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A OLD IMPRESSA ESTÁ VOLTANDO! VAMOS COMEMORAR!!

ELA ESTÁ MAIOR, MELHOR E COM MAIS FOTOGRAFIA!

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Revista OLD Número 21 Edição Especial de Aniversário - Maio de 2013 Equipe Editorial Direção de Arte Texto e Entrevista

Capa Fotografias

Felipe Abreu e Paula Hayasaki Felipe Abreu Camila Martins, Felipe Abreu, Juliana Biscalquin, Luciana Dal Ri e Tito Ferradans Paulo Batalha André França, Henrique Marques, Mariana Oliveira e Paulo Batalha

Entrevista

Jorge Bispo

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Parceiros


08

Livros

10

Exposição Mês da fotografia MIS

12

Lalo de Almeida Perfil

16

Paulo Batalha Portfolio

30

Mariana Oliveira Portfolio

44

Jorge Bispo Entrevista

50

André França Portfolio

66

Henrique Marques Portfolio

82 84

16

30

50

Ultrapassagem Coluna Fissuras Coluna

44

66


No dia 27 de Abril de 2011 lançamos nossa primeira edição, eram dois portfolios e uma entrevista, fórmula que se manteve por muito tempo e é base da OLD até hoje. Agora no dia 6 de Maio de 2013 lançamos nossa 23 edição, contando com os dois especiais apresentados no final do ano passado. Agora são quatro portfolios, duas colunas, uma entrevista e duas belas novidades: uma sessão de serviços comentando livros e exposições e o começo de uma série que irá se debruçar sobre os novos caminhos do fotojornalismo, construindo perfis de grandes profissionais da área. Enfim, muita coisa mudou, mas a OLD continua com seus objetivos de sempre: divulgar e discutir a fotografia no Brasil, de preferência cada vez maior, com mais colaboradores e mais páginas desse assunto que nos move. Na nossa edição especial de aniversário temos, além das novidades que acabei de contar, uma bela série de quatro portfolios: Paulo Batalha, Mariana Caldas de Oliveira, André França e Henrique Marques. Paulo e Henrique foram premiados no último ano em dois dos principais prêmios de fotografia do Brasil: Marc Ferrez e Pierre Verger. É uma alegria enorme para a OLD poder publicar trabalhos premiados e sentir que temos a confiança e o respeito de grandes fotógrafos no Brasil. Nosso entrevistado da vez é Jorge Bispo, um dos grandes retratistas brasileiros em atividade. Batemos um papo rápido com ele, via email, e trazemos um pouco sobre sua história na fotografia e uma pequena série de seus retratos. Além disso, Jorge também é o criador do tumblr Apartamento 302, um dos projetos de fotografia de nu mais interessantes no Brasil. São imagens de amigas, conhecidas e interessadas no projeto, nuas em frente a uma parede vazia no apartamento do fotógrafo.

Jorge consegue com essas imagens quebrar estereótipos de beleza, apresentar belas imagens e desenvolver um grande exercício de inovação sobre repetição, já que todas as fotos partem do mesmo princípio. A grande novidade dessa edição, que já apareceu rapidamente no começo deste texto, é a série de perfis de fotojornalistas brasileiros. Começamos com Lalo de Almeida, fotógrafo da Folha de S. Paulo. Lalo fala sobre as dificuldades e mudanças no fotojornalismo, um dos assuntos de grande interesse da OLD. A matéria com o Lalo abre uma série que irá se estender ao longo do ano pela OLD. Com ela vamos mergulhar cada vez mais fundo da fotografia, trazendo um conteúdo cada vez melhor para você. Então, feliz aniversário pra gente e vamos aproveitar!

Felipe Abreu


Unidentified medical personnel on board hospital ship TSS ORANJE II, June 1941


LIVROS

GÊNESIS, DE SEBASTIÃO SALGADO

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Foram oito anos de trabalho, 8 milhões de Euros de custo e uma série de viagens aos locais ainda intocados na terra. Salgado viajou pelo mundo inteiro, passou pelas mais variadas situações, como temperaturas de 45 graus negativos e caminhadas com a duração de 55 dias. Talvez por isso, talvez pela idade, talvez por outros planos para sua vida, Gênesis deve ser seu último grande projeto.O livro chega ao Brasil em Maio, com mais de 500 páginas de fotografia e com um preço que não foge da média: R$ 160,00. Além da edição comum há também uma edição especial produzida pela Taschen. São dois volumes com 70 x 47 cm que funcionam mais como portfolio do fotógrafo do que como livro em si. A brincadeira, ainda não disponível no Brasil, sai por R$ 6.000,00. Como de costume, Sebastião Salgado entrega mais um projeto grandioso, repleto de belíssimas imagens em PB, que, pela primeira vez, deixaram de ser feitas em filme e passaram para o digital. Lançamento dia 10 de Maio. Valor médio: R$ 160,00 520 páginas.


LIVROS

WELCOME HOME, DE GUI MOHALLEM

A OLD já entrevistou Gui Mohallem e nós já falamos de Welcome Home em nosso tumblr. Acho que esse review vem para realmente confirmar a nossa posição de que o trabalho dele é muito bom e merece muita atenção. Welcome Home é o primeiro livro de Gui Mohallem. O projeto tem uma relação muito forte com o seu autor, que viajou diversas vezes para os EUA para produzir as imagens que recheiam o livro. Também vale frisar que a impressão do livro é impecável e que as fotografias ganham vida em suas páginas. Não é só a OLD que admira e acredita no trabalho de Gui Mohallem. Das 1000 cópias impressas 5 meses atrás restam somente 30 no sistema da Livraria Cultura e 40 reservadas para o lançamento em Brasília, que acontecerá em Junho. Portanto, se você quiser conhecer mais ainda a fotografia de Gui Mohallem, precisa correr!

Disponível na Livraria Cultura. Valor Médio: R$ 60,00 168 páginas

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EXPOSIÇAO

MAIO: O MÊS DA FOTOGRAFIA NO MIS a fotografia ocupa o MIS com exposições, eventos e cursos.

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Além de ser aniversário da OLD, Maio também é o mês da fotografia para o MIS (Museu da Imagem e do Som) em São Paulo, que traz uma série de exposições, cursos, eventos e afins. Estarão por lá os trabalhos de Willy Ronis, Joakim Eskildsen, Carlos Ebert, Chico Albuquerque e Luiz Maximiano. O trabalho de Luiz foi um dos selecionados pelo edital MIS Nova Fotografia, que apresenta mensalmente um trabalho de um jovem fotógrafo. As imagens apresentam o Paquistão contemporâneo, construindo um mosaico do cotidiano do país, através de um olhar baseado no fotojornalismo. São imagens de cores fortes, que fogem do registro óbvio do conflito e mergulham na vida urbana do país. Joakim Eskildsen se debruçou sobre a vida dos roma, o povo cigano, acompanhando suas vidas por diversos países da Europa e da Ásia. O trabalho tem um eco do que foi desenvolvido por Koudelka em seu belíssimo Gypsies, mas apesar da inevitável comparação, Eskildsen consegue trazer o seu olhar para este povo, atualizar a questão e construir um universo novo de cores e personagens fortes. O Instituto Moreira Salles e o museu Jeu de Paume fizeram uma bela parceria com o MIS e trouxeram os trabalhos de Chico Albuquerque e Willy Ronis, respectivamente. O francês é um dos principais nomes da fotografia humanista e é essencial

para entender a história da fotografia francesa. A mostra traz oitenta fotografias de Ronis, que passeiam entre o cotidiano urbano parisiense e se aprofundam na denúncia das injustiças sociais do período, em greves e protestos, nos quais o fotógrafo participa ativamente, além de registrar os eventos. Chico Albuquerque ficou conhecido pela sua produção de fotografia publicitária, de arquitetura e de estúdio. A mostra conta com a curadoria de Sérgio Burgi e traz 150 imagens do fotógrafo, que passam por todos os aspectos da sua produção. Outro grande nome da fotografia que ganha uma exposição em Maio no MIS é o diretor de fotografia Carlos Ebert. Responsável pela fotografia de grandes clássicos do cinema marginal, a exposição traz imagens produzidas por ele ao redor de seus filmes, buscando compreender o espaço que rodeava em envolvia a produção em que ele estava trabalhando. Além deste grandioso time de exposições, o MIS ainda apresenta diversos cursos focados em fotografia com abordagens teóricas e práticas, que vão desde a fotografia básica até a análise da teórica da produção fotográfica recente. O MIS fica na Av. Europa, 158, em São Paulo. Funciona de terça a domingo, das 12h às 21h. Todas as exposições abrem no dia 30 de abril.


Joakim Eskildsen


Por um fotojornalismo feito de histórias Fotos: Lalo de Almeida | Texto: Ágata e Felipe Abreu

Lalo de Almeida conversou com a Old sobre a cobertura feita durante o Conclave e mais uma vez reafirmou a necessidade do fotojornalismo contemporâneo sair do óbvio e contar suas próprias histórias.

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“Não tem muito sentido mandar um fotógrafo para fazer a mesma coisa que as agências vão fazer, e ainda em condições de trabalho bem piores. Acho importante sim mandar um fotógrafo para grandes coberturas, mas para fazer histórias próprias, exclusivas”. O depoimento que Lalo de Almeida deu ao blog “Entretempos” depois de trabalhar na cobertura do último Conclave, em março deste ano, colocou as cartas do fotojornalismo na mesa. Atento e crítico, Lalo jogou luz sobre a dinâmica das coberturas jornalísticas que são feitas hoje e a necessidade delas serem reinventadas. Em atuação desde 1992, Lalo teve sua formação em fotografia na Itália, no Instituto Europeu de Design, e iniciou na profissão cobrindo a editoria de Polícia e assuntos internacionais, como a guerra na Bósnia. De volta ao Brasil, teve passagens pelo O Estado de São Paulo, Revista Veja e, por 16 anos, fez parte da equipe da Folha de São Paulo. Foi pelo jornal paulistano que Lalo acompanhou a escolha do novo Papa e questionou a estrutura que a envolvia. A imprensa do Vaticano tinha acesso exclusivo e em primeira mão às informações e imagens. Logo em seguida, as agências internacionais dominavam os melhores ângulos. Por fim, os fotojornalistas representando veículos tinham que dividir o

mesmo espaço com pessoas registrando o fato histórico com iPads e celulares.Esse foi o segundo Conclave consecutivo que Lalo acompanhou. Em 2005, registrou a nomeação de Bento XVI, e neste ano viu Francisco, o primeiro latinoamericano, ocupar o cargo. Se nesse meio tempo poucas coisas mudaram na Igreja Católica, o mesmo podemos falar sobre as imagens. Cenários semelhantes e as mesmas abordagens, resultado do protocolo que envolve as grandes coberturas factuais e que todos estão ali para fazer. As agências, inevitavelmente, levam vantagem. “O fato das agências de notícias dominarem o mercado é um reflexo do sistema econômico, poucos e grandes grupos dominam tudo. A consequência é a falta de diversidade nas coberturas fotográficas. Deu uma pasteurizada geral”, comenta Lalo. O reflexo desta condição do fotojornalismo são imagens que se repetem em capas de jornais e revistas e acabaram criando uma ditadura estética disseminada pelas agências. Uma impessoalidade que serve a notícia, não às histórias. Joan Fontcuberta em seu artigo sobre a Pós-fotografia, onde analisa as imagens da era online, diz que nesse contexto a velocidade prevalece o instante decisivo e a rapidez


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o refinamento. Uma análise intrínseca ao fotojornalismo contemporâneo e que reafirma a necessidade de repensar os seus caminhos.Para Lalo, a cobertura factual poderá cada vez mais ser feita por cidadãos comuns, e o profissional que continuar fazendo apenas isso, irá desaparecer. Por outro lado, é possível ir em busca de um fotojornalismo mais profundo, independente da pauta do jornal. Esse terá vida longa, pois “seja no papel ou no tablet, as pessoas sempre vão querer ver boas histórias”. Como as que, desde 2005, ele faz para o New York Times, oferecendo a sua visão sobre fenômenos sociais no Brasil, como o aumento da violência em Salvador ou a participação de jovens em igrejas evangélicas, por meio de reportagens multimídia. Isso acontece porque o jornal americano investe no olhar e na subjetividade dos fotógrafos e acaba agregando histórias exclusivas ao redor do mundo.Entretanto, para que isso aconteça, como bem destacou Lalo, é preciso que o jornal saiba dar às costas para a notícia e valorize as coisas interessantes que estão acontecendo ao redor do fato oficial. Para o fotógrafo, esse é o futuro do jornal. A ferramenta para que essas histórias pessoais sejam contadas e o olhar subjetivo prevaleça, é o desenvolvimento de um trabalho pessoal, pois é com esse exercício que se cria uma estética própria e as fotos se diferenciam das demais. Um desdobramento é conhecer as opiniões e posicionamentos do fotojornalista, que se torna um cronista da sociedade. Outro ponto importante que ele destaca é o fato de que hoje existem outras maneiras de produzir fotojornalismo para além do jornal. “É preciso encontrar outros mecanismos para viabilizá-lo como bolsas, prêmios, livros, editais e parcerias com terceiro setor. A pauta dos jornais está cada vez pior.”

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Paulo Batalha Rastros, Impress玫es e Camadas de Mem贸ria


Rastros, Impressões e Camadas de Memória fala sobre a vida ao redor do Elevado Costa e Silva, o Minhocão, em São Paulo. Paulo Batalha soube muito bem registrar e entender essa rotina, se concentrando nos momentos em que o Elevado está fechado para o trânsito e é ocupado de maneiras diferentes. Este ensaio foi um dos ganhadores da última edição do prêmio Marc Ferrez de fotografia e foi exposto na Mostra SP de Fotografia de 2013. OLD 18

no meu trabalho de pós-graduação e numa pesquisa sobre a ocupação de um espaço e os fatores intrínsecos a essa ocupação.

Como surgiu seu interesse em registrar o Elevado? Como correu o processo até esse interesse se transformar em ensaio?

Seu trabalho está bastante calcado na experiência das pessoas que usam e/ou convivem proximamente com o Minhocão. Como foi sua rotina durante a produção deste trabalho? Como ocorreu o contato com seus personagens?

Bom, surgiu há uns 4 anos, quando eu pesquisava questões relacionadas à cidade de São Paulo que pudessem trazer inspiração e motivação para um ensaio. Eu queria um tema que estivesse estreitamente relacionado ao cotidiano de uma metrópole como São Paulo e no qual eu pudesse me aprofundar. Foi aí que me veio a ideia de trabalhar a questão da área pública de lazer, um espaço necessário e escasso em grandes cidades. O Minhocão me pareceu um lugar ideal para o começo da pesquisa, pois sua construção é um sintoma típico do crescimento desordenado das cidades e da falta de planejamento urbano. Além disso, é ocupado e utilizado como área de lazer nos horários em que está fechado. O que começou como um trabalho sobre área de lazer transformou-se

Minha rotina consistia em caminhar pelo elevado durante à noite e aos domingos, observando as paredes dos prédios, os grafites, as janelas, o interior das casas buscando cenários e personagens que eu achasse que seriam interessantes para compor minha ideia. Com algumas pessoas, eu conversei mais, a outras, apenas pedi para fazer um retrato. Uma senhora que sempre está no elevado se exercitando e que fotografei diversas vezes não sabe até hoje que está no ensaio. Mas a maioria dos retratos são intensamente dirigidos. Eu deslocava as pessoas de lugar e construía algumas cenas a fim de criar o clima que eu achasse interessante. A ideia do ensaio é justamente fazer uma interpretação do lugar a partir da sua história atribuindo significado às imagens.


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Você constrói um clima bastante tenso e fechado em suas imagens. Você pretende transmitir a sensação de quem convive com o Elevado através desta construção visual?

O quanto você acredita que o Elevado Costa e Silva prejudicou a qualidade de vida do moradores do centro de São Paulo? Você acredita que a opção pelo uso como local para caminhadas, passeios e afins compensa de alguma forma esse dano? Eu acredito que a construção do Minhocão tenha prejudicado a vida de quem mora no centro. Pelo menos, é a impressão que eu tenho ao caminhar pelo bairro e pelo Elevado. As marcas estão pelas paredes dos prédios, nas janelas quebradas, na sensação de abandono, de modo geral. E imagino que sua ocupação sirva não só como uma válvula de escape, mas que também tenha a ver com a necessidade natural do ser humano em ter um tempo para o lazer. Uma grande via, livre de carros, acaba sendo um lugar propício para tais atividades.

A proposta é exatamente essa: fazer mais do que registros visuais, mas construir uma narrativa que passe a ideia de que esse espaço sofreu degradação e que essa degradação se faz presente nos prédios, no comércio, nos rostos de quem frequenta o Elevado e seus arredores. São marcas, rastros que compõem a memória do lugar. E através da fotografia faço uma imersão nessa memória e crio minha interpretação do que vejo. A opção pelo clima mais soturno foi proposital. Como você acredita que o registro fotográfico pode transformar a situação do Elevado e dos moradores da região? Não acredito que esse registro possa transformar algo, nem tinha a pretensão disso. No máximo, talvez chame a atenção para a escassez de áreas de lazer em São Paulo, quem sabe? De qualquer forma, nunca tive essa intenção. Apesar do ensaio partir de um embasamento documental, tentei me afastar e fazer uma releitura particular, improvisar sobre o tema e buscar um resultado mais subjetivo, flertando com um caráter ficcional.

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Mariana Caldas de Oliveira Dos Encontros


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Mariana Caldas de Oliveira apresenta na OLD seu ensaio Dos Encontros, uma série de imagens analógicas que experimentam com as características deste suporte e registram encontros inesperados, entre homem e natureza.

As cenas, os personagens e o tratamento das imagens dão a Dos Encontros um ar de fantasia, de uma realidade paralela. Você concorda com isso? Como foi desenvolvida essa abordagem?

Esse ensaio foi todo fotografado com filme, certo? Porque essa opção? Qual sua relação com a fotografia analógica?

Legal você falar isso, eu concordo. Mas acho que a mágica está nesses encontros, o simples fato de eu estar ali naquele momento e eles também, seja por acaso ou destino. Esse não foi um projeto planejado, um belo dia eu percebi que tinha essa coleção de fotos muito fortes, muito intuitivas, que apesar de serem de lugares e épocas diferentes tinham muito em comum. Elas aconteceram, naquele instante, naquele segundo. E misteriosamente guardaram momentos muito únicos, íntimos, mas muito parecidos. Eu sinto como se todos eles estivessem em horinhas de descuido, sabe? Eles estão ali, vendo a vida passar, viajando dentro deles talvez, em momentos de contemplação, de pausa, de simples presença. Eles estão ali, vivendo. E eu acho que vem daí essa sensação de realidade paralela, do quanto o banal pode ser extraordinário.

Eu aprendi a fotografar com filme. Tenho uma relação de amor com a fotografia analógica, amo a textura, a cor, o processo, a surpresa. Existe muita mágica no filme e eu amo isso.


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Um dos pontos mais interessantes no seu trabalho são os personagens apresentados. Como você os encontrou? Você tem ou teve algum contato direto com eles? Não sei, por isso que digo que esses encontros são muito mágicos, eu estava ali, com a minha câmera, e por algum motivo, eles também. A maioria eu não conheci e provavelmente nem me percebeu. Eu sou muito invisível nesse projeto. São pessoas que passaram pelo caminho naquela hora, naquele lugar e eu quis guardar elas comigo. Olha um exemplo da mágica, eu não sabia quem era aquela mocinha com uma coroa de flores na praia, mas não conseguia olhar para nada além dela naquele momento. Muito tempo depois ela encontrou a minha foto e se reconheceu. E aí descobrimos que tínhamos uma amiga muito amada em comum.

As fotografias deste ensaio foram produzidas em locais e contextos diferentes. Como foi o processo de edição das imagens? Como foi construir o fio narrativo deste ensaio? Eu construí esse ensaio pensando nesse mistério, em como as coisas acontecem na vida, sabe? Acho que vida acontece quando a gente menos espera, quando estamos distraídos e deixamos espaço para a mágica acontecer. Esse ensaio nasceu do inesperado, da experiência. Dos lugares que passei, das pessoas que encontrei. Acho que no fim, ele fala da nossa travessia, sobre o que vivemos, sobre o que aprendemos e evoluímos no caminho. E também sobre como é importante viver o presente ao invés de querer estar em algum lugar do futuro ou do presente.


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Para você um dos grandes objetivos da fotografia é promover encontros? Juntar e aproximar as pessoas? Eu acho a vida sim é a arte do encontro e também dos desencontros, que promovem outros encontros. Pra mim a fotografia é mais, vai além. Ela tem esse poder te transportar. Você pode guardar aqueles lugares e momentos em que foi muito feliz e revisitá-los sempre que quiser, e também viajar por muitos outros através dos olhares de outras pessoas. E sentir coisas que nem sabe explicar! É muito incrível.

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OLD ENTR

JORGE


REVISTA

BISPO


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Jorge Bispo é um retratista. Um dos grandes retratistas brasileiros. Já fotografou muita gente e sempre consegue trazer o que há de mais marcante nessa pessoa para as suas fotos. Além de fotografar músicos, atores e outras figuras importantes, Jorge tem um projeto chamado Apartamento 302 em que faz nus de amigas, conhecidas e afins. Jorge é especialista em produzir belas imagens. Conversamos com ele por email para conhecer um pouco mais do seu processo de trabalho. Jorge, só para começar o papo, como você decidiu que seria fotógrafo? Como começou sua relação com a fotografia? Nunca pensei de maneira tão clara. Eu trabalhava como ator a adolescência todo por conta de vir de uma família de teatro. E comprei uma Zenit pra fotografar os bastidores, ensaios ... Daí a fotografia foi ganhando espaço e o teatro foi sendo deixado de lado naturalmente. Depois de um tempo Sai do teatro e fiquei só com a fotografia.

Seu trabalho é bastante concentrado no retrato, na relação com as pessoas. Como é seu processo de criação nos retratos? O quanto ali é seu e quanto é do retratado? Sou retratista. Eu gosto de produzir no improviso e hoje em dia cada vez mais direto, sem muito planejamento. Acho que o retrato nasce desse atrito. Essa mistura do que a pessoa quer mostrar e do que eu quero como imagem. Você trabalha tanto com pessoas acostumadas a serem fotografadas, como músicos e atores, como com pessoas comum que não tem esse costume. Sua abordagem é muito diferente nesses dois casos? Como é sua relação com as pessoas que fotografa? Não muda. Não diferencio entre famosos e não famosos. As pessoas são muito diferentes. Mesmo dentro dessas categorias não existe regra. Minha relação é tranquila e direta. Não sou o esteriótipo do fotógrafo de falar, dirigir, elogiar, gritar. Eu dirijo pontualmente. É mais uma espécie de sintonia fina, pequenos detalhes.


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Conte um pouco sobre a criação e o desenvolvimento do projeto Apartamento 302. Ele nasceu naturalmente. Sempre cliquei aqui amigos, artistas amigos, nus. E um dia dando uma olhada geral nos nus comecei a ver uma certa unidade. E resolvi organizar e abrir o diálogo através da internet pra receber as modelos. Passei a clicar nas minhas folgas pessoas que que vinham através do email criado para o apartamento. Você tem uma preocupação com a quebra do estereótipo de beleza feminino? Apartamento 302 tem esse objetivo? Não é uma preocupação. Ali eu fotografo da maneira que acho bonito. Essa beleza natural que todos tem. Honestamente eu acho mais bonito esse tipo de estética do que a vigente. Mas não é uma bandeira e nem estou indo contra outra estética. Cada uma tem seu momento e suporte. Eu sou a favor de liberdade total para todos os lados.

Como é o processo, o ritmo, na produção das fotografias das mulheres que visitam o Apartamento? É muito mais simples do que imaginam. Eu fotografo sempre que minha agenda bate com as modelos. Existem mulheres que fotografaram 10 min, 20 e 1 hora... Depende do meu tempo, do tempo dela e se a coisa está fluindo. O personagem é o centro da sua produção fotográfica. Você acredita que o principal papel da fotografia é contar histórias e que o retrato seria a melhor maneira de alcançar esse objetivo? Acho que contar história é um dos papéis da fotografia mas não sei te dizer se é o principal. Eu acredito tb na imagem pela imagem. Na beleza, no poder estético dela. E o retrato é uma das maneiras que temos de contar estórias ou de simplesmente termos uma imagem bela e poderosa.

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André França Nightswimming


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Nightswimming é uma série de trípticos produzida pelo fotógrafo André França em uma praia deserta, em uma noite de lua nova. A única luz que proporcionou estas fotografias partiu do flash da sua câmera. A série de trípticos busca representar o que há de mais marcante no mar: sua movimentação. A séries de trincas visuais descontroem o horizonte, que é outra marca constante em fotografias que apresentam o mar. Aqui na OLD apresentamos oito imagens da série. Para que você possa apreciar melhor a potência do trabalho, vamos com duas inovações: páginas negras e nenhum texto à partir de agora.


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Henrique Marques Imperi锚ncia Entr贸pica


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Henrique Marques apresenta na OLD seu ensaio Imperiência Entrópica, que apresenta recortes obscuros do cotidiano. São quadros precisos, que constroem um mosaico de uma realidade imaginária. Henrique acabou de ser terceiro lugar no prêmio Pierre Verger, na categoria Inovação e Experimentação. Parabéns ao fotógrafo! Henrique, para começar, conte um pouco sobre o ensaio Imperiência Entrópica. Imperiência Entrópica nasceu durante um outro ensaio que eu estava desenvolvendo na época. Um projeto que possuía uma forte relação com o processo de desgaste do corpo humano no decorrer da vida. Durante as pesquisas para esse antigo projeto, li a dissertação de mestrado do João Castilho e, consequentemente, alguns textos do Robert Smithson, entre eles: Uma Sedmentação da mente. Os textos ampliaram minha visão, e minhas questões se deslocaram para outro lugar. A

partir disso, o conceito de entropia passou a martelar em minha cabeça constantemente e me fez observá-lo em tudo o que eu via e vivia, me levando para além da proposta inicial. Logo, meu antigo projeto passou por uma metamorfose e comecei a explorar essas potencias que, nesse momento, eram bastante presentes na minha mente. Então, o ensaio passou a buscar uma possibilidade de se tornar uma metáfora para um mundo fraturado e frágil, onde lugares e não lugares se deterioram. É o movimento natural da vida, da natureza, da sociedade. As imagens mostram desde pequenas coisas da natureza até objetos do nosso cotidiano, entre outras imagens que buscam representar o imaginário, a mente – que também se deterioram. As imagens abolem qualquer nacionalidade, estereótipo ou classe, universalizando os espaços em que vivemos, quem somos e como somos. Pois o processo entrópico ignora todas essas questões; ignora até mesmo a diferença entre homem, mente e terra, colocando todos em um mesmo patamar e um mesmo processo - apontando um mesmo final. Ser humano, natureza e imaginário se tornam um corpo-uno, formando um caldeirão de significações metafóricas, filosóficas e poéticas sobre a sedimentação do todo.


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Neste trabalho vejo uma busca por encontrar recortes de um espaço que ninguém percebe, como se o fotógrafo olhasse para trás, encontrando aquilo que nunca é destacado. Houve realmente essa busca? Essa noção foi um dos guias deste ensaio? Se você viu isso, com certeza existe alguma coisa disso no ensaio. O trabalho é uma espécie de sugestão. Gosto de oferecer impressões sobre minhas questões. A ideia é fazer com que a obra passe de um interesse individual para um interesse universal. O trabalho vai se completar no público. E com certeza vão existir significados bem distintos dessa mesma obra para cada pessoa. E todas elas são legítimas. Claro que tive minhas questões motivadoras que me levaram a realizar o projeto, como citei acima. Mas, com o tempo, nós vamos encontrando tantas outras pequenas potencias e possíveis leituras que a nossa própria concepção sobre o trabalho se expande para um lugar mais das possibilidades do que das certezas – o que eu acho muito mais interessante, inclusive. Obviamente fica a essência, mas como diria Jorge Luís Borges: “Qualquer coisa sugerida é melhor do que qualquer coisa apregoada”.

Imperiência... constrói sua narrativa através de recortes do espaço apresentado. Você buscou construir, com estas imagens, um universo de sensações e percepções ou há uma narrativa clara dentro deste trabalho? O trabalho segue por um caminho mais das sensações e das percepções, sim. Acho que uma narrativa clara não funcionaria muito bem para esse projeto (ou, talvez, eu é que não saberia lidar muito bem com isso). Vamos ao encontro de reminiscências, dúvidas, questionamentos, fabulações, sensações e ficções criadas a partir desses recortes. É um percurso labiríntico, como disse Eder Chiodetto, certa vez. Isso pode ser um reflexo do processo, pois trata-se de um trabalho híbrido, onde imagens montadas e intervenções criadas para a câmera se mesclam com imagens de registro, de arquivo pessoal e algo próximo do momento decisivo em uma ou duas imagens.

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Há um clima bastante sombrio nessas imagens, com cores escuras e densas. Essa é uma construção que guia seu trabalho fotográfico? Um dos projetos que tenho trabalhado é tão sombrio que chego a achar o Imperiência Entrópica bem “clarinho”. Mas definitivamente não é uma construção que guia o meu trabalho em geral. Essas atmosferas são criadas sempre de acordo com a proposta do projeto. Talvez, uma coisa mais constante no meu trabalho (o que não é regra) sejam as falhas, as marcas, os rastros, os resquícios, o chão. Não necessariamente coisas deformadas, mas coisas desgastadas, que carregam marcas fortes de “ex-istência” em sua aparência. Imagens que trazem algo entre a singularidade e a fragilidade, o sinistro e o desamparo, coisas potencialmente recusáveis – no caso do Imperiência Entrópica: que estejam perdendo seu vínculo com

o mundo, se desfazendo. Pode parecer exagero, mas esses objetos/estado das coisas, possuem certa semelhança com diversas situações do nosso quadro social. Existe o conceito de “entropia social”, e Levi Strauss dizia que: “No lugar de antropologia, seria necessário escrever ‘entropologia’ o nome de uma disciplina dedicada a estudar, em suas manifestações mais elevadas, o processo de desintegração”. Esse processo de desintegração é por onde eu arrisquei caminhar durante esse projeto, e outras coisas nesse sentido acompanham outros trabalhos. Didi Huberman fecharia bem: “Alguma coisa permanece que não é a coisa, mas um farrapo da sua semelhança. Alguma coisa – bem pouco, uma película – resta de um processo de destruição: essa alguma coisa, ao mesmo tempo em que testemunha uma desaparição, luta contra ela, pois se torna a ocasião da sua possível memória”. Isso talvez seja algo mais próximo de uma “construção guia” para alguns de meus trabalhos.

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Ultrapassagem por Tito Ferradans

Ultimamente tem se falado muito em RAW no âmbito do vídeo digital. “Ah, eu quero uma câmera que filme em RAW”, “Essa câmera é cara porque filma em RAW”, “Olha essa, é barata, e filma em RAW!”, e por aí vão. O que é RAW, como isso se relaciona com a fotografia, e por que todo mundo tanto o deseja? Essas são boas perguntas pra começar. Um dos fatores de resistência na migração de fotógrafos profissionais, do analógico para o digital, é que as câmeras digitais não armazenavam tanta informação luminosa quanto o filme, impedindo ajustes e correções feitas manualmente durante o processo de revelação das imagens. A maioria das câmeras digitais é projetada para simplificar a vida do usuário e automatizar todas as escolhas entre o momento do clique e a geração da imagem final, mas câmeras profissionais permitem que o fotógrafo tenha total controle sobre o seu trabalho, e isso se dá através dos arquivos RAW. A nível microscópico, o sensor digital é um tabuleiro de chips fotossensíveis. Cada chip desses é a menor área de captura de luz da câmera. Eles são organizados em blocos de quatro chips, sensíveis às cores primárias. Um vermelho, um azul e dois verdes – a sensibilidade da visão humana é desequilibrada para o verde, portanto, essa regra se mantém no sensor da câmera,


ou teríamos um registro muito diferente daquele feito pelos nossos olhos. Cada um desses chips captura a intensidade luminosa daquela cor naquela minúscula parte do sensor, transformando uma medida analógica em digital. Falando assim, não dá pra imaginar quão numerosos e minúsculos são esses chips. A base de cálculo é de um milhão deles para cada megapixel de resolução. Uma câmera com 20 megapixels tem, portanto, 20 milhões de chips fotossensíveis distribuídos em menos que 1cm², que é a área do sensor. De forma simples, um arquivo RAW é aquele que armazena essa matriz de informação de intensidade elétrica dos chips, sem qualquer processamento. Do jeito que está, isso nem sequer forma uma imagem. Quando o usuário escolhe não fotografar em RAW, toda essa informação capturada pelo sensor passa por um processo chamado debayer, onde vai ser convertida em pixels – a menor unidade de medida da imagem onde cada uma das três cores tem valores variando de 0 a 255 que, quando combinados, criam cerca de 17 milhões de cores. O problema é quando você precisa fazer alterações ou correções nas suas imagens depois do clique. Conforme você vai mexendo com as informações de cor nessa imagem já préprocessada, a qualidade começa a cair rapidamente e suas fotos, que pareciam ótimas quando saíram da câmera, já não se seguram tão bem depois de um tratamento. O que acontece então se a captura for logo após o clique, sem passar pelo debayer ou por qualquer outro processamento da câmera, e as manipulações forem feitas diretamente sobre a informação crua, vinda do sensor? Existem uma série de programas capazes de interpretar esses dados, traduzi-los como imagem e abrir o jogo para correções. Nessa hora você vai perceber o quanto o RAW faz diferença.

Aqui, cada cor não é limitada a 256 valores. Vermelho, verde e azul têm mais de 16 mil variações cada um, totalizando aproximadamente 4,5 trilhões de cores possíveis. É possível fazer grandes ajustes sem causar perdas de qualidade e com muito mais liberdade. É possível recuperar partes perdidas, ressaltar detalhes que pareciam totalmente ocultos, fazer alterações específicas em canais de cores, e por aí vai. O formato e essa liberdade não são novidade para a fotografia, mas no que diz respeito a vídeo, o tópico ainda é novo. Até recentemente, apenas câmeras de cinema profissional eram capazes de atender essa demanda, a preços altíssimos. As vantagens do formato, para vídeo, são potencializadas em relação às fotos, afinal, são seqüências de muitas fotos por segundo. É preciso lembrar que o objetivo do vídeo RAW é armazenar o máximo possível de informação no quadro para depois trabalhar em cima dele na pós produção. O resultado imediato é uma imagem sem graça, chapada, muitas vezes suave e totalmente sem personalidade. A partir dela, o fotógrafo vai utilizar toda a informação de cor e luz contida ali para estilizá-la de acordo com o produto final, sem restrições técnicas para sua criatividade, diferente da realidade do vídeo comum, onde muitas vezes você já tem que imprimir o visual que quer no resultado.

Tito é fotógrafo de vídeo e vive a testar todas as (im) possibilidades que câmeras e lentes lhe oferecem. Você pode saber um pouco mais de suas peripécias em tferradans.com/blog

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Fissuras por Ágata

Desdobramentos de um processo curatorial Como reunir nomes icônicos em uma mostra coletiva sem que haja uma competição indesejada entre os artistas, uma obra não ofusque a outra e ainda exista relações entre elas? Essa foi uma das questões que vieram à tona depois de visitarmos a “Coleção Itaú de Fotografia Brasileira”, que fica em cartaz até 19 de maio no Instituto Tomie Otkahe, em São Paulo”. A exposição, que nos convida a embarcarmos na história da fotografia experimental do país dos últimos 60 anos, consolidou sua força ao se apresentar como conjunto, o que nos levou a compreender que os passos tomados pela curadoria seriam um possível desdobramento para as nossas reflexões em torno do processo criativo na fotografia. Percebemos que, a partir daquela experiência, precisaríamos nos aproximar das motivações e escolhas do curador Eder Chiodetto. Ele adota como hipótese curatorial a existência de uma fotografia experimental brasileira que surge no final dos anos 1940, no contexto dos fotoclubes, é interrompida no período da ditadura militar e retomada no processo de


redemocratização. De forma não-linenar, ele se propõe a mostrar que os anos de chumbo não foram suficientes para anular o desenvolvimento de uma fotografia mais experimental no país, que tem suas raízes no modernismo. Para contar essa história, Eder parte do princípio de que “a curadoria deve sempre sugerir novos pontos de vistas, iluminar pontos obscuros da história, desacomodar clichês e ironizar a linearidade das narrativas”, sinalizando o exercício de reflexão que permeia o trabalho do curador e que nos interessa descortinar. Foi nos anos 50 que a figura do curador fincou seus pés no universo das artes e, desde então, sua principal função é mediar a relação entre a obra de arte e o público. O curador alemão Johannes Cladders, disse certa vez que o artista é aquele que cria a obra, mas é a sociedade que a transforma em obra de arte. Neste processo de aflorar a relação da arte com o mundo, ou aproximar a arte da vida, o curador por meio de suas pesquisas estéticas, históricas e políticas, é uma peça central. Isso se reflete na montagem da exposição, que é a responsável por nos conduzir pelo argumento do curador, pela intencionalidade dos artistas e permitir um espaço para reflexão advinda do encontro entre arte e público. Sobre esse movimento, o curador diz que quando pensa em uma montagem, pensa na construção de um mundo paralelo. “É como se estivéssemos encapsulando o visitante, o tirando do seu universo cotidiano para levá-lo para outra dimensão. É preciso construir uma atmosfera particular para sequestrar as pessoas da velocidade de processamento de dados que temos hoje, da necessidade de decifrar tudo rapidamente num golpe de olhar.” Antes desse momento decisivo, muitas camadas envolvem o

processo da curadoria, como a aproximação com o trabalho do artista, a pesquisa teórica, a museografia, a iluminação, o texto curatorial, o catálogo, além de oficinas e workshops que vem endossar a participação do público e sua aproximação com a arte. Com isso, podemos pensar em uma co-criação entre curador e artista, em que o primeiro se concentra em destacar o que há de vibrante nos trabalhos e conceitos apresentados, costurando as obras em um argumento central. Entretando, Chiodetto ressalta que a curadoria tem um limite que, segundo ele, é o de não ferir a essência das obras e tirálas do contexto que foram geradas para defender a hipótese curatorial. É um trabalho de responsabilidade, que envolve a sua experiência e o conhecimento sem abrir mão da intuição. Não é à toa que, cercados por todos esses desdobramentos que fazem a arte ir além das paredes do cubo branco, as exposições passaram a ocupar muito mais a nossa memória do que as obras isoladas. Por esse caminho não menos labiríntico do que o das imagens que seguiremos nas próximas colunas, um momento de reflexão necessário para compreender como se dá o processo de criação na curadoria.

Ágata é um coletivo multidisciplinar em construção. Um encontro de afinidades que tem na fotografia um campo fértil para o exercício crítico e da expressão artística.

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EM 2013 OS DOCUMENTÁRIOS DA OLD CONTINUAM A TODO VAPOR. FALAMOS COM

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Apple-bobbing at Ditherington Hallowe’en party / Geoff Charles (1909-2002)

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Edição especial de aniversário com novas sessões, portfolios, entrevista e muito mais!

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