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Cr么nicas do Pa铆s Pernil

David Nordon


Cr么nicas do Pa铆s Pernil

David Nordon


Agradeço em primeiro lugar e acima de tudo ao senhor nosso Deus. À minha amada esposa, Mirian, Aos meus pais, E a todos que me apoiaram nesta carreira.


Direção Editorial Flavia B astos Coordenação Editorial Chico Maciel Projeto Gráfico RHK Revisão Alexandre Oliveira Produção Editorial Evoluir Cultural

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Nordon, David Gonçalves Crônicas do país Pernil / David Gonçalves Nordon. -- São Paulo : Evoluir Cultural, 2013. -(Coleção leituras inesquecíveis) ISBN 978-85-8142-019-6 1. Crônicas brasileiras I. Título. II. Série. 13-00832 Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura brasileira 869.93

© Evoluir Cultural - 2013 - 1ª Edição Rua Girassol, 34, Cj 94 – Vila Madalena 05433-000 São Paulo – SP Tel.: (11) 3816-2121 www.evoluircultural.com.br evoluir@evoluircultural.com.br

CDD-869.93


Sumário Telefonemas.................................................................................6 Estacionamento alternativo.................................................. 14 O relógio do Vídeo................................................................. 24 Garagem...................................................................................30 Sombra......................................................................................36 Guerra Musical....................................................................... 42 Bigui Bróders.......................................................................... 48 Ristorante................................................................................. 52 Cheque em branco.................................................................58 Os bolinhos da Vovó Nona................................................. 64 Bert.............................................................................................70 A garota do 7............................................................................74 Seleção....................................................................................... 78 O Cara do 6............................................................................ 84 Julinho, o guarda de trânsito................................................88 Glossário................................................................................... 92


Telefonemas

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ráuzio levava uma vida normal, tranquila, pacífica. Nunca brigava com ninguém, era um daqueles caras que andava com um sorriso estampado no rosto. Cumprimentava a todos por quem passava, dizendo Por Favor e Obrigado. O motivo pelo qual digo era é porque, em uma bela manhã de sol, Dráuzio recebeu um telefonema um tanto quanto esquisito. Eram seis horas da manhã e, muito embora despertado de seu sono sereno, ele atendeu com um animado Alô? Tudo bom?, até ouvir: - Chamada a cobrar. Para aceitá-la... A maioria das pessoas costuma não atender chamadas a cobrar, a não ser que já esperasse que alguém ligasse de tal modo, mas o senhor D. era um homem tão gente boa que, mesmo não esperando por ninguém, ficou na linha, para ouvir... Nada. Do outro lado, enquanto sua conta era debitada, ninguém falava nada, nem mesmo quando ele repetia o Alô? Tudo Bem? pela trilhonésima primeira vez. Inconformado mas ao mesmo tempo conformado (porque pessoas de bom humor não se desconformam por muito tempo ou se conformam muito rapidamente), ele depositou o celular ao lado da cama, deu um beijo em sua esposa deitada ao seu lado e já estava a pegar no sono. Com um sorriso no rosto e os braços bebenianamente compostos, como se rezasse, quando... - Triiiiiiiiiiiiiiiiiiim! Prontamente ele atendeu o telemóvel, com o seu costumeiro Alô? Tudo Bem?. E novamente a ligação a cobrar e o silêncio misterioso do outro lado. - Alô? Tudo bem? Quem está falando? Sinto muito, mas eu não estou te escutando. Aqui é o Dráuzio. Tudo bom? Quem está falando? Na verdade, era um som do silêncio tão alto que, se um surdo estivesse naquele cômodo, não iria conseguir permanecer por muito

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tempo, devido a dor de ouvido. Ainda com um sorriso no rosto, nosso grande herói desligou o telefone, virou-se para o lado e, já imaginando inconscientemente que jantava com uma atriz da qual ele não mais se lembraria em questão de cinco segundos, praticamente voou da cama ao ouvir, mais uma vez, o infeliz toque do celular. - Alô? Tudo bem? Como vai? – respondeu mecanicamente. Uma ameba teria produzido mais som do que o ser do outro lado da linha. Mas nosso grande amigo Drau era um eterno conformado e, sem se importar, voltou a dormir. Quer dizer, tentou, porque a pessoa misteriosa tornou a ligar mais duas vezes, até que o pobre herói simplesmente desistiu e resolveu se levantar para um novo dia. Às oito e meia estava em seu escritório, animado, como se nada tivesse acontecido, fazendo o que sempre tinha de fazer. Na hora do almoço, saboreou como se fosse a primeira ou última vez e, durante a tarde, trabalhou como se fosse o próprio dono da empresa, até que, às cinco horas da tarde... - Triiiiiiiiiiiiiiiiiiim! - Alô? Tudo bem? - ... - Oi? - ... - Ah, não, de novo? - ... - Desculpe, senhor ou senhora, mas eu não estou te escutando. Ele desligou, e não deu mais que quinze segundos antes que o telefone móvel tocasse de novo. E de novo. E mais uma vez. E ainda outra. E uma quinta, e uma sexta, até que, finalmente, ele teve a grande ideia de desligar o celular, desesperado. Às seis horas, voltou para casa como se nada tivesse acontecido, saboreou seu jantar, viu seu telejornal, leu seu livro, deu um beijo de boa noite na filha e foi para a cama, religando o telemóvel, acreditando de que não iriam mais ligar. Dráuzio não aguentava mais aquilo. Ao acordar quando checou suas

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ligações, aquela pessoa, fosse homem ou fosse mulher, já havia lhe telefonado umas... 25 – ah, agora, 26 – vezes! Era hora de tomar uma providência. Aproveitando-se do identificador de chamadas, D. resolveu ligar de volta para seja lá quem fosse. Ele tocou, tocou e, na hora em que finalmente alguém atendeu – era uma voz feminina – nosso herói desligou, com um sorriso maligno no rosto. Isso ia mostrar a ela que não deveria fazer mais aquilo! Mas a vida, esta sim é uma caixa de chocolates de sabores diversos, a maioria dos quais, no mínimo, estranha, e, logo depois, a mulher ligou de volta. Dezão sequer atendeu; abriu e fechou a tampa do seu celular, e ligou mais uma vez para ela (havia até colocado o seu número na agenda, sob o número 1, e com o nome A Ligadora). Assim que ela atendeu, ele desligou e, para provar que não estava para brincadeiras, ligou mais uma vez em seguida e desligou novamente. Com isso, ela parou de ligar por um tempo e ele pôde seguir com o seu dia. Até que... Eram quatro horas da tarde; Dráuzio já havia dispensado três pessoas da sua sala com safanões aéreos, e desligado na cara e se recusado a atender a ligação de, pelo menos, 20 pessoas, no processo de ligar e ser ligado pela ligadora. Aquilo havia se tornado praticamente um jogo, no qual ganharia o último que ligasse – ou morresse tentando. Deste modo, vocês não imaginam o ataque que o nosso herói teve ao ver que a bateria do seu celular havia acabado. Desesperado, ele correu pelo prédio do escritório inteiro, procurando um carregador; sem conseguir, pegou o carro, circulou a cidade inteira à procura de um e, finalmente, ao consegui-lo, um sorriso enorme de satisfação no rosto, pôs o seu pequeno aparelho superaquecido para carregar e depois fez a bendita ligação. - Alô? - Oi, desculpe, a bateria do meu celular acabou. Mas saiba que isso não vai acontecer de novo – disse e desligou na cara dela. E, para garantir que não aconteceria, comprou mais quinze carregadores, um para cada lugar.

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Depois de duas horas na loja, ligando e sendo ligado enquanto a bateria recarregava, ele voltou para casa, com telemóvel no viva-voz, para garantir que não fosse multado. Noite adentro eles se ligaram – mas não se falaram – os intervalos progressivamente aumentando, mostrando que, entre as incomunicações (ou talvez um certo tipo de comunicação de um modo bastante peculiar), eles cochilavam. No dia seguinte, o senhor D descochilou com uma cara amassada, olheiras profundas, deitado no banco do carro – não havia sequer conseguido sair de dentro dele, muito embora estivesse dentro da garagem. Aquilo não podia continuar assim; tinha de fazer algo. Ligou para ela trinta vezes seguidas. Apesar de durante a noite, ter tido seus lapsos, havia acordado completamente descansado para a batalha do dia seguinte. E ela fez o mesmo, ligando não só trinta, mas cinquenta vezes! Ele, enquanto isso, aproveitou para passar rapidamente por uma padaria, tomar um café – sem largar o telefone por sequer um minuto – e prosseguir em sua empreitada. Naquele dia, não foi trabalhar; nunca havia faltado em 25 anos de trabalho duro, poderia se dar ao luxo uma vez, por mais que todos estranhassem. Passou a tarde em um restaurante, apenas celulando, passiva ou ativamente. Em sua casa, sua mulher já estava preocupada, especialmente porque tentava ligar para o marido, mas só dava ocupado. O que estava acontecendo? Por que ele não voltou para casa? O que estaria fazendo? Ninguém no escritório sabia onde ele estava; por que não foi trabalhar? Será que algo aconteceu Estava machucado? Ou, pior, havia sido sequestrado? Estaria na mão do PCC? Era isso? Estava, naquele momento, em uma favela no Mar de Fevereiro com uma arma apontada para a cabeça e os traficantes usando o seu celular para ameaçar o governador de morte ou para contrabandear mais drogas, botando a culpa nele? Elucubrações surrealistas – muito embora possíveis – à parte, lá estava Dráuzio, parado no Draivi Fru do Back Gonald’s há duas horas, ligando e religando. Em volta, as pessoas o encaravam como se fosse um maluco, e foi necessário um guincho para retirá-lo de lá, porque

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não prestava atenção a nada que não fosse o celular. E assim passou o tempo; quando a bateria do carro acabou, ele foi desesperadamente para uma loja, onde comprou mais baterias reserva, ali teve uma grande ideia. Aquilo só estava equilibrado porque ambos tinham apenas um celular e, logo, tinham de aproveitar apenas um minúsculo espaço de tempo entre uma ligação e outra para discar. Agora, como ficaria o jogo se, em vez de usar apenas um controle, ele usasse dois? Com isso, Dráuzio comprou outro celular e, dispondo das duas mãos, passou o dia inteiro ligando, do Shopim, para ela, incessantemente, sem lhe dar chance de devolver sequer uma ligação. Ela, entretanto, se provou extremamente inteligente e, como ele, rapidamente comprou outro aparelho e se pôs a ligar. (Neste ínterim, nas empresas telefônicas, as pessoas se perguntavam o que afinal estava acontecendo, que havia um pico daqueles de um celular para o outro, o tempo todo, sem parar, mas não conseguiam achar uma explicação lógica ou racional – devia ser algum problema do sistema). Contudo, ainda havia o problema da noite para resolver. Como poderia ele dormir? Rapidamente veio uma ideia à mente; voltou para casa pela primeira vez em duas semanas, ignorou completamente os abraços da família, já quase em crise de nervos de tanto esperar por notícias suas, e se trancou no quarto tendo um carregador em cada tomada, um celular de cada lado e o computador no meio. Ia colocar a máquina para funcionar por ele – era desleal, sim, mas não tinha como fazer para ligar à noite. Quatro horas por dia não seria problema – afinal de contas, ele tinha de dormir. E assim foi; a mulher estranhava cada vez mais os toques repetidos de celular, a atitude autistomaníaca do marido, mas nada disse, até que, no quinto dia daquela loucura, não aguentou mais e entrou no quarto. Encontrou Dráuzio caído no chão, babando, as duas mãos discando incessante e automaticamente, os pés batendo no teclado para ligar, sua face emagrecida e cansada repetindo as palavras “Alô? Tudo Bem?”. Nosso herói acabou, por fim, em um hospício e, pelo jeito, com a mulher deve ter acontecido o mesmo, porque, desde então, ninguém

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nunca mais ligou naqueles números. E, em compensação pelos diversos anos de serviço prestados, o pessoal do trabalho dele havia sido bonzinho e resolvido aposentá-lo por invalidez, em vez de demiti-lo por incompetência. Deste modo, em questão de algumas semanas, Drau já estava melhor. - Semana que vem o médico vai te dar alta – informou a esposa diligentemente, dentro do casulo no qual o marido ficava.Drau estava feliz novamente, tendo deixado tudo que acontecera de lado. - Sim, semana que vem eu vou poder sair – pensou ele, conforme a esposa se ia – E tudo vai dar certo. Mas a vida, ó, que mar de surpresas! Faltando dois dias para que ele saísse, de repente, alguém tocou uma campainha em algum lugar. E de novo: - Triiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiim! Ele olhou para a porta em frente; atrás da janelinha, uma mulher apertava insistentemente um botão. Mesmo sem nunca terem se visto, ambos imediatamente se reconheceram, e Dráuzio passou a apertar sem parar a sua própria campainha; do outro lado, a moça fazia o mesmo, em uma guerra de trins. E assim continuaram.

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Estacionamento alternativo

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C

arlos trabalhava em um estacionamento; André era motorista de táxi. O local de trabalho ficava na frente do outro, e ambos trabalhavam à noite. Costumavam se cumprimentar todos os dias, quando entravam para o serviço, e a cada vez que André estacionava o seu carro logo à frente do estacionamento, do outro lado da rua, um Palio branco 1997, caindo aos pedaços. O único lado bom é que não pagava mais IPVA. O sonho de Carlos era ter um estacionamento no qual as pessoas passassem a noite; afinal de contas, havia um hospital logo à frente, e eles ganhariam muito mais se parassem de pegar paciente para estacionar (afinal, havia 500 outros estacionamentos por perto) e se dedicassem apenas aos médicos, servindo como estacionamento padrão durante os seus plantões. Aí não teria o menor trabalho; era só ter a vaga, a pessoa estacionava o seu próprio carro, e pronto, tudo que Carlos teria de fazer a noite inteira, até que o médico saísse de manhã, era ficar olhando. Mas não, o chefe dele tinha porque tinha de fazer um estacionamento para pacientes, e ele ficava a noite inteira tirando e pondo os carros, incessantemente. Já o sonho de André era ser um daqueles motoristas chiques, para os quais as pessoas pagam uma certa mensalidade, e ele ia com um carro bom – não aquela porcaria branca caindo aos pedaços, mas um carro com cor – buscá-las e levá-las para festas, bailes, viagens, fosse lá o que fosse. O que nenhum deles tinha pensado até então, porém, era que podiam juntar os dois sonhos em um só. A ideia foi de André; alugar um local para estacionar o carro dos médicos e cobrar um preço relativamente baixo. E, como eles não saíam de lá tão cedo, usar o carro deles em um serviço de táxi para ocasiões especiais. - Afinal de contas, eles só têm carrões! Carlos inicialmente foi contra a ideia, mas o taxista progressivamente o convenceu; os médicos ricaços mal e mal olhariam a quantidade de

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gasolina que havia no tanque e, além disso, seus carros gastavam tanto que para eles seria natural que o tanque estivesse constantemente vazio. Mas, se fosse necessário, eles poderiam colocar metade do que gastaram em combustível, e ninguém iria perceber. - E álcool, não precisa ser gasosa. Quem disse que uma Mercedes vai sentir a diferença? Carro bom é assim, nem sente. - E a quilometragi? Cê acha qui elis nunca vai percebê qui mudô? Qué dizê, qui disculpa tem? Nosso estacionamento num vai sê tão grande assim! - Acontece que eu tenho um pequeno aparelhinho aqui que faz maravilhas... Como todo bom taxista que quer subir na vida, um dia ele fiz um curso de mecânica e aprendeu por vias relativamente (i)legais como retroceder a quilometragem do odômetro, o que era especialmente útil quando tinha de revender um carro ou burlar a inspeção obrigatória. - Bom, num custa tentá. Ma qualqué coisa a culpa é sua! Sendo assim, Carlos saiu de seu emprego e André também; com o fundo de garantia e ambos, vendendo o táxi, conseguiram o dinheiro suficiente para comprar um pequeno terreno: grande na frente, estreito no meio e grande atrás, como se fosse uma ampulheta. O lado bom é que ninguém podia ver o que havia no fundo do estacionamento. - Dá pra dizê até qui teim uns vários quilômetru lá atráis, não? Quem podia sabê? – comentou o manobrista. E começaram as atividades, como se fossem trabalhadores autônomos com funções diferentes e que nunca haviam se conhecido na vida. Todas as tardes, cerca de cem médicos estacionavam seus carros no estacionamento do Carlos, e todas as noites André recebia ligações em seu celular e escolhia o carro mais apropriado para a ocasião. - Garotas para uma festa de quinze anos? Por que não um Porsche? E que tal aquela Mercedes para os senhores que vão para aquele Congresso Internacional? Ah, o baile do prefeito? Acho que tenho uma BMW aqui... Só não mando a Ferrari porque ele tem uma igual. Mas posso pensar no Maseratti, se bem que não aconselho tanta ostentação... Por dois meses, tudo correu bem; ele marcava a quilometragem antes de sair, e quando retornava, retrocedia ao ponto onde estava além disso, marcava exatamente a quantidade de combustível e, quando a

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gorjeta era muito boa, tinha até um pouco de dó e colocava um pouco mais de álcool, mas na maioria das vezes não tinha dó, porque, afinal de contas, tudo que os médicos faziam era extorquir a população, depois de fazê-la esperar por meses para uma consulta de 5 minutos! Enquanto isso, os doutores e doutoras vez por outra comentavam com Carlos como seus carros estavam gastões. - Tem muito posto com gasolina adulterada – era a reposta padrão – Num dá pra confiá im ninguém hojim dia, sabe cumé... Por fim, um dia chegou a ligação que André tanto esperou a oportunidade perfeita para usar a Ferrari que tanto queria. - Quero o carro mais rápido que você tiver. - Acho que tenho um perfeito... Onde está? - No Ebaú Personalidade da rua dos bancos. - E pra onde vai? - Estou decidindo, mas pago a distância que for, não se preocupe. Quando chegar aqui, ligue neste celular, e vou sair. André pegou a chave, abriu a porta e sentiu o cheiro do carro; acariciou seu banco, seu volante, seu painel; observou todos os detalhes, cada pedacinho dele; sentou, e sentiu o carro envolvê-lo; quando colocou uma mão no volante e outra na marcha, sentiu-se o rei do mundo; girou a chave e sentiu seu ronronar; aquilo sim era um carro; era como dirigir o sol! - Hoje a gorjeta é gorda! – comentou, e acelerou. O carro voou pelas ruas, suave como se estivesse nas nuvens; o que pareceu ao mesmo tempo tempo nenhum e uma eternidade da qual apreciou cada segundo. Ele estava de frente para o banco. O fato de o que alguém fazia na agência àquela hora da noite nem lhe passou pela cabeça; afinal de contas, o banco era tão chique (ele imaginava; nunca havia entrado em um) que, se bobear, atendia até de madrugada. Pegou o celular e discou; ele tocou, tocou e, no terceiro toque, um vulto saiu de dentro do banco, carregando algo nos braços; ao ver a Ferrari, não hesitou; abriu a porta e se jogou para dentro. - Corre! – exclamou.

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- Pra onde? - Pra longe daqui! Com isso, o alarme do banco tocou. - O que tá acontecendo? - Não pergunta, anda! - Mas... - Eu vou tê que ti matá, é? Ele apontou um revólver, e o motorista não pensou duas vezes; engatou e acelerou a máquina. Voou pelas ruas, mas, para variar, como em todo bom cruzamento sangomeçano, todos os carros estavam parados apesar de já estar verde; ao fundo, já podiam ouvir o barulho da polícia. - Vai, vai, acelera! - Não posso tomar multa! - Aqui não tem radar! E, se tiver, te pago depois! - Mas... - Anda logo! Acelerou ainda mais, suando frio; o que o médico diria quando visse as multas? Bem... Ele sem dúvida não estava andando com o carro àquela hora, e podia provar, então... O problema era que a polícia estava na sua cola, e com certeza não iria perdê-los; quantas Ferraris corriam por aquela cidade naquele momento? Não satisfeito com a velocidade, o ladrão queria que ele costurasse por entre os carros. - Pelamordasantageneveva! Num posso fazer isso!!! - Faça ou sua cabeça já era! Sem muitas opções, embora a opção de perder a cabeça gradativamente se tornava mais favorável, ele passou a costurar entre os carros; entre finas e mais finas, quase perdeu o retrovisor. Enquanto isso, a polícia se amontoava logo atrás, já acumulando três carros, uma oportunidade única na vida de correr atrás de uma Ferrari. A

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cada reta, perdiam distância, mas como as curvas eram fechadas e sempre tinha gente no meio do caminho que, depois que abria alas para a Ferrari, por consequência ficava fora do caminho da polícia também, acabando sempre no encalço deles. Em pouco tempo pegaram a Rodovia Lobo Navarres; neste ponto, eram uma Ferrari, cinco carros de polícia, dezenas de motoristas embasbacados nos dois sentidos da via e um helicóptero da TV POSSUI fazendo a reportagem. Neste meio tempo, no estacionamento, o médico da Ferrari, que foi só para bater ponto e já estava indo embora, foi requisitar o seu carro. Mas justo aquele!, pensou Carlos, inconformado. O que iria fazer? - Já mandei alguém buscá ele, dotô. Isso conseguiu segurá-lo por cinco minutos; depois disso, já estava impaciente. - Vô vê o qui tá acontecenu. Incerto, ele pegou o telefone e fingiu ligar para alguém; depois, voltou para o lado do médico. - Intão, justamente... É o seguinti... U nossu istacionamentu é muito grandi. Podi num parecê assim di olhá di primera veiz, mais depois daqueli corredor ali, ó, ele é justamenti muito grandi, assim, ó... Tem vários andar, sabi? -E daí? - E daí qui o manobrista tá a procurá u seu carro im um dos andá - Como vocês não sabem onde está o meu carro? - Justamenti é o qui eu tava falandu, u istacionamentu... - Vocês perderam o meu carro no estacionamento??? - Epa, epa, epa, muita calma nessa hora! Justamenti.. Neste momento, da televisão ligada dentro da cabine do manobrista, na edição especial urgente do jornal da TV POSSUI, surgiu a voz de uma repórter e a imagem de um helicóptero, filmando uma estrada e, nela, vários carros, dentre eles um vermelho costurando e sete de polícia logo atrás. - Aparentemente, nesta Ferrari está um homem que acaba de roubar o banco...

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- É o meu carro! O que é que um ladrão tá fazendo com o meu carro no meio da estrada? - Testemunhas dizem que o motorista do carro foi buscar o ladrão imediatamente após o roubo, como se tivesse sido planejado, e é provavelmente cúmplice dele... - Vocês roubaram um banco e ainda usaram o meu carro pra fugir?! - Epa, epa, epa! Comu sabe qui é seu carro? -­ A Ferrari tem a placa XXX-3302, e pertence a um famoso cardiologista aqui de Sangomeça... - Quer mais provas, seu imbecil? – retrucou, pronto para esganar o manobrista. - Ele está perigosamente costurando entre os carros! Olhe lá, olhe lá... Raspou naquele fusca! E lá se foi o retrovisor esquerdo! - Cuidado com o meu carro, seu barbeiro! Esse retrovisor custa 10 mil reais! - E lá se foi a lanterna traseira em uma fechada perigosa... - Essa lanterna custou 15 mil reais! - A polícia tem de fazer alguma coisa! Se esse carro pegar uma reta, em pouco tempo some do mapa... - Meu carrooooo!!! Enquanto isso, o manobrista era arremessado para lá e para cá, até ser jogado no banco, quando a atenção do médico se concentrou totalmente na televisão, e as pessoas na rua já começavam a se amontoar ao lado. - Eu vou processar alguém! Que absurdo! Nunca mais paro o carro nesse estacionamento paraguaio! Ai, meu Deus! Por favor, poupe meu carro! Eu dou meu iate em troca... Minha casa na praia... Minha casa em Margens... Enquanto isso, mais e mais pessoas se amontoavam ao redor, e a repórter prosseguia. - A polícia militar rodoviária foi contatada e cinco quilômetros à frente foi montada uma barreira com 5 veículos... Ali está a barreira. Não tem como aquele carro passar por ela... - Ai, meu Deus! Faz ele parar! Te dou minha conta nas Ilhas Saiman! Pode levar minha perna! Não preciso dela! Juro que termino com a amante! As

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duas, juro! Mas não leve meu carro!!! Enquanto isso, no carro, André suava frio, e ainda mais ao ver a barreira se aproximando. - O que eu faço, o que eu faço??? - Ameaça, eles vão abrir a barreira! Nunca viu em filme? - Não vão, não! A essa velocidade a gente vai explodir na barreira! - Não! Acelera que eles saem! No estacionamento... - Aimeudeusaimeudeusaimeudeus!!! O carro se aproximou da barreira... E muitas coisas aconteceram ao mesmo tempo; a Ferrari bateu, mas, de alguma forma, algo acertou sua roda e ela subiu, passando acima da barreira e rodopiando dezenas de vezes; André, aproveitando a oportunidade, abriu a porta do carro e foi arremessado para a mata logo ao lado, aterrissando no meio das árvores; o ladrão, por sua vez, tentava se segurar, mas logo os érbéguis já o esmagavam contra o banco; no estacionamento, as pessoas olhavam fixamente, os olhos esbugalhados, pura tensão; enquanto isso, o médico jazia no chão, sem respirar, branco como leite, o coração parado por um infarto. Os policiais pararam antes da barreira; o câmera-mem deu um zum; o carro girou e girou; todos gritaram “Ohhhhh!”. O carro bateu no chão, e todos fizeram uma cara de dor e dó; girou, girou e parou. E todos olharam em silêncio o fim sem graça do clímax. - Cadê a explosão? – perguntou um, decepcionado. Foi só falar; logo em seguida o carro explodiu em chamas, como em todo bom filme de ação. - Aêêê! – gritaram no estacionamento, saltando e pisoteando o médico. Por fim, levaram-no para o hospital, mas por nada no mundo ele voltava à vida; enquanto isso, os socorristas salvaram André, que corajosamente havia pulado para fora do carro e se salvado da morte certa em um triplo tuiste carpado. A repórter foi entrevistá-lo, ele milagrosamente apenas com o braço enfaixado, e, ainda zonzo, tentou articular uma história inventada, na

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qual o homem apontava a arma para ele já no estacionamento e o fazia fugir com ele. Ninguém duvidou. Do carro e do ladrão, nada sobrou; todos os policiais receberam medalhas de mérito pela sua coragem, bravura e capacidade de articulação; Carlos, com seu bom espírito empreendedor, comprou dez fardos de cerveja no bar ao lado e saiu vendendo no estacionamento, enquanto todos assistiam ao desfecho da estória. E, no final, o dono da empresa de condução de luxo virou herói nacional e em pouco tempo se tornou extremamente famoso. Com a popularidade e o dinheiro que ganhou, passou a investir ainda mais no seu negócio, ampliando o estacionamento. Incrivelmente, ninguém nunca juntou dois mais dois para pensar de onde ele tirava os carros todos os dias para dirigir... Mas uma coisa é certa; nunca mais usaria uma Ferrari como meio de transporte.

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O relógio do Vídeo

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M

ais uma vez chove em Santa Paula. O tempo fechou, as nuvens se prepararam, São Pedro puxou a alavanca e cabrum!, esvaziou a banheira inteira dos deuses em cima de nós, com a adição de ventos e raios, cortesia de Zeus. Entretanto, nós, pobres mortais, ficamos metros e metros sob a água e, ainda por cima, sem energia elétrica, enquanto a dupla se refestelava lá em cima, só rindo da gente. Foi quando a luz voltou, depois de uma longa comemoração – já estavam na última vela – que perceberam, na casa da dona Maria, que o relógio do vídeo havia apagado. - Ah, não! – exclamou ela, petrificada, apontando para o aparelho. Logo a família inteira se aproximou, todos olhando chocados para o que havia acontecido. Dentre todas as coisas que poderiam ter acontecido, todas, esta era a pior! Ó Deus, por que fazes isso conosco? Todo mundo sabe que ninguém sabe como arrumar o relógio do vídeo. Missão impossível. Apagou, ferrou. As luzes amarelinhas estavam indicando 00h:07, piscando incessantemente, aquela coisa irritante que só os vídeos sabem fazer. - Quem sabe arrumar isso aqui? – perguntou dona Maria. Pergunta estúpida. Ninguém sabia. - Acho que é só apertar este botão – disse seu João, o patriarca mais velho, o amado vovô. Adorava mexer nestas coisas eletrônicas, mas normalmente nada dava certo e ele acabava xingando o objeto de todos os nomes de que se lembrava. Ele apertou, girou, socou, chutou, mas nada de o relógio mudar. Irritado, por fim, voltou para o seu quarto, para ver mais um episódio de Musculação. - Vamos chamar o Marquinhos! – exclamou seu Joselito, o pai da família. O tio Marcos para os sobrinhos, o Marquinhos para os irmãos, o Marcão para os amigos, claro! Ele sabia de tudo! Era um cara viajado,

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já tinha ido pra todos os cantos deste mundo redondo, ele havia trazido o vídeo! Importado da Alebanha! Se havia alguém que poderia resolver este problema da existência humana, certamente era o Marquinhos. Em pouco tempo o tio Marcos chegava em seu carrinho – um leve Audi – e entrava na casa, esbaforido. - O que foi? - O vídeo, Marcão, o vídeo! - Não me diga que... - Sim, o pior aconteceu. - Não, não diga! - Sim, Marcão, foi o... - Não, não! - O relógio... Perdeu a hora. - Não!!! - E ninguém sabe como arrumar. - Malditos alebães! - Então, dá para arrumar? - Não sei, não sei, preciso de tempo. Saiam da sala, por favor. É uma operação delicada. Todo mundo saiu do cômodo no maior silêncio, fechando a porta e deixando o tio Marcos sozinho, só ele e o vídeo, o vídeo e ele. Ele tirou o casaco, arregaçou as mangas, aproximou-se do vídeo, olhou de um lado, do outro, por cima, por baixo, deu voltas e mais voltas, sacudiu, mexeu nos cabos, mas nada de o relógio funcionar. O pessoal do outro lado da porta se acotovelava para ver o que acontecia, mas ninguém sabia; vez por outra um grito cortava o silêncio, um grito de ira, um daqueles gritos de impotência que se solta quando o computador trava no meio do seu documento. E o tio Marcos olhava pra lá e pra cá, tentando achar algo como uma alavanca, onde estivesse escrito “ajustar relógio/desajustar relógio”. Mas nada daquela alavanca. Os caras que criaram o vídeo eram maus, muito maus.

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Por fim, tio Marcos saiu, suando bicas, todo mundo olhando para ele. Sua face, porém, não era nada encorajadora. - Nós tentamos de tudo que era possível... Mas não conseguimos salvá-lo. Dona Maria caiu no choro no ombro do seu Joselito, e os outros não conseguiam conter a dor. Finalmente, seu João, o votriarca, saiu de seu quarto sacudindo um livro na mão. - Gente, achei o Manuel! - O quê? – indagaram todos. - O manual! O tio dos burros! O manual! Era a última chance deles! O tio dos burros foi cuidadosamente passado para o tio Marcos, que o segurou como se fosse o último exemplar da bíblia de Gutemberg, abriu e olhou, cheio de esperança. Os outros, apreensivos, prendiam a respiração. - Está em alebão! – exclamou, simplesmente, caindo sentado no chão. - Mas a Mônica sabe ler! – disse o irmãozinho, Eduardo. Rapidamente foram chamar a Mônica, que havia aprendido alebão em um curso intensivo de cinco semanas, e lhe entregaram o famigerado portador de todas as respostas. Ela se sentou na poltrona, o livrão aberto sobre o colo, tio Marcos e seu Joselito postados, um de cada lado do vídeo, prontos para fazer tudo que ela dissesse. - Aperte o botão menu... – seu Joselito apertou – Depois escolha ajuste do relógio. Isso. Agora, segure o botão de reproduzir e o de rebobinar ao mesmo tempo – tio Marcos apertou – Depois, aperte o botão de pausa dez vezes, sem parar, repetidamente, e o segure por mais vinte segundos. Depois, solte todos os botões, aperte o ejetar três vezes, depois o acelerar e o rebobinar ao mesmo tempo, dê três giros em volta de si mesmo e... No meio daquele jogo de Tuíste mal feito, todos pararam para olhar a garota, que parou de ler inconformada. - Continua! - E jogue o vídeo fora porque não há como ajustar o relógio! – leu ela. - Malditos alebães! – gritou tio Marcos.

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Estava tudo acabado. Eles haviam perdido. Nunca mais iriam conseguir arrumar o relógio, estavam fadados a ver as horas erradas o tempo todo, todo dia, pelo resto da eternidade, sempre naquele amarelo piscante de farol. - E se ligássemos o vídeo à meia-noite? – opinou Eduardo. Sim, claro! O menino era um gênio! Ligar à meia-noite, como não haviam pensado nisso? - Mas aí ele vai ficar piscando pra sempre. E, além disso, não vai ajustar o calendário nem nada – disse Mônica, a estraga-prazeres. - Uhm... – pensou seu Joselito. Quando a meia-noite finalmente chegou, eles conseguiram arrumar o vídeo; desligaram da tomada e o ligaram de novo, quando o relógio suíço do tio Marcos marcou meia-noite em ponto. A partir daí, tudo na família havia mudado, não estavam mais em 25 de fevereiro de 2005, era dia primeiro de janeiro de 1988. E assim eles levaram a vida, como se a levava 17 anos atrás. O problema estava resolvido; haviam finalmente vencido o relógio do vídeo e seus maléficos criadores! Acho que não preciso nem dizer o que aconteceu quando faltou luz mais uma vez, certo?

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Garagem...

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P

restem bastante atenção à estória que eu vou contar porque, da próxima vez em que vocês tiverem uma reunião de família, vão pensar muito bem antes de faltar. Nem sempre se conhece a família, muitas vezes, nós vivemos ao lado dela sem que nos demos conta. Do mesmo modo, nem sempre se conhece os vizinhos; não raro compartilhamos espaços de um mesmo condomínio sem sequer saber que é a pessoa que mora ao lado. Isso para não se mencionar sobre a divisão de garagem do prédio... Tudo começou com João Paulo Pereira Neto, dono de um Astra usado e velho, mas ainda assim, funcionante. Ele se mudou para um prédio novo, com vagas apertadíssimas para o seu carro, e nos primeiros dias quase morreu para conseguir estacionar sem entrar na pilastra. Vou explicar o porquê. Imagine um corredor enorme de concreto, de uns dez metros. Agora, divida-o em três partes com várias pilastras de concreto, sendo o meio mais estreito que as laterais. Certo. Agora, divida estas laterais em diversas vagas com faixinhas amarelas do tamanho justinho de um carro e mais um pé de cada lado, o que deve dar uns dois metros, mais ou menos... Pegou a ideia? Nem queira saber como é manobrar nisso. Logo no comecinho, ele ficava curioso para saber quem era o dono da vaga ao lado, que não estacionava o carro nunca, e morria de vontade de parar lá, todo espaçoso (para não mencionar a inveja que tinha de um Palio, pequenino, logo ao lado, que, por uma sorte do destino, pegara uma vaga da garagem que tinha uma porta e, por consequência, tinha uns três metros de largura). Porém, em pouco tempo, descobriu, era um Uno Mile, azul, que parava caprichosamente na linha – da frente – deixando um espação atrás, onde parava a sua moto, muito embora pudesse parar praticamente umas três, lá. E, por causa disso, e do espírito de boa vizinhança, o pobre João Paulo tinha de se contorcer para enfiar o seu jumbo no lugar de um ultraleve, deixando espaço para o ultralevinho ao lado (que ocupava diligentemente o espaço de um jumbo!). Todo

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dia, o mesmo martírio; voltava para casa, manobrava cinquenta vezes para parar o carro, ficava tão rente à coluna que toda vez suava frio para não raspar, batia a porta sempre e tinha uma fresta de uns vinte centímetros para sair – sorte que era magro. Depois de um tempo, ele percebeu que o cara do Uno saía pouco depois que ele chegava, então decidiu começar a parar o carro quando ele não estava lá, de modo que conseguia sempre deixar um espaço melhor. Este mar de rosas durou uma semana, quando, de alguma forma, o seu vizinho conseguiu modificar seus horários para sair de casa uma hora mais tarde – e esperar todo dia uma hora já era abuso! Deste modo, irritado, João passou a estacionar progressivamente mais rente ao uno, dando mais espaço para si e menos para ele. Uma vez parou tão perto que teve certeza de que o homem teria de entrar pela janela do carro, do outro lado. Mas, não mais que uns cinco dias depois do início desta tática de guerra, o uno começou a parar progressivamente mais para o lado do Astra – como se esperasse o seu companheiro de estacionamento sair para trabalhar para poder recolocar o carro ocupando um pedaço da vaga! João se irritou e, conforme o seu vizinho saía para trabalhar, passou a usar a mesma tática e espremê-lo. Sendo assim, a cada momento do dia, era um que saía pela janela do carro. Mas ele não iria deixar barato assim; vendeu seu Astra usado e, acabando com a poupança que havia feito para a faculdade da filha e comprou um jipão, daqueles bem grandões, ainda que usado. Ocupava, apertadamente, sua vaga e mais um quinto da vaga do vizinho; tinha de sair pela janela, mas era mais fácil, e aproveitava o teto do uno para apoiar e engatinhar para casa. Quando chegava em casa, porém, sua esposa o encarava sem entender, porque estava ofegante, mas ao mesmo tempo sorrindo como uma hiena. Uma semana depois, ainda espremido e com o carro já meio riscado, o cara do uno decidiu perturbá-lo do único jeito que podia; dificultando ainda mais a manobra para sair. Deste modo, comprou não só mais duas motos como uma pequena carretinha que, sabe-se lá como,

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conseguiu abarrotar na sua vaga, ocupando só um pedaço da vaga do Palio, o qual, por isso, não podia mais parar esparramado. Mas a guerra não ia terminar assim tão fácil! João gastava meia hora a cada vez que ia sair de casa, só manobrando (para não falar no combustível do jipão), e a coisa virou questão de honra! Como estava sem dinheiro para comprar motos, adquiriu várias bicicletas e, por não haver bicicletário, colocou-as em pontos estratégicos para perturbar o cara do uno – e, consequentemente, todos para lá da sua vaga. Em vingança, em questão de dois ou três dias, carroças, bicicletas, patinetes, carros de controle remoto, motos, motonetas, baionetas (sim, baionetas!), carretas, e até mesmo um jétisquí, surgiram no estacionamento, por obra dos outros vizinhos. Aquele corredor estava tão, mas tão atravancado, que parecia mais um labirinto para poder sair. E o jipe gigante amassava as bicicletas, mas não deixava de sair, ainda que ao custo de uma hora por vez. Ameaças de mortes por bilhetes surgiam nos pára-brisas dos carros, durante a noite a lataria era amassada, vidros, estilhaçados, faróis roubados, e em questão de uma semana, aquele prédio tão bonitinho parecia um cenário de guerra civil. João Paulo não se conteve, entretanto. Foi até o banco, fez um empréstimo gigante, conseguiu um financiamento e, no final do dia, estacionou, na frente do portão da garagem, um caminhão-cegonha. Mas o pessoal do prédio não era burro; em questão de horas, portas foram arrancadas, amarradas, içadas e, ao raiar do dia seguinte, havia uma rampa passando por cima do caminhão. Sair, em teoria, eles podiam, mas quem disse que a suspensão iria aguentar? Todos no estacionamento, desesperados para chegar a tempo para o trabalho, pararam em um círculo enorme ao lado do caminhão, prontos para se matar, bastões de beisebol ou cabos de vassoura em mãos. Um grupinho decidiu roubar o jétisquí para colocar como rampa do outro lado; outro quis aproveitar a caçamba e virá-la; o outro disse que conseguiria um equipamento de rapel e cordas de aço para fazer uma espécie de ponte; ninguém sabia quem colocara o caminhão lá, mas estavam todos prontos para estrangulá-lo, e João entrou na onda, temendo ser esmagado pela horda furiosa.

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Contudo, sete horas da manhã, sirenes foram ouvidas e o esquadrão de forças especiais da polícia se postou ao lado do prédio, armas apontadas, e montou uma barricada com uma rampa forte o suficiente para um caminhão dos bombeiros subir e ultrapassar o caminhão-barricada. Por ela correram dezenas de homens, helicópteros sobrevoando o local e anunciando que encontrou os baderneiros e que estavam todos presos em nome da lei, da ordem e da decência humana. Acabaram todos no furgão da polícia, saindo da garagem a pé. Na delegacia, porém, ao tirarem seus documentos para serem autuados, todos em silêncio, deram pequenas olhadelas e repentinamente perceberam seus nomes, notando semelhanças.

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Ora, quem diria! João Paulo Pereira Neto era primo de Joaquim Oliveira Pereira, seu vizinho do uno! E ambos eram primos em segundo grau da dona do Palio, que se apaixonou logo que encontrou o cunhado de sua sobrinha, o qual era irmão do primo de terceiro grau da vizinha ao lado, a qual era esposa do cunhado da irmã da moça do Palio! Todos se abraçaram e pediram desculpas aos prantos, mas os policiais não regularam; acabaram todos na prisão por um mês como punição, sem direito a fiança (não que qualquer um tivesse como pagar, depois de tantos gastos com os automóveis), em celas compartilhadas, uma ao lado da outra, bem apertadinhas. Não demorou muito para começarem a brigar por espaço...

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Sombra

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Quando se mudou para a sua casa, para dividir o apartamento

enquanto estivessem na faculdade, parecia um cara legal. Tranquilo, esforçado, sem ficar muito de bobeira. Era seu calouro – ele já estava alguns anos adiantado – e tudo o maravilhava. “Nossa, você já fez isso?”, “Nossa, você já fez aquilo?”. Até mesmo suas roupas: “Que legal, você se veste que nem gente grande, não como seus colegas”. Só porque usava sempre calça, camisa polo ou camisa comum. Tudo começou, talvez, no dia em que lhe perguntou: - Onde você comprou essa calça? - Ah, num outlet da PNG. Por quê? - É bonita. Acho que vou comprar uma pra mim. E assim foi. Primeiro, a calça. Depois, os sapatos. Cinto, camisa, perfume, tudo; até óculos começou a usar, para ficar igual. Para o cabelo, que era liso, fez permanente, para ficar cacheado igual; para os olhos, usou lente. - Ei, Marcelo, você tá mais alto? - Acho que é impressão sua. - Não, não é não. Antes você batia aqui. Agora, você tá quase da minha altura! Que é que você fez? - Nada, nada. Mas ele viu; um dia, quando Marcelo não estava em casa, encontrou, no seu armário, um par reserva de pernas de pau, que colocava nos sapatos para ficar um pouco mais alto. Que loucura! Logo, o jeito de falar era o mesmo. A forma como sentava, como gastava o seu tempo livre, tudo era igual. - Marcelo, por que você tá fazendo tudo igual a mim? - Tô não, eu sempre fui assim! - Sempre, nada. Na escola você era mó diferente. - É que eu ficava de uniforme... 

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A explicação não tinha lógica, mas tudo bem; que mal faria? Até a hora em que seus amigos começaram a confundi-los. - Nossa, Marcelo, esse cara que tá vindo é igualzinho a você! – falaram um dia, conforme ele se aproximava. - Eu sou o Marcos! Ele é o Marcelo! – ele reclamou, apontando, mas teve de admitir; era difícil diferenciá-los. Um dia, sua mãe veio visitá-lo; quando chegou, lá estava ela, de maior papo com o Marcelo (ou seria o Marcos?). - Nossa, Marcos, por que tem um cara vestido igualzinho a você? - EU sou o Marcos! Ele é o Marcelo! - Parem com isso vocês dois! Estão pregando uma peça em mim? - De certo, vocês que estão! – reclamou Marcos – Onde já se viu, ficar me imitando? Chega disso, Marcelo! - Eu não sou Marcelo, eu sou o Marcos. Você é o Marcelo, e você está me imitando! O outro bufou, puxou a mãe e saiu da casa. Dois dias depois, estava deitado na cama, olhando para o teto, ao lado da namorada: - Sabe, Marcos, eu não queria falar, mas... - O que foi? - Você está muito diferente comigo. Ontem você estava muito mais carinhoso. Que foi que aconteceu? - Ahm? Mas eu não tava aqui com você anteontem. Eu tava com a minha mãe. - Não, você tava comigo, eu tenho certeza. E foi tão bom... Ele se sentou na cama e, batendo os braços no colchão, gritou: - Marcelo!!! Aquilo era demais. Tinha sido a gota d’água. Tinha de tomar uma providência, e rápido. Trocou o estilo de roupas; começou a usar bermuda, chinelo e camiseta regata. Tirou os óculos e pôs lentes; alisou os cabelos. Só não deu para mudar a altura, mas, de resto, parecia com o Marcelo

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original. O outro, por sua vez, imitava-o em tudo. E ainda teve a pachorra de perguntar: - Nossa, por que resolveu mudar de estilo? Só porque eu tinha falado que parecia gente grande? Tentou ficar assim por uma, duas semanas e aí mudou de volta. Mas, na hora em que abriu a porta do quarto... Lá estava Marcelo, vestido como ele. O ele original.

- Ah! – gritou e voltou para o quarto. Poderia mandá-lo embora, mas correria o risco de ser substituído, na casa dos seus pais, na casa da namorada, se bobear, até mesmo na faculdade. Era capaz dele pular os cinco anos de distância entre eles! Decidiu mudar de rumo; chamou outro amigo para morar com eles. Em pouco tempo, estava tudo arrumado, e Marcos se sentou no sofá, com as pernas e os braços cruzados, observando as roupas e os trejeitos do amigo, para imitá-lo. Marcelo ficou na mesma posição, fazendo as mesmas observações. Em poucos dias, Marcos imitava Bruno, e Marcelo imitava Marcos. Saíram os três da casa de cabelos loiros, olhos azuis, barba por fazer e a roupa toda amassada. Um se encurvando para ficar na altura certa, outro se esticando. E o terceiro sem saber o que fazia. Colocou as mãos nos bolsos e encarou o chão; os outros fizeram o mesmo. Correu; os outros correram atrás. Parou; os outros pararam. Mas não durou muito tempo; antes das nove da noite, a polícia batia à porta e levava os dois garotos imitadores, presos por falsidade ideológica e perturbação da paz. - Ótimo! Viu o que você fez, agora? – reclamou Marcos. Estavam em uma cela apertada, com diversos outros presos, que logo começaram a zombar da roupa copiada que os dois usavam, e do fato de que Marcelo imitava tudo o que Marcos fazia. Ou vice-versa. Por fim, a mãe de Marcos chegou e pagou a fiança para deixá-lo em liberdade. O guarda abriu a porta, uma das figurinhas repetidas saiu; a mãe lhe deu um beijo na cabeça, passou-lhe a mão nos ombros, disse que tudo ficaria bem e foi embora. O outro agarrou as grades, sacudiu-as e gritou:

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- Eu sou o Marcos! Eu! Ele é o Marcelo! Ei, seu guarda! Voltem aqui! Eu sou o Marcos!!! Mas ninguém o escutou. Sentou-se no chão, desanimado, e outro cara se sentou do seu lado. - Então, quem é você, afinal? Marcos ou Marcelo? Ele o encarou; tinha uma estatura parecida, os cabelos eram parecidos, e dava para dar um jeito nos olhos e na forma de caminhar. - Nenhum dos dois. Qual é o seu nome? - Gildo – o outro falou, estendendo-lhe a mão. Marcos retribuiu. - Olhe só, que coincidência! Eu também!

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Guerra Musical

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Anderson era uma pessoa pacata, comum, daquelas que gos-

tam de chegar à sua casa depois de um duro dia de trabalho na cidade de Sangomeça; daquelas que tiram os sapatos, sentam na poltrona e ligam a televisão para ver que não está passando nada além de Musculação, a eterna novela da TV Cubo. Mesmo assim, relaxam um pouquinho, nada interessados no que acontece na novela, conversam com o filho e vão perscrutar se o jantar vai sair ou não, afinal de contas. Contudo, para o desagrado de Anderson, havia se mudado recentemente para o seu condomínio um adolescente ou adulto jovem, tocador de baixo. E, todos os dias, no mesmo horário em que ele chegava exausto do serviço e não queria nada além de tranquilidade, o seu vizinho de lado resolvia tocar alto o baixo. - Mas é de tarde – dizia a sua esposa – Não tem nada que se possa fazer, né? Neste horário pode fazer barulho. - Mas é absurdo! Eu não consigo nem pensar direito com esse barulho todo! Tenho certeza de que ele está passando dos decibéis permitidos! - Reclame com a polícia, então. - Você vai ver. O irmão José tem um aparelho desses que medem decibéis; eu vou trazer amanhã e, se tiver passado do limite, vou ligar. Ele passou o dia seguinte ansiosamente esperando pelo momento de, triunfantemente, voltar para casa, descobrir que o barulho estava acima do limite e, então, ligar para a polícia. Entretanto, para o seu desagrado, o volume não estava, nem quando ele colocou um estetoscópio na ponta do aparelho e o encostou na parede. - Viu? Deixe, um dia ele fica bom nisso, e aí você vai agradecer por ter um músico famoso ao seu lado. - E até lá a gente tem de sofrer? E nossos filhos, como vão crescer com esse barulho horrível do nosso lado?

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- Que nada, pai, roque é irado! – exclamou seu filho, de dez anos. - Viu? Já está alterando a mente deles! Eu vou ligar pra polícia. Ele explicou toda a situação, até mesmo que seu filho estava sendo levado para o caminho do mal por causa do seu vizinho, mas a policial que atendeu ao telefone foi irredutível. - O senhor disse que não passou do volume permitido, certo? - Sim, disse, mas... - E ele nunca tocou depois das dez? - Não, mas... - Então, aconselho o senhor a comprar um tampão de ouvido e esperar até ele ficar bom – terminou, rispidamente, a policial – Tenha um bom dia. Ele colocou o telefone no gancho irritadamente, bem no ápice de um solo de baixo mal feito do vizinho ao lado. - Vou ligar pro meu advogado! – anunciou, novamente triunfante. Mas logo seu peito desinchou; seriam anos de processo por algo que provavelmente não daria em nada. Anderson foi se deitar inconformado, cansado e irritado; a noite em claro, porém, serviu-lhe para pensar em um plano de vingança. No dia seguinte, chegou à sua casa com duas caixas de som, que ligou ao aparelho de CDs, e colocou Bach para tocar (mas em um volume dentro dos decibéis permitidos; afinal de contas, Anderson ainda se preocupava com os seus vizinhos). O vizinho pareceu não se irritar muito; Anderson já estava ficando inconformado, rodando o CD constantemente no mesmo ponto da música, quando o outro, por fim, aquietou; dando a batalha por ganha, nosso herói finalmente pôde se sentar à mesa e desfrutar um merecido jantar e, em seguida, uma merecida e tranquila noite de sono. Tudo ia bem até a tarde seguinte, mas o vizinho recomeçou e, quando o incomodado colocou o CD novamente para tocar, o outro começou a cantar , e bastante mal, por sinal. - Pelo amor de Deus, quer parar? Isso não vai levar a nada! – disse a sua esposa, mas o marido continuava em um frenesi de incômodo.

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Cáandou, láandou e teve uma ideia; por hora, desligou o CD e ficou quieto, deixando o outro apenas tocar. O dia seguinte, porém, traria muitas surpresas. Anderson saiu mais cedo do trabalho para buscar a sua filha, Aline, na escola; entrou na sala de aula esbaforido, dizendo que sua avó estava muito doente e precisava levá-la para o hospital, e tinha de buscar a filha, e correr, que a avó estava muito doente... Quando a professora perguntou se ele não iria levar também os outros irmãos, ele aereamente ignorou a pergunta e, carregando a filha como se fosse um saco de batatas, correu para o carro. - Muito bem, filha, lembra que você estava treinando na escolinha para cantar no coral? Eu quero que você cante bem aqui na sala, de frente para esta parede, até ficar boa. Do outro lado da parede, era possível ouvir o baixo e a música mal ensaiados. - Mas, pai, e a lição de casa? - Pode deixar, hoje não precisa fazer. - Oba! E a filhinha começou a desafinadamente cantar para a parede, parecendo mais uma taquara rachada. Enquanto isso, o pai se sentava no sofá, com os tampões de ouvido, satisfeitíssimo. Pouco tempo depois, sua esposa chegou, as compras em uma mão e os dois outros filhos logo atrás. Irritada, sequer falou com o marido. - Vamos jantar fora hoje – disse para os seus meninos, deixando as compras na cozinha. Enquanto isso, Anderson continuava com seu sorriso bobo, pensando que havia ganhado a batalha; meia hora depois, o vizinho finalmente havia desistido, e ele comemorou com um potão de sorvete de creme para ele e Aline. Contudo, no dia seguinte, o músico foi mais esperto; trouxe consigo um amigo para ensaiar em casa, e começaram cedo; quando o nosso pobre herói chegou à sua casa, estavam no ápice de uma batalha de baixos aparentemente quebrados, pelo som que faziam. - Viu, é nisso que dá, ficar de picuinhas! – exclamou a sua esposa – Quantas vezes preciso dizer que isso não edifica? Mas que exemplo para as crianças! Pelo amor de Deus! Tenha misericórdia!

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Mas, em vez de convencê-lo do contrário, esta frase simplesmente deu mais uma ideia para o nosso herói apreciador de uma boa música. Ele foi até a parede e bateu com força; a música parou, para que o vizinho pudesse escutar o que estava acontecendo, e Anderson anunciou: - Você ainda não ganhou! Tenho uma grande surpresa para você amanhã! – exclamou e tentou soltar uma risada maligna, mas se engasgou no meio, acabando com o pouco respeito que havia adquirido. A música continuou até as 21h59, mas ele não estava preocupado; não, muito pelo contrário, estava feliz, porque o dia seguinte seria domingo, e domingo era dia de culto. Exatamente às quatro horas da tarde, Anderson chegou em uma pequena perua com algo em torno de 30 pessoas da sua igreja que, de alguma forma, conseguiu enfiar dentro da sua casa para um “ensaio informal”. Violinistas se bateram com flautistas, baixistas serviram de apoio para saxofonistas, e a organista até pôs o seu órgão portátil sobre a cama; em pouco tempo estavam todos entoando hinos do jeito mais desordenado possível. (Ah, sim, a esposa, assim que viu a perua chegando com o seu marido a dirigi-la, entrou no seu carro com as três crianças e correu para a casa de sua mãe, decidida a não pagar a fiança dele por pelo menos uma semana, para que largasse a mão de ser besta). O vizinho, por sua vez, estava com seu companheiro, tocando tudo o que sabia de cor do mais puro roque pesado. Foi a vez, então, de os outros vizinhos se revoltarem; a velhinha de cima começou a bater com o cabo de vassoura no chão; outros vizinhos ligaram seus sons na maior altura possível, indo do Creu a Xorãozinho e Chitoró; alguns começaram a cantar, crianças a berrar, televisões foram ligadas, e alguns casais até aproveitaram a barulheira que os encobria para emitir seus sons de amor que não poderiam emitir em outra oportunidade, por respeito aos vizinhos. Quando a polícia chegou, o prédio inteiro parecia um manicômio, tendo que dar tiros ao ar para acalmar todo mundo. Botou todos para fora de suas casas (deixando apenas os casais nus ou seminus, por razões óbvias, em seus quartos) e começou a inquirir quem diabos havia começado tudo aquilo. Dedos foram apontados e passos

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foram dados para trás, deixando os dois vizinhos acusados de frente para os oficiais. Mas, quando tudo parecia que ia dar errado (ou certo, depende do seu ponto de vista), e algemas já estavam para serem colocadas, um homem de óculos de sol roxos, barbicha, boina estranhona e cachecol (em pleno verão!) vermelho berrante apareceu, batendo palmas afetadas. - Bravo! Bravíssimo! Senhores, gostaria de parabenizá-los pela melhor obra dadaísta de toda a história! (Se algum deles tivesse estudado arte, saberia que aquilo estava mais para um insulto que para um elogio, mas, como ninguém havia estudado, todos olharam para o chão e balançaram seus pés, encabulados). - E estes dois são os gênios criadores desta obra? Pois bem, gostaria de contratá-los! Vamos gravar um original imediatamente! E tudo acaba bem e com pizza neste nosso país Pernil; os policiais foram embora, apenas com um autógrafo da dupla que, futuramente, seria a mais famosa de todo o país em Roque Gospel. Anderson largou o seu serviço para se dedicar totalmente à música, em dupla com seu vizinho, e sua esposa passou a participar das turnês para dar a voz de fundo feminina. Em pouco tempo, sua filha Aline também passou a participar dos chous, e se tornou a mais jovem e mais famosa cantora de Roque Gospel de todo o país Pernil. E os vizinhos? Bom, voltaram às suas atividades rotineiras. Mas não sem escutar sempre o melhor do Roque Gospel, da dupla Anderson e Gustavo.

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Bigui Bróders

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Nos tempos de hoje, em que a mania dos chous de realidade não

só pegou como se proliferou, até mesmo câmeras de segurança estão sendo usadas para satisfazer aquelas almas curiosas para as quais ver desconhecidos em uma casa na televisão não basta. Seu Arnaldo foi um destes. Guarda noturno, sempre que voltava do trabalho, curiosíssimo, às sete horas da manhã, ligava a TV para ver quem estava entrando no prédio. E começou a reparar que sempre no mesmo horário uma moça linda – linda, não, maravilhosa – saía para trabalhar. Era a Heloísa; Heloísa, também, todas as noites, ligava a televisão para ver quem estava entrando e saindo do prédio. E eis que, sempre lá pelas 23h, saía aquele mesmo homem – Arnaldo. O que os dois não sabiam é que ambos estavam se olhando mutuamente; todos os dias e todas as noites, ambos não desgrudavam os olhos da televisão para ver quem era aquela sua alma gêmea que todos os dias saía para o trabalho. No primeiro fim de semana com esta obsessão, os dois passaram 48 horas sem desgrudar os olhos da tela – e, como consequência, nenhum dos dois se viu. Mas na segunda-feira, seu Arnaldo, feliz da vida, viu Heloísa sair; correu elevador abaixo, portão afora, quarteirão para cima e quarteirão para baixo, mas nada dela. E agora? No dia seguinte, ele se preparou; correu para chegar mais cedo e ficou parado no saguão, esperando que ela aparecesse – mas ela, vendo-o pela TV, não saiu de casa, com vergonha, até que ele fosse embora. O que ele estava fazendo lá, afinal? Não podia sair para encontrar ao vivo o homem que tanto admirava na TV! Não estava preparada! Nesta noite, foi ela quem ficou esperando, lá embaixo, que ele aparecesse para sair – mas o elevador desceu reto e parou na garagem! Ela ainda tentou correr atrás do carro, mas não deu tempo – ele já estava longe.

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Arnaldo saiu do trabalho decidido, e Heloísa saiu para o trabalho decidida; naquele dia iriam se encontrar. Os dois pararam no saguão às seis e cinquenta e seis da manhã e ficaram olhando para a porta – um para a do elevador, outro para a do saguão. E nenhum dos dois chegava! Levaram cinco minutos, ambos parados no saguão, olhando sem graça um para o outro, para se chegar à mais óbvia das conclusões – eles eram eles mesmos! Mas... Arnaldo não era tão alto quanto parecia na câmera, nem tão forte. E o que era aquele olho estranho? E a barbicha? Já Heloísa não era o que ele vira pela câmera – loira, não morena, e chata como uma tábua. E aquele nariz? Mas os dois se cumprimentaram; ambos se apresentaram, deram um sorriso sem graça, e ficaram nesta situação, até Heloísa anunciar que precisava ir trabalhar. Ele assentiu, dizendo que sabia, e ela lhe disse um até mais. Desde então, nunca mais olharam para as câmeras de segurança.

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Ristorante

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Enrico Bazar era mais um dos muitos que, no país Pernil, conse-

guiu enriquecer sem muita dificuldade. Tá, tudo bem, foi difícil, mas comparado ao resto da população, ele enriquecera praticamente sem mexer um dedo, usando apenas um pouco de esperteza e muita – muita – sorte. Porque, como ele dizia, para se conseguir algo, era necessário 1% de inspiração, 9% de transpiração e 99% de sorte – como isso dava 109%, você podia tirar os 9% da transpiração. Assim que chegou da Ipalha, um país na Pseudoropa, três anos atrás, Enrico resolvera, junto de um amigo – Corleo, montar um restaurante de comida ipalhana. Mas, como eles tinham muito – mas muito – dinheiro, porque a Pseudoropa tinha um nível de vida extremamente alto para os níveis Pernileiros, de modo que um Elzo é o mesmo que uns 100 Falsos (o que me leva a perguntar por que eles saíram de lá, mas tudo bem), resolveram montar um restaurante extremamente chique de comida Ipalhana. Mas tão chique, tão chique, que um Espaguete a Bolonhesa custava algo em torno de 350 Falsos – o que seria o preço em Elzos lá na Pseudoropa. Obviamente, ninguém ia àquele restaurante. Ao longo do primeiro ano, o dinheiro de que os dois homens dispunham conseguiu dar conta dos gastos exorbitantes de manter o local. Entretanto, como nenhum cliente nunca aparecia por lá para comer e o cozinheiro usava as receitas da mãe de Enrico, ele chegou à conclusão de que ninguém gostava da comida dela, e por isso entrou em profunda depressão. Isso nos primeiros quinze dias. Para se livrar da depressão, ele se viciou em fluoxetina, tomando uma caixa por dia (ele tinha dinheiro, podia pagar). Mas, como consequência, os farmacêuticos pararam de lhe vender, e os médicos lhe vetaram a compra (apareceu até nos jornais de Pernil, uma notícia de pé de página cobrindo a parte do obituário que não foi ocupada porque as taxas de mortalidade haviam diminuído

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desde o fim do ataque do PCC, ficando abaixo do esperado: “Homem depressivo proibido de comprar fluoxetina”), sobrando para ele a única esperança: meter-se no meio do tráfico. Com isso, em questão de seis meses ele torrou todo o dinheiro de que dispunha e que não havia sido transferido para a conta do restaurante. Deste modo, nove meses depois de tê-lo aberto, ele estava falido, não tendo como pagar os chefões da máfia (sim, a máfia ipalhana – e a calombiana – controlavam o tráfico de drogas no país Pernil). Era o terceiro dia desde o início de sua dívida, e três homens – bom, na verdade, um homem e dois orangotangos – bateram à sua porta, cobrando-lhe o dinheiro. Sem ter como entregar nada além da vida, Enrico, que nunca fora estúpido (exceto pelo dia em que se envolveu com o tráfico), pensou rápido. - Que tal discutir isso comendo um prato do verdadeiro espaguete ipalhano em homenagem à nossa nacionalidade? O outro concordou; não havia muitas manobras que ele pudesse fazer, uma vez que o restaurante era no centro da cidade e a máfia a controlava de ponta a ponta. Eles foram para Il Piccolo Ristorante Ipalhano, o qual os impressionou pelo porte paradoxal e a riqueza de sua decoração. - Eu o reservei especialmente para esta ocasião – comentou Enrico, sabendo que ninguém costumava aparecer àquela hora (na verdade, ninguém costumava aparecer nunca) – Assim, ninguém vai nos incomodar enquanto comemos. Agora, com licença, eu vou falar com o chefe, conhecido meu, e ele vai nos fazer um prato especial... Ele então instruiu os garçons para que não o chamasse de chefe em hipótese alguma e que o tratasse com a maior polidez possível, como se fosse milionário. Quando chegou o final do jantar, que incluiu cinco entradas, três pratos principais e um carrinho – literalmente – de sobremesa, tudo regado a Vinho do Cais (sem terem sequer mencionado a dívida), o mafioso já colocava a mão no bolso, quando Enrico, todo a sorrisos, impediu-o. - Não, não, hoje é por minha conta. E, sem mais, a dívida foi considerada paga.

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A partir daí, o esperto dono do restaurante (cujas receitas, elefantas, foram aprovadas) descobriu uma fonte interminável de dinheiro. Toda vez que devia para alguém por causa dos antidepressivos, simplesmente o levava para o restaurante e fingia lhe pagar uma refeição. Ele teria apenas mais dois meses e meio de renda para pagar o ristorante, mas, do jeito que as coisas iam, ele não precisaria de mais do que dois para que tudo desse certo. A sua maior descoberta foi, na verdade, no dia em que, por ter se tornado amigo de um dos cobradores, resolveu oferecer um jantar sem motivo explícito. Com isso, pela honra ipalhana, o homem, imaginando que o jantar havia saído algo em torno de 10000 Falsos, ficou lhe devendo um favor. Com o passar do tempo, o dono do restaurante oferecia jantares para todos. Desta modo, metade da cidade lhe devia favores. Logo, pessoas temiam serem convidadas, e aqueles que já haviam sido uma vez, rezavam para que não fossem de novo – afinal, se já estavam presos por um favor, quem diria dois? Enrico enriqueceu brutalmente – em verdade, apenas presentealmente, porque tudo que ele queria lhe era dado como presente, mas ninguém nunca lhe dera dinheiro – tendo até os cobradores de contas do restaurante a lhe dever favores. Para vê-lo, havia uma sala em Il Piccolo Ristorante Ipalhano, na qual havia uma mesa de mogno, uma poltrona e um homem vestido de fraque com um gato branco em seu colo, fumando um charuto (ele e o gato). Enrico Bazar se tornara o homem mais poderoso da cidade – ou quase; igualando-se em poder e favores, restava apenas Lucca, o mafioso que, até havia pouco, vendia-lhe drogas. Em uma estória normal, chegar-se-ia a um clímax neste momento, com direito a guerras de máfias cheias de efeitos cinematográficos. Isso, porém, é porque no nosso país as máfias são más, mas, no país Pernil, elas são extremamente boazinhas – apesar de que deveriam ser extremamente mal vistas por ganharem a vida fazendo coisas ilícitas, os pernileiros simplesmente chegaram à conclusão de que isso não é nada pior do que a política, sendo que eles escolhem uma vez a cada quatro anos um idiota para receber todo

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o poder do país e fazer o que quiser com o dinheiro público, como por exemplo, coisas ilícitas, ou, pior ainda, comprar sorvetes para criancinhas diabéticas e dizer que elas não podem tomar. Justamente por este motivo, de as máfias serem boazinhas e bem vistas, esta estória não tem um clímax sangrento. Houve simplesmente um encontro entre Enrico e Lucca, em Il Piccolo Ristorante, no qual ambos decidiram partilhar a cidade (50% para cada um a partir daquele momento, de modo que cada pessoa que nascesse seria entregue ora para um, ora para outro) em um almoço obelixano, com muito Vinho do Cais, e ainda resolveram investir no restaurante, partilhando-o entre três – Corleo e os dois mafiosos.

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Cheque em branco

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E

le avançou pela rua, olhando para a direita, procurando um lugar; achou. Deu a seta, parou logo adiante, engatou a ré e começou a manobrar. Quando já estava basicamente estacionado e faltava apenas avançar alguns centímetros para não bloquear o carro de trás, uma mulher apareceu, acenando, indicando que estava bom. - Posso dar uma olhadinha, doutor? Usava uma daquelas roupas laranjas, que brilhavam com a luz dos carros, fingindo que era uma agente oficial, embora ele soubesse que não era. Mesmo assim, era uma trabalhadora. Não estava roubando nem matando, e ele tinha compaixão. - Pode, pode. Ele saiu do carro, caminhou rapidamente, e fez o que tinha de fazer. Quando voltou, ela estava do outro lado da avenida, mas, assim que o viu, correu por entre os carros para ter certeza de que receberia sua parte. Ele já havia praticamente saído da vaga quando ela chegou e parou ao lado da sua janela, esperando; olhou pelo carro, passou as mãos nos bolsos; não tinha nada. A carteira, vazia; havia acabado de gastar seus últimos trocados. Será que ela passava cartão? - Puxa, senhora, me desculpe, eu não tenho nenhum trocado... Ah, quer saber, espere um pouco. Abriu sua carteira, pegou um cheque, assinou, datou e fez os dois riscos em cima. - Pegue este cheque aqui e preencha com o valor que você quiser. Se você não depositar até hoje, às cinco, eu vou sustar. Tudo bem? Ela o encarou com surpresa, pegou o cheque com adoração e nem viu direito quando o carro saiu. Em seguida, olhou em volta, para a avenida movimentada, os colegas orientando os outros carros, e não resistiu. - Tô rica, tô rica! – gritou, correndo pela rua. Usou os trocados que tinha no bolso, pegou o metrô para casa, depois o trem, e por fim, o ônibus; morava longe, mas compensava. O

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local de trabalho era bom, sempre rendia mais do que qualquer outro, e parecia que, naquele momento, tinha valido à pena. Chegou à sua casinha, um barraco ajeitadinho, e chamou todo mundo: um filho adolescente que estava dormindo o outro ainda criança, que estava jogando bola, e as duas filhas adolescentes, uma carregando sua própria filha no colo e outro, de dois anos, agarrado à perna, e outra, que já estava na sala, sentada à mesa, dando mamadeira para um e passando a mão na barriga crescida. - A sorte grande! – ela disse; colocou o cheque na mesa, bem esticadinho. Todos olharam. Ninguém entendeu bem o que ela queria dizer. - Um homem me deu isso por olhá seu carro. Ele disse queu posso pô o valô queu quisé e depositá, até hoje, às cinco horas, sinão ele susta. - Uquié sustá, mãe? – um perguntou. - Num sei, mais é mió num arriscá. - Intâo põe logo uns cem mil, mãe! – disse a filha mais velha. - Não, põe uns dois milhão! – opinou o filho mais novo. - Dexa di sê bobo, sieu pusé coisa dimais, o chequi vorta, qui nem us qui eu dei otro dia nas Ocas Batina – ela respondeu. Todos ficaram quietos. - I comu era u cara? – perguntou o adolescente, o mais velho e que se achava mais esperto de todos. Tinha de definir como o homem era, para saberem o quanto poderiam pedir. - Ah, era um cara bunitão. - Bem vistido? Com pinta de preibói? - Num sei. Tava di ropa normal. - I o carro? Qual era? - Num sei. - Ah, mãe! Comu qui cê num sabe qui carro qui era? - Num sei, é tudo igual! Era preto. Serve? - Não! – ele gritou – Assim num dá, mãe. A sorte grande cai no nosso colo, e cê vem cum essa di num sabê o carro?

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- Bota uns mir intão, mãe – disse a que amamentava. - Mir é muito poco. Dez mir – disse a outra. - Num vale, num vale. I si o cara num tivé na conta? - Ah, uns dois, três mir ele divia di ter na conta. Quem tem carro tem isso na conta, certeza! – exclamou a mãe. - Intão põe isso. - I si num dé? Ficaram todos quietos, desanimados. Era como um ter uma lâmpada mágica, mas não falar a língua do gênio.

- Qui horas são? - Treis. - Miór i nu banco. A gente decidi lá. Juntaram-se todos: mãe, quatro filhos, três netos e meio, e foram andando até a agência mais próxima. Chegando lá, ela pegou o envelope, preencheu com todos os dados que copiou do cartão e do cheque, mas não preencheu a parte que tinha de colocar o valor. Ficaram se olhando. - I agora? - Já sei. Vô preguntá no caxa. Ela entrou e pegou uma senha; as filhas se sentaram nas cadeiras especiais, cuidando das crianças, e ela ficou com os dois filhos em pé, na fila. Havia pensado em pegar a fila especial, mas estava ainda mais longa do que a normal, e achou melhor não arriscar. Olhava para o relógio de cinco em cinco minutos, mas parecia que o tempo não passava. Três e cinquenta. Três e cinquenta e cinco. Quatro horas. O banco fechou as portas; ninguém entrava. E ela tinha até as cinco para depositar, ou então, perderia todo o dinheiro. Na fila, discutia com os filhos. Mil? Mil e quinhentos? Mil quinhentos e cinquenta? Quatro e quinze. Quatro e meia. Quinze para as cinco. Chamaram a sua senha; apressada, correu para o caixa, e a ela se juntou toda a turma.

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- Dona, dexa eu ti falá. Eu sô guardadora di carro, i um cara mi deu essi chequi em brancu, i falô qui eu pudia depositá o quanteu quisessi. Quantu cê acha qui eu ponho? A atendente a olhou com incerteza; nunca havia ouvido falar daquilo na vida. Pediu para ver o cheque, conferiu, e, realmente, era verdadeiro. Chamou o colega ao lado, contou do caso, e ele concordou. É, parecia tudo correto. - Olha, dona... - Maria. - Dona Maria. Esse cheque aqui é de uma conta especial. Só quem tem uma movimentação monetária muito grande pode usar um cheque desses nesse banco aqui. - U cara é milionário! Tiramo a sorte grande! – gritou ela, e todos começaram a se abraçar. - Eu não sei que tipo de acerto foi esse, e também não sei quanto ele tem na conta para a senhora poder preencher o cheque... Mas eu acho que é melhor não abusar muito. - Quanteu coloco? - Não posso dizer, dona. - Por favor, a sinhora é istudada, a sinhora sabi miór qui eu. Fala quanto quieu ponho. - Não sei, mesmo – ela não queria ser culpada pela infelicidade da moça. - Por favor, ceis são tudo... - Põe uns dez mil, deve dar – opinou o homem do caixa ao lado. Ela concordou de imediato; pegou uma caneta, escreveu o número – nunca havia escrito um número tão grande na sua vida! – preencheu seu nome, como a moça havia orientado, e saiu agradecendo a todos. Nem ouviu quando ela lhe perguntou se não preferia depositar na boca do caixa. Quando estava do lado de fora da agência, apertando os botões no caixa rápido, o homem riu. - É cada uma que eu vejo... E o pior é você! Se eu não falo, era capaz de ficar até amanhã com ela aqui. Agora, anda logo, que eu quero ir embora, e a fila ainda tá grande!

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Do lado de fora, eles colocaram o envelope, com aquela eterna sensação de que a máquina estava cortando o papel em pedacinho, e olharam para o relógio de parede: cinco para as cinco. Tinham conseguido. Estavam ricos! Naquela noite, saíram para comemorar, tudo no cartão de crédito dela. No dia seguinte, não foi trabalhar, mas saiu para comprar coisas: móveis, roupas, presentes para os netos, tudo. Cada coisa no cartão de um, ou em boletos de infinitas mensalidades. Não sentou para fazer as contas; achava que dez mil eram um número grande demais para ela conseguir alcançar em gastos e que nunca chegaria. No entanto, três dias depois, a gerente do banco ligou; o cheque havia sido sustado, e o dinheiro não seria depositado. Por quê?, ela indagou, mas a gerente não sabia. Voltou para casa deprimida; e agora? O que faria? - Doutô, posso olhar o carro? Era outra avenida, mas eram o mesmo homem e o mesmo carro. Ele concordou; quando voltou, não tinha trocado. Sem jeito, preencheu o cheque novamente e deu as mesmas instruções. Saiu da vaga observando pelo retrovisor o homem abobado, olhando para o papel em suas mãos, que logo em seguida saiu correndo pela avenida. Pegou o celular, discou um número e aumentou o volume do rádio, para escutar a chamada. - Por favor, eu gostaria de sustar um cheque. Dobrou a esquina com um sorriso no rosto.

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Os bolinhos da Vovó Nona

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Seu nome, ninguém sabia. Os clientes a chamavam de vovó; os

netos, de Nona, vovó em italiano, criando um gigantesco pleonasmo no nome daquela boa velhinha. Vovó Nona veio da Itália há muito, muito tempo, e logo abriu uma Quituteria na Rua das Flores, nº 47.

Era uma loja modesta, quem via não dava muito por ela; a sua entradinha singela, uma porta de madeira e a frente de vidro sobre a pequena cerca de tábuas. Logo depois, andava-se um pouquinho, e lá estavam as singelas mesas de mogno, com toalhas xadrez, vermelhas. Quatro cadeirinhas em volta de cada uma das cinco mesinhas, com um vasinho de flores sobre cada uma delas. Amplas janelas com cortinas simples mostravam o lado de fora. Do lado oposto a elas, o balcão, de madeira, atrás do qual ficavam as pias e mesas para se preparar tudo. Um bule de café, um fogão para fazer o que quer que precisasse, um expositor de doces, algumas frutas, tudo muito simples, mas muito limpo, impecável. Todo mundo adorava a Vovó Nona. Mas ela só começou a fazer sucesso mesmo depois de um dia de chuva em 1935. A água literalmente jorrava do céu, inundando todo o caminho, impossível de se andar. Por isso, algumas pessoas pararam na Quituteria, onde Vovó Nona cuidava dos seus netinhos. Já que era um dia chuvoso mesmo, ela resolveu fazer um prato de acordo: bolinhos de chuva. E deu alguns para os clientes provarem. E eles não só provaram como aprovaram! Afinal, eram uma tentação! Ia bolinho atrás de bolinho, com café, suco, leite, o que quer que fosse. Mais gente vinha, e mais bolinhos ela fazia. Cada cliente comia um, depois mais dois, mais três, mais quatro, mais sete, mais dez! Comiam até não agüentar mais. E quando não aguentavam mais, ainda comiam mais um, de choro. Ela fazia a massa na hora, batia, formava as bolinhas, jogava na panela, passava no açúcar com canela e entregava, fresquinhos, para depois fazer mais e mais... E a Quituteria da Vovó Nona ficou famosíssima por toda a cidade. Pessoas vinham de todos os lugares para provar os bolinhos de chuva,

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mesmo que estivesse aquele sol do deserto do Saara. Na verdade, a loja ficou tão famosa que teve de aumentar. Vovó Nona diminuiu um pouco sua casa, no andar de cima, e usou parte dele para colocar mesas para os clientes, que não paravam de chegar. E foi mais ou menos em 1937 que tudo aconteceu. Parece até uma estória de máfia. Todo mundo queria a receita que fazia os bolinhos da Vovó Nona tão especiais. Prometiam pagar milhares, milhões pela receita, e pagariam ainda mais por uma franquia da loja, qualquer coisa. Mas Vovó Nona não contava para ninguém, de jeito nenhum, era segredo de família, que passava de avó para neta, havia muito tempo. E chegou um dia, se não me engano, 12 de julho de 1937, em que um carro passou, um daqueles bem velhos, grandões, faróis grandes, bancos de couro, estepe atrás, estilo Al Capone, e atirou contra a pobre loja da Vovó Nona. Por sorte, ela se escondeu embaixo do balcão e lá ficou até que o carro fosse embora, sem se machucar. No dia seguinte, estavam todos chocados. Quem faria uma coisa dessas com a Vovó Nona? Ela, por mais assustada que estivesse, no entanto, continuou a trabalhar. Uma rodinha de detetives amadores, entre uma cesta de bolinhos e outra, discutia sobre isso, tentando descobrir quem seria. Por fim, deram um conselho para ela: - Olhe só Vovó Nona, eu, se fosse a senhora, registraria a receita destes bolinhos. Assim, quem quisesse fazê-los, que os fizesse, mas iriam pagar uma parte para você. Todo mundo fica feliz! - Isso mesmo, Vovó Nona, porque quem fez isso com certeza queria fazer pressão para conseguir a receita. A boa velhinha concordou, e mais cestas de bolinhos foram trazidas, às braçadas, em comemoração. No dia seguinte, registrado no departamento de patentes estava: “Bolinhos de Chuva da Vovó Nona®: Receita: XXXXXX XXXXXX XXXXXX”.

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Claro, no lugar destes Xs estavam os ingredientes de verdade. E não demorou muito para vários irem lá requerer a receita para fazer seus próprios bolinhos. Uma loja de Bolinhos de Chuva do Al, abriu exatamente em frente à dela. Mas que ousadia! Os clientes antigos sempre iam para a Quituteria da Vovó Nona, afinal, ela era a dona desde o começo ela quem os trouxe e que era muito mais agradável que um cara com chapéu de aba mole, charuto e terno, cicatrizes na cara, servindo bolinhos. Com raiva por não conseguir, Al baixou os preços. Alguns ainda foram, mas o bolinho não era tão bom quanto o da Vovó. Então, pagando umas pessoas, Al criou uma verdadeira greve de bolinhos. Homens carregando placas com os dizeres “Só quero bolinhos do Al!” se acumularam à porta da Quituteria da Vovó Nona. Era impossível entrar lá. E os clientes olhavam indecisos, sem saber o que fazer. E começaram a gritar: “Queremos bolinhos da Vovó Nona!”. E ela os atendeu, jogando os bolinhos de sua varanda, em uma verdadeira chuva, para que todos pegassem. Enquanto isso, Al literalmente comia o seu chapéu de tanta raiva. Ah, se ele pegasse a Vovó Nona! Ficou a elaborar um plano... No dia seguinte, a varanda havia sido eficientemente tapada com uma placa gigantesca, na qual estava a cara de Al apontando para a sua loja, dizendo: “Eu só como bolinhos do Al”. Além disso, brutamontes cobriam as portas e janelas. Os clientes não sabiam o que fazer e, viciados por bolinhos, tiveram de comer os do Al, ainda que contra a vontade. Vovó Nona também estava sem saber o que fazer, cuidando de seus netinhos, mas estava tranquila; sabia que havia algo especial na sua receita que ninguém conseguiria imitar, e não tardaria para que todos voltassem à sua lojinha. E não demorou mais que dois dias para que os clientes se revoltassem e fizessem uma marcha por toda a rua, com placas como: “Amo muito os bolinhos da Vovó!” ou “Fora, Al!” ou “Eu quero os bolinhos da Vovó Nona!”. Quando a marcha irrompeu pela rua, uma metade de cada lado, e se encontrou no meio, onde ficava a loja, os brutamontes se assustaram e fugiram. A placa foi derrubada, e, quando todos entraram na Quituteria, Vovó Nona já tinha preparadas cestas e mais cestas de

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bolinhos de chuva. Por conta da casa. E todos comeram felizes os bolinhos de chuva da Vovó Nona! Ah, que delícia! Mas a Vovó não era vingativa, não; ela logo seguiu para o lado oposto, onde Al comia já o paletó, inconformado, e lhe entregou um bolinho, que, desiludido, o homem comeu. E adorou! - Ora, mas Vovó Nona, que bolinho delicioso! Por que os meus não ficaram tão bons assim? - Ora, porque faltou o ingrediente principal. - Qual? Eu segui toda a receita! - Não, há algo que está na receita, mas que ninguém se deu ao trabalho de executar: “Misture tudo com uma pitada de amor e leve aos fregueses com um sorriso no rosto”. E o senhor Al se juntou à Vovó Nona na produção de bolinhos de chuva. A de Al fechou, enquanto que a pequenina Quituteria da Vovó Nona continua lá, singela, com suas dez mesinhas Você pode até dar uma passada. Quem sabe eles não lhe dão um bolinho para experimentar?

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Bert

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V

ocê poderia andar pelo universo inteiro, procurar em todos os cantos e recantos, até virá-lo de ponta-cabeça, mas só iria encontrar aquele pequeno planeta em um lugar. Na Via Farinácea, no Sistema Bolar, o 3º planeta da direita para esquerda (ou de trás para frente, ou de baixo para cima). Era ele, uma bola rochosa, azul, com um terço de terra e o resto de água. O seu nome era Areia. Planeta Areia. E, do mesmo modo, você poderia andar por todo o planeta Areia, percorrer todos os cantos e recantos, virá-lo de ponta-cabeça e girá-lo como um pião, que, ainda assim, só encontraria aquela cidade em um lugar. No continente Emédica, no país Pernil, a cidade de Santa Paula, curiosamente chamada de Santa-do-pau-oco. Sim, não era um nome muito agradável, mas fazia jus à cidade, pois, do mesmo modo, você poderia andar por toda a cidade de Santa Paula, olhar em todos os cantos e recantos, virá-la de ponta cabeça (se tivesse força para tal), que não precisaria dar mais que um passo para fora da sua casa para encontrar ele. Aquele ser maligno, que se instala em todas as ruas, ruelas, ruazinhas, ruazonas, avenidas, avenidinhas, avenidonas, pontes, pontezinhas e pontezonas, nas vias de pedregulho e terra batida, de mato e, até mesmo, acredite se quiser, de água. Um monstro redondo e profundo, negro, que cresce a cada minuto, alimentado pela água da chuva e pelos caminhões e carros pesados. Entretanto, quem mais contribui para isso eram os prefeitos da pobre cidade de Santa Paula; o dinheiro das obras públicas, duramente extorquido da população através de impostos, ao invés de ser dirigido para investimentos públicos, ia para rotas alternativas não muito públicas – pois, afinal, como um bom homem certa vez disse, nada mais misterioso e pessoal do que a bolsa de uma mulher, ainda mais se ela é uma política. De qualquer forma, a cidade de Santa Paula, governada por uma tirana prefeita chamada Márcia, sofria com o mal parasitário. Ele havia sido expulso da Pseudoropa e dos países desenvolvidos, mas proliferava como praga nos país sub-desenvolvidos, entre eles, o pobre do Pernil.

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O nome desse mal era o assim conhecido Buraco. Na verdade, não se sabe muito sobre a vida do buraco. Tudo que os cientistas esforçados da cidade de Santa Paula conseguiram descobrir era: Primeiro: eles nascem de asfalto de baixa qualidade. Segundo: não há data correta para o seu nascimento, mas se sabe que, quando um buraco surge, é o suficiente para outros fazerem o mesmo, como fungos. Terceiro: uma vez nascido, ele cresce assustadoramente. Quarto: não há cura (por isso entenda: cura que os nossos impostos, previamente descontados para diversas outras coisas “mais importantes”, consigam cobrir), apenas uma contenção temporária, que pode cobrir os parasitas. Mas isso não significa que eles sumam de vez. Em vista desses problemas, e vocês já alertas sobre os problemas que eles podem causar, a sua natureza e até mesmo a sua vida imortal, já posso lhes contar sobre um acontecido na cidade de Santa Paula. Eis que uma vez, surgiu uma pequena fenda. Seu nome era Bert. E Bert, como toda boa e pequena fenda, cresceu e se desenvolveu de modo assustador, a ponto de todas as pessoas passarem, tropeçarem nele e dizerem: “Puxa vida, Bert, como você cresceu!”. Quando alcançou seus dois anos de existência, o nosso pequeno Bert já não era mais um simples Bert; ele já era um Bertão. E olhe que para se alimentar um Bertão, de comida se precisava de um montão! Pois bem, Bertão alcançou as notáveis proporções de cinco metros de diâmetro por dez ou vinte de profundidade. Não se sabe como. O fato é que, certo dia, Bertão estava tão faminto que engoliu um carro. As pessoas em volta olharam curiosas, tentando ajudar a vítima, surgindo até um pequeno verso: “Era uma vez um buraco. Era uma vez um carrooo... Era uma vez um carro num buraco. E era uma vez um monte de pessoas. Era uma vez um buraco com um carro. Era uma vez um monte de pessoooooas... Era uma vez um buraco com um carro e um monte de pessoas...”. E assim ele ia, indefinidamente, contando a trágica sina das pessoas que se aventuravam dentro do Bertão. Os bombeiros tentaram ajudar,

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mas ele engoliu o caminhão e bebeu a água do hidrante, levando consigo os combatentes de fogo. Do mesmo modo foram o sorveteiro, o cara da banca, o entregador de leite, o contrabandista, o mendigo, três cachorros, quatro gatos, um grupo de símios, um aquário de peixes, todo o elenco dos Timpsons, famoso show de televisão, e até mesmo cinco sogras foram arremessadas. Bertão tinha uma fome insaciável! As autoridades foram chamadas, e devo dizer que, não sem vivas, a prefeita Márcia foi engolida pelo buraco, assim como um presidente de apelido Polvo e um político chamado Anéias, 57. Ah, como o negócio estava realmente feio, o ministro da fazenda, Palóqquio, entrou com um caminhão de 15, a Pirajununga, a famosa pinga do país Pernil. Gostaria de poder dizer que tudo terminou bem, depois de uma festa de arromba e uma churrascada, mas, infelizmente, não foi bem assim (também, com cinco sogras juntas num buraco devia mesmo é ser o inferno!). Cordas foram arremessadas e as pessoas foram resgatadas. Os únicos que a população se recusou a resgatar foram os políticos e as sogras (não sei por quê...). E como promessa de político é o mesmo que esperar que um macaco descasque uma melancia, ninguém acreditou neles, e o pobre Bertão foi tapado com uma ripa de madeira, na eterna companhia dos políticos e sogras (eterna porque vaso ruim não quebra). Bom, tudo bem, foi um final quase feliz. O único problema é que Bertão os absorveu, de modo que, agora, para cada buraco na cidade de Santa Paula que surge, vêm junto cinco sogras e quatro políticos ladrões... É, realmente, tem coisas das quais a gente nunca vai se livrar...

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A garota do 7

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Tudo começou... Quando tudo havia começado? Eu não sei. Não

faço a menor ideia. Aliás, nem ele sabia como tudo havia começado. A verdade é que havia começado, e pronto. É mais uma daquelas coisas misteriosas da vida. Isso aconteceu com um amigo de um amigo de um vizinho meu, e apenas mostra como a vida adora colocar coisas na nossa frente que não podemos ter (como uma loja da Ferrari na frente da sua porta ou uma Daslu de frente para a favela). Bom, o fato é que este homem – que vamos chamar de X – morava em um prédio, no qual, vez por outra, ele encontrava uma garota que não morava lá. E, obviamente, ele ficou encantado com ela, claro. Não podia ser diferente. Ele a observava sempre que aparecia, tentando marcar um horário, quando ela chegava, quando ela saía, ficava na porta da entrada conversando com o porteiro só para vê-la passar, se escondia atrás de jornal, coisas desse tipo. Bom, o que me contaram foi de uma vez que ele abriu a porta do elevador, fora do horário esperado, e pam!, lá estava ela. A garota do 7 – como ele passou a chamá-la, já que tinha um namorado no 7 – disse um oi! animado para ele, e o coitado do X ficou tão encabulado que balbuciou, gaguejou, murmurou, tossiu, corou e se curvou, tudo ao mesmo tempo, retrocedendo aos poucos. Como resultado, ele tropeçou e rolou escada abaixo para o subsolo, mas simplesmente desapareceu quando ela foi procurá-lo, para ver se estava bem. E as coisas prosseguiram ridículas assim. O coitado nunca conseguia falar nada, simplesmente desaparecia quando ela aparecia, ficava apenas observando, observando, observando... Era capaz de saber mais da vida dela do que ela mesma, pelo menos a parte da vida que se relacionava com o seu prédio, entre o róu de entrada e a porta do apartamento. Claro, não sabia seu nome, nem onde morava, nem nada do gênero; apenas imaginava tudo, e em sua cabeça ela era uma modelo super famosa de dia e espiã de noite tentando sabotar o governo de Santa Paula

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e tomar as plantas do metrô novo para uma dominação total da cidade. Seu namorado era apenas parte do plano, assim como suas vindas, tudo um truque, e havia toda uma estória, fantasias nas quais os dois fugiam juntos em um balão por sobre o Bolo de Sal derrotando caças apenas com metralhadoras, e todas aquelas coisas dignas de filmes, com explosões, xingamentos, muito amor e até trilha sonora. A verdade é que ele ficou nisso por tanto tempo, sem nunca conseguir falar com ela, embora ela continuasse a insistentemente lhe dar oi quando ele deixava a ponta do cabelo aparecer, por descuido, do canto da parede atrás da qual se escondia, que ela se casou com

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o namorado, e os dois se mudaram para outro prédio, seja lá onde. Até onde se sabe, eles viveram felizes para sempre, mas o X ficou de coração partido. Por um tempo ainda sustentou histórias absurdas (que poderiam muito bem virar filmes) nas quais ela mudava de ideia e ficava com ele, e tinham os balões e tudo mais, mas quando tudo se provou impossível de acontecer, ele ficou lá, com a maior dor de cotovelo que eu já vi. As coisas nunca acabam bem para aqueles que ficam apenas observando... Mas agora ele já está todo animadinho de novo, porque uma certa Garota do 11 surgiu... Nem quero ver no que isso vai dar...

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Seleção

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- Candidata 197 – ele chamou. Era um homem bonito. De porte atlético, cabelos pretos e curtos, alguns grisalhos nas laterais, alguns pés de galinha que lhe davam um charme, olhos claros, covinhas no sorriso, queixo quadrado e mandíbulas másculas. Vestia-se com um terno preto de marca famosa, uma gravata de seda importada e sapatos de couro caríssimos. Nas mãos, uma prancheta com folhas e uma caneta de marca. Sentado em uma poltrona de couro escuro, tinha uma mesinha de mogno ao seu lado, na qual pusera uma xícara de café e um abajur, ao lado de algumas pastas de papel bege. À sua frente, uma mesa de centro com água ou vinho para os entrevistados se servirem e alguns docinhos. À sua frente, um sofá confortável. - Diana, é isso? Por favor, entre e sente-se. A moça, loira, de olhos claros, corpo voluptuoso, jeito de modelo e ar de inteligente, caminhou decididamente até o sofá, onde se sentou. - Por favor, sirva-se do que quiser. - Obrigada. Ela se serviu de água, que veio em boa hora; estava esperando há quase duas horas, e já estava exausta. Os saltos estavam acabando com ela. - Muito bem, Diana... Devo dizer que muitas outras já foram recusadas neste exato ponto, por terem se servido do conteúdo errado. Agora, se me permite, vou checar seus dados. Vinte e sete anos, advogada, especialista em direito internacional... Mora com seus pais, é isso? Ela assentiu.

- Você se importaria de me dizer por que uma moça bem sucedida ainda mora com os pais nesta idade? Você tem alguma dificuldade de sair pelo mundo, se virar sozinha? Isto a incomodou um pouco, mas ela ignorou; aquela vaga era importante. O salário era excelente. Não sabia exatamente as especificações

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do serviço, mas, sem dúvida, valeria a pena. - Não, eu não tenho dificuldades com isso – respondeu, polidamente – Na realidade, eu iria me mudar depois de casar, mas terminei o meu noivado. Desde então, estou com os meus pais. - E terminou o noivado por quê? Dificuldades de se comprometer com relacionamentos sérios? - Ele me traiu – ela respondeu, secamente. - E você tem uma tendência a atrair homens que a traem ou não? Ela ficou indignada, mas se conteve. - Não, foi o primeiro homem que me traiu. E, sem dúvida, será o último. - Muito bem, Diana, gostei de sua resposta. Mas vamos ver um pouco sobre sua família. Algum histórico de doenças? - Bom... Meu pai teve um infarto. Ele murmurou “uhm-hum” com um ar preocupado, movendo a ponta de trás da caneta em círculos contra seu próprio queixo. - Com quantos anos? - Sessenta e cinco. - Menos mal. É contornável. Pressão alta? Diabetes? - Ninguém, que eu me lembre. - Câncer de algum tipo? Doença de Alzheimer ou qualquer outra doença neurológica ou psiquiátrica? - Não que eu me lembre. - Por favor, Diana, não minta. Será pior se eu descobrir depois. - Bom, minha avó esquece onde põe as coisas, mas acho que é só isso. E meu avô tem artrose nos joelhos e hérnia lombar, mas ele era estivador no porto de Santos. - Tudo bem, tudo bem. Até agora, estamos indo bem. Deixe-me ver, agora, seus testes psicológicos... Ele tomou uma pasta que estava à sua esquerda e tirou alguns relatórios. - Bom perfil profissional. Perfil de liderança. Tem boa autoconfiança... Parcialmente ansiosa. Não parece ter problemas psiquiátricos... E um bom QI.

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145. Perfeito. Agora, outra coisa. Fale-me a respeito de você. Com o mínimo necessário de palavras, me diga: qual seu escritor favorito? - Guimarães Violeta. - Por quê? - Dispensa explicações. - Excelente! E o que acha de Mauro Lebre? - Prefiro não comentar. - Futebol? - Não torço. - Novelas? - Praticamente não assisto. - Muito bom. Músicas? - Gosto de clássicas e jazz. - Quando você ouve a música “Eu quero Plu”, você faz o quê? - Mudo de estação ou tampo os ouvidos. - Ótimo! A favor ou contra o governo? - Depende. O atual ou o passado? - Os dois. - Bom, sou contra o ruim e a favor do bom. - E qual é qual? - Preciso realmente dizer? – ela indagou, erguendo a sobrancelha e apoiando as mãos no joelho da perna que estava cruzada por cima. Ele riu. - Vamos ver, agora, as medidas... Ele virou uma das folhas de sua prancheta, onde tinham os dados anotados por suas assistentes. - Muito bem, noventa e dois de busto, noventa de quadril e sessenta e seis de cintura. Muito bom, mesmo. Bem proporcional... Diga-me uma coisa; sua mãe é gorda ou magra? - Minha mãe? – ela repetiu, sem compreender – Ela é um pouco gordinha,

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mas não muito. Está muito bem conservada. - Excelente. Numa segunda fase, provavelmente precisarei conhecê-la. Tem irmãos? - Tenho um irmão mais velho. - Ele é casado? - Sim. - Trabalha? - É vice-presidente de uma multinacional – ela respondeu, orgulhosa. - Excelente! Na primeira avaliação, Diana, devo dizer que você foi muito bem. Temos ainda uma série de testes e fases para você fazer antes de ser aprovada definitivamente. Eu gostaria muito que você prosseguisse. - Certo... – ela respondeu, incerta. Aquela bateria de questionamentos havia sido bastante estranha. Ele a observou. - Acredito que queira saber um pouco mais sobre as especificações do trabalho. - Sim, por favor! – ela disse. Ele respirou fundo. - Minha querida Diana, eu publiquei esta oportunidade de emprego e com um salário tão alto, porque, como você deve saber... Eu sou rico. Muito rico. E, como você bem pode ver... – ele falou, apontando a si mesmo com as mãos, mostrando-se dos pés à cabeça – Um indivíduo de alta qualidade genética. Devo dizer, quase única. Aquilo estava ficando cada vez mais estranho. - Estou à procura do par perfeito para mim, para criar uma prole perfeita. Meus perfeitos herdeiros. De qualidades genéticas excelentes. Belos, inteligentes, bem comportados, confiáveis. Estáveis psicologicamente. Enfim, um perfeito reflexo de seus pais. De minha parte, estou garantido. Agora, o que falta é de sua parte. Ela parecia chocada. - Logicamente, você não é obrigada necessariamente a cumprir todas as suas funções como esposa. Necessito unicamente do seu útero e dos seus óvulos. Claro, compactuar com tudo seria mais fácil. - Eu não estou compreendendo muito bem... – ela disse, por fim.

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- Diante de nossos filhos, seu dever será de ser uma mãe exemplar. Quando eles não estiverem lá, porém, você pode fazer o que bem entender. Se desejar, podemos ter quartos adjuntos, e cada um dormir no seu. Se eles precisarem de nós durante a noite, você passa de volta para o meu quarto. Quando os deixarmos na escola, estaremos juntos, como verdadeiros pais, pois eles precisam disso. Depois, se quiser, você pode fazer o que bem entender. Não farei imposição alguma além destas, e o seu salário lhe permitirá viver uma vida de rainha. - Ou seja... – ela disse, levantando-se – Você quer que eu sirva para gerar filhos para você? - Exatamente. Para que nossos filhos sejam um exemplo de perfeição... Ela jogou a água de seu cálice nele. - E quem disse que eu quero ter seus filhos, seu nojento? E propagar toda a sua nojeira por aí? Ela depositou o cálice de volta na mesa de centro, tomou sua bolsa e se virou para ir embora. - Não, Diana, não vá! Você tinha começado tão bem! – ele disse – Seríamos perfeitos, juntos! Eu dobro seu salário, o que acha? Isto apenas a revoltou mais, e ela saiu batendo a porta. Inabalado, ele tomou um lenço de seda importada de seu bolso interno, orgulhosamente secou seu rosto e sua barba, trocou as folhas de sua prancheta, tomou outras novas e chamou: - Candidata 198! Aquela não era a primeira, nem seria a última, que se mostraria um bom partido e se recusaria na última hora. Mas não havia problema. Ele iria encontrar o seu par. - Bom dia, Michele. Por favor, sente-se e sirva-se.

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O Cara do 6

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O prédio era um daqueles antigos, tão velho que sequer tinha

elevador. Dois andares, além do térreo, possuindo seis apartamentos, dois para cada piso. As escadas eram estreitas e íngremes, a luz era parca, o ambiente inteiro cheirava a velho, mas ninguém tinha qualquer problema com isso. Todos os moradores se conheciam, eram antigos amigos, moravam lá há anos. Por exemplo, havia o casal de mexicanos do um. O trio de estudantes do dois. As duas residentes do três, a família do quatro, uma banda no cinco, todos muito legais. O grande problema, porém, era o seis. O apartamento seis estava abandonado havia anos, desde que, diziam, houve um assassinato lá; com isso, um fantasma visitava todas as pessoas que tentassem passar pelo menos uma noite ali, de modo que ninguém nunca alugava aquele lugar. Estava fechado desde tempos imemoriais, e ninguém se aproximava dele mais do que o necessário, sendo o mais afastado das escadarias e o menos iluminado do andar. Até que ele se mudou para lá. O cara do seis, como o chamavam, um sujeito esquisito. No primeiro dia em que ele apareceu, usando uma jaqueta jeans e uma calça, uma boina cobrindo os cabelos e óculos escuros, sendo sua face coberta por uma grossa barba, indefinível, todos do prédio ficaram impressionados. Como de costume, um quadro de apostas rolou por lá, tentando adivinhar quantas horas o homem agüentaria lá dentro. Para os mexicanos, duas horas; para a família, três. A banda punha mais fé no homem sinistro e apostava em dez horas, enquanto as duas residentes julgavam não mais que cinco e os estudantes ficavam com confortáveis quatro horas. Nada mais, nada menos. O cara do seis, contudo, parecia decidido a se mudar. Com ajudantes, trouxe todos os seus móveis em um dia só; assim que chegou, subiu as escadas sem cumprimentar ninguém, sem nem mesmo

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lançar sequer um olhar por sobre os ombros, e ficou lá em cima desde então; seus empregados, por sua vez, subiam e desciam com os aparatos para a casa. Em questão de horas, estava tudo arrumado, tudo organizado, o homem fechou sua porta e caiu em seu silêncio; no róu de entrada, o pessoal se reuniu para tentar decidir, afinal, o que se faria do famigerado cara do seis. Caiu a noite, e todos ficaram acordados, apenas esperando pelo que aconteceria. A família via a sua novela, os mexicanos desfrutavam de uma noite fogosa, as residentes e os estudantes estudavam para uma prova próxima, e a banda em um quarto à prova de som, aproveitava o tempo para compor uma nova música. Contudo, do nada, um som de ópera se sobrepôs ao murmúrio da vida cotidiana; O fantasma da ópera, seguido de A cavalgada das Valquírias, e obviamente aquela música do Beethoven, que assusta todo mundo e toca quando o Franquestaim aparece. Todos olharam assustados para cima (ou para o lado), apenas imaginando o que aquele homem do seis estava fazendo. Por que aquela música assustadora? Arrepiante ou não, ela indicava que ele ainda resistia ao fantasma do lugar (se é que não foi ele que apareceu e fez a música tocar); passouse uma hora, duas horas, três, quatro, cinco... Todos haviam perdido a aposta, até então, menos a banda (a qual prosseguia indiferente com sua nova canção, justamente O Cara do Seis), e deu meia noite. Foi o ápice de Uma noite no monte Calvo, quando um relógio cuco bateu doze vezes, e então o som de que o disco havia sido paralisado no mesmo ponto, tocando vezes e vezes e vezes ainda a mesma parte da música. A manhã chegou, e o estranho cara do seis permanecia em silêncio, apenas a música tocando, incessante. Em questão de tempo, conforme o prédio despertava, sem suportar mais aquela sinfonia pentelha, todos se reuniram no corredor do segundo andar, tentando entender o que estava acontecendo. A banda se entreolhou, sonolenta; os estudantes e as residentes, que não haviam dormido, igualmente se entreolharam, incertos; a família inteira (exceto as crianças, que dormiam ainda a sono profundo) lançava olhares um tanto incertos; o casal de mexicanos, cuja noite

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fogosa prosseguira apesar do drama no andar de cima, encarava o chão, incerto. O cantor da banda, mais corajoso, tentou bater à porta, e quando ela rangeu e pendeu para frente ele quase pulou de medo; o som da música veio ainda mais forte, e quando, com uma vara, eles tiveram coragem suficiente para abrir o resto da porta, identificaram um gramofone em cima de uma antiga mobília, tocando Uma noite no monte Calvo, sempre no ápice, e uma mão segurando o disco no mesmo lugar. Tal mão estava coberta por um roupão cor de vinho, o qual encobria, ainda, um pijama de listras verdes e azuis e um par de chinelos fofos cor de uva. Um pescoço se estendia para fora, apoiado no encosto de uma velha poltrona de couro, a barba grossa, o cabelo escondido sob o chapéu e os óculos ainda no rosto. Todos se aproximaram vagarosamente; o cara do seis estava completamente inerte, a língua de fora, aparentemente morto. - O fantasma fez mais uma vítima – sentenciou soturnamente a mulher da família, e os outros, incertos, concordaram. Repentinamente, todos pularam para trás e gritaram de susto; o estranho homem se mexeu, com uma mão agarrou o cantor da banda, com a outra aumentou o volume do gramofone, e uma voz gutural saiu de sua garganta rugosa: - Eu vejo gente morta! – gritou, e todos voaram para longe da casa. Uma gargalhada fria ecoou pelo prédio, conforme todos corriam pela rua, e o estranho cara do seis fechava a porta. Mas não a trancou; nunca mais precisaria trancá-la. - O que um homem não tem de fazer por sua privacidade hoje em dia – comentou para o seu gato – Onde já se viu, entrar na casa de um homem dormindo... Sem bater! Deste dia em diante, ninguém nunca mais voltou a importunar o cara do seis. O gramofone nunca mais tocou, ele nunca mais saiu de casa, mas ninguém se arriscou a abrir a porta. Nem a chegar perto dela. E a música O Cara do Seis foi um grande sucesso. Vez por outra era possível ouvi-la através da porta do apartamento seis daquele antigo prédio.

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Julinho, o guarda de trânsito

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Desde pequeno, o sonho de Julinho sempre foi ser guarda de

trânsito. Isso, amarelinho, marronzinho, aqueles caras vestidos com roupas específicas, boné, prancheta e apito na mão. Ele adorava ficar olhando os guardas de trânsito controlando o tráfego na sua rua; passava tanto tempo na janela do quarto dos pais (que tinha a melhor vista da rua), que eles resolveram fazer uma troca de quartos. Afinal de contas, ser acordado às cinco da matina porque o filho queria ver o guardinha apitando não era nada agradável! Certo dia, Julinho desceu até a rua e pediu um autógrafo para o guarda; seu ídolo! E, como ocasionalmente os guardas rodiziavam (ele sabia o dia e horário de cada um), logo ele começou a pedir autógrafos para todos, enchendo um pequeno caderno brochura. E ainda mais! Certo dia, uma guardinha o achou tão gracinha que lhe deu seu apito. Grande glória! Julinho só não fez um altar para seu apito porque não tinha material. Mas, ah, se tivesse... Contentou-se em guardá-lo em um tupperware transparente, no meio do guarda-roupas. O tempo foi passando, e Julinho foi crescendo. Nos dias da profissão, sempre falava sobre guardas de trânsito. Nos horários livres, quando se tornou grande o suficiente para sair de casa sozinho, ficava de auxiliar dos guardinhas de sua rua. E, durante o colegial, fez praticamente um estágio de guarda de trânsito: horas e horas extracurriculares. Já podia prestar prova de título de especialista. Quando se formou, imediatamente prestou o concurso e, sabendo tudo como sabia, não teve a menor dificuldade de passar na prova. Foi chamado rapidamente; Julinho não podia se aguentar de tanta felicidade. No seu primeiro dia de trabalho, levantou cedo, botou seu uniforme passadinho, pegou seu apito (mas não o seu apito sagrado; este não, nunca! Ficaria para sempre à mostra em seu pedestal), ajustou seu boné e saiu de casa. Caminhava com certeza e orgulho; era, afinal, um guarda de trânsito! Exerceu seu trabalho (aliás, trabalho não, profissão, missão de vida!) com excelência: definitivamente havia nascido para aquilo.

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Começou com a função de orientar o trânsito de pedestres na faixa. Atuava nos maiores e mais complexos cruzamentos de pedestres da cidade; áreas em que hospitais, bombeiros e escolas existiam ao mesmo tempo, e a eficiência logística era essencial para evitar que bombeiros atropelassem velhinhas em cadeiras de roda, ou estas, pré-escolares. Julinho estava felicíssimo com a sua nova tarefa, mas, infelizmente, logo inventaram os faróis de pedestres, daqueles que só é necessário apertar um botão, esperar um pouco e cruzar. Aí, não havia mais necessidade de ninguém guiando velhinhas em cadeiras de rodas, nem pré-escolares, e muito menos bombeiros. Julinho, nosso herói, assim foi transferido para a função de guiar cruzamentos de cegos. Mas logo inventaram aquelas placas com sinais no chão e firmas começaram um empreendimento em larga escala de treinamento de cães-guia para cegos. Aí, não teve jeito; Julinho teve de sair da função de gerenciamento de cruzamento de pedestres. Mas ele foi remanejado para a sessão de multas de trânsito por excesso de velocidade; Julinho ficava nas ruas mais perigosas, escondido nos lugares mais traiçoeiros, de tocaia, esperando com o seu radarzinho pessoal para multar. Tinha de ser rápido; rapidíssimo! Ver a velocidade, ver a placa, memorizá-la e rapidamente anotar todas as informações. Só ele conseguia fazê-lo! Contudo, logo inventaram os radares fixos e os pardais. Sem mais ter de ficar de tocaia, desanimado por apenas observar enquanto uma máquina fazia tudo por ele, ele pediu para mudar de função. Julinho começou a multar aqueles desavisados, desrespeitosos que cruzavam os faróis vermelhos. Sim, ele ouvia reclamações; sim, às vezes alguns saíam para discutir, tentavam suborná-lo, e uma vez e outra ele quase foi espancado. Mas, mesmo assim, ele adorava o que fazia. Até inventarem os faróis inteligentes, que multavam sozinhos quem cruzava no vermelho. Julinho ficou desolado! Não havia nada que ele pudesse fazer que uma máquina já não fizesse. Carro no rodízio? Pam! Tinha uma máquina que via até, por sinal, se ele estava em dia com o IPVA ou não. Caminhão na marginal? Pam! Motoqueiro na pista expressa? Pam! Se bobear tinha até radar multando quem punha o dedo no nariz ou falava no celular!

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Julinho ficou deprimido. Quase pensou em desistir, quase pensou em se matar. Mas continuou firme. Quando o remanejaram para controlar o tráfego através dos semáforos, na central, usando os computadores, ele se animou. Afinal, iria controlar todo o trânsito! Mas logo a tarefa se tornou chata. Ele queria trabalho de campo, não ficar brincando com camerazinhas, telinhas, mapinhas, luzinhas... Foi aí que aconteceu. O grande apagão. Tudo parou; metade da cidade parou. O caos, espalhando-se por todos os lugares - não havia sequer um semáforo funcionando! Engarrafamentos quilométricos, pessoas saindo dos carros, batendo uns nos outros. Julinho abriu um sorriso; aquela era a sua hora! Correu para sua casa, tirou o apito sagrado de seu pedestal, tomou uma lanterna daquelas tamanho gigante e se pôs a ajudar no trânsito. Foi para as avenidas mais complicadas e direcionou o caminho de todos. Em pouco tempo, Julinho reorganizou o trânsito da cidade, não usando nada além de alguns cones, um apito e uma lanterna queimada. Digno de McGyver. Mas não demorou muito e o apagão acendeu. Semáforos, postes de luz, radares e etc voltaram a funcionar. Assim, Julinho, desanimado, caminhou lentamente de volta para a sede. Sua hora de glória havia acabado. Porém, não para a televisão. Mal o nosso guarda de trânsito chegou à sua sala, repórteres desesperados queriam entrar para entrevistá-lo; sua eficiência se tornou lendária. Em rede nacional foi noticiado Julinho, o guarda de trânsito que salvou o trânsito do centro da cidade com nada além de três cones quebrados, uma lanterna sem pilhas e um apito antigo e enferrujado, no meio do maior apagão de todo este século! A fama durou dois dias, nos quais Julinho se sentiu muito feliz. No entanto, logo a rotina voltou, e novamente estava ele lá, vendo o mundo girar pelas televisões. E, foi vendo justamente isto que ele teve uma ideia genial: se ele só estava naquela posição porque as máquinas o substituíram, e se ele fosse para um lugar onde não havia máquinas? Algum tempo se passou; agora, Julinho é um feliz morador de Tauberlândia, uma cidade na Amastônia, onde ele tem de controlar o tráfego de barcos, carroças, bois, caminhões, carros... E até mesmo uns ultraleves de vez em quando. E se ele pensa em voltar para a cidade grande, onde reaveria sua fama diante dos constantes apagões? De jeito nenhum.

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Glossário Alebanha: país da Pseudoropa, um dos que participou das duas grandes guerras mundiais por causa do mercado de banha, é um grande exportador deste material e consequentemente um dos maiores produtores de joelho de porco enlatado e sabonete. Quem mora aqui chama Alebanhoso(a). Amastônia: grande região do norte do país Pernil, que inclui, aliás, território de outros países, mas que todos sabem que só pertence ao Pernil. É composta basicamente por folhas, troncos de árvores e animais. Ah, sim, tem alguns pernilenses morando lá, mas são tão poucos que, na verdade, até os pernilongos estão pensando em se mudar para as grandes cidades do sul, por não terem mais quem picar. Areia (planeta): o planeta Areia, onde se passa toda esta obra, é um pequeno planeta redondo, azul, com um terço de areia e dois terços de água, e fica quicando para lá e para cá no universo, sem motivo aparente. Back Gonald’s: famoso restaurante do planeta areia por sua comida rápida, seu prato principal é a Gonada Virada de Boi, daí o nome. Bolar (sistema): é o sistema onde fica o planeta Areia. Chama Bolar porque, visto de cima, parece muito uma mesa de sinuca com várias bolas coloridas espalhadas. Bolo de Sal: um monte no Mar de Fevereiro com alto teor de sódio e que se desfaz de um lado, conforme a água do mar bate, mas se refaz do outro lado, onde o sal se deposita, de modo que a cada cem anos ele se desloca dois centímetros para o leste. Ebaú Personalidade: rede de bancos muito chiques do planeta Areia, seu nome é baseado em uma mistura de “Eba” com “Baú” e “Personalidade”, para instituir, ao mesmo tempo, felicidade, poupança e autonomia. Elzo: a moeda da Pseudoropa, funciona lá como moeda única desde 1996.

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Emédica: continente que fica o mais ao oeste (dependendo de onde você olha), onde o sol se põe. Ganhou este nome devido a um grande veterinário de um grande navegador, Emédico Vespa-uccio (desnecessário dizer que este veterinário era o responsável por cuidar das vespas premiadas deste famoso navegador). Falso: moeda do país Pernil. Desnecessário dizer muito mais a respeito; é autoexplicativa. Farinácea (via): a galáxia que envolve o sistema bolar, tem este nome porque, vista de baixo, parece muito com uma trilha de farinha, como se deixada por Deus, que nem João e Maria, para não se perder. Guimarães Violeta: esse cara era bom. Escritor, diplomata, foi até convidado para corrigir sua própria prova do vestibular, depois de ter gabaritado (hoje em dia, seria punido por colar ou roubar o gabarito). Um dos seus livros, “Grandes Certões”, muito provavelmente fala sobre a sua prova de vestibular. Digo muito provavelmente, porque eu mesmo nunca li, de tão grande que é, mas dá para imaginar pelo título. Ilhas Saiman: um conjunto de ilhas que ninguém sabe muito bem ao certo onde fica, mas que serve de reduto para a máfia e os políticos depositarem dinheiro sem muito questionamento. Ipalha: país da Pseudoropa, tem a forma de uma bota de palha e é um grande produtor deste produto, que na verdade está em baixa desde que passaram a construir casas de alvenaria e saias de palha foram proibidas em festas com velas pelo alto índice de suicídio. Quem vem daqui é Ipalhense. Lobo Navarres (Rodovia): estrada que liga Santa Paula ao interior do estado e passa por Sangomeça. Mauro Lebre: não é um dos escritores mais bem vistos de Pernil, mas vende à beça, em especial na Pseudoropa. Provavelmente, porque na Europa eles gostam de pseudolivros, e no Pernil, cada livro dele sai por muitos falsos.

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Mar de Fevereiro: cidade de um estado homônimo, tem este nome porque seu mar só fica realmente cheio em fevereiro; no resto do ano a água retrocede uns cinqüenta metros e a cidade não tem a menor graça. Quem mora aqui é baratioca. Musculação: grande novelinha para adolescentes da TV Cubo, conta estorinhas bobas e progressivamente mais atrevidas com o passar dos anos a respeito da vida de adolescentes que aparentemente não têm muito o que fazer da vida, com tramas repetidamente semelhantes e atores iniciantes trocados anualmente. Ocas Batina: grande rede de lojas de eletrodomésticos, eletroeletrônicos, móveis, louçarias, cama, mesa, banho, animais, etc, etc, com carnês de infindáveis prestações. Tem este nome porque foi criada por índios – daí Ocas – da Batina, estado de Pernil que, apesar do seu nome de santo, eram todos do pau oco. PCC: Pernileiros Coordenando Castrações, grupo malévolo que garante que o complexo de castração aterrorize as pessoas até o fim da vida, para felicidade (ou não) de Fraud. PNG: Marca de roupas famosa, cujo significado exato da sigla ninguém sabe, mas que todos imaginam que seja: “Para Não Gastar”. Potrogal: país da Emédica, muito famoso pela sua criação de Potros, foi o responsável pela descoberta do país Pernil e pela sua nomeação, sendo todo o seu povo, aparentemente, muito faminto. Quem mora aqui é potroguês(a). Pseudoropa: um continente que já foi muito desenvolvido um dia, mas vem perdendo o seu prestígio, é uma mistura de “Pseudo”, que em uma língua antiga do planeta Areia significa Falso, e “Ropa”, provavelmente um “Roupa” mal grafado, originário da enfadonha estória da roupa invisível do rei, fato que ocorreu neste continente e manchou seu nome para sempre. Quem mora aqui é pseudovestido(a). Sangomeça: alguns dizem que vem de um nome índio, outros dizem que é uma junção das palavras “sangue” e “começa”, como se fosse onde começa a doação de sangue neste país Pernil. Mas ninguém sabe ao certo. Quem é daqui é sangomeçano(a) e por via de regra não sabe dirigir.

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Santa Paula: a maior cidade do país Pernil, com o maior número de buracos e políticos corruptos (por extensão) do planeta. Sua importância mundial ainda está por ser descoberta. Quem mora aqui é santopaulense. Timpsons: famoso show de realidade do planeta Areia, mostra uma família comum convivendo em suas aventuras e desventuras, com uma pergunta crucial a nortear todos os episódios: como instaurar o caos na ordem? TV Cubo: a TV mais importante do país Pernil, possui dezenas de filias, como a TV POSSUI, responsável pela televisão do interior, e apresenta centenas de programas de conteúdo duvidoso, como, por exemplo, Musculação e “Little Sister”, programa em quem pessoas monitorizadas 24 horas pela televisão conversam sobre absolutamente nada e fazem absolutamente nada, brigando entre si para ver quem sai mais cedo do programa. TV POSSUI: filial da TV Cubo.

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Este livro foi composto nas fontes Bree Serif (capa), Buda (títulos) e Gudea (textos). A impressão do miolo foi em papel Pólen 80g/m2 e da capa em Triplex 250g/m2, ambos em Pantone P 117-16U, na gráfica Pancrom, em São Paulo, março de 2013.

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O

generoso autor já começa a brindar o leitor com uma autoapresentação que é um ótimo aperitivo para o que vem depois. O Livro de Cônicas do País Pernil – que começa assim:

“Era um pais chamado Pernil, muito parecido com o nosso – onde tudo pode acontecer”. E até mais do que tudo, embora isto pareça muito, mas não para o nosso autor, tão especial, que sempre parece ter mais e mais de tudo e mais alguma coisa para o insaciável apetite do guloso leitor. Pois bem. Este imaginador, um verdadeiro creso da imaginação e também o verdadeiro Midas, em cujas mãos tudo virava ouro de 800 quilates – da imaginação, oras! – a ponto de deixar o mais guloso dos leitores empachado até não aguentar mais – se isto fosse possível! Mas, como engolir tudo é dose para o nosso animado leitor de uma só talagada, vamos deixar que entre um gole e outro, ele tome fôlego e eu um cafezinho para retomar a empreitada. Para começo de conversa os primeiros goles da beberagem da rica história falam de toda uma série de histórias ou contos breves, mas nada leves. Atacam de dezenas de assuntos diversos, onde não faltam seres malignos, outros sinistros ou assustadores no meio de outros mais curiosos ou mesmo engraçados, enigmáticos, provocadores, etc etc – lembre mais adjetivos você mesmo. Curta essas e outras emoções que são muitas e bem diferentes histórias e contos e outras coisas deste livrão – maior por dentro de que por fora para usar a expressão batida, mas no caso muito verdadeira. Não preciso dizer que gostei do livro e de suas muitas histórias. Todas tiradas do baú de tesouros literários, histórias fantásticas e mais e mais, todos sob o domínio mágico da insuperável imaginação e maestria do autor que, às vezes, parece rir um pouco das confusões que provoca em brincar com o leitor (ou serão brincadeiras mesmo?) Repito: dizer como e por que gostei e apreciei este livro (já sem falar do seu autor) – seria meio inútil ... Bom apetite, leitores!

TATIANA BELINKY


Crônicas do País Pernil