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© Fabiano Camilo. Todos os direitos reservados.

como nascem os anjos

Editora www.comosanjos.com.br

corpo: as relações entre interior e exterior mediadas pela pele

www.comosanjos.com.br foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - NãoComercial - SemDerivados 3.0 Não Adaptada. com base no trabalho disponível em www.comosanjos.com.br. podem estar disponíveis autorizações adicionais ao âmbito desta licença em www.comosanjos.com.br.

Fabiano Camilo Brasília-DF 2012


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Fabiano Camilo

Brasília-DF 2012


© Fabiano Camilo. Todos os direitos reservados.

Editora www.comosanjos.com.br

www.comosanjos.com.br foi licenciado com uma Licença Creative Commons Atribuição - NãoComercial - SemDerivados 3.0 Não Adaptada. Com base no trabalho disponível em www.comosanjos.com.br. Podem estar disponíveis autorizações adicionais ao âmbito desta licença em www.comosanjos.com.br. Texto, capa, projeto gráfico e diagramação Fabiano Camilo

ficha catalográfica

S586c Silva, Fabiano Camilo e. Como nascem os anjos – corpo: as relações entre interior e exterior mediadas pela pele / Fabiano Camilo e Silva – Brasília: SENAC DF, 2012. 68 f. Orientador: Jaime Ferreira de Vasconcellos Neto Trabalho de Conclusão de Curso (Especialista em Artes Visuais) SENAC/ DF, 2012. 1. Fotografia. 2. Realidade. 3. Espiritualidade. I.Título. CDU 77


O corpo: superfície de inscrição dos acontecimentos (enquanto que a linguagem os marca e as ideias os dissolvem), lugar de dissociação do Eu (que supõe a quimera de uma unidade substancial), volume em perpétua pulverização. A genealogia, como análise da proveniência, está, portanto, no ponto de articulação do corpo com a história. Ela deve mostrar o corpo inteiramente marcado de história e a história arruinando o corpo. FOUCAULT, 1979, p. 22


agradecimentos

salve Ariel Lacerda Xavier Camilo e Silva, meu filho e meu Consigliere; salve Simone Xavier por mostar o caminho que não deve ser trilhado; salve meus pais, Sandra Lúcia dos Santos Silva e José Oswaldo da Silva, pela construção e cuidado com a família; salve meus avós, Geralda Moreira dos Santos Silva e Geraldo José da Silva, pais da minha mãe, Iracema Tavares da Silva e José Pedro da Silva, pais do meu pai, pela origem; salve tia-avó Nair Moreira dos Santos pela sabedoria; salve meus irmãos Sandro e Pedro Camilo; salve monge Bruno Mitih Seigen; salve São Jorge pela proteção às lágrimas derramadas; salve equipe SENAC-DF, coordenadores e tutores.


lista de figuras

32 Fig. 1 – foto da escultura O Êxtase de Santa Tereza, Gian Lorenzo Bernini, esculpida entre 1645-1652, capela Cornaro,na Igreja de Santa Maria della Vittoria,Roma,Itália.

33 Fig. 2 – foto detalhe da escultura O Êxtase de Santa Tereza, Gian Lorenzo Bernini, esculpida entre 1645-1652, capela Cornaro, na Igreja de Santa Maria della Vittoria, Roma, Itália.

34 Fig. 3 – foto detalhe da escultura O Êxtase de Santa Tereza, Gian Lorenzo Bernini, esculpida entre 1645-1652, capela Cornaro, na Igreja de Santa Maria della Vittoria, Roma, Itália.

35 Fig. 4 – foto detalhe da escultura O Êxtase de Santa Tereza, Gian Lorenzo Bernini, esculpida entre 1645-1652, capela Cornaro, na Igreja de Santa Maria della Vittoria, Roma, Itália.

37 Fig. 5 – foto da escultura da beata Ludovica Albertoni, Gian Lorenzo Bernini, esculpida entre 1671-1674, capela Paluzi-Albertoni, na Igreja San Francesco a Ripa, Roma, Itália.


38 Fig. 6 e 7 – fotos do Cristo Barroco no livro Salvador de Mario Cravo Neto, nascido em 1923.

42 Fig. 8 a 21 – como nascem os anjos: corpo : as relações entre interior e exterior mediadas pela pele.


sumário

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lista de figuras

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introdução

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processo arqueológico

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produção para saber

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conclusão

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referências

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anexo


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introdução

Este trabalho teve como ponto de partida o tema corpo: as relações entre interior e exterior mediadas pela pele. Utilizando o registro fotográfico de uma perfomance de suspensão corporal, busca-se o entendimento do que aparentemente é um sofrimento, contudo, por aquilo que está oculto, o que não é dito, ou, o que aparentemente está oculto. Considerando as infinitas possibilidades dos afetos que pulsam e circulam nas diferentes sociedades humanas, a pele não é apenas o limite físico dos nossos corpos, pode e é manipulada para atender as necessidades individuais para a sobrevivência. Obviamente temos, pelas fotos, uma ligação com o efêmero, aquilo que não temos domínio, mas somos dominados por ele, o tempo; para alguns, vida e morte, para outros, religiosidade, e a arte facilitando a compreensão. Como suporte ferramental, procurei utilizar a Judische Kop uma forma cultural específica de abordar a realidade, na qual o uso da ignorância é o ponto de partida. Conta-nos Bonder (1995, p.7): “Não se trata de um método e nem de uma sabedoria, mas do acúmulo de ‘massa crítica’ mínima de problemas necessária para instaurar um processo voluntário de questionamento do impossível”. Na etapa de prospecção arqueológica, busquei o entendimento da representação do corpo, no imaginário dominante no processo de formação histórica e cultural da sociedade brasileira. A realidade é para

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ser desbravada, observe o seu corpo, não apenas a carne, mas todos os belos pedaços que nos compõem ou integra. As palavras nada são do que a nossa imaginação. 1 Na etapa de produção para saber, fui ao encontro do êxtase, êxtase, s. m., arrebatamento do espírito; enlevo; contemplação do que é divino, sobrenatural, maravilhoso.2 Apesar de aparentemente, a evidência é de sofrimento, pendurar carnes humanas por anzóis.

1 http://www.citador.pt/pensar.php?op=10&refid=200502182236&author=149&fb_ source=message 2 http://www.priberam.pt/DLPO/default.aspx?pal=êxtase


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processo arqueológico

A inquietação inicial foi no sentido de entender o que está oculto nas manifestações de suspensão corporal. Já que não há, pelo menos, na aparência, evidências de que seja uma prática positiva, que proporcione prazer e felicidade. Considerando as infinitas possibilidades dos afetos que pulsam e circulam nas diferentes sociedades humanas, a pele não é apenas o limite físico dos nossos corpos, pode e é manipulada para atender as necessidades individuais para a sobrevivência. Encontramos até a destruição, auto-infringida, da pele para permitir a continuidade da vida. Para tal, recorro à história brasileira, particularmente na representação acerca da Revolta da Vacina ocorrida no Rio de Janeiro em 1904, que não considera a realidade histórica complexa em torno da vacinação na época de Oswaldo Cruz até os dias atuais. Essa representação acaba servindo para legitimar posturas por parte do Estado brasileiro, por parte da imprensa e por profissionais de saúde, que continuam a entender a resistência como uma postura atrasada e reveladora da ignorância da população, e consequentemente, contrária ao desenvolvimento social e econômico do país, e mais do que isso, acaba legitimando a postura autoritária do Estado, quando este

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precisa dialogar e se relacionar com a sociedade, e também revela a característica histórica pouco democrática da sociedade brasileira. Este tema surge decorrente da necessidade de compreender as razões para que o Estado brasileiro depois de 100 anos da Revolta da Vacina, publicasse uma portaria determinando a obrigatoriedade das vacinas e mais do que isso, a novidade, exige a comprovação por parte dos cidadãos. Há realmente uma mudança de comportamento e percepção por parte da população em relação à vacinação? A resistência na Revolta da Vacina à aceitabilidade nos dias atuais. O Ministério da Saúde publica a Portaria nº 597/GM de 08/04/2004, na qual há a determinação de que as vacinas e períodos estabelecidos nos calendários de vacinação são de caráter obrigatório, exigindo a comprovação quando: no pagamento de salário-família; na matrícula em creches, pré-escola, ensino fundamental, ensino médio e universidade; no alistamento militar; para recebimento de benefícios sociais concedidos pelo Estado e para efeito de contratação trabalhista; ou seja, obriga, cobra e pune caso o indivíduo não cumpra a obrigatoriedade.3 3 Após, praticamente, seis meses depois da publicação da portaria nº 597/GM de 08/04/2004, o Ministério da Saúde publica a portaria nº 2.170/GM de 07/10/2004 revogando o artigo 5º, que trata exatamente das penalidades, ou melhor, dos benefícios que o cidadão não terá direito por não ter se vacinado. Com isso, volta-se a situação anterior, a da portaria de 1978 que instituiu a obrigatoriedade da vacinação mas não as penalidades ou punições pela falta de comprovação. O objetivo do artigo 5º da portaria nº 2.170 pode até ser nobre e tecnicamente justificável, ou seja, garantir o aumento da cobertura vacinal da população brasileira de um modo geral, mas, desconsidera que o quadro social brasileiro não necessita mais de choques de rumo. A medicina não é mais a prática privilegiada para o exercício do controle social, continua desempenhando o seu papel mas não como teve com Oswaldo Cruz, que como vimos, junto da obrigatoriedade da vacinação trazia todo um leque de transformações para a vida da população. Além disso, desconsidera as jurisdições de outras áreas do Estado. Sem falar, que ao institucionalizar mais um documento obrigatório para o exercício da cidadania brasileira, repete o erro ao transformar direito em dever.


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Aparentemente, nada mais justo e correto, já que pela lógica positivista da ciência do final século XIX, temos como referência o mito fundado e construído de que temos então uma ruptura com o passado, ou seja, se é possível tratar das doenças infecciosas utilizando-se da vacinação, não há razão que possa contrapor ou questionar a sua aplicabilidade. E mais, se efetivamente vacinar a população é o procedimento adequado, comprovado cientificamente, para controlar as doenças, a obrigatoriedade torna-se legítima. Considerando o contexto em 1904 e o de 2004, são situações historicamente diferentes, inclusive separadas por lapso temporal de 100 anos. Contudo, é sintomática a tentativa de resgatar a efetiva obrigatoriedade da vacinação com a exigência da comprovação, já que a portaria anterior, Portaria nº 221/GM de 05 de maio de 1978, que regulamentava o assunto desde então, não contemplava a exigência da comprovação. Como devemos perceber e compreender a estratégia estatal em determinar a obrigatoriedade e a comprovação de vacinação para todos os indivíduos da sociedade, ou melhor, daquela parcela que faz parte e daquela que quer fazer parte dos “incluídos”? Será que é legítimo que o Estado amplie as obrigações individuais em nome da coletividade? Será que há atualmente as condições sociais, políticas e culturais para a implementação dessa proposta? Acredito que devemos procurar estabelecer uma compreensão sobre o que se ganha e o se perde com a obrigatoriedade e a comprovação de vacinação para todos os indivíduos, e mais do que isso, o que se ganha e o que se o que se perde com a forma de resolução, publicando normas e regulamentos para procedimentos compulsórios sobre os corpos.

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Verifica-se que, ainda hoje, há profissionais de saúde com a mesma concepção positivista de ciência e, além disso, com motivação e a crença da necessidade de interferência nos hábitos e costumes da sociedade de forma impositiva e punitiva, com o objetivo de sanear problemas de saúde pública. Hoje em dia, embora o conceito de aceitabilidade tenha se tornado politicamente correto, valorizando a vertente positiva da resistência, a maioria dos colóquios sobre vacinas ainda não se posiciona sobre o assunto e concede pouco espaço às associações ou aos especialistas de ciências sociais. Isso porque a resistência continua sendo percebida, na maioria das vezes, como uma reação secundária que complica o trabalho das empresas farmacêuticas e das instituições estatais, um obstáculo a ser contornado mais do que entendido, manifestando-se uma certa hesitação em ouvir as “lições da história”. (MOULIN, 2003, p. 506-507)

A Revolta da Vacina ocorrida no Rio de Janeiro em 1904, nos apresenta um excelente exemplo do corpo compreendido dentro do contexto histórico de formação cultural da sociedade brasileira. Encontram-se opiniões na imprensa que afirmam de forma enfática


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que o tempo deu razão a Oswaldo Cruz 4 5. Parece que há uma confusão na percepção entre a necessidade das ações de prevenção e controle de doenças e na forma com que são conduzidas essas ações. Não se trata aqui de discutirmos se havia ou não a necessidade em realizar ações para o controle da varíola no Rio de Janeiro de 1904, mas sim, como essas ações são implementadas pelo Estado. Como esse Estado se relaciona com a população para resolver um problema de saúde pública. Como a partir da questão da vacinação contra a varíola, podemos perceber de forma inequívoca, a pouca inclinação para o discurso democrático e a facilidade com que o Estado Brasileiro utiliza-se da violência para estabelecer o consenso.

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MAGNO, Ana Beatriz. Apartheid imunológico. Correio Braziliense, Brasília, 31 out. 2004, p.29-30. Essa matéria aborda a questão da vacinação afirmando existir um aphartheid, uma separação imunológica (entendida como uma proteção) entre a parcela da população que se utiliza das vacinas que estão disponíveis para todos na rede pública do SUS, com a parcela que têm condições de utilizar as vacinas disponíveis na rede privada. Essa situação, segundo a repórter, é decorrente dos cortes orçamentários de um lado, e o avanço científico de outro, o que proporcionou o aumento da oferta privada de vacinas. Nos chama a atenção, como em nenhum momento se refere ao contexto mercadológico existente hoje em diversas áreas, principalmente quando falamos de saúde. Na segunda parte da matéria, busca retratar a Revolta da Vacina, lembra que Oswaldo Cruz assumiu o cargo de diretor-geral de Saúde Pública com “a complicada missão de sanear a cidade e limpar a imagem do país”. “Oswaldo Cruz optou por duas medidas drásticas. Derrubou as moradias populares infestadas de ratos e conseguiu aprovar no Senado uma legislação que obrigava a vacinação e punia quem desobedecesse. O povo chiou. A imprensa fez forte oposição e satirizou o médico. No dia 13 de novembro de 1094, eclodia a Revolta da Vacina. Teve quebra-quebra, barricada e tiroteio durante três dias. O governo derrotou o levante, mas suspendeu a obrigatoriedade das injeções. O tempo deu razão a Oswaldo Cruz….”. Sevcenko nos fala que os revoltosos “Obstavam, enfim, não contra a vacina, cuja utilidade reconheciam, mas contra as condições de sua aplicação e acima de tudo contra o caráter compulsório da lei” (SEVCENKO, 2003, p.14). A perspectiva da matéria elabora uma representação histórica vazia, não estabelece a complexidade que envolvia os acontecimentos, não percebe a teia de relações sociais e culturais existentes na sociedade do Rio de Janeiro de 1904, os diversos interesses dos grupos sociais da época. Elege uma data para a eclosão da revolta que não tem fundamento histórico. Personaliza os acontecimentos em torno de Oswaldo Cruz, reduzindo de forma drástica os significados sociais da revolta, e delimita a compreensão histórica da revolta como sendo uma discussão (fictícia) a favor ou contra a vacinação. Dessa forma, realiza uma leitura dos acontecimentos conforme e em concordância com o relato oficial do Estado, aborda Oswaldo Cruz como vitorioso na Revolta da Vacina, ignora o contexto social, político e cultural que envolvia as resistências frente a obrigatoriedade da vacinação. 5 VERISSIMO, Luiz Fernando. Coluna: Verrisimo. O Globo, Rio de Janeiro, 23 out. 2005. Em sua coluna do jornal, o autor aborda e discute a questão do plebiscito que o Estado brasileiro realizou sobre a proibição ou não do comércio de armas de fogo e munição no território brasileiro. Realiza uma reflexão na qual faz referência a Revolta da Vacina, acontecimento histórico que, segundo o autor, evidencia uma situação de ignorância da população sobre os reais impactos e objetivos da vacinação. Ao utilizar essa referência, nos mostra mais um exemplo de como é representado, a imagem que se tem sobre a resistência de setores da população do Rio de Janeiro em 1904.

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Utilizando-se do diário de Lima Barreto como fonte primária dos acontecimentos acerca da Revolta da Vacina, o historiador Sevcenko selecionou um trecho da obra que aborda a reação e os procedimentos do Estado para disciplinar e impor a ordem pública, além de demonstrar alto pendor do autor para o humor irônico, demonstra também, a sua capacidade de análise dos acontecimentos que presenciou relacionando-os com a história do país, eis o trecho : Um progresso! Até aqui se fazia isso sem ser preciso estado de sítio; o Brasil já estava habituado a essa história. Durante quatrocentos anos não se fez outra coisa pelo Brasil. Creio que se modificará o nome: estado de sítio passará a ser estado de fazenda. De sítio para fazenda, há sempre um aumento, pelo menos no número de escravos. (SEVCENKO, 2003, p.80)

Lima Barreto observa com bastante propriedade como o passado de uma sociedade escravocrata, manifesta-se nos modos de ação e percepção do Estado quando este procura estabelecer e implantar novos projetos. Este novo projeto é o que está por trás da Revolta da Vacina, muito mais do que um simples procedimento médico e de saúde pública, uma ação que procura sanear, higienizar um espaço urbano e ordená-lo para atender e proporcionar, conforme coloca Sevcenko (2003, p.9) : a constituição de uma sociedade predominantemente urbanizada e de forte teor burguês no início da fase republicana, resultado do enquadramento do Brasil nos termos de uma nova ordem econômica mundial instaurada pela Revolução Científico-Tecnológica (por volta de 1870), foi acompanhada de movimentos convulsivos e crises traumáticas, cuja solução convergiu insistentemente para um sacrifício cruciante dos grupos populares.


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Considerando a revisão historiográfica proposta por Hespanha sobre a forma de funcionamento e de como é estruturado o poder no Antigo Regime. Muito mais do que um poder absoluto, dentro de um Estado Absolutista, este poder se configura em uma série de poderes oriundos de diferentes jurisdições. (HESPANHA, 2001, p.165-187 e 1994, p.295-324.) A ideia existente então, sobre o poder e como ele deve funcionar, está diretamente relacionada a uma mentalidade muito mais feudal do que capitalista. Hespanha nos apresenta a teoria corporativa da sociedade, que, baseada no pensamento social medieval, é diferente do pensamento, da concepção de mundo, próprio do capitalismo, fundamentado na ação do indivíduo. São pensamentos diametralmente opostos. Enquanto o capitalismo fundamenta-se no individualismo, “na irredutibilidade da sua natureza ontológica e dos seus fins”, ou seja, os desejos e consequentemente os direitos individuais, orientam e balizam os encaminhamentos dos projetos políticos que se manifestam na sociedade, e, além disso, estabelecem as maneiras e os modos de organização social, bem como a sua dinâmica; o pensamento medieval “era dominado pela idéia de ‘corpo’, ou seja, de organização supra-individual, dotada de entidade diferente da das partes, prosseguindo fins próprios e auto-organizada ou autoregida em função desses fins”. Ora, para o pensamento medieval, havia uma ordem universal que regia todos os homens e todas as coisas. Com forte influência da filosofia cristã, o criador (Deus) destinou para cada elemento uma função específica que deveria ser executada, para o perfeito funcionamento do cosmos e por desdobramento da sociedade. Por mais estranho que possa parecer em um primeiro momento, os elementos, as partes, os órgãos do corpo social não

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podiam ser reduzidos ou negligenciados pois, eram indispensáveis para o correto funcionamento do corpo integral, dessa forma, Hespanha, declara a impossibilidade lógica da existência de um governo político absolutamente centralizado, já que, vai de encontro à concepção de mundo hegemônica existente na época e que proporcionava a maneira de perceber a realidade pelos integrantes da sociedade. Essa revisão historiográfica provoca uma reflexão enquanto cidadãos do século XXI, pois resgata e constrói uma forma de pensamento que não é clara a princípio. A nossa concepção de mundo fundamentada no individualismo e na lógica racional e positiva, entra em choque no momento de montarmos virtualmente, e tentarmos fazer inteligível a teoria corporativa da sociedade, pois são bases opostas. No entanto, após esse esforço inicial, torna-se mais compreensível diversas características e dinâmicas da sociedade brasileira, ecoando esse passado feudal e corporativo. Façamos um parêntesis, para trazer à tona o trabalho de Perry Anderson (1985) sobre as origens do Estado Absolutista, que ao invés de representar uma ruptura com o Feudalismo que o precedeu, representa na verdade uma continuidade das sociedades feudais. Uma continuidade que incorpora modificações, principalmente, trazendo novas dinâmicas, novos ritmos e tempos de trabalho e de vida, ampliando as relações sociais internamente e externamente sem, contudo, modificar a “superestrutura”. Anderson cita o reflorescimento do direito romano, que na política favorece os instrumentos para efetivar a centralização dos poderes, e, na economia favorece o estabelecimento e a expansão do livre capital, a propriedade fica livre de foros e obrigações próprias do feudalismo. A modernização jurídica


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tem como efeito reforçar a dominação da classe feudal tradicional, o que provoca um paradoxo aparente, uma modernidade superficial e um arcaísmo subterrâneo. Esse parêntesis serve, entre outras coisas, para reforçar o interesse das elites coloniais em propagar a idéia de um colonialismo absoluto e centralizado, quando se lança no movimento para a independência. O discurso dessas elites fundamenta-se em construir uma visão de conflito entre os interesses da metrópole com os da colônia, pontuando de tal forma, que procura transformar os brasileiros “nativos” em uma grande massa homogênea, com interesses semelhantes, em contraposição aos representantes da metrópole. Hespanha nos mostra que, no caso do Brasil, é mais “agradável” entendermos a existência de um poder absoluto por parte da metrópole, determinando todas as ações e atividades realizadas e que viriam a ser desenvolvidas na colônia, ou seja, os responsáveis pelas causa dos nossos problemas são eles. Com a teoria do Estado Corporativo, podemos refletir sobre como é constituído o poder estatal na sociedade brasileira, bem como, as características e manifestações específicas da Justiça. Esse Estado traz toda uma cultura anterior da época feudal, e em alguns pontos até da Roma antiga. É pensado e vivido, levando em conta que a sociedade deve funcionar conforme um organismo, um ser vivo criado e instituído por Deus. Da mesma forma que um organismo, a sociedade é pensada e representada como constituída de um corpo, onde cada membro possui a sua função e especificidade. Esses membros não são indivíduos isolados, mas, sim, grupos e corporações que possuem os seus costumes e a sua jurisprudência.

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Ao tomarmos contato com os acontecimentos relacionados à Revolta da Vacina, as ações e as formas de atuação do Estado constituído por indivíduos com uma mentalidade que considera o corpus social hierarquizado, as ações de resistência da população são percebidas como contrárias à ordem natural das coisas. Não basta apenas lutar por um projeto, é necessário desqualificar a resistência e, mais do que isso, realizar procedimentos que têm como objetivo isolar o mal, conduzí-lo para o mais longe possível, na tentativa de garantir que não mais se manifeste. Daí a utilização das ações de punição sumária e a manifestação institucionalizada do Estado praticando o terror. A violência policial se distingue não só pela sua intensidade e amplitude, mas sobretudo pelo seu caráter difuso. Não importava definir culpas, investigar suspeitas ou conduzir os acusados aos tribunais. O objetivo parecia ser mais amplo: eliminar da cidade todo o excedente humano, potencialmente turbulento, fator permanente de desassossego para as autoridades. O desassossego das autoridades, não era apenas contra a massa de desocupados, vagabundos, gatunos e todo tipo de classificação que a sociedade faz para aqueles que estão à margem, mas sim, aos que se levantam e resistem contra ações do Estado. Vemos que as autoridades da época utilizavam um discurso que tinha como objetivo simplificar o leque do estrato social que criava a desordem. Esse estrato eram os que necessitavam de intervenção, de uma regeneração, moldar esses indivíduos para que se integrem ao projeto colocado em pauta pelo Estado. A relação entre medicina e Estado não é uma situação aleatória ou circunstancial, como pode parecer superficialmente. Podemos


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identificar um aperfeiçoamento dos mecanismos de disciplina e de controle social deste a Revolução Francesa até os dias de hoje. A sociedade burguesa, ou melhor, o capitalismo necessita e busca a disciplina, a ordenação do trabalho e das atividades humanas em geral. O sucesso da disciplina é obter corpos que atuam, se expressam e vivam dentro da ordem hegemônica. Como nos mostra Foucault, há um equívoco quando se considera a medicina praticada nos dias de hoje como sendo uma prática individual e não uma prática coletiva. Pode-se dizer – como dizem alguns, em uma perspectiva que pensam ser política, mas que não é por não ser histórica – que a medicina moderna é individual porque penetrou no interior das relações de mercado? Que a medicina moderna, na medida em que é ligada a uma economia capitalista, é uma medicina individual, individualista, conhecendo, unicamente a relação de mercado do médico com o doente, ignorando a dimensão global, coletiva, da sociedade? … a medicina moderna é uma medicina social que tem por background uma certa tecnologia do corpo social; que a medicina é uma prática social que somente em um de seus aspectos é individualista e valoriza as relações médico-doente. … com o capitalismo não se deu a passagem de uma medicina coletiva para uma medicina privada, mas justamente o contrário; que o capitalismo, desenvolvendo-se em fins do século XVIII e início do século XIX, socializou um primeiro objeto que foi o corpo enquanto força de produção, força de trabalho. O controle da sociedade sobre os indivíduos não se opera simplesmente pela consciência ou pela ideologia, mas começa no corpo, com o corpo. Foi no biológico, no somático, no corporal que, antes de tudo, investiu a sociedade capitalista. O corpo é uma realidade bio-política. A medicina é uma estratégia bio-política. (FOUCAULT, 1979, p. 79-80)

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Por mais estranho que possa parecer em um primeiro momento, é sobre os corpos que a história é construída. O uso e os abusos com que o Estado exerce o seu poder são sobre o corpo que as ações se tornam concretas. Como também, é através dos corpos que o poder passa de um indivíduo para o outro, manifestando-se de maneiras distintas, específicas, conforme cada situação e cada ambiente, mas mantendo o núcleo duro intacto, a ação disciplinadora e ordenadora. Não é por outra razão, que a preocupação com os bons modos, os bons costumes, a forma certa e socialmente aceita de se comportar, de se vestir, de manusear os talheres, a forma adequada de se expressar, o cuidado com a higiene e com a saúde, é potencializada no início do século XIX na Inglaterra vitoriana. Não precisamos ir tão longe para constatar essa realidade. Em relação a medicina, temos um relato pujante sobre a maneira de atuação dos guardas do Departamento de Profilaxia da Lepra (DPL) no estado de São Paulo em 1941, que seguindo o modelo que prevaleceu no país a partir de 1920 para tratamento dos portadores de hanseníase, a captura com o uso da força, quando necessário, e o isolamento completo dos doentes em asilos ou sanatórios. Os guardas, depois de passar pela casa, foram encontrá-lo a quatro quarteirões, em um bar da praça Marechal Deodoro, onde ele jogava bilhar. Ele tentou fugir, mas o mal perfurante nos pés, que se agravara, impediu que corresse. Não conseguiu ir além da calçada. Com a mesma técnica usada pelos homens da carrocinha para pegar cachorros na rua, um dos guardas tirou uma corda da cintura e laçou-o pelo tronco. Edmundo, um jovem de dezesseis anos, foi empurrado para a ambulância, que arrancou em direção à avenida Doutor Arnaldo, onde se localizava a sede do DPL. Ele chegou lá amarrado e, horas depois, seria mandado para Mogi das Cruzes, a 61 quilômetros da capital. (MARANHÃO, 2004, p. 32)


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Edmundo Donato, posteriormente Marcos Rey – seu nome artístico – escritor conhecido nacionalmente, autor da obra Memórias de um gigolô, e tantas outras, cometeu qual crime para receber esse tratamento? Para alguns, não havia e não há problema algum em se praticar tais procedimentos, já que existe uma razão maior, o bem estar coletivo. Contudo, não podemos perder o foco de que o bem estar coletivo é uma idéia construída historicamente em bases específicas, no caso brasileiro, a partir de uma estrutura social hierarquizada e uma cultura patriarcal, onde as micro jurisprudências estão sempre presentes. Isso significa que a manifestação do poder patriarcal não fica restrita aos que estão no topo da estrutura social, se aceitamos que o poder percorre os corpos e se manifesta através deles, aqueles indivíduos que sofrem também farão sofrer. O corpo: superfície de inscrição dos acontecimentos (enquanto que a linguagem os marca e as idéias os dissolvem), lugar de dissociação do Eu (que supõe a quimera de uma unidade substancial), volume em perpétua pulverização. A genealogia, como análise da proveniência, está portanto no ponto de articulação do corpo com a história. Ela deve mostrar o corpo inteiramente marcado de história e a história arruinando o corpo. (FOUCAULT, 1979, p. 22)

Foucault, ao estudar o poder, a sua manifestação, compreendeu como ele sobrevive nas relações sociais. Acabamos por viver uma realidade, na qual criticamos e às vezes nos opomos às instituições formais e que representam a face material do poder hegemônico, contudo, muitas vezes esquecemos que nós próprios, enquanto indivíduos, estabelecemos com os outros relações que veiculam e manifestam o poder que criticamos.

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Temos então uma situação que, ao mesmo tempo em que verificamos o esforço para transformar e inserir a sociedade brasileira na nova conjuntura econômica mundial, a estrutura social permanece com a mesma característica de extrema hierarquização em conjunto com a permanência da visão de mundo tomista, ou seja, uma sociedade corporativa. As transformações necessárias para um funcionamento da sociedade em perfeita sintonia com os preceitos do capitalismo se esbarram com as defesas dos micropoderes. Daí podermos entender, como a formação histórica da sociedade brasileira necessitou de quase 200 anos para aprovar o divórcio em suas leis. A concepção tomista da sociedade está intimamente ligada a uma relação umbilical entre Estado e Igreja, esta ditando, orientando e balizando os valores a serem seguidos, principalmente, em relação aos direitos civis. Essa característica histórica da sociedade brasileira conduz a uma situação onde o uso do autoritarismo é visto como algo natural e o seu uso e prática é um direito, uma prerrogativa do patriarca, o paterfamilis, aquele que cuida, providencia sustento, comanda e domina a sua família. As concepções que estabelecem o código de direto civil, evidenciam uma estrutura mental, de visão de mundo, sobre como funciona as relações entres as pessoas. (NEDER e FILHO, 2001) Encontramos na legislação de criação do Sistema Único de Saúde, Lei nº 8.080 de 19/09/1990, algumas definições interessantes: Art. 2º A saúde é um direito fundamental do ser humano, devendo o Estado prover as condições indispensáveis ao seu pleno exercício. § 1º O dever do Estado de garantir a saúde consiste na formulação e execução de políticas econômicas e sociais que visem à redução de riscos de doenças e de outros agravos e no estabelecimento de condições que assegurem acesso universal e igualitário às ações e aos


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serviços para a sua promoção, proteção e recuperação. § 2º O dever do Estado não exclui o das pessoas, da família, das empresas e da sociedade. … Dos Princípios e Diretrizes Art. 7º As ações e serviços públicos de saúde e os serviços privados contratados ou conveniados que integram o Sistema Único de Saúde (SUS), são desenvolvidos de acordo com as diretrizes previstas no art. 198 da Constituição Federal, obedecendo ainda aos seguintes princípios: … III - preservação da autonomia das pessoas na defesa de sua integridade física e moral; ... (BRASIL, 1990)

Ao mesmo tempo em que a saúde é definida com um direito fundamental do ser humano, institui o dever do Estado em garantila, contudo, logo em seguida transforma o direito em dever, coresponsabilizando as pessoas, as famílias, as empresas e a sociedade, ou seja, todo mundo tem o dever de garantir a saúde. Além disso, é necessário preservar a autonomia das pessoas na defesa de sua integridade, física e moral, como um dos princípios e diretrizes da legislação em questão. Como é possível conciliar isso tudo? A autonomia não pressupõe o direito de governar a si mesmo? Essas questões que vêm à tona, dizem respeito ao exercício do poder e as relações sociais. Dispomos da afirmação que o poder não se dá, não se troca, nem se retoma, mas se exerce, só existe em ação, como também da afirmação que o poder não é principalmente manutenção e reprodução das relações econômicas, mas acima de tudo uma relação de força. (FOUCAULT, 1979, p. 175)

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Claro que sabemos que a própria existência do Estado, qualquer que seja, está ligada a uma relação de poder hierarquizada, há aqueles que mandam e os que obedecem. Isso também significa que a resistência aos ordenamentos, é parte intrínseca do processo, por maior que seja o controle existente. (CLASTRES, 2003) Retomando o foco para o corpo, é sobre os corpos que a história é construída. Inserido no processo da Contra-Reforma levado a cabo pela Igreja Católica, o trabalho de Gian Lorenzo Bernini, 15981680, escultor, pintor, arquiteto, desenhista e cenógrafo, materializou representações de manifestações espirituais ou místicas para as artes sacras, seguindo os preceitos definidos pelo Concílio Ecumênico de Trento, 1545-1563, contra as inovações doutrinárias dos protestantes, para tê-las e utilizá-las como instrumento pedagógico para o ensino dos mistérios da fé. 986. Quanto às Imagens de Cristo, da Santíssima Virgem e de outros Santos, se devem ter e conservar especialmente nos templos e se lhes deve tributar a devida honra e veneração, não porque se creia que há nelas alguma divindade ou virtude pelas quais devam ser honradas, nem porque se lhes deva pedir alguma coisa ou depositar nelas alguma confiança, como outrora os gentios, que punham suas esperanças nos ídolos (cfr. Sl 134, 15 ss), mas porque a veneração tributada às Imagens se refere aos protótipos que elas representam, de sorte que nas Imagens que osculamos, e diante das quais nos descobrimos e ajoelhamos, adoremos a Cristo e veneremos os Santos, representados nas Imagens. Isto foi sancionado nos decretos dos Concílios, especialmente no segundo de Nicéia contra os iconoclastas. 987. Os bispos ensinem, pois, diligentemente, com narrações dos mistérios de nossa redenção, com quadros, pinturas e outras figuras, pois assim se instrui e confirma o povo, ajudando-o a venerar e


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recordar assiduamente os artigos de fé. Então sim, grande fruto se poderá auferir do culto das sagradas Imagens, não só porque por meio delas se manifestam ao povo os benefícios e as mercês que Deus lhes concede, mas também porque se expõem aos olhos dos fiéis os milagres que Deus opera pelos seus Santos, bem como seus salutares exemplos. Rendam, assim, por eles graças a Deus, regulem a sua vida e costumes à imitação deles e se afervorem em adorar e amar a Deus, fomentando a piedade. Se alguém ensinar ou pensar de modo contrário a estes decretos — seja excomungado. 988. Se nestas santas e salutares observâncias se introduzirem abusos, deseja ardentemente este santo Concílio que sejam totalmente abolidos, a fim de que não tenha isso para os simples as aparências de um falso dogma e não seja ocasião de erros. E se alguma vez acontecer que se representem e ilustrem episódios e narrações da Sagrada Escritura, como aliás é conveniente ao povo pouco instruído, ensine-se então que nem por isso é possível representar a divindade, como se a víssemos com os olhos corporais, ou a pudéssemos exprimir em cores e figuras... (CONCÍLIO ECUMÊNICO DE TRENTO, Sessão XXV, 3 e 4-12-1563)

A maioria das obras de Bernini foi realizada para a Igreja Católica, obviamente, após as disputas travadas com os representantes da Reforma era imperioso registrar a glória. Sua obra mais emblemática, a escultura O Êxtase de Santa Tereza encontra-se na Capela Cornaro, à esquerda do altar-mor da Igreja de Santa Maria Della Vitoria, Roma. Originalmente, a Igreja, cujo projeto foi de responsabilidade de Carlo Maderno, considerado o arquiteto-chefe do Vaticano na primeira década do século XVII, era dedicada a São Paulo sendo posteriormente devotada à Santa Virgem Maria, e aos cuidados da ordem dos Carmelitas Descalços 6. 6 <http://pt.wikipedia.org/wiki/Ordem_dos_Carmelitas_Descalços>

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Após a vitória dos católicos sobre os protestantes em White Mountain, em 1620, batalha decisiva para a Contra-Reforma na Boêmia, a Igreja passa a ser denominada Santa Maria Della Vitoria. 7 8 Fig. 1 – foto da escultura O Êxtase de Santa Tereza, Gian Lorenzo Bernini, esculpida entre 1645-1652, capela Cornaro, na Igreja de Santa Maria della Vittoria, Roma, Itália.

Fonte : <http://smarthistory.khanacademy.org/bernini-ecstasy-of-st.-theresa> acessada em 19/11/2011 7 <http://en.wikipedia.org/wiki/Battle_of_White_Mountain> 8 < http://www.britannica.com/EBchecked/topic/642395/Battle-of-White-Mountain>


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Fig. 2 – foto detalhe da escultura O Êxtase de Santa Tereza, Gian Lorenzo Bernini, esculpida entre 1645-1652, capela Cornaro, na Igreja de Santa Maria della Vittoria, Roma, Itália.

Fonte : <http://multiplosestilos.blogspot.com/2010/03/o-extase-de-santa-tereza-bernini.html> acessada em 19/11/2011

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Fig. 3 – foto detalhe da escultura O Êxtase de Santa Tereza, Gian Lorenzo Bernini, esculpida entre 1645-1652, capela Cornaro, na Igreja de Santa Maria della Vittoria, Roma, Itália.

Fonte: <http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Êxtase_de_Santa_Teresa> acessada em 19/11/2011


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Fig. 4 – foto detalhe da escultura O Êxtase de Santa Tereza, Gian Lorenzo Bernini, esculpida entre 1645-1652, capela Cornaro, na Igreja de Santa Maria della Vittoria, Roma, Itália.

Fonte : <http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Êxtase_de_Santa_Teresa> acessada em 19/11/2011

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Bernini trabalha o mármore para impregná-lo da emanação de verdade, há vida ali, e por conta disso, vemos as emoções de Santa Tereza, já que aqui não podemos colocar no singular. No caso, o êxtase, o arrebatamento do espírito; enlevo; contemplação do que é divino, sobrenatural, maravilhoso (PRIBERAM). O corpo é o documento original, a primeira fonte, o êxtase é a alma se desprendendo do corpo em direção a algo maior e imensurável, uma sublimação da dor em prazer pelo abandono do corpo (FERREIRA, 2003, p. 03). As representações de êxtase espiritual novamente foram o foco na escultura da beata Ludovica Albertoni, com Bernini já nos seus 73 anos quando inicia esta nova obra. Ludovica é oriunda de uma família rica e proeminente, mãe de três filhos, viúva em 1506. Seguia os preceitos dos franciscanos, conhecida por seus êxtases místicos e milagres. Segundo relatos, tinha o dom da levitação. Ela faleceu de causas naturais. 9 10 11 12

9 <http://www.franciscanos.org/santoral/ludovicaalbertoni.htm> 10 <http://en.wikipedia.org/wiki/Ludovica_Albertoni> 11 <http://www.escape-artists.com/berninis-rome/beata-blessed-ludovica-albertoni/> 12 < http://pt.wikipedia.org/wiki/Ludovica_Albertoni>


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Fig. 5 â&#x20AC;&#x201C; foto da escultura da beata Ludovica Albertoni, Gian Lorenzo Bernini, esculpida entre 1671-1674, capela Paluzi-Albertoni, na Igreja San Francesco a Ripa, Roma, ItĂĄlia.

Fonte: <http://it.wikipedia.org/wiki/File:Gian_Lorenzo_Bernini_-_Statua_della_Beata_Ludovica_ Albertoni.jpg> acessada em 19/11/2011>

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Mesmo sem conseguir identificar a autoria da escultura fotografada por Mario Cravo Neto e incluída em seu livro Salvador, ISBN 8585098-02-3, temos aqui um exemplar do Barroco nas terras e paragens brasileiras, revelando outra forma de êxtase. Fig. 6 – fotos do Cristo Barroco no livro Salvador de Mario Cravo Neto, nascido em 1923.

Fonte: <http://www.cravoneto.com.br/salvador/po/index.html> acessada em 19/11/2011.


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Fig. 7 â&#x20AC;&#x201C; fotos do Cristo Barroco no livro Salvador de Mario Cravo Neto, nascido em 1923.

Fonte: <http://www.cravoneto.com.br/salvador/po/index.html> acessada em 19/11/2011.

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produção para saber

Tendo como objeto a ser tratado, utilizei os registros fotográficos feitos por Bruno Mitih, durante apresentação de suspensão corporal na Galeria Prestes Mais, durante a Virada Cultural em São Paulo/SP, entre os dias 15 e 16 de maio de 2010. Bruno Mitih realiza trabalhos audiovisuais e fotográficos. Essa releitura teve como princípio, trazer para o plano principal a protagonista, além de implementar modificações de recorte, cores e inclusão de outros elementos com o objetivo de representar o contexto espiritual da experiência de suspensão corporal. Mesmo que nos dias atuais, a presença de público é quase uma obrigatoriedade, o foco é na individualidade da experiência específica da protagonista em tela. Fig. 8 a 21 – como nascem os anjos : corpo : as relações entre interior e exterior mediadas pela pele.

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Tive a intenção, no momento da escolha da representação de verdade a ser tratado, em ressaltar as características barrocas do fato em si, a suspensão corporal. Obviamente, o uso de anzóis, objeto ordinário no processo de pesca e em açougues, matadouros ou frigoríficos, estes, usam comumente os anzóis para dependurar carcaças inteiras, ou partes, cortes de carnes dos animais esquartejados e processados para consumo. O que se evidencia da alma pela aparência da bela mulher em suspensão? O êxtase. 13 Aparentemente cruel, mas ao se verificar as ocorrências pelo mundo e pelo tempo, que objetivam pela dor levar a alma a se desprender do corpo, há algo aí além do que os corpos suportam. Auto crueldade, sadismo, masoquismo? Não é possível generalizar, a resposta só podemos vislumbrar após observação do corpo ou corpos, caso seja feito em um ritual coletivo, que buscam o êxtase. 14 15 16 17 18 19 20 21 Pergunto, para quê dizer se já disseram antes? Cantado por Amélia Rodrigues, fadista, conhecida internacionalmente, e, atualmente pela Carminho, nome completo, Carmo Rebelo de Andrade, nascida em Lisboa, a 20 de Agosto de 1984.22 13 <http://pt.wikipedia.org/wiki/Êxtase> 14 <http://www.blogdacompanhia.com.br/2010/09/a-santa-teresa-de-bernini/> 15 <http://pt.wikipedia.org/wiki/Penitência> 16 <http://www.portaldemissoes.com.br/pt/noticias/atualidades/677-cristaos-seautoflagelam-e-sao-crucificados-para-sentir-o-que-jesus-sentiu> 17 <http://www.universocatolico.com.br/index.php?/o-qmisterioq-do-opus-dei-1.html> 18 <http://www.youtube.com/watch?v=Pb98z5VPwLc> 19 <http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI5505950-EI308,00-Iranianos+celebra m+a+Ashura+principal+festividade+xiita.html> 20 <http://pt.wikipedia.org/wiki/Ashura> 21 <http://www.chabad.org.br/tora/cabalaterapia/index3.html> 22 <http://pt.wikipedia.org/wiki/Carminho>

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As penas Como diferem das minhas As penas das avezinhas Que de leves leva o ar Só as minhas pesam tanto Que às vezes nem já o pranto Lhes alivia o pesar

As minhas penas não caem Nem voam nunca, nem saem Comigo desta amargura Mostram apenas na vida A estrada já conhecida Trilhada pelos sem ventura

Os passarinhos têm penas, Que em lindas tardes amenas Os levam por esses montes! De colina em colina, Ou pela extensa campina A descobrir horizontes!

Passam dias, passam meses Passam anos, muitas vezes Sem que uma pena se vá E se uma vem, mais pequena Ai, depois nem vale a pena Porque mais penas me dá Que felizes são as aves Como são leves, suaves, As penas que Deus lhes deu Só as minhas pesam tanto Ai, se tu soubesses quanto… Sabe-o Deus e sei-o eu!

As penas, poema de Fernando Caldeira, português, 1841-1894. 23 A representação do êxtase, óbvio que é, necessitava das penas explícitas, afinal, só acrescentei o que compreendi como sendo o oculto do aparente.

23 <http://jepleuresansraison.com/2011/06/26/as-penas-amalia-rodrigues-maria-teresade-noronha/>


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Como complemento e sĂ­ntese deste trabalho, o vĂ­deo como nascem os anjos em anexo procura em 10min30 apresentar por meio de registros imagĂŠticos, com som de Erik Satie, o aparente do oculto ou o oculto do aparente.

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conclusão

Nos tempos atuais, os corpos são mercadorias, produtos como os demais existentes no mercado. O êxtase, a experiência espiritual, nos tempos de hoje e em outros tempos também, para alguns há a necessidade que o corpo seja despertado, sensibilizado por dores físicas, para que a alma seja tocada. Obviamente, antes, agora e depois há inúmeras maneiras e formas, eu, opto pela que preserva a integridade e a fluidez da vida. O nosso corpo é o templo do que a nossa mente assim significar. Por isso, aqui cabe um pensamento jamaicano, se você não tem dinheiro, não é pobre, mas se não tem amor é muito pobre.24 O que cabe aqui, se não, a referência a tradição e a sabedoria. Três votos fará aquele que não ser tolo decida e venha deles primeiro o de obediência à vida será o segundo a vir o de não querer ser rico o muito passe de largo o pouco lhe apure o bico

não violar-se a si próprio como principal o veja alto ou baixo gordo ou magro assim nasceu assim seja.

24 <http://www.youtube.com/watch?v=KbQa2HsJLx0&feature=BFa&list=PL2457C5043F2 BCF74&lf=BFa>

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Vida, poema de Agostinho da Silva, português, in ‘Poemas’. 25 Considerando a sabedoria das escrituras antigas e dos novos avanços da neurociência, temos que cultivar o bom uso da língua 26. Há uma ligação direta dela com o coração e o cérebro. 27 28

25 <http://www.citador.pt/poemas/vida-agostinho-da-silva> 26 ... que uma palavra de verdade preceda toda a tua diligência. Uma palavra má transtorna o coração; dela vêm quatro coisas : o bem e o mal, a vida e a morte; sobre elas quem domina de contínuo é a língua. Eclesiástico 36-37 : Prudente escolha de um conselheiro 27 <http://gnt.globo.com/gntdoc/videos/_1304510.shtml> 28 <http://www.youtube.com/watch?v=Xl7ql1wDsMM>


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referências

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anexo

DVD com o vĂ­deo como nascem os anjos.


esta obra foi composta com as fontes Cronos e Jenson


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corpo: as relações entre interior e exterior mediadas pela pele

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