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Revista Old Número 07 - Janeiro de 2012 Equipe Editorial - Felipe Abreu e Paula Hayasaki Marketing - Eduarda Galvão Direção de Arte - Felipe Abreu Texto e Entrevista - Felipe Abreu Capa - Paris Visone Fotografias Aline Guarato www.alineguarato.tumblr.com Garapa www.garapa.org Paris Visone www.parisvisone.com Entrevista Garapa Parceiros:

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Entrevista Garapa

Aline Guarato Portfolio

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Paris Visone Portfolio


Chegamos em 2012! O segundo ano da OLD está começando! Pra já começar com tudo estamos lançando esta edição online e a segunda edição impressa da OLD, que chega junto com a 3a Jameson Mostra SP de Fotografia. A Mostra é, inclusive, nossa mais nova parceira. A OLD ficou responsável pela produção audiovisual do evento, lançando um teaser e o vídeo oficial com todas as imagens da Mostra. Nessa primeira edição de 2012 temos trabalhos muito legais, pra começar o ano do melhor jeito possível! Primeiro temos a Aline Guarato, que apresenta um trabalho muito interessante, feito inteiro com celular, pelas ruas de São Paulo. São fotografias com cores e com um tratamento muito diferente do que estamos acostumados a ver, principalmente quando pensamos em

fotografia feita com celular. Nossa entrevista é com a Garapa, coletivo com um trabalho que está sempre forçando os limites da fotografia e da produção multimídia, um papo muito bom, que vai dar boas ideias para o ano que está por vir! Pra encerrar a OLD Nº 7, o trabalho de Paris Visone, fotógrafa documental americana que apresenta o cotidiano de seus familiares e amigos, questionando os papéis do homem e da mulher na sociedade contemporânea. Mais uma série muito bonita, com um papo muito bom também. E que 2012 seja um ano muito bom pra todos e principalmente, muito fotográfico!

Felipe Abreu


Paul Petrov of the Ballet Russe, backstage at the JC Williamson New Year’s Eve party, Theatre Royal, Sydney, 31 December 1936 / Sam Hood


Aline Guarato Portfolio Aline está se formando em Artes Plásticas na USP e apresenta aqui na OLD seu trabalho fotográfico feito somente com OLD seu celular, pelas ruas de São Paulo. É 05 um trabalho delicado, diário e com um resultado final impressionante. Como você chegou a este processo fotográfico, envolvendo celular e póstratamento? As fotografias com o celular apareceram meio por acaso; quando entrei nas artesplásticas não pensava que trabalharia com

a fotografia, me interessava pela pintura – apesar de ter me inscrito no bacharelado em Multimídia e intermídia, cumpri toda a grade curricular dos estudantes de pintura. Fiz as primeiras disciplinas de fotografia e não me interessei; tinha uma câmera boa e tal, mas nenhum tesão; e só voltei a fazer as outras disciplinas de foto três anos depois - por causa do celular. Junto com a pintura, fazia uns vídeos, e usava o celular por ser, além do que tinha a mão, um instrumento leve, prático, que não chamava atenção na rua – meu lugar preferido de trabalho – e por causa da baixa resolução que


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‘destruía’ o vídeo, distorções, cores erradas, eu adorava isso. E como o usava muito e estava sempre no bolso, o celular acabou se tornando ao mesmo tempo, minha câmera e meu ‘caderno de anotação’, quando me dei conta de que não desenhava mais as coisas e sim as fotografava, senti necessidade de organizá-las e a edição e o tratamento dessas imagens que começavam a se acumular no meu computador acabaram me mostrando que alguns registros iam além de OLD anotações pessoais e passavam a configurar 08 um outro modo de pensar as coisas à minha volta. Você está sempre fotografando com o celular? Atualmente ando me dedicando a experimentar a fotografia analógica, a mesma que não havia me causado nenhuma grande emoção quando entrei na universidade.


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Ironias à parte, ainda carrego o celular, mas já tem uns meses que não faço nada com ele a não ser anotações. Usei o celular durante dois anos seguidos – 2009 e 2010 –, e por enquanto quero aprender outras coisas, acho importante procurar entender o que você trabalha, qual o caminho que as ferramentas e materiais tiveram que trilhar até o presente, acho que dá uma certa liberdade o conhecimento técnico. Infelizmente o meu celular é muito limitado em certos aspectos, não tem zoom, por exemplo e eu ando fascinada por teleobjetivas, por isso anda meio encostado; se bem que tem uma coisa que o fotografar com o celular me ensinou foi que a ‘limitação’ está mais ligada com o que você faz do seu instrumento (ofício, material, enfim) e não dele propriamente dito.


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Algumas de suas fotografias chegam a parecer pinturas pelo processo que você utiliza. Você gosta desta dúvida de suporte dentro da sua produção? Não só gosto desta dúvida, como a procuro. Geralmente eu ‘pioro’ o defeito que o arquivo me trouxe, separo cada um deles e os trato de maneira diferente. Sinto necessidade de trabalhá-los assim, caso contrário, estaria OLD ignorando a linguagem fotográfica: sem 13 prestar atenção ao que me apresenta a imagem gerada pelas minhas câmeras, estaria apenas fazendo registros, ou imagens pouco comunicáveis. Suas imagens são um registro do seus caminhos pela cidade. O cotidiano, para você, é o mais importante dentro da fotografia? Dentro da minha fotografia, posso dizer que


sim, pois a experiência do cotidiano me permite falar de tempo, de repetição e de mistério. As fotografias são sempre dos mesmos lugares, não saio de casa especificamente para fotografar – e não fotografo apenas na rua –, mas sempre saio/estou com uma câmera; a fotografia faz parte do meu cotidiano, é muito próxima da minha vida, do tempo que gasto pra chegar aos lugares, dos ônibus que pego, da ida ao supermercado. Costumo encontrar pessoas que fotografei - e elas não fazem idéia. Acho incrível como às três horas da tarde tem alguém na calçada fumando o terceiro cigarro com uma expressão quase inexistente ou alguém que olha da janela do ônibus como se esperasse alguma coisa, alguma salvação. As fotos são ao mesmo tempo registros da cidade e de mim. E não raro, acabo usando as fotos não só pra questionar sobre a cidade em que vivo, mas também sobre o que sou. Construo

uma cidade com meus próprios fragmentos, algumas fotografias poderiam ser chamadas de auto-retrato, e às vezes é São Paulo, outras vezes, só uma cidade sem nome.

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OLD entrevista Garapa


Pra começar 2012 a OLD entrevistou o coletivo Garapa, um dos destaques da atual produção fotográfica brasileira. Vamos ao papo! Como surgiu o Garapa? Um detalhe: nós chamamos de “A” Garapa, talvez para relativizar o fato de sermos só homens no coletivo, mas é comum OLD que chamem de “O” Garapa. Voltando ao 17 assunto. A Garapa nasceu em mesas de bar e folgas entre pautas na Folha de S. Paulo. Trabalhávamos como repórteres fotográficos, no famoso e perverso esquema de “freela fixo”, e costumávamos conversar sobre os problemas da profissão, as dificuldades do mercado, e a vontade de criar e explorar narrativas. A partir dessas conversas surgiu um nome, Garapa, escolhido principalmente pela sonoridade, sem nenhum grande significado por trás, e um esboço do que

gostaríamos de fazer. Logo em seguida, colocamos um site no ar e começamos a produzir algumas coisas ainda nos intervalos entre pautas, ou mesmo explorando as próprias pautas que nos passavam. A princípio, queríamos produzir conteúdo multimídia para o jornal, mas as barreiras institucionais, na época, se mostraram muito mais difíceis de transpor do que gostaríamos, e assim fomos em busca de outras possibilidades, e encontramos um mundo inteiro para explorar. Como foi tomada a decisão de ser um coletivo? Que vantagens vocês perceberam nesse tipo de organização? É interessante que essa denominação foi sendo construída com o tempo. No fim, “coletivo” foi o termo que mais se adaptou à forma como gostávamos (e seguimos gostando) de trabalhar. A Cia de Foto nos


cada projeto é necessariamente resultado de um intenso diálogo, e isso, enriquece tanto a experiência quanto o resultado. influenciou bastante no início, por conta da bandeira que eles levantam, e com o tempo fomos encontrando e construindo nosso próprio caminho, elaborando a nossa própria ideia de coletivo, que não é única nem exclusiva. Um evento interessante nesse momento foi o Encontro de Coletivos que aconteceu em São Paulo em 2008, como parte do projeto Laberinto de Miradas (http:// www.garapa.org/coletivos/). Foi ali, entre

diversos outros coletivos da América Latina e Europa, que percebemos que, assim como cada indivíduo é único, cada coletivo é único também. Em relação às vantagens, a principal, acredito, é a que defendemos desde que começamos: trabalhando em coletivo, cada projeto é necessariamente resultado de um intenso diálogo, e isso, na nossa opinião, enriquece tanto a experiência quanto o resultado. Vocês realizam trabalhos que dialogam com diversas mídias e maneiras de fotografar. Vocês acham que não há mais espaço para a fotografia tradicional? Vocês acreditam que o melhor caminho para a produção contemporânea é ser multimida? Não acredito em visões deterministas, como “não há mais espaço para isso ou aquilo” ou “tal caminho é o que deve ser seguido” etc.

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Acredito que estamos vivendo tempos interessantes, nos quais a coexistência deve ser mais importante do que a “receita de bolo”. Nós gostamos de explorar essa multiplicidade, trabalhando os diversos formatos e plataformas de maneira complementar. Gostamos de fotografia impressa, emoldurada e pendurada em uma parede tanto quanto gostamos de vê-la transcodificar-se em uma tela de computador. OLD O nosso perfil é esse, talvez por sermos da 19 geração que está vivendo essa transição, que nasceu no mundo analógico e está se digitalizando, mas isso não quer dizer que esse caminho seja imperativo. Felizmente! Qual a importância do experimento dentro da produção do Garapa? Acho que essa resposta já começa na pergunta anterior. O aspecto mais interessante dessa nossa época é a ausência


de receitas, respostas prontas - até as bolsas de valores foram obrigadas a lidar com isso! Então vemos a experimentação como motor do nosso trabalho. Questionamo-nos o tempo todo; questionamos a fotografia, as plataformas, as ideias, tudo. E o nosso trabalho acaba sendo a tentativa de responder a esses questionamentos, sejam eles individuais ou coletivos. Nem sempre funciona, nem sempre dá certo, mas isso também faz parte do processo. Gosto muito do projeto Morar. Como foi a construção deste trabalho? Como foi a experiência de financiá-lo pelo Catarse? Nesse nosso desejo de experimentar, já vínhamos pesquisando o crowdfunding há algum tempo, e tínhamos inclusive pensado em inscrever algum projeto no Kickstarter, mas esbarramos na necessidade de ter uma conta bancária nos EUA. Quando

encontramos o Catarse, já estávamos também decididos a retomar o Morar, já que o prédio estava começando a ser demolido. Então foi fácil juntar uma vontade à outra. O processo de construção do trabalho foi bem interessante. No início do projeto, lá em 2007, 2008, tínhamos uma visão bastante fotojornalística, ou seja, pretendíamos fazer uma denúncia, na tentativa talvez de reverter o processo de desocupação. Agora, na segunda fase do projeto, já não temos mais essa pretensão, e nosso questionamento passou a ser muito mais subjetivo, em torno da nossa própria relação com os edifícios, com a cidade, com os moradores que conhecemos na época. Por esse motivo, o trabalho atual abre mais lacunas, deixa mais espaço para reflexão. Como é a experiência de dar cursos ao redor do mundo?

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Nossas oficinas costumam envolver o processo completo de produção, da ideia à publicação. O principal objetivo com isso é mostrar que dá pra fazer, ou seja, que a combinação glauberiana da “câmera na mão + ideia na cabeça” pode ser viável. E também queremos mostrar tanto os benefícios quanto as dificuldades de se trabalhar em OLD coletivo. Consideramos as oficinas uma parte 21 essencial do nosso trabalho, primeiro porque gostamos desse contato, de aprender com as pessoas que participam, e principalmente porque acreditamos no compartilhamento, nas infinitas conexões e possibilidades que o mundo atual propicia. E as oficinas são momentos construídos especialmente para isso, para essa troca e essa construção coletiva.


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O projeto Deslocamentos tem a interessante premissa de juntar o centro à borda da cidade. Qual a relação de vocês com São Paulo e com o urbano em geral? Qual a importância pro Garapa de transformar e resignificar o espaço urbano? De certa forma, nosso trabalho está praticamente todo ligado à cidade e às transformações no espaço urbano. O Morar é isso, o Mulheres Centrais também. Acredito que esse interesse vem da própria vivência cotidiana, do simples fato de olhar para a cidade todos os dias, perceber as suas maravilhas e os seus absurdos. O Deslocamentos é, portanto, um trabalho em que esse interesse pela cidade volta-se para a própria cidade. Olhar, interpretar, intervir, olhar novamente - é como um ciclo que retorna, transformado, ao ponto de origem. A ideia de deslocar as paisagens veio dessa

vivência. Já “viajamos” algumas vezes aos extremos da cidade, e sempre nos marcou o contraste da paisagem que víamos em Marsilac, por exemplo, à que enxergamos todos os dias enquanto caminhamos pelo Centro. E, ao mesmo tempo, tudo continua sendo São Paulo. Daí veio a ideia de unir esses pontos a partir do contraste, de criar esse choque visual nas paredes do Centro a partir de uma imagem registrada não muito longe dali.

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Paris Visone Portfolio Paris Visone é uma fotógrafa americana, dedicada à fotografia documental e ao registro fotográfico de shows. Aqui OLD na OLD ela apresenta seu trabalho 25 fotográfico que discute os novos papéis do homem e de mulher na sociedade americana. Como começou o projeto “Gender Roles”? Eu sempre fotografei tudo à minha volta, nunca tive um projeto ou um plano. Tudo que eu sabia era que eu estava fotografando

porque precisava. O projeto surgiu depois de anos analizando minhas imagens, aconteceu de forma natural. Como foi feito o contato com as famílias apresentadas nas fotografias? As pessoas que aparecem nas imagens são meus familiares e amigos próximos. Para realmente fotografar e documentar algo você deve estar totalmente imerso no seu assunto. Seus personagens devem estar totalmente à vontade com você e com a sua câmera. Eu gosto de fazer fotografias verdadeiras, nunca


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armo cenas ou peço para meus personagens fazerem algo. Portanto quando eu fotografo é como qualquer momento comum. A maioria dos meus retratados nem percebem que estou fotografando.

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Sinto que os papéis de gênero estão cada vez mais confuso e indefinidos em nossa sociedade, assim como o papel e responsabilidade de cada idade. Apresentar isso é um dos objetivos de seu trabalho? Sim. Por exemplo, sou muito interessada em apresentar como nós, na América, estamos tendo uma infância cada vez mais curta. Meus primos mais novos pedem tênis e roupas de presente, ao invés de brinquedos. Já se preocupam com a aparência com seis anos. Tenho certeza que eles não tem consciência dos processos de flerte e construção de casais, mas, mesmo assim


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as perguntas são: quem tem os maiores músculos? Quem passa maquiagem melhor? É interessante. Você está sempre tão próxima de seus personagens. Como foi estar imersa dentro de suas rotinas? Como eu mencionei antes, são pessoas conhecidas e de alguma forma eu faço parte de suas rotinas, acredito ser essa a chave OLD 32 para conseguir essas fotografias. Mas, ao mesmo tempo, isso me assusta pois estou chamando atenção para esse papéis e com isso percebo que estou dentro deles também. Reflexão pessoal é complicado. Mas eu gosto disso, acho que acrescenta bastante ao projeto. Você acredita que seu trabalho pode ser usado como um retrato da sociedade americana contemporânea?


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Acredito que seja uma grande parte da America. O que é estranho e triste de dizer assim, em voz alta. Mas na minha opinião é como a maioria dos americanos se mantém funcionando. Quer gostemos ou não “Jersey Shore” [programa da MTV americana que apresenta um grupo de jovens italoamericanos em suas férias] é um dos programas mais populares do país. Ser popular, rico e bonito é bastante “americano”. Sempre foi e isso sempre me interessou muito, descobrir como isso foi mudando ao longo dos anos.


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December 23, 1930


OLD Nº 7