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Concurso Nacional de Leitura 2013/2014 Poemas selecionados 2ª FASE [Fase Distrital: Viseu] Ensino Secundário Os Atacadores

A noiva já de noiva, a noiva já na igreja e tu não encontras os atacadores! Já viste na caixa dos sobejos, na mão dos bocejos? Já viste na gaveta da cómoda? Já viste nas pregas da imaginação? Ganha os campos, foge, precede-te a ti mesmo como um homem legalmente espavorido por anos de critério, sê repentino como um menino! Convém-te não encontrar os atacadores? Há noivas que esperam até murcharem as flores, noivas de pé, muito brancas e já a fazer beicinho... Procura... Procura sempre, pobrezinho!... Procura mas não encontres os atacadores... como um menino! Convém-te não encontrar os atacadores? Há noivas que esperam até murcharem as flores, noivas de pé, muito brancas e já a fazer beicinho... Procura... Procura sempre, pobrezinho!... Procura mas não encontres os atacadores...

Alexandre O'Neill

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Impressão Digital Os meus olhos são uns olhos. E é com esses olhos uns Que eu vejo no mundo escolhos Onde outros com outros olhos, Não veem escolhos nenhuns. Quem diz escolhos diz flores. De tudo o mesmo se diz. Onde uns veem luto e dores Uns outros descobrem cores Do mais formoso matiz. Nas ruas ou nas estradas Onde passa tanta gente, Uns veem pedras pisadas, Mas outros, gnomos e fadas Num halo resplandecente. Inútil seguir vizinhos, Querer ser depois ou ser antes. Cada um é seus caminhos. Onde Sancho vê moinhos D. Quixote vê gigantes. Vê moinhos? São moinhos. Vê gigantes? São gigantes.

António Gedeão

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Rosa Vermelha Trago uma rosa vermelha aberta dentro do peito e já não sei se é comigo se é contigo que me deito. A minha rosa vermelha mais parece uma romã pois quando aberta de noite não se fecha de manhã. Trago uma rosa vermelha na minha boca encarnada quem me dera ser abelha de tua boca fechada. Trago uma rosa vermelha não preciso de mais nada. Pus uma rosa vermelha na fogueira do teu rosto mereço ser condenada por crime de Fogo posto. Trago uma rosa vermelha que é minha condenação condenada a vida Inteira à fogueira da paixão Tenho uma rosa vermelha atrevida e perfumada é uma rosa vaidosa a minha rosa encarnada. Trago uma rosa vermelha não preciso de mais nada. José Carlos Ary dos Santos

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Abaixo el-rei Sebastião É preciso enterrar el-rei Sebastião é preciso dizer a toda a gente que o Desejado já não pode vir. É preciso quebrar na ideia e na canção a guitarra fantástica e doente que alguém trouxe de Alcácer Quibir. Eu digo que está morto. Deixai em paz el-rei Sebastião deixai-o no desastre e na loucura. Sem precisarmos de sair o porto temos aqui à mão a terra da aventura. Vós que trazeis por dentro de cada gesto uma cansada humilhação deixai falar na vossa voz a voz do vento cantai em tom de grito e de protesto matai dentro de vós el-rei Sebastião. Quem vai tocar a rebate os sinos de Portugal? Poeta: é tempo de um punhal por dentro da canção. Que é preciso bater em quem nos bate é preciso enterrar el-rei Sebastião. Manuel Alegre

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O Portugal Futuro o portugal futuro é um país aonde o puro pássaro é possível e sobre o leito negro do asfalto da estrada as profundas crianças desenharão a giz esse peixe da infância que vem na enxurrada e me parece que se chama sável Mas desenhem elas o que desenharem é essa a forma do meu país e chamem elas o que lhe chamarem portugal será e lá serei feliz Poderá ser pequeno como este ter a oeste o mar e a espanha a leste tudo nele será novo desde os ramos à raiz À sombra dos plátanos as crianças dançarão e na avenida que houver à beira-mar pode o tempo mudar será verão Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz mas isso era o passado e podia ser duro edificar sobre ele o Portugal futuro Ruy Belo

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3º ciclo

Cão Cão passageiro, cão estrito Cão rasteiro cor de luva amarela, Apara-lápis, fraldiqueiro, Cão liquefeito, cão estafado Cão de gravata pendente, Cão de orelhas engomadas, de remexido rabo ausente, Cão ululante, cão coruscante, Cão magro, tétrico, maldito, a desfazer-se num ganido, a refazer-se num latido, cão disparado: cão aqui, cão ali, e sempre cão. Cão marrado, preso a um fio de cheiro, cão a esburgar o osso essencial do dia a dia, cão estouvado de alegria, cão formal de poesia, cão-soneto de ão-ão bem martelado, cão moído de pancada e condoído do dono, cão: esfera do sono, cão de pura invenção, cão pré-fabricado, cão espelho, cão cinzeiro, cão botija, cão de olhos que afligem, cão problema… Sai depressa, ó cão, deste poema!

Alexandre O’Neill

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Os gatos Gosto do gato do gato gosto que é animal irracional de fino gosto. Tem tanto trato tanta finura que mata o rato com requintes de ternura. Gosto do gato do gato gosto que é animal irracional de fino gosto. Lembro que um dia na sacada do meu prédio havia um gato matulão com malapata amava ele com paixão mas sem remédio arisca gata porque aristocrata. Fazia versos de sardinha prateada ramos de espinhas com cheirinho a maresia e a gata persa com esmeraldas na mirada nunca ligava ao carapau nem à poesia. Gato vadio animal da minha vida gato com cio confessando-se ao luar gato telhado esfomeado e sem guarida e a gata persa que só come caviar. Gatos de rua eriçados de verdade lambendo os restos que há no fundo do desgosto gato Cesário dos poemas da cidade com olhos verdes que é a cor de que eu mais gosto.

José Carlos Ary dos Santos

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A Fada das Crianças

Do seu longínquo reino cor-de-rosa, Voando pela noite silenciosa, A fada das crianças, vem, luzindo. Papoulas a coroam, e, cobrindo Seu corpo todo, a tornam misteriosa.

À criança que dorme chega leve, E, pondo-lhe na fronte a mão de neve, Os seus cabelos de ouro acaricia — E sonhos lindos, como ninguém teve, A sentir a criança principia.

E todos os brinquedos se transformam Em coisas vivas, e um cortejo formam: Cavalos e soldados e bonecas, Ursos e pretos, que vêm, vão e tornam, E palhaços que tocam em rabecas…

E há figuras pequenas e engraçadas Que brincam e dão saltos e passadas… Mas vem o dia, e, leve e graciosa, Pé ante pé, volta a melhor das fadas Ao seu longínquo reino cor-de-rosa.

Fernando Pessoa

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Bicicleta de Recados Na minha bicicleta de recados eu vou pelos caminhos. Pedalo nas palavras atravesso as cidades bato às portas das casas e vêm homens espantados ouvir o meu recado ouvir minha canção. Na minha bicicleta de recados eu vou pelos caminhos. Vem gente para a rua a ver a novidade como se fosse a chegada do João que foi à Índia e era o moço mais galante que havia nas redondezas. Eu não sou o João que foi à Índia mas trago todos os soldados que partiram e as cartas que não escreveram e as saudades que tiveram na minha bicicleta de recadossando a madrugada dos poemas. Desde o Minho ao Algarve eu vou pelos caminhos. E vêm homens perguntar se houve milagre perguntam pela chuva que já tarda perguntam pelos filhos que foram à guerra perguntam pelo sol perguntam pela vida e vêm homens espantados às janelas ouvir o meu recado ouvir minha canção. Porque eu trago notícias de todos os filhos eu trago a chuva e o sol e a promessa dos trigos e um cesto carregado de vindima eu trago a vida na minha bicicleta de recados atravessando a madrugada dos poemas.

Manuel Alegre

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Menina Gorda Esta menina gorda, gorda, gorda Tem um pequenino coração sentimental. Seu rosto é redondo, redondo, redondo; Toda ela é redonda, redonda, redonda, E os olhinhos estão lá no fundo a brilhar.

É menina e moça. Terá quinze anos? Umas velhas amigas de sua mamãe Dizem sempre que a encontram, num êxtase longo: “Como esta menina está gorda, bonita!” “Como esta menina está gorda, bonita!” E ela ri de prazer. Seu rosto redondo Esconde os olhinhos no fundo, a brilhar.

Às vezes no quarto, Diante do espelho, Ao ver-se tão gorda, tão gorda, tão gorda, Ela pensa nas velhas amigas de sua mamãe E também num rapaz Que a olha sorrindo, Quando toda manhã ela vai para a escola: “- Ele gosta de mim… Ele gosta de mim. Eu sou gorda, bonita… E os dedos gordinhos pegando nas tranças Têm carícias ingénuas Diante do espelho.

Rui Ribeiro Couto

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Poemas selecionados para a prova oral  

CNL - Poemas Selecionados

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