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o catador de

histórias Sergio Palmiro Serrano Ilustrações de Ágatha Kretli


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o catador de

histórias Sergio Palmiro Serrano Ilustrações de Ágatha Kretli


Crispim era assim: alto, magro, ossudo e narigudim. Nasceu no campo e cresceu na roça, aprendendo desde cedo os mistérios da terra, a plantar e colher os milagres do chão. Mas a lida do dia a dia trabalhando no campo... ah, não era nada fácil, não! Ainda menino, deixou de ir à escola para trabalhar na lavoura. Acordava antes do sol nascer, pegava a marmitinha, esperava o ônibus para trabalhar o dia todo sob o sol. Mal ganhava para ajudar no sustento de casa. Vida dura...

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Mas Crispim tinha um costume que lhe dava muita alegria: Ele gostava de ouvir histórias. E se admirava de ver os contadores de causos em volta da fogueira. Um deles era o seu Nerso Gumercindo. Contador de causos dos bons. Sabia muitas histórias: saci, mula sem cabeça, lobisomem... E ainda outras, de dar medo e de sonhar: iara, matintapereira, caipora e curupira... Crispim também gostava de inventar as próprias fantasias.

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Imaginava o romance secreto do preá com a seriema e contava para os outros em volta do fogo assim: “Um dia, eu juro que vi, vi um preazinho bonitinho, peludinho e que tinha umas patas bem pequenas... Ele saiu do meio do mato e veio assim pra beira do caminho, perto da porteira velha. O preazinho estava distraído, atrás de pinhão, eu acho... Nem viu a cobra... caninana logo ali do lado dele! Mas a caninana viu o preazinho, e já ia dar o bote quando se ouviu um som agudo muito alto, repetido! — Cáu! Cáu! Cáu! Cáu! — cantou uma seriema do outro lado da estrada. Depois, ela cantou outra vez, mais perto.”

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“O preazinho se ergueu nas patinhas traseiras, suas orelhas se aprumaram e então ele viu... a cobra! Mas a cobra não atacou, ao contrário, desarmou o bote e fugiu! Fugiu da seriema que, como todo mundo sabe, é grande caçadora de cobra... O preazinho não acreditou quando olhou pra cima e viu... ela... a sua salvadora... a seriema! Aquela belezura, figura elegante, linda mesmo! Pescoçuda, com aquele penacho na cabeça. Tinha até olho azul, verdade! Um bico cor de laranja deste tamanho, e patas cor de laranja também. Com garras de botar medo em cobra!” “Sim senhor, é o que eu estou dizendo. O preazinho viu a seriema e se apaixonou! Na horinha... à primeira vista! Além do mais, mesmo sem saber, ela tinha salvado a vida dele. Olha só quanta vantagem! A seriema também se encantou com o preazinho bonitinho, peludinho e que tinha umas patas bem pequenas... Combinaram de se encontrar naquela beira de caminho, na porteira velha, todas as tardes. Mesmo sendo de espécies diferentes, nada impedia aquela amizade... E é por isso que toda tarde a gente ouve a seriema cantando, para assustar a cobra porque o preá está chegando: — Cáu! Cáu! Cáu! Cáu!” Essa era só uma das histórias do Crispim...

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Crispim inventava a conversa entre formigas e joaninhas: — Boa tarde, Dona Formiga, vamos chegando? — Obrigada mas não posso, não vê que estou trabalhando? — Ora, não faça cerimônia, deixa disso! — “Mi discurpe”, Comadre Joana, mas tô fazendo meu serviço! Crispim amava a natureza e achava que os bichos e as plantas tinham sentimentos como a gente. Admirava o bailado silencioso das árvores com o vento. E chorava, ouvindo a música que o riacho cantava.

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Um dia Crispim tomou uma decisão: Iria deixar a vida de lavrador plantando milho e feijão para tentar sorte na cidade grande, quem sabe até estudar. Tinha o sonho de ser outra coisa, mas ainda não sabia que coisa era essa.

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Mas sabia o que sabia fazer. Sabia contar e calcular. Isso pra alguma coisa servia... Também sabia escrever e ler. Adorava. Lia tudo o que a vista encontrava. Lá no perdido da roça pouca leitura chegava. Uma revista velha no barbeiro já ajudava. Até bula de remédio ele lia e guardava. Quantos jornais, livros e revistas haveria na cidade? Todo dia, tanta novidade! Então se decidira! Juntou um dinheirinho, se despediu da família, pegou sua mochila de lona e resolveu arriscar.

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De dentro do ônibus, Crispim viu a paisagem mudar de milharal para pasto, depois para cana-de-açúcar até chegar na cidade, ou melhor, na periferia, onde viviam muitas pessoas. Depois de um longo tempo parado no trânsito, chegou na rodoviária e ficou atônito ao ver tanta gente. Havia carros e ônibus passando em todas as direções e até um trem em cima da ponte, que chamavam de metrô. Crispim ficou desnorteado, sem saber aonde ir. Na calçada, um trombadinha levou sua mochila. E junto com ela tudo o que o Crispim tinha: uma muda de roupa e o telefone da tia da vizinha.

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“Ai de mim!” pensou Crispim desesperado. Perdido na cidade de pedra, seu sonho durou pouco. Na primeira noite que passou na rua nem dormiu. Ficou encolhido num canto de uma marquise, entre outros moradores de rua que não se importaram com sua presença. Depois, acabou se acostumando à indiferença. E aprendeu a sobreviver na rua.

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Para ganhar algum dinheirinho começou a catar lixo para reciclar. Papelão, latinha, garrafa... Botava tudo numa carroça que ele mesmo construiu – feita com a carcaça de uma geladeira velha mais um eixo com as rodas de uma bicicleta, trocadas no ferro-velho por um tanto de sucata.

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Com o tempo, Crispim foi aperfeiçoando a sua carrocinha. Colocou um teto de zinco para descansar sob sua sombra quando era o alto do meio-dia. Depois fechou as paredes e fez uma casinha que usava de noite para dormir. Tinha atÊ um fogareiro e cozinhava com os restos de madeira e móveis quebrados que encontrava na rua.

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Numa noite de chuva, apareceu na carrocinha do Crispim um cachorro todo molhado, que se escondeu do aguaceiro embaixo da carrocinha. Crispim deu um pouco de comida pra ele e o deixou ficar lá. — Até que ele é bonitinho — disse Crispim olhando para o bichinho — Parece um pano de chão! Naquela noite começou uma grande amizade entre Crispim e Pandi, pois o nome que ele deu para o bichinho foi Pandichão! Assim ia vivendo Crispim na casinha ambulante. Recolhendo sucata que trocava por comida ou dinheiro, vivendo o avesso do sonho da cidade grande.

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Na sua lida do dia a dia, recolhendo aquilo que as pessoas jogavam fora, Crispim aprendeu a enxergar o lixo de uma outra forma. Aprendeu a ver que naquilo que era descartado havia uma grande riqueza. Mais importante que o preço do alumínio das latinhas ou do quilo do papelão, ele enxergou o valor das histórias das coisas abandonadas. Roupa, sapato, quinquilharia, guarda-chuva quebrado, retrato rasgado, livro autografado – tudo que estava no lixo tinha história. E ele começou a enfeitar sua casinha ambulante com os pedaços das coisas, ou melhor, pedaços das histórias que ele encontrava pelo caminho. Nunca dava pra saber a “história verdadeira” dessas coisas, mas Crispim se divertia em ficar só imaginando...

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O braço de um cavaquinho quebrado, que ele encontrou de madrugada em frente a um botequim, acabou virando uma história mais ou menos assim: “Era uma vez dois irmãos muito unidos. João, o mais velho e José, o mais novo. João tocava violão e José tocava cavaquinho. Eles tinham muitas coisas em comum. Eram sambistas, compositores. Já haviam composto juntos muitos sambas-enredo para o Grêmio Recreativo Escola de Samba Unidos do Morro do Azevedo... Mas outra coisa que os dois irmãos também tinham em comum era o amor que sentiam por Madalena. Ela era uma linda morena e também rainha da bateria. Naquela noite, depois do ensaio da escola de samba, quem sabe ao certo o que aconteceu? Alguém bebeu? Alguém brigou? Alguém se machucou? Alguém chorou? Será que alguém cantou um samba triste?” Crispim acreditava que a tristeza poderia ter lá sua beleza quando virava poesia.


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Crispim encontrou na calçada, entre caixas vazias de eletrodomésticos, um buquê de noiva novinho em folha abandonado de um casamento que nem chegou a acontecer. Dentro de um velho baú ele encontrou um retrato antigo, talvez de um tataravô que veio de país distante e por aqui ficou. E depois de tanto tempo, caiu no esquecimento. Afinal, pra que servem lembranças largadas num baú bolorento?

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Encontrou também um diário, escrito há muitos anos, por uma menina que cresceu e não quis escrever mais. Ao ver um pneu de bicicleta gasto, perguntou: — Diga lá, pneu, quantas estradas você percorreu? Será que chegou a algum destino? Ou será que ficou pelo caminho? Sabia para onde rodava? Ou simplesmente ia?... Isso é o que eu chamo de filosofia de borracharia! Achou uma gaiola de passarinho vazia que não servia mais de prisão. Pendurou-a na carrocinha e colocou dentro um cartão escrito: A gaiola aprisiona o pássaro, mas não o seu canto. Crispim recolheu muitos livros que as pessoas leram e não passaram adiante. Juntou-os numa prateleira dentro da carrocinha e fez uma biblioteca ambulante!

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Assim, de pouquinho em pouquinho, Crispim criou o seu Museu de Histórias Catadas, uma carroça muito animada que, por onde passava, deixava a população intrigada. Todo fim de tarde, era essa a diversão de Crispim quando parava sua carrocinha-casa-museu-biblioteca-ambulante numa pracinha qualquer, debaixo de uma sombra boa. Esperava chegar gente e aí começava a contar suas histórias para todos aqueles, crianças de coração, que paravam o que estavam fazendo e se sentavam ao seu lado só para ficar ouvindo. E foi num dia desses que algo aconteceu.

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Crispim estava fuçando num monte de caixas de papelão amontoadas num canto, quando achou uma coisa que o deixou boquiaberto, cheio de espanto. Jogada dentro de uma das caixas, ele encontrou sua velha mochila de lona, aquela com a qual chegou na cidade tempos atrás e que foi roubada na rodoviária. Depois de tantas histórias que viveu, a mochila voltou pra ele. Emocionado, Crispim abriu a mochila mas não havia nada dentro dela. No lado de fora, porém, num bolsinho meio escondido, Crispim achou um bilhete. Era um pedacinho de papel dobrado e gasto, escrito com uma letra de quem não tem muito costume de escrever. Dizia assim:

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Querido Crispim, Espero que você siga o seu caminho e encontre a sua própria história. Que você tenha sempre bons causos para contar! Seja feliz. Seu amigo Nerso Gumercindo.

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Evoluir, 2016 Este livro atende às normas do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, em vigor desde janeiro de 2009.

Título original Autor Ilustrações Design gráfico Revisão

O catador de histórias Sergio Palmiro Serrano Ágatha Kretli Gabriela Ferreira Elisa Andrade Buzzo

Conselho Editorial

Bia Monteiro, Chico Maciel, Fernando Monteiro, Flavia Bastos e Uriá Fassina

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

S487c

Serrano, Sergio Palmiro. O catador de histórias / Sergio Palmiro Serrano ; ilustrações: Ágatha Kretli. – São Paulo : Evoluir, 2016. 36 p. : il. ; 31 cm. 1. Literatura infantojuvenil brasileira. I. Kretli, Ágatha. II. Título.

cdu 087.5 cdd 028.5

Índices para catálogo sistemático 1. Literatura infantojuvenil brasileira 087.5

Bibliotecária responsável: Sabrina Leal Araujo – crb 10/1507

isbn 978-85-8142-107-0

Fontes Sunday e Dolly Pro Impressão Meltingcolor Tiragem 3600 exemplares Papel miolo Offset 120g/m² Papel capa Suzano Art Premium Tech 300g/m²

Impresso em novembro de 2016

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SOBRE O AUTOR

Sou contador de histórias, ator, bonequeiro, músico, desenhador e inventeiro! Desde menino amo a música, aos 13 anos já tinha uma banda de garagem... e também construí alguns dos meus instrumentos. Autodidata, iniciei minha carreira profissional na área do desenho gráfico, produzindo jornais e revistas e ilustrando livros para crianças. Mais tarde descobri no teatro uma linguagem onde poderia juntar as coisas que amo: as histórias, a música, o desenho dos cenários e figurinos, a plástica dos bonecos e adereços. No começo fazia pantomima, um teatro só com imagens, que conta a história pela ação dos personagens. Com o tempo veio a necessidade da palavra e comecei a escrever. O teatro me levou para muitos lugares para contar minhas histórias e pude compartilhar com muita gente essa alegria. Do teatro fui para a TV e tive oportunidade de alcançar mais pessoas através do programa Baú de Histórias que está no ar há mais de 10 anos. Penso que a maior riqueza que possuo são as histórias que vivi e que inventei. Acredito que todo mundo pode inventar sua história. A vida está cheia de inspiração! A questão para mim é: que história a gente vai contar agora? SOBRE A ILUSTRADORA

Ágatha Kretli nasceu em Teófilo Otoni, Minas Gerais. Fez faculdade de Design Gráfico e tinha preferência pelas aulas de quadrinhos, desenho, artes plásticas, processos manuais etc. Se formou pela Universidade Vale do Rio Doce e trabalhou por seis anos em agências de publicidade e design de Belo Horizonte. Sempre apaixonada por livros ilustrados, resolveu direcionar sua carreira na área de ilustração, com projetos em parceria com editoras de livros e revistas, além de projetos pessoais com pintura e bordado. Acredita que a curiosidade move o mundo, que os livros são poções de conhecimento e que aprender é pra vida toda. Atualmente trabalha como freelancer em sua casa, onde gosta de desenhar, recortar e colar coisas nas paredes.


Crispim é um rapaz simples do interior que ama ler e contar histórias. Decidido a perseguir melhores condições de vida, ele vai para a cidade grande, onde descobre um universo inteiramente novo. Seus sonhos acabam não correspondendo com a dura realidade, mas Crispim é muito criativo e encontrará a felicidade nas coisas mais imprevistas, e que ninguém mais quer.

978-85-8142-107-0

O catador de histórias  

Autor: Sergio Palmiro Serrano Ilustrações: Ágatha Kretli