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expediente

revista OLD #número 55

equipe editorial direção de arte texto e entrevista

Felipe Abreu e Paula Hayasaki Tábata Gerbasi Angelo José da Silva, Felipe Abreu e Paula Hayasaki

capa fotografias

Maxim Dondyuk Alziro Barbosa e Laura Del Rey, Guilherme Tosetto, Lynette Letic, Maxim Dondyuk, Patricia Montrase

entrevista email facebook

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índice

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livros selvageria exposição

maxim dondyuk por tfólio

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lynette letic por tfólio

laura del rey e alziro barbosa por tfólio

olhavê entrevista

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patrícia montrase por tfólio

guilherme tosetto por tfólio

reflexões coluna


carta ao leitor

Esta nova edição da OLD passa por uma série de temas e abordagens distintos da fotografia. Começamos com Maxim Dondyuk e sua fantástica visão sobre a marcante onda de protestos que tomou a Ucrânia no final de 2013. São imagens duras, mas ao mesmo tempo com um cuidado visual que as tona incrivelmente chamativas. Seguimos com Lynette Letic que faz dos retratos a base para representar a cultura de uma série de pequenas cidades da Austrália, Laura Del Rey e Alziro Barbosa apresentam Hart, uma busca na natureza pelas ferramentas para abordar a fragilidade e a delicadeza da vida. Patrícia Montrase também se deixa envolver pela natureza em sua fotografia, mas como forma de nos transportar ao

passado e a ajudar a contar a famigerada história de Maria Antonieta da maneira mais lúdica possível. Guilherme Tosetto encerra a edição com Terceira: uma jornada por uma das ilhas do território português, construindo uma representação de um espaço grandioso e isolado. A nossa entrevista de Março está recheada de conteúdo, com uma super conversa com Alexandre Belém e Georgia Quintas, que contam sobre os novos caminhos do Olhavê e sua visão sobre importantes aspectos da fotografia contemporânea. É com esse variado grupo de pensamentos e visões sobre a fotografia que te convidamos a entrar na nossa nova edição. Aproveite! por Felipe Abreu

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livros

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I L L US T R AT E D PEOPLE

de Thomas Mailaender

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ublicado pela RVB, uma das grandes editoras francesas do momento, Illustrated People é a transformação de uma performance para livro. Thomas Mailaender expôs pele a um forte raio de luz UV, sobre ela, uma seleção de 23 negativos do Archive of Modern Conflict. Dessa forma, Mailaender criou uma tatuagem de luz em cada um de seus personagens. O livro é super bem executado, dando uma vida extra a imagens que nem sempre parecem tão interessantes quando vistas em uma tela. Acompanha as imagens dos modelos uma seleção de fotografias do AMC, criando uma união entre passado e presente em peles e corpos distintos. Um belo livro, não à toa foi o vencedor da principal categoria do Photobook Awards no Paris Photo deste ano. Disponível no site da RVB Books valor R$160 128 páginas 6


livros

BE LGIAN AUT UMN de Jan Rosseel

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livro de Jan Rosseel conta uma história complexa e verídica, mas com traços de um macabro realismo fantástico. Belgian Autumn revisita uma série de assaltos violentos sofridos pela Bélgica entre 1982 e 85. A gangue foi presa deixando um total de 28 vítimas, sendo uma delas o pai do fotógrafo. O livro apresenta objetos, caminhos e cenas da série de crimes, tentando fazer sentido visual de um dos capítulos mais sombrios da história belga. Com um rigor de catalogação policial, Belgian Autumn constrói sua narrativa própria, unindo metáforas a fatos sólidos dos ocorridos, em uma viagem cada vez mais envolvente e desconcertante para o leitor. Decifrar os papeis de realidade e ficção dentro desta história é um dos grandes pontos do trabalho, executado com maestria por Jan Rosseel. Disponível na Amazon. valor R$120 224 páginas

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exposição

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A SELVAGERIA CHEGOU AO MUSEU Coletivo SelvaSP apresenta sua prolífica produção focada nas ruas de São Paulo em exposição do programa Nova Fotografia, no MIS.

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m grupo de fotógrafos vem rondando a noite paulistana há algum tempo. Com um olhar agudo, um gosto pelo surreal e um desejo de mostrar o que há de mais absurdo e idiossincrático na capital paulista através de suas lentes. O SelvaSP já tem um nome a zelar, um acervo forte, em contínuo crescimento e membros de destaque nacional e internacional. Agora, o coletivo chega ao MIS no programa Nova Fotografia, constantemente trazendo novos talentos para dentro do museu. A exposição, certeiramente chamada de Selvageria, faz um recorte do tra-

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balho do coletivo – que conta atualmente com 15 membros – e garante uma estreia com o pé direito, já que esta é a primeira exposição do grupo. Com fotografias que vão direto na jugular do espectador, Selvageria não é um trabalho que conta sua história através de sutilezas. A seleção de imagens é um soco no estômago, com o que há de mais marcante na complexa noite paulistana. É assim, trazendo a rua para o museu, que o SelvaSP faz sua estreia no circuito de exposições de São Paulo. Do seu constante flanar em busca de um São Paulo ainda conhecida por

poucos, nasce um mundo próprio de sexo, bebida, brilho, flashes e aquela beleza trasheira que só São Paulo sabe ter. A mostra teve sua inauguração na semana passada e segue nas paredes do MIS até o final de Abril. Não perca a chance de conhecer mais uma das mil facetas que São Paulo tem para apresentar.

Selvageria segue em cartaz até o dia 24 de Abril no MIS, que fica na Av. Europa, 158, em São Paulo.


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MAXIM DONDYUK

Culture of the Confrontation

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axim Dondyuk apresenta o lado mais bruto e potente da série de protestos que marcaram a Ucrânia no final de 2013. Suas imagens tem um poder de comunicação incrível e um apelo visual ainda mais marcante. A criação do ensaio veio em um momento de transformação na carreira de Maxim, que se via em dúvida entre o cinema e a fotografia. Com esta série, ele decidiu de vez seguir em frente com a sua produção fotográfica.


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maxim dondyuk

Maxim, como começou seu interesse pela fotografia? Só me tornei fotógrafo profissional na terceira tentativa. A primeira experiência que tive foi com cinco anos, vendo minha mãe revelar fotos de família em um laboratório improvisado em casa. Mais tarde, ganhei minha primeira câmera, uma SMENA, marca soviética da época, e comecei a fazer minhas próprias fotos. Depois do colapso da União Soviética ficou muito caro comprar e revelar filmes, então eu e minha mãe paramos com a fotografia. A segunda experiência foi com 12 anos, quando me juntei a um fotoclube, voltando a fotografar e revelar filmes, mas meu entusiasmo não durou muito. A terceira e definitiva

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experiência foi com 24 anos, quanto trabalhava em um campo completamente diferente e a fotografia se tornou meu hobby. Todo o meu tempo livre era usado lendo, estudando e praticando fotografia. Um ano depois, sai do meu emprego e me tornei um fotojornalista para grandes jornais da Ucrânia. Em 2010 percebi que precisava de mais liberdade, então deixei os jornais e passei a produzir projetos de longo prazo. Nos conte sobre a criação de Culture of the Confrontation. No meio de 2013, por uma série de razões, eu estava pensando seriamente em migrar para a produção de documentários. Me parecia que eles contavam histórias socialmente rele-

Com as minhas fotos, eu queria despertar a capacidade mais profunda de associação e as emoções de quem visse cada imagem. vantes de uma maneira mais eficiente que a fotografia. Decidi produzir um documentário sobre Crimea Sich, um campo de treinamento para militares. No verão de 2013 fui para a Crimeia com meu irmão. Era uma tentativa de encontrar respostas para perguntas que assolavam minha mente. Depois disso, fui selecionado para uma bolsa para diretores de documentários, disponibilizada pelo American Documentary Film Festival na Ucrânia. Foi neste período que começou a Euromaidan [série histórica de protestos] na Ucrânia. Antes de Dezembro de 2013 eu não sabia se deveria con-


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tinuar trabalhando com cinema ou ir para os protestos com minha câmera fotográfica. Também não sabia o que queria fazer na Euromaidan, fotografar ou filmar. Em um primeiro momento só assisti, analisei, tentando buscar respostas. Mas, de repente, recebi um novo fôlego fotográfico e percebi que via os protestos através da associação de imagens, com várias camadas de significado. Eu não estava tentando mostrar o que estava acontecendo como fotojornalista. Com as minhas fotos, eu queria despertar a capacidade mais profunda de associação e as emoções de quem visse cada imagem. Para mim, não era uma revolução na praça da independência, para mim era uma batalha com cenas de lendas e contos de fada. Durante o embate entre a polícia e os manifestantes eu me

sentia em um mundo paralelo. Era uma batalha entre o bem e o mal, luz e sombra, fogo e gelo. Na tela revolucionária, cenas sangrentas se interlaçavam com cenas incrivelmente lindas. A linha entre realidade e ficção tinha sumido. Eu entendi que a fotografia para mim não é só a maneira de contar uma história, mas também uma representação visual que contém uma série de emoções, permite que o observador a interprete e pensa sobre importantes pontos em nossas vidas. Imagino que você tinha uma quantidade enorme de imagens durante a produção da série. Nos conte um pouco sobre o processo de edição do material. Não é um segredo que muitas vezes a edição do material é mais difícil do

que a produção das fotografias em si, especialmente quando são suas fotografias. Não vejo uma tarefa tão complexa em editar o trabalho de outras pessoas, mas o meu... Emoções, memórias de como você fez as fotografias podem interferir com o melhor caminho para a série. É claro que durante a onda de protestos eu fazia uma seleção semanal de fotos para revistas e jornais que entravam em contato comigo. Mas pensando na edição final do projeto, deixei as imagens guardadas por cerca de um ano, para assim poder editar com a cabeça limpa, distante das emoções ligadas às imagens. A maneira ideal de encontrar a edição perfeita para uma série é começar um novo projeto. Assim as emoções não influenciam mais a maneira com que vejo o projeto que acabo de concluir. 

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LYNETTE LETIC Let’s Get Togheter

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et’s Get Togheter explora a cultura popular do interior da Austrália, com uma série de encontros comunitários. As imagens tiraram a fotógrafa de sua zona de conforto, fazendo com que ela descobrisse regiões novas de seu país natal, criando uma imagem mais complexa da sua própria cultura. Os retratos, espaços e sentimentos retratados apresentam uma exploração visual de alguém curioso com um tema novo, mas também a construção de uma história única, uma metonímia de parte da cultura de um país.


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lynette letic

Lynette, como começou seu interesse pela fotografia? Meu primeiro contato com a fotografia aconteceu no meu último ano de colegial, quando eu tinha aula de artes. Comecei a brincar com uma câmera digital, depois passei para o laboratório, no qual me familiarizei com a fotografia em branco e preto, a produção de cópias e a revelação e me encantei com todo o processo. Acredito que essas experiências iniciais criaram o meu interesse pelo meio, mas ele foi realmente se desenvolver quando comecei meus estudos em fotografia, em 2012. Como se deu a criação de Let’s Get Togheter? Antes de começar o projeto, eu sabia

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que queria fazer algo fora da minha cidade. Como nunca passei muito tempo no interior, minha curiosidade me levou a fazer viagens curtas, de cerca de uma hora, para cidades pequenas oeste de Brisbane. Inicialmente me senti atraída pelos monumentos, sinais e a paisagens dessas áreas, mas rápido percebi que o mais interessante seria produzir retratos dos habitantes dessas cidades. Abordar pessoas na rua parecia pouco confortável e não fez muito sentido no começo, já que não tinha o projeto muito claro, então decidi começar a frequentar eventos locais da comunidade. Fotografar dentro desses contextos me deixou mais confortável e ganhei a confiança para envolver pessoas no meu projeto, enquan-

A percepção que você constrói das pessoas fotografadas só emerge no final da série, não enquanto você produz os retratos to afinava o escopo da série. Como você buscou criar a ilusão de uma única comunidade nesta série, considerando que as imagens provém de grupos variados? Tentei excluir sinalizações das minhas imagens ou ângulos muito abertos dos prédios e espaços, para assim torná-los impossíveis de identificar. Tirar da imagem seu contexto geográfico me permitiu focar nos personagens de meus retratos ou em um detalhes do ambiente para assim unir eventos e pessoas de locais distintos e construir uma comunidade


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única. A escolha por fotografar comemorações anuais ou semanais, como danças ou feiras comemorativas, me trouxe algumas limitações, mas também me trouxe a liberdade para construir este trabalho. Você buscou construir personagens para a sua série ou fotografar o que as pessoas apresentavam para você? Eu me sentia muito atraída pela apa rência e pelo comportamento destas pessoas, por isso não dei muitas instruções no momento de fazer as fotografias. Também pensei no contexto típico em que estão as pessoas destes eventos e reuniões, mas não quis buscar personagens óbvios para o trabalho ou os fotografar de maneira caricata. A percepção que você constrói das pessoas fotografadas só emerge no

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final da série, não enquanto você produz os retratos, respondendo de maneira intuitiva àquilo que é apresentado à você. Qual o papel da memória neste trabalho? Você pretende apresentar este contexto como uma realidade atual ou evocar um sentimento de passado e saudade? Eu acredito que esta série fique entre as duas coisas, porque enquanto minha intenção era fazer fotografias desses eventos reais e das pessoas que os frequentam, não é uma representação objetiva da região em que eles vivem hoje. Enquanto eu via esses eventos como parte da tentativa da comunidade de manter seus rituais, tradições e narrativas de suas cidades, eu também jogava com a questão da representação através da série.

Eu gosto como algumas das imagens realmente evocam uma sensação de passado como, por exemplo, a fotografia do casal dançando. Só depois de revelar e ampliar a fotografia que percebi como o abraço e o olhar perdido do rapaz pareciam sair diretamente de uma comédia romântica dos anos oitenta. 

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LAURA DEL REY E ALZIRO BARBOSA

Hart

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art é uma busca pela fragilidade e a delicadeza na vida em seu estado mais puro, em uma natureza selvagem e intocada. Laura Del Rey e Alziro Barbosa passaram três anos produzindo as imagens que, no ano passado, se tornaram livro. A série busca detalhes e sensações, carregando o leitor com a possibilidade de criar seu próprio sentido para as imagens.


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laura del rey e alziro barbosa

Nos concentramos em sentir os Como surgiu a ideia de trabalhar em dupla? Este foi o único trabalho que vocês produziram juntos? Nós viajávamos juntos e, nos trajetos, acabávamos conversando muito sobre as sensações deles, os lugares, as pessoas e também sobre como fotografar tudo aquilo. Foram algumas viagens concentradas em três anos e acabou sendo natu-ral que essas conversas aparecessem nas imagens que passamos a produzir, co-mo também que elas dialogassem - e, por isso, acabassem em um mesmo projeto. O Hart foi a única coisa que fizemos juntos com início, meio e fim. Mas há dezenas de ideias, rascunhos e embriões nos nossos HDs e pautas de conversas. Tem também um outro projeto, no qual só eu tenho o mau

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gosto de mexer (risos), que é uma espécie de chorume do material do Hart; o contra-plano dele, na realidade. São retratos meio bagunçados que fiz do Alziro e ele de mim, que serviam de códigos para, na hora de logar as fotos, sabermos quem estava usando a câmera e, portanto, de quem eram as fotos [precisávamos fazer isso porque usávamos o mesmo equipamento]. Eu sempre fazia um 1 com os dedos e ele um 2. Esse projeto se chama Love Is A Losing Game e está andando, devagar e sempre, às vezes para trás (risos). Sou eu escarafunchando arquivos, incidentes, um quebra-cabeças geológico-emocional do final de um relacionamento. Acho interessante como o avesso, inclusive estético, do Hart.

lugares da forma mais profunda possível, e fotografar. Como foi o processo de criação do Hart? Foram três anos de viagens, nos quais nos concentramos em sentir os lugares da forma mais profunda possível, e fotografar [ as imagens são todas feitas no Alasca (2012), Islândia e Noruega (2013) e uma no Brasil (2014) ]. A gente conversava muito, nestes períodos largos fora de casa, buscando em imagens coisas que tivessem a ver com o que pensávamos e sentíamos estando naqueles espaços - e como metaforicamente eles se relacionavam com a maneira como enxergamos a vida, sobretudo em sua fragili-


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dade, de uma forma bonita. Algumas fotografias foram bastante marcantes como respostas visuais a tudo isso. Uma delas é a ‘onda japonesa’ que abre o livro. Ela deu uma virada de chavinha. Como foi a experiência de transformá -lo em livro? Como a vivência na Blank Paper, em Madrid, auxiliou o processo? Uma coisa que aproveitei muito do tempo na BP foi ter os projetos de outros fotógrafos correndo em paralelo e sendo comentados. É um jeito muito bacana de aprender edição e pensar sobre as nossas escolhas. A cidade também estava em um momento particularmente interessante para livros de fotografia, com muitas feiras e exposições acontecendo. Passei boas tardes na biblioteca deles,

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folheando tudo o que podia. Muitos dos professores têm pontos de vista bastante interessantes, também - isso sempre é fundamental num centro de estudos. Se fosse para resumir a experiência? Diria que o curso sim; ter impresso fora, apesar da excelente qualidade da impressão, talvez não. Mas estão chegando em breve, liberados de Viracopos, duzentos livros fresquinhos - bom momento para uma entrevista (risos).

seu contato façam um trajeto sensorial - às vezes extremamente fluido e, às vezes, muito truncado. Acho que as partes mais importantes do que você chamou de “a história deste ensaio” talvez venham justamente do que falta nas imagens (pensando que os negativos delas sempre seriam tão ou mais interessantes que as próprias) e estes crec’s que algumas das esquinas forçam - e que geram as tais cicatrizes, afinal. 

Como vocês buscam fazer com a que a paisagem conte a história deste ensaio? A maneira mais primária acho que é buscando imagens atraentes. Em seguida, que elas sejam enxutas de ‘informação visual’ (não sei se haveria expressão me-lhor), porém com alta carga simbólica. E, por fim, que no

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O Olhavê se aproxima de completar sua primeira década de atividade. De blog de curadoria fotográfica a editora, curadoria e escola, a parceria formada por Alexandre Belém e Georgia Quintas é um dos importantes marcos no pensamento da fotografia brasileira nos últimos dez anos. Conversamos com a dupla direto do Festival de Fotografia de Tiradentes, no qual o Olhavê lançou novas publicações e coordenou o ciclo de ideias pela sexta vez no festival. O Olhavê está para completar uma década de atividade. Como começou a ideia? Quais os pontos mais marcantes dessa trajetória? AB: Juro que não estava ligado nisso. É verdade! O blog começou em 2007. Extremamente influenciado pelo blog PicturaPixel, do fotógrafo Claudio Versiani, abri um blog no

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Wordpress. Era setembro de 2007 e parece uma eternidade. O Olhavê “cresceu” muito rápido. Comecei escoando as coisas que via na web. Todo dia, visitava mais de cinquenta sites de fotografia e “mastigava” isso para os visitantes. Nessa época, não usava redes sociais e o Olhavê era página inicial do navegador (isso ainda existe?!) de muita gente. Publicava dois/ três posts por dia e o blog foi fonte e pauta para muito site grande e revista de fotografia. Também foi referência para novos blogs. Naturalmente, o conteúdo noticioso foi dando lugar para entrevistas e debates sobre processo de criação, portfólios, etc. Hoje, vejo que seguimos a mesma filosofia. A busca sempre foi por conteúdo denso e sério. Conseguir relevância e credibilidade. Isso segue até hoje no que fazemos. Esse acervo é visitado diariamente.

São dezenas de entrevistas, perfis, análise de imagem, resenhas, críticas e textos reflexivos. Perdi a conta de citações que o Olhavê tem em monografias acadêmicas. Publicamos muita gente pela primeira vez. Abrimos espaços para autores pernambucanos e de outros estados que não tinham uma um espaço de visibilidade. Queria aproveitar essa reputação que o Olhavê tinha e fomos bem sucedidos nesse escoamento de novos autores. Fotógrafos foram convidados para galerias, publicações legais e seguiram sua trajetória. Nunca cobramos nada de ninguém. Também, não tínhamos propaganda, grana de edital ou coisa parecida. Aos poucos o ponto central de produção deixou de ser o blog e foi se tornando um misto de editora, escola e produtora cultural. Como se deu esse

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processo de transição? AB: Chegamos a palestrar sobre isso: do virtual para o real. Foi natural. Fazíamos edição de fotografias para o blog (em 2009, abrimos o Perspectiva. Um braço do Olhavê só com ensaios e textos críticos. Esse conteúdo hoje está na seção Análise de imagem: http://olhave.com.br/category/ analise-de-imagem/, textos, resenhas, etc. Eu sou jornalista e fotógrafo. Georgia é antropóloga, sempre pesquisou imagem e já era professora. Foi natural começarmos a fazer curadorias, entrevistas em eventos, ministrar workshops, consultorias, etc. Com a expertise do Olhavê, também editei alguns projetos pioneiros na web como a primeira blogosfera fotográfica (blog do 5º Paraty em Foco) e o Fórum Virtual (blog do 2º Fórum Latino-americano de Fotografia de São Paulo). Outra coisa que nos

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alegra é sermos curadores de alguns eventos sérios. Concebemos e organizamos o Ciclo de Ideias, no Festival de Fotografia de Tiradentes; e sou do conselho curador da Mostra SP de Fotografia. Tudo com amigos do coração: Eugênio Sávio, Mônica Maia e Fernando Costa Netto. O Olhavê realizou 14 projetos curatoriais em sua trajetória. Como vocês veem o papel do curador na fotografia? Algo próximo de um guia, um organizador ou algo diferente? AB: Não lembrava que eram 14. Pensava que eram bem menos. Entendemos um trabalho curatorial enquanto construção de narrativa crítica, pesquisa e envolvimento da trajetória processual e poética do fotógrafo. Será que é por isso que são apenas 14? Curadoria para nós é resultado de um processo; acompanhamento.

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GQ: Vejo a atividade de curadoria que realizamos como algo extensivo a partir ao nosso trabalho de base que o olhar crítico sobre formação e difusão de fotógrafos com os quais admiramos a pesquisa e a potencialidade de expressão desprendida. É uma questão profissional claro, mas também de afinidade com a imagem sobre a qual determinado autor se dedica. Há muitas nuances ao meio e propriamente aos curadores no nosso mercado contemporâneo. Talvez a nossa nuance principal seja o tempo do encontro e da pesquisa. E isso envolve, sobretudo, diálogo, compreensão do conceito e do processo empregados pelo artista. Para mim, desenvolver uma curadoria, é pesquisar a sensibilidade poética e construir com as imagens (sempre em diálogo com o fotógrafo) uma visualidade narrativa para o público, que em nada

se pretende ser onipotente. Ao contrário, é sim um fio venoso possível de visualidade e interpretação sobre a obra apresentada. Há razão para as curadorias de grife, alimenta uma via para esse campo; mas o que fazemos é antagônico, questão de inclinação, de vontade em desfrutar das imagens pelo traço elaborado através do olhar do outro. Reconheço minha formação antropológica nesse raciocínio, em considerar sobretudo a observação sobre o que o artista nos propõe. Gostaria de conhecer e aceitar os convites feitos e que, muitas vezes, declino por perceber não ser possível traçar esse percurso de dedicação com o fotógrafo. E assim, seguimos com nosso estilo, e contentes com as curadorias realizadas até aqui. Há também uma preocupação e um interessante no desenvolvimento teórico


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da fotografia dentro do projeto. Qual a importância de reforçar o debate teórico e histórico dentro da fotografia brasileira? GQ: Isso se deve à minha formação acadêmica, aos anos que me dedico aos estudos e pesquisa nos campos da imagem e fotografia. A minha interdisciplinaridade, ao transitar pelo Jornalismo, História da Arte e Antropologia, e nesse momento à crítica dos processos de criação, foi fundante para trazer o pensamento sobre imagens para o blog. O debate reflexivo é primordial para distintas instâncias sobre o teórico e histórico. Sempre entendi que através da articulação de ideias, teorias e imagens podemos ampliar a compreensão sobre a o universo de percepção, do olhar e, por conseguinte, da imagem. Reconheço um número reduzido de debate que desconstrua alguns para-

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digmas para ampliarmos a discussão por outras áreas epistêmicas. Escutar novas formas de elaboração analítica são de extrema relevância para o contemporâneo, sinto que alguns não fazem essa ponte entre o teórico e o empírico. Não refletem além das bordas, caminhar mesmo que de modo cauteloso entre esses dois pólos é uma tentativa que deve ser de construção de redes de sentido, e de entendimento sobre as imagens que são sempre convergências e deslocamento de ideias. O filósofo Edgar Morin, diz que que não há de um lado um campo da complexidade, que seria o do pensamento, da reflexão, e de outro o campo das coisas simples, que seria o da ação. A ação é o reino concreto e às vezes vital da complexidade. Há colegas que estão nessa linha, concentrados e pesquisando, e isso é muito esperançoso.

Como surgiu a ideia de criar grupos de estudo em fotografia? O que mais chama a atenção nesse processo de acompanhamento de produção de um ensaio? GQ: Trata-se de algo orgânico, natural de quem construiu uma formação acadêmica. Aliado a isso, o público que acompanha o trabalho do Olhavê sempre nos solicitou, uma demanda que é individual, mas que funciona plenamente como as aulas dos grupos de estudo ao reunir pessoas interessantes e interessadas por temas específicos filosóficos ou atividades com relação ao ensaio fotográfico. Sobre acompanhamento de projetos, eu e Alexandre temos uma vontade genuína em conhecer trabalhos, projetos e pesquisas (como queiram chamar a produção de imagens) a partir do diálogo, da interlocução com aqueles que quase sempre estão

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com vontade em discutir seus trabalhos e dividir seus questionamentos. Muitos comentam conosco que deve ser difícil dar atenção a quem nos procura querendo uma análise, um retorno imediato do trabalho, do seu portfólio. Tecemos comentários, provocamos o autor, discutimos referências, refletindo sobre a problemática poética, que às vezes está Assim, costumo dizer que isso é também nosso processo, nosso interesse em contribuir e refletir sobre o trabalho do outro. Estudamos para nos aproximarmos das imagens do artista que nos procura e quer seguir com nós a discutir o seu discurso, buscas, experimentações e linguagem. Para nós, os alunos trazem desafios poéticos, reflexão sobre o pensamento da imagem e o exercício da edição. Acompanhar projetos é como estar num lugar repleto de diálogo e dis-

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cussão. Um lugar de compreensão. Estudamos para nos aproximarmos das imagens do artista que nos procura e quer seguir conosco a discutir os seus projetos, linguagem, buscas, experimentações. Georgia ministra um grupo de estudos que une fotografia e literatura. Como foi desenvolvido esse projeto? Vocês veem a literatura como uma forte fonte de influência na construção da sequências e narrativas fotográficas? GQ: Fundamentalmente, busco caminhos possíveis e profícuos de debate cujo fio condutor seja caro à imagem. Digo imagem, embora ela seja também fotográfica. Todos os meus grupos/cursos se delineiam pelo campo do imaginário, do simbólico, da percepção – sejam esses campos ancorados temporalmente na história ou no contemporâneo. Sigo portanto

pela teoria da imagem e pela filosofia da imagem. Enfim, sempre trata-se incessantemente de pesquisar autores que pensar sobre, a partir e por imagens. Meu grupo de estudos em Fotografia e Literatura é um projeto acalentado há muito tempo e que venho colocando em prática com um grupo muito querido de alunos que me acompanha em todas as minhas inquietações, propostas, leituras e dinâmicas. É um curso que tenho orgulho de como tenho o traçado – seja pela metodologia seja pelo conteúdo – e estabelecendo uma linha de pensamento e reflexão que me interessa profundamente. A escritora que sempre esteve em paralelo à professora, certamente influenciou nesse desejo. O meu processo como professora é contaminado por minha escrita, minhas referências. No fundo é uma opção de pensamento: pensar


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pela fotografia e pensar por palavras. No fundo, é a reflexão sobre o pensamento de imagens que me interessa. Uma inquietação particular que compartilho filosoficamente através de livros e imagens carregadas de poesia no meu grupo de estudos. Há uma preocupação e um forte desenvolvimento da edição entre os workshops e grupos de estudos que o Olhavê ministra. A edição é o ponto central da produção fotográfica contemporânea? Quais são os principais desafios neste processo? Vocês acreditam que seja possível desenvolver uma didática para o ensino da edição e da construção de sequências na fotografia? AB: Sem dúvida. A edição é ubíqua e inebriante. Não falo de escolher foto “boa” e descartar foto “ruim”. Falo de algo mais abrangente. Semantica-

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mente a palavra edição é limitadora. O que fazemos está mais próximo de um híbrido entre direção + edição + montagem. E, principalmente, problematizar o trabalho para encontrar caminhos e proposições. A questão não é “o quê” mostrar é “como dizer”. Nas turmas do meu grupo de acompanhamento de projeto e no workshop de edição, o desafio é o autor entender que um bom ensaio é para ser lido. Lido e compreendido de diversas formas e possibilidades. As imagens na mesa se configuram em múltiplas possibilidades. O que me interessa é aquilo que narra histórias, coisas, vontades, paisagens, memórias, símbolos, realidades, desejos. Sim, acredito que editar é refotografar. É articular, criar analogias, desenrolar e, finalmente, como sempre falo para os fotógrafos que acompanho, é alinhavar. Concordo com o cura-

dor David Campany, em artigo na Aperture, quando ele fala (e cutuca) sobre o processo de edição: “Many a landmark photographic book has resulted from collaboration between photographer and editor. This complicates the presumption of the singular authorial voice that still dominates discussion of photographic books”. Olhavê também é editora, com uma série de livros lançados nos últimos anos. Como se iniciou esse processo? Como é o processo de escolha dos títulos que serão lançados? AB: Nosso primeiro livro foi publicado em 2008: Man Ray e a imagem da mulher. Foi um livro de produção independente (recursos próprios) a partir de um desejo de escoar uma pesquisa de Georgia realizada em 1997. Veja, estamos juntos há 25 anos

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e os livros sempre e são parte da nossa vida. Em 1999, quase abrimos uma livraria de livros e fotografia lá no Recife. Já tínhamos o espaço e contatos com editoras de fora. Bem, Georgia entrou num mestrado e o projeto acabou. Em 2012, lançamos Olhavê Entrevista (parceria com Tempo d’Imagem) e seguimos com, em 2014, com Abismo da carne e Inquietação fotográficas (os dois foram contemplados com o Prêmio Marc Ferrez e feitos em parceria com a Tempo d’Imagem). O movimento nos levou para os fotolivros. Mas, nunca deixando pra trás o que acreditamos. Veja, não importa se é blog, curadoria, texto, livro, curso. Não mudamos nosso foco: seriedade. Odiamos oba-oba de poder, vaidade, ego e busca incessante pela fama. Sim, quebramos a cara algumas vezes. Normal. C’est la vie. Em 2015,

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lançamos Baches, Tempo arenoso e Ninguém é de ninguém, de Montserrat Baches, Elaine Pessoa e Rogério Reis, respectivamente. Se a pergunta versa sobre linha editorial, é o seguinte. Queremos publicar aquilo que gostamos e admiramos. Ser independente é isso: fazemos o que desejamos, com quem admiramos, quando podemos e como achamos mais legal. Também é importante ressaltar que o Olhavê sou eu e Georgia. Quem edita, publica, vende, cobra, embala e leva nos Correios somos nós mesmos. Carregamos a editora na mochila e temos muito orgulho nisso. Com a coleção Olhavê {Projeto} lançada, ainda temos para esse ano o próximo livro teórico de Georgia: Jogos de aparência: os retratos da aristocracia do açúcar. Trata dos álbuns de família – do século 19 e começo

do 20 – das famílias abastadas de Pernambuco; o período do açúcar. E, 1978, da fotógrafa Gabriela Oliveira. Vocês acabam de lançar uma nova linha na editora, chamada Olhavê {Projeto}. Como surgiu essa ideia? O que vocês podem nos contar sobre os dois títulos lançados no começo de Março? AB: Na realidade é uma coleção. Queremos propor livros que no seus cernes a edição seja fundamental na construção da história. Ensaios concisos e pontuais. Projetos redondos, potentes e propositivos. Serão dez títulos com o mesmo e primoroso projeto gráfico de Fernando Sciarra. O projeto conseguiu (foi um desafio) trazer unidade a coleção e individualidade para cada fotolivro. Papel simples, brochura, tiragem pequena. Coisa fina para viajar nas histórias. Um momento para esquecer um


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pouco esse momento ilha de Caras e pensar no ensaio. Branca e Vigília, de Ligia Jardrim e Katia Kuwabara, são fotolivros que trazem histórias bem atuais e problematizam questões de espaço, memória e cidade. São ensaios que a narrativa nos deixa viajar em possibilidades infinitas. O fotolivro é hoje a grande sensação entre fotógrafos, com quase todos buscando produzir o seu. Vocês veem essa superprodução com bons ou maus olhos? Como vocês buscam dar destaque aos livros produzidos pela editora dentro deste universo imenso de produções? AB: Acho que você usou a palavra sensação no sentido tendência/comoção/burburinho. Acho isso tudo um perigo. Nos aproveitarmos das facilidades (contemporâneas) de fer-

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ramenta, impressão e distribuição é lindo. Temos que seguir e copiar o que a música já faz há tempos. Pra quê intermediários? Esse trabalho não é simples, requer muita disposição, dedicação e reflexão quanto aos livros que acarinhamos. Mergulhamos. Acho que produzir é sempre bom. Isso não significa qualidade. Pra mim, um bom fotolivro é um livro de fotografia que na sua essência traz um ensaio fotográfico potente; um corpo de trabalho estruturado e uma narrativa que proponha algo. Tudo isso balizado por uma boa edição fotográfica e um design coerente. Olhe, na boa, não pensamos nisso de “destaque”, etc. É difícil para o status quo entender que existe gente trabalhando pela vontade de trabalhar e ser feliz. Não queremos holofotes, nem gente lambendo nossas botas.

Achamos isso desnecessário, pouco lúcido. Procuramos fazer coisas que perdurem. Tenham vida longa e relevância. Acreditamos que isso é o bastante para garantir o tal destaque. Veja, como você lembrou, o Olhavê faz dez anos em 2017 e nesses anos todos, o que mais nos motivou e motiva é o feedback do pessoal. São demonstrações de carinho, respeito, gratidão, afeto, etc. Isso basta! Para quê ficar sapateando num palco iluminado? Vendemos nossos livros na loja online do Olhavê (loja.olhave.com.br), em festivais, feiras, encontros e alguns lugares que respeitam o que fazemos. Por exemplo, em São Paulo, a Banca Tatuí (Santa Cecília), DOC Galeria (Vila Madalena), Capibaribe Centro da Imagem (Recife), etc. Nesse semestre, iremos expandir os locais físicos de venda.

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GQ: Mercado à parte, dinheiro à parte, vaidades à parte, poder à parte, para nós é uma questão de relacionar-se com um terreno particular e complexo, que envolve poética, narrativa, discurso, apegos, erros, acertos, achados, visão de mundo e cumplicidade. A cada ideia, estudo de edição, projeto gráfico, encaminhamento do livro ao ganhar corpo, nos deleitamos, nos angustiamos, questionamos, retomamos caminhos… Mas, sobretudo, nos doamos e sentimos um prazer enorme por eles, os livros. Colocamos o nosso profissionalismo em tudo isso, repito que com muita amorosidade e delicadeza. E com muito rigor e comprometimento. Em alguns aspectos, que envolvem esse dito “boom”, percebo adensada fogueira das vaidades. Não é um juízo de valor, é uma percepção da qual, particularmente, tento ver e assistir

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Mercado à parte, dinheiro à parte, vaidades à parte, poder à parte, para nós é uma questão de relacionar-se com um terreno particular e complexo, que envolve poética, narrativa, discurso, apegos, erros, acertos, achados, visão de mundo e cumplicidade.

de fora. A observação disso tudo é muito importante para decantarmos o que nos motiva. É uma questão de postura. É simples assim. Eu reconheço do que se trata e respeito, cada um administra o tamanho da sua vaidade. Embora, não estar incensando está fogueira seja tarefa fácil. Poucos compreendem essa linha de trabalho. Mas como falei, acima, a fotografia é complexa, assim como trata o tempo todo das relações humanas. Portanto, como tudo há um sistema, e há aqueles que convivem com o sistema

com cautela. Os livros nos representam nesse sentido, produzir com qualidade edições ao seu tempo, respeitando o autor e manejando a ética sempre. 


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PATRÍCIA MONTRASE Qu’ils Mangent de la Brioche

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atricia Montrase abandonou a correria da publicidade para se dedicar completamente à sua produção fotográfica em um período de estudos em Nova Iorque. Deste período, surge a série apresentada nesta edição da OLD, uma reinterpretação romântica de Maria Antonieta e sua cruel frase “que comam brioche”. A série caminha entre o contato com a sua personagem principal e uma imersão em um espaço onírico, que ajuda a nos transportar até o tempo da monarca francesa.


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O silêncio e a energia que Patrícia, como começou seu interesse pela fotografia? A fotografia sempre foi presente na minha rotina, mas nunca como profissão. Sou formada em Marketing e acabei trabalhando em agências digitais por um bom tempo. Foi só em 2013 que resolvi deixar o stress intenso da publicidade e mergulhar na fotografia de vez. Resolvi largar tudo e estudar fotografia na New York Film Academy em Nova York. Foi tudo muito intenso, mas está sendo uma jornada incrível. Nos conte sobre o processo de criação de Qu’ils Mangent de La Brioche. A série nasceu quando eu estava estudando na NYFA. Na verdade, foi um exercício para trabalhar a minha

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dificuldade em fotografar pessoas. Influenciada pelos meus tutores, pensei em um tema e em uma das minhas “personagens” preferidas, a Maria Antonieta. Ela foi retratada inúmeras vezes por fotógrafos, principalmente no mundo da moda, eu precisava ser diferente de alguma forma. Foi ai que a ideia do pós vida me veio a mente. Existem fotos dela com o pescoço marcado, ou mesmo sem cabeça, devido ao fato de sua decapitação, mas achei melhor trabalhar algo mais sutil, poético e obscuro. Qual o papel da ficção e do fantástico na sua produção? Acho que por influência pessoal, acabo transferindo tudo que leio,

envolve a cena é puro, vem da própria natureza assisto e pesquiso no meu trabalho. Sou uma bookworm e viciada em séries e filmes. A música também traz uma influência muito grande. Então o meu meio de expor tudo isso acaba sendo em imagens. No caso da Maria Antonieta, já havia assistido o filme da Sofia Coppola inúmeras vezes, pesquisei livros, documentários, pinturas e pude visitar o Palácio de Versalhes na França. Uma das minhas paixões em todo o processo, é sentar e pesquisar sobre o tema de um projeto. Quais os desafios de criar essa viagem


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no tempo fotográfica, voltando ao século XVIII? De início eu fiquei preocupada, porque eu não tinha uma equipe disponível e muito menos um stylist. Passei noites e noites pensando no que poderia fazer sem toda essa produção. Acabei me apoiando na própria história, usando uma maneira mais estratégica de trabalhar o simples. E foi no Petit Trianon que achei minha resposta. Como o espaço ajuda a construir a atmosfera e a narrativa nesta série? Eu morava ao lado do Prospect Park no Brooklyn, e em uma caminhada pelas árvores antigas de lá, acabei pensando no Petit Trianon, a casa no campo que o rei deu para Antonieta fugir da agitação. O parque pra mim, tinha esta mesma função, buscar a

paz dentro da natureza. O silêncio e a energia que envolve a cena é puro, vem da própria natureza, a textura vem da técnica que uso, influenciada pelo estilo Pictorialista, sempre usei tecidos na frente da lente e sou apaixonada por fotografia analógica, o que também ajuda muito nesse sentido. O tecido usado neste caso, foi o que ela usa nos olhos em uma das fotos, além de dar a textura que buscava, dei a possiblidade ao expectador de ver através dos olhos de Antonieta. A melancolia abraça tudo em volta, permitindo que a modelo mergulhe em um transe sem muito esforço. 

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GUILHERME TOSETTO Terceira

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erceira é uma experiência visual ligada a um espaço geográfico específico, uma visita a uma ilha e a tentativa de compreendê-la visualmente. Guilherme Tosetto passou uma temporada na Ilha Terceira, território português entre Europa e América, produzindo uma série de imagens que discutissem a grandeza da paisagem local e a pequenez da ilha em meio ao oceano atlântico.


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Guilherme, como começou seu interesse pela fotografia? A minha aproximação com a fotografia aconteceu durante a faculdade, em 2001, onde pude entrar pela primeira vez no laboratório e aprender como revelar imagens a partir de um negativo. Desde aquele momento, percebi que a minha preferência era pelo que acontecia depois do ato fotográfico em si, principalmente o processo de revelação e edição. Posteriormente, fiz um curso de especialização em fotografia e concluí o mestrado em multimeios, ampliando a minha atuação também no campo teórico da imagem fotográfica. Nos conte sobre a criação do ensaio Terceira.

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Este ensaio surgiu durante uma visita à Ilha Terceira, nos Açores, em Portugal. Estive durante 5 dias nesta porção de terra que pertence ao território português, no Município da Praia da Vitória. Ao chegar lá pude perceber ao mesmo tempo a grandeza da paisagem local, e a pequenez da ilha localizada no meio do Oceano Atlântico, entre Europa e América. O que motivou o ensaio foi a percepção deste lugar do qual não possuía nenhuma referência visual. Quais os papeis da geografia e da memória na criação deste ensaio? A paisagem como conceito geográfico tem um papel fundamental, pois ela funciona como o território e cenário deste ensaio. Apresento visual-

Apresento visualmente uma porção de terra ocupada, e como qualquer outra, com marcas e rastros desta ação. mente uma porção de terra ocupada, e como qualquer outra, com marcas e rastros desta ação. E são justamente estes sinais – restos, pegadas, objetos e construções – que, reunidos neste ensaio, funcionam como memórias visíveis. Quais foram os principais elementos que você usou para construir a sua narrativa? No processo de edição, as fotografias traçam a narrativa através de imagens que revelam, de algum modo, a presença humana na Ilha Terceira, fotografias que mostram rastros de uma


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ocupação, como as pegadas e construções. Busquei também apresentar a noção da amplitude da paisagem, como a ilhota partida ao meio e o mar. As texturas e as cores também funcionam como elementos visuais importantes na narrativa, as paredes mofadas, o metal oxidado, o amarelo e vermelho nas construções e o azul do crepúsculo.

elementos naturais, como as vistas da praia, para facilitar a aproximação com este espaço que não é dele. 

Como você busca trazer o observador para dentro de um espaço que ele, provavelmente, ainda não conhece? Busco apresentar elementos visuais estranhos ao universo do observador. Uso isso como meio para atrair sua atenção e convidá-lo a entrar em um espaço desconhecido, como a fotografia da sinalética, que não tem sentido em outro contexto. Ao mesmo tempo trabalho com imagens de

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LUZ E SOMBRA

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uando trazemos à memória A moça com brinco de pérola, de Johannes Vermeer ou O sonho da razão produz monstros, de Francisco de Goya y Lucientes, notamos que o tema luz e sombra são clássicos da pintura. A luz costuma se apresentar associada ao bom, ao divino, ao belo, ao jovem, ao vivo... no corner oposto temos a sombra, o lado negro da força, representando o doentio, o maléfico, o diabólico, Lúcifer, este que, em aparente contradição, significa aquele que traz a luz.

Angelo José da Silva é professor de sociologia na Universidade Federal do Paraná e fotógrafo. Suas pesquisas mais recentes focam o espaço urbano e o grafite.

Podemos aqui traçar uma linha que liga a pintura e a fotografia. O sistema de zonas criado por Ansel Adams, uma maneira de se medir a luz para alcançar a maior quantidade de tons de cinza na impressão em papel a partir do negativo, busca desenvolver no olhar do fotógrafo uma aproximação mais íntegra dos tons mais claros e dos mais escuros. Tomando como referência os milhões de cores do sRGB, passeamos também entre luzes e sombras. Definimos o que ganhará destaque em uma imagem, dentre outras coisas, com o jogo de contrastes e luminosidades. Muitas vezes tomamos os contrastes como oposições ou exclusões. Buscamos algo mais suave ou menos definido porque acreditamos que suavizar as diferenças é algo positivo.

Quero chamar a atenção para outra forma de considerar o assunto. Uma maneira de lidar com oposições ou diferenças que nos aproximem dos pólos em questão e nos permitam reconhecê-los como aspectos distintos de algo que se torna inteiro à medida que reconhecemos o essencial de cada um deles e a relação que eles estabelecem entre si. A integridade da foto brota dos contrastes, ganha vida nas texturas resultantes desse jogo da luz e da sombra com nossos olhos. Talvez a integridade do tema abordado na imagem e a nossa própria venham do reconhecimento das diferenças entre a luz e a sombra e da observação dos efeitos que aquela luz e aquela sombra produzem no recorte que nós fizemos. A vida vem da diferença.

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reflexões

Muitas vezes tomamos os contrastes como oposições ou exclusões. Buscamos algo mais suave ou menos definido porque acreditamos que suavizar as diferenças é algo positivo. 121


MANDE SEU PORTFÓLIO revista.old@gmail.com Fotografia do ensaio Feira de Ciências, de Romy Pocztaruk. Ensaio completo na OLD Nº 56.


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Nesta edição, apresentamos os trabalhos de Maxim Dondyuk, Lynette Letic, Laura Del Rey & Alziro Barbosa, Patrícia Montrase, Guilherme Tosett...

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