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q victor peres e perez

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a cadelinha

russa ilustraçþes de jana glatt


A cadelinha

russa texto de victor peres e perez q ilustraçþes de jana glatt


“Essa conversa toda sobre o espaço começou quando eu era pequeno, no meio de uma tal de Guerra Fria. Foi quando os russos lançaram o Sputnik, um foguetinho sem vergonha, mais leve que eu. Foi um sucesso danado! Um mês depois do Sputnik, mandaram outro foguete, só que desta vez, pra ser diferente, mandaram junto um passageiro. E não era astronauta desses de filme. Na época, homem nenhum tinha coragem de voar tão alto, não. Eles mandaram uma cadelinha chamada Laika. Ela ficou famosa por ser o primeiro bicho a viajar num foguete, mas os cientistas acreditam até hoje que a coitada morreu logo depois da decolagem... Agora, se você quiser saber o verdadeiro final dessa história, não vai achar na internet! Só quem sabe, mesmo, sou eu!” Mano do Sítio, na tentativa de ajudar o Neto com a lição de casa


Quando eu era pequeno, o mundo ainda não estava tão velho; tinha apenas 1957 anos. Morava num sitiozinho do interior de São Paulo com o Pai, a Mãe e a Mana. Todos os dias, o Pai levantava bem cedo e ia até o galinheiro para dar bom dia ao Galo Velho: “Se eu não acordar esse danado, ele dorme o dia inteiro”. A Mãe fazia omeletes batendo dois ovos caipiras com queijo branco picadinho e coava café preto para os quatro da casa! Depois de comermos, a Mãe penteava o cabelo embaraçado da Mana enquanto o Pai carregava a charrete com leite, ovos e outras coisas da fazenda. Quando o rabo de cavalo da Mana ficava pronto, o Pai já tinha terminado seu serviço e ajeitava a camisa por dentro das calças. Eu brincava com a Sarna e o Pulguento, sempre com muito cuidado para não sujar a roupa de ir à escola. O Pai passava nos sítios vizinhos pegando mais mercadorias para vender na cidade. Eram doze paradas antes de chegar à escola e a gente sempre contava junto, com medo de deixar alguém para trás. Depois de deixar as crianças na escola, a charrete seguia viagem e só voltava ao meio-dia, vazia de comida, mas cheia de fome: era hora do almoço! À tarde, a Mana e eu sentávamos pra fazer lição de casa. Ela estava dois anos na minha frente e gostava muito de desenhar. Pedia que eu inventasse histórias malucas. Assim, podia praticar seus rabiscos, inventando ilustrações de lugares e personagens. Vez ou outra, a Mãe passava para ver se

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estava tudo certo. Nestas horas, a gente ficava quietinho com a cara enfiada nos livros ou apontando o lápis, fingindo que entendia bem aquelas contas complicadas de multiplicar. De noite, íamos todos para a varanda passar menos calor. A lamparina era suficiente para a Mãe fazer seu crochê. O Pai dormia na rede e a Mana quase sempre lavava a louça, pagando o castigo de alguma arte que aprontara durante o dia. Eu ficava olhando as estrelas, que naquela época eram muitas. “Mãe, por que tem uma estrela mais gorda que as outras?”, perguntei certa vez. “Isso é a Lua, meu filho. E Lua é como mãe, só tem uma!”. Fui dormir pensando que as estrelas eram todas irmãs, filhas pequeninas de uma mesma mãe gorda chamada Lua. Como era de se esperar, nem todas as noites eram boas para ficar de olho naquela gigantesca família espacial. Quando as nuvens cobriam o céu, tudo ficava muito escuro. Eu morria de medo quando o Pai soltava as três terríveis palavras: “Vai chover hoje”. Corria para o quarto e ficava embaixo da cama com os dedos no ouvido, tentando evitar o susto das trovoadas. A Mana subia sobre a mesma cama e, ajoelhada no colchão, olhava a água escorrer pela janela. Mas de todas as noites assustadoras que já vivi, uma é inesquecível: a noite em que Laika voltou para a Terra. Naquele tempo, as pessoas do interior jantavam cedo e o sol da tardezinha ainda iluminava a cozinha. O Pai, a Mãe, a Mana e eu estávamos comendo carne assada com batata


quando uma escuridão natural tomou conta do lugar. A Mana correu pra varanda para ver o que estava acontecendo, mas o Pai já sabia, “Vai chover hoje”. Quando ele terminou o anúncio fatal, uma luz acendeu de repente, como uma piscada de olho invertida, e a Mana deu um grito daqueles de gelar a espinha! Nem dois segundinhos depois, um trovão gigante chacoalhou a casa inteira. “Minha Santa Clara, deixei as roupas no varal!”, exclamou a Mãe. Mas era tarde demais, estava tudo ensopado, inclusive minhas calças. A Mana voltou pra cozinha, chorando desesperadamente. A Mãe pensou que era choro de criança assustada com trovão, mas Mana explicou que não era medo e sim tristeza: “Eu vi um clarão antes do barulho... Acho que uma estrelinha explodiu”. Saí correndo para o quarto e me enfiei embaixo da cama com os olhos cheios de lágrimas e o coração apertado. Será que uma estrela pode mesmo morrer? Se a gente vai para o céu quando morre, para onde vão as estrelinhas se elas já moram lá em cima? E lá fora, o Pulguento uivaaaava sem parar. Não conseguia dormir. A chuva já tinha acabado há muito tempo, mas os pensamentos não me deixavam em paz. Então decidi ir até a janela contar as estrelas para ver se faltava alguma delas. Achei muito estranho ver que a Lua estava pela metade naquela noite. Provavelmente, o outro pedaço dela estava como eu, procurando no espaço a estrelinha perdida. A Mana se levantou da cama e ficou do meu lado. “O Pai disse que foi só um relâmpago, mas antes do clarão eu vi uma

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bolinha luminosa cair lá perto do Vizinho 7”, disse ela com ar de mistério. “Será a estrelinha que explodiu?”, perguntei. “Só tem um jeito de saber. Amanhã, quando o Pai passar no sítio do Vizinho pra carregar a charrete, começamos a investigação!” Na manhã seguinte, quando a Mãe chamou para o café, abri os olhos desconfiado de que tudo fora um grande pesadelo, mas a Mana jogou uma bolsa bem real na minha cabeça e disse, “Vamos! Temos que descobrir o que aconteceu ontem à noite”. Já com o cabelo amarrado, ela disparou a falar, “Vista a botina, está cheio de lama lá fora. Pegue as luvas no barracão, que estrela fura a mão da gente. Coloque os ‘óculos de crochê’ da Mãe que é pra ver melhor os detalhes. E leve também um pano limpo, uma tesoura sem ponta, um barbante enrolado, um grampo de cabelo, suco de limão, uma lata de sardinha sem sardinha, um pedaço de bife cru e não me pergunte o porquê.” “Por que, Mana?” “Porque eu também não sei como essas coisas podem ser úteis. Mas você é criativo e saberá o que fazer quando chegar a hora!” “Certo! Precisa de mais alguma coisa?”, perguntei. “Troque essas calças, pelo amor de Deus! Está fedendo a xixi, desde ontem!”

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Obviamente, o Pai e a Mãe estranharam nosso comportamento durante o café. Apesar das olheiras e cansaço da noite mal dormida, nunca tinham nos visto tão animados pra ir à escola: “Acho que o raio de ontem deve ter acertado a cabeça dessas crianças”. Garfada na omelete, bolsa cheia de tralha, gole no café pra disfarçar o bafo! Subimos na charrete enquanto o Pai terminava de carregá-la. Sarna me olhou como se pedisse alguma coisa. “Hoje não tem brincadeira, Sarninha. Temos uma missão a cumprir.” Ela girou duas vezes em volta do rabo e saiu em disparada para contar a novidade ao Pulguento.


A Mana perguntou para o Pai se poderíamos começar pelo Vizinho 7, mas quando ele começou a questionar os motivos, ela desconversou: “Era só pra ver se a gente sabe contar bem, mesmo fora de ordem! Deixa pra lá!”. Naquele dia, parecia que a charrete não andava. Nunca vi demorar tanto pra chegar à casa de alguém. No caminho, abri várias vezes a beiradinha da bolsa espiando para ver se estava tudo certo. Tinha medo de que algo simplesmente sumisse, a missão desse errado por minha causa e a Mana se vingasse de mim. Como da vez em que ela amarrou meus pés com barbante enquanto eu dormia e saiu de camisolão gritando “Fogo, fogo! Salve-se quem puder!”. Tropecei feio e ralei o joelho. Até que a Mãe entendesse o que estava acontecendo foram mais três quedas pela casa. Dentro da bolsa o cheirinho do bife se espalhava quando, finalmente: “Vizinho 7!”


Assim que o Pai saiu para buscar a encomenda no barracão do homem, a Mana e eu descemos de mansinho da charrete. “Xiiiiu”, fez ela, como se fosse professora. Na ponta da botina, caminhamos lentamente para trás da cocheira. “Se não me engano, aqui perto tem uma árvore grandona”, disse a Mana, mostrando um mapa desenhado em seu caderno. A Vaca Malhada nos olhava de canto de olho, desconfiando que a gente também sabia o segredo que ela guardava. Bastou um passo depois de cruzar a cocheira e vimos a tal árvore. Estava quebrada no meio, preta como um carvão e ainda soltava fumacinha. A Mana quase deixou escapar um grito, mas desta vez fui eu quem impediu a menina de estragar a missão, tapando sua boca com as mãos. “O que aconteceu aqui?”, ela perguntou. “Não sei, mas vamos descobrir! Desenhe tudo que você puder!” Abri a bolsa. Diante da situação, achei utilidade pra quase tudo que tinha lá. O pano, eu amarrei na cara, estilo faroeste, para evitar a fumaça. Usei o grampo para prender uma ponta do barbante na minha calça e a outra ponta deixei na mão da Mana, por segurança. Vesti as luvas para não queimar as mãos e dei um gole no suco de limão para ficar ainda mais valente. Caminhei lentamente até chegar pertinho da árvore. Saquei a tesoura do bolso, cortei um galhinho queimado e guardei na lata de sardinha. “Pode puxar, Mana!”

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Voltei os três passos que me separavam dela e pedi os óculos da Mãe que ainda estavam na bolsa junto com o bife. É impressionante como dois pedaços de vidro são capazes de revelar um novo mundo nos olhos de alguém! Fiquei analisando aquele galho como um cientista e tive a impressão de que o pequeno pedaço de árvore dentro da lata de sardinha se movia. Tudo ficava gigantescamente estranho com aqueles óculos, parecia que eu estava olhando dentro de uma colher de sopa. Mas não demorou muito e a Mana começou a ficar inquieta. “Psiu, olha aqui... Olha aqui!... Você vai perder... depois não adianta mais olhar.” Quando virei, dei de cara com um monstro peludo que saiu de dentro da bolsa, com dentes enormes e afiados. “Corre, miséria!!!” Joguei a latinha pra cima e saí na velocidade de uma pedra estilingada, correndo pra todos os lugares e pra lugar nenhum. Trombei com galinha, chutei cocô de vaca, arranhei em mato fresco e só fui parar de correr quando algo me puxou pela camisa, erguendo meus pés do chão: “É o fim! Me proteja Santa Clara das roupas no varal!” Era o Pai, mas só pude reconhecer quando ele tirou os óculos da minha cara. “Que roupa é essa, Filho?”, perguntou. “Esse aí tá parecendo gente de outro mundo”, disse o Vizinho intrometido. Eu não conseguia falar nada com nada, estava tremendo de nervoso. Mana chegou dando pulinhos inocentes de criança e o Pai pediu explicações pra mais velha. “Não sei o que tem esse menino, não! Ele deve ter se assustado

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com a cadelinha que estava fuçando na bolsa dele.” Nisso, o Vizinho emendou de novo, “Nem cachorro eu tenho... Criançada doida!” O Pai deu castigo para nós dois, porque todos sabem que não se deve aprontar na casa dos outros. Fiquei muito bravo com a Mana porque ela mentiu pro Pai dizendo que eu saí correndo por causa de um cachorro – imagine, logo eu que gosto tanto de animais! E o pior, colocou a Vaca Malhada em risco de ser devorada pelo monstro. Chegou a noite e a raiva não diminuiu. Na tentativa de se desculpar, Mana veio explicar a história e me mostrou um desenho que fez enquanto eu analisava o graveto queimado.


“Está vendo? Essa é a cadelinha que veio comer o bife que você deixou na bolsa.” “Para de ser mentirosa, Mana! O Vizinho 7 falou que nem cachorro ele tem!” “Pois quem disse que a cadelinha é do Vizinho 7?”, perguntou a Mana. Então ela contou uma história incrível, que eu nunca teria sido capaz de inventar, mesmo se tivesse todas as tardes livres, sem lição de casa e nem as bisbilhotices frequentes da Mãe. “Enquanto você corria como um doido, a cadelinha veio me perguntar onde ela estava e a gente começou a conversar. Descobri que o nome dela é Laika e que ela veio diretamente do espaço sideral. Não que ela morasse lá no espaço, isso nunca! A Laika veio de um lugar menos longe, uma tal de Rússia! Eles colocaram a pobrezinha num balão de lata e mandaram voar no céu. Essa parte até que foi legal, porque ela contou


que lá de cima nós somos tão pequenos quanto as estrelas! Mas ontem à noite, um raio furou o balão e caiu com tudo na casa do Vizinho 7. Ela ficou escondida no celeiro até passar a chuva e hoje de manhã, como estava morrendo de fome, não resistiu ao cheirinho de bife que saía da sua bolsa.” “Que mentira, Mana! Como que ela te contou tudo isso se cachorro não fala?!” “Fala sim, seu tonto! Você que não entende porque eles falam na língua dos russos.” Mesmo dando um voto de confiança para Mana, confesso que não entendi muita coisa do que ela disse. A história era boa, isso é verdade, mas eu não fazia ideia do que era “espaço sideral”, “balão de lata” e muito menos “Rússia”.

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E foi assim por muitos e muitos anos, até que um dia eu finalmente entendi tudo o que a Mana tentou me explicar! Eu já era velho e morava na cidade quando vi na televisão uma reportagem sobre os primeiros foguetes criados pelo homem. A matéria mostrava os cientistas, os projetos, os treinamentos de astronautas e, no meio de tantas informações, lá estava ela: a cadelinha russa. Lembrei que ainda guardava o desenho que a Mana havia feito, a prova incontestável de que Laika esteve no Brasil e comeu um bife cru na minha bolsa.

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Victor peres e Perez se formou em Gestão Ambiental mas, diferente do que muitos imaginam, não abraça árvores nem salvará o mundo do aquecimento global. Sua contribuição para humanidade são as histórias que inventa para divertir e inspirar crianças e adultos bagunceiros como ele. Pela editora Evoluir, já publicou os títulos Lá onde eu moro em parceria com Babi Dias, Cara feia e Mário, o menino imaginário, todos para quem gosta de um bom e divertido conto!


Jana Glatt, designer carioca, entrou para o mundo da ilustração depois de uma temporada de quase dois anos em Barcelona, onde se pós-graduou na área. Participou de exposições coletivas nas galerias Miscelanea e Senda, ambas em Barcelona. Seu trabalho foi selecionado para o VI Catálogo Ibero-americano de Ilustração com exposição em Guadalajara (México) e Bolonha (Itália). Aqui no Brasil, ilustrou alguns livros infantis como o Declaração de amor e Quem adivinha o que é?, de José Enrique Barreiro, pela editora Guarda-Chuva, Um abraço passo a passo, de Tino Freitas pela Panda Books, Meu bairro é assim de César Obeid pela editora Moderna e O caminho das estrelas de Raul Drewnick pela Editora do Brasil.


Editora Evoluir, 2016 Texto Victor Peres e Perez Ilustrações Jana Glatt Revisão Elisa Andrade Buzzo Design gráfico David Renó e Uriá Fassina Conselho Editorial Bia Monteiro, Chico Maciel, Fernando Monteiro, Flavia Bastos e Uriá Fassina Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Bibliotecária responsável: Sabrina Leal Araujo – CRB 10/1507) P438c

Perez, Victor Peres e. A cadelinha russa / Victor Peres e Perez ; ilustrações Jana Glatt. – São Paulo : Evoluir, 2016. 32 p. : il. ; 23 cm.

ISBN 978-85-8142-110-0 1. Literatura infantojuvenil brasileira. 2. Foguetes. I. Glatt, Jana. II. Título. CDU 087.5 CDD 028.5 Índices para catálogo sistemático: 1. Literatura infantojuvenil brasileira 087.5 Este livro atende às normas do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, em vigor desde janeiro de 2009 Fontes Tisa Sans e Bassanova Papel miolo Pólen Bold 90g/m² Papel capa Suzano Art Premium Tech 300g/m² Impressão Meltingcolor (São Bernardo do Campo) Novembro de 2016

Esta obra é licenciada sob uma Licença Creative Commons 4.0 Internacional que permite que você faça cópias e até gere obras derivadas, desde que não as use com fins comerciais e que sempre as compartilhe sob a mesma licença. Editora Evoluir · FBF Cultural Ltda. Rua Aspicuelta, 329 · São Paulo-SP · CEP 05433-010 (11) 3816-2121 · ola@evoluir.com.br · www.evoluir.com.br


em meiO À gueRra fria e ã corRida espaciaL, uma família do interioR de são PaulO recebe uma visIta inusitaDa. Conheça a “verDadeIra” história de laiKa, a cadelinha russa, e comO ela foi parar na casa do vizInho 7.

ISBN 978-85-8142-110-0


A cadelinha russa