Issuu on Google+


A

floresta é um lugar misterioso e fascinante. Ela é habitada por criaturas de todos os tipos, algumas grandes e a maioria minúscula, umas lindas e outras nem tanto, outras conhecidas e muitas

ainda desconhecidas. Dependemos da floresta mesmo estando longe dela. Acima de tudo, ela é um lugar muito importante, pois nos dá frutas e peixes, remédios e perfumes, fibras, madeiras, terra e chuva, conhecimento, diversão, beleza e inspiração. Mas a floresta está ameaçada. Todos os dias, na Mata Atlântica e principalmente na Amazônia, alguém caça ou pesca além do que pode, derruba mais árvores do que precisa ou põe fogo na floresta sem necessidade. Para conservar a floresta, toda ajuda é bem-vinda. Vale protegê-la em parques nacionais e reservas extrativistas, vale ser responsável na hora de comprar produtos dela. Vale até apelar para os mitos e lendas da floresta – o reino dos seres imaginários. Muitos seres imaginários da floresta foram concebidos para ilustrar estórias de medo à beira da fogueira. Indiretamente, porém, eles ensinam lições de admiração e respeito pela floresta. O Curupira, o Boitatá e a Mãe da Seringueira podem ser assustadores, mas somente aqueles que se deixam levar pela ganância ou maldade na hora de caçar, pescar ou coletar são realmente punidos. As pessoas que usam os recursos da floresta de forma responsável não têm o que temer. Este livro é sobre as lições de conservação que nos ensinam os seres imaginários da floresta. Descrevemos dez seres imaginários e suas relações com os seres reais da floresta − animais, plantas e homens. Enquanto os animais e as plantas inspiram os homens a criar e perpetuar o reino encantado dos seres imaginários, os seres imaginários ensinam os homens a cuidar dos animais e das plantas da floresta. Seres reais e imaginários ajudam uns aos outros, e todos nós viveremos melhor enquanto a floresta for habitada por macacos, pássaros, peixes, insetos e também por botos encantados, anhangás, iaras e mapinguaris. Para continuar sendo um lugar misterioso e fascinante, a floresta precisa de seres reais e imaginários.

5


Quando o sol se põe... Imagine-se morando em uma pequena casa de madeira no meio da floresta, longe da cidade e dos confortos da vida moderna. No final do dia, seguindo o ritmo do sol, você volta para casa após uma rotina de trabalho pescando ou coletando açaí, castanhas e outros produtos da floresta. Durante um banho de rio, você assiste ao sol se pondo por trás das árvores, onde os passarinhos procuram abrigo para passar mais uma noite. A partir de então, tudo é escuridão. A única coisa que quebra o negrume da noite é a lamparina a querosene pendurada no meio da sala. Pelas janelas não se vê mais nada. A escuridão traz à tona o mistério, o medo do desconhecido... e a criatividade. O cair das folhas, o canto soturno de pássaros desconhecidos, os raios e trovões, e a grande chuva que se aproxima criam uma atmosfera perfeita para se criar, contar e ouvir estórias dos seres que vagam pela floresta e habitam o fundo dos rios lá fora. Em um ambiente de uma variedade tão grande de imagens e sons, por mais tempo que se viva ali ainda se ouvem gritos e assovios desconhecidos. Nas noites escuras de caminhos mal iluminados, e de grande isolamento, longe da influência urbana e da distração da televisão, é contando estórias que se espalham as ideias. É nesse cenário que a linha tênue entre o natural e o sobrenatural se desfaz, e a mistura do real e do imaginário em um só mundo se perpetua.

7


Curupira Um menino baixinho, com cabelos escuros, corpo coberto por pelos avermelhados e os pés virados para trás. Se um dia você encontrar alguém assim na floresta, pronto, achou um Curupira! Às vezes não se vê o Curupira, mas se ouve: ele emite gemidos, assovios e risadas assustadoras que ecoam pela floresta como o canto do urutau.


Do real para o imaginário: o Urutau O nome dessa ave noturna, que vem do guarani guyra (ave) e tau (fantasma), certamente se deve ao seu canto, que soa como uma forte e assustadora gargalhada (ouvir o canto do urutau no meio da madrugada é uma experiência arrepiante, mas muito bonita!). Seus olhos grandes permitem que ele enxergue muito bem à noite quando sai para caçar seu prato principal, insetos. Além disso, ele tem uma pequena abertura sobre os olhos, pela qual é capaz de observar os arredores sem abrir os olhos. É muito difícil ver um urutau, mesmo de dia. Sua coloração e a posição que costuma ficar faz com que ele se pareça muito com um galho seco de árvore.

Do imaginário para o real O Curupira é o protetor dos animais e das árvores. Batendo nos troncos como se fossem tambores, verifica se estão firmes o bastante para enfrentar uma tempestade que se aproxima. Com todo esse cuidado com as árvores, dá pra imaginar como o Curupira fica quando encontra um lenhador derrubando árvores de forma irresponsável pela floresta, né? O Curupira fica furioso! Para castigar os inimigos da floresta, ele pode atraí-los com gritos que imitam a voz humana, e com seus pés virados para trás, deixa uma trilha sempre para o lado oposto de onde está. Isso confunde os lenhadores e caçadores, que se perdem na mata. Às vezes ele pode até dar uma surra nos inimigos da floresta. Para evitar problemas com o Curupira, os madeireiros precisam derrubar as árvores certas, na quantia certa, no lugar certo, da forma certa, dentro das regras do manejo florestal. Quem mora na cidade e quer estar sempre de bem com o Curupira, deve comprar apenas madeira que foi extraída dessa forma.

9


Caipora É um índio gigante mas ágil, que vive nu ou de tanga, fuma cachimbo e adora fumo e cachaça. O Caipora é parente do Curupira, mas distingue-se do primo por ter pés normais. Além disso, não é peludo como o curupira. O Caipora anda pela floresta quase sempre montado em um caititu.


Do real para o imaginário: o Caititu O caititu é um porco-do-mato que vive em bando e gosta de comer de tudo um pouco, desde frutas, sementes e brotos de plantas até caracóis e outros pequenos animais. Para manter o bando unido e demarcar seu território, os caititus esfregam uns nos outros e nas árvores da floresta a glândula de cheiro que têm nas costas. Apesar do seus mais de 30 kg, o caititu caminha silenciosamente pela floresta, em pequenas trilhas que ele mesmo abre.

Do imaginário para o real O Caipora é o protetor dos animais da floresta. Ele protege os animais dos caçadores gananciosos e sem escrúpulos, que matam filhotes ou fêmeas grávidas, que caçam por pura diversão ou crueldade, ou que capturam os bichos vivos e os vendem para o tráfico de animais silvestres. O Caipora é capaz de ressuscitar um animal que o caçador acabou de matar. Ele faz isso com um toque do focinho do caititu que cavalga, ou da varinha de japecanga que sempre carrega consigo ou simplesmente com um forte assovio. Além de apavorar os caçadores ressuscitando os bichos, o Caipora castiga os inimigos da floresta lhes causando muito azar. O Caipora não é mau. Ele permite que as pessoas que vivem na floresta cacem para comer e alimentar a família. Para quem vive na cidade e não quer arranjar confusão com o Caipora, é importante não comprar bichos da floresta como animal de estimação. Lugar de arara, papagaio, jiboia e iguana é na floresta, junto com o Caipora.

11


Iara A Iara é um dos seres mais belos da floresta. Ela é conhecida como a rainha dos rios, lagos e igarapés. Nas noites de lua cheia, a Iara sobe em uma pedra verde e se põe a pentear seus longos cabelos e a cantar. À semelhança da sereia, que é metade mulher e metade peixe, a Iara é metade mulher, com olhos negros como a noite e cabelos negros e longos muito lisos, e metade peixe-boi.


Do real para o imaginário: o Peixe-Boi Apesar do nome, o peixe-boi não é um peixe e sim um mamífero, ou seja, seu filhotinho mama e ele não é capaz de respirar debaixo d’água. Para nadar calmamente pelas águas dos rios da Amazônia, o peixe-boi tem que prender a respiração. É difícil ver um peixe-boi, pois ao menor sinal da nossa aproximação ele afunda e pode ficar submerso por mais de 20 minutos antes de voltar à superfície para respirar ou se alimentar. O peixe-boi é herbívoro e comilão. Para manter seu corpão de até 450 kg, ele pode comer mais de 40 kg de plantas aquáticas por dia. Suas preferidas são o aguapé e a alface-d’água. Esse animal está ameaçado de extinção, pois foi muito caçado, especialmente no século passado. A origem do mito da sereia pode ter sido o avistamento de um peixe-boi por algum marinheiro europeu que não sabia o que estava vendo (afinal, não existe peixe-boi na Europa). Por isso os biólogos chamam os peixes-bois de sirênios, palavra que vem de sirena (sereia). É provável que a Iara tenha tido uma origem parecida.

Do imaginário para o real A Iara costuma morar perto do local onde os rios, lagos e igarapés escondem depósitos de ouro ou de pedras preciosas. Ela protege esses minerais da ganância humana. Indiretamente, acaba protegendo também os animais e as plantas aquáticas, pois a extração desses minerais, principalmente por meio do garimpo, polui as águas com mercúrio e causa erosão dos barrancos e assoreamento dos rios. A Iara aparece para aqueles que não têm respeito pelo reino das águas na Amazônia. Os homens que a veem não conseguem resistir aos seus encantos e pulam nas águas. Ela então os leva para o fundo; quase nunca voltam vivos. Os que voltam ficam loucos e apenas uma benzedeira ou algum ritual realizado por um pajé consegue curá-los.

13


Mãe da Seringueira É uma figura fantasmagórica muito temida pelos seringueiros. A Mãe da Seringueira é alta, tem cabelos compridos e lisos e habita o interior dos troncos das seringueiras. Cada seringueira abriga sua própria Mãe da Seringueira.


Do real para o imaginário: a Seringueira A seringueira é uma das árvores mais importantes do Brasil. Do seu tronco se extrai o látex que, ao ser processado, transforma-se em borracha. A borracha, por sua vez, é usada na fabricação de uma grande variedade de produtos, entre eles o pneu. Seringueiros são os homens que extraem o látex da seringueira e vendem a borracha. Para extrair o látex, eles usam uma faquinha de lâmina recurvada que lhes permite cavar sulcos rasos na casca da árvore. O látex escorre pelos sulcos e é recolhido em uma cuia encaixada logo abaixo. Para coletar látex suficiente, os seringueiros têm que percorrer longas trilhas pela floresta, visitando um grande número de árvores, ora para riscá-las, ora para recolher o látex das cuias. As fábricas da Europa e América do Norte precisavam de muita borracha no final do século XIX e isso trouxe muita riqueza para a Amazônia. Mas os ingleses levaram sementes de seringueira e iniciaram plantações da árvore na Malásia. Em pouco tempo, a borracha vinda das plantações era mais barata que a borracha produzida na Amazônia. As fábricas deixaram de comprar a borracha brasileira e com isso acabou a era de riqueza na Amazônia. Os seringueiros, porém, mantiveram seu estilo de vida tradicional e ainda dependem das seringueiras para sobreviver.

Do imaginário para o real A Mãe da Seringueira protege as árvores dos seringueiros gananciosos que, no afã de extrair muito látex, cavam sulcos mais profundos do que as seringueiras conseguem suportar. Seringueiros que cavam mais sulcos do que necessário, ou com maior frequência do que a árvore pode resistir, também ofendem a Mãe da Seringueira. Como castigo, a Mãe da Seringueira rouba-lhes a sombra e, consequentemente, a saúde. Para viver em paz com a Mãe da Seringueira, basta usar as árvores com respeito e sabedoria, como faz a grande maioria dos seringueiros. Ao proteger as árvores, a Mãe da Seringueira indiretamente protege vastas extensões de floresta. E justamente as regiões da Amazônia que concentravam o maior número de seringueiras, e consequentemente de seus fiéis seringueiros, foram protegidas por lei sob a forma de reservas extrativistas.

15


Anhangá A palavra Anhangá quer dizer sombra, espírito. A figura com que as tradições o representam é a de um veado branco, com olhos de fogo.


Do real para o imaginário: o Veado-Mateiro O maior veado das florestas brasileiras é o veado-mateiro. Ele sai da floresta pela manhã e à tarde, para procurar os capins de que se alimenta na orla das matas e dos caminhos. Os chifres simples e delgados, que atingem 12 cm de comprimento, caem em junho, nascem novamente em agosto ou setembro e só existem no macho. É caçado por sua carne e por sua pele. Quando perseguido, foge para as matas ou atravessa os rios, pois é ótimo nadador. É concebível que o avistamento de um raro veado-mateiro albino tenha contribuído para o surgimento da lenda do Anhangá.

Do imaginário para o real O Anhangá é o protetor da caça na floresta. Todo aquele que persegue, mata ou captura um filhote que ainda não desmamou, corre o risco de ver o Anhangá, e sua visão traz febre e às vezes loucura. O Anhangá protege todos os animais dos caçadores. Quando a caça conseguia fugir, os índios diziam que Anhangá a havia protegido e ajudado a escapar.

17


João do Mato Pequenino e coberto de capim e palha, não se vê sua cara, seu corpo, nem seus pés. Às vezes não se vê nada: o João do Mato pode ser invisível em alguns casos. Ele anda sozinho ou em grupo, à noite, calado, concentrado em realizar uma única, porém importantíssima tarefa: semear qualquer superfície de solo descoberta com sementes de ervas daninhas e outras plantas que crescem rápido quando expostas ao sol. Algumas dessas plantas têm espinhos, como a jurubeba, e outras são infestadas de formigas, como a embaúba.


Do real para o imaginário: a Embaúba O tronco tem cavidades ocupadas por formigas, que recebem abrigo e alimentação e, em troca, defendem a embaúba de qualquer praga ou inseto que tente comer suas folhas ou flores. Esta associação entre a embaúba e a formiga na qual os dois lados saem ganhando é chamada de mutualismo. A embaúba cresce rapidamente quando exposta ao sol, por isso ocupa prontamente as bordas da floresta e as clareiras recém-abertas, recebendo assim a denominação de planta pioneira. As sementes da embaúba são um quitute para pássaros, macacos, iraras e principalmente para o bicho-preguiça. Depois de encherem a barriga com frutinhos de embaúba, alguns desses animais defecam as sementes da planta em outros cantos da clareira ou em outras clareiras, ajudando a preencher com embaúba as áreas abertas na floresta, exatamente como faz o João do Mato.

Do imaginário para o real Plantando e cuidando de ervas espinhosas, árvores com formigas e outras plantas pioneiras, o João do Mato cumpre a importante missão de cicatrizar os machucados que o homem causa à floresta: o homem abre uma estrada ou clareira, o João do Mato vem e trata de fechá-las com plantas. O homem faz, e o João do Mato desfaz. O João do Mato é, portanto, um grande defensor da floresta contra sua maior ameaça, o desmatamento. De quebra, o João do Mato está lá para lembrar o homem de que ele não tem domínio completo sobre a floresta.

19


Cobra-Grande A Cobra-Grande tem, a princípio, a forma de uma sucuri. Com o tempo, adquire grande volume, abandona a floresta e vai para o rio. Os sulcos que deixa à sua passagem transformam-se em igarapés (rios de pequeno porte na Amazônia; riachos ou ribeirões) e furos (canais que ligam lagoas ao rio). Ela habita a parte mais funda do rio, os poções, aparecendo vez por outra na superfície. É descrita como tendo de 20 a 45 m.


Do real para o imaginário: a Sucuri É a segunda maior serpente do mundo. As fêmeas são maiores que os machos. Os registros confirmados das maiores sucuris giram em torno de 8 m, e o maior exemplar do qual se tem registro por fonte confiável media 11,60 m. Ela tem hábitos noturnos ou crepusculares e se alimenta de capivaras, peixes, aves, bezerros e até jacarés. A sucuri não é peçonhenta, ou seja, não injeta veneno nas vítimas. Para capturar sua presa, ela costuma ficar à espreita nas margens de rios, lagos ou pântanos. Quando uma vítima se aproxima da margem, normalmente para beber água, a sucuri ataca, mordendo com firmeza. Em seguida, se enrola no corpo da vítima e a aperta, matando-a por constrição. A presa pode ainda morrer afogada, puxada para debaixo d’água. Existem alguns registros de vítimas fatais, mas há muito exagero na maioria dos “causos” de ataques a seres humanos contados pelo Brasil afora.

Do imaginário para o real Os olhos da Cobra-Grande irradiam uma luz poderosa, atraindo os pescadores, que se aproximam pensando se tratar de um barco grande. Quando chegam perto demais, são devorados por ela. A Cobra-Grande é muito perigosa para os pescadores, no entanto, às vezes ela habita lugares conhecidos, que são devidamente evitados por eles. Ela acaba criando assim áreas protegidas para os peixes e outros animais e seres aquáticos. Se os pescadores buscam o suficiente para garantir a subsistência, o equilíbrio se mantém, mas ir além do permitido e pescar nas partes proibidas dos rios, lagos e igarapés resulta em punição.

21


Mapinguari Com um só olho na testa e dois metros de altura, ele é muito forte e possui o corpo coberto por um pelo negro encorpado e longo. Sua pele é grossa como a do jacaré e capaz de fazer desviar a bala de um tiro de espingarda. Como o Curupira, o Mapinguari tem os pés virados para trás, com grandes garras afiadas e retorcidas. Ele exala um cheiro fétido que pode ser sentido a grandes distâncias. É quase impossível encontrar um Mapinguari e sobreviver para contar, mas é bom saber que seu único ponto fraco é seu umbigo, que fica bem escondido em meio ao seu pelo escuro.


Do real para o imaginário: o Tamanduá-Bandeira Acredita-se que o Mapinguari seja na verdade um animal pré-histórico que teria sobrevivido até hoje, ou até pouco tempo atrás, na floresta amazônica. Esse animal seria um primo gigante dos nossos tatus, preguiças e tamanduás. Os tatus também têm a pele grossa nas costas e o umbigo vulnerável. As preguiças, com seus olhos pequenos e o focinho mais escuro que o restante da cara, pode parecer ter um olho só no meio da testa para alguém que a vê de longe (e tenha bastante criatividade). Mas talvez o animal de hoje em dia mais parecido com o Mapinguari seja o tamanduá-bandeira. Este último também possui uma aparência bastante particular. Ele possui o corpo coberto por pelos longos, as garras voltadas para trás e um focinho bastante longo, que usa para explorar troncos e cupinzeiros em busca das formigas e cupins que lhe servem de alimento. Expedições científicas para procurar tal gigante pré-histórico já foram empreendidas, mas nada foi encontrado.

Do imaginário para o real Por trás de seu apetite por carne humana esconde-se o cuidado e o respeito que todos devemos ter com os animais selvagens que habitam a floresta, pois um único encontro com eles pode ser o último. O Mapinguari é muito temido, a ponto de limitar as atividades de caçadores, lenhadores e garimpeiros em certos lugares, e determinadas épocas. Deste modo, o Mapinguari acaba protegendo os animais e as árvores da floresta.

23


Boitatá É uma enorme serpente com corpo e olhos de fogo que vive no fundo dos rios e lagoas. Também é chamada baitatá, batatá, biatatá, batatal e bitatá. A visão do Boitatá é descrita como uma das coisas mais assustadoras que existe, que pode deixar as pessoas cegas e até loucas. Portanto, se você encontrar um dia o Boitatá, o melhor a fazer é ficar parado e com os olhos bem fechados.


Do real para o imaginário: o Fogo-Fátuo Enquanto a maioria dos seres imaginários da floresta foi inspirada em algum animal, a origem mais provável do Boitatá é o fogo-fátuo, que é uma luz que aparece à noite, geralmente emanada de terrenos pantanosos devida à combustão de gases provenientes de animais e plantas em decomposição. De qualquer maneira, sem os animais e plantas da floresta não haveria Boitatá.

Do imaginário para o real O Boitatá protege a floresta contra aqueles que nela põem fogo. Às vezes, transforma-se em um grosso tronco em brasa que queima a mão daquele que incendeia inutilmente a floresta. Para evitar esse castigo, os produtores rurais que usam o fogo para controlar pragas, renovar pastagens, e preparar áreas para colheitas e plantio, devem tomar os devidos cuidados para que o fogo não se alastre para a floresta. Fazer um aceiro entre o campo e a floresta é um exemplo desses cuidados. Melhor ainda é substituir o fogo por outras meios de limpar o campo e evitar pragas. Quem mora na cidade também pode se queimar com o Boitatá se soltar balão ou jogar bituca de cigarro na beira da estrada, pois essas práticas também podem causar incêndios florestais.

25


Boto Encantado O Boto Encantado vive nos rios da Amazônia. Em noites de festa, ele vira gente e sai da água para tocar viola, cantar, dançar e conhecer moças. Com sua pele branca e rosada, de terno branco alinhado e chapéu, conquista as mulheres que não resistem à sua conversa. Na Amazônia há muitos filhos do boto − filhos que ninguém sabe quem é o pai... é filho do Boto, sinhá!


Do real para o imaginário: o Boto-Vermelho Parente dos golfinhos que vivem no mar, o boto-vermelho ou boto-cor-de-rosa, só existe nos rios da Amazônia. Apesar de muitos acharem que ele é um peixe, na verdade o boto é um mamífero, como nós. É comum ver o boto na superfície dos rios quando sobe para respirar por um pequeno buraco nas costas. O boto-vermelho gosta de se alimentar de peixes e, de vez em quando, se alimenta de pequenas tartarugas e caranguejos. Ele é muito curioso, inofensivo e costuma se aproximar de pessoas nadando.

Do imaginário para o real O charme do Boto Encantado pode ser irresistível para mulheres solteiras, casadas ou viúvas. Por isso, elas devem tomar cuidado ao banharem-se na beira do rio e sempre desconfiar de estranhos bem-vestidos e que gostam de cantar e dançar. O Boto simboliza o cuidado que todos devemos ter com pessoas estranhas e galanteadoras. O Boto Encantado é provavelmente a lenda mais conhecida da Amazônia e contribui para disseminar pelo Brasil e pelo mundo a aura de fascínio e mistério que envolve a floresta.

27


Glossário de conservação da natureza Aceiro Limpeza de um terreno em volta de propriedades, matas e roças, para impedir propagação do fogo. Para evitar incêndios florestais, o aceiro deve ter no mínimo 5 m de largura.

Assoreamento Acúmulo de areia, terra e outros detritos no fundo dos rios. Com isso, o rio passa a suportar cada vez menos água, provocando enchentes em épocas de grande quantidade de chuvas.

Conservação Preservação, manutenção, utilização sustentável, restauração e recuperação do ambiente natural, para que possa produzir o maior benefício às atuais gerações, mantendo seu potencial de satisfazer as necessidades e aspirações das gerações futuras, e garantindo a sobrevivências dos seres vivos em geral.

Desmatamento É o corte ilegal de árvores e maior ameaça à floresta. Mais de 93% da Mata Atlântica e 18% da floresta amazônica foram desmatados.

Extinção Processo no qual uma espécie desaparece para sempre. A extinção pode ter causas naturais ou humanas. Quando é causada por seres humanos, passa a ser uma preocupação da Conservação. No Brasil, 626 espécies de animais estão ameaçadas de extinção, ou seja, correm o risco de desaparecer para sempre.

28


Manejo Florestal Conjunto de técnicas empregadas para retirar cuidadosamente parte das árvores grandes de tal maneira que as menores, a serem removidas futuramente, sejam protegidas. Com a adoção do manejo a produção de madeira pode ser contínua ao longo dos anos.

Parque Nacional Área de conservação que tem como objetivo básico a preservação de ecossistemas naturais de grande relevância ecológica e beleza cênica, possibilitando a realização de pesquisas científicas e o desenvolvimento de atividades de educação e interpretação ambiental, de recreação em contato com a natureza e de turismo ecológico. O primeiro parque nacional brasileiro foi o de Itatiaia, no Rio de Janeiro, criado em 1937. Hoje o Brasil tem mais de setenta parques nacionais.

Reserva Extrativista Consiste em uma área utilizada por populações tradicionais, cuja sobrevivência baseia-se principalmente no extrativismo. Tem como objetivos proteger os meios da vida e a cultura dessas populações, e assegurar o uso sustentável dos recursos naturais. A maior reserva extrativista é a de Chico Mendes, no Acre, que abriga 1.500 famílias de seringueiros.

Tráfico de Animais Silvestres O comércio ilegal de animais silvestres é a terceira atividade clandestina que mais movimenta dinheiro, perdendo apenas para o tráfico de drogas e armas. O Brasil é um dos principais alvos dos traficantes devido a sua imensa diversidade de animais. As condições de transporte são péssimas e muitos animais morrem durante ele.

29


Sobre os autores Edson Grandisoli e Silvio Marchini se conheceram em 1990, quando cursavam o primeiro ano da faculdade de Biologia na Universidade de São Paulo (USP), e são melhores amigos desde então. A paixão pela natureza os uniu em viagens pela Mata Atlântica, pelo Cerrado e, em especial, pela Amazônia. Em 2002, criaram a Escola da Amazônia, com o objetivo de compartilhar o amor pela floresta com jovens estudantes. A Amazônia é parte integrante de suas vidas e este livro, o primeiro que publicam juntos, traz um pouco das estórias, histórias e vivências na região mais rica do nosso planeta.

30


Sobre o ilustrador Nascido em Foz do Iguaçu (1983), Rômolo D’Hipólito é graduado e design gráfico e colabora como ilustrador para editoras, jornais e agências de publicidade. Teve seus trabalhos reconhecidos e premiados pela Folha de S. Paulo e pelo Festival Anima Mundi. Como artista participou de exposições coletivas no Brasil e no exterior.​

31


Editora Evoluir, 2016 Título original Seres reais e imaginários da floresta Texto Edson Grandisoli & Silvio Marchini Ilustrações Rômolo Revisão Elisa Andrade Buzzo Design gráfico David Renó Conselho Editorial Bia Monteiro, Chico Maciel, Fernando Monteiro, Flavia Bastos e Uriá Fassina

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) G753s Grandisoli, Edson. Seres reais e imaginários da floresta / Edson Grandisoli & Silvio Marchini ; ilustrações de Rômolo. – São Paulo : Evoluir, 2016. 32 p. : il. ; 26 cm. Inclui glossário. ISBN 978-85-8142-113-1 1. Literatura infantojuvenil brasileira. 2. Folclore brasileiro. 3. Preservação da natureza. I. Marchini, Silvio. II. Rômolo. III. Título. CDU 087.5 CDD 028.5 Índices para catálogo sistemático: 1. Literatura infantojuvenil brasileira

087.5

Bibliotecária responsável: Sabrina Leal Araujo – CRB 10/1507

Este livro atende às normas do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, em vigor desde janeiro de 2009. Fontes Papel miolo Papel capa Impressão

Petala Pro Offset 120g/m² Suzano Art Premium Tech 300g/m² Meltingcolor (São Bernardo do Campo) Novembro de 2016

Esta obra é licenciada sob uma Licença Creative Commons 4.0 Internacional que permite que você faça cópias e até gere obras derivadas, desde que não as use com fins comerciais e que sempre as compartilhe sob a mesma licença.

Editora Evoluir · FBF Cultural Ltda. Rua Aspicuelta, 329 · São Paulo-SP · CEP 05433-010 (11) 3816-2121 · ola@evoluir.com.br · www.evoluir.com.br


3


A floresta é um lugar misterioso e fascinante. Ela é habitada por seres de todos os tipos, alguns reais, outros imaginários. Mas está ameaçada pelo homem, que explora seus recursos de maneira destrutiva. Vamos conhecer animais e plantas reais que inspiraram a criação dos seres imaginários, os quais, por sua vez, ensinam com suas características fantásticas o homem a cuidar mais da riqueza de suas matas. Afinal, precisamos todos da magia e da realidade das florestas, mesmo morando na cidade grande.

REALIZAÇÃO

4 VENDA PROIBIDA


Seres reais e imaginários da floresta