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DOCUMENTÁRIOS OLD + SAMBAPHOTO: A OPINIÃO, A VISÃO E OS E CLARO, SUAS FOTOGRAFIAS TAMBÉM.

VIMEO.COM/REVISTAOLD


QUESTIONAMENTOS DE GRANDES FOTÓGRAFOS BRASILEIROS.


Revista OLD Número 16 Novembro de 2012 Equipe Editorial Direção de Arte Texto e Entrevista

Felipe Abreu e Paula Hayasaki Felipe Abreu Felipe Abreu e Tito Ferradans

Capa

Gustavo Gomes

Fotografias

Gustavo Gomes Raquel Santos Rafael Carneiro

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Parceiros


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Gustavo Gomes Portfolio

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Raquel Santos Portfolio

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Ultrapassagem Coluna

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Rafael Carneiro Portfolio


Essa OLD, para variar um pouco, tem mais novidades para você! Já pensando no ano que vem estamos experimentando novos formatos para a estrutura da revista. Nessa edição por exemplo não temos entrevista, mas temos três portfolios muito bons! Começamos as atividades com Gustavo Gomes e seu ensaio Limites. As imagens do interior de Minas mostram muito bem o ritmo e as cores características do nosso interiorzão. Raquel Santos, nossa segunda colaboradora na edição, apresenta seu ensaio Tsurus, com mares de origamis intervindo na natureza. É um trabalho com grafismos muito fortes e com um processo de reconstrução da natureza marcante. Para fechar nossa edição de novembro

temos Rafael Carneiro com o trabalho DoisLados, que se utiliza da múltipla exposição para fundir histórias e a coluna Ultrapassagem, já em sua segunda edição. Eu não deveria falar nada, mas o final de ano da OLD, que começa agora, tá caprichado! Aguardem que o Papai Noel vai chegar carregado!

Felipe Abreu


Halloween Visitors to the Oval Office. Caroline Kennedy, President Kennedy, John F. Kennedy, Jr. White House, Oval Office., 10/31/1963Haven, Florida


Gustavo Gomes Limites

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O ensaio Limites foi todo desenvolvido em Minas, na cidade de Cássia. Qual é sua relação com esse local? O Ensaio Limites foi desenvolvido por Gustavo Gomes na cidade de Cássia, no interior de Minas Gerais. É um caminho de cores, momentos íntimos e uma apresentação precisa do ritmo do interior brasileiro. Gustavo contou mais sobre o processo na entrevista à seguir.

Foi lá que eu nasci, em 1981, e é lá que minha família vive até hoje. É uma típica cidade do interior, com igreja na praça central, coreto, casas antigas e algumas ruas de paralelepípedos. Mas sempre preferi fotografar as ruas mais afastadas da cidade, áreas no limite entre as zonas urbana e rural.


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As fotos do ensaio foram todas feitas ao longo dos últimos três anos, durante visitas de poucos dias à cidade, em feriados ou folgas do trabalho. Limites mostra muito bem as marcas e o ritmo de uma cidade do interior. Como foi buscar esses momentos? Não sei se posso dizer que houve uma busca. Na verdade, as fotos foram surgindo de uma maneira bem despretensiosa, sem ideias preconcebidas. Assim como faço em São Paulo, eu saía para caminhar bem cedo pela manhã ou no final da tarde, quando a luz já não estava tão dura, e ia fotografando

qualquer coisa que chamasse minha atenção. Plantas, detalhes de fachadas, animais, os moradores. Acho que essas marcas e esse ritmo lento sugerido pelas imagens são resultado mais da edição das fotos do que de uma busca pensada previamente. Você chegou a desenvolver alguma relação com os personagens apresentados? Como foi desenvolvido esse contato? Sim. Não é muito comum ver alguém com uma câmera semi-profissional fotografando por aqueles lados, então a todo momento

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eu era abordado pelos moradores, principalmente as crianças, perguntando sobre o motivo das fotos. A reação das pessoas era sempre muito amistosa. Muitos pediam para ser fotografados e outros sugeriam que eu fotografasse isso ou aquilo. Exatamente o oposto da paranoia em relação à fotografia de rua que se encontra nas grandes cidades. Mas sempre busquei não interferir nas cenas fotografadas. As conversas com os moradores geralmente aconteciam depois que eu já havia fotografado o que queria. Nenhuma das fotos é posada ou consentida. Limites trabalha uma questão muito interessante do interior brasileiro que é o uso de cores fortes na pintura de casas e comércios. Esse foi um dos motivadores deste trabalho? Concordo que as cores fortes dos muros são

marcantes no ensaio, mas a princípio isso não foi um dos motivadores do trabalho. A ideia original era fazer fotografia de rua em uma cidade pequena, e a presença dos muros e de outros elementos das ruas da cidade são apenas uma consequência natural disso. Você acha que há uma importância maior da cor do que dos personagens em Limites? Acho que as cores e os personagens são complementares, e que certamente o trabalho perderia força se faltasse um dos dois.

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Raquel Santos Tsurus

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Raquel Santos é uma jovem fotógrafa paulistana, com apenas vinte e um anos já passou pela Escola Panamericana, por vários ramos da fotografia e agora atua como assistente do curador Eder Chiodetto. A Raquel apresenta na OLD seu ensaio Tsurus.

Como surgiram o desejo e o conceito para desenvolver o ensaio Tsurus? Aprendi a dobrar o Tsuru quando criança e me lembro bem da professora contando a lenda original japonesa sobre o pássaro: diz a lenda que quem dobrar mil tsurus alcança a felicidade plena e a longevidade (pois esses pássaros vivem por mil anos), desde então tive o desejo de um dia dobrar os mil. Fazia tsurus todos os dias e ficava tentando


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imaginar quantos faltavam para mil. Depois comecei a estudar outros origamis, modulares, mais complexos, deixei a ideia da felicidade de lado e me dediquei aos diagramas mais difíceis. Mas sempre acreditei mesmo na sorte e felicidade que ele representa e essa crença segue comigo até hoje. Como a imaginação pode voar e a fotografia pode misturar realidade e ficção, representar sonhos e paisagens surreais, pensei na possibilidade deles existirem entre nós, como seriam seus rituais, seu pouso, como transmitir essa mágica que eles trazem. Tsurus são associados à cura e a paz e em seu ensaio eles estão imersos na natureza, seja ela destruída pelo homem ou não. Como surgiu essa associação, entre tsuru e natureza dentro deste trabalho?

Existem diversas lendas sobre o tsuru, a mais conhecida é a lenda onde ele representa a cura. Após a bomba de Hiroshima, uma garota chamada Sadako ficou doente e uma amiga disse que se ela dobrasse mil tsurus e fizesse um pedido para OLD cada um, se tornaria realidade, e ela podia 24 então se curar. A partir de então o Tsuru é mais reconhecido por cura, em 1958 foi criado um monumento em homenagem as crianças que morreram por conta da bomba todo ano pessoas de vários países mandam tsurus para lá. Mas não é esta a abordagem do ensaio. O tsuru já existia antes, como um pássaro mágico que vivia por mil anos trazendo longevidade e felicidade. Foi pensando na lenda o original que segui.


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buscando referências na land art e querendo mostrar o bando e os rituais dessas aves, que cheguei no resultado da natureza. Imaginei que para mostrar o que os tsurus representam, o encontro só podia ser no meio da paisagem, quando não houvesse ninguém por perto. Em paisagens reais, OLD 29 como se eles fossem reais também. Em algumas imagens os tsurus formam pequenos crop circles [símbolos que aparecem em plantações sem maiores explicações], você vê esse ensaio como uma espécie de intervenção na natureza? Sim, penso que é uma intervenção. Estes símbolos sempre me intrigaram, crop circles, linhas de Nazca, geoglifos em geral, além

das formas são cercados de lendas e mistério. Tive também bastante referências pesquisando a Land Art, trabalhos do Robert Smithson, João Castilho (series Linhas e Tempero), Christo e Jeanne-Claude, Richard Long, Robert Morris, alguns artistas que trabalham com instalações na natureza, e por vezes, com esculturas. Claro que foram pesquisas rápidas, hoje em dia estou mais focada, explorando e entendendo melhor as questões da Land Art, me interesso muito por ela.


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Há uma sentimento controverso dentro deste ensaio, por mais que os tsurus sejam relacionados à paz e à serenidade, há, nas imagens, uma certa tensão, locais inóspitos ou alterados pelo homem. Para você, qual o significado dessa oposição dentro desta série? Acredito que essa tensão se dá pela forma que os tsurus estão posicionados e não por conta dos locais. Todo ritual cria uma tensão, e as formas circulares, a dupla exposição, ajudam nisso. Acho que essa tensão é sutil e necessária para o trabalho. Suas imagens tem diversas camadas de construção: montar tsurus, compor a cena, fotografar e, em alguns momentos, refotografar para criar múltiplas exposições. Esse tempo de criação tem

um papel fundamental dentro deste ensaio? Muito! Só para produzir mil tsurus levamos um tempão, e nem consegui colocar todos os mil nas imagens, pois são muitos! Eu já tinha em mente os lugares que gostaria de fotografar. As fotos foram feitas basicamente em Botucatu, Pardinho e Caconde, lugares que viajo sempre. Então eu já tinha intimidade com os locais e com os tsurus. Depois tinha que desenhar a posição dos pássaros e finalmente organizá-los na paisagem. Mas tudo dependia também do tempo, não podia chover, ventar demais, sol muito forte, etc. A edição e tratamento das imagens foram mais importantes que tudo, para criar uma unidade entre as paisagens.

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Rafael Carneiro DoisLados

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Rafael Carneiro é mineiro, de Belo Horizonte. É médico e músico, além de fotógrafo. Mais um dos nossos amigos multitarefa! Aqui na OLD, Rafael apresenta seu ensaio DoisLados, baseado na múltipla exposição. DoisLados trabalha com fotografia analógica e múltipla exposição. Como surgiu seu interesse por esse suporte e

por essa técnica? Sempre gostei de fotografia analógica. Saber que você não terá um preview instantâneo da foto te faz concentrar mais na composição, na fotometria, em todos os aspectos da fotografia. É um exercício de calma, espera, contemplação. Um verdadeiro ritual. Nas minhas pesquisas mais recentes, venho


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buscando formas diferentes de sobrepor imagens. A maioria das câmeras analógicas oferece o recurso da dupla exposição. Tenho tentado ir além disso, fazendo sobreposições dentro, fora da câmera e nos dois lados de um filme. A técnica empregada em DoisLados surgiu mais especificamente a partir da técnica de redscale ou escala de vermelho. Imaginando que um filme fotográfico colorido negativo seja composto por várias camadas de cor sensíveis à luz sobre um suporte plástico, e sendo a última camada a de cor vermelha, o redscale consiste em inverter o filme e fotografar somente o verso do mesmo. A luz então atinge primeiro a camada vermelha e a imagem adquire uma tonalidade que varia do amarelo ao marrom, passando pelo laranja e vermelho. Em DoisLados, o que é feito de diferente é a frente do filme ser exposta primeiro. Depois o filme é invertido na câmara escura, volta pra câmera e tem o seu verso exposto, como se fosse um

redscale. Daí surgem as sobreposições das imagens. A maioria das suas fotografias cria uma oposição entre as duas imagens que as formam. Sua intenção com a dupla exposição era construir essas dualidades dentro de um mesmo quadro? Qual a história que você conta com DoisLados? Existe um toque de imprevisibilidade nesse trabalho. Ao virar o filme, não tenho controle sobre quais fotogramas serão sobrepostos. As forças antagônicas do universo são muito fortes. Mesmo de maneira aleatória, elas aparecem nas sobreposições de DoisLados, mostrando o caráter irrevogável das

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dicotomias que vivemos sempre. O bem e o mal, o velho e o novo, o céu e o inferno. Os opostos sempre existirão, assim como a constante busca pelo estado de equilíbrio, pela homeostase. Como foi o desenvolvimento dessas duplas imagens? Você tinha em mente cada sobreposição que iria ser OLD feita ou houve um fator aleatório nas 43 construções? As terceiras imagens, resultantes das sobreposições, surgem de maneira completamente aleatória. Procuro fotografar temas urbanos em geral, que aparecem nos meus deslocamentos diários e não há controle algum sobre qual imagem aparecerá e nem sobre a justaposição exata dos fotogramas. Utilizo o acaso como recurso criativo.

Você tem um trabalho muito forte com as cores nesse ensaio, em especial o vermelho. Como foi o desenvolvimento dessa estética? O que você pretende passar com essa predominância de uma cor? O vermelho surge naturalmente, já que é uma das cores que predominam quando se fotografa o verso do filme. DoisLados é um trabalho formal, não há uma preocupação específica com uma determinada cor e sua carga emocional. A intenção é plástica, de manipular cores e formas livremente.


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Tito Ferradans

Ultrapassagem por Tito Ferradans

Alemanha, 1890. O ambiente: um misto de laboratório e oficina mecânica bem iluminada. Paul Rudolph faz cálculos infinitos para verificar o trajeto da luz que percorre o interior do seu projeto de objetiva. As contas batem. Ele inicia a confecção dos vidros, corte e polimento, num processo totalmente manual. Algo como lapidar uma pedra preciosa. Nascia a Zeiss-Protar, primeira lente anastigmat, que deu uma guinada na história da fotografia ao corrigir a maior parte das graves distorções de imagem que afetavam projetos anteriores. Artesanalmente produzidas, cada lente era única. E cara. Só em meados de 1950, começou o uso de computadores para fazer os cálculos e,


pouco depois, para executar as misturas, cortes e polimento do vidro. Uma tabela de reciclagem de materiais nos informa que uma garrafa de vidro jogada na natureza nunca se decompõe. Lentes operam na mesma linha. Se bem cuidada, sua ótica vai funcionar pra sempre. Analogamente, seu preço se mantém através dos anos. Algumas sobem de preço: não são mais fabricadas e sua qualidade excede as concorrentes atuais. Através do uso de adaptadores, podemos trazer de volta essas pedras preciosa de décadas atrás.Com essas lentes é conseguese um visual diferente com um menor custo. Um cuidado é fundamental: checar se os encaixes são compatíveis. Cada encaixe tem uma distância em relação ao plano do sensor, determinada pelo fabricante. Este espaço é ocupado pelo mecanismo do espelho. Se a lente precisa de uma distância maior ou igual à que a câmera oferece, a adaptação é possível. Existem também

câmeras que não possuem esse mecanismo de espelho, como a EOS-M e a NEX, que podem ser combinadas com quaisquer lentes, desde que com o adaptador adequado. Os encaixes mais simples, como o M42, têm adaptadores mais baratos, mas lentes de cinema, por exemplo, são mais complexas, e seus adaptadores chegam a custar pequenas fortunas. O encontro de lentes antigas e câmeras atuais traz opções de “olhar” que não ficam restritas à escolha OLD 46 da distância focal, mas se expandem para a imensa variedade de características individuais de cada lente (e cada fotógrafo!). Escolher a lente é como escolher “os olhos” que vão testemunhar a cena. Tito é fotógrafo de vídeo e vive a testar todas as (im)possibilidades que câmeras e lentes lhe oferecem. Você pode saber um pouco mais de suas peripécias em tferradans.com/blog


Mande seu portfolio para revista.old@gmail.com


Diver and photographer at Cypress Gardens: Winter


OLD Nº 16