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LÁ ONDE EU MORO Babi Dias & Victor Peres e Perez Ilustrações Casa Locomotiva


Lá onde eu moro Babi Dias & Victor Peres e Perez Ilustrações Casa Locomotiva


Vó, conta uma história? Era um fim de tarde abafado no Rio de Janeiro. Os dois pezinhos da Babi iam cansados para a casa da avó. Era assim todos os dias depois da aula. Cansada da tabuada e dos ditados, a menina só pensava em tirar as sapatilhas e devorar o bolo de coco molhadinho que apenas a Vó Eunice sabia fazer. Babi sabia que também encontraria muitas histórias sobre pessoas e lugares que conhecia apenas na imaginação. Depois da aula, tudo o que queria era ficar descalça, com a barriga cheia de bolo de coco, ouvindo a avó. Seria ótimo! Agora, se tudo tivesse acontecido exatamente como a Babi esperava, o livro terminaria aqui. Babi não teria conhecido o Trem do Tempo, nem a bela moça da estação, muito menos os Temiminós. Se naquele fim de tarde não tivesse caído uma chuva de verão, tão comum no mês de março, talvez a própria história do Brasil não fosse a que conhecemos hoje. Mas choveu, e Babi viveu a maior aventura de sua vida.

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Alô? É o Imperador? Aconteceu que no caminho para a casa da Vó Eunice, o céu ficou coberto de nuvens escuras e Babi já sabia o que isso significava. “Lá vem um pé-d’água!”, pensou. Não demorou mais que alguns segundos para cair um temporal. Seus pais sempre falavam que, nesses casos, o melhor a fazer é procurar algum lugar seguro e esperar a chuva passar. Apesar de parecer grandona, a pequena tinha só 9 anos e morria de medo de trovão! Naquele momento, tudo o que ela queria era um teto para se proteger. Para sua sorte, Babi viu bem à sua frente um portão antigo, e nele uma placa meio caída dizia: “Estação Leopoldina”. Mesmo achando estranho, a menina decidiu entrar! Quando passou pelo portão, o galpão todo ficou imediatamente iluminado. Como nunca tinha prestado atenção naquele lugar? Por um momento, achou que estava num cenário de novela de tão chique que era. Mas como não viu nenhuma câmera, nem ninguém pedindo autógrafo, resolveu perguntar: — Moça, o que tem aqui nesse galpão? — Ora, numa estação como esta você encontra duas coisas: o Trem ou pessoas esperando o Trem. Se você está aqui agora, e não é um trem, deve ser mais uma pessoa esperando por ele, certo? Babi achou engraçado. Quem era aquela moça? — O Trem já vai partir! — gritou a moça. — Tome, fique com a minha passagem! Você ainda é novinha e pode aprender muito com esta viagem. 8


— Mas eu não posso ir assim! Minha avó está me esperando pra comer bolo de coco... — Hum... Eu também adoro bolo de coco! Mas não se preocupe, querida! Este Trem é ligeiro e antes que a chuva termine você estará aqui de volta. A moça mal terminou de falar e soou o apito do trem. Babi nunca tinha visto nada parecido. Se a estação era coisa de novela, o trem era melhor que de cinema! Luzes, almofadas, cores, brilho... Quanto luxo, conforto e beleza! — Ei, menina! Vai ou não vai aceitar o meu bilhete? Babi não podia perder aquela chance. Com um salto maior que suas pernas longas, a garota praticamente voou para dentro do vagão! E foi só entrar nele que o apito soou de novo... Era hora de partir. — Moça, moça! E agora? Pra onde eu vou? — Fique atenta, menina! Essa será a viagem mais importante da sua vida! Procure uma janela e não perca nada do que acontecer! — Muito obrigada pela passagem! — Aproveite bem e não deixe de descer em todas as paradas! Logo mais a gente se encontra. Boa viagem! Babi não sabia o que pensar. Na dúvida, fez o que a moça aconselhou: procurou uma cadeirinha e lá foi, de olhos vidrados na janela. E quando menos esperava, o alto-falante anunciou: — Primeira parada! — Quanto tempo ficaremos aqui, senhor? — perguntou Babi para um rapaz que estava sentado na sua frente. — Apenas o suficiente. Então, Babi não perdeu tempo, esticou suas canelas e pulou fora do vagão. O trem parou em um lugar que ela já conhecia, mas não se lembrava de onde. Então começou a explorar para ver o que descobriria. O que mais chamou a sua atenção foi uma menininha que parecia ter a sua idade, mas se vestia com elegância de fazer inveja em muita princesa por aí.

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— Ei, garotinha! Você sabe onde a gente está? — Oh, quem sois vosmecê? — Voz de quem? — Não entendi! — Quem não está entendendo nada sou eu! Não sei onde eu vim parar. Que lugar é esse? — Ora, você está na casa do imperador Dom Pedro II, em São Cristóvão, e... — É isso! A Quinta da Boa Vista! Sabia que conhecia esse laguinho... Mas como assim, Imperador?! O Brasil tem presidente, não imperador! — Eu não sei o que é presidente e acho que vosmecê não deveria usar esse tipo de roupas por aqui! Não se pode visitar a família real assim! Para poder acompanhar meu pai, que é conselheiro do Império, mamãe sempre me faz colocar um belo vestido! Babi começou a achar que estava ficando meio maluquinha. Todos à sua volta vestiam roupas esquisitas, antigas, com uns chapéus grandes. Ela imaginou que as pessoas só usassem roupas assim nas histórias da Vó Eunice. Será que... — Vosmecê vem conosco? Meu pai deve estar com o imperador. Quer conhecê-lo? — Sim... — Oh, quase me esqueci de perguntar. Qual é o seu nome? — Ba-ba-bi — respondeu com a voz trêmula de medo e curiosidade. — Bababi? Que nome estranho! O meu é Joaquina! As duas meninas entraram na gigantesca sala do palácio. Então, Babi se lembrou de como conheceu aquele lugar. Na verdade, a Quinta ficava perto de sua casa e ela já tinha ido lá com a escola para aprender mais sobre a família real brasileira. Abriram uma porta imensa e, do outro lado, um grupo de pessoas cercava um homem velho e barbudo, feliz da vida. Não fosse pelas roupas, Babi diria se tratar do Papai Noel em pessoa! — Ali, Bababi! Vês? Aquele é o imperador!

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A menina congelou. O imperador? O próprio Dom Pedro II ali, na sua frente? Impossível! As pessoas que estavam com ele na sala pareciam eufóricas. As meninas foram se aproximando de mansinho para tentar escutar a conversa. O clima de empolgação era tanto que ninguém pareceu se importar com o fato de ter uma menina de sandália e mochila no meio! Quando o imperador notou a presença delas, disse: — Crianças, anotem este dia, pois nunca se esquecerão dele! Acabamos de fazer uma ligação telefônica! Sim, uma ligação telefônica! Provavelmente a primeira de toda a América Latina! As meninas olharam uma para a cara da outra, pois não estavam entendendo nada. Joaquina não fazia ideia do que era uma ligação telefônica e Babi achava um absurdo as pessoas ficarem admiradas com isso. Ela conhecia até criança com celular! De repente, Dom Pedro II pega em sua mão e diz: — Vosmecê não está acreditando, não é? Pois ouça você mesma! Coloque o ouvido bem aqui. Babi mal sabia como usar aquele telefone esquisito. Ficou meio sem graça com a situação... Aquela ligação era pior que a do orelhão da sua rua, mas todos a achavam maravilhosa! — Er, muito boa, senhor imperador... muito boa! Acho que a Joaquina também quer experimentar! Naquele momento, Babi se deu conta de que realmente estava vivendo em outra época. Lembrou-se das aulas de História e das coisas que a Vó Eunice contava para ela. Tudo o que ela tinha ouvido estava ali, ao vivo e em cores! E isso só aconteceu porque ela entrou no trem. Então ficou com medo de perder a hora do embarque e não conseguir voltar para casa. Aproveitou o foco no telefone para sair de fininho... Já no jardim do palácio, Babi percebeu que não podia ir embora sem deixar um recado importante para as pessoas daquele tempo. Ficou tão empolgada que fez a dancinha que sempre fazia quando estava feliz. — Oh, que menininha engraçada! — disse uma mulher ao ver a menina requebrando.

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— Moça, você conhece o imperador? — Conheço muito bem, ele é meu pai! — Você pode dar um recado pra ele? — Então a menina tem um recado para o imperador?! — Sim, lembrei das aulas de História. Vocês têm que libertar os escravos! Não dá mais para esperar! Que atraso, que maldade! Tudo isso ainda será péssimo para o Brasil, eu estudei... O semblante da mulher mudou. Seu rosto estava tão assustado que não parecia ouvir mais nada. — Entendeu, moça? Agora preciso ir! — Babi, deu uns cinco passos apressados, parou, deu meia-volta e disse — A senhora não me é estranha... Qual o seu nome? — Isabel... Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!

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Não estou entendendo... O trem já estava apitando! Babi nem conseguiu ouvir o que a moça falou. Disparou a correr e corria mais do que as pernas permitiam. Não podia ficar presa para sempre naquela época. Quando pisou dentro da estação, a moça simpática que tinha lhe dado o bilhete estava lá. — Anda, Babi! O trem já vai partir! — Nossa! Que bom te encontrar. Você não sabe o que aconteceu. O imperador... — Calma, teremos muito tempo para conversar depois! Agora você precisa embarcar para sua próxima aventura. — Como assim? Já faz mais de uma hora que eu estou aqui! Tenho que voltar pra casa, se não minha avó vai ficar preocupada! — Fique tranquila, menina. A Dona Eunice sabe que você está bem. Além do mais, a chuva ainda não parou. Tome sua passagem... — Mas como você conhece minha avó? — Corra que a porta vai fechar! Babi pegou um novo bilhete e saiu correndo. Ufa! Foi o tempo certinho de entrar no vagão. Buscou a mesma cadeira ao lado da janela e recuperava o fôlego quando ouviu uma voz engraçada avisando: — Senhoras, senhores, meninas e meninos: apertem os cintos! A menina não conseguia entender os últimos acontecimentos, mas diante de uma nova aventura, concluiu que não era hora de entender coisa alguma mesmo. A única coisa que lhe interessava agora era saber para aonde aquele trem a levaria...

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— Segunda parada! Vamos descendo, cambada! Ao descer, Babi ficou com a impressão de que tinha voltado para o mesmo lugar. Tirou do bolso a passagem que a moça havia lhe dado e nela estava escrito: Quinta da Boa Vista. Sim, era exatamente o mesmo lugar. Mas o clima estava diferente, algo estava acontecendo e não era um simples telefonema. — Ei, vocês podem me ajudar? Precisava falar com o imperador... — perguntou para um casal que passava na rua. — Como? — eles olhavam para Babi como se ela fosse de outro planeta. — Sei que pode parecer meio estranho, mas ele é meu amigo! Eu queria saber se ele recebeu o recado que eu deixei sobre os escravos, entende? — Menina, se você fosse mesmo amiga do imperador, saberia que ele não está mais aqui... Ele fugiu! — Como assim fugiu? — Ora, não temos tempo para brincadeiras. Vá, volte para casa! Babi começou a andar sem rumo pelo bairro. A paisagem estava muito diferente daquela que conhecia. Não tinha prédios, as ruas não eram asfaltadas e as calçadas, mesmo sendo mais largas, não davam conta de tanta gente. Chegou até a ver alguns homens montados em cavalos e um deles gritava meio ansioso: — Vamos, vamos à casa do Deodoro! Vamos proclamar a república hoje, companheiros! Babi estava curiosa com toda aquela agitação, mas por mais que perguntasse, ninguém sabia explicar o que estava acontecendo. “Aquele homem falou em ‘república’?”, pensou. Ela simplesmente não lembrava o significado daquela palavra... — Ai, será que eu faltei nessa aula de história? — pensou em voz alta. — História? Dizem que sou bom em contar histórias! O que você quer saber, menininha? Babi levantou os olhos e viu um senhor alto, mulato e barbudo, como a maioria dos homens daquele lugar. Seus óculos eram engraçados, não ficavam presos atrás das orelhas como de costume.

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As pequenas lentes se encaixavam entre as sobrancelhas e as bochechas! — Moço, o que está acontecendo aqui? Perguntei a todos e ninguém soube dizer o que era! — Você também percebeu? Não estão todos um pouco bestializados? — Besti lá de quê? — Bestializados! Assim, meio bobos, sem entender nada... — Ah, isso sim. Eu mesma estou totalmente bestializada! — Mas, também, pudera! Ninguém chamou o povo para participar do que está acontecendo... — E, afinal, o que está acontecendo? — Ora, a Proclamação da República! A partir de agora, o Brasil não terá mais imperadores, apenas presidentes! — Sim, isso todo mundo já sabe. Minha avó sabe até o nome de todos eles de cor. O que eu quero entender é onde está D. Pedro II! O senhor saberia me dizer? — Ah, esse já saiu do país com a família toda! Voltou para Portugal... — Para Portugal? Por que tão longe? — Porque lá está o restante da família real... A partir de agora, o Brasil não será mais governado por uma família, mas por homens escolhidos pela população! Os olhos de Babi brilhavam. Homens escolhidos pela população? Isso parecia muito bom! — E todos poderão escolher? Até as crianças? O homem deu um sorriso sem graça... — Não, ainda não. Nem mulheres, nem padres, nem homens pobres... — Ué, então qual a graça? Graça foi o que aquele homem encontrou nas palavras e na postura daquela garotinha! — Venha, venha o voto feminino; eu o desejo, não somente porque é ideia de publicistas notáveis, mas porque é um elemento estético nas eleições, onde não há estética.

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— O senhor usa umas palavras engraçadas. Também é de Portugal? — Não, sou brasileiro. Inclusive já morei aqui pertinho, em São Cristóvão. — Eu tamb... A menina lembrou que não podia contar que também morava ali perto porque, na verdade, ela vinha do futuro. — Bom, tenho que ir! Vou contar para minha avó que conheci um homem muito inteligente! Qual é mesmo o seu nome, moço? — Joaquim. Joaquim Maria Machado de Assis. — Pois bem, Seu Joaquim. Foi um prazer conhecê-lo! — Estou indo conversar com alguns amigos sobre a fundação de nossa Academia, gostaria de se juntar a nós? — Não, não... Sinceramente, acho que o senhor leva jeito é com as palavras. Já pensou em escrever um livro sobre a república? Na verdade, Babi não acreditou que aquele senhor magrelo entendesse de academia. De qualquer forma, tinha que voltar para a estação! Ela não queria chegar lá com tanta pressa, como aconteceu na primeira parada. Joaquim Maria Machado de Assis... Espera aí, Machado de Assis? Esse nome era de um escritor bem conhecido! A Vó Eunice já tinha contado para Babi algumas histórias dele. Puxa, se tivesse percebido antes, pediria um autógrafo! Quando entrou na estação, notou que ela estava mais vazia do que nas outras paradas. Chegou a pensar que o trem já havia partido, mas felizmente ele ainda estava lá. Quando o apito anunciou o embarque, um rapaz misterioso parou na sua frente e disse: — Você é a Babi? — Sim! — Pegue este envelope e suba já no Trem! Sua entrada está liberada. — Mas como assim? — As portas estão se fechando... Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!

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Eu sou uma cunhã! Babi buscou o mesmo lugar onde havia se sentado, ao lado da janela, e abriu o envelope que o rapaz lhe deu. Nele tinha um bilhetinho escrito assim: “Querida, Babi, Desculpe não poder encontrá-la desta vez. Estou tentando resolver uns problemas, mas não se preocupe, conto tudo pra você da próxima vez que nos vermos. Também quero ouvir como estão sendo suas viagens pelo Trem do Tempo. Opa! Acho que já falei demais. Até breve” Trem do Tempo? Que história é essa? E quem era essa moça que a tratava sempre com tanta gentileza? Que problemas ela estava tentando resolver? Sem saber por que, naquele momento, bateu uma saudade muito grande da sua Vó Eunice. Será que ela estava sentindo sua falta também? Será que ela tinha cansado de esperar e comido todo o bolo de coco sozinha? Queria contar tudo o que estava acontecendo pra sua avó! Ela adoraria saber que a neta estava aprendendo tanta coisa sobre o Brasil sem precisar ir muito longe de casa. “Viajar no tempo é sempre mais barato”, costumava dizer Vó Eunice.

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E não é que o tempo passava rapidinho dentro daquele trem? Quando ela menos esperava, a voz engraçada voltou a falar: — Terceira parada! Babi desceu do vagão animada! É verdade que os pezinhos doíam e a fome crescia, mas a curiosidade não lhe permitia pensar em nada além da próxima aventura que a esperava. Quando saiu da estação, tomou um baita susto: tudo em volta era floresta. Será que o trem tinha mudado de rumo e ido para a Amazônia? De repente ouviu um barulho de folhas se mexendo — e não era por causa do vento! Será que era uma onça? Ou uma cobra? Babi não quis ficar para descobrir, correu sem direção entre pedras e galhos, até que tropeçou na raiz de uma árvore e foi direto ao chão. Felizmente, um amontoado de folhas amorteceu a queda. Babi se levantou e, quando virou para trás para ver onde seu pé havia enroscado, soltou um berro daqueles: — Ahhhh! Tinha alguém espiando a menina por detrás da árvore! Dois olhos grandes apontavam para ela com muita curiosidade. Acontece que, com aquele grito, o dono dos olhos ficou mais assustado ainda e deu um pulo para o meio da trilha. Era um menininho simpático, pintado de cores muito bonitas. — Oi cunhã! Você se machucou? — perguntou o menino. — Não, foi só um susto... — respondeu Babi, limpando a roupa e engolindo o choro pelo tombo. — E que susto! Você corre muito rápido. Achei até que era Curupira... — Não, eu sou a Babi. E qual é o seu nome? — Eu sou Aimberê e moro aqui nesta terra. Na verdade, minha aldeia vive aqui desde muito antes de eu nascer. — Aldeia? Então você é um índio. Mas como você sabe falar português? — Índio é o nome que os homens brancos deram pra gente. Aprendemos a falar esta língua estranha com eles, mas na verdade meu povo se chama Temiminó. — Puxa, disso eu não sabia!

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— Tem muita coisa acontecendo que eu também não sabia... Tudo está mudando... — Mudando? Mudando como? — Antes, tudo era mata e floresta. Nós vivíamos de um jeito muito parecido com nossos antepassados, pois eles nos ensinaram a viver com as plantas, rios, animais e outras aldeias. Havia dias de paz e dias de guerra, tudo como já acontecia há muito tempo. Mas estes homens brancos são diferentes. Falam diferente, se vestem diferente, comem diferente... Eles estão até derrubando as árvores e construindo uma casa enorme, justamente onde a gente mais brincava. Você quer ir lá ver? — Claro! Vamos! Aimberê levou Babi por uma trilha fantástica! Enquanto corriam pela mata, Babi viu paisagens lindas, rios limpinhos e ouviu o canto de muitos pássaros. Imaginou como seria bom passar uma tarde inteira com as crianças daquela aldeia, subindo nas árvores, brincando de pega-pega. E que incrível seria uma partida de esconde-esconde no meio da floresta! — Ei, cunhã! Se esconda aqui atrás dessa árvore, rápido. — A brincadeira já vai começar? — Ainda não... Está vendo aquela casa grande? Os padres que estão construindo são os mesmos que ensinaram minha gente a falar desse jeito estranho. Dizem que eles são jesuítas, mas não sei bem o que é isso! — Mas isso não é uma casa, Aimberê. Essa é a igrejinha de São Cristóvão! Isso quer dizer que o Trem do Tempo me trouxe mais uma vez para o lugar onde eu moro! E eu nem imaginava que aqui tinha uma aldeia, índios e tanta natureza bonita... — Você já viu essa casa antes? Então você conhece aqueles homens? — Não, não conheço! Mas esta “casa” que eles estão construindo é bem resistente, viu? Ela existirá por muitos e muitos anos... Babi percebeu que o menino não entendia o que ela queria dizer, mas tudo bem... Nem mesmo ela entendia o que estava acontecendo naquela tarde. Então lembrou-se de que não podia continuar ali por muito tempo e que não seria fácil encontrar uma estação de trem no meio da Mata Atlântica!

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— Aimberê, daqui a pouco eu tenho que ir embora. E se agora a gente aproveitasse para brincar um pouco? — Gostei da ideia! As duas crianças correram, pularam, dançaram, se penduraram, caíram e levantaram. Depois, nadaram no riozinho que passava perto da aldeia e o menino ensinou tudo o que sabia sobre os pássaros, as plantas e os ventos que sopravam. Também explicou que em tupi, a língua que aprendeu com seus pais, a palavra “cunhã” quer dizer “menina”. Babi estava encantada com tudo aquilo! Sem falar do monte de frutas diferentes que comeu, uma mais gostosa do que a outra. Ela bem que podia continuar ali por horas, quem sabe até passar umas férias na floresta, mas agora tinha que voltar. — Olhe, estou muito feliz por ter vindo até aqui e ter te conhecido. Nunca imaginei que o bairro onde eu moro pudesse ter sido um lugar tão incrível no passado. É uma pena, mas tenho que ir... — Mas para onde você vai? — quis saber o menino Temiminó. — Ah, é uma longa história. Sempre vou me lembrar de você e da sua aldeia... Queria que fossem felizes aqui por muito tempo — uma lágrima descia nas bochechas da menina. — Cunhã, antes de você ir, deixe-me fazer uma coisa! O menino pegou uma planta que saía tinta, pintou os dedos e fez um desenho no braço de Babi. — É para que você não se esqueça mesmo da gente. — Não vou me esquecer, prometo! Adeus! Desta vez o Trem do Tempo tinha voltado bastante mesmo. Babi sabia que estava alguns séculos antes da sua época... Descobriu que seu bairro já foi uma floresta. Quem diria? Nem sua ta-ta-ta-taravó era viva naquela época! Adorou conhecer Aimberê, seu mais novo amigo — ou seria seu amigo mais antigo? Achou curioso o fato do Trem viajar no tempo e sempre parar no mesmo lugar. Justo ali, em São Cristóvão, lugar onde ela nasceu e viveu seus 9 anos. Cenário das melhores histórias da Vó Eunice! Imaginou como seria a próxima conversa entre as duas, quantas histórias,

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quantas lembranças cheias de detalhes! Babi não podia se esquecer de nada. Queria continuar viajando pelo tempo, mas sua vontade de voltar pra casa aumentava. Um apito bem lá no fundo da mata dizia que o Trem do Tempo já ia partir. Caminhando pela trilha, a menina escutou um barulho vindo de dentro de uma toca de tatu. Espiou para dentro do buraco e ele parecia não ter fim! O apito tocou novamente dando a certeza de que aquela toca era a estação que ela estava procurando. Pulou pra dentro do buraco e correu. Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!

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Hoje tem carnaval! A estação já estava vazia e o trem estava fechando suas portas, mas como sempre, o tempo foi suficiente. Babi procurou seu lugar favorito, ao lado da janela, e para sua surpresa, a moça da estação estava sentada bem em frente. — Estava guardando o seu lugar! — Que bom te encontrar aqui! Preciso te contar tudo o que eu estou aprendendo e fazer outras mil perguntas! — Acho que você está gostando do passeio. Que tal até agora? — A viagem está demais! Conheci o imperador, vi alguns homens indo proclamar a república, falei com o Machado de Assis e um temiminó pra lá de simpático! — Hum... Vejo que está se divertindo bastante! E com excelentes companhias! — Ah, não tenho do que me queixar... Mas preciso perguntar uma coisa. Como é possível um trem viajar no tempo? — Babi, para viajar no tempo, basta querer conhecer as histórias. Vou lhe contar um segredo... A mulher olhou para os lados, para se certificar de que mais ninguém ouvia a conversa. Babi ficou ainda mais curiosa, afinal de contas, era um segredo! — A maioria das pessoas não se interessa mais pelo passado, pelas histórias, pelas aventuras contadas pelas avós...

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Babi teve a sensação de que já conhecia aquela moça. Será que ela também era um personagem histórico famoso? Será que a Vó Eunice já tinha lhe contado alguma história sobre a moça da estação? Pensou em perguntar o nome dela, mas aquele não era o melhor momento. Nunca se deve interromper quem conta um segredo. E a moça continuou explicando: — Lembra que eu te falei que estava tentando resolver um problema? Então... o pessoal que organiza o Trem do Tempo anda muito cansado e sem esperança. A cada viagem, parece que os vagões ficam mais vazios... Parece que ninguém mais quer se aventurar pelo tempo! — Como pode ser? Eu me diverti tanto em cada uma dessas paradas... Aprendi, brinquei, vi um monte de coisa que nem sabia que existia... Podia voltar aqui pra sempre! — Babi fez uma breve pausa para pensar. — E por falar em voltar, o Trem do Tempo volta para a minha época, né? — Sim, não se preocupe! — sorriu a moça. Cada viagem tem quatro paradas em épocas diferentes, depois volta para o ponto de partida, no tempo em que o passageiro embarcou pela primeira vez. — Isso quer dizer que minha viagem já está quase acabando? — Exatamente! Esta será a sua última aventura do dia antes de voltar para casa. Aproveite bastante, pois é provável que o trem não exista mais a partir de amanhã... — Como? Por quê! Não pode ser! — Infelizmente. Se as pessoas não se interessam mais pelas histórias, não tem por que o Trem continuar existindo... Tenho conversado com muita gente e você foi a única que aceitou meu convite para viajar. — Mas não há nada que a gente possa fazer? — a garotinha tinha lágrimas nos olhos. — Acho que não, Babi. A não ser que... — O que, moça? Diga, por favor! Eu também quero ajudar a manter as viagens do Trem do Tempo! O apito tocou e os freios do trem foram acionados. — Quarta e última parada.

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— Vá, Babi, vá. Não perca tempo agora. Tem muita coisa bacana para conhecer lá fora. Estarei aqui te esperando. Conversamos mais na sua volta! Babi seguiu o conselho da moça, mas continuou pensando em como poderia ajudar o Trem do Tempo. Poderia ser voluntária e ficar na estação chamando as pessoas, assim como aquela moça fez com ela. Mas será que seria suficiente? A única vantagem de ficar na estação seria a companhia daquela moça simpática! E afinal de contas, quem era ela? Tinha se esquecido de perguntar. E por que Babi sentia uma amizade tão forte por ela se tinha acabado de conhecê-la? Estava tão entretida nos pensamentos que acabou esbarrando num senhor muito elegante. Ele segurava um violão e usava um chapéu chique à beça. — Ops, desculpe, moço! Estava distraída e acabei trombando com o senhor. — Ainda bem que você esbarrou em mim e não no meu amigo aqui! Imagina se alguma dessas cordas arrebenta? Aí acaba o samba da moçada. — Samba? O senhor gosta de samba? — Se eu gosto de samba? Eu e mais alguns amigos criamos a maior escola de samba do planeta! Você sabe sambar? — Ora, se sei! Sei e muito! Minha Vó Eunice já me ensinou a dançar e cantar muitos sambas... — Pois olhe aquele morro ali na frente. Está vendo? Ali é a Mangueira! Você conhece a Mangueira? — Mas é claro! Agora me dei conta, passo sempre nessa rua para ir à escola! E aqui no bairro todo o mundo adora a Mangueira! — Estou indo para lá agora. Hoje vou apresentar uma música que fiz recentemente. Por enquanto, só mostrei para os mais chegados, mas esta noite vou tocá-la num show. — Que interessante! Como é essa música? — A letra diz assim: “Bate outra vez, com esperanças o meu coração...”

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A menina se arrepiou da cabeça aos pés. Ela adorava aquela música e perdeu as contas de quantas tardes ela e a Vó Eunice passaram ouvindo suas notas tão belas. E agora, o grande compositor estava lá, em carne e osso, bem à sua frente! — O se-senhor é o Ca-ca-cartola? — Cartola, a seu dispor. Lá em casa me chamam de Agenor, às vezes até Angenor. Mas pode me chamar de Cartola mesmo. Quer ouvir a música toda? — Mas é claro que sim! Continue, Seu Cartola, por favor! O sambista atendeu ao pedido da menina, apertou duas cordas do violão que estavam um pouco desafinadas e, ali mesmo na rua, cantou a música que ela tanto gostava. Babi tentava disfarçar, fingir que não conhecia aquela canção, mas quando Cartola disse “o perfume que roubam de ti...” a menina soltou um suspiro apaixonado: — Ai... — Adorei isso que você fez! Vou incluir no meu samba. — Seu Cartola, o senhor é incrível! Minha Vó Eunice adoraria estar aqui comigo. Quem sabe a gente não se encontra num outro dia, não é? — Ah, mas é claro, menina! Eu estou sempre por aqui no bairro, será um prazer encontrá-la de novo! — Muito obrigada pela música, Seu Cartola. Agora preciso ir! Vou torcer ainda mais para a Mangueira no próximo Carnaval! — Faz muito bem! Até logo, menina! Até mais ver! Estar com o Cartola era o encerramento perfeito para aquele dia maluco de viagens! Pensou em tantas histórias e personagens que ainda poderia conhecer através do Trem do Tempo. E só a possibilidade de não poder mais fazer uma viagem daquelas já dava um nó na garganta. Faria de tudo para salvar o Trem e poder levar a Vó Eunice junto na próxima viagem.

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Desliga esse videogame! Babi correu para a estação para ter mais tempo de conversa com a moça, antes da próxima partida. Mas o apito soou quando a menina estava a menos de cem metros do portão de entrada. Parecia que o trem estava sempre esperando ela voltar para continuar sua jornada. Dentro da estação, Babi olhou rapidamente para ver se encontraria a moça, mas não se preocupou muito, pois tinha certeza de que elas iriam se encontrar. Subiu no vagão, tomou seu assento e ficou aguardando. — Gostou da última parada, menina? — Sim, gostei muito! Você acredita que eu conheci o Cartola, em carne e osso? Não só o conheci como cantamos uma música juntos. Uma que eu adoro e que aprendi com minha Vó Eunice! A moça deu um sorriso gostoso, como se já tivesse vivido essa mesma história. Babi continuou: — Mas não temos muito tempo... Você me disse que o trem poderia fechar hoje e... — Disse e não tenho boas notícias. Durante a parada, conversei com as pessoas que administram a estação e elas me confirmaram... Esta é a última viagem. Ninguém se interessa mais por essas histórias antigas. O Trem do Tempo está falido e olha que nem precisa pagar para entrar! Os olhos da moça se encheram de lágrimas. Naquele instante Babi percebeu que de todas as pessoas que havia conhecido naquele dia, a moça da estação era a mais especial.

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— Não chore, moça! Minha Vó Eunice sempre diz: “viajar no tempo é sempre mais barato!” — e as duas se abraçaram demoradamente. Mas como cabeça de criança não para um minuto sequer, Babi teve uma ideia brilhante enquanto tudo estava em silêncio. — Já sei! Estava tão animada que deu um empurrãozinho gentil na moça para conseguir o espaço que precisava para fazer sua dancinha de felicidade. Ao ver a reação da menina, a moça não teve outra opção a não ser enxugar as lágrimas enquanto caía na gargalhada! — Vamos, menina! Conte o que você está pensando! — Acabei de ter uma ideia incrível! E se eu trouxer meus amigos da rua, da escola, para viajar no tempo? Além de salvar o Trem, eles conheceriam a história do bairro onde moram e ainda nos divertiríamos muito! — Acho que pode ser uma saída! Mas as crianças teriam que chegar hoje mesmo, pois amanhã não haverá mais Estação Leopoldina. A presença delas pode convencer os organizadores do trem a manter a estrutura funcionando. Você acha que seria possível? — Mas é claro que sim! Já estamos chegando no nosso tempo e, assim que eu pisar na rua, corro atrás de todas as crianças que eu conheço! — Também não precisa exagerar! Se a gente conseguisse trazer umas dez crianças já estaria bom para começarmos. Mesmo assim, acho que será difícil... — Moça, você confia em mim? Nós vamos conseguir! Quando o trem retornou para seu ponto de partida, tudo parecia exatamente como Babi havia deixado: a chuva, o prédio antigo da estação, o fim de tarde. Era como se toda aquela viagem não tivesse durado mais que alguns segundos no mundo real. Só que agora o tempo não ficaria mais parado, cada minuto tinha só sessenta segundos e cada segundo era importante para tentar salvar o Trem do Tempo. A menina correu pelas ruas próximas da sua casa, mas tudo estava vazio. Com aquela chuva, todas as crianças se escondiam para não pegar resfriado. A aula também tinha acabado, então não adiantava

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voltar para a escola. Começou a sentir medo: não podia falhar com a moça da estação! Nessas horas, Babi fez o que toda criança faria: correu para a própria casa! Entrou pela porta lateral que sempre ficava aberta durante o dia e já chegou aos berros procurando pelo irmão: — Pedro! Pedrooooo! — Que isso menina? Quer me deixar surda? — era a mãe da Babi que chegava para ver o que estava acontecendo. — Você está ensopada! Eu não falo sempre pra você que em dias de chuv... — Mãe, sinto muito, mas não dá pra explicar agora! Você sabe onde está o Pedro? — Um minutinho, garotinha... — Um minutinho? Sabe quanta coisa dá pra fazer em um minutinho no Trem do Tempo? — Do que você está falando, menina? — Mãe, o futuro do passado depende de nós! Você vai me responder onde está o Pedro ou não? O pai da Babi acordou com toda aquela confusão e aumentou o volume da televisão na tentativa de encobrir a discussão das duas. — A humanidade não deu certo... — resmungou, fechando os olhos preguiçosos e voltando a dormir. A mãe percebeu que aquela conversa não levaria a nada. Babi estava descontrolada! — Seu irmão está na casa do Luís jogando videogame. — Obrigada, mãezinha querida, eu te amo, depois eu te explico melhor! Tenho que ir... Só que em vez de sair para a rua, Babi correu para o quarto. A mãe ouviu um barulho de coisas sendo reviradas e outras caindo do armário. — O que você precisa, Babi? — Sabe onde está o meu chinelo? Não consigo dar mais um passo com essas sandálias!

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— Está perto do tanque! — disse a mãe achando muita graça de toda aquela situação. Babi chegou na casa do Luís rapidinho. Pra sua sorte a casa estava cheia: é que o irmão do Luís, o Arthur, era fera no videogame e eles organizavam torneios com a molecada da rua! Babi estava tão desesperada que, quando entrou na sala, pulou na frente da televisão e começou a fazer um discurso: — Pessoal, que bom que todos vocês estão aqui! — Tá maluca, Babi? — Sai da frente da TV! Dá pause, dá pause! — Gente, nós temos que sair daqui agora, se não algo muito ruim pode acontecer! — Ah, Babi, não viaja! — disse Pedro, seu irmão. Babi foi andando de mansinho, olhou bem nos olhos dele e disse baixinho, do jeitinho que tinha aprendido com os mais velhos: — Escuta aqui rapazinho, é justamente por que eu quero continuar viajando que estou aqui. AGORA, POR FAVOR, ME ESCUTEM! Por acaso ou por destino, caiu um raio assim que ela terminou de falar e a energia da casa piscou, desligando todos os aparelhos eletrônicos. As crianças arregalaram os olhos e, após três segundos de silêncio absoluto, começaram a bater palmas para a Babi. Ela mesma caiu na risada e não acreditou no que havia acontecido. — Agora vamos pessoal, temos que salvar o Trem do Tempo! As crianças saíram correndo atrás de Babi. Os adultos olhavam pelas janelas e achavam graça. Lembravam do tempo em que faziam as mesmas coisas, sem medo de molhar o sapato ou pegar uma gripe. Mas para aonde será que iam com tanta pressa? Quando o grupo finalmente chegou à estação, ficaram assustados com o que viram. Um prédio velho, num beco escuro? Era pra entrar naquele lugar estranho, abandonado, no meio da chuva? E para que eles fariam isso mesmo? — Amigos, agora é hora de mostrar quem é corajoso! Neste prédio está a maior aventura da vida de vocês! Mas é preciso entrar! — e num tom mais baixinho, de mistério mesmo, perguntou — Quem aí gostaria

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de viajar no tempo? Já imaginaram quantas coisas poderíamos conhecer se pudéssemos passear pela História? — Que papo é esse, Babi? É impossível viajar no tempo! — É, Babi! Você está malucona? Seria ótimo, mas é impossível! O que passou, passou. Não podemos voltar o relógio! — Será que não? Vocês estão prestes a descobrir algo maravilhoso! Venham, entrem comigo! Embora todos desconfiassem do que Babi estava dizendo, havia muita curiosidade no fundo do coraçãozinho de cada um deles. Aquela curiosidade boa que leva às grandes descobertas. E se fosse possível? Decidiram que entrariam, desde que Babi fosse na frente! No local onde devia ficar a estação, só viram sujeira, paredes velhas e até alguns ratinhos passando pelos cantos. Não podia ser... O Trem do Tempo teria desaparecido de uma vez por todas? O coração de Babi disparou. Será que nunca mais conseguiria viajar pela História? Mas ainda tinha tanto para conhecer, saber mais da história do bairro, conversar com as pessoas que viveram por ali muito antes dela, entender como tudo começou... Nem mesmo a moça da estação estava lá. Será que tinha sido tudo um sonho? Ou seria um pesadelo? — Eu sabia que essa história não ia acabar bem — disse Pedro bem baixinho. — É, corremos até aqui para entrar num prédio abandonado? — perguntou Arthur, decepcionado. — Vamos embora daqui! — disse Luís. — Essa poeira está me dando alergia, a-a-a-aaaatchimmmm... — Saúde! — disserem todos. — Obrigado! O grupo começava a andar para a saída do prédio abandonado. Parada, olhando para o nada, Babi sentia uma enorme dor no peito! Dor de saudade, saudade do que não tinha vivido, mas queria viver. Pedro voltou e pegou na mão da menina tentando confortá-la, mas o choro já corria nos olhos dela. — Vamos, mana. Está ficando tarde.

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Todas as crianças já estavam esperando fora da estação. Babi caminhava lentamente, de olhos praticamente fechados agradecendo por todas aquelas aventuras deliciosas que o Trem do Tempo havia lhe permitido viver. Mas quando seu pezinho cruzou o portão... Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!!


Enfim, bolo de coco! Sim, era o apito do trem! E de dentro daquele galpão velho, Babi ouviu a doce voz da moça da estação: — Babi, Babi! Nós conseguimos, você conseguiu! Nesse momento, o interior do prédio se iluminou. As crianças não podiam acreditar no que viam. Era a estação de trem mais linda do mundo! E lá estava ele, o famoso Trem do Tempo, preparado para viajar por décadas e séculos sem fim. — Venham, crianças! A vontade e o interesse de vocês salvaram o Trem do Tempo. As aventuras continuarão! As crianças estavam paralisadas, de queixo caído com tanta novidade. — Estão prontos para conhecer pessoas e histórias que aconteceram no bairro de vocês há muitos anos? Vocês têm coragem? Venham! Aí, não pensaram em mais nada. Saíram correndo para dentro do vagão que agora abria as portas para novos visitantes. Babi estava empolgada, contando como aquela coisa toda funcionava, tentando preparar seus amigos para as aventuras que eles iriam viver nas próximas horas — ou seriam segundos? — Menina, eu sabia que podia confiar em você! Com tanta criança interessada pela história do bairro, o Trem do Tempo não vai parar tão cedo! E há tantas coisas ainda para conhecer que você nem imagina! Quem sabe quais histórias encontraremos na próxima parada, não é mesmo?

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A menina não conseguia esconder tamanha felicidade. Mas ali, entre tanta empolgação, notou novamente que os olhos daquela moça eram familiares. Babi criou coragem e perguntou: — Moça, qual é o seu nome? A moça sorriu: — Então ainda não sabe? Tudo bem, o Trem do Tempo realmente me deixa um pouco mais jovem quando estou aqui. Ah! Talvez você conheça algo que fiz para lancharmos enquanto passeamos por todas essas histórias. Está aqui na minha bolsa... Pronto, coma. São bolos de coco. Bem molhadinhos, do jeito que a minha netinha gosta!


Sobre os autores Babi Dias cresceu em São Cristóvão, no Rio de Janeiro, comendo bolo de coco da Vó Eunice, brincando e correndo descalça por aí. Adora ler, conhecer as pessoas e desbravar lugares legais! Numa dessas brincadeiras, descobriu histórias bacanas sobre seu bairro e registrou tudo na aventura do Trem do Tempo.

Victor Peres e Perez nasceu em São Paulo, foi um bom aluno até a 3ª série e gosta de bolo de cenoura com chocolate. Aos 22 anos, visitou o Rio de Janeiro pela primeira vez, mas só conheceu melhor a cidade quando ouviu as histórias da Babi. Juntos, escreveram este livro contando um pouco destas viagens que podemos fazer sem sair de casa!


Editora Evoluir, 2016 Texto Ilustrações Revisão Design gráfico

Babi Dias & Victor Peres e Perez Casa Locomotiva Elisa Andrade Buzzo David Renó

Conselho Editorial Bia Monteiro, Chico Maciel, Fernando Monteiro, Flavia Bastos e Uriá Fassina

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip) (Bibliotecária responsável: Sabrina Leal Araujo – crb 10/1507) D541l Dias, Babi. Lá onde eu moro / Babi Dias & Victor Perez e Perez ; ilustrações Casa Locomotiva. – São Paulo : Evoluir, 2016. 48 p. : il. ; 27 cm. ISBN 978-85-8142-114-8 1. Literatura infantojuvenil brasileira. 2. História do Brasil. I. Perez, Victor Perez e. II. Casa Locomotiva. III. Título. CDU 087.5 CDD 028.5 Índice para catálogo sistemático: 1. Literatura infantojuvenil brasileira 087.5

Este livro atende às normas do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, em vigor desde janeiro de 2009. Fontes Papel miolo Papel capa Impressão

Petala Pro e Archer Offset 120g/m² Suzano Art Premium Tech 300g/m² Meltingcolor (São Paulo) Novembro de 2016

Esta obra é licenciada sob uma Licença Creative Commons 4.0 Internacional que permite que você faça cópias e até gere obras derivadas, desde que não as use com fins comerciais e que sempre as compartilhe sob a mesma licença.

Editora Evoluir · FBF Cultural Ltda. Rua Aspicuelta, 329 · São Paulo-SP · CEP 05433-010 (11) 3816-2121 · ola@evoluir.com.br · www.evoluir.com.br


Você conhece as histórias do lugar onde você mora? Sabe quem são as pessoas que estavam lá antes de você e como era a vida delas? Nesta aventura pelo Trem do Tempo, Babi vai descobrir coisas fascinantes sobre seu bairro e conversar com muita gente que só conhecia pelas histórias da Vó Eunice! Embarque nesta leitura e divirta-se! Afinal de contas “viajar no tempo é sempre mais barato”.

realização

venda proibida


Lá onde eu moro