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ENGENHARIA

ENGENHARIA BOLETIM INFORMATIVO DA FACULDADE DE ENGENHARIA DA UNIVERSIDADE DO PORTO INVERNO 2015

Os projetos da cidade em parceria com a FEUP

FEUP e EFACEC comercializam tecnologia de 5 milhões de euros

Félix Ribeiro: “A UPTEC é exemplar da dinâmica de criação de ecossistemas de inovação”

Bio Boards: a sustentabilidade com estilo

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CENTRO DE EVENTOS DA FEUP Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto fe.up.pt/centrodeeventos eventos@fe.up.pt +351 225 081 524


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SUMÁRIO

p.7

p.13

p.9

p.17

p.29

p.34

p.21

EDITORIAL

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O que queremos para a FEUP até 2030?

FEUP NO MUNDO

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Acontecimentos com ADN FEUP

INOVAR

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Faculdade de Engenharia quer revolucionar a indústria do calçado 7 FEUP e EFACEC comercializam tecnologia por 5 milhões de euros 8 FEUP integra funcionalidade “Indoor Maps” da Google 9 FEUP lidera projeto europeu na área do desenho e inovação de serviços 10 O Gás de Xisto, um combustível fóssil de transição

p.38

EMPREENDER

12 Bio Boards: a sustentabilidade com estilo 14 Deteção de defeitos em materiais compósitos através da termografia 16 Autoconsumo de eletricidade: uma mudança de paradigma orientada ao consumidor

AGIR

17 Academia, Município e Instituições unidos em torno da evolução das cidades 21 Entrevista - Félix Ribeiro: “A criação do UPTEC é exemplar da dinâmica de criação de ecossistemas de inovação”

COOPERAR

25 Entrevista - Joaquim Silva Gomes: “Os candidatos a engenheiros são muito “cobiçados” no estrangeiro”

28 Portugal vs. Uruguai: há muito mais que nos une do que aquilo que nos separa

VENCER

29 Estudantes querem levar vida da Terra para Marte

PROMOVER

30 Comunidade de inovação: as vantagens de trabalhar em rede 32 Fotorreportagem: Os 20 anos da LEIC 34 CAREER FAIR 2014: à descoberta de talentos na FEUP 36 Embaixadores Alumni@FEUP: Angola

INTERPRETAR

37 Entrevista: José Eduardo Gomes “Dirigir uma Orquestra Universitária é o concretizar de um sonho” 38 Percorrer o Japão de bicicleta

ENGENHARIA BOLETIM INFORMATIVO DA FEUP Edição* Divisão de Comunicação e Imagem da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto dci@fe.up.pt Conselho editorial  Carlos Oliveira e Raquel Pires Redação Carlos Oliveira, Helena Peixoto e Raquel Pires noticias@fe.up.pt Design e Produção César Sanches design@fe.up.pt

Colaboram nesta Edição: Egídio Santos, Filipe Paiva e Tiago Martins. Publicidade Sara Cristóvão - publicidade@fe.up.pt Propriedade Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto Sede  FEUP Rua Dr. Roberto Frias, 4200-465 Porto Tel: 22 508 1400 e-mail: dci@fe.up.pt url: www.fe.up.pt

Impressão Empresa Diário do Porto, Lda. Porto 03 - 2015 Periodicidade Semestral Tiragem 3000 exemplares Depósito legal 225 531/05 * Esta edição foi escrita ao abrigo do novo acordo ortográfico.


EDITORIAL

O que queremos para a FEUP até 2030? João Falcão e Cunha*

É um novo ciclo que agora começa, com o arranque do novo ano. Gostaria de começar este Editorial com o anúncio de que está a decorrer um processo de reflexão que tem como objetivo delinear um plano de ação estratégico - de horizonte alargado - e que definirá as grandes linhas de força para a FEUP.

projetos de investigação com impacto económico e social em Portugal e na nossa região e será articulada com as atividades de todas as unidades onde os investigadores da FEUP estão envolvidos. Até ao momento foram já aprovados cerca oito projetos europeus, num total que chega já aos 2 milhões de euros.

Queremos ir mais além e trabalhar numa lógica de análise prospetiva capaz de nortear as nossas ações até 2030. Estamos a trabalhar nesse projeto, coordenado pelo Prof. António Torres Marques, em articulação estreita com o Doutor Félix Ribeiro (foi o orador convidado no Dia da FEUP que aconteceu em janeiro último), e cujo trabalho desenvolvido na plataforma de Cooperação Noroeste Global da Fundação Calouste Gulbenkian foi decisivo para a afirmação do valor estratégico para a economia nacional da macrorregião que se estende entre Aveiro e Braga. Terão oportunidade de conhecer melhor o trabalho do Dr. Félix Ribeiro ao longo desta edição que lhe dedica uma entrevista muito interessante.

Há bons indicadores quanto ao futuro. Mas temos de continuar a construir o nosso caminho de excelência. Ao cair do pano de 2014, foram revelados oficialmente os resultados de avaliação pela FCT, que em relação à Faculdade de Engenharia refletem os bons níveis que a instituição já alcançou no campo da educação e da investigação, fruto do trabalho de muitos anos. Os resultados excederam as expetativas, com a classificação de “Excecional” atribuído à CONSTRUCT, em engenharia civil, tendo sido a única unidade de investigação em engenharia em Portugal com esta classificação de topo. Todas as outras unidades da FEUP foram classificadas com “Excelente” ou “Muito Bom”, o que traduz bem o nível e a dedicação dos nossos docentes e investigadores.

Mas pensar este nosso futuro não impede ações concretas como sejam a criação do Comissariado Social coordenado também pelo prof. António Torres Marques, envolvendo a AEFEUP, representantes da Comunidade FEUP e instituições parceiras já com ações concretas nesse domínio, em articulação com os SASUP, Serviços de Ação Social da U.Porto. Ancorado no novo plano estratégico da FEUP e ao nível das relações internacionais está a ser preparado um plano para incrementar a interação ao nível dos programas Erasmus e Mobile em articulação com os serviços da Reitoria. O plano contempla também a atração de novos estudantes internacionais, não Europeus, ao abrigo da nova legislação que permite candidaturas diretas às universidades no 1º ano. Para continuar a apoiar a realização de investigação de excelência, em parcerias nacionais e internacionais, mantém-se o gabinete Horizonte 2020. Para articular a investigação da FEUP com iniciativas de empresas e organizações externas está a ser criado o Gabinete Portugal 2020. A ação destes gabinetes visa o desenvolvimento de

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Nas páginas seguintes são apresentadas histórias e relatos que contam com um forte envolvimento da nossa comunidade. Nesta edição estão em destaque os projetos em parceria com a CMP em diversas frentes: desde a sinistralidade rodoviária, passando pela criação de um mapa do ruído da cidade ou até mesmo pelos projetos de eficiência energética. São também referidos um conjunto de projetos internacionais, muitos deles com financiamento europeu, e que alcançaram já bons resultados. Não posso deixar de referir o projeto do Prof. Adélio Mendes das células sensibilizadas com corante para produzir energia em parceria com a EFACEC e cuja patente acaba de ser vendida a uma empresa australiana por 5 milhões de euros. Destaque ainda para a entrevista do Prof. Joaquim Silva Gomes que dedicou mais de 40 anos à U.Porto. Acreditamos que toda a nossa atividade deve gerar conhecimento novo e também ter impacto económico e social. Esperamos por novos desafios e iniciativas, internas e externas! * Diretor da FEUP

Fotografia: Egídio Santos

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PROGRAMA DA MICROSOFT DISTINGUE ESTUDANTE FEUP Chama-se “Do IT, Girls!”, é o nome do primeiro Programa de Formação, Capacitação e Empregabilidade de jovens mulheres na área das TI e permitiu a integração de cinco novos talentos no mercado de trabalho, entre os quais a estudante FEUP/ FLUP, Rita Romana. Escolhida entre cerca de 40 participantes do programa, Rita vai ter a oportunidade de iniciar a sua carreira profissional na Microsoft ou numa das mais de 3.000 empresas que compõem a sua rede de parceiros em Portugal, visando reforçar uma área maioritariamente dominada por homens.

INVESTIGADORES DA FEUP DISTINGUIDOS EM INGLATERRA Um artigo publicado por investigadores do Laboratório de Vibrações e Monitorização de Estruturas (ViBest) da FEUP foi distinguido com o prémio John Henry Garood King Award. Atribuído pela Institution of Civil Engineering (ICE), sedeado em Inglaterra, o prémio foi entregue em outubro de 2014 a Álvaro Cunha e Elsa Caetano, ambos investigadores da FEUP, numa cerimónia realizada em Londres. Intitulado “The Viana Footbridge: Construction and Dynamic Monitoring” o trabalho incide sobre a recente construção da ponte pedonal móvel de Viana do Castelo e respetivo processo construtivo.

FEUP NO MUNDO

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ESTUDANTE FEUP PREMIADO NA CHINA O estudante FEUP Pedro Strecht e os docentes João Mendes-Moreira e Carlos Soares, também da Faculdade de Engenharia, são os autores de um artigo sobre o desempenho dos estudantes premiado com um Best Paper Award. O trabalho aborda a possibilidade de prever o fracasso ou sucesso dos estudantes na U.Porto através de uma metodologia agregadora de árvores de decisão, generalizando o conhecimento a um nível de gestão centralizado. O prémio foi entregue em dezembro de 2014, numa conferência internacional na China.

EXCELÊNCIA RESIDENTE NA FEUP

BEST LEADER AWARD ATRIBUÍDO A ALUMNUS FEUP É mais um caso de sucesso made in FEUP: Norberto Guimarães, alumnus de Gestão e Engenharia Industrial, foi o vencedor da 1ª edição do Best Leader Awards EUA, categoria ‘Leader Award Technologies’. A trabalhar na Google em Silicon Valley, Norberto foi o responsável pela personalização e sistema de recomendações da nova página principal do YouTube. ‘Alfred’ é um assistente pessoal que emite recomendações com base nos gostos dos utilizadores e na aprendizagem de padrões. A cerimónia de entrega de prémios teve lugar em abril de 2014, em San Francisco.

Nelson Fernandes Luís e André Jesus, recém-graduados da FEUP, frequentaram o programa de três anos “Duplo Diploma FEUP/École National de Ponts et Chaussées (ENPC)”, em França, e concluíram os seus projetos finais com classificações excelentes. Nelson focou o seu estudo no reforço dos pilares de pontes para eventuais atividades sísmicas e obteve uma classificação de 17 valores; André elaborou um artigo sobre os transportes intermodais que lhe valeu 18 valores. Ambos os alumni já se encontram ativos no mercado de trabalho. Este programa de cooperação permite a obtenção do diploma de 2º ciclo simultaneamente nas duas escolas: grau de “Ingénieur” pela ENPC e grau de “Mestre” em Engenharia Civil pela FEUP.

ALUMNI FEUP REABILITAM ALDEIAS HISTÓRICAS NO BUTÃO São todos alumni FEUP e integram uma das equipas do NCREP (Consultoria em Reabilitação do Edificado e Património), empresa incubada no UPTEC. Foi esta a equipa selecionada no concurso internacional para a reabilitação de duas aldeias históricas no Butão. Um projeto de engenharia civil e arquitetura que tem como objetivo caracterizar arquitectónica e construtivamente os vários edifícios das aldeias, analisar o seu estado de conservação e avaliar o seu comportamento estrutural.

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INOVAR

Faculdade de Engenharia quer revolucionar a indústria do calçado Reaproveitar a borracha vulcanizada, solucionar um problema de resíduos e lançar novos componentes para calçado em borracha reciclada, aliando a componente estética a soluções verdadeiramente inovadoras no setor do calçado é o principal objetivo do projeto “ShoePoly”. Os investigadores da Faculdade de Engenharia da U.Porto (FEUP) têm até maio para convencer o mercado de que é possível ser competitivo e revolucionar a forma de fazer calçado em Portugal. Texto: Raquel Pires Fotografia: D.R.

A indústria portuguesa de calçado é hoje altamente competitiva: 95% da produção destina-se ao mercado da exportação, o que posiciona Portugal no 3º lugar dos países que lideram o setor do calçado na Europa (o topo é ocupado pela Itália, logo seguido da Espanha). O sucesso deve-se, em larga escala, à forte estratégia de internacionalização e ao investimento que as próprias marcas fazem no sentido de se tornaram verdadeiramente competitivas e que passa também pela constante evolução tecnológica e espírito de inovação no que toca aos materiais e produtos usados, assim como os processos produtivos. De acordo com Ascensão Lopes, investigadora da FEUP, estes avanços tecnológicos acarretam muitas vezes custos elevados na seleção de matérias-primas e à gestão dos resíduos e questões ambientais que normalmente estão associadas ao setor do calçado. “Muitos projetos são simplesmente parados quando os custos associados ao descarte dos seus resíduos e by-products conduzem à necessidade de se implementar processos que permitam reutilizar e reciclar os resíduos gerados, mitigando o seu impacto ambiental”. Nesta linha de investigação a Faculdade

de Engenharia em colaboração com o Centro Tecnológico do Calçado de Portugal (CTCP) e com a Atlanta, uma empresa produtora de componentes para calçado, procura inovar a forma como estes novos produtos são lançados no mercado, sobretudo no que diz respeito ao processo de produção. “Estamos empenhados em conseguir reaproveitar a borracha vulcanizada”, admite a investigadora da FEUP. Numa primeira fase o principal objetivo do projeto é a criação de condições para que os componentes e produtos de calçado injetado de moda sejam mais inovadores, confortáveis e competitivos, de forma a garantir a sua penetração e consolidação nos mercados internacionais “através do desenvolvimento e integração de um novo material compósito”, continua Ascensão Lopes. No fundo, trata-se de revolucionar a maneira como o consumidor e o produtor associam o sapato à receita básica comum de fazer uma sola de borracha, e outros componentes de calçado, variando apenas a cor e o design. “Desta forma, abrir-se-á ainda mais o leque de possibilidades no que toca à conjugação de materiais no fabrico de um sapato completo”, admitem os investigadores do ShoePoly. Com início em setembro de 2013, os investigadores estão neste momento empenhados em lançar um protótipo centrado no processo de desvulcanização que permita eliminar em mais de 50% os resíduos gerados na produção de solas. E que seja capaz de sobreviver aos ditames da moda e às oscilações de um setor de mercado bastante exigente como o da indústria do calçado.


INOVAR

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FEUP e EFACEC comercializam tecnologia por 5 milhões de euros Tecnologia pioneira a nível mundial desenvolvida pela FEUP em colaboração com a EFACEC utiliza células fotovoltaicas com soldadura de vidro assistida a laser para produzir energia a baixo custo. Com durabilidade de 25 anos esta tecnologia pode vir a revolucionar o mercado das novas energias. A empresa australiana Dyesol comprou recentemente a patente pelo valor de 5 milhões de euros. Baixo custo de fabrico, grande eficiência energética e 25 anos de durabilidade. São estas as principais características das novas células solares de perovskita (PSC), que eram já as características das anteriores células sensibilizadas com corante (DSC), embora menos eficientes que as PSC. Ambas as tecnologias fotovoltaicas permitem a conversão direta da luz solar em energia elétrica de forma renovável e sustentável. E foi com base nestas premissas que a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) e a EFACEC concluíram a venda da propriedade intelectual da tecnologia à empresa de energias sustentáveis ‘Dyesol’. Um negócio fechado por 5 milhões de euros e que pode vir a revolucionar o mercado das novas energias. A ideia partiu de Adélio Mendes, professor catedrático da FEUP, que juntamente com Alberto Barbosa (EFACEC) avançou para a constituição de dois projetos em consórcio - Solarsel e WinDSC - no âmbito dos quais a tecnologia de selagem foi desenvolvida. Ambos os projetos de investigação contaram com a coordenação dos docentes Adélio Mendes e Joaquim Mendes e da investigadora Luísa Andrade. Com a parceria da EFACEC foi possível introduzir esta tecnologia no mercado a um custo muito baixo e com características que a tornam única a uma escala mundial e bastante competitiva quando comparada com a tecnologia de silício que habitualmente ainda vigora no mercado das energias. Estas células fotovoltaicas possibilitam a fácil integração arquitetónica em aplicações BIPV (Building Integrated Photovoltaics), tiram partido da radiação solar incidente não perpendicular, facilitam a construção de elementos arquitetónicos versáteis devido à sua transparência (ex. aplicação em fachadas e janelas), e diferentes cores. Adélio Mendes, um dos principais impulsionadores do projeto de investigação na FEUP, reforça a importância deste tipo de parcerias e negociações internacionais: “ao

Texto: Helena Peixoto Fotografia: Egídio Santos

vendermos tecnologia de ponta a empresas internacionais estamos a dar provas da nossa capacidade de I&D&I para produzirmos valor industrial, e podemos mais facilmente captar novos investimentos para tantos outros projetos de valor que temos em mãos.” A empresa Dyesol pretende com esta aquisição terminar a produção de módulos de demonstração do protótipo até 2016, e massificar - a partir de 2018 - alargar e massificar a sua produção. Ian Neal, presidente da empresa australiana de energias sustentáveis mostra-se satisfeito com a aquisição da tecnologia e refere que “a durabilidade é o maior desafio técnico neste mercado e esta tecnologia de soldadura tem o potencial de garantir mais de 20 anos de vida aos produtos de PSC e DSC de estado sólido em várias aplicações pelo que estamos muito animado com as perspetivas comerciais”.

SABIA QUE… Esta parceria com a Dyesol começou há quatro anos, na iniciativa BIN@SHEFFIELD 2011? E que desde o início a tecnologia das células sensibilizadas com corante foi conquistando prémios e assumindo um papel de destaque junto das empresas que lideram o setor energético? Além do prémio ‘ACP - Diogo Vasconcelos’, atribuído em outubro de 2011, este projeto mereceu, nesse mesmo ano, o Prémio Solvay, atribuído na área da engenharia química e ambiente pelo grupo Solvay Portugal e a Hovione.

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INOVAR

FEUP integra funcionalidade “Indoor Maps” da Google

Texto: Raquel Pires Fotografia: D.R.

Em vez da planta da rua, a planta de casa. A Google lançou recentemente em Portugal o Indoor Maps, um sistema integrado na aplicação Google Maps e que permite navegar dentro de espaços fechados. O mesmo é dizer que vai passar a ser possível conhecer por dentro, literalmente, a planta de 49 locais portugueses. Um deles é a Faculdade de Engenharia da U.Porto (FEUP).

Chegar à FEUP e saber de repente onde fica a sala B118, por exemplo, através do seu telemóvel e da aplicação Indoor Maps da Google, numa questão de segundos. Cenário de ficção científica? Garanto-lhe que não. Desde o início de fevereiro que a Google permitiu o acesso à visualização dos mapas interiores detalhados e dos pontos de referência que permitem depois obter informação relevante e útil. Tudo à distância de um clique.

por parte dos utilizadores”, remata o investigador. Esta colaboração com a Google permitirá também que João Moutinho, aluno de Doutoramento da FEUP/INESC TEC, investigando na área do posicionamento global em espaços interiores, possa utilizar estas novas ferramentas para desenvolvimentos e contribuições para esta área tecnológica em fase de crescimento na Google, uma multinacional reconhecida mundialmente.

Esta oportunidade de trabalhar em estreita colaboração com a Google foi encarada na FEUP como muito “interessante para a população que utiliza diariamente o campus”. Exemplo disso é o caso da “possibilidade de disponibilização de informação das plantas de chão nos terminais móveis, que podem ser úteis para obter informações de direções, em complementaridade com a sinalética”, explica Diamantino Freitas, professor do Departamento de Engenharia Eletrotécnica e Computadores da FEUP. “Além disso, o potencial de utilização por pessoas com deficiência torna-se um complemento à política institucional sobre os recursos de acessibilidade, tendo sido introduzidos planos específicos em consideração à mobilidade reduzida de algumas pessoas”. A FEUP acredita no caráter benéfico e prático da utilização deste recurso e está empenhada em colaborar neste tipo de projetos, “que são muito trabalhosos e de aperfeiçoamento contínuo para que o rigor das plantas esteja sempre acautelado e com isso proporcionar uma boa experiência

De referir que sempre que disponíveis, os mapas interiores, são automaticamente apresentados no telemóvel quando um utilizador faz a ampliação de um local no Google Maps. Além da navegação, eles permitem ainda a identificação de pontos de interesse específicos que poderão ser as lojas e secções presentes num centro comercial, o nº de cada sala em cada edifício da Universidade, passando pelas ATM’s disponíveis num determinado local, etc. Sempre que um edifício tiver mais de um piso, o utilizador pode selecionar o andar bastando clicar no número do piso pretendido.

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Atualmente estão disponíveis mais de 3 mil milhões de metros quadrados de plantas em todo o mundo. Acessíveis através de qualquer telemóvel (Android e iOS), o Indoor Maps está neste momento disponível em mais de 20 países, incluindo Estados Unidos, Japão, Canadá, Brasil, Reino Unido, Austrália e agora em Portugal.


INOVAR

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FEUP lidera projeto europeu na área do desenho e inovação de serviços Desenvolver uma rede de formação avançada, um conjunto de unidades curriculares e formação que possa depois ser utilizada pelas universidades, para melhorar a sua oferta formativa e investigação na área de design e inovação nos serviços e criar as bases para um programa doutoral europeu nesta a área é o principal objetivo do projeto “Service Design for Innovation”, recentemente distinguido com uma bolsa Marie Curie no valor de 2,3 milhões de euros. Texto: Raquel Pires Fotografia: D.R.

É um projeto ambicioso e que poderá vir a revolucionar o setor dos serviços, especialmente nas áreas das tecnologias de informação e comunicação, saúde e energia. Com um financiamento europeu de 2,3 milhões de euros e quatro anos pela frente, a equipa de investigadores da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) que lidera o projeto quer sobretudo desenvolver esforços e parcerias com outras universidades que lhes permita desenvolver uma rede concertada de investigação aplicada na área de design e inovação dos serviços. “Os serviços são uma componente cada vez mais importante da produção e emprego das economias ocidentais e a inovação é uma das grandes prioridades do programa Horizonte 2020, pois só assim é possível acrescentar valor, manter e melhorar o trabalho qualificado na Europa”, explica Lia Patrício, coordenadora do projeto e professora da FEUP. “O design de serviços é uma área emergente, que traz uma abordagem de design thinking à inovação nos serviços, através de um processo criativo, iterativo, centrado no utilizador. No entanto, esta área está ainda por explorar”, admite a professora. O que significa que, numa fase inicial, muito do investimento do projeto vai ser precisamente a analisar os currículos atuais dos diferentes programas de doutoramento, para que esta partilha de experiências possa ajudar a fazer melhorias em cada programa. Está também prevista a criação de unidades curriculares específicas na área de inovação em serviços e desenho de serviços, complementadas com workshops em áreas mais específicas. Assim e de forma a concretizar todas as fases do projeto, está já prevista a contratação de nove investigadores durante três anos, que vão realizar o seu Doutoramento no âmbito deste projeto europeu. Esta componente académica vai ser ainda complementada com a formação em ambiente

empresarial/organizacional, através de estágios. Cada investigador contratado vai passar pelo menos 10 meses a fazer investigação em ambiente empresarial. Além da componente da formação, o projeto pretende ainda desenvolver métodos e ferramentas que permitam alavancar o potencial de desenhos e serviços para melhorar os processos e fomentar a inovação. Por exemplo: um dos objetivos é melhorar os métodos de envolvimento dos clientes no processo de desenvolvimento de novos serviços, para que esses serviços - além de inovadores criem valor e sejam adotados pelos seus clientes. No fundo, pretende-se que este “conjunto de serviços inovadores permitam acrescentar valor às organizações envolvidas, desde serviços na área da energia, passando pela saúde, ou serviços que tirem efetivamente partido da evolução da tecnologia”, concretiza Lia Patrício. Em termos mundiais não há nada desta envergadura. Que se equipare a uma rede de formação avançada com pressupostos teóricos que possam levar à criação de um programa doutoral europeu de topo e de contornos inéditos. As expetativas são grandes e a equipa está empenhada em conseguir bons resultados. O projeto tem oito parceiros: seis universidades pioneiras na área do serviços e duas organizações altamente inovadoras: Universidade do Porto (coordenadora), Universidade de Colónia (Alemanha), Universidade de Karlstad (Suécia), Universidade de Lancaster (Reino Unido), Universidade de Linköping (Suécia), Universidade de Maastricht (Holanda), EDP Comercial (Portugal) e Direção Regional de Värmland (Suécia). Existem ainda parceiros associados, entre os quais a PT Inovação e a IBM Alemanha, que irão acompanhar e oferecer oportunidades de estágios de investigação no âmbito deste projeto.

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Fotografia: D.R.

O Gás de Xisto, um combustível fóssil de transição

Joaquim Góis*

Publicada todos os anos pela Minerals Education Coalition uma elucidativa infografia, “Mineral Baby”, ilustra, de forma particularmente criativa, as necessidades que em termos de recursos minerais, cada americano irá necessitar ao longo da sua vida . Se, por mero exercício académico, generalizássemos o estilo de vida americano, seria expectável que cada português viesse a consumir, em média e ao longo da sua vida, qualquer coisa como 272 852 litros de petróleo, 192 555 m3 de gás natural ou 208 555 kg de carvão (só para referirmos os recursos minerais energéticos mais comuns!). Estes consumos per capita, embora determinados de forma algo Malthusiana, estão, no entanto, suficientemente próximos da realidade e constituem indicadores, quer sobre as necessidades energéticas atuais, quer sobre as

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necessidades que se perspetivam num futuro não muito distante. Face à dimensão dos números envolvidos e considerando a natureza não-renovável destes recursos, impõem-se algumas questões: - Estaremos dispostos a alterar os nossos padrões de consumo, prescindindo do paradigma, comummente aceite, de “sociedade desenvolvida”? - Embora assinalando os recentes desenvolvimentos tecnológicos, serão economicamente viáveis, a curto ou a médio prazo, as novas fontes de energias renováveis? - Qual o período de tempo que implicaria a reconversão do atual mundus vivendis baseado, essencialmente, no uso dos combustíveis fósseis? Que fazer entretanto? - Poderão as nações mais ricas impor, aos países emergentes ou em vias de desenvolvimento, novos


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Mineral Baby - ©2014 Minerals Education Coalition, The Society for Mining, Metallurgy & Exploration Foundation

modelos de crescimento baseados em fontes energéticas alternativas, atualmente mais dispendiosas? - Como conciliar, no imediato, os problemas ambientais que resultam da exploração desenfreada dos recursos minerais com um desenvolvimento que se pretende sustentável? - Quais as consequências geopolíticas a nível mundial que poderão advir da substituição dos atuais recursos energéticos por outros, sucedâneos, localizados noutras regiões do globo? Enquanto estas ou outras dúvidas se nos colocam, avancemos, sem dogmas ou “pré-conceitos”, com algumas notas que poderão contribuir para uma esclarecida e mais bem informada reflexão sobre as questões levantadas. Apesar do aproveitamento industrial do shale gas (gás de xisto) datar do início do séc. XX , o renovado interesse por este recurso mineral decorre do choque petrolífero de 2007 e da excessiva dependência energética que os EUA sentiram em relação ao petróleo. O gás natural e o gás natural não convencional (do qual o gás de xisto é o exemplo mais conhecido e abundante), assumem-se como os mais baratos, os mais eficientes (+30%), os mais versáteis e os menos poluentes (-30%) de entre todos os combustíveis fósseis. As atuais reservas mundiais de gás convencional estão calculadas em 160 a 180 triliões de m3 e as reservas de shale gas estão estimadas entre os 100 a 450 triliões de m3. Destas reservas, aproximadamente 50% localizam-se no continente Americano (EUA, Canadá, México e Argentina) e 20% na China, cabendo apenas 9% do volume total de reservas de gás não convencional a países do Norte de África (Argélia e Líbia). Esta distribuição geográfica implicará, certamente, o aparecimento de novos equilíbrios geoestratégicos e a necessidade de reequacionar as políticas energéticas a nível mundial.

A exploração do gás de xisto, com o recurso à fraturação hidráulica, envolve ainda alguns desafios tecnológicos que importa ultrapassar, por forma a minimizarem-se possíveis impactos ambientais que resultam do próprio processo de extração. São habitualmente descritos problemas relacionados, quer com a contaminação de aquíferos subterrâneos (contaminação que poderá ser tanto mais preocupante quanto é sabido que, com a água e areia injetada nos furos de exploração, são igualmente introduzidos outros compostos químicos que tem por missão facilitar a fluidez do gás a captar), quer com a ocorrência de alguma sismicidade que resulta das significativas pressões com que se introduzem os apreciáveis volumes de água associado ao método de extração utilizado neste tipo de jazigos (este aspeto é particularmente relevante se as formações geológicas produtoras estiverem perto da superfície). O aumento da investigação nestes domínios terá um decisivo papel no controlo da fenomenologia associada à exploração do gás de xisto. Pelo exposto, o gás de xisto perspetiva-se como um prometedor recurso energético de “transição”, constituindo uma possível ponte entre o atual modelo de sociedade baseado na ávida utilização de combustíveis fósseis e um novo paradigma de desenvolvimento que possa, num futuro próximo, recorrer a fontes alternativas de energias renováveis que a evolução tecnológica se encarregará de tornar economicamente competitivas, acessíveis e socialmente mais justas. * Professor do Departamento de Engenharia de Minas da FEUP

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Bio Boards: a sustentabilidade com estilo Texto: Helena Peixoto Fotografias: D.R.

Arte, surf-skate e sustentabilidade. São estes os pilares da empresa Bio Boards, criada pelo alumnus da FEUP Ricardo Marques, que se dedica à produção de pranchas de skate e surf com materiais e componentes reciclados. A incorporação da cortiça é a imagem de marca. Objetivo para 2015? O lançamento oficial da marca Bio Boards em Portugal.

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Tudo começou no Rio de Janeiro, Brasil, em meados de 2013. Ricardo Miguel Marques estava a escrever a sua tese de Mestrado do curso de Engenharia do Ambiente da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) quando, um dia na praia, viu um jovem com uma prancha de surf que parecia ser de cortiça. Ao ver mais de perto, percebeu que era apenas pintada, mas a ideia ficou-lhe na cabeça. Paralelamente à tese, começou a estudar a viabilidade de fazer pranchas de surf a partir deste material de características únicas no que toca à impermeabilidade. Quando chegou a Portugal já tinha tudo delineado: desde os materiais necessários para iniciar o projeto até às empresas de produção de cortiça a contactar. Ao fim de várias tentativas obteve uma resposta por parte do ‘JPS Cork Group’, que desde então se tornou parceiro de negócio. Testaram os materiais e os métodos de construção e assim nasceu a ‘Bio Boards’. ‘’Bio Boards, Surf-skate, Art & Sustentability’’ é o slogan desta empresa, muito motivado pela crescente consciencialização das questões ambientais e pela necessidade das pessoas se diferenciarem. ‘Sustentabilidade’ porque os skates/pranchas são produzidas com o mínimo impacto ambiental e com máximo de componentes reciclados, reutilizáveis e bio-


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degradáveis - a cortiça utilizada provém de um aglomerado de rolhas de cortiça recicladas e não existe qualquer tipo de tratamento químico associado à construção dos produtos. ‘Arte’ porque todas as peças têm uma componente artística e personalizável, podendo o cliente escolher as cores, formas e tamanho. ‘Surf-skate’ pela diferenciação do produto face ao que existe no mercado, uma vez que as pranchas são constituídas por três rodas - duas atrás e uma à frente -, o que permite uma sensação e um treino para o surf muito realista.Todas as pranchas são produzidas manualmente e, em condições ideais, sempre com parceiros e fornecedores nacionais. Aliadas a todas estas questões, Ricardo aponta mais uma série de características de enorme potencial dos produtos: são resistentes à água, não necessitam de lixa pois a cortiça fornece toda a aderência necessária, são muito mais resistentes e podem ser restaurados em minutos com a ajuda de uma lixa de manutenção (fornecida), recuperando o aspeto inicial do skate. Atualmente a marca disponibiliza três tipos de skates - Bio Babe, Bio Fun e Bio Top gun -, cada um com as suas características e funcionalidades individuais. Está também disponível para venda o acessório Paddle (espécie de remo que ajuda a dar lanço) e serão brevemente lançadas pranchas de surf (já em fase de construção), pranchas de sup, balance boards e uma linha de roupa e acessórios com cortiça. Desde a construção dos primeiros protótipos, em setembro de 2013, foram vendidos no ano de 2014 cerca de 57 skates. Os protótipos iniciais ainda hoje existem e encontram-se perfeitamente funcionais, evidenciando uma durabilidade acima da média para este segmento de produto. Constituída por dois sócios, Ricardo Marques enquanto mentor do projeto e Diogo Oliveira, também ele alumnus FEUP, a Bio Boards possui uma rede de parceiros indispensáveis para o sucesso da marca entre os quais a JPS Cork Group, Alto Relevo e Le Miserable Brand. O arranque da empresa foi financiado a nível particular

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e neste momento estão à procura de investimento de Fundos Comunitários para uma expansão da produção e inovação de produtos. Para o ano de 2015 o grande objetivo passa pelo lançamento oficial da marca Bio Boards em Portugal, esperando com isto conseguir gerar emprego e promover a construção sustentável: “Acreditamos que podemos vir a ser uma marca de referência, não só pela qualidade dos materiais que utilizamos, mas também pelo produto distinto e inovador que temos. A nossa filosofia passa por promover o desporto tanto do surf como do skate, o bem-estar e o respeito e a preocupação pelo ambiente”, conta Ricardo. Para tal, pretendem trabalhar de perto com escolas de Surf em Portugal e doar parte dos lucros a instituições de preservação da natureza e ações de reflorestação. A exportação é também uma grande meta, uma vez que o mercado do Surf e Skate fora de Portugal tem uma dimensão bastante maior. Só em janeiro de 2015 a marca já marcou presença em três feiras de comércio e inovação na Alemanha, onde conseguiram estabelecer contactos com possíveis representantes da marca além-fronteiras.

FEUP: UMA ESCOLA PARA EMPREENDEDORES Da FEUP, Ricardo leva consigo muitas aprendizagens e importantes ensinamentos para o estabelecimento do seu negócio: “Penso que qualquer curso de engenharia nos dá uma bagagem de conhecimento bastante abrangente. Considero uma vantagem ter tido acesso a este tipo de formação e as principais valências que adquiri enquanto estudava na FEUP, foi a de aprender sozinho, a metodologia de trabalho e a capacidade de análise. A FEUP é uma escola que terá sempre um lugar especial no meu coração.”

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Deteção de defeitos em materiais compósitos através da termografia A indústria aeronáutica representa 22% das exportações europeias de alta-tecnologia, com um volume de negócios consolidado na ordem dos 82 milhões de euros. É o ramo da indústria de alta tecnologia mais exigente quer ao nível dos materiais utilizados, como também nos padrões de segurança que procuram cumprir. Na FEUP há um trabalho de investigação que pretende tornar os aviões mais seguros, detetando precocemente defeitos internos que debilitam as estruturas, com recurso à termografia. E a ideia já conquistou uma empresa multinacional de renome mundial. António Ramos Silva*

tema central da minha tese de doutoramento, que está a ser orientada por Joaquim Gabriel Mendes e Mário Vaz, ambos docentes na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP). As aeronaves são o expoente máximo dos transportes comerciais na atualidade. Entre muitos outros requisitos, o peso, tenacidade, fiabilidade e custo de manutenção são atributos extremamente importantes. Os materiais compósitos, em particular os obtidos coma fibra de carbono, têm-se afirmado como uma das melhores alternativas para o fabrico de elementos estruturais,

Fotografia: D.R.

Começámos a trabalhar com termografia em 2010 no âmbito de um projeto de investigação financiado pela FCT. Em parceria com o Hospital de Santo António, no Porto, rapidamente nos apercebemos dos resultados muito animadores durante a indução de anestesia em diferentes cirurgias, o que nos levou a alargar os campos de aplicação da termografia. Seguiram-se experiências igualmente bem-sucedidas em áreas como o desporto, a medicina dentária, a indústria alimentar e nas artes do espetáculo. Com a criação do LABIOMEP, em 2011, e a aquisição de uma nova câmara termográfica, surge a oportunidade de estudar e validar a técnica da termografia na deteção das fissuras em aviões, o

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SABIA QUE…

Fotografia: D.R.

A palavra “termografia” surge da combinação de duas palavras gregas: thermós (que significa calor) e grafia (que significa representação ou escrita). A termografia é assim a representação gráfica da temperatura através de uma escala de cores adequada. A termografia mede a porção de radiação do espectro eletromagnético referente à radiação infravermelha que é emitida naturalmente pelos objetos. Através de algoritmos próprios, é então criada uma imagem correspondente à temperatura dos objetos em questão.

com enormes benefícios em termos de redução de peso, traduzindo-se assim num ganho de combustível e eficiência. Contudo, existe uma enorme preocupação com a qualidade do fabrico e integridade dos componentes, pois destes depende a segurança dos passageiros e tripulantes. Os ensaios não destrutivos são a opção natural no momento da escolha de metodologias e tecnologias para as operações de controlo de qualidade e manutenção. Das muitas opções existentes, são de salientar as técnicas de imagem. Estas têm vindo a revelar-se mais rápidas que as técnicas tradicionais, podendo analisar grandes áreas e componentes complexos sem perder robustez nem fiabilidade. Em particular, a termografia tem conseguido detetar anomalias onde muitas outras técnicas falham, ou têm dificuldades na obtenção de bons resultados. Existem diversas formas de utilização da termografia, contudo, as avaliações ativas, onde é empregue uma estimulação ao objeto em causa, são as mais eficazes. Este trabalho utiliza a luz visível como fonte de estimulação, pois esta permite uma solicitação uniforme e sem contacto. Esta ação induz variações de temperatura muito pequenas, de modo a não serem alteradas as propriedades dos componentes, mas suficientemente grandes para serem medidas (aproximadamente 1 °C). Contudo este tipo de ensaio necessita de uma correta definição dos diversos parâmetros, nomeadamente: a forma da onda de estimulação, número de ciclos, período, área máxima que pode ser observada, tipo de fonte de estimulação, entre outros, para que os resultados sejam os desejados. Este trabalho de investigação, inserido no Programa Doutoral em Engenharia Mecânica, pretende desenvolver um algoritmo capaz de identificar os parâmetros de ensaio ideais para a realização de ensaios de termografia ativa, de forma a detetar com a máxima eficácia, um determinado tipo de defeito num componente. As condições ótimas permitem tornar os ensaios mais eficientes melhorando a relação sinal ruído das imagens térmicas. Estão atualmente a ser realizados ensaios em provetes, fabricados propositadamente com defeitos, para serem avaliados por termografia. Os provetes consistem em placas de fibra de carbono, placas sandwich com reforço de resina e corpo em cortiça, entre outros. Estes ensaios

têm como objetivo a caracterização de diversos defeitos para diferentes parâmetros de estimulação. As situações de variações térmicas em provetes são simuladas por elementos finitos em MATLAB. As simulações numéricas permitem a estimação da temperatura em todo o ensaio, não só na superfície mas também no interior dos componentes. As simulações, numa primeira fase, serão validadas utilizando dados experimentais. Os valores obtidos em simulação são menos suscetíveis a interferências externas não controladas e assim terão uma menor dispersão e ruído. Estes contribuirão significativamente para a melhoria do algoritmo desenvolvido pois, em ambiente virtual, o número de ensaios pode ser aumentado exponencialmente. Durante a aplicação da estimulação é guardada uma sequência de imagens térmicas, que é posteriormente analisada. Grande parte dos ensaios de termografia utiliza uma estimulação transiente ou uma estimulação repetida ciclicamente (lock-in). Tipicamente os algoritmos de análise das imagens térmicas são adaptações ou aplicação direta de algoritmos utilizados em processamento de sinal, como o phase lock loop. Estes são utilizados com maior frequência em situações onde a estimulação é repetida. Ao contrário, a informação contida nas curvas de temperatura é analisada individualmente em cada pixel. A criação de algoritmos de processamento desenvolvidos especificamente para termografia possibilitará dar um salto considerável na fiabilidade e exatidão dos ensaios não destrutivos onde a termografia é utilizada. Com este trabalho é esperada uma melhoria considerável nos ensaios não-destrutivos, centrada não só no desenvolvimento de um novo sistema, mas no aprimoramento e assertividade das tecnologias existentes, nomeadamente nos algoritmos de processamento das imagens térmicas. A possibilidade da termografia lidar com metais, materiais poliméricos e compósitos terá um vasto campo de aplicabilidade. Com este trabalho de investigação pretende-se colocar a Faculdade de Engenharia na linha da frente quanto à realização de ensaios não destrutivos com termografia e que farão parte integrante das normas europeias para operações de manutenção em aeronaves. * Estudante do Programa Doutoral em Engenharia Mecânica da FEUP

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Autoconsumo de eletricidade: uma mudança de paradigma orientada ao consumidor Cláudio Monteiro*

Assistimos atualmente a uma mudança de paradigma nos sistemas elétricos de energia. Existe uma mudança tecnológica e organizacional que incentiva à participação ativa do consumidor na operação dos sistemas. Essa participação é feita através de resposta ativa nos consumos, através do armazenamento ou através da produção de eletricidade. O autoconsumo consiste na produção de eletricidade, através de sistemas integrados na instalação de consumo, em que a maior parte da energia autoproduzida é consumida na própria instalação.

Fotografia: D.R.

Já há alguns anos que o consumidor pode em Portugal produzir energia e vender à rede através da mini e microgeração, mas só agora, com a legislação de autoconsumo do DL 153/2014, lhe é permitido consumir a sua própria energia autoproduzida e vender o excedente à rede elétrica. Qualquer instalação de consumo, independentemente da sua dimensão, poderá instalar auto-produção até um limite de potência máxima igual à potência contratada. Outro aspeto interessante da legislação é a não existência de cotas para o nível máximo de autoconsumo a instalar, o que elimina as restrições de crescimento de mercado das legislações anterior de micro e minigeração. Não existem restrições quanto à tecnologia que pode ser usada para auto-produção mas, para pequenos sistemas, provavelmente serão os sistemas fotovoltaicos os que mais proliferarão neste modelo de autoconsumo. Para o consumidor, a possibilidade de autoconsumo representa na prática uma alternativa aos elevados preços de eletricidade da rede. Surpreendentemente, hoje, um pequeno sistema fotovoltaico, colocado nos

nossos telhados, consegue produzir eletricidade com um custo equivalente a 150 €/MWh, inferior ao custo a que o gigantesco e otimizado sistema elétrico é capaz de colocar nas nossas casas, cerca de 200 €/MWh. No entanto, existe uma mudança de conceito importante, o consumidor adquire um equipamento que produzirá energia 20 anos, em vez de pagar a energia mensalmente. É um investimento inicial elevado mas o consumidor fica menos dependente das subidas de preço que provavelmente serão da ordem de 4% ao ano nos próximos 20 anos. A redução da fatura de eletricidade incide sobre os custos de energia, podendo o excedente de produção ser vendido à rede, mas a preço muito baixo, cerca de 45€/MWh. Os diversos estudos realizados mostram que o autoconsumo é economicamente viável, permitindo uma redução global de 10% na fatura de eletricidade. Mas o dimensionamento deve ser adequado ao perfil de consumo da instalação, de forma a não ter que vender demasiado excedente ao baixo preço pago pela rede. Na perspetiva ambiental o consumidor pode optar por uma autoprodução renovável, sendo claramente uma opção ambiental mais proativa que os 120 €/MWh que o consumidor já paga pela produção renováveis da rede. Para o país, a auto-produção não tem qualquer custo, pelo contrário, pelo excedente injetado na rede pelo autoconsumidor é pago um valor 10% inferior ao preço de mercado, cerca de 45 €/MWh, representando menos de 50% do valor que o consumidor paga pelo mix de produção da rede, cerca de 100 €/MWh, incluindo sobrecustos pagos às grandes térmicas, hídricas, cogeração e restantes renováveis. O autoconsumo representa um importante mercado de serviços para as PME, estimando-se um volume de negócio de cerca de 1000 milhões de euros até 2020, criando cerca de 2500 empregos diretos com continuidade para os próximos 20 anos. Na vertente ambiental, o autoconsumo representará em 2020 uma redução de cerca de 0,2 MtCO2 anuais. Para as redes elétricas, o autoconsumo é a melhor das renováveis, reduz as perdas na rede em cerca de 15%. Por ser essencialmente fotovoltaico, a produção coincide com o período diurno e com o período de verão, coincidindo com as horas em que a produção é mais necessária e tem mais valor para a rede. * Professor do Departamento de Engenharia Eletrotécnica e Computadores

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Texto: Helena Peixoto Fotografias: D.R.

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Academia, Município e Instituições unidos em torno da evolução das cidades

Com uma área de mais de 40km2 e uma população de cerca de 260 mil habitantes, a cidade do Porto suporta, diariamente, cerca de 1,2 milhões de viagens entre todos os meios de transporte disponíveis. O volume de património edificado, novo ou por restaurar, é também assinalável, assim como o fluxo populacional e o grau de ruído proveniente do funcionamento da cidade. A Faculdade de Engenharia da U.Porto (FEUP) tem vindo a colaborar com a Câmara Municipal do Porto (CMP) no sentido de monitorizar e apresentar soluções para alguns dos problemas que diariamente vão surgindo. Fique a conhecer alguns destes projetos.

 RANSPORTES: INSTRUMENTOS ESSENCIAIS PARA T O BOM FUNCIONAMENTO DAS CIDADES A relação entre a FEUP e a CMP existe desde sempre. Isso mesmo se comprova pelo facto de o Diretor da Faculdade de Engenharia, em 1926, Luís Couto dos Santos, ter sido Diretor dos Serviços de exploração da companhia Carris de Ferro do Porto onde promoveu a obra da Estação Central Geradora de Massarelos (atualmente Museu do Carro Elétrico). À época, desempenhou funções de consultor técnico na Câmara Municipal do Porto, tendo sido responsável pelo plano de urbanização da Foz do Douro. Entre 1917-1918 foi também Diretor dos Serviços Municipalizados de Gás e Eletricidade do Porto. Esta relação manteve-se ao longo dos anos e é possível encontrar influências dessa ligação à Câmara Municipal. E esse levantamento ficará, seguramente, para uma outra edição. Centremo-nos na década de 90 e nos principais projetos em que a FEUP e a CMP colaboraram de perto, em prol da melhoria da vida da cidade invicta. Um dos aspetos que mais beneficiou desta ligação foi o pelouro das Vias de Comunicação e Transportes, muito incentivada pela criação, no Departamento de Engenharia Civil da FEUP, do Instituto da Construção (IC), com o objetivo de promover e facilitar o envolvimento dos investigadores em projetos de apoio à comunidade externa com exigências de elevado nível de conhecimento e competências específicas. Para além disso, a mobilidade na cidade do Porto começava a dar dores de cabeça

aos decisores políticos, cujos desafios exigiam respostas sólidas, baseadas em estudos aprofundados que no início da década de 90 estavam a despontar. Surge então, em 1990/91, o estudo “Características da Rede Viária da Cidade do Porto” que constituiu o primeiro passo para a “Implementação do Sistema Centralizado do Controlo de Tráfego na Cidade do Porto”. A fase de arranque do processo foi altamente participada por parte de docentes da Secção de Vias de Comunicação, que integraram inclusivamente o júri de apreciação das propostas de fornecimento do Sistema Centralizado de Controlo de Tráfego Urbano, o qual se mantém nos dias de hoje. À semelhança do que acontece na maioria das cidades europeias, a cidade do Porto tem registado um aumento progressivo do uso do transporte individual - este é o principal meio de transporte utilizado no espaço metropolitano, com uma distribuição de 50% face a apenas 19% para o transporte público. Esta situação, além de conduzir a situações de congestionamento e estacionamento ilegal, gera também um decréscimo das condições de segurança rodoviária e um aumento da poluição atmosférica e sonora. Ao analisar todas estas condicionantes, é possível concluir reflexos óbvios na degradação da qualidade de vida dos cidadãos. Desde as primeiras iniciativas conjuntas entre a FEUP e CMP, que a relação foi sendo cimentada e fortalecida. Do lado da Faculdade de Engenharia os docentes da Secção

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PROMOVER A SEGURANÇA RODOVIÁRIA O tema da segurança rodoviária é indissociável do conceito das ‘Smarts Cities’. As ‘Smarts Cities’ têm como base o conceito de cidade sustentável onde a segurança rodoviária é um pilar fundamental. Em Portugal tem-se assistido ao aumento da concentração dos acidentes no meio urbano o que interfere com a qualidade da mobilidade dos cidadãos. Considerando esta problemática e assumindo que a Vida Humana não tem “preço” surgiu o conceito sueco “Vision Zero”, que atualmente faz parte da estratégia da Comunidade Europeia e que pretende eliminar/reduzir para zero o número de mortos e consequentemente os feridos graves e leves. A cidade do Porto em geral, e a FEUP em particular, têm dado especial atenção a este tema, levando a cabo um conjunto de projetos de correção dos locais com maior concentração de acidentes registados. Neste momento há um esforço de manter e sistematizar a atuação ao nível da infraestrutura

com base na sinistralidade. Após a correção dos locais críticos, surge o próximo passo: a prevenção. Os locais com mobilidade específica (ex.: envolvente às escolas e a zonas comerciais) devem ser analisadas particularmente para criar um ambiente urbano que proteja os utentes e que informe os condutores dos veículos que estão numa zona em que deverão adequar o comportamento para diminuir o risco de acidente. Além disso, com o aumento do turismo, a cidade enfrenta diariamente transformações que afetam a mobilidade e, consequentemente, a segurança rodoviária, o que torna obrigatório redefinir estratégias para a mobilidade. Especialistas nesta temática da Faculdade de Engenharia reforçam ainda que é necessário ter uma boa base de informação, idealmente em tempo real, para um correto ajuste da estratégia e rápida atuação.

de Vias de Comunicação, através do Laboratório de Análise de Tráfego, têm sido os grandes impulsionadores de diversas atividades como a elaboração de estudos e a participação em projetos de investigação, alguns deles de âmbito internacional. Existem alguns marcos importantes para destacar: a regulação de sinais luminosos, com especial destaque para a colocação de sensores de peões numa interseção da cidade, um projeto inovador a nível europeu no ano de implementação (1992/93); os estudos de circulação no âmbito do Porto 2001, Capital da Cultura; a Criação da Loja da Mobilidade (2001); os estudos de sinistralidade com particular incidência na identificação dos locais de maior sinistralidade na rede viária da cidade; as condições de escoamento do tráfego na cidade do Porto (2002/03) e a caracterização do sistema de estacionamento na cidade do Porto (2005). De referir ainda três importantes estudos que nasceram graças a esta colaboração conjunta e que trouxeram claras melhorias ao funcionamento da cidade. A abertura das vias “BUS” à circulação de ciclomotores e motociclos - monitorização e avaliação deste projeto-piloto em Portugal foi um dos mais emblemáticos. A construção da rede viária estruturante do concelho do Porto e rede local de Campanhã - Avaliação do desempenho das redes viárias, identificação dos pontos críticos e propostas de medidas corretivas foi outro projeto muito importante para a cidade, assim como a caraterização e avaliação da oferta e procura de estacionamento na cidade do Porto, com a definição de propostas estratégicas e medidas de política de estacionamento a implementar.

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SMART E FUTURE CITIES As “smart cities” ou “cidades inteligentes” recorrem a avanços tecnológicos para o seu desenvolvimento e melhoria da qualidade de vida das populações, sendo a mobilidade uma parte essencial para esta evolução. No setor dos transportes existem vários aspetos que exigem a tomada de medidas que alterem a situação vigente. Exemplo disso são as questões energéticas e ambientais relacionadas com os veículos, onde se incentivam medidas como a produção de veículos mais respeitadores do ambiente, meios/modos de transporte mais sustentáveis e a utilização de novas tecnologias na criação de ferramentas que auxiliem na resolução do fenómeno do congestionamento suprimindo os estrangulamentos. Ainda a propósito da evolução das cidades, surge o projeto ‘Future Cities’. Lançado em 2013 e financiado em 1,6 milhões de euros pela Comissão Europeia, o Future Cities reúne investigadores das Faculdades de Engenharia (FEUP), Ciências (FCUP) e Psicologia e Ciências da Educação (FPCEUP) e de várias unidades de investigação da U.Porto que trabalham em conjunto com parceiros nacionais e internacionais (Universidade de Aveiro), o Instituto de Telecomunicações, a Carnegie Mellon e o MIT. Desta força conjunta, que envolve também empresas e instituições como a CMP, a Porto Digital, a STCP e dezenas de parceiros industriais, já resultou, por exemplo, a instalação de sensores e equipamentos que, através da recolha e envio de informação, permitem melhorar a mobilidade, a segurança e a qualidade de vida dos cidadãos do Porto. Exemplo de um outro importante projeto foi a criação, em 2014, da maior rede veicular do mundo, com a ligação entre mais de 400 autocarros da cidade, permitindo o acesso à rede WiFi a cerca de 60 mil utilizadores por mês. Essencialmente, o projeto Future Cities pretende transformar a cidade do Porto num “laboratório vivo” para as cidades do futuro, dotando a Universidade e a cidade de plataformas experimentais à escala urbana, através do apoio à investigação experimental e interdisciplinar em várias áreas de ponta.


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MAPA DO RUÍDO DA CIDADE DO PORTO A problemática do ruído nas cidades é um tema que importa estudar. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), há consequências graves que podem advir do facto de uma pessoa não conseguir dormir e descansar convenientemente. Atenta a esta realidade, e às então recentes disposições legais, a CMP encomendou, em 2004, ao Laboratório de Acústica sediado na FEUP, um estudo aprofundado do ruído na cidade: o principal objetivo passou pela elaboração de mapas de ruídos para identificação de zonas críticas. A equipa liderada por Rui Calejo, à data diretor técnico do Laboratório de Acústica da FEUP, acedeu a esta ação pioneira com o município e conseguiu identificar as principais artérias cujos limites de exposição ao ruído (avaliados em decibel) ultrapassam em muito a média recomendada. A partir daí, e já no âmbito dos Núcleos de Investigação e Desenvolvimento em Engenharia Acústica (NI&DEA), também da responsabilidade de Rui Calejo, foi delineado um Plano Municipal de Redução do Ruído, onde são aconselhadas medidas de minimização do ruído que vão desde a instalação de janelas de vidro duplo à substituição do piso dos arruamentos. Um dos frutos da elaboração destes mapas, foram as conclusões obtidas: foi possível perceber por exemplo que, durante o período diurno, as zonas mais próximas dos principais eixos rodoviários estão expostos a volumes de ruído que, sem a proteção das envolventes dos

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edíficios, podem provocar perda de audição a curto e longo prazo ou até problemas de stress e acidentes laborais e de circulação. Existem zonas específicas como escolas, que pela proximidade da Via de Cintura Interna (VCI) registam valores na ordem dos 70 decibel, o que, na ausência de isolamento para salas de aula, pode trazer graves consequências: uma criança submetida a elevados níveis de ruído durante a idade escolar e com más condições acústicas dentro das salas, não só tem mais dificuldade em aprender como tende a alcançar patamares inferiores no domínio da leitura. O município do Porto passou a ter um grupo líder em gestão do ruído urbano, tornando-se um dos pioneiros na produção de mapas do ruído em sintonia com as diretivas do Plano de Desenvolvimento Municipal. Está previsto que o exemplo se estenda a outros municípios nos próximos anos, que manifestaram já vontade em colaborar com a equipa de Rui Calejo.

 PLICAR A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL AO A DESENVOLVIMENTO DAS METRÓPOLES Uma importante componente integrante das cidades atuais tem a ver com a inteligência artificial e seus mecanismos. A Inteligência Artificial (IA) consiste num ramo da ciência da computação que se propõe elaborar dispositivos que simulem a capacidade humana de raciocinar, perceber, tomar decisões e resolver problemas. Existente há

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COOPERAÇÃO FEUP-CMP: UMA PROVA DE SUCESSO A relação de cooperação entre as duas instituições existe desde os primórdios da FEUP. Ao longo dos anos é possível identificar projetos estratégicos e de grande relevância na evolução de tecnologias e processos da cidade. Paulo Calçada, responsável pela área de Inovação da CMP e antigo investigador da FEUP, é perentório: “A FEUP representa a verdadeira energia catalisadora do desenvolvimento da cidade em pilares fundamentais como a inovação e empreendedorismo. Sem essa energia não teria sido possível desenvolver as parcerias que agora nos permitem projetar a cidade para um patamar de desenvolvimento que tanto ambicionamos. A qualidade dos recursos humanos formados e a excelência da ciência e investigação produzidas, são fatores diferenciadores da FEUP, e ingredientes únicos para parcerias de sucesso como as que temos tido”.

décadas, esta área é grandemente impulsionada pelo rápido desenvolvimento da informática e da computação, permitindo que novos elementos sejam rapidamente agregados. No caso da FEUP, existem dois grandes projetos em desenvolvimento no laboratório de Inteligência Artificial e Ciência de Computadores (LIACC), liderados pelo docente Rosaldo Rossetti: “MAS-Ter LAB” e “Jogos Sérios e Simulção Social”, ambos com efeitos práticos na mobilidade das cidades. O “MAS-Ter LAB” consiste numa plataforma baseada em simulação multiagente e análise de sistemas de transportes que, ao utilizar o conceito de agentes inteligentes e técnicas de Inteligência Artificial, consegue auxiliar as diversas fases de planeamento, gestão, controle e operação de sistemas de tráfego e transportes. O mundo real designa o sistema de transporte em áreas urbanas, e nestes sistemas os componentes físicos, como os viajantes e os sistemas de controle de tráfego e transporte inteligente convivem e interagem. Com o projeto MAS-Ter LAB, agentes especialistas artificiais auxiliam no processo de simulação de diferentes estratégias de controle e políticas de gestão, aplicados e testados em domínio virtual antes da sua efetiva implementação no sistema real. Assiste-se assim a uma interação dinâmica entre subsistemas, favorecendo a análise de novas soluções de mobilidade urbana. Os “Jogos Sérios e Simulação Social”, por sua vez, consistem em jogos de computador com finalidades que vão mais além do que puro entretenimento. São jogos criados para serem utilizados na modelação comportamental das pessoas em sistemas de mobilidade. Apesar de ser já possível analisar e adquirir um grande volume de informação através da tecnologia de redes de sensores, a parte cognitiva, decisional e semântica permanece difícil de se capturar em modelos de simulação social. Com os jogos sérios é possível preencher essa lacuna, uma vez que que visam induzir os jogadores a executar determinadas ações que permitem melhor entender a estrutura dos seus comportamentos e processos decisórios, facilitando assim a sua modelação. Este projeto é relativamente recente e está a ser realizado tanto no âmbito de modelos pedonais como de modelos de motoristas, com a finalidade de melhorar a representatividade de modelos de simulação social em sistemas de mobilidade.

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PARCERIAS ACADÉMICO-EMPRESARIAIS: EDIFÍCIOS ENERGETICAMENTE EFICIENTES As parcerias da FEUP com vista à evolução e melhoria da qualidade de vida nas cidades não se limitam à CMP. Exemplo disso é o resultado de um trabalho conjunto entre a Faculdade e a empresa CIN, líder ibérica no setor de tintas e vernizes, com o objetivo de reduzir o consumo energético de um edifício sem recorrer a grandes obras estruturais. A resposta surgiu em 2010, com um produto muito inovador: Thermocin. Manter a temperatura ideal no interior das habitações e dos locais de trabalho é um dos maiores fatores de consumo de energia. Foi justamente a pensar nesta necessidade do consumidor que surgiu a tinta Thermocin, uma tinta refletora para a pintura de telhados e coberturas que reflete a radiação solar e aumenta o conforto térmico no interior dos edifícios. Uma solução verdadeiramente inovadora que vai ao encontro das exigências legais de certificação energética das habitações, quer do ponto de vista económico quer ambiental. A eficiência desta tinta foi demonstrada pelo estudo liderado pelo docente da FEUP Adélio Mendes, que comprovou que a utilização de Thermocin na pintura de telhados ajuda a diminuir a temperatura do ar interior até 6ºC. Esta tinta aumenta ainda o período de vida útil do telhado ou da cobertura graças à elevada resistência à intempérie e ao desenvolvimento de fungos. Além de se apresentar como uma solução ‘user friendly’ pela fácil aplicação, Thermocin é uma tinta aquosa com baixo teor de solventes e portanto com menos impacto ambiental. Thermocin é um exemplo claro de como projetos fruto de sinergias e parcerias entre a capacidade de inovação empresarial e o conhecimento e know-how académico dão origem a soluções de sucesso. As características inovadoras de Thermocin foram oficialmente reconhecidas pelos consumidores, ao receber, em 2012, o prémio ‘Produto do Ano’, merecendo a confiança de aproximadamente 90% dos inquiridos.


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Entrevista: Raquel Pires Fotografia: Egídio Santos

“A criação do UPTEC é exemplar da dinâmica de criação de ecossistemas de inovação” É um dos mais conceituados estrategas portugueses da atualidade. Fala com paixão sobre as áreas que domina e acredita no potencial da soberania portuguesa, mesmo depois de mais um resgate da Troika. José Manuel Félix Ribeiro dedicou grande parte da sua vida aos estudos prospetivos e à análise geopolítica. Economista, fez carreira na Administração Pública. Defende que um país europeu como Portugal não compete pela mão de obra, mas sim pela valorização do capital humano. Depois do trabalho desenvolvido na plataforma de Cooperação Noroeste Global da Fundação Calouste Gulbenkian e que foi decisivo para a afirmação do valor estratégico da macrorregião que se estende entre Aveiro e Braga, aceitou o desafio de colaborar na definição da estratégia da FEUP 2030.

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AGIR NOTA BIOGRÁFICA Economista. Colaborador regular do IDN - Instituto de Defesa Nacional e do IPRI - Instituto Português de Relações Internacionais. José Manuel Félix Ribeiro está neste momento Aposentado do Departamento de Prospetiva e Planeamento e Relações Internacionais do Ministério do Ambiente e Ordenamento do Território de que foi Sub-Director Geral. Responsável até 2011 da área de Prospetiva nos Cursos

Começo por lhe pedir um diagnóstico sobre o nosso País e os desafios que se lhe colocam em termos da economia. Na atualidade o problema central da economia portuguesa é o do Investimento, nomeadamente do novo investimento na oferta de bens e serviços suscetíveis de competir nos mercados internacionais. Com efeito, a retoma do nosso crescimento no período 2015-2020 terá que assentar, em primeiro lugar, numa nova vaga de investimento na exportação de bens, serviços, conteúdos e conceitos que abra oportunidades no mercado exterior, suficientemente vastas para justificar um aumento substancial e continuado do investimento no setor exportador e, que, simultaneamente, contribua para a diversificação e sofisticação da carteira de atividades exportadoras, permitindo um aumento significativo da produtividade da economia. E que marque o regresso ao crescimento das exportações para mercados de economias desenvolvidas - nomeadamente EUA e Europa - após o parênteses das exportações para países produtores de matérias-primas e com indústrias débeis, como o que ocorreu durante o super-ciclo das matérias-primas a nível mundial. Na sua opinião o resgate da Troika à Grécia e a Portugal vieram pôr em causa o modelo europeu? Temos que distinguir duas vertentes do que se designa habitualmente por “modelo europeu”. Numa vertente temos o modelo de funcionamento económico, financeiro e social dominante nos Estados que integram a zona euro e que assenta no papel dos bancos como peça central do sistema financeiro e numa proteção social abrangente assegurada pela combinação do Estado com soluções corporativas. E tem tornado difícil às economias da zona euro inovarem e crescerem não degradando a situação das contas públicas. Noutra vertente temos o modelo europeu de integração entre Estados soberanos, em que é assumido um princípio de coesão e solidariedade. O que a crise das dívidas soberanas tem revelado é que não existe a nível europeu vontade de estender a solidariedade até ao ponto de subsidiar os “Estados Providência” dos países que não cresçam o suficiente e não os reformem por forma a puderem ser financeiramente sustentáveis ao nível nacional. Como é que Portugal pode ser mais competitivo? Qual deve ser a nossa Estratégia? Deve-se ter em conta que um período inicial de recuperação do crescimento - marcado pelas limitações da capacidade

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de Dirigentes da Administração Pública no INA - Instituto Nacional de Administração. Autor de diversas obras sobre Economia Internacional, Economia Portuguesa e Prospetiva. Doutorado em relações Internacionais pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universiadde Nova de Lisboa. Licenciado em Economia pelo ISCEF. Nasceu em 1948.

de auto-financiamento do tecido empresarial endógeno e pelo impacto da fragmentação do espaço financeiro na zona euro (com consequências no diferencial de custos de financiamento bancário) - terá que assentar em dois pilares principais: atração de investimento direto estrangeiro (IDE), em particular investimento industrial em setores mais intensivos em capital e tecnologia e com produtividades elevadas que possam localizar-se em Portugal devido à disponibilidade de recursos humanos qualificados, às vantagens locativas de Portugal e à substancial redução nos custos de contexto; e expansão da oferta endógena de atividades industriais muito transformadas por serviços (I&D, design e marketing) e de atividades de serviços ao exterior (serviços às empresas, serviços de projeto & engenharia, serviços de consultadoria, serviços de transporte para terceiros, etc.), com a participação de empresas multinacionais e nacionais que, simultaneamente, aumentem a exportação e criem emprego qualificado. Nesta nova vaga exportadora as empresas multinacionais podem fornecer VOLUME em atividades que tenham forte procura internacional, empreguem recursos humanos qualificados e permitam a Portugal posicionar-se de forma gradualmente ascendente nas respetivas cadeias de valor. Algumas grandes empresas portuguesas, as PME inovadoras e as start ups fornecerão a VARIEDADE, em ambos os casos procurando ascender nas cadeias de VALOR globais. Será essa portanto a “fórmula mágica” para voltarmos aos mercados... Volume, Variedade e Valor são as três componentes-chave para o reforço dos processos de internacionalização, assegurando que estes sejam rápidos nos efeitos e prudentes em termos de evitar uma dependência excessiva de um número restrito de grandes operadores. Para além de uma nova vaga de investimento na exportação de bens, serviços, conteúdos e conceitos, a retoma do crescimento ao nível nacional, num período de contenção do crescimento da procura interna, exige ainda a atração de rendimento vindo do exterior capaz de dinamizar o mercado interno não só no domínio do turismo mas, sobretudo, através do acolhimento de um número bastante expressivo de novos residentes provenientes de diversos países do mundo. Esta dinâmica de atração de rendimento do exterior pode também contribuir para animar as atividades imobiliárias e de construção, fortemente atingidas pela crise. Finalmente, a


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Fotografia: NASA

AGIR

Fotografia de satélite da região da Península Ibérica à noite

retoma do crescimento ao nível nacional não pode deixar de retirar partido das oportunidades abertas pela pressão mundial sobre recursos alimentares, energéticos e minerais, quer em atividades com longa tradição no País, quer através da prospeção mais intensa de novos recursos. Afirmar o valor estratégico da macrorregião Noroeste foi o principal objetivo do estudo “Noroeste Global” realizado pela Fundação Calouste Gulbenkian. Porquê? Será um bom exemplo para outras regiões? A “Iniciativa Cidades” da Fundação Calouste Gulbenkian optou por considerar na sua abordagem as “Cidades” como “Regiões Urbanas Funcionais”, no interior das quais existem múltiplas cidades em termos administrativos. O Noroeste português constitui, a par do arco metropolitano de Lisboa, uma dessas “regiões urbanas funcionais”, constituindo dois grandes motores regionais de desenvolvimento do País. O seu futuro é pois importante, não apenas para a população e as entidades aí existentes e regiões envolventes (nomeadamente o Norte interior), mas também para o conjunto do país. A macrorregião Noroeste tal como foi definida no estudo “Noroeste Global” - apresentado em junho de 2014 no Porto - inclui as NUTS III - Minho Lima, Cávado, Ave, Grande Porto, Tâmega, Entre Douro e Vouga e Baixo Vouga que no seu conjunto integra a maior concentração de indústria exportadora de Portugal em torno de vários clusters consolidados; registou, nas três últimas décadas, o maior investimento conjunto na ampliação do ensino superior público; possui quatro Universidades - Minho, Porto (2) e Aveiro - e respetivos ecossistemas de inovação com um conjunto de Centros de I&D de grande qualidade e significativa internacionalização; dispõe de instituições setoriais de apoio à transferência de tecnologia, à inovação e ao empreendedorismo (contando com vários proto-clusters em emergência). É uma região que se caracteriza também por um sistema urbano policêntrico, constituído

por um conjunto de cidades que, organizadas em rede, podem dinamizar uma macrorregião de valia internacional, e que poderá ver reduzidos o desemprego atual e os riscos de exclusão social presentes na região, que incidem em diferentes faixas etárias e inviabilizam a mobilização da maior concentração de população jovem do país, com base nos fatores referidos nos pontos anteriores. O Noroeste é uma macrorregião de 3,7 milhões de habitantes, com um conjunto de clusters consolidados. É verdade que a indústria está mais representada a Norte? Como se internacionalizaram esses clusters? O Noroeste é a principal origem geográfica das exportações portuguesas, organizadas em torno de um conjunto de clusters consolidados: mega-cluster Alimentar e bebidas, mega-cluster Habitat, mega-cluster Têxtil, cluster da Cortiça; cluster do Calçado, cluster de Componentes de automóvel, cluster de Estruturas e equipamentos, e mais recentemente o cluster Turismo com várias componentes aos quais se vêm acrescentar grandes empresas nos setores da refinação de petróleo, petroquímica e outra química pesada, fabrico de pasta e papel, e siderurgia. Trata-se de uma região que experimentou nas duas últimas décadas um fortíssimo investimento no ensino superior, nomeadamente nas três universidades públicas (Aveiro, Minho e Porto) e nos quatro institutos politécnicos (Viana do Castelo, Ave e Cávado e Porto, e Institutos Politécnicos da Universidade de Aveiro). Em paralelo, os programas estruturais para a Ciência e Tecnologia (C&T), o aumento muito significativo dos financiamentos nacionais para C&T e as oportunidades abertas pela cooperação científica e tecnológica europeia contribuíram para o desenvolvimento de uma rede de centros de investigação de elevada qualidade. Mais recentemente, têm vindo a constituir-se um conjunto de protoclusters, muito ligados (por vários elos) aos diversos polos de conhecimento do Noroeste,

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AGIR “NOROESTE GLOBAL”: AFIRMAR O VALOR ESTRATÉGICO DE UMA REGIÃO Afirmar o “valor estratégico” da macrorregião que se estende entre Aveiro e Braga para a economia nacional, aumentando a sua capacidade de inovação e internacionalização através de um ecossistema que promova sinergias entre os centros de conhecimento e as empresas e colocando as próprias cidades a competir por investimentos, talentos e turistas. Foi este o principal objetivo da criação da Plataforma de Cooperação Noroeste Global, um projeto liderado por José Manuel Félix Ribeiro e encomendado pela Fundação Calouste Gulbenkian, e que projetou a região do Noroeste de Portugal a uma escala internacional. As conclusões deste estudo mostram que esta região integra, hoje, a maior concentração de indústria exportadora de Portugal em torno de vários clusters consolidados e de alguns protoclusters. Registou, nas três últimas décadas, o maior

em áreas como: energias renováveis e redes elétricas inteligentes; mobilidade elétrica, equipamentos e software; automação, robótica e domótica; engenharia aeronáutica e espacial; comunicações, navegação e eletrónica; software de Gestão Empresarial e serviços Informáticos; conteúdos digitais, multimédia e comunicação Interativa; biotecnologia, tecnologias da saúde e serviços de saúde e bem-estar e Agricultura de Especialidades. Estamos a falar de conjuntos de empresas, muitas delas PME ou start ups, que se têm vindo a formar ou a multiplicar em torno de atividades - ou mesmo de projetos ou clientes - e que podem vir a contribuir para uma eventual diversificação em larga escala da oferta competitiva do Noroeste, nomeadamente se se consolidarem e conseguirem atrair IDE que amplie o seu impacto na exportação. Continuamos a ser um país capaz de formar os melhores alunos, elogiados e estimados lá fora. Porque é que as nossas empresas ainda não absorvem grande parte dos alunos doutorados? Para responder a essa questão temos que recordar que muitas atividades em que o Noroeste está especializado não têm necessitado de recorrer em larga escala a competências tecnológicas avançadas, a incorporar no seio das empresas como fator decisivo de inovação. As políticas públicas desde finais da década de 80 do século passado deram prioridade à criação de centros tecnológicos que funcionassem como entidades envolvidas na transferência de tecnologias e no apoio à investigação aplicada em consórcio como forma de elevar as competências nas empresas dos respetivos setores. Basta recordar os casos do Centro Tecnológico do Calçado, do Centro Tecnológico da Indústria dos Moldes, Ferramentas Especiais e Plásticos ou a criação do Centro de Nanotecnologias e Materiais Técnicos, Funcionais e Inteligentes participado pelos Centros Tecnológicos do Têxtil e Vestuário e do Calçado e pelas Universidades do Minho, Porto e Aveiro. Mas faltou posteriormente uma política orientada para a captação de Investimento direto estrangeiro

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investimento conjunto na ampliação do Ensino Superior público, onde pontuam três das mais bem colocadas universidades portuguesas nos rankings internacionais: Porto, Minho e Aveiro. Os centros de I&D e as entidades setoriais de apoio à transferência de tecnologia, à inovação e ao empreendedorismo são do melhor que existe no país e estão fortemente internacionalizados. Por fim, o sistema urbano policêntrico da macrorregião é constituído por um conjunto de cidades que, se disponíveis para se organizarem em rede, podem adquirir escala internacional, sobretudo importante no contexto da atração de investimento direto estrangeiro e, noutro patamar, de talento empreendedor. Diagnósticos com uma abordagem semelhante estão em curso para o Arco Metropolitano de Lisboa e para a Região de Coimbra e o Centro interior.

para o País - e para o Noroeste em particular - valorizando a acumulação de capital humano realizada desde a mesma época. Mais recentemente casos como o grupo BOSCH ou a NOKIA Networks apontam numa direção mais promissora. O Projeto de Parque de Ciência e Tecnologia da U.Porto (UPTEC) com taxas de incubação muito perto dos 100% é um bom exemplo no que se refere à nossa capacidade/iniciativa de criação do próprio emprego, em áreas tecnológicas. O que é que depois nos impede de competir à escala global? A criação do UPTEC é exemplar da dinâmica de criação de ecossistemas de inovação em torno dos polos de Ensino superior no Noroeste, constituídos por três níveis: um Núcleo central que integra as Universidades e entidades dentro das Universidades com existência autónoma, bem como os Institutos Politécnicos mais próximos; um 1º anel que integra as entidades orientadas para transferência de tecnologia e empreendedorismo (exemplo incubadoras) que as Universidades controlam através de participação indireta ou de participação financeira; um 2º anel que integra relações continuadas com centros tecnológicos, expansão da rede de projetos de I&D em copromoção com empresas, aproveitando sistemas de incentivos públicos existentes, celebração de parcerias com empresas para instalação de centros de investigação/competências em torno das Universidades, participação na criação de Parques de Ciência e Tecnologia em ligação com incubadoras de empresas. O mapeamento deste anel é sobretudo importante para a identificação da qualidade e quantidade das relações de cooperação para a inovação. Nestes ecossistemas de inovação é fundamental, para o futuro, incluir como atores cruciais os Business Angels e as empresas de Venture Capital, sobretudo se tiverem um atuação proativa indo “descobrir” projetos e ideias que mereçam ser apoiadas financeiramente para o seu arranque e acompanhadas na compreensão dos mercados e na forma de organização de empresas.


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Os candidatos a engenheiros são muito “cobiçados” no estrangeiro O fascínio pela área de engenharia existe desde os tempos de criança. Diz que gosta de “fazer coisas novas, de vê-las construídas e a funcionar”. Dedicou a sua vida aos projetos relacionados com a mecânica experimental e esteve ligado à criação do LOME e ao INEGI que liderou durante 12 anos. Professor aposentado, Joaquim Silva Gomes continua ligado à U.Porto na qualidade de consultor científico e organizador de conferências internacionais. É presidente da EpDAH, uma ONG que tem feito um trabalho notável em Moçambique ao nível da reabilitação de edifícios comunitários, reabilitação social e formação.

Entrevista: Raquel Pires Fotografias: D.R.

Como surgiu a paixão pela área das engenharias? E porquê engenharia mecânica? Creio que já nasci com esta inclinação para a engenharia. Em criança sempre manifestei interesse por saber como as coisas funcionavam, montando e desmontando os brinquedos que me ofereciam e, muitas vezes, imaginava e construía experiências e brinquedos novos. A opção pela engenharia mecânica foi, talvez, por influência do meu pai, que foi serralheiro mecânico. Embora possa parecer estranho para muitas pessoas, se não fosse a engenharia mecânica, teria sido a medicina... Quando é que começou a dar aulas? Iniciei a minha carreira docente na FEUP como monitor, por convite do Professor Vasco Sá, em novembro de 1970, era ainda aluno do 6º ano do curso de Engenharia Mecânica. Foi uma grande alegria, que vinha satisfazer um dos meus maiores sonhos: ser professor universitário. Em 1971, logo após a conclusão do curso, fui contratado como Assistente, permanecendo na FEUP até outubro de 1973, altura em que parti para a Universidade de Manchester, no Reino Unido, para fazer pós-graduação de mestrado e doutoramento. Regressei em 1997, prosseguindo a minha carreira como Professor Auxiliar, Professor Associado, chegando a Professor Catedrático em 1988 com 40 anos de idade. Como classifica esta nova geração que chega ao Ensino Superior: há muitas diferenças em relação aos alunos que orientou nos primeiros anos como professor? Penso que não haverá grandes diferenças entre os alunos

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É verdade que continuo a sonhar em dar a volta ao continente africano num jipe, com a minha mulher e alguns amigos. de então e os atuais. Só que agora são em maior número e, por isso, não é possível manter a mesma proximidade e o acompanhamento que tínhamos há 40 anos atrás. Os candidatos a engenheiros sempre foram muito bons em Portugal e são muito “cobiçados” no estrangeiro, onde sempre fazem boa figura quando participam em ações no âmbito de iniciativas como o programa Erasmus, ou concorrem a lugares em empresas ou instituições de investigação. Além da carreira académica, desenvolveu também uma intensa atividade no INEGI, onde esteve 12 anos. Era a oportunidade perfeita para se dedicar à investigação? Quando regressei de Inglaterra em 1977, as condições para realizar trabalhos de investigação em engenharia mecânica não eram as melhores em Portugal. Juntamente com outros colegas também regressados nessa altura do estrangeiro, lançámos o primeiro curso de mestrado em engenharia estrutural na FEUP e em Portugal. Começamos a montar os primeiros laboratórios de investigação, como o LOME (Laboratório de Ótica Aplicada e Mecânica Experimental) na FEUP e ensaiamos as primeiras ações de aproximação à indústria, muitas vezes oferecendo serviços a custo zero, para convencer os empresários de que, como universitários, poderíamos também desempenhar um papel importante no desenvolvimento das suas empresas e da economia nacional. De forma a agilizar a ligação às empresas, participámos na criação do INEGI em 1986, sem quaisquer tipos de investimentos que não fossem a vontade e a disponibilidade de um grupo de docentes do DEMec para desenvolver atividades de investigação e de apoio à Indústria. Durante quatro anos funcionámos numa sala do edifício Parcauto da rua dos Bragas, com apenas dois ou três funcionários administrativos. Em 1989, já então Presidente do INEGI, surgiu a abertura ao Programa PEDIP, ao qual apresentamos um projeto ambicioso para a capacitação do Instituto em termos de infraestruturas, recursos humanos e equipamentos. A candidatura foi contemplada com um financiamento avultado, o que permitiu um aumento enorme da capacidade de intervenção do INEGI. Ao longo de toda a minha carreira universitária, mais do que a preocupação de publicar muitos artigos em revistas internacionais e contar as respetivas citações, procurei criar condições de trabalho que permitissem aos mais novos

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NOTA BIOGRÁFICA Licenciado em Engenharia Mecânica pela Faculdade de Engenharia da U.Porto em 1971, Joaquim Silva Gomes seguiu para a Universidade de Manchester, no Reino Unido, onde fez o mestrado e o doutoramento. Professor Catedrático desde 1988, os seus interesses no ensino e na investigação foram principalmente nas áreas de Mecânica Experimental e Mecânica dos Sólidos. Esteve envolvido na criação do INEGI em 1986, tendo sido presidente do instituto durante 12 anos. Foi membro da direção da FEUP entre 1984 e 1989 e diretor do Departamento de Engenharia Mecânica e Gestão Industrial da FEUP de 1999 a 2002. Foi o representante de Portugal no European Permanent Committee for Experimental Mechanics (EPCEM), entre 1986 e 2007, e Presidente do mesmo entre 1992 e 1994. Também foi Delegado Nacional ao 6º e 7º Programas Quadro da União Europeia, nas áreas dos transportes e aeronáutica. É atualmente presidente da EpDAH-Engenharia para o Desenvolvimento e Assistência Humanitária (ONGD), presidente da APAET-Associação Portuguesa de Mecânica Experimental, auditor da A3ES-Agência para a Avaliação e Certificação do Ensino Superior e auditor do Ministério da Defesa Nacional para avaliação e acompanhamento de projetos de investigação.

aceder a essa possibilidade de publicação e participação em projetos nacionais e internacionais, designadamente no âmbito dos Programas Quadro da Comissão Europeia. Se tivesse que nomear um ou dois projetos no INEGI que mais o tenham orgulhado, qual nomearia? E porquê? Cada projeto tem a sua especificidade, e gostei de todos aqueles que promovi ou estive envolvido ao longo de toda a minha carreira universitária. Talvez por ter sido o primeiro projeto, logo a seguir ao meu doutoramento, no início da década de 80, recordo com um sentimento muito particular o projeto UNIPOR, que desenvolvi em colaboração com o meu querido amigo Professor Abel Trigo Cabral, da


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Um momento de descontração em convívio no âmbito do programa social de um dos Congressos Luso-Moçambicanos de Engenharia em Maputo.

Faculdade de Medicina/Hospital S. João, e que consistiu no desenvolvimento de um fixador externo do tipo Ilizarov, para tratamento de fraturas ósseas em ortopedia. Esse projeto - um dos primeiros em Portugal na aérea da biomecânica - contou inicialmente com um pequeno financiamento da Reitoria da U.Porto, e o aparelho resultante dessa investigação, o Fixador UNIPOR, passou mais tarde a ser comercializado por uma empresa da especialidade. A seguir vieram os projetos europeus, que nos abriram novos horizontes e proporcionaram contactos e trocas de experiências muito gratificantes em termos de investigação e inovação. Na área da aeronáutica, por exemplo, desenvolvemos projetos em parceria com empresas e instituições de investigação lideres no setor, como a Aerospatiale (Fr), Sagem (Fr), Fiat (It), British Aerospace (UK), Rolls-Royce (UK), ISL (Fr), CETIM (Fr), entre outras. Mas de todas as iniciativas em que estive envolvido, a criação e expansão do INEGI foi sem dúvida o projeto de que mais me orgulho, não só pela sua dimensão, mas fundamentalmente por se ter tratado de um projeto estrutural que teve um impacto importante no sistema científico e tecnológico nacional. Fui presidente do Instituto ao longo de mais de 12 anos e, passados outros tantos anos, o INEGI continua a dar cartas na investigação, inovação e transferência de tecnologia, a nível nacional e internacional. Foi recentemente distinguido com o Prémio Excelência pela European Association for Experimental Mechanics (EuraSEM). Foi um dos prémios com mais significado na sua carreira? Sim, foi enorme a satisfação que senti ao receber aquele prémio. Afinal, o que é que pode proporcionar maior satisfação a um professor universitário do que o reconhecimento do seu trabalho por parte dos seus alunos, dos seus pares e da sociedade em geral?! O Prémio com que fui distinguido traduz o reconhecimento, por parte de uma prestigiada comunidade científica internacional, do trabalho que desenvolvi ao longo dos últimos 25 anos em prol da Mecânica Experimental em Portugal e na Europa. As origens da EuraSEM remontam ao ano de 1959, tendo eu assumido a representação de Portugal nesse grupo entre 1986 e 2007, e a presidência

do mesmo entre 1992 e 1994; fui também Presidente das Comissões Organizadoras de duas edições da sua emblemática série de conferências ICEM: a ICEM10 em Lisboa (LNEC, 1994) e a ICEM15 no Porto (FEUP, 2012). Atualmente sou membro do Conselho Científico da EuraSEM. Foi presidente da EpDAH, uma organização sem fins lucrativos dedicada ao desenvolvimento e disseminação do conhecimento em engenharia em regiões do globo desfavorecidas. O que o fez ligar-se a este projeto desde o início e a desenvolver trabalho na área social? Sou ainda o Presidente da EpDAH, à qual foi recentemente reconhecido o estatuto de ONGD (Organização Não Governamental para o Desenvolvimento). A EpDAH tem como Missão a promoção do desenvolvimento humano através do exercício de uma atividade profissional voluntária e solidária no domínio da Engenharia; tem uma estrutura nacional de núcleos cooperantes, constituídos fundamentalmente por estudantes universitários. Um dos mais ativos núcleos da EpDAH está sediado na FEUP. O meu envolvimento na EpDAH começou em 2009 quando, no âmbito das minhas ligações a Moçambique, fui abordado por um dos seus voluntários, estudante da FEUP, que procurava ajuda para conseguir o reconhecimento dos trabalhos em desenvolvimento num dos projetos naquele país (Projecto AUTARKEIA-Desenvolvimento Rural, Moçambique), como temas de teses de mestrado. Os voluntários da EpDAH têm vindo a desenvolver um trabalho notável, a nível nacional e internacional (sobretudo em Moçambique), no âmbito da reabilitação de edifícios comunitários, reabilitação social e formação. Ainda continua a sonhar com a volta ao continente africano num jipe? Sim, é verdade que continuo a sonhar em dar a volta ao continente africano num jipe, com a minha mulher e alguns amigos. A ideia nasceu aquando da minha primeira visita a Moçambique, em 1998, e que me deixou fascinado por aquele continente. Mas, infelizmente, é um dos poucos sonhos que receio nunca poder vir a ser concretizado...

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Fotografia: D.R.

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Portugal vs. Uruguai: há muito mais que nos une do que aquilo que nos separa Franco Simini*

Foi graças ao projeto BABEL Erasmus Mundus que estive em Portugal, mais concretamente de 29 de setembro a 24 de outubro, onde tive a oportunidade de conhecer de perto o trabalho desenvolvido pela equipa de trabalho do prof. Joaquim Gabriel, diretor do Laboratório de Automação e Instrumentação de Engenharia Biomédica do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da U.Porto (FEUP). Os grandes objetivos deste intercâmbio eram sobretudo estreitar os vínculos de cooperação quer ao nível da investigação, mas também ao nível dos cursos de pós-graduação entre a FEUP e a Universidade do Uruguai. Os contactos iniciais foram estabelecidos por intermédio de Pedro Coelho, da Divisão de Cooperação da FEUP, que facilitou o processo. Estive durante este mês em contacto direto e perfeitamente instalado junto dos estudantes e professores que habitualmente trabalham de perto com o prof. Joaquim Gabriel: cheguei a participar em reuniões com médicos e a visitar feiras internacionais para assistir à apresentação de protótipos. Também tive oportunidade de colaborar em trabalhos de investigação que estavam a decorrer no laboratório e a escrever artigos científicos, o que permitiu uma interação mais próxima com os estudantes. Percebi claramente que a forma de fazer investigação e de pensar os problemas é praticamente igual quer aqui na Faculdade de Engenharia, quer no grupo de engenharia biomédica das Faculdades de Medicina e Engenharia da Universidade da República, no Uruguai, onde pertenço. Não demorámos muito até encontrar pontos de referência e interesse em futuras linhas de investigação, de tal forma que estamos já a projetar novas possibilidades de intercâmbio entre vários elementos do grupo português e uruguaio.

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Durante a minha estadia fui convidado a participar em aulas de graduação e de pós-graduação na qualidade de professor convidado. Foi muito interessante porque me permitiu aferir a boa preparação dos estudantes de engenharia da FEUP: praticamente todos eles se expressavam em inglês com enorme facilidade, o que me impressionou. É um elemento essencial hoje em dia, atendendo ao mercado global onde a grande maioria das empresas atua. Aproveitei ainda para conhecer outras instituições da região (Universidade de Aveiro) e cheguei a ser entrevistado por alguns jornalistas que souberam da minha presença na FEUP. Estavam sobretudo interessados em falar sobre a importância da cooperação bilateral entre os dois países. Com papéis geopolíticos semelhantes - Portugal na União Europeia e Uruguai no MERCOSUR - consegui também encontrar analogias típicas dos países com vencimentos menos avultados e que lutam para resolver os seus problemas de desenvolvimento; por outro lado há oportunidades e nichos com resultados excelentes e que são muitas vezes casos únicos no mundo. Até nisso os dois países se cruzam, de uma forma que poderá vir a ser mais explorada e beneficiar ambas as sociedades. Na memória ficam também pormenores importantes como as amizades criadas, as recordações de momentos bem passados e as imagens de uma cidade entrelaçada com o rio Douro e o mar ao fundo que tornam a cidade do Porto verdadeiramente excecional, numa experiência que transcendeu a componente académica e passou a fazer parte da minha vivência humana. * Professor de Engenharia Biomédica na Universidade do Uruguai


VENCER

Estudantes querem levar vida da Terra para Marte

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Texto: Helena Peixoto Fotografia: Egídio Santos

Poderá uma planta germinar e sobreviver em Marte? Em 2018, é essa a resposta que a equipa Seed vai testar “a bordo” da missão Lander, na qualidade de vencedora da competição universitária Mars One, que dá a possibilidade de participar naquela que será a primeira tentativa alguma vez feita de levar vida a Marte numa missão não tripulada.

Para provar que é possível levar vida da Terra para Marte, a equipa portuguesa pretende fazer germinar sementes de vários tipos de plantas em condições controladas no planeta vermelho. A ideia consiste em enviar as sementes congeladas para Marte, onde serão alimentadas com energia térmica e água. Todo o processo de crescimento da planta - cujo nome será escolhido entre as sugestões avançadas no twitter do projeto - será monitorizado por fotografias enviadas para a Terra via satélite. “As sementes vão congeladas dentro de um sistema fechado, do tamanho de uma caixa de sapatos”, diz Daniel Carvalho. “Quando o lander aterrar ativa os painéis solares que vão ligar o sistema de rega e fornecer algum calor para as sementes germinarem”. O projeto Seed terá de enfrentar agora várias fases de preparação e validação da experiência. “Por exemplo, proteção planetária. É preciso garantir que o que vai ser enviado não contamina o espaço”, explica o aluno do Mestrado Integrado em Bioengenharia da Faculdade de Engenharia da U.Porto e do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS). Até ao momento, o projeto conta já com o apoio estratégico de entidades portuguesas e estrangeiras especializadas em diferentes áreas, desde biologia de plantas até à área aeroespacial. Dali espera-se que venha boa parte do financiamento do trabalho. “O projeto tem um custo acima dos 100 mil euros, mas poderá chegar a um milhão. O que já angariámos em dinheiro não é substancial e, por isso, continuámos à procura de investidores”, realça Daniel.

A equipa do Seed é composta por quatro colegas do mesmo mestrado - Daniel Carvalho, Guilherme Aresta, Miguel Ferreira e Teresa Araújo. Os três alunos e Raquel Almeida, estudante de doutoramento na Universidade do Minho, que também participa neste projeto, já tinham estado envolvidos noutra experiência espacial - foram os primeiros portugueses a “pôr uma experiência em rotação”, com o projeto AngioGravity que pretendia perceber como a hipergravidade afeta a formação dos vasos sanguíneos. O Seed conta ainda com a colaboração Miguel Valbuena, estudante de doutoramento no Centro de Investigações Biológicas, em Madrid, Helena Carvalho, investigadora do Instituto de Biologia Molecular e Celular (IBMC), e Jack van Loon, professor de ciências gravitacionais na Universidade de Amesterdão e investigador na Agência Espacial Europeia (ESA). Recorde-se que a seleção do vencedor foi feita através de uma votação pública realizada junto da comunidade Mars One através das redes sociais, que envolveu os 10 projetos finalistas (de um total de 35 candidaturas possíveis) oriundos de todo o mundo. E a concorrência era forte entre os finalistas: havia projetos que previam a produção de oxigénio a partir da água ou do carbono; uma estufa; um sistema de medição de radiações; abrigos com materiais existentes em Marte; um sistema de produção de água a partir da urina; uma consola de análise do clima marciano e um sistema de fotossíntese artificial. twitter.com/seedmarsone facebook.com/seedmarsone

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Texto: Carlos Oliveira Fotografias: D.R.

Comunidade de inovação: as vantagens de trabalhar em rede Partilhar boas práticas em inovação e promover a colaboração entre a academia e a indústria foram os objetivos do BIN@ Sheffield. De 10 a 12 de novembro, a iniciativa reuniu na cidade de Sheffield, no Reino Unido, cerca de 400 participantes de instituições de ensino superior e empresas de 17 países. A Faculdade de Engenharia da U.Porto (FEUP) enviou uma delegação com 20 pessoas, encabeçada pelo Reitor da U.Porto e pelo Diretor da Faculdade de Engenharia, acompanhada por três representantes de empresas incubadas no Parque de Ciência e Tecnologia (UPTEC).

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“Estou muito orgulhoso desta comunidade e das suas atividades”, declarou o Vice-Chancellor da Universidade de Sheffield, Sir Keith Burnett, na sessão de abertura do quinto evento anual da rede internacional de inovação BIN@™ - Business and Innovation Network - atestando assim a sua maturidade. Três meses antes, tinha sido um dos protagonistas da assinatura do Memorando de Entendimento entre as Universidades do Porto, de Sheffield e de São Paulo, negociado à margem do III Encontro Internacional de Reitores - Universia Rio 2014, que selou uma colaboração informal na área da inovação iniciada em 2010. O Vice-Chancellor continuou o testemunho com a descrição da visita que efetuara recentemente à região de Araxá, em Minas Gerais, o maior complexo mínero-industrial de nióbio de todo o mundo - um material com inúmeras aplicações em tecnologia de ponta. Emocionado, descreveu a profunda inspiração que lhe deixou esse lugar notável, tanto pela responsabilidade social e ambiental da empresa mineira CBMM, como pela referência, no museu local, ao impacto da investigação pioneira nas aplicações do nióbio protagonizada pela Universidade de Sheffield, em especial pelo Professor Emérito Mike Sellars.


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O evento prosseguiu com 12 ações temáticas, focadas principalmente nas áreas de ‘Saúde e Bem-Estar’ e ‘Cidades Inteligentes e Transporte’, que contaram com uma participação muito relevante dos investigadores da FEUP. O programa incluiu também workshops sobre o Horizonte 2020, a aceleração tecnológica e o softlanding, e o crowdfunding, este último integrado no evento Deep Impact 2014, realizado em paralelo pelo The Crowdfunding Centre. Entretanto, Julia Cassim, do Kyoto Institute of Technology, liderou o ‘Health Hackathon’, numa sessão que se realizou na Sheffield Hallam University em colaboração com o National Institute for Health Research. Este workshop de design inclusivo integrou equipas multidisciplinares de profissionais de saúde, engenheiros, designers e cidadãos com deficiência, com o objetivo de melhorar dispositivos médicos ou desenvolver novos equipamentos e aplicações. De referir ainda o envolvimento da associação Devices for Dignity (devicesfordignity.org.uk) e o patrocínio da empresa canadiana Thalmic Labs, que disponibilizou o equipamento MyoTM Gesture Control Armband, para desenvolver protótipos de aplicações para amputados ou utentes com redução severa do movimento da mão, devido a lesão ou doença.

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Manufacturing Park, um parque industrial e de inovação de excelência onde se instalaram empresas como a Boeing e a Rolls-Royce, em parceria com a universidade. Na sessão de encerramento, Pedro Coelho, o coordenador da rede BIN@™ na FEUP, evidenciou que o evento anual representa apenas o ‘topo do icebergue’ da multitude de relações que se estabelecem no contexto desta cooperação internacional. E revelou que a delegação da FEUP aproveitou a deslocação a esta região do Reino Unido para visitar o Institute of Railway Research na Universidade de Huddersfield e o Aerospace Research Institute na Universidade de Manchester, tendo em vista a realização de projetos de cooperação. Nos dias anteriores ao evento foram ainda estabelecidos contactos com o Institute of Petroleum Engineering da Universidade Heriot-Watt e o Transport Research Institute da Universidade de Napier, ambos em Edimburgo.

BIN@

BUSINESS & INNOVATION NETWORK

O êxito do evento foi evidente para Paul Hatton, professor de Ciência dos Biomateriais na Universidade de Sheffield e membro destacado da Health Technologies Knowledge Transfer Network. No jantar oficial, o anfitrião expressou a sua satisfação e a convicção de que a diversidade dos participantes nesta rede permite uma abordagem única e eficaz aos desafios comuns que se colocam às universidades, às empresas e à administração pública. O jantar decorreu no imponente The Cutlers Hall, sede da prestigiada associação da cutelaria do Hallamshire, fundada em 1624 e protagonista da principal indústria da região, que nos últimos anos se reinventou no Advanced

O próximo evento anual da rede decorrerá de 2 a 4 de novembro de 2015 na cidade do Porto, e será organizado pela FEUP em estreita colaboração com o Parque de Ciência e Tecnologia da U.Porto (UPTEC). O evento terá como tema: “Responsible Research & Innovation: a collective, sustainable, inclusive and system-wide approach”. O programa inclui um conjunto de ações temáticas, workshops, mostra de tecnologias e eventos complementares que serão divulgados em breve. O acesso ao evento é livre e gratuito. + informações: businessandinnovation.net

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Inauguração da Exposição Comemorativa dos 20 anos do LEIC | MIEIC na Biblioteca da FEUP

Painel de fotografias dos antigos e atuais estudantes do LEIC | MIEIC

Marques dos Santos, antigo Reitor da U.Porto, esteve presente na Exposição

Os 20 anos da LEIC Uma exposição comemorativa, painéis de discussão sobre temas atuais na área de engenharia informática, palestras com oradores de renome no panorama da academia e dos negócios foram os principais ingredientes dos 20 anos de curso de Engenharia Informática e Computação da Faculdade de Engenharia da U.Porto (FEUP), que se assinalaram nos dias 4, 7 e 8 de novembro. Criada em 1994, a licenciatura em Engenharia Informática (LEIC) passou a designar-se de Mestrado Integrado (MIEIC) a partir de 2006/07 no âmbito do acordo de Bolonha. paginas.fe.up.pt/~eic20anos

Pormenor do logotipo criado para as Jornadas

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Estudantes da 1ª edição da Licenciatura em Engenharia Informática e Computação

Augusto Sousa, Diretor de Curso entre 2008 e 2014

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Os 20 anos foram assinalados com um momento simbólico de plantar uma árvore no relvado central da FEUP

Augusto Sousa e Raúl Vidal: dois dos principais protagonistas dos 20 anos da LEIC | MIEIC

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CAREER FAIR 2014: À DESCOBERTA DE TALENTOS NA FEUP

Texto: Helena Peixoto Fotografias: Filipe Paiva

Três dias de evento, mais de 70 empresas e a possibilidade de uma entrevista de recrutamento que poderá abrir portas no mundo ligado à indústria. Público-alvo: estudantes em início de estudos, finalistas e recém-graduados e antigos graduados da Faculdade de Engenharia. Todos estes ingredientes juntos transformaram a Feira de Emprego da FEUP em mais uma receita de sucesso.

De 18 a 20 de novembro de 2014, a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) acolheu mais uma edição da ‘FEUP Career Fair’ e ultrapassou todos os recordes, contando com a participação de mais de 70 empresas. À semelhança da edição anterior, os três dias de evento assentaram no conceito “Carreira”, mais abrangente e entendido como um processo contínuo ao longo da vida, de forma a integrar uma maior diversidade de empresas nacionais e internacionais e um conjunto maior de ofertas de emprego/estágio. Stands para empresas nacionais e internacionais, conversas entre empresas, estudantes e alumni, pitchs com apresentações de 90 segundos, entrevistas individuais de recrutamento e stand de aconselhamento de carreira para estudantes e alumni são algumas das iniciativas presentes naquela que é já uma das reconhecidas feiras de emprego académicas do Norte.

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A feira destina-se não apenas aos recém-graduados e estudantes finalistas à procura do primeiro emprego e estágio profissional, dentro e fora de Portugal, como também aos alumni FEUP, já que muitas das empresas participantes têm posições full-time para Engenheiros com experiência profissional. Curioso também é perceber que as próprias empresas participantes na feira trazem como seus representantes antigos estudante da Faculdade de Engenharia. Exemplo disso é Ana Rodriguez, alumna do Mestrado Integrado em Engenharia Mecânica da FEUP que marcou presença no stand da empresa Toyota, em busca de renovado talento naquela que foi a sua antiga casa. www.fe.up.pt/careerfair


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A participar na feira de emprego há cerca de 10 anos, a Deloitte partilha o balanço da sua participação: “A FEUP é uma faculdade de referência pelo que temos sempre interesse em conhecer melhor os seus estudantes. Tal como nos anos anteriores, o saldo da nossa participação foi muito positivo, uma vez que nos permitiu conhecer melhor os estudantes, seus interesses e motivações, e identificar candidatos com enorme potencial. A FEUP é uma fonte de captação de talento. Adicionalmente, a presença na feira permite dar a conhecer os projetos desenvolvidos aos estudantes, nomeadamente as equipas envolvidas, a nossa cultura e os resultados que apresentamos aos clientes. Consideramos fundamental que os estudantes conheçam bem a Deloitte

Com uma história de participação na Career Fair de seis anos, a Continental faz um balanço muito positivo desta parceria e considera que “a FEUP é um parceiro-chave na estratégia de dar a conhecer a sua marca junto do mercado de trabalho, nomeadamente junto de alunos de elevado potencial”. Recomendando a participação no evento pela oportunidade que representa, a Continental acredita que, para os futuros engenheiros e “para além das competências técnicas fundamentais na área de engenharia, devem possuir um

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antes de apresentarem a sua candidatura, refere Nuno Cordeiro, sócio da área de Consultoria Tecnológica.” ‘Oportunidade’ é a palavra definida quanto à presença na Career Fair e ‘confiança’ o termo escolhido para a relação Delloite-FEUP. Com oportunidades de emprego dentro e fora de portas nacionais, a Deloitte acredita que a mais-valia desta feira passa por permitir recrutar estudantes e alumni, lançando algumas dicas a quem se encontra numa procura ativa no mercado de trabalho: “sejam proativos, contactem as empresas com que se identificam e nas quais gostariam de trabalhar, aproveitem para conhecer alguns dos profissionais que trabalham nessas empresas. Só desta forma conseguem conhecer bem as diferenças entre as várias empresas”.

conjunto de competências transversais, nomeadamente, gestão da comunicação, abertura à mudança, sensibilidade intercultural, espírito de equipa, bem como mobilidade internacional e bons conhecimentos da língua inglesa”. Com processos de recrutamento ativos em Portugal e Alemanha, a empresa já recrutou vários antigos estudantes da FEUP, o que vem comprovar que os alumni encaram esta possibilidade de recrutamento da feira de emprego como uma mais-valia importante.

A Casais já conta com seis anos de parceria e intitula de ‘duradoura’ a relação com este evento da FEUP, “não só pela diversidade de perfis de experiências dos candidatos como pela componente técnica, e pela diversidade de engenharias disponibilizadas”. Num mercado tão competitivo como aquele em que vivemos hoje em dia, a Casais deixa algumas dicas de

diferenciação: “procuramos jovens com interesse em progredir e crescer num grupo como o nosso. Valorizamos a dedicação, flexibilidade, determinação e cooperação. O domínio de línguas estrangeiras, nomeadamente o inglês e o francês são pontos favoráveis nas candidaturas, dado que a maior parte das nossas oportunidades são para a área internacional”.

* Doutoranda no Programa de Media and Cultural Studies na Univ. de Sussex, UK; ** Orientador da Oficina de Pintura e responsável pela Divisão de Comunicação e Imagem da Faculdade de Engenharia, U.Porto;

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Texto: Helena Peixoto Fotografia: D.R.

Embaixadores Alumni@FEUP: Angola B.I. Nome: Mariana Mendes Lopes dos Santos Idade: 42 anos Embaixada FEUP: Angola Percurso: A viver em Luanda desde 2007, Mariana Santos é Licenciada e Doutorada em Engenharia Química pela FEUP e é a embaixadora Alumni FEUP@Angola, uma das 14 localizações onde a Faculdade possui embaixada. Se no início a mudança aconteceu por motivos familiares, a adaptação a África foi muito rápida, tendo iniciado uma série de iniciativas e atividades ligadas ao ensino superior, sem esquecer a valência de responsabilidade social.

Desde pequena que Mariana Santos sonhava ser médica. Aos 15 anos, e a estudar no Colégio dos Carvalhos, frequentou o Curso Técnico profissional de Química. Foi aí que, pela mão de dois professores Engenheiros Químicos, esqueceu a medicina em menos de um trimestre e se apaixonou pela engenharia. O seu percurso académico passou depois pela Faculdade de Engenharia até que, em 2004, o marido muda-se para Angola devido a uma oportunidade profissional que entretanto surgiu. Mariana Santos põe mãos ao trabalho, encontra também uma oportunidade, faz as malas e, em março de 2007, muda-se com a filha de cinco anos para Luanda. Atualmente Angola é verdadeiramente o seu lar. A gestão das viagens Angola - Portugal é que nem sempre é fácil. A situação profissional e contratual permitem-lhe fazer duas viagens por ano a Portugal, mas as saudades apertam... o que leva a que também a sua família a visite em Angola. Entre março de 2007 e maio de 2014 participou ativamente na criação e no desenvolvimento de uma nova instituição de ensino superior que iniciou a sua atividade em janeiro de 2012. A alumnus não só coordenava e lecionava no curso de Engenharia Química como detinha o cargo de Diretora Académica e Científica do Instituto Superior Politécnico de Tecnologias e Ciências (ISPTEC), recentemente criado. Depois desta fase inicial o projeto rapidamente encontrou o seu ritmo e está numa fase de expansão. Mariana decidiu então avançar para um outro projeto: a implementação de uma unidade industrial em Luanda. E como surgiu a ideia de se tornar embaixadora alumni? Durante a sua passagem pelo ISPTEC, Mariana Santos organizou várias visitas institucionais a Portugal - incluindo visitas à FEUP - para estabelecer protocolos de cooperação. Depois de sair do ISPTEC, informou a FEUP que estaria

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sempre disponível para “ajudar” nos projetos de cooperação entre a FEUP e Angola. Que melhor forma de o fazer do que ser embaixadora da instituição? Mariana Santos tem já muitos objetivos delineados enquanto embaixadora da FEUP, mas “antes de fazer ou organizar qualquer atividade, precisei reunir contactos. Hoje já ultrapassamos os 60 alumni. Já realizámos o primeiro encontro, em novembro de 2014 que contou com cerca de 20 alumni e reuniu mais 250 dólares para doar a uma instituição de Angola. Do primeiro encontro surgiram várias ideias das quais irá nascer o programa de atividades de 2015, adequado à realidade”, conta-nos. A embaixadora Alumni FEUP em Angola frisa ainda que sente que em território angolano as pessoas necessitam criar uma rede de contactos que muitas vezes passa de contacto profissional a companheiros de atividades sociais ou até mesmo amizades. Talvez pela distância de casa, formam-se autênticas famílias com as amizades que se criam. Quanto à existência de embaixadas espalhadas pelo mundo, Mariana Santos não hesita em enfatizar a sua grande importância: “A FEUP é uma escola de renome e qualidade internacional e nós, alumni, somos responsáveis por levar o seu nome onde quer que estejamos. Somos responsáveis por colaborar na disseminação desta escola de nível internacional e estas embaixadas são uma maneira de implementar projetos e ajudar a disseminar a marca FEUP”. Considerando que este tipo de iniciativas e encontros contribui efetivamente para a aproximação entre os antigos estudantes e dos alumni com a sua alma matter, a ex-estudante da FEUP conclui com a mensagem de que é sempre necessário continuar a implementar o lema aprendido na FEUP - “Virtus Unita Fortius Agit” (A união faz a força)!


“Dirigir uma Orquestra Clássica Universitária é o concretizar de um sonho”

Texto: Helena Peixoto Fotografia: Tiago Martins

Desde sempre que a música esteve presente na sua vida. Tinha apenas seis anos quando iniciou os estudos musicais. Agora, aos 31, é maestro convidado de várias orquestras de renome nacional. Em 2013 e a convite do Comissariado Cultural da FEUP, José Eduardo Gomes aceitou o desafio de dirigir a Orquestra Clássica da Faculdade.

Como surgiu a oportunidade de dirigir a Orquestra Clássica da FEUP? A oportunidade de dirigir a Orquestra chegou através de um convite que o Comissariado Cultural da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) me endereçou, ao qual respondi imediatamente que sim. Afinal de contas, estamos todos unidos pela mesma paixão: a música! Como encarou este desafio? E o que representa para si este projeto? Desde a primeira hora que encarei este desafio com o maior entusiasmo, alegria e responsabilidade. É o concretizar de um dos sonhos e ambições que tinha: contribuir para a criação de uma orquestra universitária no Porto. Dirigir a Orquestra Clássica da FEUP é um enorme prazer e honra, onde se consegue uma dinâmica de partilha muito gratificante! E o gosto pela música, como surgiu? O meu percurso na música começou bem cedo, aos seis anos, quando a minha mãe me inscreveu na Banda Filarmónica da minha cidade natal, Vila Nova de Famalicão. Foi aí que iniciei os meus estudos musicais e desde então nunca mais parei. Quais as suas principais inspirações e referências a nível musical? É muito difícil destacar as principais inspirações a nível musical, há tantas!... Em todo o caso, há figuras que são

referências para mim, como o maestro Claudio Abbado ou o compositor W.A. Mozart. Mas, sinceramente, acho que grande parte da minha inspiração é bebida em todos os projetos onde participo, aos quais me dedico de corpo e alma. A música clássica surge por vezes associada a uma determinada “classe social”. Concorda? Na minha opinião, a ligação da música clássica a estratos sociais ditos mais “altos” é claramente um mito! A música clássica é para todos, é uma linguagem universal aberta a todos que queiram nela encontrar o seu gosto musical. Além da música clássica, que outros géneros musicais elege como preferidos? Acima de tudo, gosto de ouvir boa música! Claro que a música clássica tem um cantinho especial no meu coração, mas de uma maneira geral gosto de ouvir um pouco de tudo, desde o jazz à música pop, passando pela música tradicional e folk. Sendo uma pessoa com tantos projetos profissionais, como faz a gestão do seu dia a dia? Organização é o ponto fulcral para quem tem um dia a dia tão atribulado como o meu. Tento organizar-me e preparar-me de igual modo para os vários compromissos que tenho. Na minha profissão, cada dia e semana são diferentes, a rotina é coisa que não existe. A mim, isso fascina-me!

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INTERPRETAR

Percorrer o Japão de bicicleta Há muitos anos que planeavam fazer uma viagem de longo curso. Durante os tempos de estudante na Faculdade de Engenharia, Ivo Timóteo e Guilherme Soares, ambos com 25 anos, foram discutindo ideias. Os roteiros incluíram as viagens comuns às capitais europeias e chegaram até a pensar numa descida de jipe pela costa oeste dos EUA. Mas depois de reunidas as condições monetárias necessárias, foi o país do sol nascente que levou a melhor, muito por força do fascínio que ambos têm pela cultura japonesa. A ideia de percorrer o país em cima de uma bicicleta pareceu-lhes “uma alternativa fantástica para uma viagem cujo principal objetivo passava por absorver o máximo de todas as nuances culturais e sociológicas”, esclarece Ivo Timóteo, estudante de doutoramento na Universidade de Cambridge, no Reino Unido. Partiram a 15 de agosto. Ponto de encontro: aeroporto de Frankfurt. A aventura começava a ganhar forma. E mesmo sendo estação de chuvas e época de tufões, Ivo e Guilherme sabiam que a qualquer momento poderiam ver-se impedidos de continuar viagem devido a questões que nenhum deles podia controlar. A planificação da viagem, que acabou por assumir contornos de expedição sob o nome Japan 3k, tinha apenas uma premissa: percorrer as quatro principais ilhas do Japão, tendo estabelecido como limites Norte e Sul da viagem o cabo Soya e o Sata. Mais de 3 mil quilómetros, numa média de 120 quilómetros por dia. “O que mais me surpreendeu foi a extraordinária hospitalidade fora das grandes cidades. Interessavam-se genuinamente pela nossa história e faziam todos os possíveis para saber mais, mesmo que o nosso japonês não chegasse para tanto”, confessa Ivo. “Diariamente ofereciam-nos alojamento, chá e fruta!”, acrescenta. Guilherme partilha a mesma opinião: “Os japoneses são a simpatia personificada! Muitas vezes terminavam o diálogo oferecendo fruta, chá e sumos ou frasquinhos de vitaminas para nos dar energia para a viagem! Espantoso.” As histórias são muitas e em

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Texto: Raquel Pires Fotografia: D.R.

breve vão estar disponíveis para os entusiastas deste tipo de aventura. Dos momentos mais marcantes destacam “a noite que passaram num hospital psiquiátrico, a cerimónia privada num mosteiro de budismo esotérico, o dia em que foram recebidos em casa de um chef de sushi e tiveram aulas particulares sobre como falar japonês ao estilo Yakuza”. A experiência mais incrível terá sido o acordar num parque em Kumamoto e ser convidado por um grupo de jovens octogenários para juntamente com eles executar o radio taiso: uma emissão de rádio nacional japonesa que emite um conjunto de exercícios matinais, por volta das 6h30 da manhã. “Foi o melhor começo possível para um dia em que só pararíamos de pedalar depois de 184 quilómetros nas pernas”, admite Guilherme Soares, engenheiro de software a viver no Porto. Agora estão empenhados em relatar esta aventura, com mais pormenor, no site do projeto. E em delinear o destino da próxima aventura onde já existe uma certeza: será novamente de bicicleta!

SABIA QUE… Uma vez que o projeto Japan 3k tem o selo da Sociedade de Expedições da Universidade de Cambridge, Ivo e Guilherme lançaram ainda uma campanha de angariação de fundos para a Oxfam, a partir do site criado para o efeito e que ainda decorre. Ainda vai a tempo de contribuir para esta causa em japan3k.com/charity


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A revista Engenharia é uma publicação semestral de divulgação externa das atividades da FEUP nas áreas de ensino, investigação e desenvolvim...

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