.o nosso mundo lá fora
a escola no estado novo Entrevista ao meu pai Que idade tem? Tenho 66 anos. Frequentou a escola até que ano de escolaridade? Até ao grau de mestrado. Quais as escolas que frequentou e onde se localizavam? Escola Primária Nº1, Lisboa; Liceu Nacional Luís de Camões, Lisboa; Academia Militar, Lisboa; Instituto Superior Técnico, Lisboa; Instituto de Altos Estudos Militares, Lisboa; Ordnance and Chemical Center School, EUA. O ensino era misto (rapazes e raparigas)? Não. Como é que um aluno deveria apresentar-se na escola (vestuário e materiais)? O aluno vinha vestido de forma tradicional e/ou fardado, consoante o tipo de escola. Qual a ideia que tinha da sua professora primária? A professora primária Palmira era uma professora de excelência, de muito conhecimento, de vasta cultura geral e, pedagogicamente, muito competente. Como é que eram as salas de aula? As salas de aula eram amplas, com carteiras para dois alunos e turmas de 35 a 40 alunos. O quadro da sala era de ardósia e escriturado a giz. As paredes tinham mapas geográficos de Portugal Continental, Insular e Ultramarino. Painéis com o corpo humano, mostrando os diversos sistemas que o constituem. Outros painéis mostravam diferentes espécies do mundo animal e vegetal. Num armário, ao fundo da sala, havia sólidos geométricos em gesso e um conjunto de minerais representativos de diferentes sistemas de cristalização. E os manuais por onde estudavam? Os manuais eram a preto e branco e únicos para as diferentes disciplinas.
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Havia brincadeiras nas aulas? Não... Era muito difícil os alunos brincarem nas aulas porque a disciplina era muito rígida. Quais os castigos aplicados aos alunos que não cumprissem as regras? Os castigos eram aplicados na escola primária e no liceu. Na escola primária o castigo mais severo era “A Palmatória”, também chamada “Menina-de-cinco-olhos”. No liceu o castigo mais severo era a expulsão da sala de aula e se o aluno continuasse a comportar-se mal podia ser expulso do liceu. Fez parte da mocidade portuguesa? Claro! Todos os estudantes eram obrigados a fazer parte da mocidade portuguesa a partir da instrução primária até ao fim do liceu se completasse o liceu com menos de 17 anos. Com mais do que 17 anos frequentava, não a mocidade portuguesa, mas sim, outra estrutura designada por Milícia. Quais os objetivos dessa organização juvenil? Os objetivos declarados pelo poder político eram dar a oportunidade aos jovens de praticar atividades desportivas muito diversificadas que iam, por exemplo, da prática de jogos até à vela, natação, aeromodelismo, canoagem, etc. Havia naturalmente, e dado o tipo de regime político existente em Portugal, um objetivo muito claro, mas não explicito, de mentalização e enquadramento militar dos jovens. Quais as atividades em que participou? Esgrima, natação, andebol, aeromodelismo e ginástica. Considera que a escola estava ao serviço do regime político? Absolutamente! Ao serviço do regime político e a ele completamente subordinado. Basta recordar as verbas disponibilizadas pelo governo de então, para fazer face a todas as atividades da mocidade portuguesa. O facto dos manuais escolares serem livros únicos, os seus conteúdos seguiam fielmente a filosofia do regime.
Fotografia do meu pai na altura do exame da 4ª classe Compare a escola do seu tempo com a do meu tempo. As diferenças são abismais! No entanto, tenho de reconhecer que a escola do meu tempo tinha também algumas virtudes que a escola de hoje, de certa maneira, abastardou. Refiro-me, concretamente, ao sentido de responsabilidade que nos era incutido desde tenra idade, o respeito pelos professores e pela escola, o incentivo ao trabalho árduo e a preocupação permanente de procura do saber, pelo prazer e necessidade de saber. Outra diferença que em meu entender a minha escola tinha, era a existência de exames finais eliminatórios na 3ªe 4ª classes da instrução primária, no 2ª,5ª e 7ª anos liceais e em todos os anos e a todas as disciplinas do ensino superior. E mais ainda: exames de admissão aos liceus e às faculdades. O ensino superior tinha a duração mínima de 5 ou 6 anos (engenharia e medicina). Em contra partida, o acesso generalizado ao ensino era discriminatório, pois só as pessoas com algumas posses podiam canalizar os seus filhos para estudos superiores. O ensino do meu tempo era, manifestamente, repressivo e demasiado dirigido à memorização. Entrevista realizada por: Maria Ana Gonçalves, 6ºA