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ESPECIAL

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ESTADO DE MINAS DOMINGO, 16 DE JULHO DE 2017

MOVIMENTOS ALEXANDRE GUZANSHE/EM/D.A PRESS

O QUE TIRA A CIDADE DO LUGAR O Estado de Minas apresenta a partir de hoje o especial BH 120, série multimídia de reportagens em homenagem ao aniversário da capital mineira. São 120 anos de transformações comemorados em 12 de dezembro. Há histórias e desafios comuns de uma grande metrópole. Há também aqueles somente de Belo Horizonte. Com conteúdo exclusivo produzido ao longo de um ano por mais de 100 profissionais – entre jornalistas, fotógrafos, infografistas, ilustradores, diagramadores e motoristas –, o material foi dividido em 12 temas e será publicado quinzenalmente no Em.com.br e na edição impressa do EM. Nos próximos seis meses, faremos um passeio pelo passado, presente e futuro da capital das Gerais, cidade em agitação, polo de serviços, trabalho, eventos. E sonhos. Estreamos com Movimentos – que remete inicialmente à fundação da cidade, resultado de uma articulação pela transferência da capital de Minas Gerais, até então Ouro Preto, frente a uma nova República e a descentralização federal. O local escolhido foi Belo Horizonte, batizado de Cidade de Minas. O ponto de partida é “Um passeio de bicicleta em busca de histórias que tiram Belo Horizonte do lugar”. Durante o percurso, o leitor estará diante do ressurgimento dos movimentos sociais, políticos e culturais da capital, como o carnaval de rua e o Praia da Estação. Conhecerá a realidade da Ocupação Dandara – uma das maiores da América Latina – e outras manifestações que têm como foco a inclusão. São todos moradores de um mesmo espaço que desejam se firmar e afirmar como cidadãos. Também vai acompanhar a força empreendedora que transporta a metrópole para o futuro, com a gastronomia em circulação e seus food trucks, e o desenvolvimento da tecnologia, que dá a BH a fama de “capital da inovação”. Sim, da inovação, da transformação de uma cidade em constante movimento.

NESTE PRIMEIRO ESPECIAL, CONHEÇA HISTÓRIAS DE QUEM FAZ BH MUDAR DE RUMO


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ESTADO DE MINAS DOMINGO, 16 DE JULHO DE 2017

ALEXANDRE GUZANSHE/EM/D.A PRESS

A gestora cultural Morgana Rissinger aderiu à bike como meio de transporte e fez do veículo instrumento de mobilização: “Espero respeito de quem ocupa as ruas e que elas sejam cada vez mais ocupadas”

A CIDADE DE MINAS

TUDO COMEÇOU COM UMA MUDANÇA: INTERESSES POLÍTICOS FIZERAM NASCER A CAPITAL, MARCADA PELO VAIVÉM DE PESSOAS, NUMTRÂNSITO SUFOCADO,A CAMINHO DOTRABALHO ESTUDO, DIVERSÃO,AFIRMAÇÃO Belo Horizonte nasceu de um movimento. Grupos ligados à cafeicultura da Zona da Mata e do Sul contra os interesses da região mineradora do estado – que passava por um processo de estagnação e decadência econômica – levantaram a bandeira da criação de uma nova capital para as Minas Gerais. A constatação de que Ouro Preto, a antiga sede do governo, não tinha estrutura para uma expansão urbana modificou o mapa político e traçou novas perspectivas. Cinco cidades mineiras foram sugeridas para abrigar a nova capital, mas coube ao presidente Afonso Pena a tarefa de escolher, em 1893, o local para onde seria deslocado o polo de poder político e econômico. No ano seguinte, sob a batuta do chefe da Comissão de Construção da Nova Capital, Aarão Reis, o município começou a ganhar corpo, de forma totalmente planejada, a partir da Praça da Estação. Fundado em 1897, foi batizado de Cidade de Minas. Em 1901, virou Belo Horizonte. Hoje, é BH, a sexta capital mais populosa do país, aponta o censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). São 2,5 milhões de pessoas que vivem, trabalham, estudam, transitam, tiram a metrópole do lugar. Do dicionário vem a definição de movimento: “substantivo masculino que pode se referir ao ato ou efeito de mover (-se) e/ou ao conjunto de ações de um grupo de pessoas mobilizadas por um mesmo fim”. Do aniversário de 120 anos da capital mineira, a inspiração para resgatar a memória de Belo Horizonte e visitar as manifestações sociais, culturais e econômicas que modificam a cidade no tempo e no espaço. Afinal, o que move BH? “A cidade é construída pelas pessoas, pelos cidadãos que passam pelas ruas, que trabalham e estudam, que formam grupos literários, de teatro, de pesquisa, de universitários, de associação de moradores. É aí que se faz a discussão da cidade, que se tem a democracia”, diz o historiador Yuri Mello Mesquita, diretor do Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte. São essas organizações, segundo ele, que formam a identidade da capital: “BH é viva por meio desses agentes sociais. Essas participações são importantes para a cidade ser definida como tal”. E como as pessoas se movimentam? A Empresa de Transportes e Trânsito de Belo Horizonte (BHTrans) calcula que cerca de 2 milhões de pessoas e 92 mil veículos passam todos os dias pelo coração da capital, entre os quarteirões da Praça Sete, no Centro. Pelas ruas e avenidas circulam 2.951 ônibus, atendendo 1,5 milhão de usuários diariamente. Uma linha de metrô, velho desafio, transporta 220 mil passageiros. Conforme o IBGE, há uma frota de 1,69 milhão de veículos, incluindo automóveis, caminhões, ônibus e motos, espalhada pela cidade.

FROTA DEVEÍCULOS

ISABELLA SOUTO, LARISSA RICCI E RENATA NEVES

ATÉ ELE SE MOVEU

FOTOS: ARQUIVO EM

O Pirulito da Praça Sete foi projetado no início da década de 1920 pelo arquiteto Antonio Rego. A ideia partiu do então presidente do estado, Raul Soares, em comemoração ao centenário da independência do Brasil. A pedra fundamental foi lançada em 7 de setembro de 1922, e a obra foi inaugurada dois anos depois. Mas o obelisco de 13,57m de altura nem sempre ficou por lá. Por ordem do prefeito Aminthas de Barros (1959 a 1963), foi retirado da Praça Sete em 1962 e transferido para onde está o Museu Histórico Abílio Barreto (MhAB), na Região Centro-Sul de BH. No ano seguinte, foi transferido para a Praça Diogo de Vasconcelos (acima), na Savassi. Diante de uma mobilização popular, em 1980 voltou para seu local de origem (E). A pesquisa Origem e Destino, da Agência de Desenvolvimento da Região Metropolitana de BH, constatou que a participação do transporte individual no número total de viagens passou de 18,2% em 2001 para 30,7% em 2012. Na direção oposta, a contribuição do transporte coletivo foi reduzida de 44,2% (2001) para 31,4% (2012). Nesse vaivém, 87,4 quilômetros de ciclovias e ciclofaixas cruzam a metrópole. O Plano Diretor de Mobilidade Urbana de Belo Horizonte (PlanMob-BH) identificou cerca de 400 quilômetros de rotas cicláveis (ciclovias e/ou ciclofaixas), mas as menos de 25% que foram implantadas já têm trechos comprometidos, como piso deteriorado. “A bike é meu meio de locomoção. Não tenho carro e não quero ter”, afirma a gestora cultural Morgana Rissinger, de 36 anos. O que seria apenas meio de transporte, hoje é um instrumento de mobilização para a integrante do coletivo Biciminas, que incentiva mulheres a pedalar juntas na cidade. “Espero mais respeito entre todos que estão ocupando as ruas e que elas sejam cada vez mais ocupadas por todos”, diz a ativista.

‘‘BH ÉVIVA POR MEIO DOS AGENTES SOCIAIS. AS PARTICIPAÇÕES SÃO IMPORTANTES PARA A CIDADE SER DEFINIDA COMOTAL’’ ● YURI

MELLO MESQUITA

Diretor do Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte

PASSEIO PELA CAPITAL Foi sob o olhar de uma ciclista que o EM se colocou em movimento pela capital. Em meio ao trânsito e às limitações de quem cruza a cidade de bicicleta, visitou representantes de grupos sociais, culturais e de empreendedorismo. Conheceu Ângela Fagundes Pinto, de 58, e Orlando Soares, de 60, líderes comunitários de uma das

maiores ocupações da América Latina, a Dandara. “A união das pessoas com o mesmo interesse muda o nosso destino”, diz a dona de casa Ângela. São 2 mil famílias vivendo na área localizada na região da Pampulha. Começou com 150, na madrugada de 9 de abril de 2009, quando integrantes de movimentos sociais ocuparam terreno no Bairro Céu Azul. O espaço de 40 hectares estava abandonado desde a década de 1970. “O terreno não cumpre função social. Direito a moradia todos têm. Quem tem dinheiro compra, quem não tem luta e vence”, diz Ângela. Depois de Dandara, outras ocupações vieram, como Nelson Mandela, Eliana Silva, Irmã Dorothy – todas no Barreiro –, Rosa Leão, Esperança e Vitória – essas três no Isidoro, na Região Norte. “Dandara foi a mãe das ocupações, é um espelho para os outros movimentos”, comenta o aposentado Orlando, de 60. Ele se orgulha da mobilização: está em tramitação na Câmara Municipal projeto de lei para que o local seja classificado como Área Especial de Interesse Social, com garantia de toda a infraestrutura necessária para os moradores.

87,4km PERCURSO DISPONÍVEL ATUALMENTE PARA CICLISTAS

2005 626.577 2015 1.173.626

2005 81.353 2015 209.963

2005 6.272 2015 8.769

2005 24.009 2015 35.689


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VOZES DAS RUAS (e a música, as cores…)

ESPAÇOS PÚBLICOS SE CONSAGRAM COMO PONTO DE ENCONTRO DE MANIFESTAÇÕES CULTURAIS E SOCIAIS. CARNAVAL, HIP-HOP E REPRESENTANTES DAS BANDEIRAS FEMINISTA, AFRO E LGBT TRANSFORMAM A CIDADE FOTOS: ALEXANDRE GUZANSHE/EM/D.A PRESS

ISABELLA SOUTO E LARISSA RICCI

CARNAVAL

2009 4 blocos 2017 350 blocos

PRAIA DA ESTAÇÃO

2010

50 PESSOAS

2017

5 MIL PESSOAS

UM BEIJO DE PROTESTO Com o lema Famílias e direitos: nossa existência é singular, nossa resistência é plural, a Parada do Orgulho LGBT reuniu 60 mil pessoas em BH no ano passado. Hoje, o movimento volta às ruas. SegundoThiago Costa, diretor do Centro de Luta pela Livre Orientação Sexual de Minas Gerais, o número cresce proporcionalmente ao debate sobre a importância do reconhecimento à diversidade e à luta pela liberdade de gênero e sexual.“É um momento para reforçar que não precisamos sentir vergonha de nada. É para se sentir completo e, a partir de atos pequenos, como um beijo, se manifestar”, afirma.

O mesmo local onde Belo Horizonte começou a nascer foi palco, 113 anos depois, de dois movimentos que tiraram do limbo a força dos grupos sociais na capital mineira. Foi na Praça da Estação, em janeiro de 2010, que alguns moradores se reuniram, em trajes de banho, para a primeira edição do Praia da Estação, evento que entrou para o calendário informal da cidade. E foi lá também que o carnaval ressurgiu, tornando-se talvez a principal festa da cidade e, por que não dizer, uma das maiores do país. “Não é à toa que o palco dessa história recente da cultura e movimentos sociais de Belo Horizonte seja a Praça da Estação. Ela é um lugar de cruzamento de muitas histórias. Uma delas é a das ausências na cidade. Do que esta cidade sentia falta? Do carnaval e do mar. E lá essas duas ausências foram simbolicamente preenchidas”, comenta o historiador e músico Guto Borges, um dos principais responsáveis pelo movimento de resgate da festa de rua na cidade. Curiosamente, essas manifestações culturais surgiram a partir de uma resposta a decreto assinado pelo então prefeito Marcio Lacerda (PSB), que proibia eventos “de qualquer natureza” no local, com a justificativa de “garantir a segurança pública”. A reação foi uma “praia” na cidade rodeada pelas montanhas. Naquele ano, um protesto foi marcado no local para 7 de janeiro, quando todos deveriam ir com roupas brancas. Cerca de 50 pessoas apareceram por lá e deliberaram a necessidade de um movimento não partidário e a favor de uma cultura local e gratuita. Daí a ideia de encontros aos sábados para a realização de piqueniques, bebidas, roupas de banho, toalhas, chapéus e instrumentos musicais – uma verdadeira praia dentro da cidade. Jatos d’água e muita música levam o participante à sensação de realmente estar em um litoral. A edição de janeiro deste ano reuniu mais de 5 mil pessoas para uma combinação da praia com ensaios dos blocos carnavalescos. “Uma praça é feita para isso, para brincadeiras, integração. Os primeiros atos foram reprimidos, a gente chegava e tinha caminhões da tropa de choque. Belo Horizonte se tornou uma cidade que não só proibia como combatia o uso livre do espaço público”, recorda Guto Borges. “A partir dessa fissura, começamos a ter uma relação que disseminou em vários significados para a cidade”, explica. O carnaval deu os primeiros passos em 2009 com os blocos Tico Tico Serra Copo e Peixoto, e ganhou mais força no ano seguinte com o Bloco da Praia. Na avaliação de Guto Borges, o desejo de uma reformulação da cidade fez com que a folia crescesse a cada ano, com a adesão cada vez maior das pessoas e do uso dos espaços públicos. O que representa ainda uma reação a uma herança dos anos 1970, que priorizou os espaços privados, e dos anos 1990, com a ideia dos shopping centers e condomínios fechados. Talvez por isso, os movimentos ligados ao carnaval se depararam com obstáculos impostos pela administração municipal para a realização da festa popular. “Quando começa a ideia de afirmação do espaço público, torna-se uma questão incontornável. Por isso o espaço público é tão importante em uma cidade que tenta cercear todo tipo de convivência em um espaço comum”, sentencia. O diretor do Arquivo Público da Cidade de Minas Gerais, o historiador Yuri Mello Mesquita, defende a participação. “É preciso abrir espaços para manifestações culturais. É preciso que se dê valor às cenas espontâneas, valorizar o que é criado pelas comunidades. Nós temos cultura demais, artistas que ocupam a cena urbana. A cidade é feita de pessoas, não é um horizonte só de prédios”, diz.

Historiador Guto Borges liderou o renascimento do carnaval a partir da Praça da Estação, que supriu carências dos moradores

Douglas Din e MC Clara Lima fazem rima debaixo do Viaduto Santa Tereza. Ele viu o local mudar com a chegada das ‘minas’ do hip-hop

SONS, MULHER E NEGRO O desejo de afirmação fez renascer arte e cultura em outro cartão-postal da cidade, o Viaduto Santa Tereza. Mestres da literatura, como Carlos Drummond de Andrade e Fernando Sabino, ali fizeram história. Hoje, é para debaixo dos arcos dessa icônica construção que milhares de pessoas são arrastadas para reocupar as ruas do chamado Baixo Centro. Desde agosto de 2007, o lugar é palco do Duelo de MCs, que revelou artistas do hip-hop considerados referência no Brasil. Por trás dos encontros semanais está o coletivo Família de Rua. Douglas Nascimento da Silva, o Douglas Din, de 26 anos, saiu de lá. Descobriu a cultura hip-hop quando passou a escutar a Rádio Favela e hoje é um dos detentores

do título de campeão do Duelo de MCs Nacional. Começou a participar há 10 anos, na terceira edição, e lembra como o movimento mudou o fluxo de pessoas embaixo do viaduto. “Os duelos aconteciam no muro do Miguilim. Como os guardas tentavam impedir o encontro, nós mudamos de lugar. Um dia choveu muito e fomos para debaixo do viaduto. Era um local abandonado e obscuro. Fazíamos o duelo com uma luz no rosto de quem estava batalhando”, lembra Din. A partir daí “o pessoal passou a ficar sabendo e foi vindo pra cá. A parada foi acontecendo”. As batalhas ocorriam e as mulheres foram aderindo aos encontros. Ana Clara Silva de Lima, mais conhecida como MC Clara Lima, de 17, estreou há três anos. “Eu já assistia ao duelo pela internet há muito tempo, mas não vinha porque era muito nova. Um

dia, resolvi arriscar. Hoje tem ‘mina’ de todo Brasil rimando”, diz Clara. As ‘minas’ estão em todos os lugares: na rima, nas ruas, onde quiserem. O movimento feminista ganha força e se faz presente por meio de coletivos e grupos de apoio como As Minas do Carnaval de Belô, com a bandeira das denúncias de violência e assédio, e Pretas em Movimento, formado por negras e negros em busca da ocupação dos espaços para a construção de políticas públicas. Esse último se associa a rodas de debates, protestos e festas que estimulam a conscientização do racismo na sociedade. De novo, o carnaval se mostra como instrumento de mobilização: o bloco afro Angola Janga atrai milhares de foliões que cantam e clamam pela igualdade e o fim do preconceito.

2 milhões NÚMERO DE PESSOAS QUE CIRCULAM PELOS QUARTEIRÕES DA PRAÇA SETE TODO DIA


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ESTADO DE MINAS DOMINGO, 16 DE JULHO DE 2017

FOTOS: ALEXANDRE GUZANSHE/EM/D.A PRESS

Encontro semanal de food trucks, às quartas-feiras, no Bairro Castelo, na Pampulha, leva moradores às ruas, que se transformam em ‘praça de alimentação’. No dia seguinte, vão para o Cidade Nova, na Região Nordeste

PARA ONDE VAMOS

IDEIAS INOVADORAS QUE PROJETAM BELO HORIZONTE PARA O FUTURO REFORÇAM O POTENCIAL DAS AÇÕES COLETIVASTAMBÉM EM ESPAÇOS PRIVADOS. DO LADO DE FORA, FACILITAR A MOBILIDADE É O GRANDE DESAFIO LARISSA RICCI HENRIQUE FARIA

(Especial para o EM)

A praça ou viaduto que é palco de manifestações culturais e sociais também reúne gente que busca comida e diversão. Chega atraída pela variedade de opções oferecidas pelos food trucks, movimento que se espalhou pelas ruas de Belo Horizonte. Alternativa ao desemprego, fonte de renda extra ou sonho, costuma ter dia e hora marcados para acontecer. Felipe Corrêa, da associação de food trucks, conta que o movimento ganhou força em 2013 e hoje são pelo menos 120 carrinhos de alimentos e bebidas na capital. Dedicado ao preparo e venda de hambúrgueres artesanais, o ex-cozinheiro de restaurante diz que esse é o futuro. “A gente não precisa esperar o cliente. Nós vamos até ele.” A mesma força empreendedora move jovens imersos no mundo da tecnologia. No ano passado, foi criada na cidade a associação de games (GAMinG), na esteira do sucesso do chamado San Pedro Valley, uma das maiores comunidades do país formada por empresas de base digital, as startups. São mais de 200 cadastradas. O reconhecimento da vocação da cidade em inovação vem nada menos do que de gigantes do setor. A Google fincou na cidade seu único centro de engenharia da América Latina, com mais de 130 funcionários e quatro andares no Boulevard Tower, no Santa Efigênia, na Região Leste. A Microsoft, do visionário Bill Gates, também tem escritório aqui. No Bairro São Gabriel, Nordeste da capital, está o MIC’S, o Centro de Inovação Microsoft, que atua em parceria com instituições de ensino superior e empresas do segmento de tecnologia. “Belo Horizonte se destaca hoje em função do próprio ecossistema que foi criado aqui dentro. É um mercado maduro, um mercado que vale atenção, para alavancar BH em relação não só ao Brasil, mas ao mundo”, diz João Guilherme Paiva, presidente da Associação Mineira de Desenvolvedores de Games.

MAIS GENTE, MENOS CARROS E é no futuro que mira quem pensa a cidade. O diretor do Arquivo Público de Belo Horizonte, historiador Yuri Mello Mesquita, destaca a necessidade da busca de soluções que garantam conforto aos moradores e seus ideais. “BH teve participações populares importantes

em sua história e espero para o futuro ter uma cidade com caráter social mais forte, com mais gente nas ruas ocupando o espaço público. Mas que os espaços sejam ocupados por pessoas, e não por carros individuais”, observa. O caminho, segundo o arquiteto e urbanista Sergio Myssior, da Myr Projetos Sustentáveis e titular do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Minas Gerais, passa pelo planejamento de toda a Grande BH. Ele destaca o Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado da Região Metropolitana de Belo Horizonte (PDDI RMBH), elaborado pelo governo estadual, com a participação de universidades e da população. Com foco na acessibilidade, sustentabilidade, seguridade e urbanidade, tem a ambição de reduzir as disparidades sociais. “A proposta é a criação de novas centralidades metropolitanas, incrementando a autonomia e reduzindo a dependência em relação a BH”. Sob esse aspecto, a questão da mobilidade apresenta-se como grande desafio. “O cenário futuro é exatamente o presente agravado pelo crescimento de vítimas de trânsito, conflitos no transporte de carga e passageiros, aumento de engarrafamento e tempo de deslocamento, e, consequentemente, perda acentuada de qualidade de vida e competitividade da região metropolitana”, sentencia o ex-diretor-geral da Agência de Desenvolvimento da RMBH e pesquisador da Fundação João Pinheiro José Osvaldo Lasmar. A saída, aponta, é um sistema de transporte público totalmente integrado que permita à população se deslocar para qualquer parte. “Aí, teremos, certamente, o contrário dessa realidade que tanto nos ameaça: uma capital mais sustentável, em todos os sentidos e dimensões que a sustentabilidade urbana implica.” Aqui, voltamos aos ciclistas. Além da ciclovia, ativistas batalham pela associação da bicicleta ao metrô e ônibus. Mas os horários são reduzidos e apenas equipamentos dobráveis têm autorização para entrar nos veículos, mesmo assim em alguns casos. De segunda a sexta-feira, por exemplo, o embarque com bicicletas só é permitido à noite, depois das 20h30. A gestora cultural Morgana Rissinger, do coletivo Biciminas, espera poder sair de casa, no Sion, na Zona Sul, para o trabalho, no Carlos Prates, na Região Oeste, pedalando numa faixa exclusiva ou intercalando o trajeto no ônibus, com a bicicleta a tiracolo. “O bike ativismo é um movimento forte e que influencia na vida da cidade. Se pudesse influenciar ainda mais, seria muito bom”, diz.

CONFIRA NO EM.COM.BR Movimentos, a primeira das 12 partes da série de reportagens multimídias BH120, leva às plataformas digitais conteúdo exclusivo de vídeos, entrevistas, fotos e infografias. No site Em.com.br/BH120 você poderá conferir ainda as datas dos próximos temas do especial, que vai ao ar quinzenalmente.

REPORTAGENS: Henrique Faria Isabella Souto Larissa Ricci Renata Neves FOTOS: Alexandre Guzanshe Arquivo EM EDIÇÃO DETEXTOS: Rafael Alves Renata Neves PROJETO GRÁFICO: Julio Moreira ARTES: Janey Costa, Quinho e Paulo Miranda MULTIMÍDIA: Coordenação: Fred Bottrel, Rafael Alves e Renan Damasceno DIRETOR DE REDAÇÃO: Carlos Marcelo Carvalho

João Guilherme Paiva, da Associação de Games, já enxerga a BH do futuro

87% AUMENTO DA FROTA DE CARROS NOTRÂNSITO DE BH EM 10 ANOS

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Conteúdo impresso do especial BH120 - Movimentos, publicado em 16/7/2017, no Jornal Estado de Minas

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Conteúdo impresso do especial BH120 - Movimentos, publicado em 16/7/2017, no Jornal Estado de Minas

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