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às vozes, ao silêncio das i-materiais presenças dos que se foram e dos que chegam. Nossos tambores atravessam o tempo e pulsam nos atlânticos. Maitê FreitaS

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Í N D I C E

8 DO FAZER AO SENTIR

14 Trovão no céu é candeia

16 INSTINTO TAMBOR

18 Onde toca o tambor que te Toca?

22 O Tambor sempre bate

24 Quem é que sobe a ladeira?

30 Dos Tambores aos Toca-discos

34 N’Goma o Tambor


Í N D I C E

38 Tambores na cultura humana

44 A NOITE DOS TAMBORES 50 - 2015 58 - 2014 64 - 2013 74 - 2012 80 - 2011

88 TAMBORES: africanos e diaspóricos

106 Tambores no Brasil contemporâneo

134 O UMOJA

136 Agradecimentos

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Ficha Técnica


DO FAZER AO SENTIR NOITE DOS TAMBORES 5 ANOS texto MAITÊ FREITAS

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ão 29km que distanciam a Casa de Cultura do M’Boi Mirim do marco zero de São Paulo, na Praça da Sé. Localizada em um distrito com 563.305 habitantes, a Casa de Cultura do M’Boi Mirim há cincos anos abre as portas para fazer ecoar nas vielas, ruas, becos e avenidas os sons dos tambores sagrados e profanos em diversas tradições. Organizada pelo grupo Umoja, com curadoria do pesquisador e produtor cultural Euller Alvez, há cinco anos, a Noite do Tambores faz do largo do Piraporinha, um dos poucos espaços de cultura da zona sul paulistana, um polo de louvor e celebração às culturas do tambor. Sim, fala-se “as culturas do tambor” porque desde que o mundo é mundo algo pulsa. Seja o pulsa do fundo da terra, seja o bater dos pés, seja na palma da mão, o que pulsa na existência é a vida e possibilidade de se criar espaços de troca, espaços de poesia, espaços de resistência.

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| Noite dos Tambores 2015 | foto: Guma Nación Zumbalelê

Em 2011, quando a Noite dos Tambores teve a sua primeira edição, reuniu no páteo da Casa de Cultura, cerca de 600 pessoas. Havia algo a ser feito, não importava como e para quantos, mas algo precisava ser escutado, do pulsar da tradição japonesa ao tambor de crioula, a diversidade ganhava contornos únicos. Quando o som bate lá no morro, todo mundo desce para ver. Da zona norte, leste, centro e oeste: todos atravessam a ponte para dançar madrugada a dentro na Noite dos Tambores, fazendo do evento um dos principais, quiça o único festival de tambores na cidade de São Paulo. Ao longo desses anos passaram pela Noite dos Tambores, 13 mil pessoas e 45 grupos de diferentes partes do país do Maranhão à tradição dos tambores ingleses, japoneses e cubanos que mantida no Brasil possibilita a construção de um mosaico das trocas simbólicas possíveis diante do instrumento, aos tambores do candombe uruguaio. Em seu quinto ano, a Noite dos Tambores alcançou números que fazem dela um marco na cidade, mais de cinco mil pessoas, entre mulheres, homens, jovens, adultos, crianças,

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anciões, crespos, lisos, nipônicos, indígenas, latino-americanos, caucasianos e negros se reuniram nas oficinas, cortejos e nos shows. Ao longo do mês de maio, as ruas do Jardim São Luiz, da Chácara Santana, Pirajussara e as plataformas dos terminais de ônibus Guarapiranga, Santo Amaro e Capelinha foram inundadas com as cores vermelha e branca e os sons dos tambores. A EMEF Pracinhas da FEB foi espaço para formação com alunos e professores para compreender a diversidade cultural presente nos ritmos, timbres e toques dos tambores. Mais forte e mais alto que o açoite dos feitores, em 2015, a Noite do Tambores cantou nas ruas o direito à presença e a resistência da presença afrodescendente na cidade de São Paulo. Para cada tambor que soou nas ruas, becos, vielas e plataformas nos terminais foi conclamado o ato político em prol da diversidade, do respeito às crenças, da preservação da memória, da presença negra nesta cidade e do direito à vida da juventude negra neste país. Como marco desses cincos anos, esta publicação busca registrar na história, dois aspectos fundamentais da Noite dos Tambores: a do conhecimento do passado e um olhar para o futuro para sociedade, política e espaço de conhecimentos

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onde a ancestralidade com toda sua diversidade possa ser preservada e legitimada. Este catálogo, assim como os cortejos, as oficinas e os shows na Noite dos Tambores, se faz como ação de resistência, uma resposta e evoca uma nova realidade política onde a arte é fundamental. Com textos dos colaboradores, amigos e parceiros, esta publicação busca dimensionar a Noite dos Tambores em sua diversidade e linguagem: do histórico de cada grupo que se apresentou, à depoimentos que falam da experiência de participar do encontro, ao estudo acadêmico sobre a tradição dos tambores e a herança africana. Este catálogo é um breve panorama, um primeiro passo na sistematização e difusão do estudo e das cultura dos tambores. Em 2011 a Noite dos Tambores foi guiada pelo verbo “fazer”, havia uma urgência algo precisa ser feito, foi dado o primeiro rumo a 2012, onde o verbo foi “pensar”: para onde ir e como ir? Em 2013, a ação foi “tocar”, seguir em frente para expandir as relações, os apoios e amadurecer a presença, chegando em 2014 para “juntar” e materializar em 2015 o “sentir”.

PÚBLICO

| Noite dos Tambores 2015 | foto: Guma

Axé!

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BALLET AFRO KOTEBAN

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| Noite dos Tambores 2011 | foto: Guma


Trovão no céu é candeia texto Antonio Eleilson Leite Coordenador da Área de Cultura da ONG Ação Educativa

Era um, era dois, era cem Mil tambores e as vozes do além Morro velho, senzala, casa cheia Repinica, rebate, revolteia E trovão no céu é candeia Era bumbo, era surdo e era caixa Meia-volta e mais volta e meia Pocotó, trem de ferro e uma luz Procissão, chão de flores e Jesus No final do século passado, Milton Nascimento e Márcio Borges compuseram a canção “Tambores de Minas”, cujos versos parecem que foram feitos para o “Noite dos Tambores”. Realizado há cinco anos pelo Umoja, sob a curadoria de Euller Alves, esse evento consolidou seu espaço no cenário cultural, não só da periferia paulistana, mas do Brasil, dada a sua abrangência e consistência estética. Podemos afirmar, sem medo de errar, que o “Noite dos Tambores” já criou uma tradição e afirma-se como um espaço artístico e de celebração das culturas que têm na percussão um ritual de encantamento, um chamado, um alarido que convoca um, dois, cem, milhares. “Trovão no céu é candeia”, diz o compositor mineiro, fazendo uso de uma palavra em desuso na língua portuguesa falada no Brasil, porém muito presente, e com elegância poética, na língua espanhola: candeia na língua de Cervantes é candela e quer dizer: vela, mas na composição de Milton passa a ideia de “chama”. E a “Noite dos Tambores” é iluminada por um grande palco, cuja luz clareia o céu noturno de escassas estrelas da Zona

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Sul da cidade de São Paulo. Os tambores têm essa magia da convocação, pois seu som em uníssono é supremo e dele ninguém fica alheio. Bate forte até sangrar a mão E batendo pelos que se foram Ou batendo pelos que voltaram Os tambores de Minas soarão Seus tambores nunca se calaram Os tambores, em muitas culturas, também convocam os que se foram da vida terrena. É por meio da percussão que se alcança uma elevação espiritual que nos coloca em contato com nossos ancestrais. “Noites dos Tambores” valoriza essa dimensão ritualística e mística inerente ao batuque, principalmente na tradição da África Negra. Em todas as edições há um momento de encontro dos músicos para uma ação de graças de grande intensidade e vibração, um ponto alto desse evento que promove o reencantamento da vida. Batucando por fé e destino Bate roupa em riacho a lavadeira Ritmando de qualquer maneira E por fim o tambor da musculatura O tum-tum ancestral do coração Quando chega a febre ninguém segura A cada edição do “Noite dos Tambores”, o Umojá demonstra com magnitude o quanto o batuque faz parte da vida do povo brasileiro: a lavadeira na beira do riacho batuca, como fala Milton, o menino faz um samba na caixa de engraxar sapatos, o pedreiro assenta o tijolo na cadência ritmada da zabumba, o sambista que faz o pagode no fundo do buzão improvisando o batuque na palma da mão. São as diferentes formas de expressar a emoção quando se ouve o “tum-tum ancestral do coração” 15


EXPOSIÇÃO DE TAMBORES

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| Noite dos Tambores 2015 | foto: Guma


INSTINTO TAMBOR texto LUIZ POEIRA e MAITÊ FREITAS Instituto Tambor

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oi fazendo xequerê e berimbau que o interesse por estudar os tambores chegou. Madeira, couro, ferro, suor e sensibilidade marcam o trabalho do Instituto Tambor que acompanha a Noite dos Tambores desde o início. Na Noite dos Tambores, o Instituto Tambor compartilha com o público o processo de confecção dos tambores: do escavar, passando pelo encouramento e adornos que fazem de cada tambor único. Atualmente, o Instituto é referência na confecção e preservação dos tambores de tradição popular e sagrada na cultura afro-brasileira. Localizado no bairro da Vila Sônia, próximo ao Butantã, o Instituto reúne em seu acervo e repertório de confecção mais de 15 tipos de instrumentos percussivos. Cada instrumento, cada couro apertado e cada madeira escavada tem sua singularidade preservada. A alma, o tempo, a escuta, o olhar… são os elementos essenciais quando se sente, quando se fala, quando se ouve o tambor tocar e ecoar nos corpos, no espaço. Assim a história é preservada, recriada e ressignificada.

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Onde toca o tambor que te Toca?


texto Leonaro Galina (Guma) é fotografo da “Noite dos Tambores” desde sua primeira edição, em 2011.

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inha escola é a capoeira angola. Na roda de Angola tive meu primeiro contato com o tambor, com a minha ancestralidade. A música, o ritual, o movimento, o transe. A pancada do gunga que gira a roda e faz reverberar no atabaque, que devolve a energia com outra pancada: o círculo, o ciclo se abre e se fecha. Foi na roda e em roda que aprendi a enxergar o que acontece dentro, passei a compreender que tudo está intrinsecamente ligado: a dança que me encanta e preenche o meu olhar através da liberdade dos corpos e da plasticidade dos movimentos. É sagrado, é orgânico. O tambor é uma árvore que deitou, um animal que morreu para virar música vital para nós, humanos. É o instrumento que movimenta o nosso corpo e a nossa cultura, parte essencial das nossas rodas. É a fonte que recebe a energia viva do tocador e nos devolve como música. É o elo, instrumento de comunicação entre o plano físico e o plano espiritual. Ponto de encontro que estabelece a igualdade sem soberba e com a humildade de um verdadeiro mestre. O que busco na minha fotografia é este momento onde tudo se alinha: onde o couro, a madeira, o som, o corpo, o gesto, o canto e a luz se completam fechando e abrindo o círculo. Momento em que a pancada do tambor afina-se com a do coração. Momento em que a alma transborda, escapa da prisão-corpo, liberta-se e dança, ginga, gira.

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Flor de Arueira

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| Noite dos Tambores 2013 - Virada Cultural 2013 | foto: Guma


bate

O Tambor sempre


texto ROGÉRIO PIXOTE (CINE BECOS) parceiro e coordenador do registro audiovisual da “Noite dos Tambores”, desde a primeira edição em 2011.

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Noite é correria, é dedicação, e é emoção na vibração dos tambores que batem no pico dos microfones, nos corpos suados e felizes que bailam nas lentes, que se fazem amor na partilha dos depoimentos. A felicidade sempre está em todo o canto do encontro, da zona norte a sul, de oeste à leste. O couro faz a travessia entre os idiomas, culturas e peles. O carro–chefe é a negritude. Linda de se ver é difícil de caminhar com uma câmera, tripé e microfone dentro de uma multidão de abraços, passos e sorrisos. Mais bonito ainda é quando uma senhora vindo da feira se depara com um tanto de gente que monta o evento e pergunta: “Moço, o que vai ter aqui?”. É sempre um prazer responder a uma indagação dessas. É quando percebemos a importância do nosso registro. A Noite dos Tambores é patrimônio, é nossa e de nossos filhos. O tambor bate, a gente só responde.

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texto Viviam Queiros integrante da Dida Banda Feminina que esteve pela primeira vez na “Noite dos Tambores” em 2015.

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a descida da ladeira – e ladeira é um marco geográfico de forte baianidade não fosse pelo frio, o Largo do Piraporinha poderia ser comparado a qualquer outra simpática periferia da cidade de Salvador.

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Olhando de cima, uma negrada reunida, estimulada, dançava. Uns correndo de um lado para o outro, outros sentados ao redor de pequenas fogueiras, gente preta, gente linda, gente querendo fazer o seu melhor. Observar uma comunidade engajada, onde mais velhos, adolescentes e erês circulam com a força do empenho, a força de decidir e o desejo de te acolher é uma grata satisfação. As ações da Didá acontecem dentro da comunidade do Maciel Pelourinho. As ruas e as ladeiras do Pelourinho são espaços acionados enquanto palco ou sala de aula. Essa é uma característica fundadora do samba-reggae: utilizar a força agregadora que toda esquina ou largo tem. Por essa razão também estávamos em casa.

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BANDA DIDÁ

| Noite dos Tambores 2015 | foto: Guma


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UMOJA

| Noite dos Tambores 2015 - Cortejo Sarau da Cooperifa| foto: Guma


Dos Tambores aos Toca-discos texto DJ Erry-g (Rogério Dias)

é DJ e arte-educador. Idealizador do projeto “Dos Tambores ao Toca-discos” e esteve na Noite de Tambores, em 2015.

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Desde que mundo é mundo, ouvem-se os sons dos tambores, o eco vem de lá… do berço da humanidade, da terra mãe-África: em seu solo os toques, batidas, beats e grooves foram gerados… Os beats dos toca-discos nascem das iluminadas mãos destes ogãs que, em ação, reverenciam os olhares e as belezas jamais vividas... 31


As culturas dos guetos das ruas esparramam-se nos tambores ancestrais. Os toca-discos buscam resgatar e reverenciar todas as riquezas já deixadas. Partindo do DJ, um multi-instrumentista que narra toda a contemporaneidade e que em algum momento de sua vida teve a honra de escutar os tambores falantes desta representatividade africana. Como se dois atabaques estivessem a tocar, o DJ girando os toca-discos (os famosos “bolachões” de vinil) relembram nossos ancestrais e nossas raízes, e no repertório, clássicos nascidos da criatividade e talento de gênios como: Tim Maia, que diz “o síndico” eu vou chamar, e Jorge Benjor, que emocionou com “Charles Anjo 45” ao cantar; e mais Sandra de Sá que acolhe aos seus “Olhos Coloridos” que iremos escutar; o papa James Brown que soube fankear no soul gritando “Get up em Sex Machine” (grande mestre não poderia deixar de citar); representando as divas lá vem ela, Diana Ross, na companhia de sua suavidade de uma Black Panthers que canta em “Upside down”; o elegante Marvin Gaye sem massagem com “Lets Get It On” me soube emocionar; Ray Charles, que cheio de visão mostrou “Georgia on my Mind”, isso porque ainda não sabia enxergar,

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ele abre passagem para a próxima diva, Nina Simone, mais pura voz em “Feeling Good”; encantando em sua guitarra expressiva, B. B. King, em “Sugar Mama” - ele ainda está por aqui; Gloria Gaynor, que não diz não aos tambores em “I Will Survive”; da mãe África, Fela Kuti, que representa em “Black President”; buscando no Morro do Querosene, Dinho Nascimento, “Eu estou aqui o que há” que encanta em “Berimbau Blues”; a “Rainha Quelê”, Ivone Lara, bem soube ensinar samba de roda explícito em suas escritas; sendo trazida de outras águas, Clementina de Jesus, pelo seu “Marinheiro Só”; mas mesmo quando “As Rosas Não Falam” continua batucando em sua caixa de fósforo, o mestre Cartola; exalando negritude, Candeia, que reafirma os Axé Ilê Oba das casas sagradas. São muitos os nomes de reis e rainhas pretos que ecoaram e ecoam nas margens dos planeta. Não me venham com “pare! Mãos para cima!”. A minha dança é resistência. A minha música é existência. Eu quero é dançar, gingar no barro pisado, descalço nos ritmos mais pretos. Que venha capoeira ou jongo, seja o Yjexá, maracatu da nação... saudações aos mestres! A eles meu carinho e respeito.

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N' Go m a Tamb o r

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texto Gaspar (Z’Africa Brasil)

O tambor que move a massa é a trilha pela selva urbana que nos leva do Brasil a Gana Tambores de Angola, Moçambique, Guiné Bissau é a forca do tambor universal Impulsionando o momento África preso no vento guiado pelo momento eternizando raízes tambores em movimento O tambor no centro de Sião sinfonia orquestral batida do coração o tambor ancestral No batucá do sambá em Nilé, Yorubá a ginga que vem do Xambá nos toques do candomblé rima milenar asé Obá, um baobá é o banquete de Oxaguiã Epa baba, Pai Oxalufã

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N’goma O tambor o tambor N’goma salve o orixá N’goma O tambor o tambor N’goma salve o orixá na pulsação no toque do Alujá na unidade dos tambores da nação Umojá O DJ é o tambor o beat abala, é a bala, o MC é a fala herança africana a voz que não se cala

N' G Ta m

Griots da casa da palavra mestres da tradição oral guiado pelo o tambor atemporal O coração acelera ao ouvir o tambor nessa cozinha tem sabor, calor e color suor, trabalho, ingredientes de um rimador sei que no mundo nem tudo são flores pra aliviar as dores hoje é a noite dos tambores N’goma o tambor o tambor N’goma nesta trova de fogo o trovador N’goma o tambor o tambor N’goma ao longe se ouvia de perto o tambor é ensurdecedor Ao anoitecer na selva urbana, Semba e Jongo aliviam a dor o que me guia é a pulsação do tambor O tambor que move a massa sem pregação ou louvor o que me guia é a pulsação do tambor a percussão e a Rappercussão dos percussores não importa o que aconteça hoje é a noite dos tambores a percussão e a Rappercussão dos percussores não importa o que aconteça hoje é a noite dos tambores

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OFICINA DE TAMBOR DE CRIOLA

| Noite dos Tambores 2015 | foto: Guma


Tambores na cultura humana 38


texto Salloma Salomão Jovino da Silva

“Minha nação é o tambor, meu coração não tem fronteiras, minha alegria é verdadeira, minha palavra derradeira, minha nação é o tambor” Texto publicado na rede web em 2013

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m São Paulo, ou ao menos entre nós, nunca houve “silêncio sorridente” diante das chacinas. Mas a cidade só pulsa quando os tambores troam.

Estive na sexta, na Casa de Cultura e Resistência de M’boy Mirim; e no sábado à tarde, no SESC Santo Amaro para uma sessão musical histórica. Vi, ouvi e vivi um Grupo da Raiz Bantu do Pernambuco e outro, da Bahia: Bongar de Raíz Xambá (Olinda-PE) e Samba Chula de São Braz (Recôncavo-BA). O quê? Emocionante é pouco. Pra mim foi evidente o sucesso desse empreendimento negro e público: Noite dos tambores do Mundo. Negro: porque não há ali um falso protagonismo, como na mídia convencional ou nas empresas e ONGs comerciais de entretenimento, onde negros são espetacularizados, mas raramente obtêm o seu maior retorno material, financeiro e simbólico. Público: porque é feito por gente coletiva da maior qualidade artística, técnica e humana, como NCA - Núcleo Comunicação Alternativa, Cooperifa, Capulanas Arte Negra, UMOJA, Bloco do Beco, o fotógrafo Guma, o videomaker Cassimano, Instituto Tambor, Aruanda Mundi, etc. Falo aqui de gente que bota a mão na massa, que se compromete com trabalho efetivo. Deu certamente recorde de público. Imagina como será ano que vem? Meu Mano Euller Alves, além de ser um dos artistas mais completos (canta, toca, dança, escreve, representa, educa, dirige) fora da Ilha do Anhagabaú-Pinheiros-Tamanduateí é certamente uma liderança admirável, em um cenário dominado por picaretas e pés de cabra. Viva a Noite dos Tambores do Mundo. Parabéns pela programação impecável: http://catracalivre.com.br/sp/cultura-de-ponta/gratis/noite-dos-tambores-na-zona-sul/ http://www.myspace.com/sambachuladesaobraz

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TAMBORES DO MARANHテグ - Grupo Cupuaテァu

| Noite dos Tambores 2015 | foto: Guma


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ILÚ OBÁ DE MIM

| Noite dos Tambores 2015 | foto: Guma


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TAMBORES DO JONGO - JONGO DE TAMANDARÉ

| Noite dos Tambores 2015 | foto: Guma


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BATUQUE DE UMBIGADA DE PIRACICABA

| Noite dos Tambores 2015 | foto: Guma


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texto Salloma Salomão Jovino da Silva*

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Noite dos Tambores tem objetivos artísticos, culturais e educacionais. Anualmente, realizada na Casa de Cultura Popular de M’Boi Mirim é uma iniciativa de produtores culturais independentes da Zona Sul de São Paulo, sob a coordenação do músico, produtor e ator: Euller Alves. E conta com apoio de criadores, artistas, pesquisadores, além de instituições públicas e privadas. A ação é muito mais do que um evento, pois dura um mês e estende-se por unidades escolares e ONGs da região sul da cidade de São Paulo. Em síntese, a Noite dos Tambores é um encontro internacional de música, que reúne uma amostragem significativa da diversidade rítmica/percussiva do Brasil e do mundo. A importância em realizar este encontro reside principalmente no impacto sóciocultural para nossa comunidade, no sentido de (re)conhecer as diferentes evariadas formas da música percussiva e instaurar a cultura da paz em uma região com parcas opções de lazer e cultura, e marcada por problemas decorrentes das desigualdades sociais. Desde a primeira realização (em 2011) até sua 5ª edição, a Noite dos Tambores aglutina pesquisadores, músicos e construtores de instrumentos com a intenção de apresentar uma mostra cultural diversa e significativa, a partir de uma abordagem global: Histórica, Antropológica, Terapêutica, Educacional e Criativa. Ela é dirigida a educadores, terapeutas, músicos e público, adeptos de música em geral. Em cada edição, o público direto estimado é de aproximadamente 10 mil pessoas, considerando os que participam de oficinas, palestras, exposições e apresentações musicais. Já o público indiretamente atingido é de até 50 mil acessos anuais, considerando a difusão de conteúdos no sistema web como vídeos, imagens fotográficas e textos, disponibilizados gratuitamente em blogs e sites do projeto. Todas as atividades são sistematicamente registradas em fotografia, áudio e vídeo. O objetivo dessa ação é gerar novos conteúdos em CD e DVD, garantindo maior difusão e também os direitos autorais e de uso de imagens aos participantes. O projeto caminha para um nível de sustentabilidade pouco comum às iniciativas nas periferias e já consta no calendário oficial de eventos culturais da cidade de São Paulo.

*Salloma Salomão Jovino da Silva é parceiro da Noite dos Tambores. Músico e historiador afro-mineiro, professor de História da África e da Diáspora (FSA-SP), Doutor em História Social pela PUC-SP. Pesquisador especializado em cultura musical de matriz africana, associado ao Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa - UL - PT.


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Uruguai

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Números em 5 anos

44 grupos 68 apresentações 740 artistas 17 oficinas 20 parceiros 2 paises 14 cidades 25000 público

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PĂšBLICO

| Noite dos Tambores 2015 | foto: Guma


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10 grupos 20 apresentaçþes 166 artistas 4 oficinas 18 parceiros 2 paises 7 cidades 8000 público


cartaz divulgação “Noite dos Tambores 2015” caio vitor, camila proença E rodrigo kenan, (isto não é importante)

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BARBATUQUES (SÃO PAULO - SP) “Usar o corpo é lembrar que estamos no mundo”. Referência em música corporal, o Barbatuques, nos seus 17 anos de história, descobriu uma quantidade de sons suficiente para transformá-los em uma verdadeira orquestra. Composto por artistas de diferentes linguagens, o grupo que começou do encontro e de uma brincadeira entre amigos, ao longo desses anos ampliou seu campo de ação e tornou-se uma plataforma de troca de conhecimento através de uma linguagem lúdica, criativa e democrática – tornando-se referência no mundo inteiro quando o assunto é percussão corporal. O Barbatuques relembra o público um princípio orgânico e básico: é o corpo, o nosso primeiro tambor.

BLOCO AFRO ILÚ OBA DE MIN (SÃO PAULO - SP)

As mãos femininas que tocam para Xangô. O Bloco Afro Ilú Oba de Min, coordenado pela musicista Beth Beli, há dez anos vem levando mulheres, homens, jovens, crianças e anciões às ruas do centro de São Paulo. Fundado e coordenado por mulheres, o Ilú Oba traz em sua bateria mulheres de todas as idades e regiões de São Paulo. Desde seu surgimento, o grupo consolidou-se como um espaço de empoderamento da mulher negra, branca, indígena ou imigrante na percussão afro-brasileira. Em 2015, mais de 50 mil pessoas seguiram o bloco pelas ruas da região central dançando ao som dos ritmos sagrados de matriz africana, e consolidando o Ilu Obá como uma das principais ações de valorização da cultura afro-brasileira em São Paulo.


BATUQUE DE UMBIGADA

(PIRACICABA - SP)

Ao longo da história o termo batuque passou a ser usado de forma genérica e aleatória. Com o passar do tempo, e para não cair no esquecimento, a Casa de Batuqueiro há 19 anos resgata, preserva, pesquisa e transmite a manifestação do batuque em sua dança, cantos e ritmo. Fruto do legado bantu, o batuque é um ritmo de resistência da diáspora negra nas terras brasileiras. A concentração de negros do tronco étnico bantu na região rural do oeste paulista, durante o processo escravocrata, aponta que os primeiros registros do batuque de umbigada ocorreram na região dos municípios de Tietê, Piracicaba, Capivari e Rio Claro.

DIDA BANDA FEMININA

(SALVADOR – BA)

“As rainhas que tocam tambor” é assim que a Didá se apresenta. A banda percussiva é formada por mulheres negras que juntas venceram a insegurança e os medos em uma sociedade patriarcal. No figurino, a Didá homenageia a princesa e guerreira negra Anastácia. No compasso do samba-reggae, as percussionistas fazem coreografias que sincronizam o pulso do toque do tambor ao passo da dança-afro. Conhecida em diversos países, a Didá é referência na música baiana e mantém o legado deixado por Mestre Neguinho do Samba, com quem aprenderam que o samba-reggae é um ritmo que dialoga com muitos outros.

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É DI SANTO (SÃO PAULO - SP) O É di Santo é um dos poucos blocos afros da zona sul de São Paulo. Vestido de amarelo e branco, o grupo reúne-se ao longo do ano em oficinas, workshops e shows; e durante o carnaval, sai às ruas para celebrar com a comunidade do M’Boi Mirim. Atualmente, com sessenta percussionistas (jovens, adultos, crianças e anciões), o grupo ecoa os ritmos afro-brasileiros pelas ruas do bairro, respeitando e agregando ao seu cortejo a diversidade de crenças e sotaques presentes na comunidade. O É di Santo participou da Noite dos Tambores nas edições de 2013 e 2014.

G.R.E.S IMPÉRIO SERRANO (RIO DE JANEIRO - RJ)

A história do carnaval carioca não pode deixar passar em branco a escola de samba Império Serrano. Se hoje a Império está no grupo de acesso, ao longo de sua trajetória a escola já conquistou nove vitórias no grupo especial. Localizada na Serrinha, no bairro de Madureira, a escola guardada por São Jorge traz em suas cores o verde e o branco: a simbologia da paz e da esperança. No pulsar dos tambores, a Sinfônica do Samba está entre as melhores baterias do carnaval carioca e paulista; e entre as muitas canções da música popular brasileira, “Aquarela Brasileira” - composta por Silas de Oliveira (1916 -1972) samba-enredo de 1964 da Império - tem o seu lugar preservado na história do samba.


Nacion Zumbalelé

(SALINAS - URUGUAI)

O Nacion Zumbalelé é um movimento artístico-cultural que tem como foco investigar e difundir o legado ancestral afro-uruguaio realizando intercâmbio com as diversas tradições de matriz africana na América Latina. Em seu trabalho, o Nacion Zumbalelé difunde o candombe, um dos principais símbolos da musicalidade de resistência afro-uruguaia. Seus tambores de timbres diferentes e denominados por: tambor piano, tambor chico e tambor repique soam os toques: ansina, cuareim e cordon. O candombe é celebrado e escutado principalmente no carnaval de rua uruguaio.

ORQUESTRA TAMBORES DE AÇO

(CAMPINAS - SP)

A Orquestra Tambores de Aço nasceu do sonho de TC Silva após assistir à apresentação da Orquestra de Tambores Atlantic Symphony (Guiana). Nas palavras de TC: “[sic] o sonho é igual a possibilidade de compreender coisas, aliás, a compreensão é tudo que a humanidade precisa”. Inspirado pelos sons dos tambores da Guiana e da tradição afro-caribenha de tocar os tambores de aço, há 25 anos a Orquestra de Tambores de Aço é uma das ações da Casa de Cultura Tainã que retira jovens da situação de vulnerabilidade. Unindo sons de instrumentos tradicionais africanos (como a cora, o balafon) ao som único dos tambores de aço, a Orquestra conduz o som da tradição juntamente com o ritmo e a melodia da ancestralidade afro-caribenha.


TCHÁ DEGGA DA (SOROCABA - SP) Conhecido como a Seleção Brasileira de Percussão Rudimentar, há dez anos o grupo fundado pelo percussionista norte-americano John Grant desenvolve o projeto sociocultural que tem como premissa a transmissão dos conhecimentos e estudos da percussão rudimentar. Em sua composição, o Tchá Degga Da tem músicos de catorze estados brasileiros e realiza oficinas de formação em percussão rudimentar com um método próprio.

UMOJA (SÃO PAULO - SP) Em swahili, Umoja significa unidade. Há seis anos, o coletivo formado por artistas que vão da dança à educação tem como compromisso a difusão, o resgate e a preservação das manifestações culturais afro-brasileiras. Do samba-de-roda à ciranda, o coletivo reúne em suas rodas a diversidade dos ritmos populares. Ao longo do ano, o Umoja realiza diversas ações que primam pela escuta e pelo reconhecimento das personagens culturais na zona sul de São Paulo, dialogando permanentemente com a comunidade em seu entorno, o Jardim Ibirapuera. Dentre as ações do Umoja está a Noite dos Tambores.

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DJ | ERRY-G (SÃO PAULO - SP) Erry-G é Rogério Dias, DJ, arte-educador e produtor cultural. Nascido em São Paulo, encontrou na cultura hip-hop sua expressão. Junto com outros jovens, criou em 1994 o grupo de RAP “Face Ativa” e no mesmo período foi para Diadema aprimorar os estudos em torno da cultura hip-hop. De lá para cá, Erry-G vem atuando como DJ-educador e arte-educador, multiplicando entre jovens os fundamentos da cultura hip-hop, a resistência e a identidade afro-brasileira.

MC | AKINS KINTE (SÃO PAULO - SP) Akins Kinte poetinha sem tempo, remetido ao passado, presente e futuro, “nascido no berço do skindô e criado nos terreiros do ziriguiduns” tem como escola os campos de várzea; e o corpo batuca sob a luz da lua, delicia os lábios na menina que traz na pele a mesma cor da noite. Bebe de se embriagar na fonte do samba e da oralidade dos negros velhos; bom com a memória é um elo na manutenção na casa da ancestralidade onde arrisca poetizar através da lente-câmera. Teu escritório é nas esquinas da vida de onde silencia tuas mãos e o coração dedilha sempre um verso seja lá qual for adversidade da vida.

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8 grupos 13 apresentaçþes 95 artistas 3 estados 6 cidades 17 parceiros 3 oficinas 3800 público


cartaz divulgação “Noite dos Tambores 2014” CASSIMANO

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BALLET AFRO KOTEBAN (SÃO PAULO - SP) O grupo composto por dois músicos e duas dançarinas desenvolve há onze anos uma pesquisa em torno da música e da dança do povo do oeste africano, em especial a tradição mandingue (Guiné, Mali, Senegal, Burquina Faso e Costa do Marfim). Inspirados pela visita do Mestre Djembefola, cujo nome quer dizer “aquele que faz o djembé falar”, pela presença de Mamady “Kargus” Keita e por um grupo de Ogãs Alabês do Terreiro “Axé Ilê Obá”, o Ballet Afro Koteban difunde a cultura Mandingue/ Malinké. O nome Koteban vem do idioma malinké e significa “objetivo verdadeiro jamais se acabará”; e foi dado por Billy Konaté, grande percussionista guineano e filho do Mestre Famoudou Konaté, com quem o grupo mantém um contato e intercâmbio de ideias e informações.

BLOCO AFRO MUZENZA (SALVADOR - BA)

A palavra muzenza vem do bantu-kikongo e significa Yaô de Nagô. O Bloco Afro Muzenza, fundado em 1981, traz em sua história e sonoridade o encontro dos ritmos do candomblé com a música jamaicana. Há 34 anos no carnaval de rua de Salvador, o grupo - que teve sua origem no bairro da Liberdade e hoje tem sede no Pelourinho - coleciona 13 títulos no carnaval e destaca-se por ter surgido em homenagem a Bob Marley e com a difusão do samba-reggae. Ao longo desses anos, o grupo teve diversas canções transformadas em hits por outros cantores baianos, entre elas: “Swing da Cor” e “Brilho e Beleza”, eternizadas nas vozes de Daniela Mercury e Gal Costa, respectivamente.

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CONGADA DE SANTA IFIGÊNIA

(Mogi das Cruzes - SP)

Em sua quarta geração, a Congada de Santa Ifigênia é a primeira comunidade a trazer uma mulher em sua guarda. Sob o comando de Gislaine Donizete, o grupo é formado por quarenta integrantes - entre crianças, jovens, adultos e anciões - mulheres e homens que mantêm o legado de seu Zé Baiano, pai de Gislaine. Vestidos de branco e verde, a Congada surgiu na década de 1950 na região de Conselheiro Lafaiete (MG) e migrou para a região de Mogi das Cruzes (SP) mantendo a tradição nos ritmos (dobrado, marchas lenta e picadas), nos cantos em louvor a todos os Santos e na dança compassada. Atualmente, a comunidade da Congada de Santa Ifigênia é uma das principais manifestações preservadas no estado de São Paulo.

DJ | SAMUCA

(São Paulo - SP)

Samuca Vieira, pesquisa incessantemente por ritmos e musicalidades que falem, conversem diretamente com a pele de quem ouve e dança a música tocada. Utilizando discos de vinil leva para pista influências que vão dos beats do groove brasileiro aos beats do boogaloo, afrobeat, e muitos outros. Suas bolachas já rodaram e balançaram pistas brasileiras e europeias. Para a Noite do Tambores, traz um set aprofundado na musicalidades afro-sul-americanas que vão das cumbias, bois, cocos aos grooves.

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MC ZINHO TRINDADE (SÃO PAULO - SP) Zinho Trindade é poeta, músico e apresentador do programa “Hip-Hop Na Cozinha”. Iniciou sua carreira no TPST - Teatro Popular Solano Trindade, herdando a tradição familiar na pesquisa e divulgação da cultura popular afrobrasileira. Unindo o legado familiar e da vivência cotidiana na cultura popular brasileira aos ritmos eletrônicos, Trindade é um militante da igualdade social utilizando a palavra, a poesia, o ritmo e a sua presença como instrumentos de resistência.

ORQUESTRA DE TAMBORES DE ALAGOAS (Maceió - AL) A Orquestra de Tambores de Alagoas representa a fusão de ritmos, cores e timbres, composta por ogãs, o grupo conta com mais de dez anos de existência. A Orquestra surgiu na região dos lagos de Maceió, local de maior concentração dos terreiros alagoanos. O grupo, que constrói seus próprios instrumentos, faz uma viagem às raízes musicais afro-brasileiras: dos ritmos sagrados do candomblé aos fragmentos da música contemporânea, unidos a efeitos sonoros eletrônicos e experimentais - tudo junto, tudo sintonizado e celebrado em torno dos tambores, em seus diversos timbres e possibilidades.

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OS QUENTES DA MADRUGADA (Santarém - PA) Tombado em 2014 como patrimônio imaterial brasileiro, o carimbó pertence ao panteão das danças populares de matriz afro-indígena do norte do Brasil. O grupo Os Quentes da Madrugada - Carimbó da Irmandade de São Benedito de Santarém Novo representa a luta de diversos grupos da cultura tradicional. Durante dois anos de luta pelo reconhecimento e tombamento do carimbó, que fez o grupo seguir tocando carimbó do Pará à Brasília e recolher assinaturas por dezoito dias para conseguir o devido reconhecimento do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Devotos de São Benedito, há duzentos anos a Irmandade mantém a tradição de tocar carimbó por onze dias ininterruptos em homenagem ao santo bendito. O grupo, que está em sua quinta geração, anima as madrugadas de Santarém e tem como mestre carimbozeiro “Seu Dico Boi”, que aos 75 anos mantém vivo o legado: “eu disse: - olhe meu pai, plante que eu vou tratar”.

SALLOMA SALOMÃO (ITAPECERICA DA SERRA - SP) Nascido em Passos (Minas Gerais), o músico, historiador e um dos integrantes da curadoria da “Noite dos Tambores” Salloma Salomão, há mais de trinta anos une os elementos de seus estudos às suas lembranças “das Minas Gerais”, em suas composições ou arranjos. Tendo como fio condutor uma pesquisa histórica e estética que retorna aos universos simbólicos da diáspora negra no sudeste do Brasil, em seu trabalho são reconstruídas as imagens, os sons, as miragens da negritude contemporânea em diálogo com o legado musical dos “Brasis”: congos, moçambiques, folias e lundus. A música afro-brasileira em sua fé, em sua festa, amores e lamentos são as ondas pelas quais o músico navega ao longo de sua trajetória.

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10 grupos 16 apresentaçþes 184 artistas 3 estados 5 cidades 13 parceiros 3 oficinas 2500 público


cartaz divulgação “Noite dos Tambores 2013” GUMA

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AFOXÉ OMO DADA (SÃO PAULO - SP) O Afoxé Omo Dada, nascido dentro de um espaço sagrado e de culto dos orixás, é o responsável pela lavagem do sambódromo do Anhembi (SP). O grupo lava, limpa e abençoa a passarela do samba; lembrando que a festa, embora profana, também é sagrada e reverencia os orixás. A cada ano, reúne centenas de crianças, jovens, adultos e anciões, que vestidos nas cores do orixá homenageado, inundam de axé o sambódromo paulista.

BATERIA DA ESCOLA DE SAMBA DO 3º MILÊNIO (SÃO PAULO - SP) Há 16 anos a G.R.C.E.S. Estrela do 3º Milênio faz do bairro do Grajaú (zona sul de São Paulo) um dos principais pontos de samba da cidade. A escola, que surgiu da amizade entre os sambistas da v, Silvio Azevedo e Eduardo Basílio, vem ao longo desses anos promovendo o samba e a tradição do carnaval em um dos bairros onde o índice de vulnerabilidade é dos mais altos do município. Sua trajetória no carnaval paulista começou em 1999 quando as ruas do bairro foram inundadas com o som da bateria e as cores da escola. De lá para cá, a escola vem galgando seu espaço entre as gigantes dos carnaval e, desde 2011, disputa seu lugar no Grupo Especial das escolas de samba paulistanas.

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BONGAR TAMBOR Da XAMBÁ

(OLINDA - PE)

O Bongar é composto por seis jovens integrantes do terreiro Xambá, do Quilombo do Portão do Gelo, em Olinda/PE. Tem como propósito levar aos palcos a tradicional Festa do Coco da Xambá, realizada na comunidade há mais de 40 anos. Preservando e difundindo a cultura afro-pernambucana, o Bongar reverencia em suas apresentações toda a musicalidade do Coco da Xambá, as cirandas, o maracatu, o candomblé e outros ritmos tradicionais. A força advinda de diversas influências musicais vivenciadas nos cultos afro-brasileiros, principalmente da linhagem Xambá, é a herança adquirida desde a infância pelos integrantes do Bongar (os mais velhos ensinaram os toques, as loas e as danças durante as festas da Casa Xambá)

DJ | BADÉ (SÃO PAULO - SP) Maurício Alves de Oliveira é o Badé. Pernambucano, desde criança conviveu com a diversidade de cores, cortejos e ritmos pernambucanos. Trabalhou como arte-educador nas periferias de Recife. Durante 10 anos integrou o grupo Mestre Ambrósio, quando viajou Brasil e mundo a fora. Em 2007, teve seu primeiro CD gravado, “Charanga Tocando a Vida”, compõe trilhas para campanhas publicitárias e acompanha diversos artistas e grupos, dentre eles o Batucada Tamarindo, a cantora Luciana Oliveira e o rapper Criolo.

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GRUPO CUPUAÇU (Tambor de Crioula) (SÃO PAULO - SP) Criado em 1986, o Cupuaçu - Centro de Estudos de Danças Populares Brasileiras realiza desde 1990 a Festa do Bumba meu boi no Morro do Querosene. O grupo é composto por membros de famílias de diferentes origens oriundas do Maranhão, além de outros migrantes de outras regiões brasileiras e imigrantes de outras partes do mundo. Com cerca de 40 integrantes entre dançarinos e músicos (adultos, jovens e crianças) e com um repertório formado por uma vasta gama de danças e músicas tradicionais, o Grupo Cupuaçu é responsável por manter viva as tradições maranhenses do Bumba-Meu-Boi e do Tambor de Crioula na cidade de São Paulo. Em 2012, o Grupo Cupuaçu participou da Noite dos Tambores com apresentação do Bumba-Meu-Boi.

JONGO DE PIQUETE (PIQUETE - SP) O jongo de Piquete tem sua concentração na Vila Eleotério, bairro onde o contingente de ex-escravizados estabeleceu-se fazendo da região um ponto de resistência afro-brasileira. Crianças, jovens e adultos revivem os pontos e passos preservados pelos mais velhos ao som do tambu e do candongueiro, dando vida ao jongo. Atualmente, o grupo faz parte da rede de Pontos de Cultura e promove em sua sede oficinas, e ações de formação nas escolas municipais da região. Anualmente, o grupo desfila na escola de samba Império do Braz, afirmando a ligação entre o jongo e o samba. “Machado!”

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MC | LEVY (SÃO PAULO - SP) Wilson Roberto Levy, o MC Levy, é militante e ativista sociocultural. Um MC que não rima, mas que acolhe, anima e tece os encontros. Como MC-locutor gravou os cadernos “Negros do Quiloboje” e atuou em festas do movimento negro, entre elas: Kizomba - A Festa da Raça, Festival Semana Zulu e Abril + Cultura. Em Diadema, Levy é sócio-fundador Zulu Nation Brasil, onde desenvolve ações educativas no campo da cultura.

MC LEVY | Noite dos Tambores 2013 foto: Paulo Lordhóric

OS ARTUROS (CONTAGEM - MG) Na comunidade quilombola que há 120 anos existe e resiste na cidade de Contagem (Minas Gerais), descendente de Arthur Camilo Silvério, os Arturos vivem em terras compradas pelo patrono e mantêm a tradição transmitida e herdada ao longo das gerações. Conhecida como morada de grandes contadores de histórias (griots), a comunidade preserva os ritmos e as danças, tais como o candombe, o jongo, o batuque, a folia de reis, moçambique e congadas.

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SAMBA CHULA DE SÃO BRAZ (SÃO BRAZ - BA) Criado oficialmente em 1995, o Samba Chula de São Braz preserva a tradição oral e a musicalidade do samba de roda baiano, mais precisamente da região do Recôncavo Baiano. Com canções que trazem a poesia, as crônicas do cotidiano, o samba-chula e o samba-de-roda são linguagens de resistência e preservam a tradição das rodas afro-brasileiras. O Samba Chula de São Braz leva ao Brasil e ao mundo as cores do samba-chula, tendo participado de importantes festivais de música, entre eles: o Festival Internacional da Primavera Rishon LeZion (Israel) e destacando-se no Festival Qatar Brasil (Doha)

ARRASTÃO DO BECO (SÃO PAULO - SP) O Arrastão do Beco é um grupo de percussão popular multi-disciplinar que reune músicos, jovens, atores, dançarinos e demais pessoas interessadas na arteeducação. Fundado em 2007 e com sede no Jd. Ibirapuera (zona sul de São Paulo), tendo como carro-chefe o maracatu de baque-virado, o Arrastão transita por diversos ritmos afrobrasileiros: do coco à puxada de rede, congadas, samba de roda e os afoxés.

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Noite dos Tambores na Virada Cultural 2013

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Grupo Irmãos Guerreiros (SÃO PAULO - SP) O grupo Irmãos Guerreiros nasceu na década de 1980 em São Paulo, com a direcção de uma família Baiana seus fundadores são: Mestre Baixinho e seus dois irmãos ‘Guerreiro’ e ‘Macete’ e seu Filho Mestre Marrom. Praticam também o samba de roda que é uma expressão musical, coreográfica, poética e festiva das mais importantes e significativas da cultura brasileira. Exerceu influência no samba carioca e até hoje é uma das referências do samba nacional.

Jongo Dito Ribeiro (Campinas - SP) Herdeiros do jongueiro Dito Ribeiro, a comunidade de jongo que leva o nome do patrono reconstitui a manifestação do jongo em Campinas-SP através da memória de Benedito Ribeiro, de rodas com toque, canto e dança, com o objetivo de compartilhar e continuar a linhagem ancestral. Reescrevendo e escrevendo a história do jongo em seus cantos, toques e na dança.

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Flor de Aroeira (SÃO PAULO - SP) O Flor de Aroeira é um dos grupos que em São Paulo preserva a tradição do tambor de crioula, dança afromaranhense e praticada sobre tudo por descendentes de africanos. A principal característica coreográfica da dança é a formação de um círculo com solistas dançando alternadamente no centro. Um de seus traços distintivos é a Punga ou Pungada, (a umbigada).

folikan (SÃO PAULO - SP) Os tambores africanos assumem uma grande importância nas tradições musicais negro-africano: como se costuma dizer, no ritmo, na dança e no canto. Eles têm funções rituais e sociais, assim como se lhe atribui o símbolo da força do chefe e do clã (são tocados geralmente por homens) chegam a exprimir a identidade profunda de uma música intimamente ligada ou de uma linguagem falada.

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7 grupos 10 apresentaçþes 90 artistas 3 cidades 5 parceiros 3 oficinas 1100 público


cartaz divulgação “Noite dos Tambores 2012” GUMA

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BANDA BRASIL CALEDÔNIA (SÃO PAULO - SP) A Banda Brasil Caledônia é especializada em tocar antigas canções britânicas. Pelo menos quatro vezes por mês, os 28 integrantes - vestidos com roupas típicas, incluindo as famosas saias xadrez (kilts) - animam as baladas de vários pubs na capital.

BATUCADA TAMARINDO (SÃO PAULO - SP)

Grupo de músicos que propõe uma releitura dos vários gêneros de sambas e afoxés. Com os instrumentos tradicionais (ilús: instrumentos do Xangô de Recife, candomblé Pernambucano de nação Nagô), monta arranjos próprios e composições inspiradas no cotidiano urbano. Traz a memória dos antepassados como cerne da inspiração poética no trabalho, nos relacionamentos, na relação com a natureza e o meio urbano, e procura um diálogo através da música e da dança, provocando o público a uma interação e evocação da cultura popular e seu potencial criativo nos dias de hoje.

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CONGADA DE SÃO BERNARDO (SÃO BERNARDO DO CAMPO - SP) Mestre Ditinho mantém a tradição de sua família mineira em São Bernardo do Campo/SP com a reconhecida Congada do Parque São Bernardo, desde que se mudou para o ABCD na década de 60. A congada está na família de Ditinho há mais de 100 anos

ELECTRO BATA Tambores Cubanos (São Paulo - SP) O grupo integra três linguagens percussivas (África, Brasil, Cuba) em cantos, ritmos e instrumentos: tambores bata, tambores Dundu, congas, cajones de rumba, peruano e flamenco. A intenção é explorar os três registros musicais (grave, meio e agudo) em instrumentos e polirritmia, do acústico ao eletrônico - utilizando bases rítmicas improvisadas e outras, já programadas.

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GRUPO CUPUAÇU (Bumba Meu-Boi) (São Paulo - SP) (ver sinopse completa no ano de 2013) Em 2012, o Grupo Cupuaçu participou da Noite dos Tambores com apresentação do Bumba-Meu-Boi.

Ilu EgbÁ (São Paulo - SP)

Ilu Egbá vem da nação de candomblé Nagô. O grupo que tem como principal foco difundir e preservar a tradição dos tambores, os atabaques, através dos toques sagrados dos orixás. Por ser o principal meio de comunicação com o mundo sagrado, o toque dos tambores somado aos cânticos manifestam a dança, materializam o axé; desmitificando os preconceitos em torno da cultura do candomblé. O Ilu Egbá participou da Noite dos Tambores nas edições de 2014 e 2013.

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VOTUBUMBA – SAMBA DE BUMBO DE PIRAPORA (Pirapora do Bom Jesus - SP) Segundo estudiosos do tema, o Samba de Bumbo surgiu nas fazendas cafeeiras do Vale do Paraíba e foi trazido para Parnaíba pelos negros escravizados que migraram para esta região. Eles tocam zabumbas, caixas e chocalhos, trazendo a força dos batuques de herança africana; entoando pontos (cantos) e carregando tochas; e trazem os bonecões e cabeções (confeccionados de papel sobreposto) também herança da cidade

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9 grupos 9 apresentaçþes 88 artistas 2 cidades 4 parceiros 600 público


cartaz divulgação “Noite dos Tambores 2011” GUMA

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Espírito de Zumbi (SÃO PAULO - SP) Criado em 1993 pelos professores de capoeira Gilberto Santos e Jonas Barbosa (Arakunrin), o Espírito de Zumbi - para além do círculo da capoeira em suas ações - pesquisa outras manifestações da tradição afro-brasileira. Com residência na Casa de Cultura do M’Boi Mirim o grupo realiza toda última sexta-feira do mês, o Panelafro.

ESPÍRITO DE ZUMBI | Noite dos Tambores 2011

foto: Douglas Dutra

Jongo do Tamandaré (Guaratinguetá - SP) A comunidade do Tamandaré é uma das principais e centenárias localizações onde o jongo é preservado e cultuado. O jongo em Guaratinguetá mantém-se graças às festas promovidas pelo esforço coletivo da comunidade do Tamandaré. Por ser um dos principais espaços da celebração, a comunidade de Tamandaré salvaguarda a dança, os pontos, os tambores e a alegria do jongo, tornando-se referência no Brasil.

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Maracatu Ilê Aláfia (SÃO PAULO - SP) O grupo formado dentro do projeto Casa Leide das Neves (localizado no bairro do Jabaquara) e composto pela reunião de diversas idades, o Ilê Alafia difunde e é um dos principais grupos de preservação da manifestação do maracatu na cidade de São Paulo. Há 13 anos, o Ilê Aláfia preserva os elementos do cortejo, da dança, dos ritmos, da brincadeira e também da seriedade do maracatu pernambucano.

Oya Aguerê (Taboão da Serra - SP)

Foto: Douglas Dutra

O Oya Aguerê existe há 12 anos, nasceu dentro do terreiro de umbanda Caboclo Cobra-Coral e Zé Cirino da Bahia. O som sagrado dos orixás entoados pelo “rum”, “rumpi” e “lé”: os tambores sagrados dos cultos do candomblé. A dança, o canto, as músicas, as vestimentas e os pés no chão para celebrar e honrar a ancestralidade são os elementos principais do trabalho desenvolvido pelo Oyá Aguerê.

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Taikô Kôdaiko (Embu das Artes - SP) Criado em 2010, o nome do grupo significa “tambor (daiko/taikô) da felicidade (kô). Entre seus princípios, o grupo leva a busca de ser feliz fazendo o que gosta: ser feliz tocando tambor. Com estilo próprio, sendo diferente desde o pensamento, usa a técnica de percutir o taiko nas músicas autorais.

Tambor de Crioula Juçaral dos Pretos (São Paulo - SP) O grupo nasceu na região de Alcântara, na comunidade quilombola Juçaral dos Pretos. De branco, saias coloridas, renda branca, as mulheres de turbantes e homens de chapéu de palha fazem - ao som do couro do roncador, do chamador e do crivador - o chão da terra tremer quando tocados e aquecidos no calor da fogueira, magnetizando na dança o sagrado feminino da punga (umbigada).

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Trio Tambores do Oriente (SÃO PAULO - SP) Formado por músicos de diferentes origens, o Trio Tambores do Oriente aproveitou a diversidade dos artistas para compor o mosaico percussivo a sonoridade oriental, utilizando tambores de diferentes tradições árabes e da região norte da África.

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JONGO DITO RIBEIRO

| Noite dos Tambores 2013 - Virada Cultural 2013 | foto: Guma


Tam bo res


africanos e diasp贸ricos

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texto Salloma Salomão Jovino da Silva

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s tambores fazem parte da cultura musical de todas as civilizações humanas. As suas origens são muito diversas, mas os povos originários africanos, asiáticos e mediterrânicos nos apresentam as maiores variedades de formatos, tamanhos, funções e timbres; embora também possam ser encontrados remotamente no continente europeu. Do nordeste da África e da Mesopotâmia vêm os documentos arqueológicos mais remotos, que comprovam sua existência há pelos menos 6 mil anos. Este artigo tenta versar sobre a cultural musical especial marcada pela presença desses materiais sônicos, os tambores. O objetivo é levantar questões sobre as possíveis ligações históricas entre os tambores afro-brasileiros e os tambores africanos. Ao trazer a literatura etnomusicológica para o debate, não se trata de uma tentativa de elaborar uma reflexão que só interessa aos iniciados, mas antes desvendar - para um público não especializado - os ganhos obtidos pelas pesquisas acadêmicas, seja no campo da Antropologia Músical, Etnomusocologia, Musicologia Histórica, Sociologia da Música, etc. No Brasil, diversas formas, técnicas e saberes enriqueceram-se mutuamente das diferentes culturas musicais nativas/indígenas, africanas e ibéricas. Na origem, os tambores estavam profundamente conectados às concepções de mundo e filosofias religiosas, mas bem cedo foram incorporados a arte da corte e à atividade militar. Não podemos esquecer o papel simbólico, ainda hoje exercido pelos tambores em sociedades contemporâneas; ao mesmo tempo, os sons percussivos tornaram-se uma marca singular da música mundial. Embora os tambores façam parte da cultura musical de diferentes povos e civilizações, nas sociedades africanas alcançaram o máximo grau de diversidade estética, simbólica, morfológica e funcional. Grosso modo, tambores são objetos musicais, cujo som se obtém por percussão ou fricção. Em outras palavras, nos tambores podemos criar sons esfregando o couro ou algo que o faça vibrar (sarongas e cuícas), ou ainda batendo na membrana (de pele animal ou sintética), ou noutras partes do seu corpo com as mãos ou baquetas.

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O encontro (quase sempre desigual) entre culturas musicais africanas tradicionais e a cultura ocidental também deu origem ao instrumento percussivo de peças múltiplas que denominamos Bateria. Bateria, energia condensada em batidas ou alusão ao uso militar desse artefato pelos batedores (pelotão que anuncia o deslocamento e cadência da marcha dos soldados). São bem remotas as referências ao uso do tambor para dar ritmo à marcha dos exércitos. Em linhas gerais e em termos didáticos podemos identificar os tambores pelos seus materiais, formatos e usos sociais. De fato, os tambores só existem entre os seres humanos, e seu uso ganha sentido na vida grupal e social. Em algumas sociedades centro-africanas o tambor assumia uma simbologia da realeza. Em termos de materiais há predominância na África de dois tipos de tambores: tambores membranofones (som obtido percutindo o couro fixado na madeira) e tambores xilofones (cujo som é obtido na própria madeira-corpo do instrumento). No continente africano encontramos uma variedade tão grande de tambores, que impossibilita uma classificação e catalogação minimamente segura e definitiva, alguns pesquisadores já tentaram fazer isso sem sucesso. Este texto tenta apenas apontar didaticamente alguns caminhos que a pesquisa tem percorrido no sentido de conhecer, mais e melhor, uma parte das culturas musicais africanas e diaspóricas. Portanto, nada aqui é verdade absoluta, ou seja, tudo é inconclusivo, provisório e sujeito a reparos posteriores. Bem grosso modo, podemos dividir a África ocidental - de onde veio a maioria dos nossos ancestrais - em três áreas de incidências tamborínicas ou de três tipos de tambores bastante utilizados, quais sejam: a área oeste, onde predominam os Djembes e Batas; e a área central, onde predominam genericamente os Ngomas (em linhas gerais Ngoma

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é nome geral para Tambor, com pequenas variações na vasta área em que predominam as línguas do tronco linguístico bantu) - mas ainda nessas áreas existem outros nomes locais para diferentes tambores. Porque genericamente? Porque embora muitos tambores levem os nomes gerais de djembe, bata ou ngoma, há grande variedade de formatos, materiais, amarrações e utilizações nessas extensas áreas geográficas e culturalmente múltiplas. As fronteiras borradas das nacionalidades africanas não coincidem com as fronteiras intercambiáveis das culturas musicais. Essa foi uma verdade deliciosa que apreendi com o memorável Kazadi Mukuna (referindo-se à Merriam, falava ele em zonas de interação cultural). Para tornar a conversa mais fundamentada vou me amparar em textos e imagens recolhidos na pesquisa, mas nem sempre assimilados, adquiridos na França, Portugal e Senegal, sobre música. Entre os caras que tenho estudado consta Percival Kirby, que escreveu sua pesquisa em meados dos anos 1930; e publicou em Oxford, em 1934 e em 1953, na África do Sul. Ele mostra um painel bem interessante sobre culturas musicais dos povos Venda, Tonga, Zulu, etc. O livro chama-se: “The musical instruments of the native races of Shout Africa”, Johannesbusg, Witwatersrand University Press, 1953. Pela data e local já dá até um frio na espinha do que esperar quanto ao conteúdo, em termos de concepções raciais. Confesso que não é um dos mais graves nas cores densas do racismo científico vigente, além disso, contém informações relevantes se considerarmos o período em que a pesquisa foi feita, no alvorecer do século XX. Ou melhor, antes que a radiofonia e fonografia estivessem devidamente disseminadas, incidindo a pasteurização crescente sobre os estoques de culturas musicais do mundo, a partir dos centros ocidentais. Arqueólogos nos apresentam uma escultura em argila (terracota), é uma das representações do deus Bés do Egito antigo, a figura de um pequeno homem preto com cara de felino, com uma perna atrofiada, e que dança e toca um “pandeiro”.


Sem sombra de incerteza agora sabemos que a costa nordeste do continente africano desenvolveu também uma vasta cultura musical com intensa presença de tambores, inclusive entre os coptas (designação genérica para os cristãos primais africanos do Egito, Eritréia, Sudão, Sudão do Sul, Etiópia). Contudo os africanos vindos às Américas foram sequestrados e vendidos na África do oeste e em maior número da centro-ocidental do continente, sobretudo, entre o sul da bahia de Biagra e o sul da atual Angola. Em menor número foram também embarcados na costa oeste, banhada pelo mar índico, por via dos portos da antiga capital da colônia portuguesa, Moçambique. Singanga, pelo seu formato, é um tipo de tambor de madeira maciça escavada, na parte superior onde se prende o couro é côncavo, e tem uma base delgada e uma ponta aguda que se crava no chão, de altura de 60 centímetros. Era utilizado juntamente com os outros tambores: Ligoma, Likuti, Neya e o Ntoji. Um tambor similar apresentado por grupos de Candombe em Minas Gerais nos remete aos Singanga utilizados na região norte do país, na dança intitulada Mapico. Como diferentes etnias conviveram nos mesmos espaços durante o tráfico negreiro, seria razoável supor que determinados instrumentos musicais originalmente ligados à cultura de uma etnia específica fossem assimilados por pessoas advindas de outra cultura musical. Para obter um resultado interessante, em termos de cultura musical diaspórica, do ponto de vista metodológico é importante olhar simultaneamente para os registros mais remotos de cultura musical africana, para os processos culturais diaspóricos e também para os legados mantidos no próprio repertório musical da África contemporânea, acessando-os nos mais diversos suportes: web, discos, livros, filmes etc. A bibliografia de especialistas pode balizar e mediar o trabalho de pesquisa - tem sido esta minha estratégia.

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O Um dos trabalhos mais interessantes sobre tambores advém da Costa do Marfim, foi escrito, nos anos 1980, por Niagoram Bouah. Trata-se de uma proposta inovadora, o surgimento de uma nova ciência antropológica que ele designou “drumologia”: um campo específico de estudo dos tambores. Em “Introducio à La Drumologie”, o autor apresenta a variedade de tambores da Costa do Marfim, situando suas origens entre os Ashantes do Gana. Sua proposta consiste em interpretar os formatos e conteúdos musicais (canções e células rítmicas) empreendidos pelos músicos como fórmulas textuais socialmente elaboradas e difundidas pela cultura própria de cada etnia, entendo a importância que os saberes musicais exercem nas sociedades africanas da região oeste. Niangoran Bouah nos apresenta mapas étnicos, desenhos e fotografias, localiza diferentes tambores e seus usos em todo território do país e nas zonas fronteiriças com Gana, Burkina Fasso, Guiné, Mali e Libéria. Para ele, a Drumologia também poderia ser designada Tamborologia (tradução livre), não estando restrita apenas ao estudo do tambores, mas à própria cultura musical africana como um todo. “Drumologia é o estudo e a utilização dos textos dos tambores pelos africanos como forma de documentação para aprofundar os conhecimentos das sociedades africanas de tradição oral do período pré-colonial.” (Tradução livre) No Brasil, um dos mais antigos registros de estudo de instrumentos musicais africanos, especialmente tambores, foi realizado por um homem negro livre da Bahia, chamado Manuel Querino. Nascido em 1851, ele obteve uma boa formação escolar, tornou-se funcionário publico e professor, atuando no ensino secundário. Segundo Pinto de Aguiar (1955), Querino esteve ligado à luta abolicionista e aos embrionários sindicatos de tendência anarquista, em cujos jornais publicava seus textos. Foi eleito vereador e desenvolveu atividades políticas, intelectuais e artísticas em Salvador e também no Recôncavo baiano. Hoje se sabe, pelas pesquisas recentes sobre sua vida e obra, que as elites políticas e intelectuais da época o vigiavam bem de perto. Mantinha contato com escritores de outras regiões do país e uma leitura crítica de abolicionistas europeus e estadunidenses, sobretudo Booker T. Washington.

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OFICINA DE TAMBOR DE CRIOLA

| Noite dos Tambores 2015 | foto: Guma


Sua obra é vasta e inclui livros técnicos e estudos etnográficos sobre alimentação, vestuário, musicalidade e religiosidade de africanos e seus descendentes na Bahia durante toda a sua vida adulta. Alguns dos antropólogos profissionais posteriores a ele, beberam e inspiraram-se em muitos dos seus escritos e pesquisas, muitas vezes os desqualificando, outras menosprezando, ou mesmo não atribuindo a Querino os devidos créditos. Este foi o caso do médico-antropólogo racista Raymundo Nina Rodrigues. Na publicação “A Raça africana”, Querino (1916) apresenta uma sessão especial dedicada aos “instrumentos musicais”. Ele apresenta os tambores Batás, Ilus e Tabaques e atribui especial atenção ao Batá-cotos como instrumentos de guerra, proibidos de serem importados e tocados na Bahia desde a Revolta dos Males, em 1835. “Batá-cotô (tambor de guerra) era um tabaque usado principalmente pela tribo Egba, por ocasião dos levantes. Consistia numa grande cabaça coberta na parte superior por um pedaço de couro que produzia um som infernal, diferentes dos outros. Depois da insurreição de 1835 fora proibida na Alfândega o despacho desse instrumento. Efetivamente tinha razão o fisco: quando o africano ouvia o toque do bata-Cotô ficava alucinado” (página 98) Contudo a estampa com desenhos de instrumentos que ilustra a publicação de 1955 apresenta seis tambores entre os quais nenhum coincide com a descrição do Batá-Cotô de cabaça de Querino. Entretanto, se confrontarmos suas descrições com outras fontes da segunda metade do século XIX e das primeiras décadas do século posterior é possível sustentar que os Batás e Tambaques (de corpo maciço) eram efetivamente os tambores batas e atabaques, os mais utilizados na Bahia naquele período.

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Temos dificuldades em saber mais sobre tambores africanos no século XIX no Brasil porque os memorialistas e viajantes tenderam, na maioria das vezes, a descrevê-los de forma bastante genérica ou como se fossem iguais. Nesse sentido, Manuel Querino é rara exceção. Temos pinturas, gravuras e desenhos feitos por viajantes europeus desde os século XVII, tanto mais raros quanto mais recuado no tempo. Com esses materiais podemos levantas hipóteses sobre suas procedências africanas. Também no âmbito sobretudo das filosofias e práticas religiosas, como as Umbandas, Jongos, Candomblés, Candombes, Ticumbis, Congadas e Moçambiques será possível acompanhar recriações e adaptações na cultura de confecção dos tambores em diversas partes do país. O antropólogo Kazadi Wa Mukuna foi pioneiro no Brasil a tentar restabelecer ligações históricas, pela via da pesquisa etnomusicológica, entre nós e as culturas musicais centros-africanas como formadoras do que designou “música popular brasileira”. A lógica de esquartejamento, de secção das coisas e do mundo, que aprendemos na escola, nem sempre é adequada ao estudos de conteúdos culturais africanos. Por vezes não conseguimos delimitar, por exemplo, qual o âmbito da musicalidade do cotidiano, da música de divertimento ou de cunho religioso. Mukuna observou a cultura musical brasileira dos anos 1960-1970, sobretudo no meio urbano e entendeu em larga medida as influências advindas dos veículos de comunicação de massa. Ele próprio tornou-se portador da cultura musical criada nessa zona híbrida, qual seja, entre uma determinante africana e afro-brasileira eminentemente rural, aldeã e marcada pela tradição oral, e toda uma outra tendência marcada pela música como produto do lazer ur-

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TAMBORES DE MINAS - OS ARTUROS

| Noite dos Tambores 2015 | foto: Guma


O bano e pelo crescimento da indústria do entretenimento, onde figuravam o espetáculo em espaços privados, a radiodifusão e a venda de música na forma de disco (longplays) para serem reproduzidos em eletrolas e pick-ups. Mukuna foi fundamental para a introdução da etnomusicologia no repertório de um grupo pequeno e ativo de pesquisadores no Brasil, a partir de sua ação junto ao Centro de Estudos Africanos, coordenado naquele contexto pelo professor Kabengele Munanga. Em larga medida, as questões, problemáticas e métodos apresentados por Mukuna continuam reverberando nas pesquisas feitas por aqui, sobretudo os escritos a respeito da música e performance de J. H. Kwabena Nketia; além, de toda discussão metodológica de J. M. Chernof, A. M. Jones, Alan Merriam e o sensível Gerhard Kubik. Atualmente tenho pautado a pesquisa por diversas fontes, mas uma obra tem sido vital quando se trata de identificação de origem dos tambores africanos. Tenho encontrado subsídios no livro de Esther Dagan: “Drums, The heartbeat of Africa”. Traduzido livremente para: “Tambores, a batida do coração da África”. Publicado no Canadá em 1993, trata-se de uma pesquisa ampla e ao mesmo tempo um texto síntese que busca apresentar uma visão global em termos do continente africano da criação, técnicas de construção, características morfológicas e simbólicas, padrões sonoros e usos dos tambores em todo continente. Obviamente é resultado do trabalho de uma extensa equipe de pessoas e instituições que contribuíram com a organizadora. Por outro lado, fica evidente que muitos povos e culturas musicais africanas ficaram de fora, para que tal objetivo fosse cumprido. Uma fonte para tambores ibéricos: “Instrumentos musicais

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populares portugueses” de Ernesto Veiga de Oliveira, publicado pela primeira vez na década de 1960 e republicado pela Fundação Kaloste Gulbenkian, em Lisboa no ano 2000, é sem dúvida a melhor fonte impressa: pelo caráter etnográfico singular, de franco tom provincial e nacionalista, mas ao mesmo tempo rico em informações e diversidade de fontes históricas.

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Parece não haver dúvida de que atualmente no Brasil os tambores advindos das etnias localizadas na África Central (segundo as divisões estabelecidas por Greenberg, falantes das línguas bantu, que configuram o subgrupo do tronco linguístico Níger-Congo), prevalecem sobre tambores Iorubas, Akans, Ewes, Igbos, Haússas, Daomes e Malinkes (cujas línguas pertencem ao subgrupo KWA, também do tronco Niger-Cordofaniano), cujos registros oitocentistas nos dão a indicação de sua presença, por aqui, até então. Os tambores bantu em geral são denominados Ngoma. Embora tenham diferentes formatos e tamanhos, seus nomes são bastante similares. De forma não conclusiva podemos dizer que a geografia de sua distribuição coincide, em larga medida, com o espaço de difusão desses dois falantes de línguas do subgrupo linguístico. O pesquidador português José Redeinha (1984) os situou com o mesmo nome e padrão entre os Quioco, Luena, Luba, Moxico, Quicongo, Ganguela, Luimbe, Songo, Cunhamana, Quilengue, etc. Entre os Tchokwes de Angola, que nos aparecem em grafia portuguesa com Quiocos temos o Ngoma ya Mukuhundu. Ngoma wa kalenga um tambor pequeno dos Lunda, que também tinham um outro tambor específico de guerra chamado Ngoma wa Mukamba, ornado com entalhes e miçangas. Ainda entre um povo identificado pro Redinha como os Xinje e os Iaka (jagas), havia um tambor específico do soberano (Soba) ou alto dignitário chamado Ngoma wa Munganga. Em 2004, no período de doutoramento na Universidade de Lisboa, analisei no Museu Antropológico de Coimbra um exem-

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plar não datado recolhido em Angola ainda no período colonial, incrivelmente bem conservado; apresentava formato de cálice, esculpido em madeira maciça de cor marrom claro, com 98 cm de altura e cavilhas de madeira para fixação do couro. Nós, descendentes de africanos estamos bem ligados às formas e tecnologias musicais contemporâneas, mas não esquecemos totalmente a nossa longa e rica história em termos de culturas musicais. Mas como foi essa história? Resumidamente podemos argumentar que aqui, num passado longínquo, havia vários instrumentos de sopros indígenas, como também chocalhos, tambores, cordas, flautas e trompas de madeira e cabaça. Em meio à colonização e genocídio, os jesuítas introduziram outros de origem europeia na catequese, e ainda no século XVI africanos capturados por traficantes e trazidos para o domínio português trouxeram consigo saberes fônicos e culturas musicais - ricas sabedorias sonoro-musicais com base na voz e no canto como também trouxeram técnicas de confecção de instrumentos, principalmente tambores ou membranofones (instrumentos onde a membrana vegetal ou animal é friccionada ou batida com mão ou pedaço de madeira), flautas e trompas ou aerofones (instrumentos musicais cujos sons são produzidos com ar ou vento), xilofones (instrumentos nos quais o som advém da madeira). Trouxeram ainda conhecimentos para confeccionar e tanger diferentes tipos de instrumentos: chocalhos, kalimbas, pequenos instrumentos feitos de lâmina de metal e madeira designados lamelofones, cordas ou cordofones (berimbaus, tihumbas, orucungos) e marimbas (xilofones).

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As culturas artísticas e entre elas as musicalidades são socialmente produzidas e veiculadas. No caso, a população negra escravizada teve função fundamental, qual seja: preservar conhecimentos sonoros e acústicos como os instrumentos, por exemplo, além de elementos linguísticos e preceitos religiosos.

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Há quem interprete as sociabilidades negras como as Congadas, por exemplo, como uma forma de controle social exercida pelas elites senhoriais. Essa perspectiva nega aos negros a capacidade de compreender o mundo que os cercava; no fundo revela a permanência de uma dificuldade cognitiva dos estudiosos. Barreira interpretativa criada pelo racismo antinegro, que torna alguns estudiosos da cultura incapazes de nos ver como protagonistas, tanto no passado como no presente. As sociabilidades musicais foram e são fatores basilares às identidades negras. Músicas no corpo e na alma, lições de difícil apreensão para o racionalismo ocidental. Músicas de natureza religiosa e simultaneamente de festa são constituídas como forma de visibilidade e contraste étnico. Estar juntos em torno da música configura sentido a um “nós”, em relação àqueles que distinguimos como os “outros”. Alimentamos assim matrizes culturais que perpetuam, com mudanças e novos significados, formas africanas de estar no mundo. Não foi possível na diáspora manter as identidades étnicas africanas originais, por isso, escravizados e forros, inteligentemente constituíram sobre aquelas, novas identidades que lhes permitiram manter um senso grupal e a alimentar uma memória das Áfricas estatais, cada vez mais remotas. As mudanças e adaptações ocorreram em todos os extratos das culturas africanas na dispersão. Também no âmbito das culturas musicais, no seio da música litúrgica de origem africana dispersa em repertórios de práticas culturais conhecidas como Kimbandas, Congadas, Mocambiques, Candomblés, Umbandas, Quicumbis, Candombes, Encantados, Batuques, Voduns. Trata-se de cosmogonias e seus termos são autonomeados ou atribuídos, mas certamente também podem ser capturadas como religiosidades afro-brasileiras. Culturas musicais populares negras mostraram-se diversas aos olhos dos folcloristas da primeira metade de 1900 e ainda hoje demonstram uma vitalidade sem precedentes, diante da imposição da

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indústria cultural. O múltiplo pesquisador e músico Mario de Andrade intentou fazer uma mapa das musicalidades brasileiras nos anos 30 em um projeto folclorista. Situa-se seu projeto em uma tendência intelectual mundial vinda da Europa, que se pode hoje chamar de nacionalismo romântico. O resultado, ainda que parcial, resultou em materiais impressos, fílmicos e fotográficos que nos fornecem um panorama muito interessante sobre a diversidade de culturas musicais populares e étnicas no Brasil daquela época. Conquanto os pesquisadores modernistas buscassem algo que definiam como o caráter nacional ou a identidade cultural da nação, foram eles que revelaram nossa diversidade. Durante a ditadura militar o Ministério da Educação e Cultura coordenou uma nova pesquisa e catalogou musicalidades em todo país. A Campanha Nacional do Folclore coligiu e divulgou na forma de publicações impressas e pouco mais de meia centena de compactos discos de vinil, com encarte e textos de especialistas, mostrando que apesar das grandes mudanças culturais, as culturas musicais continuvam diversas e vigoras. Cocos, Maracatus, Sambas e Batuques continuam a ser fatores fundamentais de identidade para comunidades negras semiurbanas em todo país. Nos anos 1990, o antropólogo Hermano Viana, herdeiro de certa maneira da antropologia de viés ufanista, consignou ampla pesquisa seguindo o mesmo raciocínio e passos dos folcloristas e produziu cds de áudio, filmes e acervos fotográficos de uma gama impressionista de musicalidades dispersas no território. Muitas delas reiteravam as geografias sonoras identificadas pela equipe de Mário cinquenta anos antes. Se a surpresa dos modernistas do folclore foi a diversidade, a dos neofolcloristas foi sua continuidade e permanência. Só que agora já não podem mais ser pensadas como arcaísmos. Para ler mais: SILVA, Salloma Salomão Jovino da Silva. Memórias sonoras da noite. Tese de doutorado em História. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2005.

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Fontes bibliográficas: CARNEIRO, Edison. “Samba de umbigada.” In: Folguedos Tradicionais. Rio de Janeiro: Funarte/INF, 1982 [1961]. CHERNOFF, John. Ritm and African Sensibilitiy. Chicago: University of Chicago Press, 1979. DIAS, Paulo. “A outra festa negra.” In: JANCSÓ, István; KANTOR, Iris (orgs.) Festa: cultura e sociabilidade na América Portuguesa. São Paulo: Hucitec/ Edusp/Fapesp/Imprensa Oficial, 2001. GANDRA, Edir. Jongo da Serrinha, da senzala aos palcos. Rio de Janeiro: Giorgio Gráfica e Editora ltda./UNI-RIO, 1985. GOUVÊA, Ana Maria e Silva, Gilberto Augusto . Jongo de Piquete, um novo olhar. São Paulo, 2007 http://www.asseba.com.br/arquivos/downloads/Dossie_Iphan.pdf http://www.culturajaponesa.com.br/htm/taiko.html Acesso em: 04 mai de 2011. http://www2.si.umich.edu/chico/instrument/pages/tlkdrum_gnrl.html Acesso em: 04 mai de 2011. LARA, Silvia Hunold & Pacheco, Gustavo (orgs.) Memória do jongo: as gravações históricas de Stanley J. Stein. Rio de Janeiro: Folha Seca, 2007. LARA, Silvia. Mulheres negras e identidades africanas. Disponível em: http:// www.desafio.ufba.br/gt3-006.html. Acesso em: 04 mai 2011... LOCKE, David. Damba Drum: Talking Drum Lessons. Crown Point, Ind: Media White Cliffs, 1990. NKETIA, JH Kwabena. Drumming in Akan Communities of Ghana Edimburgo: Thomas Nelson, 1963. 104


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T ambores no B rasi l contempor テ「 neo texto SALLOMA SALOMテグ | foto GUMA

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Alfaia

A Alfaia é um tipo de tambor grave de nome originalmente árabe. No Brasil tem sido bastante utilizada nos grupos de Maracatus, popularizados muito além de Pernambuco. Os ancestrais da alfaia chegaram ao Brasil por duas rotas simultâneas: portuguesa e africana, e ambas têm como partida o norte da África. Os passos das Alfaias pelo mundo podem ter seguidos primeiro pela rota da expansão islâmica, depois da expansão ibérica e, por fim, na diáspora negra, portanto é difícil precisar sua origem.

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Atabaque

Ao que tudo indica originou-se da palavra Atabale. Tal termo foi utilizado em textos portugueses do século XIII para se referir a um tambor de guerra, cujo formato e materiais não sabemos. Com frequência, no Brasil, essa palavra surge na documentação histórica do século XIX para identificar diferentes tipos de tambores, porém, os tambores recolhidos por delegados de polícia como parte da repressão às Casas de Santo e religiosidade afro-brasileiras nos dão conta de um trio de “tambores de ripa” que compunham as orquestras das tendas, terreiros e casas de culto, desde aquela época. O atabaque é saudado e reverenciado como “ser vivo”, componente importantíssimo de uma casa ou terreiro; podendo ser tocado com baquetas flexíveis, agdavis ou com as mãos. Incorporado a jogos acrobáticos, brincadeiras e rodas tornou-se um dos principais tambores urbanos brasileiros, substituindo os Batas iorubas e os Ngomas da África central. 109


Caixa do Divino

Desde o século XVIII, imagens variadas de devoção e festanças de matriz católica, principalmente as festas do Divino Espírito Santo no Brasil e em Portugal mostram um tambor médio carregado à altura da cintura, tocado predominantemente por homens. Contudo, tambores similares são vistos em mãos femininas em imagens de Carlos Julião do final do século XVIII e também atualmente entre as Caixeiras do Maranhão. Desde o sul até o norte do Brasil, em diferentes tempos e musicalidades está presente, quase sempre percutidos com duas baquetas. Em documentos portugueses aparece como “bombo”. No século XII, na Península Ibérica, eram denominados atambores.

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Caixa de Esteira ou Caixa de Guerra

Tambor de duas faces e esteira. Associa-se sua origem aos batalhões militares. Na região mediterrânea surge em entalhes de madeira, esculturas em pedra e imagens em terracota, desde a baixa idade média europeia. Usado para dar precisão rítmica aos grupamentos de soldados, ele ajudava a vencer o cansaço em marchas de longos trajetos. Uma pintura de autor desconhecido, provavelmente datada do século XVII e depositada na igreja de Santa Maria da Alcova na cidade de Elvas, em Portugal, mostra uma dupla em trajes palacianos: nela, um jovem negro empunha a Caixa e flauta ao lado de um músico branco tocando uma viola de arco. Desde final do século XIX, aparece definitivamente nas musicalidades urbanas e populares.

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Djembe

É um dos instrumentos musicais africanos mais difundidos entre percussionistas no cenário contemporâneo mundial. Seu corpo em forma de cálice pode ser percutido com as mãos, para obter sons agudos na borda e, graves no centro. Originário do Oeste da África, difundiu-se com a diáspora recente para muito além do continente africano. É grafado e designado com pequenas variações como: Djimbe, Jembe, Jenbe, Yembe e Sanbanyi. É difícil datar seu aparecimento na costa ocidental africana, mas sua incidência maior é na região sobretudo do Mali, Costa do Marfim, Burkina Faso, Senegal, Guiné, Guiné Bissau - isso o coloca na área de expansão de cultura musical islâmica no antigo Sudão Ocidental.

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Dunun

Trio de tambores cilíndricos originários da região Oeste da África. Também chamados Dun dun, Djun djun e Dundun. Em algumas situações surge acompanhado de uma campânula de metal similar a um sino: Kenken. Cada um dos três Dununs tem um ritmo específico, o maior dos três é o Dundumba, designado também de Doon-doom-bah, Doudounba ou Dununba (a voz mais grave). O Sangban e Song-bahn, sangba, sanba é o tambor de tamanho médio. O menor e mais agudo é chamado Kenkeni e ainda Ken-ee-ken ou Sangbani.

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Caixas de Congo, Congado ou Congada

Os contatos entre africanos da parte centro-ocidental (tronco etnolinguístico Bantu) com outros povos, levou-os à incorporação de tambores de duas membranas de origem ibérica. Contudo, tais tambores de guerra haviam sido introduzidos na europa ocidental pelos norte-africanos islamizados e no terrritório que fazia parte do “império das duas margens” ou Império Almorávida. As Caixas de Congo inscrevem-se nos roteiros de intercâmbios de culturas musicais do grande eixo Oriente-Médio/África/Europa/América.

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Bombo ou Bumbo

A música-dança negra urbana desenvolvida em São Paulo, identificada como Samba de Pirapora e Samba de Bumbo preservou o uso de tambores de cortejos (Congos). O Bombo ou Bumbo é uma espécie de tambor de guerra de sons graves desenvolvidos remotamente na África e presentes ainda hoje em musicalidades desde o sul da Etiópia até o norte da Nigéria, assim como em toda Europa, mas principalemente em Portugal e Espanha. Designados de atalaias, bombos e alfaias, provavelmente atravessaram o Mediterrâneo para serem incorporados à cultura musical ibérica e depois foram largamente difundidos no Brasil (por escravizados pretos), mediante influência direta portuguesa. Documentos portugueses medievais citam bombos africanos como sendo pesados tambores confeccionados em madeira e couro de hipopótamo, e utilizados para marcar a marcha dos soldados mouros.

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Tambores Escoceses

Tambores militares de timbres graves e membranas duplas, denominados Lambeg, foram disseminados no meio militar, no norte do Reino Unido, certamente por volta do século XVI, sob a dinastia Orange. Somente por volta do século XII da era cristã encontramos registros dos tambores de duas membranas (pele) na Inglaterra, Irlanda e Escócia. Até então, os instrumentos de percussão tiveram um papel irrelevante na música europeia. As cruzadas colocaram os soldados e religiosos da Europa em contatos com o variado repertório de cultura musical dos povos islamizados. Também são chamados tambores da Caledônia, uma antiga denominação romana dada à região ao norte da Bretanha.

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Tambor tipo Ngomas

Na prática música-dança-negra do Maranhão conhecida como Tambor de crioula, os tambores cilíndricos de uma membrana (pele) são testemunhos materiais da presença cultural Angola-Congo na região ao norte do Brasil. A utilização desses tambores em trio revela a riqueza musical e complexidade rítmica, na qual cada músico toca diferentes desenhos (polirritmos), mas o papel de “solista” é, em geral, exercido por aquele instrumento de timbre mais grave. Relacionada à devoção a São Bendito, o Tambor de Crioula é a dança-punga encontrada no Maranhão. Consiste em uma performance de dança na qual os participantes se batem na altura do umbigo, depois de fazer evoluções dentro da roda. A música cantada é acompanhada por palmas e três tambores originalmente feitos de madeira oca (hoje podem ser industrializados). O tambor maior, chamado de tambor grande é o solista. Há dois outros tambores: o segundo chamado de meião ou sucador, que estabelece o ritmo básico de 6/8 e o terceiro crivador ou pererengue que realiza improvisos em 6/8. 117


Bata

As técnicas de construção e execução do Bata foram introduzidas por africanos, daomeanos e principalmente iorubanos no Brasil, durante o tráfico negreiro. Temos vários documentos que atestam sua utilização, sobretudo na Bahia no século XIX; além disso, os escritos de Manuel Querino (etnólogo baiano, pioneiro no estudo de cultura africana no Brasil) falam deles com ênfase. Seu uso ainda é preservado na África do Oeste, como também em Cuba. O formato de cálice e membrana dupla o diferencia de inúmeros outros tambores africanos de uma só pele, recriados na diáspora e preservados, sobretudo, nas práticas religiosas.

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T ambores PA R T E 2

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Ilú

Ilú originalmente designa agrupamento ou concentração urbana, equivalente à cidade. Há no Brasil referências recentes (do século XX) de tambores de duas membranas utilizados por populações de origem africana entre os estados da Bahia e do Maranhão. Entre percussionistas eminentemente urbanos passou a identificar um tambor grave, feito de couro e madeira de ripa (tonéis de bebida).

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Pandeirão

Tem também um largo espectro de uso no Mediterrâneo com diferentes denominações, é derivado dos Aduf disseminados por árabes na África oriental, a partir da Eritréia; e na África do norte, a partir do Egito. No Brasil, no início do século XX, era denominado Adofe, denotando sua possível origem: no limite entre a Mombaça e Moçambique. Fixou-se na cultura Afro-maranhense e foi difundido no final do século XX por todo país.

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Pandeiro

No passado, usavam-se guizos em lugar de circunferências de metal. O pandeiro (na Inglaterra, tamborine; na Espanha, pandero) é um dos mais antigos tambores que se tem notícia. No oriente pré-islâmico era largamente difundido. Versões similares aparecem em uma geografia alargada: desde a península arábica até a Sibéria, e desde a África até a Islândia. É provável que tenha diferentes origens, ou que populações variadas em locais distintos e distantes tenham encontrado soluções sonoras similares. O resultado é um tambor leve e simples, que oferece inúmeras possibilidades sonoras. É tocado de várias maneiras a depender da região e cultura. Os egípcios o utilizavam em situações de luto e os israelitas em festas, tornou-se popular na idade média na Europa utilizado por músicos ambulantes. No Brasil entrou definitivamente no repertório musical urbano por meio do Samba de Roda e Chula, do Choro e Partido Alto, dos Congos e Moçambiques, da roda Capoeira e Batucadas, dentro do carnaval e em tudo que é musicalidade, com presença de descendentes de africanos. 122


Tambor Onça

Seus ancestrais africanos são as Mpuítas, utilizadas principalmente entre os Mwilas de Angola como elemento ritual de acesso aos defuntos. No Brasil, é conhecido por cuíca, é um tambor de fricção que tem uma vara de madeira com uma das extremidades fixada no centro da membrana, a mão molhada serve para friccionar a haste enquanto a outra faz pressão na pele. É muito usada pelos Mbundu, Ovimbundu, Côkwe, Khumbi, Kwanyama, Ambundu, Kioko e Mussukos. Há, contudo tambores de fricção também na tradição musical de Portugal, sobretudo na região de Miranda do Douro, feitos de argila com haste externa e são chamados de Sarroncas. Contestando argumentos “africanizantes” de Fernando Ortiz, o pesquisador português Ernesto Veiga localiza registro de Sarronca na Espanha no século XV.

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Tambor Falante

A singularidade dos Dundun ou Arubatá ainda provoca discussão entre os especialistas. O tambor tem formato de ampulheta, madeira entalhada interna e externamente sobre a qual são fixadas, com cordas finas, duas peles bem flexíveis nas extremidades. Chamado também de djembê de axila nas regiões de língua francesa, é comum a diversos grupos étnicos da África ocidental, inclusive Malinke, Haussá, Fon, Ewe e Ioruba. O músico deve tocá-lo sob a axila utilizando a ponta dos dedos e uma baqueta em forma de gancho, ao mesmo tempo que cria tensão ao apertar ou soltar as cordas de fixação do couro. Esse movimento de apertar/afrouxar define a altura dos tons do mais grave quando em repouso, até o mais agudo quanto mais tensas ficam as cordas. Nos anos 60/70 foi introduzido no Brasil por músicos percussionistas afro-brasileiros que participaram dos Festivais de Artes e Culturas Negras no Senegal e Nigéria. 124


Tambores do Jongo

O jongo reúne uma complexidade de práticas culturais de matrizes africanas no sudeste, nas quais a religiosidade é ressaltada em danças, ritmos e cânticos. Referências documentais e tradição oral conectam os jongueiros velhos aos Tchimbandas ou Quimbadas e Ngangas, responsáveis pela manutenção das práticas de cura e ritualísticas oriundas da África central (Congo, Angola). O Jongo tem aspectos de segredo e iniciação, o canto e os tambores que o acompanham fazem parte dessa mística. Os tambores Caxambu e Candongoeiro são sacralizados e alguns duram até quatro gerações em uso na mesma comunidade, confeccionados escavando e entalhando madeira maciça. Similares ao tambor Ngoma tinham forma de cálice, mas a ausência de matéria-prima gerou adaptações como o reaproveitamento de madeira de tonéis de bebida e o aparecimento dos mais variados tamanhos e formatos.

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Tambores Árabes

Da esquerda para a direita: o tambor de madeira Tabla e o tambor maior de metal Dhaga formam juntos as Tablas indianas. O tambor deitado da direita é da tradição da Pérsia Antiga e chama-se Zarb, ele é parente do Darabouk ou do Derbake turco/egípcio. O pequeno pandeiro da frente chama-se Kanjira, é tradicional da região de Karnataka-Índia do Sul, e é tocado também com os dedos em múltiplas combinações rítmicas, sendo afinado “desafinando” a pele (de iguana ou cobra) com uma pequena porção de água, para deixá-la frouxa. É considerado um dos mais complexos tambores que cantam no Oriente, junto com solfejos rítmicos tradicionais. O grande tambor que aparece no fundo da foto é tradicional do Rajastão, possuindo também variantes no Afeganistão, Azerbaijão e em diversos países do Magreb, sob o nome de Thar ou Bhendir.

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Taiko-Tambor japonês

Feito em diferentes tamanhos e diâmetros que alcançam 1,5 metros, usava-se madeira maciça escavada e couro animal, substituídas por ripas e membrana sintética. Sua utilização ocorre em festivais e cerimônias religiosas. No ocidente, tornou-se um verdadeiro símbolo da cultura musical japonesa. Originalmente tem ligação com as comunidades rurais, seu timbre grave e de duração longa servia como medida das distâncias entre as aldeias. É percutido com a mão ou com uma baqueta, exigindo do músico algum condicionamento físico para obter precisão rítmica e volume sonoro. Segundo pesquisadores, foram localizados bonecos de terracota do século V que portavam tambores parecidos. Gravuras do começo do século XII mostram os Taikos – tipo Chodaikô e o Tandôdaiko, cujos corpos são mais achatados. Há aproximadamente 1.500 anos esses tambores estão na cultura musical japonesa, como os documentos visuais e arqueológicos comprovam. 127


Zabumba

Tambor gravíssimo cujos ancestrais remetem tanto à África ocidental quanto à península Ibérica e assemelha-se ao Zé Pereira português, da família dos Bombos, tal como é chamado na formação de orquestra. Possui duas peles e é afinado por cordas em formato de Y. Possui semelhanças com tambores Haussás, Iorubas e outros. No Brasil é conhecido também como Bumbo. É tocado por baquetas e exige grande força física e sincronia para transporte, marcha e execução. No passado era confeccionado em madeira e pele animal.

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Fontes bibliográficas: CARNEIRO, Edison. Samba de umbigada. In: Folguedos Tradicionais. Rio de Janeiro: Funarte/INF, 1982 [1961]. CHERNOFF, John. African Rhythm and African Sensibilitiy: Aesthetics and Social Action in African Musical Idioms. Ritm and African Sensibilitiy. Chicago: University of Chicago Press, 1979. DIAS, Paulo. A outra festa negra. In: JANCSÓ, István; KANTOR, Iris (orgs.) Festa: cultura e sociabilidade na América Portuguesa. São Paulo: Hucitec/ Edusp/Fapesp/Imprensa Oficial, 2001. GANDRA, Edir. Jongo da Serrinha, da senzala aos palcos. Rio de Janeiro: Giorgio Gráfica e Editora ltda/UNI-RIO, 1985. GOUVÊA, Ana Maria; SILVA, Gilberto Augusto . Jongo de Piquete, um novo olhar. São Paulo, 2007 http://www.asseba.com.br/arquivos/downloads/Dossie_Iphan.pdf http://www.culturajaponesa.com.br/htm/taiko.html Acesso em: 04 mai de 2011. http://www2.si.umich.edu/chico/instrument/pages/tlkdrum_gnrl.html Acesso em: 04 mai de 2011. LARA, Silvia Hunold; PACHECO, Gustavo (orgs.) Memória do jongo: as gravações históricas de Stanley J. Stein. Rio de Janeiro: Folha Seca, 2007. LARA, Silvia. Mulheres negras e identidades africanas. Disponível em: http:// www.desafio.ufba.br/gt3-006.html Acesso em: 04 mai 2011. LOCKE, David. Drum Damba: Talking Drum Lessons. Crown Point, Ind: White Cliffs Media, 1990.

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XXXXXXXXXXXXXXXXXX | Noite dos Tambores 2015 | foto: Guma


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O UMOJA

O

grupo surgiu em 2007, a maioria dos integrantes que estão hoje já se conheciam de outros trabalhos artísticos na zona sul. Quando nos juntamos para pensar um nome, apareceu em nossas mãos o livro “Os Sete Novelos” sobre a celebração do Kwanzaa. Umoja é um dos sete princípios, no dialeto africano swahili e significa unidade, união. O termo umoja foi escolhido por fazer referência às nossas origens africanas e por expressar exatamente o que buscamos enquanto grupo artístico e cidadãos de um país, que por seus caminhos históricos sempre exaltou a democracia racial, por um lado; e por outro, sempre negou a cultura negra como herdeira do circuito Atlântico entre África e Brasil. A partir dessa união de artistas com formações e referências diversas: autodidatas, pesquisadores acadêmicos, artistas em processo de formação, ritmistas, percussionistas, cozinheira, educadores, entre outros, que partilham da mesma identidade e experiências fundadas em nosso pertencimento étnico-racial e social, expressamos em nossa arte a estética por uma afirmação do ser negro no mundo, a partir de nossa vivência local. Instalamos-nos na sede provisória da ONG Bloco do Beco, lá fizemos nossos primeiros ensaios: do teatro ao samba de roda, às danças e os ritmos afros, saíamos pelas ruas, becos e vielas do Jardim Ibirapuera, mundão a fora tocando tambor e dançando. Daqueles que por cá estiveram e passaram por nossa roda: Carlos de Xângo, Alexandre Buda, Thais Priscila, Aline, Mônica Santos, Andréia Ténorio, Carlos Gomes, Alisson da Paz, Jair Guilherme, Kauan Guilherme, Caio Guilherme, Gunnar, Luciana Bira, Rogério Pixote, Timbó. Dos que ficaram e chegaram: Alânia Cerqueira, Rabi, Priscila Obaci, Flávia Rosa, Alan Bernardino, Elessandre Sales, Débora Marçal, Rose Eloy, Lisandra Borges, Cau Andrade, Carol. Todos e todas são parte da memória que constrói o Umoja.

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GRADECIMENTO 136

Agô! por EULLER ALVES

E

ste processo de sistematização do nosso caminhar, ao longo destes cinco anos de projeto, é fruto de importantes parcerias, parceiros e parceiras que durante este periodo colocaram parte dos seus àsés em sintonia fina com a ressonância mágica do rufar dos nossos tambores. O primeiro aporte foi dado pelo Sesc Santo Amaro, ainda fruto da ligação que o projeto “Santo Amaro em Rede” foi capaz de proporcionar, e mais recentemente a unidade de Campo Limpo trouxe reforço na ligação, seguimos ainda contando com este parceiro e a sensibilidade dos profissionais que atuam nessas unidades. Caminhando junto ao timbre dos tambores, a Secretaria Municipal de Cultura por meio do Núleo de Cidadania Cultural apoiou não só com recursos, mas também deu reforço à nossa credibilidade. Ao povo que lá trabalha e que por lá passou, um singular respeito pelo cuidado e carinho com que se dedicam às ações multiculturais desta cidade e respeitam a produção cultural das periferias de São Paulo. Seguindo na ação de tocar: a Ação Educativa tem batido forte em nossos tambores desde o começo, ressoando nas páginas da Agenda da Periferia - um principal espaço de divulgação da produção cultural periférica paulista – e nos portais de comunicação. As baquetas empunhadas pela Ação em sua longa trajetória de articulação e mobilização sócioeducativa mantém nosso ritmo em compasso de longevidade.


Reverberando a re-Existência com a lua ou com a chuva, com o frio e com o calor, nossas noites são acolhidas na Casa Popular de Cultura do M’boi Mirim, quilombo histórico que exerce papel importante nas ações de luta e conquistas político-culturais da zona sul de São Paulo. No pá-ti-cum-bum, no ritmo e compassando lado-a-lado, a Associação Bloco do Beco tem sido o nosso centro de apoio como representação jurídica para a mobilização dos recursos, ponto de organização para as demandas de produção e ponto de referência estratégica para nós e vários outros projetos da zona sul. No esticar do couro, o Proac editais em 2014/15 pôs lenha para afinar nossa parêa, o que propiciou concretizar essa sistemaização, apreço a equipe que nos atendeu neste período. O tambor nos leva a agradecer as pessoas que são por nós… vocês sabem quem, tal como, agradecer às instituições e os coletivos que estiveram e estão conosco. No batucar destes agradecimentos está a equipe Umoja, o “Rum” deste desejo de pensar, sentir e fazer nossas ideias repercutir mundo afora.

Que Xangô seja por nós e pelos que nos querem bem. Axé!

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FICHA TÉCNICA

– Umoja coordenação geral – Euller Alves produção – Equipe Umoja produção executiva– Alânia Cerqueira projeto gráfico – Rodrigo Kenan fotografia - Leonardo Galina [Guma] assessoria editorial - Maitê Freitas revisão - Patrícia Vaz pesquisa - Prof°. Dr°. Salloma Salomão JOVINO DA SILVA realização

elaboração do projeto Noite dos Tambores representação jurídica equipe Umoja

– Diane Padial

– Bloco do Beco

- Alânia Cerqueira, Allan Bernadino, Débora Marçal,

Elessandre Sales, Euller Alves, Flávia Rosa, Lisandra Borges, Priscila Obaci, Rabi e Rose Eloy. colaboram nesta edição: Viviam Queiroz, Gaspar [Z’África Brasil], Leonardo Galina [Guma], Rogério Pixote, Erry-G, Luiz Poeira e Antonio Eleilson Leite.

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Noite dos Tambores  
Noite dos Tambores  

Do Fazer ao Sentir

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