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Tempo livre, tempo nobre texto Fabio Lopez

Algumas pessoas associam projetos pessoais a falta do que fazer e tempo sobrando. Outras ficam surpresas quando veem alguém se dedicar a uma causa profissional não remunerada, como se tratasse de filantropia, hobby ou alguma espécie bauhasiana de terapia ocupacional.

Não foram poucas as vezes que escutei de amigos comentários sobre estar com ‘tempinho’, ainda que essa expressão pejorativa viesse junto a algum elogio sincero. Mas a verdade é que, geralmente, quem se dedica a projetos pessoais trabalha dobrado. A principal diferença entre um trabalho oriundo de uma demanda comercial ou um projeto pessoal é a motivação. E felizes são aqueles que não têm apenas o dinheiro como a cenoura na frente do burrinho. Designers criativos devem ser capazes de encontrar motivação em um conjunto muito mais complexo de relações, evitando que sua perspectiva profissional acabe tão estreita a ponto de passar apenas uma moeda por vez.

Paremos, então, de chamar aquele tempo arduamente protegido de suas obrigações profissionais de ‘tempo livre’. Faz parecer que você é escravo do tempo o tempo todo, transformando momentos de reflexão pessoal e design independente em passeios no pátio e banhos de sol ocasionais. De agora em diante, chamemos esse tempo de ‘tempo nobre’, porque é isso que ele é. O fato de muitas vezes ser pouco e exclusivamente seu só confirma isso. Tempo livre é para escravos, tempo nobre é para designers donos de seus narizes. Alguns acham que investir tempo e energia em projetos não remunerados é uma forma romântica de se encarar a profissão. Na minha


Brasão de Armas da República Federativa do Brasil Proposta não-oficial de redesign, padronização e simplificação gráfica do brasão nacional.

Layout de Apreensão e Tipografia de Flagrante Investigação sobre a preocupação estéticotipográfica dos agentes de segurança pública.

Tempo livre é para escravos, tempo nobre é para designers donos de seus narizes.

boogie-woogie-tererê Se Piet Mondrian tivesse nascido no Rio de Janeiro o neoplasticismo não teria colado.

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Fl ductus Fonte display com ajuste contextual hiperbólico high tech.

opinião, romantismo é acreditar que você vai encontrar satisfação pessoal para 50 anos de carreira trabalhando apenas por dinheiro.

não ser esta a única forma de aferir valor a suas realizações, e para que assim você não se torne, inevitavelmente, seu pior cliente.

No entanto, o que caracteriza um projeto pessoal é a origem da demanda e não a ausência de retorno financeiro. Um profissional versátil deve ter capacidade de gerar demanda para sua própria expertise profissional, não dependendo de oscilações naturais do mercado para estar sempre em ação.

E ainda que essa não seja uma questão urgente ou principal, cedo ou tarde, projetos relacionados à sua área de atuação acabam transformando-se em capacitação, oportunidade de trabalho e incremento de portfólio – coisas que nem sempre um bom salário é capaz de fazer.

Com algum talento comercial é possível transformar seus projetos pessoais em fontes de renda, recompensando seu empenho em cascalho. Tome apenas algum cuidado para

Para muitos profissionais, a separação entre projeto pessoal e comercial tem sido cada vez mais difícil de estabelecer. Isso acaba, naturalmente, afetando o regime de prioridades e

Todo mundo é igual por dentro Ilustração freak outsider artist com esferográfica.

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Rethink Consumption Cartaz: o que é diversão pra uns pode ser perigo pra outros.

Papo Furado Inc. Cartaz pra Bienal Brasileira de Design: contra greenwashing.


o investimento de tempo em cada operação. Bom sinal, pois não consigo imaginar o que pode ser mais interessante que ser um designer independente, ainda que isso não signifique trabalhar sempre sozinho ou em demandas exclusivamente pessoais.

Bando Imobiliário Carioca Jogo de tabuleiro parodiando o clássico Banco Imobiliário: denúncia bem humorada sobre o problema das milícias no Rio de Janeiro.

Por isso, descubra quais são as suas motivações e entre em ação. Olhe em sua volta, procure algo que te incomoda profundamente na sua cidade ou no seu cotidiano e veja como sua profissão é capaz de transformar positivamente esse cenário. Você tem em mãos uma poderosa ferramenta de comunicação, e como profissional pode exercer um papel fundamental na criação de uma comunidade mais engajada e consciente. Faça das horas vagas um tempo nobre, dedicado ao exercício de questões pessoais e boas ideias. Mãos à obra. 

War in Rio Reflexão e entretenimento canalha, o projeto fez sucesso no final de 2007 apresentando uma versão carioca do tradicional jogo War.

Batalha Na Vala Fechando a trinca de jogos proibidões, o passatempo redesenhado ganha versão favela e reproduz uma truculenta operação policial.

Cavêras! Sou designer de caveira desde os nove anos e dou três gols de vantagem pro Herchcovitch.

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tempo livre, tempo nobre