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A Voz do Colégio | 30

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.página das ciências e história

A vida a bordo dos marinheiros nos séculos xv e xvi

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e Lisboa partiam barcas, caravelas, naus com destino incerto e em mente transportavam uma missão: “dar a conhecer novos mundos ao mundo”. A ânsia de conhecer o desconhecido torna-se realidade. A tripulação dos navios era formada por voluntários contratados e gente que vinha das principais ruas das cidades do Reino. Segundo Francisco Contente Domingues, in Carreira da Índia, a bordo, podiam embarcar até 800 passageiros. A má formação e o tipo de personalidade dos marinheiros e dos mais elementos da tripulação contribuíram para o elevado grau de incapacidade marítima daquela época. Na maioria dos casos estes marinheiros eram homens rudes que se faziam ao mar muitas vezes contrariados ou iludidos por um sonho ou aventura. Embarcados durante seis ou sete meses (isto se a viagem corresse bem) num espaço exíguo, onde se amontoavam pessoas, carga e animais vivos, o tempo parecia escoar-se ainda mais lentamente. Para todos, a hora das refeições constituía um dos momentos mais importantes do dia e, verdade se diga, um dos mais confusos também. Os tripulantes abasteciam-se da despensa do navio, pois viajavam por conta do armador; já os passageiros tinham de levar consigo os seus próprios alimentos e, num caso como noutro, era necessário cozinhá-los. Havia dois fogões a bordo, situados na coberta abaixo do convés, um de cada lado do navio, eram 400, 500 ou 600 pessoas embarcadas, às vezes até 800, à espera de poderem pôr ao lume os seus alimentos.

O tipo de alimentação e o processo de conserva desses, que se mantinham em barricas cheias de sal, aumentavam o problema principal: a necessidade de água potável. A partir do Séc. XVIII demonstrou-se que a ração alimentar com frutos cítricos (laranjas e limões) evitavam o escorbuto e no Séc XIX foi determinado que a ingestão de arroz integral (em substituição do arroz polido) prevenia a ocorrência de beribéri. As doenças manifestavam-se com certa facilidade, e decorriam de duas situações principais: a falta de condições higiénicas e a alimentação deficiente. É facilmente compreensível que o navio representa, pelas suas dimensões, um excelente meio de transmissão de agentes patológicos de vária ordem. A higiene pessoal reduzia-se ao mínimo indispensável, ou nem isso quando a água faltava. Os doentes eram os que sofriam mais, sobretudo quando o seu estado de saúde nem lhes permitia vir até à coberta apanhar ar fresco, local em que se refugiavam muitos dos que preferiam dormir ao relento em vez de abrigados nas condições disponíveis. A falta de vitaminas, o escorbuto, o beribéri, a peste negra, a febre, e a cólera são algumas das principais doenças que apareciam com frequência a bordo. Quando as naus chegavam, por fim ao porto de destino, o sentimento mais comum entre os que não eram profissionais do mar era o alívio puro e simples. Matilde Gonçalves, 8ºA

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