARTÍSTICO CULTURAL

55

UNIVERSIDADE LIVRE DE DESENVOLVIMENTO URBANO, HISTÓRICO AMBIENTAL

56

NÚCLEO DA CRIANÇA

56

A CARTOGRAFIA SIMBÓLICA

62

ESTRATÉGIAS PROJETUAIS | NÚCLEO DA CRIANÇA |

63 69

ACESSOS E ÁREAS EXTERNAS

72

O PASSADO VELADO

81

GALPÕES 17 E 13 – CRECHE

85

GALPÃO 14C – GINÁSIO ESPORTIVO

89

GALPÕES 14B E 15 – BIBLIOTECA E ESCOLA DE ENSINO FUNDAMENTAL CICLO I

93

| BIBLIOGRAFIA |

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ANSEIOS EMERGENTES

| DE UM ALUNO

O TGI nasce da observação de grupos ou indivíduos que se apropriam de espaços ociosos na cidade. Estes grupos conseguem identificar potencialidades veladas nestes territórios e, através de sua apropriação, seja de origem esportiva, artística, social ou cultural, são capazes de gerir, mesmo que de forma efêmera, uma relação mais intima com estes lugares, um determinado grau de identidade. Dessa observação, aflora uma questão chave do trabalho: seria possível então, analisadas estas formas de se ver e usar os espaços da cidade, compreender as potencialidades dos mesmos e esponencializá-las de forma que possam infiltrar-se no tecido urbano adjacente, e, conseqüentemente, agir no experimentar e viver daqueles que percorrem cotidianamente esses territórios? Da vontade de experimentar essa possibilidade buscou-se um local que correspondesse a esses requisitos: um lugar que despertasse o interesse de grupos diversos por suas terras que, então, estariam esquecidas ou subutilizadas pelo restante da cidade. Onde o Peixe Pára | 12


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Dessa busca encontrou-se um lugar que, além da presença de grupos de diversas origens que se apropriavam de suas extensões, se destacou também pela qualidade arquitetônica de suas edificações e pela imponência com que se faziam presentes os elementos naturais da água e da vegetação, destaques estes que, quando somadas às lentes de seu passado tornaram-se ainda mais relevantes e intrigantes: o território escolhido fora a região central do Rio Piracicaba, no município de Piracicaba, interior de São Paulo, onde, às suas margens encontram-se ainda diversas construções que atravessam as linhas do tempo desde o século XVIII aos dias de hoje.

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A identidade humana pressupõe a identidade do lugar. Christian Norberg-Schulz – O fenômeno do lugar

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ANSEIOS EMERGENTES

| DE SEUS PERSONAGENS

Nas margens e nas construções do Rio Piracicaba, entre pedestres a passear e eventos festivos pontuais ao longo do ano, podemos encontrar atores e dançarinos, músicos e poetas, atletas (1, 3 e 5) diversos, que identificam nesses galpões abandonados a oportunidade de fortalecer suas próprias práticas, ensaios e performances, enquanto desvendam as possibilidades presentes nas estruturas fabris do Engenho Central, lada a lado ao correr das águas do próprio rio. Neste lugar devemos destacar ainda a ocorrência do Salão Internacional de Humor (7), que ocorre anualmente nos galpões do Engenho Central e, desde seu surgimento em 1974 como resistência a ditadura militar no Brasil, move cartunistas, desenhistas e afins do mundo todo para suas discussões, produções e exposições. Em suas águas, vemos no Piracicaba aqueles que aproveitam períodos de correntezas calmas e de calor para deitar-se em bóias (4 e 8) sobre as refrescantes águas do Piracicaba, ou aqueles que desafiam as forças de suas cheias sobre caiaques (6) e remos em punho. Onde o Peixe Pára | 16


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Destes grupos, vale destacar uma apropriação que, pela sua pertinência e autenticidade, marcou o autor, assim como muitos piracicabanos que puderam presenciá-la: os Bonecos do Elias dos Bonecos (9). Um antigo pescador do Rio Piracicaba que, em seus períodos vagos, recolhia sucatas e, em sua oficina, montava bonecos em escala humana. Estes eram levados em seu barco pelo Rio e dispostos ao longo de suas margens, simulando situações diversas: convívio de familiares às margens, pescadores à espera do peixe, procissões religiosas, situações que, dentre outras, remetiam a relações que, em outros tempos, o homem estabeleceu com o Rio Piracicaba e que estavam sendo esmaecidas com o tempo. Analisando estas apropriações citadas acima, concluiu-se que todas elas traziam um denominador comum: O anseio de se reconquistar um território que carrega em si um passado e suas experiências; o anseio de se viver novamente o Rio e suas margens, compreender suas belezas e seus perigos; o anseio de conviver com ele novamente, de habitá-lo uma vez mais.

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“O índio veio aonde o peixe pára. O industrial veio aonde o peixe pula. Nós vamos aonde o rio espera. O peixe criou o índio. O salto criou o industrial. O rio, conosco, cria Piracicaba” Arlindo Stefani - A cara de Piracicaba Onde o Peixe Pára | 19


ANSEIOS EMERGENTES |

DE UM LUGAR

O município surgiu às margens do Rio que lhe conferiu o nome: Piracicaba que, em tupi-guarani, significa “lugar onde o peixe para”. Esse nome surgiu devido à barreira imposta aos peixes no período da piracema1 pelas quedas do rio, também conhecida como Salto do Rio Piracicaba (1). Não coincidentemente, os primeiros ocupantes que se tem registro dessas terras foram os índios paiguás, que buscavam a abundância de água e alimento do Salto e, assim, fizeram da margem direita, nas proximidades de onde se situa atualmente o Engenho Central (2), sua morada e o que o antropólogo Arlindo Stefani chama de primeiro centro do mundo piracicabano. Estes nativos, exímios caçadores e guerreiros, conhecidos pela maestria no uso de lanças e arcos sobre canoas, vitimaram inúmeros homens que tentaram se apoderar desse território, até a chegada dos colonizadores. Assim como os índios, os primeiros homens brancos se alojaram nessa porção do Rio onde, em 1º de agosto de 1767, é fundada a povoação de Piracicaba e, em 1774, o povoado é promovido a Freguesia. Em 1784 esse centro se desloca para a margem 1

Período de reprodução dos peixes em que sobem as correntezas para realizar a desova.

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esquerda aos pés da colina, onde hoje se encontra a Rua do Porto (3), local que, apesar de mais propício para as cheias do Rio, era mais sadio para se habitar. O centro desse mundo se desloca novamente em 1821, dessa vez para o alto da colina nas proximidades da atual Praça José Bonifácio, esse foi o único dos centros de Piracicaba que se distancia do corpo do Rio, apesar da ainda referente importância do eixo comercial exercida pelo porto. É também durante esse distanciamento do corpo d água que a cidade começa a dar as costas ao Rio e se dá inicio a um processo acelerado de poluição e degradação do mesmo. Esse período, assim como seus ocupantes e sua relação com o Rio Piracicaba, marca o que Stefani chamou em seu diagnóstico2 para o Plano Diretor do município de primeiro grande ciclo ou Ciclo do Índio, do Colonizador, do 2

Esse diagnóstico e Plano Diretor, “A Cara de Piracicaba” e “Projeto Beira Rio” respectivamente , assim como a sensível leitura e interpretação da ocupação e história no passar do tempo piracicabano orquestrados por Arlindo Stefani e apoiadores, foram de fundamental importância para o desenvolvimento das conseqüentes leituras, interpretações e proposições do autor do presente trabalho, se apropriando de algumas perspectivas e entendimentos da construção deste território, principalmente no que tange a noção dos centros do mundo piracicabano e sua estruturação na relação entre rio-homem-rio. Onde o Peixe Pára | 21


Povoador, período que abrange desde tempos imemoriais dos nativos da terra até as ocupações dos primeiros povoadores da cidade. Para formular essa estrutura, utilizou-se das transformações da relação rio-homem-rio ao longo do tempo, que “[...] deu nascimento ao espírito do lugar. Este percorreu três grandes ciclos econômico-sociais e ambientais para nos introduzir no atual”3. Ao lado deste primeiro, Stefani destaca outros dois grandes ciclos, o segundo sendo marcado pela chegada do Barão de Rezende e de Luiz de Queiroz ao Salto do Rio Piracicaba, momento em que o Rio deixa de ser apenas peixe, e passa a se transformar em energia. O ápice desse período é celebrado pelo surgimento e crescimento do Engenho Central de Piracicaba, fundado em 1881, e é nomeado como o Ciclo Industrial. O mesmo Engenho Central marca a passagem para o terceiro e último período, porém agora, através de seu fechamento (1974), assim como o de outros 3

STEFANI, A. A cara de Piracicaba, apud. Cecíllio Elias Neto DIsponínel em: http://www.aprovincia.com/padrao.aspx?texto.aspx?idcontent=138922 acessado em 22 de junho de 2010

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engenhos subservientes, e o retorno simbólico do centro do mundo piracicabano para as margens do Rio, através da construção do atual prédio da prefeitura (1988). Este último ciclo é batizado por Stefani de Ciclo da Informação e se diferencia dos demais por “não jogar fora o passado, pois o integramos na memória do futuro. [...]. Fazendo isto, acordamos a memória de todos os ciclos passados, desde o índio até o Elias dos Bonecos – paradigma de nós todos. A ele vem se juntar o Visitante, nosso novo industrial da cultura do turismo”.4 Através deste diagnóstico realizado pela prefeitura de Piracicaba foram efetivados alguns projetos e obras nas construções lindeiras, como por exemplo, a construção do Parque da Rua do Porto (parque urbano com diversos equipamentos de lazer e esporte), a reforma da Avenida Beira Rio (4) (realização de passeios e diminuição do leito carroçável na avenida) e da Rua do Porto (reforma das antigas residências dos pescadores para abrigar o complexo gastronômico), além da realização pontual de mega eventos no 4

STEFANI, A. A cara de Piracicaba, apud. Cecíllio Elias Neto DIsponínel em: http://www.aprovincia.com/padrao.aspx?texto.aspx?idcontent=138922 acessado em 22 de junho de 2010 Onde o Peixe Pára | 23


Engenho Central. Em todos os casos, a efetividade na intenção de convidar novos usuários, da cidade e de fora, a visitar seus passeios, comércios e restaurantes é evidente, trazendo alguma proximidade desses visitantes a esses espaços, porém, o que se coloca em questão nessas reformas não é essa capacidade de atrair novos usuários, mas o como se articulam as relações já existentes desse território. Muitas destas reformas sendo realizadas nas construções lindeiras são feitas nos moldes já conhecidos ao redor do mundo pela indústria do turismo, se sobrepondo as culturas consolidadas, subvertendo as mesmas para um formato consumível, reduzindo ou esvaziando sua riqueza e conteúdo, propondo o consumo de uma nova “identidade” criada Se por um lado seus novos restaurantes se tornam cartão postal para o turismo regional (se especializando no preparo de peixes que nem mais são do próprio rio), por outro, essa nova cultura de eventos, reproduzida da indústria do turismo global, se sobrepõe a cultura dos antigos pescadores que ali, por gerações, moraram e construíram ao longo do tempo a mesma cultura tão valorizada pelos piracicabanos, aqueles, então, se vêm obrigados a se deslocar para as periferias, distantes do berço de tal cultura, as águas do Rio Piracicaba. Onde o Peixe Pára | 24


Da mesma maneira, o Engenho Central, tão reconhecido pelos cidadãos como marco referencial do progresso de Piracicaba, se torna protagonista de grandes eventos 3 ou 4 vezes ao ano, e se recolhe aos bastidores durante esses intervalos, privando seu potencial latente do cotidiano piracicabano. Acreditando na fragilidade e inconsistência desse formato de política-cultural e respeitando as vozes daqueles que intencionam a reconciliação da relação Homem, Rio e Cidade, propõe-se o re-habitar de suas margens, no sentido mais amplo do termo, ou ainda, no sentido defendido por Martin Heidegger do habitar poeticamente.

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| O HABITAR DAS MARGENS | De forma bastante simplificada, o habitar aqui utilizado se refere ao “fazer parte de”, “se sentir pertencente a”, ao construir uma relação amistosa em um diálogo íntimo e constante entre o homem e tudo aquilo que o circunda de forma a, através dessa relação, este e aquele possam co-existir em mútuo reconhecimento, ambos possam ser-no-mundo. Christian Norberg-Schulz, através de sua leitura heideggeriana no texto O fenômeno do lugar, defende que para tal relação poder existir é imprescindível a consolidação de dois aspectos fundamentais do homem: a orientação e a identificação.

“Identificação e orientação são aspectos essenciais do estar-no-mundo do homem. Enquanto a identificação é a base do sentimento de pertencer, a orientação é a função que o torna capaz de ser aquele homo viator [homem peregrino] que faz parte de sua natureza. [...]

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“Identificação” significa, para os fins desta análise, ter uma relação “amistosa” com determinado ambiente. O homem nórdico tem de se relacionar bem com o nevoeiro, a neve e os ventos gelados; tem de gostar do ruído da neve rangendo sob seus pés quando sai para passear, tem de sentir a poesia de estar envolto pelo nevoeiro, como Herman Hesse, que escreveu: ’estranho, caminhar no nevoeiro! Solitário é cada arbusto e pedra, uma árvore não enxerga a outra, todas as coisas estão sós [...]’. O árabe, por sua vez, tem de ser amigo da infinita imensidão do deserto de areia e do sol escaldante. Isso não quer dizer que seus assentamentos não devam protegê-lo contra as “forças” da natureza: um assentamento humano no deserto visa principalmente excluir a areia e o sol. O que queremos dizer é que o ambiente é vivido como portador de um significado. [...] No caso do homem moderno, a relação amistosa com um ambiente natural limita-se a relações fragmentárias. Em vez disso, ele tem de identificar-se com coisas fabricadas pelo homem, como ruas e casas. “ Christian Norberg-Schulz – O fenômeno do lugar

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As sociedades modernas, porém, concentram toda a atenção quase exclusivamente na função “prática” de orientação, enquanto a identificação é deixada ao acaso. Em conseqüência disso, a alienação tomou o lugar do verdadeiro habitar, no sentido psicológico.”5

Dessa forma, para que se possa propor uma intervenção minimamente condizente com tamanha pretensão, entende-se a necessidade de ler o lugar através de sua organização/estruturação espacial, assim como de se familiarizar com o caráter das relações de identidade já estabelecidas, ali, pelos seus habitantes com o ambiente que os circundam.6 Os elementos que compõem essa paisagem foram então classificados e sumariamente apresentados em três eixos principais, de acordo com seu papel 5

Christian Norberg-Schulz – O fenômeno do lugar (p.456-457)

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“Enquanto “espaço” indica a organização tridimensional dos elementos que formam um lugar o “caráter” denota a “atmosfera” geral que é a propriedade mais abrangente de um lugar.” Christian Norberg-Schulz – O fenômeno do lugar (p.449)

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na construção das relações que o Homem, o Rio e a Cidade tiveram ao longo do fluxo do tempo: O Rio, A História Construída e O Passado Velado.

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O motivo primeiro de todas as diferentes formas de ocupação deste lugar, o Rio Piracicaba merece o destaque de alguns de seus pontos que marcaram, recorrentemente, os que dele se aproximaram e construíram sua complexa trama cultural ao longo da história, fosse pela simples busca de alimento, abrigo ou fruição. O RIO

| SALTO DO RIO PIRACICABA

O Salto tem presença imponente na paisagem do Rio, marco pela sua escala visual e, principalmente em épocas de cheia, pelo som de suas águas chocando-se contra o leito rochoso. Pela sua força, foi responsável pela parada do peixe, a geração de energia e é, ainda hoje, um dos espetáculos ininterruptos que o Rio Piracicaba oferece. O RIO |

VÉU DA NOIVA

Queda d’água localizada nas proximidades do Salto, recebe esse nome pela formação de suas águas, que se abrem num fino, porém intenso, “manto” de água ao se despejar sobre o Rio, guardando semelhanças com um véu.

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| CURSO D`ÁGUA APÓS O SALTO (CALMARIA)

O RIO

Região de contraste em relação ao Salto, onde se abre um grande e calmo espelho d’água . Nessa porção do Rio se concentram os pescadores, assim como se encontra a própria Rua do Porto. O RIO |

A TRAVESSIA

Um dos seis pontos de transposição do Rio Piracicaba no município, o único exclusivamente para pedestres. Faz a ponte entre a antiga Fábrica da Boyes e o Engenho Central, abrindo nesse percurso, a visual para o Salto e para o Largo dos Artistas. O RIO

| O MUSEU DA ÁGUA

Antigamente utilizada como Estação de captação e abastecimento de água, essa construção foi restaurada para abrigar o programa de um museu que exibe o maquinário que fora utilizado para o abastecimento de água do município espécies de peixes presentes (ou já extintos) do Rio, além de apresentar aspectos lúdicos do comportamento físico da água na sua área de parque. Onde o Peixe Pára | 35


O RIO

| ETA DO ENGENHO CENTRAL

Atual Estação de captação e abastecimento de água do bairro desvia um braço do Rio Piracicaba e cria uma marcante escada d’água que corta o conjunto da Fábrica da Boyes ao devolver esse fluxo.

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Nessa categoria destacaram-se as edificações de relevância histórico-cultural que ainda se encontram presentes na paisagem e que devem ser considerados para estabelecer um diálogo com a intervenção. A HISTÓRIA CONSTRUÍDA

| PONTE DO MIRANTE OU PONTE IRMÃOS REBOUÇAS E PONTE DO MORATO

Ambas as travessias que cortam o Rio tem presença primordial do carro, funcionando como, além de eixos arteriais da malha urbana, hiato da ocupação urbana, descortinando a mata ciliar e o extenso corpo d’água. A HISTÓRIA CONSTRUÍDA

| PONTE PÊNSIL

Inaugurada em 1992, possibilitou a conexão entre o conjunto da Fábrica de Tecidos da Boyes, pela Avenida Beira Rio, e o conjunto do Engenho Central. Sua estrutura em metal e madeira vence um vão de 77 metros, se tornando referência visual ao rasgar a paisagem por sobre o Rio Piracicaba. A HISTÓRIA CONSTRUÍDA

| CONJUNTO DO ENGENHO CENTRAL

Construído em 1881 (e anexos acrescentados ao longo das décadas), pelo Barão de Rezende e passado para as mãos da empresa francesa Societé Sucrérie Brèsiliennes, foi um complexo que abrigou a maior produção de açúcar Onde o Peixe Pára | 38


e álcool do país, destacando-se também por ter sido um dos pioneiros na utilização de máquinas importadas da Europa e empregando mão de obra assalariada (através de incentivo do governo para a redução do uso de mão de obra escrava). Destaca-se na paisagem pela sua arquitetura em alvenaria aparente, nos moldes dos galpões industriais franceses do séc. XVII / XVIII, que se eleva defronte ao Rio Piracicaba, logo após o Salto, ocupando uma área de aproximadamente 12 mil m². É circundando por densa vegetação nativa que abriga o Parque do Engenho Central e Parque do Mirante, que apresentam trilhas e percursos que conectam o conjunto a malha urbana da porção direita da margem do Rio, além de mirantes que se debruçam por sobre as águas do mesmo. Encerrou suas atividades como engenho em 1974, quando foi reconhecido como patrimônio histórico e hoje é patrimônio tombado pelo órgão municipal. Desde então tem servido para uma série de grandes eventos que ocupam suas carcaças e áreas livres, destacando-se a Festa das Nações (festival anual que reúne comidas típicas de diferentes países em tendas se espalham por todo o conjunto), a Paixão de Cristo (encenação religiosa tradicional que ocorre todos os anos) e o Salão Internacional de Humor (referido anteriormente neste trabalho).

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A HISTÓRIA CONSTRUÍDA

| CONJUNTO DA FÁBRICA DE TECIDOS DA BOYES

Construído logo após o surgimento do Engenho Central, esta fábrica de tecidos servia principalmente para a produção das sacas para a embalagem e exportação do açúcar produzido na margem oposta do Rio, no engenho. Continuou funcionando após o fechamento do mesmo, até junho de 2007, quando foi desativada. Por uma das laterais de seu terreno corre um braço do Rio Piracicaba, proveniente do desvio realizado pela ETA do Engenho Central, que cria um conjunto com a ladeira verdejante de forte impacto, assim como um respiro, a quem percorre seus arredores. Hoje se encontra cercada, abandonada e inacessível e, apesar das qualidades arquitetônicas e paisagísticas, está ameaçada de ser demolida para a construção de um complexo comercial. Juntamente com o Conjunto do Engenho Central e, pelo menos, outros quatro conjuntos industriais, ou resquícios parciais destes, formam um grupo de edifícios de um mesmo caráter a ocupar as margens ao longo do Rio Piracicaba no município, se tornando referência para aqueles que venham a acompanhar o trajeto de suas águas.

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A HISTÓRIA CONSTRUÍDA

| RUA DO PORTO

Conjunto de antigas e típicas residências de pescadores do Rio Piracicaba que fazem face ao mesmo. Passou por uma série de reformas na última década para abrigar o Complexo Gastronômico da Rua do Porto, ponto turístico da cidade. A HISTÓRIA CONSTRUÍDA

| PRIMEIRA ESTAÇÃO DE CAPTAÇÃO E ABASTECIMENTO DE ÁGUA DO

MUNICÍPIO Essa construção de 1887 abriga e expõe as bombas, hidrômetros e tubulações utilizados no seu tempo de funcionamento, permitindo a visitação as antigas instalações. Além disso, abriga o Museu da Água, citado anteriormente neste trabalho. A HISTÓRIA CONSTRUÍDA

| PALACETE LUIZ DE QUEIROZ

Esta construção data de meados do século XIX e foi residência de Luiz de Queiroz, herdeiro de grandes porções do território piracicabano, incluídos os terrenos do Engenho Central, da Fábrica da Boyes e da ESALQ, foi responsável também pela concepção Escola de Agronomia que leva seu nome, além da Onde o Peixe Pára | 43


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construção da primeira usina elétrica da cidade, uma das pioneiras também na América do Sul. A HISTÓRIA CONSTRUÍDA

| CASA DO POVOADOR

Construção de estrutura em madeira e vedação em taipa, localizada na beira do Rio Piracicaba, construída no início do século XIX, marco da passagem dos bandeirantes. Foi tombada em 1970 pelo CONDEPHAAT e hoje é referencia como suporte para apresentações e exposições artísticas, palestras e oficinas voltadas para profissionais das artes, educadores e outros públicos. Dispõe ainda de salas para exposições temporárias e um acervo que expõe o processo de preservação realizado ao longo do tempo do próprio patrimônio. Ao seu redor se encontram também dois marcos: o do Bicentenário de Piracicaba (datado em 1º de agosto de 1967) e o Obelisco Julio Chrisóstomo do Nascimento, fabricante de barcos, timoneiro e esportista que se destacou pela luta em defesa do Rio Piracicaba. Nas áreas externas costumam ficar expostos alguns dos bonecos do Elias dos Bonecos, simulando as situações de convívio e cotidiano como ele mesmo o fazia.

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O HABITAR DAS MARGENS |

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O Passado Velado |


Talvez a mais curiosa das três classificações, o Passado Velado compreende o conjunto de elementos que tiveram relevância ou foram marcos na construção das distintas relações entre o Homem, o Rio e a Cidade, mas que não mais se encontram presentes fisicamente na paisagem, se emaecendo, com o tempo, na memória piracicabana. O PASSADO VELADO

| OS CENTROS DO MUNDO PIRACICABANO

Nesse conjunto estão englobados, como apresentados pelo antropólogo Arlindo Stefani, anteriormente citado, os lugares que podem ser entendidos como os centros representativos das ocupações que ocorreram no território de Piracicaba ao longo do tempo, e que, de forma sutil, nos contam fragmentos dessa história oscilante na forma como o homem ocupou e se relacionou com o Rio. Três destes locais ainda se apresentam fisicamente na cidade, mas o autor optou por destacá-los aqui por carecerem do entendimento enquanto conjunto de relações que exercem entre si. São eles: o atual PRÉDIO DA PREFEITURA, localizada ao lado do Parque da Rua do Porto, as margens do Rio, representante da retomada do olhar para o Rio, como potencial para a indústria do turismo e a reconciliação de uma relação;

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a PRAÇA JOSÉ BONIFÁCIO, localizada no alto da colina, na região central da cidade, representante do momento de maior autonomia do homem em relação ao Rio, onde suas indústrias, transporte e alimento não mais dependiam desse. Representativo também de um período em que, ao se afastar do corpo d’água, o Homem dá as costas ao mesmo e destina a este o dejeto de seus bairros e indústrias; a região da RUA DO PORTO, na curva do Rio, é marco e fim do período em que o homem faz do Rio sua morada, seu lazer e sua sobrevivência; e, finalmente, a TABA INDÍGENA, localizada nas proximidades do Engenho Central é marco de um período que a parada do peixe no Salto, a navegação de suas águas, assim como o regime destas eram uma simples questão de sobrevivência. Além de vagos registros, nada mais resta fisicamente do que era esse Centro. O PASSADO VELADO

| PORTO INDÍGENA DOS PAIGUÁS

Por serem reconhecidos pela sua maestria nas águas, através do uso de suas canoas, optou-se por denotar este elemento apagado da paisagem. Antigamente se localizava na porção sul da margem direita do Rio, no Conjunto Onde o Peixe Pára | 48


do Engenho Central, próximo de onde hoje se encontra o Obelisco do Povoador (referência como marco zero da cidade). O PASSADO VELADO

| CEMITÉRIO INDÍGENA

Os índios paiguás ocupavam a margem direita (hoje, o Engenho), região mais bem protegida das cheias do Rio, porém, era na porção oposta, no atravessar para a margem esquerda que sepultavam seus mortos, região hoje ocupada pela porção alta da Fábrica da Boyes. O PASSADO VELADO

| CIAPORANGA ou LAGOA DAS ALMAS

Era na lagoa, hoje assoreada, na margem direita do Rio, pouco mais ao sul do Engenho Central que se encontrava a Ciaporanga, lugar onde os índios celebravam seus atos de núpcias. O PASSADO VELADO

| O SALTO DO RIO PIRACICABA

Como motivo primeiro para a ocupação deste território, aqui se destaca o que o Salto já representou para a construção das relações entre o Homem e o Rio: a parada do peixe na piracema, fonte de alimento para o homem; força de suas águas, que produziram a energia necessária para mover as máquinas das Onde o Peixe Pára | 49


indústrias responsáveis pelo desenvolvimento e crescimento da cidade e; sua imponência e beleza natural, responsável por ser objeto de inspiração e atração para o turismo.

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| REHABITANDO AS MARGENS | História sobre Gerad Kallman, arquiteto norte-americano de origem alemã, que ilustra a relação de identidade estabelecida entre o Homem e as coisas fabricadas por ele. “Ao visitar sua cidade natal, Berlim, no final da Segunda Guerra Mundial, depois de muitos anos de ausência, ele quis rever a casa em que crescera. Como era de se esperar, tratando-se de Berlim, a casa tinha desaparecido, e Kallman se sentiu um pouco perdido. De repente, ele reconheceu o desenho típico das calçadas: o chão em que brincava quando criança! E teve a forte sensação de, enfim, voltar para casa. Essa história nos mostra que os objetos de identificação são propriedades concretas do ambiente e que as pessoas geralmente desenvolvem relações com elas durante a infância.” Christian Norberg-Schulz – O fenômeno do lugar (p.457)

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Para que o homem possa novamente entrar em contato com esses elementos e experienciar uma relação mais autêntica com a substância desse passado, almejando a formação de uma nova relação entre o Homem, o Rio e a Cidade, que não importada através de uma cultura externa, mas embasada no próprio solo e histórico piracicabano, retoma-se o habitar poeticamente de suas margens, um defronte cotidiano entre os seus habitantes e o conteúdo de sua paisagem, na perspectiva da construção de novos processos cognitivos que possam consolidar, de forma mais genuína, as relações de identidade. Com esse intuito são propostas três diretrizes de intervenção para os edifícios industriais do Engenho Central e da Fábrica da Boyes, de acordo com as perspectivas de sua ação na construção dos processos cognitivos, ao longo do tempo.

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REHABITANDO AS MARGENS

| COMPLEXO ARTÍSTICO CULTURAL

Os grupos que hoje “habitam” essas margens, que fazem uso de seus espaços e construções em seus ensaios e performances, devem receber, o mais brevemente possível, suporte declarado, estrutura física, assim como apoio institucional. Essas atividades podem ser realizadas em formato de cursos e oficinas ministradas periodicamente nos espaços dos galpões que hoje são a face do Engenho Central na chegada pela Ponte Pênsil, possibilitando que mais indivíduos tenham visibilidade e acesso a essas modalidades. Essas atividades devem acontecer visando complementar o corpo cultural já existente no município, assim como servir de auxílio na formação das crianças e jovens dos equipamentos educacionais que circundam a área. Fazendo assim com que estes, tanto protagonistas como seu público, possam experienciar cotidianamente as potencialidades lúdicas que a proximidade a essas construções e ao próprio corpo d’água podem trazer, afinando, em determinada escala, as relações entre Homem e Rio.

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| UNIVERSIDADE LIVRE DE DESENVOLVIMENTO URBANO HISTÓRICO E AMBIENTAL REHABITANDO AS MARGENS

Na tentativa de estabelecer um diálogo entre esse passado que serve de subsídio para a nova forma de ocupação do território, o futuro indefinido, formulado por estes novos contatos com o Rio, e a necessidade de expansão da cidade, implanta-se a Universidade Livre de Desenvolvimento Urbano, Histórico e Ambiental, capaz de responder a demanda imediata e longínqua dos assentamentos urbanos, tendo sempre como respaldo esse defronte com o Rio, esse laboratório a céu aberto de homens a se envolverem com esse ambiente, e das experiências vivenciadas e manifestadas através da arte. REHABITANDO AS MARGENS

| NÚCLEO DA CRIANÇA

A fim de potencializar a formação de uma nova relação de identidade entre Homem e Rio mais autêntica, busca-se o contato cotidiano da criança e a água, não apenas estabelecidos em espaços exclusivos de lazer e descanso, mas imersos também em seu ambiente formal de formação e educação, trazendo para as margens do Rio Piracicaba os equipamentos de escola, creche, biblioteca e ginásio esportivo. Pretende-se a aproximação da criança a esse universo, sua familiarização com o mesmo, a fim de que, ao seu tempo, essas Onde o Peixe Pára | 56


experiências se reflitam em seu olhar e agir no mundo. Através desses equipamentos, pretende-se que as crianças dos equipamentos educacionais circundantes possam também desfrutar de seus espaços, agindo como peça de articulação entre o contato cotidiano com Rio e as crianças do entorno. Para tanto, elege-se a porção Sul dos galpões do Engenho Central, região onde outrora abrigara também a Taba Indígena e o Porto dos Paiaguás, onde hoje se encontra o Marco Zero da cidade, este lugar, berço de tantas relações com o Rio, será provido da simbólica pretensão de abrigar o nascimento de uma nova relação, a se construir, no passar e desenvolver dos anos dessas crianças a ocuparem e desvelarem suas terras e paisagem.

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Acredita-se também que, ao agir nessas construções em tal ponto estratégico da cidade, estas possam repercutir e contagiar esse caráter de intervenção para os demais conjuntos industriais abandonados ao longo do Rio Piracicaba. Aproximando as intervenções realizadas pelo projeto Beira Rio pela prefeitura nas áreas da Rua do Porto e Avenida Beira Rio, a presença de espaços de promoção da cultura e arte, como a Praça dos Artistas e a Casa do Artesão, as propostas aqui presentes nesse trabalho e as possibilidades, então abertas, para os conjuntos industriais Rio acima, conformar-se-ia, assim, um sistema de áreas que propiciem a visibilidade para esse passado ainda existente, o Rio e as demandas específicas de cada região da cidade.

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| A CARTOGRAFIA SIMBÓLICA

Assim como os equipamentos culturais e educacionais propostos tendem a se “amarrar” programaticamente com os já existentes na trama urbana, acreditase que é possível fazer, simbolicamente, essa “costura” cartográfica também entre os pontos de maior relevância dessa paisagem, de forma que eles possam, dentro das escalas material, visual ou subjetiva, dialogar entre si. Esse diálogo se efetivando, poderia auxiliar a uma mesma “amarração” do entendimento das relações existentes nessa paisagem e, consequentemente, dos processos de cognição, afetando, em determinada escala, o olhar para com esse território e, no limite, embasar a formulação de novas possíveis relações de identidade em consonância com as experiências acumuladas ao longo do tempo, materializadas nesses elementos destacados. A CARTOGRAFIA SIMBÓLICA

| ESTRATÉGIAS PROJETUAIS

Para transportar essas intenções de “costuras” simbólicas para o campo material, adotam-se três estratégias base de intervenção que são aplicadas e acomodadas em cada uma das situações de projeto:

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ESTRATÉGIAS PROJETUAIS

| ÁREAS EXTERNAS

Quando se intervêm nas áreas externas e se abre uma vista potencial para um dos elementos da cartografia simbólica, adota-se a solução do cruzamento de empenas, com aberturas que possibilitem o conduzir do andar e a criação de um ponto focal, direcionando o olhar para o elemento desejado. A materialidade destes planos são, quando opacos, gabiões de pedra basalto (abundante no Rio e na região) e, quando se intenciona certa permeabilidade visual, caibros de madeira espaçados. ESTRATÉGIAS PROJETUAIS

| INTERIOR DAS EDIFICAÇÕES

Assim como nas áreas externas, se utiliza a solução do ponto focal e direcionamento do olhar, porém, abrindo rasgos nas edificações e criando, assim, para quem se encontra dentro da intervenção, enquadramentos precisos dessa paisagem. Para quem passeia pelo seu exterior, se deparará com elementos que se assumem distintos das pré-existências, através da materialização das pedras do Rio nessas formas de gabião, e que se colocam a apontar ao horizonte.

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ESTRATÉGIAS PROJETUAIS

| PASSADO VELADO

Essa intervenção tem uma natureza distinta das demais, visto que trabalha em lugares que não mais se encontram no campo físico. Portanto, com a intenção de fazer seus significados emergirem e tornarem-se táteis àqueles que o freqüentam, adotou-se aqui a solução de se construir distintas propostas para cada um dos pontos de acordo com a relação estabelecida entre o Homem e o Rio. O que se elege como ponto comum entre todas estas propostas é o uso de um elemento que, simbolicamente, representa a adaptação às distintas condições a que é submetido, que se reformula e sempre está a fluir com o passar dos tempos, como deve ser a memória; é também o elemento que faz a ligação entre as distintas ocupações realizadas nesse território: a água.

Para fins de desenvolvimento de projeto e caracterização da intervenção, assim como cumprimento de prazos, optou-se por dar prosseguimento apenas ao projeto que enfoca as crianças, aquelas que irão ser fundamentalmente responsáveis pela construção da nova relação de identidade a se estabelecer entre Homem e Rio: o Núcleo da Criança. Onde o Peixe Pára | 67


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O programa do Núcleo da Criança se fundamenta em atender uma formação cotidiana nas esferas formal e informal, local e urbana, fornecendo espaços que busquem potencializar as características das pré-existências através de programas e espacialidades lúdicas focando a infância. Fazem parte deste complexo: Uma creche, uma escola de ensino fundamental de ciclo I, um ginásio de esportes e uma biblioteca pública voltada à infância. O projeto trabalha para que se concretizem tais intenções com: as espacialidades dos galpões, operando para que se evidenciem as qualidades arquitetônicas do conjunto, ao mesmo tempo em que se otimiza o aproveitamento de sua área; o contato tátil/relacional com a água e o rio, assim como a massa vegetal do entorno, ora os destacando na paisagem através de enquadramentos precisos, ora trazendo-os para dentro das construções e do conjunto e; o emergir dos pontos do Passado Velado do Porto Indígena e da Ciaporanga através do uso simbólico da água, (re)contando histórias que foram apagadas da paisagem. Para o exercício do TGI II, em virtude da extensão dos programas e de uma intervenção na pré-existência mais consistente dentro do período de desenvolvimento do exercício, optou-se pelo apontamento de diretrizes gerais para o conjunto de áreas externas e edificações, mantendo o foco de Onde o Peixe Pára | 70


desenvolvimento de dois dos galpões apenas, no caso, os Galpões 14b e 15, que compreendem a Biblioteca Infantil e a Escola de Ensino Fundamental Ciclo I, exemplificando assim, de forma mais qualificada, o caráter da intervenção tanto no âmbito da educação formal como informal.

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O NÚCLEO DA CRIANÇA |

ACESSOS E ÁREAS EXTERNAS

O acesso à área, na escala urbana, é mantido como é hoje, realizado pelo circuito de vias arteriais formado pela Avenida Beira Rio e Avenida Presidente Kennedy, que se conectam com as demais vias de importância e fluxo na cidade, atendendo a demanda urbana dos equipamentos propostos. Para o acesso local, e aos edifícios propriamente, se mantêm os acessos provenientes pela Ponte Pênsil (chegada pela Avenida Beira Rio) e Rua Professor Joaquim do Marco até os edifícios mais ao Norte do Engenho Central, tomando o cuidado para a manutenção da relação de continuidade visual que existe entre as duas porções do conjunto (Norte e Sul), assim como o vazio entre ambos, para que as atividades que hoje se utilizam dessa “praça”, possam ter seu espaço na intervenção.

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Tomando proveito da existência de três trilhas de acesso existentes hoje, uma para pedestres e outras duas para pedestres, ciclistas e veículos, incorporamse, além da própria conexão com os demais edifícios do Engenho, essas chegadas ao Núcleo da Criança onde: a primeira, com saída do bairro Nova Piracicaba atravessando a mata existente, recebe apenas um suporte de escadas que conduzem os visitantes até o nível da “praça” entre os galpões, aproveitando os muros de arrimo em basalto que hoje se encontram no local. As outras duas trilhas são ambas envoltas por vegetação abundante, uma com origem de via local, outra que se descola da Av. Dr. Paulo de Moraes em direção às margens do Rio Piracicaba que, aos poucos, abandona os sons da cidade para imergir no correr das águas e dos pássaros na mata. Para ambas as trilhas se matem o piso em pedriscos e apenas se prevê, já nas proximidades do conjunto, um jogo de empenas que se encarregam de convidar aquele que percorre seus caminhos a identificar pontos de interesse na paisagem, preparando-o para a chegada do conjunto, onde essas empenas se cruzam e enquadram as edificações do Engenho Central. Nesse ponto abrese uma praça em um jogo de blocos intertravados (mantendo o mesmo material utilizado no restante do conjunto e nas intervenções que hoje já acontecem na porção Norte do Engenho) e espelhos Onde o Peixe Pára | 74


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d’água, local que serve, além de uma praça que acolhe os que atravessam as trilhas, de apoio a embarque e desembarque de ônibus de excursões e automóveis. O estacionamento em pedriscos hoje existente na beira do Rio, que atende a demanda dos grandes eventos que hoje acontecem no Engenho é mantido, prevendo apenas o acréscimo de uma área de bicicletário. Tomando partido do caráter plano do terreno entre os edifícios, cria-se uma praça linear seca, funcionando como uma clareira que abriga os visitantes e os edifícios existentes entre a mata ciliar que borda o Rio Piracicaba e a vegetação que sobe o morro a Oeste. Nas margens do conjunto é inserido um percurso que se aproxima do Rio, ora percorrendo as sombras das grandes copas que desenham as suas beiras, ora abrindo caminho até se debruçar por sobre ele, criando mirantes que apontam para os elementos da paisagem, além de possibilitar algumas vistas panorâmicas. Esses decks que se lançam sobre o Rio podem abrigar atividades das próprias creche e escola, convidando os alunos a percorrer e descobrir esses espaços, complementando os percursos/trilhas já existentes morro acima. Para os fechamentos e restrições de acesso necessárias a parte dos programas, foram utilizadas as empenas cegas que apontam e se abrem em Onde o Peixe Pára | 77


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determinados momentos em conjunto com os planos horizontais de madeira, permitindo assim momentos de privacidade, mas ainda estabelecendo relações visuais, aproximando o mundo lá fora para esses universos da criança (a recíproca sendo totalmente verdadeira). Na porção Norte do Núcleo da Criança, próximo ao acesso por uma das trilhas, se utilizam o jogo de luz e sombras realizado pela massa vegetal do morro sobre estruturas circulares do antigo engenho, para reservar um espaço de brinquedos lúdicos, espaços e estruturas que possam ser apropriados pelas crianças como teatros, naves, navios, bases, casas, etc. A pedra fundamental, Marco Zero da cidade, que se encontra nas proximidades de um dos galpões, hoje abandonada e esquecida ao crescer do mato, é incorporada a intervenção. Posicionada na curva da praça de chegada da entrada Sul, destacasse ela através da criação de um espelho d’água que a ilha, criando uma leitura que possibilita maior plenitude, ao isolá-la do conjunto, ao mesmo tempo em que a relaciona diretamente com a fundação de Piracicaba sobre e com a água, o Rio.

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O NÚCLEO DA CRIANÇA |

O PASSADO VELADO

A área do projeto abarca dois pontos do passado velado: A Ciaporanga e o Porto Indígena. Apesar de não ser o foco do projeto desenvolvido, o trabalho aqui exposto explora algumas das possibilidades de interpretação dessa complexa trama que engloba nossas memórias e que, de forma latente, aflora nesses lugares. O PASSADO VELADO |

CIAPORANGA

A antiga lagoa dos índios ressurge, auxiliando na retenção das cheias do Rio Piracicaba, e conduzindo os visitantes que se aproximam pela entrada Sul do complexo do Núcleo da Criança. Nesse percurso encontrarão uma série de decks com pergolado em madeira que, por um lado, se debruçam por sobre essas águas, criando estares sob um verdejante dossel e, por outro, apontam na direção dos demais sítios silenciados pelo tempo do Passado Velado. Nesse apontar, emergem das águas da Ciaporanga pilares que brotam das rochas do lugar que, a maneira dos Bonecos do Elias, se levantam a altura do olhar humano e permanecem estáticos, serenos, a formar e a mirar, através do tempo, as linhas que apontam para as experiências passadas que os Homens já tiveram em relação com o Rio, aguardando. Onde o Peixe Pára | 82


O PASSADO VELADO |

O PORTO INDÍGENA

Um dos decks de madeira com pergolados que se lança sobre o Rio Piracicaba está localizado nas proximidades de onde, em outros tempos se lançavam os índios paiguás às correntezas. Nesse lugar é estabelecido um novo ponto de lançamento ás águas. Primeiramente, através da prática de canoagem por caiaques, que é uma das atividades previstas para o Ginásio Esportivo proposto. O outro lançamento acontece através das estruturas que se prolongam em direção ao Rio e que apontam para uma pequena ilha construída em meio as suas águas que abrigam, assim como na Ciaporanga, pilares que se elevam em pedra, porém aqui, se colocam no centro dessa cartografia de histórias a serem recontadas, a observar seu conjunto. Tanto a ilha como as estruturas que se prolongam são inacessíveis que não pela água, alimentando aquele espírito desbravador e instigante que as crianças carregam dentro de si, em se alcançar e descobrir o inacessível do mundo.

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O NÚCLEO DA CRIANÇA |

GALPÕES 17 E 13 - CRECHE

Os galpões que em outros tempos abrigavam a marcenaria e a carpintaria do Engenho Central, por conta de seu pé direito ajustado a escala humana e suas aberturas que trazem geometrias variadas de luz para o interior, assim como pelo seu defronte com a mata ciliar e o Rio a correr poucos metros dali, são eleitos para abrigar a Creche do Núcleo da Criança. No edifício mais extenso (Galpão 17) se prevê, nos estudos de área, a capacidade de locar o setor administrativo e de serviços da creche, bem como os berçários e o suporte para tal. Ainda neste mesmo edifício, sob a cobertura acentuada de estrutura metálica há lugar para se estender o refeitório de forma conjugada ao pátio externo. Já no Galpão 13, por apresentar um jogo de aberturas semi-circulares que potencializam a apropriação lúdica por parte das crianças maiores da creche.

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O NÚCLEO DA CRIANÇA |

GALPÃO 14C – GINÁSIO ESPORTIVO

Apresentando um pé direito de 7,5m e vão entre pilares de aproximadamente 6,5m x 11,5m, o Galpão 14c foi escolhido para ser responsável pelas competências das atividades físicas das crianças e demais usuários. Neste se prevê a possibilidade de criação de um mezzanino que se extende ocupando metade do edifício, suportando 3 pistas de 11,5m x 11,5, subdivisíveis até um total de 12, para a prática de danças, lutas, tênis de mesa e respectivo depósito. No piso térreo existe área para o setor administrativo, sanitários e depósito geral do Ginásio. É também no térreo, sob o mezzanino, que se prevê área para a armazenagem dos caiaques e utensílios para as atividades de canoagem, ficando expostos para aqueles que acessem o edifício. Um dos acessos previstos, por conta das atividades de canoagem, seria voltado diretamente para o Rio, o Porto Indígena. Passando pelo mezzanino se chega na área reservada para a Ginástica Olímpica, necessitando de metade do galpão e pé direito de 7,5m.

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O NÚCLEO DA CRIANÇA

| GALPÕES 14B E 15 – BIBLIOTECA E ESCOLA DE ENSINO

FUNDAMENTAL O Galpão 14b, com seus 80 metros de extensão em alvenaria aparente e pé direito de 10m logo salta aos olhos. Esse edifício, que armazenava as sacas de açúcar produzidas no Engenho, por conta da riqueza de possibilidades em intervir na sua extensão e alturas e, capacidade de volume de programa, recebe os programas da Biblioteca e Escola. Logo ao lado se encontra o Galpão 15, modesta edificação com aberturas em arco pleno, também em alvenaria aparente, onde se encontrava a antiga área de apoio do conjunto. Servirá agora de suporte para a Escola, onde se aloja a Administração. O primeiro passo para se habitar esse galpão foi convidar a luz e o vento para seu interior através de intervenções de duas naturezas: rasgos zenitais e rasgos no envelope do engenho. No primeiro caso, se fez uso da substituição e extensão de duas peças da cobertura existente, permitindo criar um desencontro entre dois níveis de cobertura e, consequentemente, a possibilidade do efeito chaminé para otimizar a renovação de ar. Para se introduzir uma quantidade mais generosa Onde o Peixe Pára | 93


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de luz para o ambiente, foram utilizadas placas de vidro nessa nova cobertura elevada. Para se abrir os rasgos no envólucro do edifício, foram utilizadas as linhas de força da cartografia simbólica, onde, orientados por tais linhas, ergueram-se estruturas em gabião, que fazem referência a estes elementos da paisagem. A luz que entra por estes rasgos ora é emoldurada por estruturas em madeira permitindo sua entrada de forma plena, ora é filtrada pelas pedras de basalto, criando pequenos nichos com uma luz acolhedora. Da vontade e necessidade de se aproveitar o pé direito elevado do galpão, são criadas as estruturas em madeira que se erguem de forma autônoma. A fim de evitar o conflito entre as fundações existentes e as novas a suportarem esse novo uso, utiliza-se o recurso do pilar árvore no térreo.

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Aproveitando uma parede que divide o Galpão 14b ao meio, se utiliza cada metade para um dos programas, que se comunicam por uma porta já existente no local, permitindo o acesso direto, porém controlado, das crianças da Escola ao espaço da Biblioteca. Por possuírem distintas necessidades em relação à área do programa, optouse por duas organizações internas dessa nova estrutura. No caso da biblioteca, é disposta apenas no perímetro do edifício, onde se dispõe o acervo, liberando um átrio central, cortado em alguns momentos por passarelas a conectar as estruturas, por onde a luz entra e é filtrada pela copa de árvores que são acomodadas no interior do edifício, trazendo para esses espaços um pouco da abundante vegetação que os circundam. Na escola, por necessitar de grupos de áreas mais generosas, associam-se as estruturas nas extremidades do edifício, interligando-os por um dos lados, fazendo com que essas novas estruturas abracem um pátio central, também liberado para a chegada da luz amparada pela copa das árvores.

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ACESSOS EXTERNOS

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ADMINISTRAÇÃO

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PROCESSAMENTO TÉCNICO E AQUISIÇÃO E DESENVOLVIMENTO DE COLEÇÕES

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SANITÁRIOS

|5|

SALA DE MÚLTIPLO USO

|6|

SALAS DE RECUPERAÇÃO

|7|

SANITÁRIO DE FUNCIONÁRIOS E DEPÓSITO DE MATERIAL DE LIMPEZA

|8|

COZINHA E DESPENSA

|9|

REFEITÓRIO

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ACESSOSVERTICAIS

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A materialidade adotada para as intervenções tem por finalidade a aproximação daqueles que vão fazer uso desses espaços, em especial as crianças, fazendo com que o direcionar do olhar seja realizado pelas mesmas pedras presentes no Rio Piracicaba, assim como é a madeira, presente nas árvores que circundam todo o conjunto, e que sustentarão os novos usos propostos. A imersão destes elementos na intervenção, pedra e madeira, tanto nos galpões como nas áreas externas, visam potencializar a aproximação entre o Homem e a Natureza que o cerca, o que se entende, assim como os programas propostos voltados à infância e as seleções na paisagem, como um complemento a construção de uma nova relação entre o Homem e o Rio, à medida que se tornam experiências táteis para aqueles que o utilizarão em seu cotidiano, e expressarão, com o tempo, os reflexos desse convívio.

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“A poesia não voa acima e sobrepuja a terra a fim de escapar dela e de pairar sobre ela. A poesia é o que primeiro traz o homem para a terra, fazendo-o pertencer a ela, e assim trazendo-o à morada” Martin Heidegger – Construir, Habitar, Pensar (1971)

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| BIBLIOGRAFIA |

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UNIVERSIDADE DE Sテグ PAULO ESCOLA DE ENGENHARIA DE Sテグ CARLOS DEPARTAMENTO DE ARQUITETURA E URBANISMO JULHO DE 2010 Onde o Peixe Pテ。ra | 109



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