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U M A E X P E R I Ê N C I A AC Ú S T I C A - V I S U A L


O QUE E POR QUÊ VAMOS EXPERIMENTAR EXPERIÊNCIA: nosso manifesto VIABILIZANDO A EXPERIÊNCIA PONDO EM PRÁTICA: observando os voluntários CRIANDO COMO FOI?

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S U M Á R I O

VOLUME II


QUE

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POR

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VAMOS

EXPERIMENTAR?

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O QUE E POR QUÊ VAMOS EXPERIMENTAR

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pós um amplo levantamento sobre os encontros da música com diversas representações descritas no volume I, pretendemos agora explorar a reação de um público heterogêneo frente a uma experiência de física acústica. Dentre os diversos trabalhos que apontamos durante a primeira parte desse projeto, elegemos as Figuras Sonoras de Chladni como o objeto a ser explorado por meio do olhar do espectador, expondo-o a uma experiência acústica pouco conhecida pelo grande público e extremamente rica visualmente. Investimos na disponibilização dessa experiência para as pessoas, pois entendemos que essa vivência seja curiosa para elas, assim como despertou nossa

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própria curiosidade, mesmo sem termos a pretensão de mudar suas vidas. Pelo fato de ser pouco conhecida pelas pessoas, nosso trabalho torna-se ainda mais eloquente, pois pretendemos nos focar nas possíveis e diversas respostas do público frente a experiência. Nela, é mais relevante a manifestação gerada em seu íntimo, ao mesmo tempo em que se observa a relação “misteriosa” entre o som e a composição das formas, resultando em inesperadas e legítimas reações. Nosso foco está em observar a reação física do expectador frente a prática, tendo a preocupação de não mantê-lo em um estado passivo. Consideramos uma atividade ativa o simples fato de se envolver


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por meio da observação de uma experiência nunca antes vista. Pretendemos convidar um público bastante diverso para participar da nossa proposta de vivência. O repertório de cada um é o que achamos mais interessante e será fundamental para suas múltiplas reações frente ao novo e inesperado. Desejamos incluir, dentre os participantes, deficientes auditivos, e de alguma forma, proporcionar uma vivência acústica a eles através da imagem. Optamos por nos aprofundar e desdobrar essa experiência, pois, além de nossa própria identificação e surpresa, acreditamos que a partir do seu desenrolar, ela possa revelar materiais gráficos muito ricos e aguçar a observação do expectador.

O QUE E POR QUÊ VAMOS EXPERIMENTAR


O QUE E POR QUÊ VAMOS EXPERIMENTAR

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NOSSO

M A N I F E S T O

EXPERIÊNCIA:


EXPERIÊNCIA: NOSSO MANIFESTO

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filosofia empírica, (do grego empeiria = experiência), admitia o nascimento do conhecimento, principalmente através de experiências sensoriais (visuais, auditivas, gustativas, olfativas, táteis). Ela alcança manifestações próprias, organizadas, sistemáticas e criteriosas a partir de John Locke, importante filósofo inglês e considerado um dos líderes do pensamento filosófico empirista. Para ele, as ideias originam-se das sensações, que nos foram dadas pelo mundo exterior através dos 5 sentidos; e sempre que pensamos sobre qualquer assunto, este pensamento é resultado do que foi recebido por essas sensações e registrados em nossas mentes. Mentes que foram expostas a novas

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experiências nunca poderão voltar para suas velhas dimensões. Experiências são sempre algo novo, sobre as quais não temos controle e que ameaçam o habitual, o previsível, Mentes que foram o convencional e até expostas a novas a nossa capacidade e x p e r i ê n c i a s racional de domesticar nunca poderão a vida dentro e voltar para suas fora de nós. Não velhas dimensões. controlamos o que nos vêm aos sentidos e, principalmente, os sentimentos que o mundo externo causa em nosso interior. Experiências transformam nossa vida interior, podem ser deslocadas, transformadas e jamais serão iguais ou previsíveis.


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A realidade pode ser completamente relativa, dependendo da vida interna e o mundo interior que você foi e ainda é exposto. Para crianças, por exemplo, uma bola não é só uma bola, uma boneca não é apenas uma boneca. Elas têm vida, são seres como nós, têm sentidos. Talvez pelo fato de que as crianças ainda não foram expostas completamente à realidade, o que as deixa com menos préconceitos sobre o mundo que as cerca. Isso tudo transforma o cotidiano e a relação com as pessoas e o mundo a nossa volta. A vida é como uma grande “guerra”, que chega do mundo externo até nós por meio da experiência e nos transforma cotidianamente. Se tivermos olhos e sensibilidade para ver, devolvemos essa experiência ao mundo e este se transforma por meio de nossos sentimentos. Acreditamos que seria bobagem imaginarmos que somos apenas reflexo do mundo que nos cerca, contrariando as teorias de Locke. Temos uma capacidade extraordinária de ressignificar, retrabalhar e realocar o que está a nossa volta, como teorizava Immanuel Kant, filósofo prussiano da era moderna. O experimento proposto neste trabalho desloca o óbvio, expondo as pessoas a uma experiência sensorial

EXPERIÊNCIA: NOSSO MANIFESTO

inabitual. Depois que se é vivida uma experiência de verdade, ela se torna parte de seu repertório, e nunca poderá ser tirada de seu interior. De forma modesta, desejamos alcançar esse lugar dentro das pessoas, transformando a maneira como ela enxergará o mundo. Sem vivência de experiência, as pessoas não se transformam para pensar em diversos outros sentidos existentes da vida.


EXPERIÊNCIA: NOSSO MANIFESTO

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EXPERIÊNCIA

VIABILIZANDO


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VIABILIZANDO A EXPERIÊNCIA


VIABILIZANDO A EXPERIÊNCIA

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partir do exemplo que encontramos no site do projeto Ouvir Ativo, procuramos o auxílio de Marcelo S. Petraglia, pesquisador e estudioso da música e autor do livro A música e sua relação com o ser humano (Ed. OuvirAtivo), para montarmos nossa própria placa para a execução da experiência das Figuras Sonoras de Chladni. Ela faz parte de um trabalho desenvolvido por Petraglia há anos e ele pôde nos dar sugestões de como prosseguir com o projeto. Possuíamos todas as informações que precisávamos para construir a experiência e procuramos fornecedores para os materiais. São eles:

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» 1 placa de alumínio medindo 40x40cm e 3mm de espessura com um furo no centro; » 1 arco para violino; » 1 parafuso; » 1 morsa; » areias coloridas; » breu Encontramos alguém que nos ajudou a soldar no parafuso, uma plaquinha de apoio para sustentar a placa na mesa; compramos o arco de violino chinês, com crina de nylon, pois este será muito desgastado com o uso; adquirimos o breu para o arco e os diversos pós e areias. Quando a primeira placa chegou, ela era fina demais, chegava a ser flexível.


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Descobrimos o erro: a espessura media 0,3mm. Encomendamos, então, mais uma e dessa vez sem surpresas, estava tudo correto. Nessa experiência utilizamos a placa de alumínio quadrada, mas ela poderia também ser redonda, triangular, hexagonal... TESTES Tiramos uma manhã para avaliarmos todas as possibilidades da placa, dos materiais que adquirimos e observar as dificuldades. Passamos breu na crina do arco e polvilhamos areia sobre a placa de forma homogênea a fim de cobri-la com uma fina camada. Em seguida, friccionamos o arco na extremidade da placa, de forma perpendicular (90º) em relação à sua superfície, de cima para baixo com o intuito de tirar algum som deste atrito. [1.0] A partir de nossos testes, constatamos que farinha de mandioca, por exemplo, não se comportava tão bem quanto a areia natural, por ser muito leve e fina. Optamos, então, por trabalhar com esta e outras coloridas.

VIABILIZANDO A EXPERIÊNCIA

a areia que cobria sua superfície pule e se locomova, acumulando-se em áreas de pouca ou nenhum vibração e vice versa. [1.1] Pudemos observar que conforme mudávamos o lugar que passávamos o arco na placa, um som diferente era emitido e formas diferentes surgiam. [1.2]

OCORRÊNCIA O som produzido pelo atrito do arco com a placa metálica é resultado de um estímulo vibratório, que faz com que [1.0]

[1.1]


VIABILIZANDO A EXPERIÊNCIA

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[1.2]


EM

P R Á T I C A

PONDO


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PONDO EM PRÁTICA


PONDO EM PRÁTICA

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esenvolvemos a maneira de explicar aos voluntários como eles deveriam interagir com a placa. Fizemos um pequeno teste com uma criança por nós conhecida, e a explicação e roteiro pareceu ser suficiente para que ela conseguisse tirar som e formas da placa. Discutimos qual seria a melhor forma de documentar o experimento e chegamos a opinião mútua de que deveríamos filmar e fotografar a ação e reação física de cada pessoa, decidindo somente depois do material colhido, o desenvolvimento do projeto. Agendamos duas tardes inteiras no estúdios da ESPM, com câmeras de vídeo e fotografia e a ajuda de um operador.

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Uma delas deveria focar na placa, uma segunda no rosto do voluntário, a terceira em um plano aberto, e a outra capturando alguns detalhes. Paralelamente, fizemos uma lista de pessoas que poderiam ser possíveis voluntários expressivos para a nossa experiência. Nesta lista continha crianças, jovens, adultos e deficientes auditivos e realizamos os devidos convites. Com todos os que confirmaram presença, montamos uma grade horária com a disponibilidade de cada um para que não houvesse sobreposição de horários. Os voluntários que iniciaram a atividade eram funcionárias da ESPM com deficiência auditiva. Explicar para


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cada uma delas individualmente o que deveriam fazer foi um desafio, pois além da gesticulação exacerbada com a boca, para que ela pudessem fazer leitura labial, precisamos fazer mímica e algumas vezes escrever. Por mais que nem todos os detalhes tenham ficado claros, a ação continha algo de intuitivo e todas acabaram compreendendo o que deveriam fazer. Começamos explicando que cada uma das pessoas deveria estar sozinha na hora da ação, para que o acontecimento fosse de fato uma surpresa para cada um. Apresentamos o arco de violino e explicamos como ele deveria ser manuseado; mostramos como poderiam ser o movimento, a força e os lugares possíveis de toque; dissemos que deveriam buscar por um som resultante do atrito do arco com o metal. Uma vez essa etapa explicada, propusemos que as pessoas fizessem um primeiro teste, para sentir o contato e eventualmente sugerir melhorias no movimento. Quando o movimento e o som estavam bons, os convidamos a escolher areias e dissemos que deveriam polvilhar sobre a placa uma fina camada, podendo fazer a mistura de cores que desejassem. Em seguida pedimos para que fizessem novamente o movimento do arco na placa.

PONDO EM PRÁTICA

Esta foi a explicação básica que demos para todas as pessoas que participaram desta etapa.


OBSERVANDO

OS

1 CAROLINA DE OLIVEIRA A Carol, deficiente auditiva, chegou meio tímida, sem saber o que iria acontecer com ela. Nossa comunicação era razoável, já que ela usava dois aparelhos auditivos, um em cada orelha, o que fazia ela escutar alguns sons e ter uma boa leitura labial. Assim que passou o arco pela primeira vez na placa, que reproduziu um som bem agudo, ela fez uma cara de desconforto e resolveu tirar um dos aparelhos auditivos. Escolheu a cor da areia que queria, e assim que passou o arco pela segunda vez. A figura começou a se formar... E ela entendeu logo o que estava acontecendo, pois na hora que ela viu a figura na placa, ela apontou

VOLUNTÁRIOS

para figura e para o olho dela dizendo: eu vi! Foi uma reação gostosa de acompanhar já que ela entendeu muito bem como funcionava a experiência. 2 ROSANGELA CARALLANI A Rosangela, igualmente deficiente auditiva, também chegou tímida. Nossa comunicação não era tão eficaz quanto a que tínhamos com a Carol, pois ela não escutava quase nada e não usava aparelho auditivo. Fazia uma boa leitura labial, mas nossa explicação demorou mais, por causa das mímicas que fazíamos. Assim que ela passou o arco pelas primeira vezes, foi fantástico. Ela conseguiu reproduzir diversos sons, bem altos. Ficamos empolgadas com ela. Na


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PONDO EM PRÁTICA: OBSERVANDO OS VOLUNTÁRIOS

hora em que percebemos que ela estava no caminho certo e pedimos para escolher a areia, ela nos disse por meio de mímicas e com a nossa ajuda: “eu não ouço, mas posso sentir”. Aquilo foi incrível. Só de fazermos ela “sentir” o som já fez valer mais do que as possíveis formas que ela faria. Após jogar a areia, ela mal conseguiu tirar som da placa. A placa começou a vibrar pelo atrito do arco e a areia começou a se concentrar no meio da placa. Nossa preocupação com o entendimento dela sobre a experiência só aumentava, e então decidimos demonstrar a ela o que deveria estar acontecendo. Foi quando nós demonstramos para que ela visse. Mas quando a figura se formou, ela não expressou reação nenhuma. Ficamos sem saber o que fazer... Não sabíamos se tentaríamos mais vezes até ela mesma conseguir, ou se realmente ela não teria reação em ambos os casos. Até que ela fez um sinal de positivo com a mão que interpretamos como: “ok, já entendi!”. E então entendemos que ela havia compreendido a experiência, mas sem expressar reação física alguma. 3 SILVANEIDE SANTANA A Silvaneide foi bem prática, assim como a nossa comunicação com ela. Estava com

pressa para ir embora então foi direto ao ponto. Conseguiu bem facilmente tirar som da placa e entendeu bem como aquilo “funcionava”. Jogou areia e continuou tocando e tirando sons da placa, até que se formou uma primeira figura. Ela não deu muita importância para forma, e continuou tocando... Até que quando uma nova figura se formou, apontamos para placa, mostrando o que havia acontecido com a areia. Ela fez um sinal positivo com a cabeça, sem mostrar reação física, e logo em seguida um sinal de “quero parar” com as mãos. Simples, prática e rápida! 4 HELENA ARANHA A Lelê não aguentava mais esperar de tão curiosa que ela estava. Espoleta, foi logo querendo entender tudo aquilo. Mal esperava a gente explicar e lá estava ela testando! Testou, testou, machucou o dedo, até que conseguiu tirar um som da placa. Quase pulou de alegria! Até que chegou a hora de colocar a areia... Sem miséria, ela encheu a mão e jogou areia na placa. Adorou poder escolher a cor da areia. E lá foi ela tentar tirar um som com a placa, agora cheia de areia... Depois de duas tentativas, eis que o som apareceu, trazendo uma forma para areia sobre a placa. Ela ficou tão impressionada com tudo aquilo que reagiu


PONDO EM PRÁTICA: OBSERVANDO OS VOLUNTÁRIOS

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PONDO EM PRÁTICA: OBSERVANDO OS VOLUNTÁRIOS

com uma cara de surpresa e assustada ao mesmo tempo. Foi um grande espanto para ela. 5 BEATRIZ DE OLIVEIRA A Lelê e a Bia são muito amigas, então quando chegou a vez da Bia, a Lelê queria ensinar tudo para ela. Explicamos o passo a passo para Bia, e quando ela começou a tentar tirar som da placa e nada acontecia a Lelê dizia: “eu consegui”. Mas a Bia não demorou muito para também conseguir tirar um ótimo som da placa, e ficou muito feliz de ter conseguido depois da amiga tanto falar. Enfim, ela escolheu as cores, lógico que com a amiga palpitando, e lá foi ela para o veredito final. Na primeira vez que ela passou o arco na placa já com areia, fez um som tão limpo que a figura se formou com facilidade. E então a Bia, que é bem mais calma que a Lelê, reagiu com uma boca aberta incrédula e disse: “como é que faz isso”? Essa frase foi o que mais nos marcou. Depois disso, ela não queria parar de tentar novas formas. Ficaram as duas, Lelê e Bia, brincando com a experiência e achando tudo aquilo muito mágico. 6 FELIPE CASTELLARI Felipe sempre estave desconfiado sobre o que seria essa experiência. Por ser

orientado pela Claudia Weber, assim como nós, algumas vezes ele escutava nossas discussões relacionadas à proposta de vivência. Até que chegou a vez dele. Ele jurou que nem desconfiava sobre o que poderia ser. Então, explicamos o processo e facilmente o som surgiu na placa. Ele adorou, estava louco para jogar areia e ver o que aconteceria. Escolheu cuidadosamente as cores da areia e começou a tocar a placa... Desde a primeira vez que ele tocou a placa com areia, o som surgiu formando a figura. Ele ficou surpreso com o que estava acontecendo e começou a nos perguntar sobre a “matemática” do negócio todo. Testou inúmeras vezes, surgiram figuras novas e a cada novo teste ele ficava mais entusiasmado com tudo aquilo. Só parou de testar porque não tinha mais tempo, se deixássemos ele ficaria horas e mais horas testando e descobrindo novas formas. O Felipe foi um dos voluntários que mais se envolveu no processo de “lapidar” o som a fim de descobrir novas figuras. 7 ÁGATA TINOCO A Ágata foi mais rápida e já chegou sabendo que aconteceria, disse: “eu também assisto YouTube, pensam que não?!”. Explicamos o processo para ela, demos algumas dicas, mas sua maior dificuldade foi fazer com


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que o som surgisse. Foram inúmeras vezes que ele passou o arco na placa e nada de som... Um resquício que fosse, já ficávamos empolgadas e incentivávamos ela a continuar naquele caminho. Decidimos partir para a areia... Ela jogou areia e continuou tentando encontrar o “caminho” do som, mas nada. Ela já estava ficando cansada de não conseguir fazer aquilo funcionar. Resolvemos demonstrar a ela como deveria ter acontecido e logo que a figura se formou, ele ficou encantada... Não parava de repetir: “Nossa, que lindo...”. Ficamos satisfeitas por um lado, por ela ter visto a figura formada pela areia na placa, mas tristes por ela não ter conseguido fazer por si própria. Mas, no fim, achamos que ela saiu satisfeita com a experiência. 8 RENATA OLIVEIRA A Renata ouviu com atenção às instruções, mas foi a primeira que experimentou tocar a placa de formas diferentes. Ao invés de fazer o movimento com o arco de cima para baixo, ela tentava uma ação contínua, de cima para baixo e de baixo para cima. Sabíamos que isso era possível também, mas a probabilidade de que a placa tremesse pela fricção e não pelo som, era ainda maior. Demos algumas sugestões dicas de como continuar, mas ela tinha sua própria

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maneira de manusear o arco. Quando ela incluiu a areia sobre a placa, a dificuldade aumentou um pouco. Os sons se formavam, mas Renata não esperava a placa parar de soar. Então, quando a areia estava se locomovendo para uma direção, ela não tinha tempo de se assentar, pois logo era agitada novamente. Com as nossas dicas, uma única figura acabou se formando. Julgamos interessante fazer uma demonstração para ela ver outras figuras se formando. Fato consumado, suas reações foram intensas e muito expressivas. 9 RALPH MAYER O Ralph chegou bem quieto e sem muita empolgação. Escutou bem as dicas e instruções que demos e começou a testar a placa. Não teve muita dificuldade para tirar som da placa e logo começou a jogar areia. Já com a areia, as figuras começaram a surgir, mas nada que tirasse ele de sua naturalidade. Sem muita ou nenhuma reação ele entendeu o que estava acontecendo, gostou, achou interessante visualmente mas sem grandes caras e bocas. 10 FERNANDO PERUGINI Quieto e observador, Fernando ouviu as instruções com certa reticência e fez exatamente aquilo que pedimos, sem


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questionar. Logo conseguiu tirar som da placa e o instruímos a acrescentar a areia. Ele não teve dificuldades para que as figuras se formassem, mas para nossa frustração, tampouco houve reação. Um sorriso tímido foi o máximo que conseguimos. Era como se ele não entendesse muito qual era nosso objetivo com aquilo, e até nos perguntou: “é isso?”. Por fim, explicamos qual era nossa finalidade e também como a experiência funciona. 11 MÁRCIO GUEDES O Márcio tem uma relação estreita com a música, por isso, é acusticamente mais sensível. Tocou na placa com habilidade e não demorou para que tirasse som dela. Adicionou a areia e, como esperado, as figuras se formaram com bastante facilidade. Ele sorriu com o que viu e também entendeu como aquilo estava acontecendo com rapidez. 12 TOMÁS SUSEMIL O Tomás já conhecia a experiência, pois já a tinha vivenciado durante o período escolar, enquanto estudava física acústica. Nós não sabíamos disso de antemão, pois seu conhecimento prévio poderia arruinar a captura da espontaneidade que propomos. De qualquer forma, como essa experiência

aconteceu há pelo menos doze anos, julgamos válida a tentativa. Explicamos e relatamos o que ele deveria fazer, mesmo que já tivesse alguma ideia e ele não teve problemas em executar o que pedíamos. Quando juntou a areia sobre a placa e as formas começaram a surgir, ele logo se envolveu no processo, pediu dicas de aprimoramento e tudo mais. Fomos trocando observações com ele e tirando novas conclusões. Tomás gastou certo tempo empenhado em buscar novas figuras provindas de sons diversos. 13 JULIANA MARQUES A Jú chegou muito empolgada, querendo saber logo do que se tratava aquela experiência. Depois de encontrar uma boa posição para começar a testar a placa, conseguiu tirar um bom som dela. Escolheu as cores da areia e adorou, porque tinha a cor roxa, sua preferida. Continuou tocando a placa, querendo descobrir o que iria acontecer ali. E de repente surgiu a estrela de 8 pontas... Ela ficou bem surpresa, abriu um sorrisão e disse: “que incrível isso!”. Ficamos muito felizes com aquela reação. Depois disso, continuou testando a placa, mas no fim ficou um pouco decepcionada, por conseguir formar apenas aquela mesma


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figura, a estrela. Então ela concluiu: “acho que essa placa está revelando o que vou ser no futuro, uma estrela”. 14 MANUELA RIOS A Manu é a empolgação em pessoa. Já chegou achando tudo lindo... Explicamos o passo a passo da placa e do arco e, sem dificuldade, ela conseguiu tirar um som da placa bem rápido. Ficou ainda mais empolgada neste começo, mesmo sem areia. Colocou a areia, e com muita facilidade veio a primeira forma... Ela abriu a boca, com uma reação perfeita, e disse: “gente, isso é lindo, estou amando muito!” Bom, acho que depois disso não precisávamos mais instruí-la. Deixamos ela testar inúmeras vezes a placa e, a cada figura nova que se formava, ela repetia: “Gente, olha essa! Vocês não vão tirar foto?”. Sempre achando todas as formas lindas e feliz por estar conseguindo descobrir tudo o que a placa tinha a oferecer! 15 JULIANA RIBEIRO A Jú chegou preocupada, perguntando: “Vai filmar? Vai fotografar? Ah, preciso me arrumar!”. Rimos muito, até que depois de uma pequena produçãozinha ela se sentou para escutar nossas instruções. Se ajeitou da melhor maneira e começou a testar. Não teve muita dificuldade para tirar o som da placa e

queria logo colocar a areia. Adorou as cores e escolheu duas diferentes. Tocando a placa já com a areia, a figura começou a se formar, e então, observando-a, ela entendeu como aquilo estava funcionando. Queria formar algo perfeito: então continuou tocando no mesmo lugar e tirando o mesmo som, até que a figura ficou perfeitamente formada. Sem muita reação física, ela falava: “gente, estou achando isso muito bonito!” 16 FERNANDA SÁ A Fê é amiga da Ju Ribeiro, então ela chegou lá com a missão de também conseguir, já que amiga tinha conseguido. Sem dificuldade, começou a tirar o som da placa, e por coincidência, escolheu as mesmas cores de areia que a Ju Ribeiro, que logo disse: “Ah não Fernanda, eu já escolhi essas duas, pode trocar!”. Com novas cores, a Fê começou a tocar a placa já com areia, e quando a primeira figura se formou, ela sorriu um pouco tímida, como quem está gostando do que está vendo. Sem muitas perguntas, testou algumas vezes a placa para tentar descobrir novas formas. 17 ESTEFAN RICHTER Estávamos com pouquíssimo tempo e o Estefan sentiu a pressão de que teria que fazer a experiência bem rápido. Para nosso


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bem, ele tem contato com a música e não teve dificuldade para entender como aquilo funcionava. Tivemos a impressão de que ao tocar a placa, ele se imaginou tocando algum instrumento, pela forma como manuseava os aparatos. Ele conseguiu rapidamente formar as figuras, mas por tocar constantemente a placa, as figuras não tinham tempo de se completar, pois estímulo vibratório não cessava fazendo com que a areia se assentasse. Mesmo assim, achou a experiência interessantíssima e reagiu de forma espontânea.

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omo já citado, a documentação da experiência foi feita por meio de vídeo e foto, que nos possibilitariam infinitos resultados. Optamos por desenvolver um vídeo, que representa o desdobramento da experiência sem que perdêssemos a riqueza da vivência, além disso, tínhamos também o desejo de produzir materiais impressos. Dentre as diversas opções, escolhemos criar uma família de cartazes, explorando as possibilidades tácitas que o impresso contém. Fizemos vários testes com as fotos das reações das pessoas e as formas criadas por elas, as sobrepondo, criando texturas e até serigrafando com cola para fixarmos

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areia no papel. Após diversas tentativas, chegamos ao caminho que julgamos mais conceitual e visualmente rico: desenvolvemos, cartazes que representam a experiência que cada voluntário vivenciou. Transformamos em vetor as figuras que surgiram durante as experiências e com a foto das reações fizemos a série de cartazes que resultam na soma das formas com a imagem, trazendo para cada peça um resultado único e exclusivo de cada pessoa, pois a combinação de cada indivíduo com as formas criadas por si são únicas e pessoais. Além disso, há sempre uma textura presente no cartaz que é criada a partir das figuras que surgiram durante a vivência de cada voluntário.


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Esse resultado faz com que o espectador desvende as diversas reações, levantando as camadas de papel vegetal que contém as formas vetorizadas até descobrir a reação física do voluntário. Conseguimos, de forma eficiente, transpor os cartazes para o terceiro volume deste trabalho, mantendo as mesmas características de concepção contidas neles. Desse modo, provocamos a interação do espectador em ambas plataformas, possibilitando que ele também vivencie uma nova experiência ao observar e interagir com as peças gráficas.

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ossa amizade vingou quando descobrimos um interesse comum pela música e este se tornou um assunto de troca entre nós, (por isso devemos muito à ela). Quando chegamos ao final do 6º semestre, o tema do nosso projeto de graduação surgiu de forma natural e espontânea, afinal, o universo musical esteve sempre presente na nossa relação, e decidimos então explorar o que a música poderia nos mostrar sob o olhar do design. A riqueza do formato experimental de projeto nos permitiu, além de inovar nas formalidades acadêmicas, desdobrar assuntos inesperados até por nós mesmas, sempre acompanhadas do pensamento do

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design para as tomadas de decisões. Somente por meio da imersão no contexto musical e todo o levantamento sobre assunto, nos foi possível eleger o caminho que tomamos. As Figuras Sonoras de Chladni nos trouxe a possibilidade de usar a experiência como trajetória para a proposta experimental. Não temos a intensão de popularizá-las, mas utilizamo-as como método para nos aprofundar no campo da experimentação. Por meio destas, nós mesmas vivenciamos a experiência que buscávamos ao longo do trabalho, nos expondo a novas situações que jamais serão desaprendidas. Visto isto, queríamos, também, comprovar que as pessoas se encantariam


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e surpreenderiam com a experiência, da mesma forma que aconteceu conosco e em muitos momentos nos decepcionamos. A vivência não tocou todos os voluntários da maneira que esperávamos, era como se eles não enxergassem o que nós víamos. Imaginamos que para as três deficientes auditivas, as figuras seriam quase que uma oportunidade de enxergar o som e que isso fosse gerar nelas reações extremamente emocionantes. Por outro lado, pessoas que se envolveram com o processo e ficavam embasbacadas com o resultado nos comprovavam que tudo aquilo era de fato incrível e que viver essa experiência valeria de alguma coisa, nem que fosse pelo simples fato de se deixar surpreender. Jamais tivemos a pretensão de mudar a vida das pessoas, mas de alguma forma, desejávamos inserir algo dentro delas, fazer com que essa experiência se tornasse parte de seus repertórios e fosse reavivada em algum outro momento. “Conhecer as imagens que nos circundam significa também alargar as possibilidades de contato com a realidade; significa ver mais e perceber mais” (MUNARI, p. 11) Transpusemos a vivência da experiência para peças de diferentes mídias: vídeo e cartaz, que a transportam para o espectador, que por sua vez, passa

COMO FOI?

a gerar uma outra impressão. Isso tudo no trouxe uma nova visão de processo, demos voz ao acaso que nos provou que ele pode ser bem-vindo. Propor uma experiência, fazer parte dela e passar isso para novas pessoas, nos confirmou que o design se aplica às mais improváveis situações, nos dando a chance de colocar em prática o que desenvolvemos nesses quatro anos e o que, provavelmente, irá nos acompanhar na nossa vida profissional. A dinâmica em dupla foi essencial para um bom percurso de projeto, pela complementação de ideias e conceitos, que enriqueceu e aumentou nosso campo de visão. A soma dos diferentes repertórios foi fundamental para a progressão do trabalho, unindo os pontos de vista que resultou no nosso melhor caminho. Nosso projeto não termina necessariamente nesta entrega, pode ser aplicado em diversos outros lugares e, quem sabe, resultar em uma exposição interativa, que faça com que mais pessoas passem pela experiência e resultem em novas reações e novos cartazes. Como foi? Está sendo… A realidade a nossa volta foi, de alguma forma, ressignificada pela bagagem que incluímos em nosso repertório. A experiência continua ressoando...


COMO FOI?

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FONTE brandon grotesque / freight text PAPEL pテウlen 150g IMPRESSテグ arrisca


ouvirvendo volume #2