Esquinas ­ nº 48 ­ Arte

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REVISTA-LABORATÓRIO DO CURSO DE JORNALISMO DA FACULDADE CÁSPER LÍBERO #48 – 2º SEMESTRE DE 2010

ARTE aqui e agora Conheça a nova geração de artistas e os movimentos que estão animando a vida cultural brasileira



EDITORIAL Revista-laboratório do curso de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero

Fundação Cásper Líbero Presidente Paulo Camarda Superintendente Geral Sérgio Felipe dos Santos Faculdade Cásper Líbero Diretora Tereza Cristina Vitali Vice-Diretor Welington Andrade Coordenador de Jornalismo Carlos Costa Professor responsável Heitor Ferraz Mello Monitoria Editora Fernanda Patrocínio Assistentes editoriais Lidia Zuin e Thiago Tanji Editor de Arte e Fotografia Danilo Braga Assistentes de Arte e Fotografia Henrique Koller e Petrus Lee Diagramação Danilo Braga, Renan Goulart e Henrique Koller Revisão Aline Magalhães, Ayana Trad, Lídia Zuin, Luana Fagundes e Thiago Tanji Participaram desta edição

Adriano Garrett, Aline Khouri, Amanda Nogueira, Amanda Secco, Ana Julia Castilho, Ana Luísa Vieira, Ana Luiza Pandolfi, Ananda Cseiman, André Oliveira, André Silva, Andressa Basilio, Andressa Carrara, Anna Beatriz Pouza, Bárbara Vanderlei, Bianca Paulino Chaer, Bruno Abreu, Bruno Guerrero, Bruno Podolski, Caio Hornstein, Camila Luz, Caroline Rezende, Caroline Teixeira, Danylo Martins, Débora Centoamore, Débora Pinho, Estevan Muniz, Felipe Cordeiro, Fernanda Gonçalves, Fernanda Lopes, Fernando Antonialli, Fernando Gonzalez, Fernando Menezes, Flávia Sartori, Francini Vergari, Gabriela Nunes, Gabriela Sá Pessoa, Giovana Nunes, Giulia Afiune, Giulia Lanzuolo, Gustavo Gusmão, Gustavo Nárlir, Helder Ferreira, Helena Dutt-Ross, Helena Tarozzo Lima, Ione Aguiar, Ivan Oliveira, Izabela Raphael, Jaqueline Gutierres, Jessica Fiorelli, Júlia Caldeira, Juliana Dias, Juliana Koch, Juliana Periscinotto, Juliana Ruiz, Lais Peterlini, Laura Hauser, Lays Ushirobira, Letícia Valente, Lia Gurjão, Lídia Rogatto, Lidyanne Aquino, Liliana Barretto, Louise Solla, Luan Freitas, Luana Fagundes, Lucas Menegale, Lucas Paulino, Luiza Giovancarli, Luma Pereira, Maíra Roman, Maria Zelada, Mariana Ferrari, Mariana Matheus Rizzatto, Marília Diniz, Marília Leoni, Marina Maranhão, Marina Pellorca, Mayara Moraes, Melissa Panteliou, Michelle Rodrigues, Miguel Amado, Natali Coelho, Natália Alves, Nathalia Garcia, Nathália Henrique, Patrícia Homsi, Patricia Rodrigues, Paula Teresa Miranda, Paulo Pacheco, Raphael Rezende, Renata Barranco, Renata Lucchesi, Roberto Causo, Rodrigo Tolotti, Stéphanie Concistré, Suellen Fontoura, Tainá Grassi, Tatiane Rosset, Thais Campoy, Thaís Lima, Thais Sawada, Tiago Mota, Victor Bussiki, Virgínia Mesquita, Vivian Costa, Viviane Laubé, Vivyane Garbelini e Yolanda Moretto

apostas

Façam suas HEITOR FERRAZ MELLO

Há uma velha reclamação no mundo das artes: a imprensa especializada em cultura apenas cumpre a agenda de eventos, sem nenhum esforço maior. O noticiário parece se voltar apenas à divulgação do que está entrando em cartaz, sendo lançado etc. Pouco interesse em tentar radiografar e acompanhar de perto, e com alguma paixão, as novas tendências, os grupos de artistas que vão se formando aqui e ali, criando um trabalho cada vez mais forte e mais interessante. O leitor vai tentando formar em sua cabeça um quadro, todo fragmentado, desse momento. A ideia que orientou esse número do Esquinas foi exatamente a de tentar mostrar o que está acontecendo hoje, no Brasil, no campo das artes. Em outras palavras, sintetizar aquilo que vai aparecendo de forma fragmentária na imprensa especializada. O esforço foi grande. Contou com a colaboração de 101 alunos de jornalismo da Cásper Líbero, grande parte do primeiro e do segundo ano do curso. Cada grupo cuidou de uma ou mais pautas, com o mesmo objetivo: revelar a cara da arte brasileira atual. É muito fácil dizer que não há nada de novo no front e simplesmente cruzar os braços. Mas quando se parte movido por um desejo de encontrar as linhas de força de uma época a surpresa não é pequena. É o que podemos ver na matéria principal deste número: nossos repórteres Fernanda Gonçalves, Gabriela Sá Pessoa, Helena Tarozzo Lima, Tiago Mota e Luiza Giovancarli foram cutucar os críticos dos principais jornais e revistas de São Paulo para saber deles quem são os novos artistas nacionais, quem eles destacariam nas suas respectivas áreas. Foi um momento oportuno, pois certamente

muitos dos entrevistados não estavam pensando nisso. Estavam acompanhando de perto, fazendo para si próprios suas escolhas. Mas ainda faltava falar, colocar em circulação o que pensam. Em outras palavras, apostar em novos talentos. Este número da revista também procurou abordar as várias tendências da arte de hoje. Qualquer curioso pode perceber o festival de documentários que vem invadindo as telas dos cinemas. Por que o documentário está na moda? É isto que os repórteres Adriano Garrett, Ana Julia Castilho, Thaís Lima e Viviane Laubé tentaram descobrir na matéria “A arte que imita a vida”. De repente, na música popular, surgiu uma geração de filhos de compositores e cantores. Mais um assunto de grande interesse cultural. O mesmo aconteceu com a 29ª Bienal de Arte, com a polêmica em torno dos urubus da obra “Bandeira Branca”, de Nuno Ramos. E foi assim que as pautas foram nascendo durante as reuniões e conversas com os alunos. Como professor-responsável pela revista, deixei rolar, deixei que as pautas surgissem da própria convivência dos estudantes com a arte de hoje. Enfim, essa é uma revista feita pelos alunos e, creio, deveria refletir os interesses e as paixões deles. Para finalizar, aproveitamos o centenário de nascimento de Adoniran Barbosa para ser o tema do ensaio fotográfico. Uma pequena homenagem ao grande cronista de nossa cidade. Esta edição traz ainda uma novidade: complementos de algumas reportagens e matérias inéditas sobre arte poderão ser lidas no Portal Esquinas [http://bit.ly/esquinas], abrindo um novo espaço de interação da revista com o site da Faculdade Cásper Líbero.

Agradecimentos Daniela Ramos, Cláudio Arantes, Fernando Solano, José Eugênio Menezes, Gilberto Maringoni, Liráucio Girardi Jr. e Fernando Solano Núcleo de Redação Avenida Paulista, 900 — 5º andar 01310-940 — São Paulo — SP Tel.: (11) 3170-5874 E-mail: revistaesquinas@gmail.com www.casperlibero.edu.br Os textos assinados não expressam necessariamente a opinião de ESQUINAS e são de total responsabilidade dos autores

Em exposição na 29ª Bienal de São Paulo, a obra “Adoração – Altar a Roberto Carlos” do grupo Rex, de 1966 , ilustra a capa desta edição de ESQUINAS

GUILHERME BURGOS

Foto de capa: Guilherme Burgos

ESQUINAS 1º SEMESTRE 2010

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SUMÁRIO

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22 06 A NOVA CARA DA ARTE

26 ESTAÇÃO ARTE

14 POLÍTICA E POLÊMICA

28 PARADOXO CULTURAL

16 A RECEITA PARA O (RE)SUCESSO

30 DE VAN GOGH A MIYAMOTO

18 A PEÇA VICIADA

32 MAIS DO QUE MERAS IMAGENS

20 UMA LITERATA HIGH-TECH

34 DESENHANDO PASSOS

22 NUNO RAMOS: PRODUÇÃO HÍBRIDA

44 MÚSICA 2.0

24 QUANDO A RUA VIRA PALCO

46 A VIDA NO PICADEIRO

Críticos importantes de cinco vertentes apontam quais são os artistas em destaque na produção brasileira contemporânea

A 29ª Bienal de São Paulo traz novidades e discussão nas Artes Plásticas

Diante da cultura do revival, artistas apostam na releitura de clássicos

Conheça quais são os trâmites por trás da Lei Rouanet e quem são os beneficiados

Heloisa Buarque de Hollanda pluraliza a cultura, seja na academia, na internet ou na periferia

Em entrevista, o escritor e artista plástico fala sobre a autonomia de sua obra

Espalhados pela capital paulistana, artistas de rua mostram seu trabalho aos passantes

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ESQUINAS 1º SEMESTRE 2010

Veja os projetos culturais que podem ser apreciados nas estações subterrâneas de São Paulo

A arte que vem da periferia e chama a atenção dos grandes centros

Com avanços tecnológicos, os games ultrapassam o entretenimento e podem ser apreciados artisticamente

Os quadrinhos são considerados a nona arte. Conheça um pouco da sua história

Os contornos do mercado brasileiro de animação em meio à concorrência mundial

Na era dos downloads: o novo jeito de fazer e consumir música

As histórias de artistas que vivem pela paixão circense


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50 PALCOS E PALANQUES

Em meio aos acontecimentos políticos, qual é o papel do novo teatro engajado?

52 COMO NOSSOS PAIS

Filhos de cantores famosos falam sobre a escolha de seguir a mesma profissão que os pais

54 TENDÊNCIA E MOVIMENTO

A arte está na moda ou a moda está na arte?

58 BAILA COMIGO

A vida dos diferentes bailarinos que vivem em São Paulo

62 OS NOVOS ERUDITOS

Antes considerada elitista, a música erudita tem incentivado novos artistas brasileiros

62 SEÇÕES 36 ENSAIO 43 ROCK PAULISTANO 48 POINTS 49 INTERNACIONAL 56 CURIOSIDADES 60 NOVO ESPAÇO 61 RESTAURAÇÃO 64 PONTO DE VISTA 65 TIPOGRAFIA 70 ALI NA ESQUINA

66 A BUSCA DA ESSÊNCIA

Quando escritores se aventuram como roteiristas

68 A ARTE QUE IMITA A VIDA

A febre dos documentários tem mudado o gosto do público

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ESPECIAL

Esta obra é uma intervenção de Michel Groisman, sob o título de “MáquIna de colorir” e pode ser conferida na 29ª Bienal de São Paulo

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a nova cara da Conheça quem são destaques da arte brasileira contemporânea em cinco vertentes, segundo diálogo com críticos renomados REPORTAGEM FERNANDA GONÇALVES, GABRIELA SÁ PESSOA, HELENA TAROZZO LIMA, TIAGO MOTA (1º ano de Jornalismo) E LUIZA GIOVANCARLI (2º ano de Jornalismo) IMAGENS HELENA TAROZZO LIMA (1º ano de Jornalismo)

Conta-se que Clarice Lispector tinha duas preocupações quando sabia que algum livro seu fora noticiado: perguntava se a foto publicada estava bonita e se o crítico Antonio Candido já havia se pronunciado. Por intermédio da crítica a arte estabelece diálogo entre artista e apreciador, destacando os devidos valores conceituais e estéticos, além de poder legitimar uma produção. A fim de destacar nomes de artistas e grupos relevantes da arte brasileira contemporânea, importantes críticos fazem suas apostas e indicações. Luiz Merten indica o cinema feito pelo Coletivo Alumbramento. Cuidadosa, Beth Néspoli cita o trabalho de Tó Araújo e seu Teatro da Vertigem. Carlos Calado aposta em André Mehmari, “um compositor que faz música erudita para todo mundo ouvir”. Para as artes plásticas, Rodrigo Naves destaca Ana Paula Oliveira. O mineiro Júlio Castañon e sua “poesia marcada por motivos” ganhou o voto do veterano Manuel da Costa Pinto.

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ESPECIAL: a nova cara da arte

chapéu

CINEMA Divulgação

“O grupo produz e realiza filmes do jeito que dá, ou seja, de vários jeitos”

DESTAQUE

“Eu sempre gostei muito de cinema, mas nunca pensei em escrever”. Assim o crítico Luiz Carlos Merten começa refletindo sobre sua grande paixão. Os primeiros escritos sobre o tema ocorreram quando cursava a faculdade de Arquitetura em Porto Alegre onde havia um mural de livre expressão. “Era tempo da ditadura e usei um filme, um western de Raoul Walsh, e nunca mais parei de escrever”. Merten ingressou no curso de Jornalismo para ter o registro profissional, na época obrigatório. “O gosto por cinema precede o jornalismo, mas nunca quis fazer cinema se não pela via do jornalismo”. Contudo, não se define como crítico: prefere ser um “jornalista de cinema”. Isso porque nunca deixou de fazer reflexões sobre o assunto, apesar do ritmo frenético que um jornal exige. “A urgência, própria do jornalismo, é o que me atrai. Ao mesmo tempo, me permite fazer entrevista e reportagens, visitar sets de filmagem. O que me agrada”. Ele acredita ter uma visão ampla de todo o processo que envolve a construção de um filme. “Não basta pensar sobre o filme, é preciso conhecer as etapas de realização, conversar com o diretor, com o roteirista”. E a opinião a qual chega não é definitiva, assim como não pretende que a sua avaliação seja a única correta. “Não posso exigir que a pessoa que assistiu ao filme comigo, tenha o mesmo pensamento que eu. Há critérios e elementos de teoria, mas não existe uma fórmula”. Merten diz ter o feeling sobre quando precisa rever um filme e deixa isso claro em seu blog (http://blogs.estadao. com.br/luiz-carlos-merten). Como ele mesmo afirma, alguns diretores o agradecem por esta postura. “Eu não me

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prendo a um juízo como se fosse definitivo. Às vezes, dou duas estrelas num filme e depois revejo, e dou três. Ou dou quatro estrelas, revejo e acho que me excedi”. Das relações no ambiente da crítica, ele destaca que “mesmo os diretores que o crítico Merten fala mal, eventualmente, sabem que podem contar com o jornalista Merten para continuar escrevendo matérias sobre eles”. No blog, se sente à vontade para escrever em primeira pessoa relatando experiências, o que no jornal não é possível fazer. “Eu escrevo textos enormes, não publico fotos. Os leitores, às vezes, entram para dizer que gostam, acham legal. Mas dizem que é muito difícil ler um texto enorme sem parágrafo nenhum e eu ainda tenho a cara de pau de dizer ‘olha, sinto muito. Troca de blog’”. Quando questionado acerca das apostas sobre o cinema nacional, Merten é rápido: Marcelo Gomes, diretor de Cinema, Aspirinas e Urubus (2005). “O Marcelo é um cara em quem vou apostar sempre”. No entanto, sugere um novo estilo de cinema contemporâneo: o coletivo. Os coletivos de cineastas em todo país dialogam entre si. O destaque vai para os quatro diretores de Estrada para Ythaca (2010): Guto Parente, Ricardo Pretti, Luiz Pretti e Pedro Diógenes. A película venceu o Festival de Tiradentes, em janeiro, no qual Merten fez parte do júri. Outra aposta é Fabiano de Souza, diretor de A Última Estrada da Praia (2010), que por sua vez dialoga com “Estrada para Ythaca”. O jornalista atenta para a autoralidade e independência do cinema nacional contemporâneo. “A limitação em relação a proposta de grande público são visíveis, mas ao mesmo tempo há a luta contra a invisibilidade”.

Trabalhar como coletivo, por que não? Com 13 integrantes o Coletivo Alumbramento faz parte da nova cena nacional, que tem o cinema como principal produto. “A Alumbramento não trabalha só com cinema. Já montamos exposições e alguns integrantes têm trabalhos exibidos em museus e além de outros objetos artísticos como um flipbook, um livro e uma revista. Mas o cinema é realmente um dos nossos maiores focos de interesse e tem tido boa repercussão em festivais. O cinema já era realizado por todos nós antes da existência do grupo”, diz Ricardo Pretti, um dos integrantes. O Coletivo atua também como produtora e em janeiro desse ano foi premiado na 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes, com o filme Estrada para Ythaca, eleito o melhor filme pelo júri da crítica e pelo júri jovem. Em estilo roadmovie, apresenta a trajetória de quatro amigos rumo a Ythaca – um lugar metafísico considerado o destino da vida. Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diógenes e Ricardo Pretti compuseram o enredo entre bebedeiras e divagações existenciais. O filme seria um exemplo do “novíssimo cinema” nacional, que bebe do Cinema Novo e da Nouvelle Vague. Quanto às influências do Coletivo, comenta-se sobre os brasileiros Karim Aïnouz e Marcelo Gomes, diretores da cena nordestina, que tem o estilo árido em fotografia, cenas e diálogos. “Influência pra gente não é um trabalho. O ato criativo é um estado de emoção onde a intuição é fundamental. Nesse processo, com certeza, o trabalho do Karim e do Marcelo chega até a gente”, comenta Ricardo Pretti. As funções são divididas da seguinte forma: “todos trabalham em todas as áreas da produção, apesar de cada integrante se concentrar mais em áreas de atuação mais específica. Todos já dirigiram pelo menos um curta, mas tem um que é técnico de som profissional, outros atuam na direção de arte e figurino, são montadores, produtores executivos”, explica o diretor. Apesar das dificuldades de se fazer cinema no Brasil, por ser um coletivo, a Alumbramento se torna forte nesse ponto. “O grupo produz e realiza filmes do jeito que dá, ou seja, de vários jeitos. A maior dificuldade é a distribuição desses filmes”. Porém, os resultados estão sendo bons e Ricardo é confiante. “Projetos para o futuro? Sempre”.


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TEATRO

“O teatro é uma arte muito ligada ao presente. Tem a ver com a internet, com as redes”

Helena tarozzo

Perto da Avenida Paulista, principal região financeira do país, o silencioso apartamento contrasta o caos urbano, como uma platéia de teatro. A voz da crítica Beth Néspoli entra em cena. Formada em Artes Cênicas pela Casa das Artes de Laranjeiras (CAL) e em jornalismo pela Faculdade da Cidade, ela diz que sempre teve uma “inquietação de tentar pensar o mundo e as coisas”. Em 1982, quando se matriculou na CAL ela teve contato com importantes nomes do teatro como Yan Michalski – renomado crítico e um dos fundadores da Casa das Artes de Laranjeiras. Apesar de ter descoberto que estava na área certa, Beth era consciente: atuar não era seu forte. “Sempre fui péssima atriz, odiava aulas de interpretação e adorava aulas teóricas. O problema é que eu não encontrei uma escola de teatro que fosse só teórica”. Sua primeira matéria, publicada em setembro de 1995 no Caderno 2 do jornal O Estado de S.Paulo, foi sobre Luiz Fernando Carvalho e sua adaptação de “A farsa da boa preguiça”, de Ariano Suassuna, para a Rede Globo. Beth diz ter “paixão pelo teatro, por ser presencial, vivo e unir todas as outras áreas da arte”. Foi este o motivo pelo qual o jornal a contratou e onde ela ficou até o primeiro semestre deste ano. Nesses quinze anos, muita coisa mudou no teatro brasileiro e pode-se dizer que ela, por meio de sua crítica, foi uma espectadora atenta a essa transformação, cujo cerne é o surgimento do teatro de grupo nos anos 1990. “O teatro está em movimento. Preciso de outras ferramentas para olhá-lo, mas não acho espaço nos jornais para fazer isso”. As companhias que fazem teatro de grupo são formadas por “gente que se reúne não para fazer um espetáculo e ganhar dinheiro, mas para pensar”. São atores, diretores, roteiristas e cenógrafos que se preocupam em compreender as etapas da produção teatral, de maneira colaborativa. “Por exemplo, dirijo o espetáculo ou ilumino, mas o ator pode dar suas sugestões. Esse é o trabalho interno dos grupos. Entre eles, também há a troca, a circulação e territórios comuns de criação”. A jornalista prefere fazer indicações a apostas e destaca o teatro de grupo como um momento especial para o gênero. “É um movimento extremamente rico que pode explodir numa cena bacana”. Dentre os talentos coletivos, ela destaca: o Grupo XIX, Teatro da Vertigem, Folias, Cia. Livre, Os Fofos, Núcleo Bartolomeu, Cia. do Feijão.

DESTAQUE

Antônio Araújo, mais conhecido como Tó Araújo, é introspectivo e direto em suas respostas. Nascido em 1966 no interior de Minas Gerais, conta que desde criança brincava de teatro, mas só foi ter contato com espetáculos profissionais quando veio para São Paulo fazer o terceiro colegial. Em 1992, após terminar a faculdade de Artes Cênicas da ECA-USP, Tó e alguns colegas da época da universidade se juntaram e criaram o Teatro da Vertigem. A intenção era montar um grupo de estudos teóricos e práticos no âmbito teatral e não uma companhia de teatro. Reuniam-se diariamente levantando material de pesquisa, até que surgiu a ideia de montar um espetáculo a partir dos estudos realizados. A primeira encenação foi o texto “Paraíso Perdido”, dramatizado por Sérgio de Carvalho. A utilização de espaços não convencionais para a montagem de espetáculos é uma das marcas do grupo. O ambiente escolhido para encenar a peça foi a Igreja Santa Ifigênia. “Fomos a templos budistas, sinagogas, mesquitas. Nenhuma religião abriu essa possiblidade e, para nossa surpresa, a Igreja Católica foi quem apoiou por meio do Dom Paulo Evaristo Arns”. O grupo também apresentou trabalhos em um hospital, um presídio desativado, um prédio comercial e um barco que navegava pelo rio Tietê. Outra particularidade do Teatro da Vertigem é a criação coletiva. Tó diz que, a cada montagem, convida um dramaturgo novo para trabalhar e todos colaboram na construção do espetáculo. “Cada autor traz uma linha, e isso é muito bom. Não digo que revoluciona, mas é alguém

que chega e que cria uma perturbação positiva dentro do processo de criação”. Ele conta ainda que o público também faz parte do processo. “O ponto de partida é muito interno, a gente quer tratar dos temas que nos incomodam e nisso o público não entra. Mas quando começamos a desenvolver o trabalho, a presença do público passa a ser fundamental. Seja por meio de seminários ou ensaios abertos, as pessoas dão feedback e o trabalho vai se transformando, mesmo após a estreia”. Quando perguntado sobre as maiores influências presentes em seu trabalho, Tó cita Chiquinho Medeiros, Denise Stoklos, Ulysses Cruz e Antunes Filho. “As referências vão mudando com o tempo, outras vão entrando. É difícil mapear”. Apesar de fazer parte de um dos mais importantes grupos teatrais em atividade, sua visão em relação às artes cênicas não se restringe a este modelo. “Por mais que eu acredite no grupo como espaço de criação e investigação, acho que a coisa mais importante do teatro é essa possiblidade múltipla que ele tem de se estruturar e produzir”, teoriza. Em relação ao futuro desse tipo de produção, evita fazer apostas. “Muito difícil saber, pois o teatro é uma arte muito ligada ao presente. Tem a ver com a internet, com as redes. As coisas estão conectadas. As questões conjunturais vão se modificando e isso vai modificando as questões culturais e artísticas”. Sobre o futuro do Teatro da Vertigem, não afirma nada concreto. “Grupo é um organismo vivo, eu torço que continue, mas pode acabar, pessoas novas podem entrar, pessoas podem sair. É da dinâmica da vida”.

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MÚSICA

“Quando o ouvinte diz faltar frescor na MPB atual é porque ele próprio precisa de frescor ao ouví-la” 10

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Divulgação

Há quem diga que viver de música não é fácil. Para Carlos Calado, crítico da área, não foi mesmo. Apaixonado pela arte desde a infância, começou a tocar piano, mas parou depois que um oftalmologista o alertou que prejudicaria sua visão. Carlos só voltou a estudar música depois dos 20 anos. E nem pensava em ser crítico. “Não passava pela minha cabeça ir para o jornalismo”. Sua paixão começou com o saxofone, mas a ganância era ainda maior: queria conhecer o lado histórico da música. O contato e o envolvimento com o jazz, especialidade de Calado, ocorreram quando ele tinha por volta de 17 anos, através do rádio. A partir daí, foi atrás de cursos na Fundação das Artes de São Caetano do Sul, porém, depois de um tempo longe da universidade, sentiu vontade de voltar. Carlos, ao lado de um professor, teve uma ideia inesperada e acabou fazendo seu mestrado sobre jazz e teatro, que virou um livro, O Jazz como espetáculo (Editora Perspectiva, 1990). Enquanto estava na universidade, surgiu o convite para escrever no jornal Folha de S.Paulo. “Sem planejar, me tornei crítico e a própria intensidade do trabalho na redação acabou me engolindo. Eu estava em dúvida se iria encarar a vida profissional como músico, que é barra pesadíssima para sobreviver, especialmente nessa área, porque eu queria tocar jazz”. Calado mantém um blog em que escreve duas vezes por semana. Ele acredita, porém, que a liberdade na internet é relativa. “Você pode criar um site e vender suas músicas através dele, mas o mercado está pulverizado. Há dificuldade de chegar até as pessoas porque a internet não atinge todo mundo”, explica. Para ele, fazer apostas atualmente não é fácil, mas bagagem para isso ele tem. Junto a outros críticos já apontou nomes como Cássia Eller, Fernanda Porto e Zélia Duncan. Mesmo achando difícil arriscar, se sente seguro: “esses caras são uma aposta que eu sei que vou ganhar”. Um deles é André Mehmari, compositor que faz música erudita para todo mundo ouvir. “É um garoto totalmente fora dos padrões, muito talentoso”. Sua outra aposta é Giana Viscardi, cuja formação tem forte ligação com o jazz. “Ela compõe, tem bagagem musical e uma presença de palco que não soa falsa como às vezes ocorre com outras cantoras”, elogia o crítico.

DESTAQUE

O sereno rosto do pianista, compositor, arranjador e multi-instrumentista André Mehmari em nada se assemelha ao caos urbano de São Paulo. Há oito anos ele preferiu morar em um condomínio na Serra da Cantareira, a 45 minutos da capital, onde buscou a tranquilidade para fazer sua arte. Porém, é possível encontrá-lo no paulistano apartamento de sua esposa, onde reside quando o trabalho pede. Lá dentro é preferível o silêncio, tão calmo e introspectivo quanto a personalidade do artista. Na parede da sala há um mural composto por pássaros em galhos formando o que parece ser um mapa de Brasil. Nasceu em Niterói, em 22 de Abril de 1977, e se mudou para Ribeirão Preto, interior de São Paulo, em 1985. A mãe, instrumentista, saía do violão para o acordeom, cantava e no piano “ia de Chopin a Jobim”. Na infância recebeu influências de vários estilos e compositores, incluindo o russo Igor Stravinsky, os mineiros do Clube da Esquina e o americano Duke Ellington. Cercado pela música, aos 8 anos começou a tocar piano, aos 11 iniciou a carreira profissional. Aos 13 tocava e improvisava jazz, com fluência. “Alguns dizem que as crianças se desenvolvem naquilo em que ela possa ser amada. Sendo assim, minha história faz todo sentido”, reflete André. Hoje, aos 33 anos, acumula prêmios. Em 1998, ganhou espaço em âmbito nacional e conquistou a crítica e o público

ao alcançar o primeiro lugar do “Prêmio Visa de MPB Instrumental”. Assim, lançou o primeiro disco, Vencedores do Prêmio Visa de MPB Instrumental 1998, junto com o também premiado contrabaixista Célio Barros. O músico mostrou sua “cara-de-pau”, como define. “Tenho uma característica de inquietude: sempre procuro informações musicais que não são do meu bairro”, explicou André citando como exemplo, ainda neste álbum, o arranjo de Loro, de Eguiberto Gismonte, cujo alguns trechos apresentam citações do Dó menor de Beethoven. Ao longo da carreira gravou 13 CDs e participou de outros projetos. No entanto, Mehmari nunca teve uma “fase pop”. Embora domine a técnica, não se rendeu a instrumentos eletrônicos e gagdgets musicais, tocando com prazer, como ele mesmo afirmou, “um cravo do século XVII”. O encontro da música com André Mehmari é metafísico. “Minha relação substitui a religião, sendo extremamente intensa e profunda em todos os sentidos. A música sempre foi maior que qualquer individualidade e sempre me coloquei em serviço dela. Só idiotas podem se colocar acima da própria música”, afirma. “Quando o ouvinte diz faltar frescor na MPB atual é porque ele próprio precisa de frescor ao ouví-la.” A música de André Mehmari é qualidade no atual cenário musical brasileiro e é este o recado que ele deixa para quem afirma que a MPB está estagnada em moldes e nomes do passado.


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ARTES PLÁSTICAS HELENA TAROZZO

“Se alguém definir o que é arte, acabou a arte”. É o que afirma Rodrigo Naves, crítico de artes plásticas. Diálogo, discussão e pensamento: três atos essenciais para se chegar a uma análise ou possível conclusão desse mistério. Tarefa nada simples: escrever sobre o assunto e conceitos requer estudo, sensibilidade apurada e, principalmente, paixão. O trabalho de um crítico é abstrato e subjetivo – isso, em tempos pós-Duchamp, quando muitos consideram que tudo pode ser arte. Apesar de formado em Jornalismo pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA- USP), sua área de atuação vai além de textos em periódicos. A arte está presente na vida de Rodrigo de diversas formas: além de escrever sobre ela, dá aulas de História da Arte e produz a sua própria literatura. Em 1998, lançou- se como ficcionista com o livro O Filantropo (Cia. Das Letras, 1998). Suas aulas são dadas em um estúdio, localizado perto do Centro Universitário Maria Antônia, um dos pólos culturais da região central de São Paulo. Nota-se, desde a ambientação do lugar, a preocupação com a estética, algo como um ambiente de arte para o seu estudo. “Não há como medir um Picasso como se mede os lados de um triângulo”, compara o crítico. O trabalho requer a discussão incansável. Porém, um dos empecilhos da arte atual, talvez, seja a grande institucionalização da mesma. “Temos cada vez mais instituições, museus e galerias. Às vezes, o peso que essas instituições ganharam acabam se sobrepondo aos próprios artistas. Além de ocorrer uma espécie de hipertrofia do mercado, na qual as discussões em torno do que é arte e a qualidade dessas produções ficam um pouco esvaziadas”. Conforme Rodrigo, o papel das instituições acaba sendo central quando se trata de visibilidade de algum artista. O público está antenado sobre o que acontece, no que está exposto e aceita o que vê como sendo algo importante, muitas vezes sem discussão sobre as obras. Ainda assim, essas instituições, de uma forma ou de outra, acabam atraindo o público. E o que está em exposição é arte com cara de cotidiano. Herdeira de Hélio Oiticica e dos neo-concretos, é a arte das sensações, que não impõe mais limite entre o ambiente e o expectador. “Creio que há um discurso dominate, embora não único, que inclina para a perda de autonomia do trabalho de arte: de aproximação com objetos, dos gêneros como instalações. Há muita diversidade entre os gêneros mais tradicionais como a pintura, gravura e escultura”, aponta o crítico. Seria esse o caso de artistas já consagrados, como Nuno Ramos, Nelson Perez e Paulo Pasta, e de novas caras da arte, como Ana Paula Oliveira.

DESTAQUE

O número 426 da rua Virgílio de Carvalho Pinto, no movimentado bairro de Pinheiros, em São Paulo, a Galeria Virgílio é destinada à produção de jovens artistas contemporâneos que surgiram nos anos 1980. Quem caminha pela região pode não notar a presença deste espaço, mas é ali que a artista plástica Ana Paula Oliveira expõe trabalhos e alimenta o sonho de viver pela profissão. No café da galeria, ela reflete sobre como optou por esse caminho. “Eu acho que foi a arte que preferiu que eu a escolhesse”. Quando criança, Ana Paula era criativa e desejava cursar arquitetura ou engenharia, para poder construir estradas. O pai matriculou-a no curso de Artes Plásticas da Faculdade Belas Artes de São Paulo. Apesar de se preocuparem com o futuro, os pais a incentivaram. “Minha mãe perguntava: ‘Por que você não faz um curso de informática?’ E eu olhava pra ela e pensava: ‘Coitada da minha mãe!’ Mas eles nunca disseram ‘não’”. Com o diploma da faculdade, a artista começou a dar aulas. Convivendo com

alunos na faixa dos oito anos de idade, Ana Paula busca resguardar a ingenuidade que retira delas. “A essência da criança me deixa mais livre”, afirma. Liberdade, para ela, é poder fazer bagunça – no bom sentido, claro. Suas obras nascem de muita experimentação. “O importante é fazer e não ficar pensando no que está sendo feito. A gente começa a captar as imagens e depois aquilo vem à tona. Eu não gosto muito de olhar os outros trabalhos. Tem trabalhos iguais aos outros e a gente tem que tomar cuidado com isso”. Contudo, diz que influências são inevitáveis e vêm principalmente do cinema, da literatura e da filosofia. A parceria de Ana Paula com a arte já dura dez anos, mas o tempo não diminuiu os desafios: viabilizar o trabalho com o dinheiro que possui e mostrá-lo às pessoas. Apesar de adorar dar aulas, a artista plástica acredita que não as daria se não precisasse e pensa um dia trabalhar só com arte. “É difícil, mas sonhar é importante”.

“Eu acho que foi a arte que preferiu que eu a escolhesse” ESQUINAS – 2º SEMESTRE 2010

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ESPECIAL: a nova cara de arte

LITERATURA A rua em que Manuel da Costa Pinto mora parece ter saído de um conto de Cortázar ou de Borges. No meio do bairro do Sumaré, a numeração da rua fora mudada, os números antigos descem e os atuais sobem, deixando desnorteados quem desconhece o caminho. Finalmente, o número 110 é encontrado. O lugar calmo, com passarinhos cantando é ótima localização para a apreciação da Literatura. No escritório há mais espaço para livros do que para as paredes. As estantes vão de canto a canto, do chão ao teto. Torres bibliográficas em cima de uma mesa remetem a uma cidade de letras, com edifícios feitos por palavras: nada mais condizente para o trabalho, de um leitor que indica a tantos outros como desvendar as entrelinhas de grandes autores. Formado em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica (PUC – SP) e mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), Manuel edita “Guia de livros, CDs e DVDs” da Folha de S. Paulo. É autor dos livros Literatura Brasileira Hoje (Publifolha, 2004) e Albert Camus – Um Elogio do Ensaio (Ateliê Editorial,1998). Quando perguntado se, como outros críticos, também escreve sua própria literatura, Manuel diz que não. “Eu sempre gostei muito de literatura. Sempre quis trabalhar com literatura sem ser no âmbito acadêmico. Não gosto de dar aula. Entrei no Jornalismo já pensando em trabalhar com isso”. No último mês de outubro, ele foi nomeado o novo curador da Feira Literária Internacional de Paraty (Flip). Referente à literatura atual, Manuel diz não haver mais a idéia de uma tendência literária – como o Modernismo, Regionalismo ou Concretismo - e mas, a presença de diversos textos inclassificáveis e singulares em relação ao estilo e ao gênero literário. “Esteve vigente, por muitas décadas, a idéia de que o novo no literário viria pela linguagem. E na verdade não é mais pela dissolução da linguagem que se tem o novo. Ele pode estar aí, mas também em eleger uma perspectiva para o texto”, afirma. “No Brasil, o autor mais interessante que surgiu nos últimos anos é o Teixeira Coelho. Seu texto traz algo perturbador e novo. O grande autor hoje é o Bernardo Carvalho, com o conjunto da obra surpreendente e impactante”, aponta. “O livro singular que mais me impressionou nos últimos 15 anos foi o História Natural da Ditadura (Iluminuras, 2006), do Teixeira Coelho. Quanto à poesia, gosto muito dos poetas mais jovens, Julio Castañon Guimarães e Age de Carvalho. Eles, com uma escrita hermética, também conseguem ser originais. A Literatura de hoje conseguiu trazer a dimensão reflexiva sobre o seu tempo”, diz Manuel.

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“De modo menos problemático, me parece que a presença da música talvez esteja oculta em certos níveis da composição dos poemas”

DESTAQUE

Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Ferreira Gullar e tantos outros. Ser poeta no Brasil é trazer consigo esta bagagem de nomes e obras, captar os movimentos e paisagens e tornar-se, enfim, objeto do próprio lirismo. O mineiro Júlio Castañon Guimarães tem consciência disso e faz jus a sua arte colocando em versos todo o requinte da linguagem e a fluidez de quem tem o dom da escrita. Júlio nasceu em Juiz de Fora, interior de Minas Gerais, em 1951. Ainda na adolescência se encantou pela poesia, graças a livros, bibliotecas e bons professores de literatura que teve no colégio. Além de poeta, é doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (URFJ), tradutor, crítico, ensaísta e pesquisador do setor de Filologia da Fundação Casa de Rui Barbosa, na capital carioca, onde mora há mais de trinta anos. Em 1975 publicou Vertentes (edição do autor), o primeiro livro de poesias do total de seis. Sua obra não é marcada por temas, mas por motivos. Passeios, encontros e espaços compõem uma espécie de natureza-morta que o autor pinta nas páginas dos livros. Já em Vertentes surgem poemas com recortes geográficos em referências às cidades de Minas Gerais, como nos poemas “Congonhas e Ouro Preto”. “As cidades históricas mineiras podem funcionar formalmente a partir da tentativa de conhecimento destas, de seus elementos de paisagem, arquitetura, urbanismo: de arte”, aponta o artista. A lírica é o espaço de fusão onde o poeta se torna poesia. É em textos como “Horizonte”, ainda em Vertentes, que Castañon se mescla com seu objeto ainda no primeiro verso: “Eu é um texto”. Inicia-

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se, um jogo de linguagem, aqui sendo a única força poética que evita qualquer fato humano. Um universo abstrato é criado, tenso e ambíguo, características importantes da obra. No entanto, não pense que não há espaço algum para fluxos de consciência nas páginas de Castañon. Poesias como “Respiração e Luto”, do livro Práticas de Extravio (7 Letras, 2003), chegam a ser tão intimistas quanto os filmes do famoso cineasta sueco Ernst Ingmar Bergman. “Não sei se o cinema influencia meu trabalho”, refletiu. “Posso dizer que me interessa bastante”. Puxando o fio da intertextualidade, a música também se faz presente na obra do poeta. Os jazzistas Chet Baker, Thelonious Monk e o clássico Mozart são títulos de poesias. Mais uma vez os sentidos, no caso a audição, se fazem cruciais para a criação. Nas palavras de Júlio, “a música tem grande importância para mim, é algo presente de modo intenso em meu cotidiano. De modo menos problemático, me parece que a presença da música talvez esteja oculta em certos níveis da composição dos poemas – e aí a música pode ser considera como uma espécie de embasamento”. Matéria e paisagem (7 Letras, 1998) é o livro escolhido pelo próprio Júlio Castañon como aquele onde transparecem suas características marcantes, embora seu senso autocrítico não permita dizer que exista um estilo unicamente seu. Duda Machado, Ronald Polito e Tarso de Melo são os poetas com trabalhos que considera de altíssima qualidade e que merecem atenção. Humilde, deveria saber que aquele que merece cada vez mais essa predileção é o próprio Júlio Castañon.

GUILHERME BURGOS

chapéu


Obra ”350 Pontos Rumo ao Infinito”, de Tatiana Trouvé, em exposição na 29ª Bienal de São Paulo ESQUINAS – 2º SEMESTRE 2010

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BIENAL

Manifestantes da ONG Animais da Aldeia protestam contra a obra de Nuno Ramos, no dia 24 de setembro de 2010

polêmica política e

A 29ª Bienal de São Paulo mostra as inquietudes da produção plástica nacional

REPORTAGEM Flávia Sartori, francini vergari, marina pellorca, renata barranco REPÓRTER (1o ano de Jornalismo) e ALINE KHOURI (4º ano de Jornalismo) IMAGEM Flávia Sartori, francini vergari, marina pellorca e renata barranco REPÓRTER (1o ano de Jornalismo)

A 29ª Bienal Internacional de Arte reúne cerca de 160 artistas e mais de 800 obras. Segundo Heitor Martins, presidente da Fundação Bienal, ela é “a terceira instituição do mundo dedicada à formação da arte contemporânea”, logo atrás das exposições de Veneza e Nova York. Angelica Moraes, crítica de arte, se refere ao evento como “uma das poucas referências culturais brasileiras - fora da lastimável visão de samba, mulata e carnaval - realmente conhecidas no exterior. É a maior janela para o mundo que a arte brasileira tem”. Entretanto, mesmo influente, a Bienal já sofreu inúmeras fragilidades, como a polêmica dos pichadores e o acúmulo de dívidas. Quem visitou a mostra de 2008 pode notar que o 2º andar do pavilhão do Ibirapuera estava literalmente vazio. A ideia, projetada pelos antigos curadores Ivo Mesquita e Ana Paula Cohen, era incitar o público a pensar sobre o panorama da arte, questionando o modelo das exposições. Porém, a iniciativa foi mal in-

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terpretada. Apelidada de “Bienal do Vazio”, o evento foi alvo de ataques: no primeiro dia de abertura, 40 pichadores deixaram sua marca no espaço livre em sinal de protesto. Já a 29ª edição vem superando as expectativas. O secretário municipal da Cultura de São Paulo, Carlos Calil, afirmou que “cogitouse que a salvação seria a estatização da Bienal”. Com problemas, investimentos – do governo, do Ministério da Cultura e de parcerias com grandes empresas - aliados à gestão de Heitor Martins, a mostra ganhou fôlego, com expectativa de 1 milhão de visitantes neste ano.

Arte e Política O título dessa edição é “Há sempre um copo de mar para um homem navegar”, verso retirado do poema “Invenção de Orfeu” (1952), de Jorge de Lima. De acordo com o site oficial da Fundação, o “copo de mar” seria a dimensão utópica na qual os artistas navegam e podem, a partir dela, seguir adiante. A frase também ilustra o tema da Bienal: a re-

lação entre arte e política. “Isso recoloca a arte brasileira em um nível que ela já teve na questão da discussão política”, ressalta Calil. O projeto arquitetônico também está intimamente ligado ao tema. Agnaldo Farias, curador da mostra junto com Moacir dos Anjos, afirma que o público é jogado em um “espaço deslaçado, que se compõe à deriva para que as pessoas possam se perder”. A espécie de labirinto simula uma navegação por rotas sinuosas e desperta no visitante a necessidade de fazer escolhas, como no cenário político. No decorrer do percurso reflexivo, há seis “ilhas”, chamadas Terreiros, que proporcionam uma pausa para o espectador “descansar, decantar as ideias e se encontrar”. Além dos refúgios, há o programa de educadores reformulado pela atual curadora do Projeto Educativo, Stela Barbieri. A iniciativa conta com a participação de 500 jovens para auxiliar o público na compreensão das produções artísticas. A obra de maior destaque, certamente, é a


francini vergari

de Nuno Ramos, no centro do pavilhão. “Bandeira Branca” é constituída por três grandes estruturas pretas e três urubus vivos, delimitada por uma rede que preenche o vazio central. A instalação contém caixas acústicas que tocam as canções populares Bandeira Branca, Carcará e Boi da Cara Preta, interpretadas por Arnaldo Antunes, Mariana Aydar e Dona Inah, respectivamente. Em outubro os urubus foram retirados, apesar de receberem o tratamento indicado pelo IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) de São Paulo. Devido às pressões de ambientalistas, da mídia e divergências entre as instituições paulista e do Distrito Federal, o próprio IBAMA decretou a retirada dos bichos. A obra de Ramos foi danificada durante as manifestações e os animais já voltaram ao cativeiro de Sergipe, local onde nasceram. O artista afirma que “‘Bandeira Branca’ não é um trabalho de ecologia” e utilizou os serviços do Parque dos Falcões para montar a obra. “Tratar meu trabalho como crime e a mim como criminoso é fazer o que fazia a direita franquista, ao chamar ‘Guernica’ de quadro comunista”, compara em texto publicado pelo jornal Folha de S.Paulo, no dia 17 de outubro. Outro trabalho é o de Cildo Meireles, que já expôs no renomado museu de arte moderna Tate Modern de Londres. Mantida em segredo pelos organizadores até a abertura, Cildo traz uma instalação inédita ao pavilhão: a obra “Abajur” – localizada na seção do MAC (Museu de Arte Contemporânea) – que, como diz o próprio artista, “é metáfora da beleza, riqueza e do labor. Algo movido a um trabalho humano”. Apesar das influências políticas e sociais, o carioca procura expressar com “Abajur” a arte mais preocupada com a estética do que com o teor político. Há também, no segundo andar do prédio, a série de quadros “Inimigos”, do pernambucano Gil Vicente, em que o autor retrata a si mesmo

matando personalidades como os presidentes Lula, Fernando Henrique Cardoso e George Bush. Desenhos de facas, revólveres e outros instrumentos são usados explicitamente e a obra foi acusada de fazer apologia ao crime, rendendo um pedido feito pela OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) de retirada dos quadros, que não surtiu efeito. O artista discorda das acusações e diz que a série, criada em 2005, “não causou polêmica em nenhum outro país e nem agitou a imprensa dessa forma”. A respeito de artistas contemporâneos, Gil diz que produzem “mais coisas diferentes e palpáveis à realidade, tirando a ‘aura’ que a pintura tinha”. Moacir dos Anjos entende “o contemporâneo como tudo o que já foi feito e nos ajuda a entender o mundo hoje”. Cildo Meireles define tal mentalidade como “história sem fim”: um único livro que está sendo escrito por todos ao mesmo tempo.

Polêmicas Durante a semana de abertura à imprensa (20 a 24/09), duas obras correram o risco de não serem expostas: “Inimigos”, de Gil Vicente e “El Alma Nunca Piensa Sin Imagen” (A Obra Nunca Pensa sem Imagem), do argentino Roberto Jacoby. Mas apenas a segunda, que exibia os candidatos à presidência José Serra e Dilma Rousseff, foi tampada. Sem mesmo ter completado as primeiras horas de exposição ao público, o evento recebeu os ativistas da ONG Animais da Aldeia, que já comentavam na internet sobre os urubus da obra de Nuno Ramos e fizeram uma manifestação para a retirada dos animais. Cartazes e muito barulho acabaram por atrair quem passeava pelo parque para dentro da Bienal. Um dos manifestantes pichou “Liberte os urubu” (sic). Três dias depois, um dos terreiros, que fica do lado de fora, também foi pichado - o “Dito, Não Dito, Interdito”, dos artistas plásticos Kboco e Roberto Loeb. LEIA MAIS NO PORTAL DA REVISTA ESQUINAS

29ª BIENAL DE SÃO PAULO Pavilhão Ciccillo Matarazzo, Parque do Ibirapuera – portão 3 Av. Pedro Álvares Cabral, sem número Horário: De segunda a quarta, das 9h às 19h (entrada até as 18h); de quinta e sexta, das 9h às 22h (entrada até as 21h) e de sábado e domingo, das 9h às 19h (entrada até as 18h) De 25 de setembro até 12 de dezembro Entrada gratuita Telefone: (11) 5576-7600 Site Oficial: http://www.fbsp.org.br/ francini vergari

Pavilhão do Ibirapuera reúne mostra da produção contemporânea das artes plásticas ESQUINAS – 2º SEMESTRE 2010

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REVIVAL

A receita para o

(re)sucesso Em meio às novidades na música e na televisão, alguns artistas se agarram à cultura do revival e apostam no que já deu o que falar REPORTAGEM JULIANA KOCH, JULIANA PERISCINOTTO (2º ano de Jornalismo) e CAROLINE REZENDE (1º ano de Jornalismo)

Escolha uma música, um filme ou uma novela que fez sucesso no passado. Embeba com o que há de novo no cenário musical ou televisivo. Salpique características do artista que está produzindo e sirva à nova geração. Seguindo esta receita, a cultura do revival se mostra uma prática recorrente no mundo artístico que resgata o que estava esquecido na gaveta e o transforma em algo atual e interessante para o gosto cultural em voga. No campo musical, a arte de regravar sofreu mudanças com o decorrer do tempo. Até antes do começo da Bossa Nova, em 1958, as músicas regravadas eram meras reproduções das versões originais e o único aspecto modificado era a voz do intérprete. Nas últimas décadas, no entanto, os artistas que decidem regravar canções consagradas fazem verdadeiras releituras. Para o músico, compositor e professor da Universidade de São Paulo, Luiz Tatit, isso é agregador. Ele acredita que as gravações que se distanciam do original são as que justificam a regravação e mostram a competência de quem está regravando. “O embrião da música – letra e melodia - é o mesmo e rende vestimentas totalmente diferentes”, diz.

INOVADORES Fernanda Takai aproveitou a técnica em seu trabalho solo, com o CD Onde Brilhem os Olhos Seus, lançado em 2007. O CD inteiro é constituído de regravações de músicas cantadas por Nara Leão. Embora esta tenha sido um dos principais nomes da Bossa Nova e suas músicas sejam símbolos de uma geração, Takai não tentou simplesmente reproduzir a obra. “Tinha que ser um trabalho muito particular, pois o nome dela estava no ar o tempo todo. Eu tinha que fincar pé em minha própria identidade como cantora. Não tentei cantar como a Nara, mas, em todas as escolhas, tentei me aproximar do bom gosto, elegância e inteligência dela ao seguir por um caminho ou outro”, explica a vocalista do Pato Fu.

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A ideia original da gravação surgiu do produtor Nelson Motta, que via semelhanças físicas e musicais entre Fernanda e Nara e achou que seria interessante regravar hits de 40 anos atrás, com um estilo mais moderno. As canções ganharam linguagem pop e interpretações bastante inusitadas, como é o caso da música “O Barquinho”, composta por Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli, que Fernanda gravou em japonês, mas é facilmente reconhecida pelos famosos acordes. Assim como Takai homenageou Nara em seu trabalho, a banda Cueio Limão também homenageou Roberto Carlos no ano de comemoração dos 50 anos de carreira do Rei. Fãs declarados do iê-iê-iê, os garotos sul-mato-grossenses lançaram um EP na internet, intitulado God Save the King, com quatro regravações de sucessos da Jovem Guarda. “Foi uma coisa bem despretensiosa, começou com uma brincadeira nos ensaios. Nós vimos que ficou legal e decidimos fazer pra valer”, revela Camilo Bóia, vocalista da banda. Ele ainda explica que a escolha das músicas também foi natural. “Trouxemos várias músicas para o ensaio e as que ficaram mais legais, nós colocamos no EP”. Nessa seleção, as canções românticas ficaram de fora enquanto as mais agitadas, como “Ciúme de você” e “Namoradinha” de um amigo meu, foram escolhidas. Regravadas no estilo hardcore, as músicas de Roberto Carlos ganharam nova cara nas guitarras rápidas e bateria marcante da Cueio Limão e foram muito bem recebidas pelos fãs. Frente ao grande sucesso, a banda gravou um videoclipe da música “Se você pensa”, sucesso de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, de 1968, que está disponível no YouTube. Além do clipe, versões das músicas sem o vocal, no estilo karaokê, foram colocadas no site para pais e filhos se divertirem. “É pra arrastar o sofá e dançar o iê-iê-iê!”, brinca o vocalista. Para os garotos da Cueio Limão, os di-

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IÊ-IÊ-IÊ A banda Cueio Limão faz versões hardcore das músicas de Roberto Carlos


VALE A PENA VER DE NOVO Não é só na música que o fenômeno das regravações é presente. Os remakes de novelas são muito comuns e fazem com que as produções que fizeram sucesso em gerações anteriores também sejam vistas de forma renovada por um público novo. Quando o enredo não é de época, normalmente passa por uma adaptação de roteiro para se adequar ao contexto atual. Um exemplo recente é a novela Paraíso, de Benedito Ruy Barbosa, exibida originalmente em 1982 e regravada em 2009. Adaptada por Edmara e Edilene Barbosa, filhas do autor, foram acrescentados assuntos que antes não faziam parte do contexto da época, como a questão agrária e o comportamento feminino. Já na nova trama de Ti-Ti-Ti, que foi baseada em duas novelas dos anos 80 – Plumas & Paetês e Ti-Ti-Ti –, a autora Maria Adelaide Amaral teve a preocupação de não deixar a novela anacrônica. Para isso, ela fez adaptações simples, trocando a palavra “costureiro”, usada na década de 80, por “estilista”, mais atual. Outras modificações mais significativas refletem até mesmo na estrutura da cidade. Enquanto no roteiro original, de

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reitos autorais e toda a burocracia de se fazer uma regravação não foram problemas. Como o EP foi lançado apenas na internet, no site oficial o quinteto, e o baterista da banda, André Mattera é filho do baterista que tocava com Roberto Carlos, os direitos autorais não foram cobrados. “Foi mais uma homenagem. Não tivemos nenhum tipo de lucro com o EP”, explica Gabriel. Nas palavras de Camilo Bóia, regravar o que já foi sucesso “dá uma reciclada no original e renova o cenário musical”. Partidário dessa ideia, Luiz Tatit ainda explica que “os refrões são as peças-chave das músicas, pois repetem o tema mais forte e fazem com que o público cante junto, provando que a conjunção letra-melodia funcionou como deveria. Na condição de compositor, prefiro que minhas canções sejam regravadas de maneira bem diferente do original, para que haja um verdadeiro motivo para que ela exista”. O motivo encontrado pelos mineiros do Pato Fu no lançamento do seu décimo álbum foi gravá-lo inteiramente com instrumentos inusitados. A inovação do Música de Brinquedo se deu somente na forma como foram gravadas as canções, com instrumentos de brinquedo, caixinhas de música e tudo que fizesse um som de acordo com a proposta do CD. Segundo a banda, o fator emocional foi um incentivo para as regravações, já que as músicas são imediatamente identificadas pelo público. Embora tenha sido gravado com instrumentos geralmente usados pelas crianças, o CD agrada pessoas de diferentes idades. “O público infantil vai comparecer sim, mas não é um espetáculo criado exclusivamente pra ele. É algo bem híbrido, com músicas pop adultas, mas temos o Giramundo no palco e todas as miniaturas e instrumentos pequenos. Acaba atraindo muita gente”, conta Fernanda.

Fernanda Takai faz homenagem a Nara Leão em álbum de regravação, ao seu estilo Cassiano Gabus Mendes, os ateliês ficavam no bairro paulistano dos Jardins e atendiam à alta sociedade, na nova versão um deles fica no Jardim Anália Franco, no Tatuapé, e tem como clientela as emergentes da Zona Leste da cidade. As mudanças nos roteiros originais dos remakes também se dão para que haja um “motivo de existência” para as produções, já que seria mais simples colocar novamente as fitas antigas para rodar. Maria Adelaide Amaral destaca que é necessário existir suspense para que o público se interesse novamente por uma trama que, a princípio, já é conhecida. Para isso, ela diz que “novos personagens implicam em novas tramas e novos suspenses” e que essa é uma boa receita para que os remakes façam tanto ou mais sucesso do que as produções originais. Maria Adelaide afirma ainda que uma das motivações para que ela escrevesse o remake de Ti-Ti-Ti foi resgatar a obra de Cassiano Gabus Mendes. A autora prestou a homenagem em dose dupla, já que as duas novelas que inspiraram o remake são do autor paulistano, que foi quem a levou para a televisão, em 1990, para escreverem “Meu bem, meu mal”. Mais válido do que reproduzir uma música ou uma novela consagrada é reformá-las para que se adéquem ao novo tempo e alcancem o sucesso novamente. Seja por meio do rádio ou da televisão, as regravações chegam ao público emocionando os que vivenciaram a versão original e surpreendendo aqueles que encontram no antigo algo novo, reinventado, revivido.

CÓPIA, INSPIRAÇÃO OU HOMENAGEM? Se revival significa a retomada de algo que foi hit no passado, seja por meio de repetição ou de inspiração para fazer o novo, a cantora Lady Gaga pode ser vista como a personificação desse fenômeno. Acusada de farsa por uns e aclamada como original por muitos, a diva pop expõe no visual e nas canções peculiaridades de famosos de outras épocas e se destaca como uma das figuras mais curiosas do mundo da música. Cyndi Lauper Consideradas à frente de seu tempo, as garotas nada comportadas se tornaram famosas por seus modelitos extravagantes e personalidade forte. David Bowie Ambos com influências do Glam Rock: cílios postiços, paetês, saltos altos, maquiagem e trajes elétricos. Gaga e Bowie se assumiram bissexuais e são considerados taboo-breakers. Freddie Mercury Com performances inusitadas, Gaga e o frontman do Queen têm em comum intensa presença de palco. Além disso, o nome artístico da diva teve origem em uma das músicas do Queen, “Radio Gaga”. Madonna Principal fonte de semelhanças: forte insinuação sexual nos clipes, ricas coreografias com muitos dançarinos, encenações, vídeos bem produzidos e impactantes. ESQUINAS – 2º SEMESTRE 2010

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lei rouanet

a peça

VICIADA Como a Lei Rouanet se transformou na personagem principal das discussões de incentivo à cultura brasileira REPORTAGEM ana luísa vieira, camila luz, lia gurjão, tatiane rosset e vivian costa (1o ano de Jornalismo)

Incentivo cultural: atores contracenam na peça Réquiem que foi aprovada pela lei, mas nunca recebeu os recursos

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Você já reparou em quantos nomes de empresas famosas estão estampados em eventos culturais? É a empresa de cartões de crédito Visa envolvida com shows, a Adidas e a Petrobrás patrocinando a Mostra de Cinema. Isso sem contar as dezenas de festivais que levam o nome de alguma marca no título – Tim Festival, Natura Nós, Hollywood Rock. Há uma trama por trás das leis de incentivo à cultura. O primeiro ato começou com a Lei Sarney, aprovada em 1986, em que empresas engajadas receberiam descontos no imposto de renda. Em 1991, o presidente Fernando Collor e o Secretário da Cultura, Sérgio Paulo Rouanet, elaboraram o segundo ato das leis, vigente até hoje: a Lei Rouanet. A Lei é baseada na tríade: Fundos de Investimentos Cultural e Artístico (Ficarts), Fundo Nacional de Cultura e o mecenato privado. A intenção, segundo Rouanet, é ceder “bolsas, que permitam captação de poupanças privadas no mercado de capitais e, para projetos não auto-sustentáveis, utilizar apoio do mecenato”. Uma das polêmicas da Lei é sobre a avaliação para concessão de patrocínio. “Os projetos seriam avaliados por uma comissão que incluiria o próprio Secretário da Cultura, dois membros da mesma secretaria e representantes de cinco entidades ligadas a ela. Se aprovado, seria homologado por uma comissão composta por cidadãos civis, como artistas e músicos, para que a sociedade pudesse contribuir também”, explica Rouanet. Outra crítica tange a disparidade de distribuição do benefício entre as regiões brasileiras. Em 2009, o sudeste capitalizou 79,11% dos recursos destinados à cultura, seguido de Sul (9,69%), Nordeste (6,01%), Centro-Oeste (3,84%) e Norte (0,45%). Há também questionamentos em relação aos possíveis desvios de verba e a manutenção de um único grupo de financiadores.

AS INVESTIDORAS Entre as ações sociais originadas da iniciativa privada, o incentivo à cultura é o mais tímido, visando apenas 14% do fomento no país. As leis de incentivo fiscal, por sua vez, não têm ajudado a transformar tal realidade. Uma consulta feita pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), em 2006, revelou que somente 2% das empresas privadas se beneficiam destes incentivos para realizarem as ações sociais. Para reavaliar as condições, a Lei passou por mudanças. No 1º Fórum de Investidores Privados em Cultura foi redigida uma carta, na qual foram declaradas convicções e críticas ao projeto. A falta de transparência e o excesso de controle do Ministério da Cultura em relação aos trabalhos aprovados para patrocínio intermediado pela Lei Rouanet foram os temas mais apontados pelos empresários. Entre as mudanças que receberam apoio está a criação do Fundo Nacional de Cultura e a criação de faixas de renúncias fiscais de 60, 70, 80 e 90%, além das faixas originais de 30 e 100%. As medidas são vistas como uma tentativa de diversificar e ampliar a participação das empresas na área.

O OUTRO LADO Mas nem sempre os pedidos de patrocínio são atendidos. “É preciso mudar o contato com as empresas”, afirma Dinah Feldman. A atriz e produtora da peça “Réquiem” conta que a produção do espetáculo teve os projetos de montagem e circulação aprovados pela Lei. Contudo, a captação de recursos não aconteceu. “É preciso ter a possibilidade de apresentar o projeto para a pessoa certa, para empresa certa e na hora certa”, enfatiza a artista que culpa o precário diálogo entre empresas patrocinadoras e produções culturais. Na tentativa de preencher esta lacuna foi criado o captador de recursos, categoria responsável pela mobilização de recursos para os projetos. A Lei prevê 5% do arrecadado para o captador, mas há quem cobre comissões extras sobre os financiamentos. “Parece que as forças em jogo são de ordem política e financeira, somente. A cultura é um mero pretexto”, assinala Dinah. Ademir Assunção, editor da revista Coyote reforça que as “empresas estão mais preocupadas com o lucro. Uma turnê do Cirque du Soleil, por exemplo, garantiu muito mais retorno de marketing para uma empresa do que uma revista literária”. Em seus oito anos, a Coyote nunca conseguiu captar verba da Lei. Em 2006, a turnê do Cirque du Soleil, em São Paulo, captou 9,4 milhões de reais com a aprovação da Lei. O grupo, porém, não é brasileiro e vendeu os ingressos a preços entre 50 e 370 reais. Ademir aponta “uma lógica perversa”: projetos que precisam de políticas públicas são barrados no momento da captação, enquanto artistas que sobrevivem no mercado obtêm recursos mais facilmente. O intuito da Rouanet é que, em certo momento, o setor privado cederia apoio aos projetos culturais por iniciativa própria. “Como é que se tira gradativamente este subsídio de maneira que a Lei não se torne uma ‘droga’?”, indaga João Gabriel de Lima, escritor e diretor de redação da revista Bravo!. “É preciso fazer com que a Lei não vicie o produtor cultural e próprio mercado”. Em seu primeiro número, em 1997, a Bravo! foi publicada apenas com incentivo captado pela Lei. Hoje, apesar de estar incorporada à editora Abril, parte de seu orçamento ainda vem da Rouanet. “O valor é muito menor do que era no tempo em que a revista começou, porém é um valor mínimo entre a revista existir e não existir”. Com relação à captação de recursos, o escritor ainda tem dúvidas. “Um projeto que não precisa de verba, não deveria ter apoio da Lei a fundo perdido. Poderia ter uma linha de crédito que tornasse o governo seu parceiro, de forma que o dinheiro retornasse ao fundo para ajudar quem precisasse”. No Brasil ainda não há o momento exato de tirar a “droga” do “viciado”. O cenário ideal será aquele em que a vinculação da imagem de investidores culturais for valorizada espontaneamente. “Neste momento, tenho dúvida sobre o futuro da cultura se a Lei for retirada completamente”, afirma o editor da Bravo!.

“Parece que as forças em jogo são de ordem política e financeira, somente” Dinah Feldman, atriz e produtora

Saiba quanto cada uma das cinco maiores empresas patrocinadoras de cultura no Brasil já investiram. Petróleo Brasileiro S.A. Petrobrás R$137.677.604,17 Companhia Vale do Rio Doce R$28.250.151,30 Banco do Brasil S.A. R$24.833.250,29 Banco Bradesco S.A. R$19.478.614,50 Centrais Elétricas Brasileiras S.A. Eletrobrás R$18.782.673,95 ESQUINAS – 2º SEMESTRE 2010

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PERFIL

Uma literata

high-tech Considerada como um dos principais nomes referentes à produção e ao estudo cultural no Rio de Janeiro, Heloisa Buarque de Hollanda alia literatura e pesquisa aos gadgets REPORTAGEM fernanda patrocinio e mariana ferrari (3o ano de Jornalismo)

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divulgação

Sentada de lado na poltrona branca para prestar atenção aos outros palestrantes e ao público, deixa o cabelo tingido de castanho avermelhado cair sobre o rosto, como uma espécie de charme em meio ao ambiente intelectual. Enquanto o braço esquerdo serve de apoio para a cabeça na poltrona, os dedos da mão direita abrem e fecham sem parar. Apesar de compulsiva por falar, parece confortável e em casa. “Me sinto quase uma funcionária do Sesc”, já anuncia Heloisa Buarque de Hollanda, quando lhe é cedido o momento da fala. No cubo de vidro montado pela instituição na 21ª Bienal do Livro para debates, acontecia na tarde do dia 21 de agosto o diálogo entre os blogueiros Nelson de Oliveira, Michelini Verunschk e Andrea del Fuego, além do escritor e poeta, Edson Cruz, e a professora Heloisa – carinhosamente chamada de Helô pelos presentes. O tema eram as questões webliterárias. Considerada um dos principais nomes referentes à atual produção cultural no Rio de Janeiro, nascida em Ribeirão Preto, no interior paulista, é diretora da editora Aeroplano, além de curadora do Portal Literal (www.literal.com.br) – espaço virtual que veicula notícias, críticas e sugestões ligadas à produção literária brasileira. Apesar do sobrenome famoso, ela não é parente próximo do famoso Chico. Professora de Teoria Crítica da Cultura na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ela criou o projeto “Universidade das Quebradas”, que dá aos moradores das periferias cariocas a oportunidade de completarem o Ensino Superior, por meio de um curso de extensão. A intenção é promover intelectuais que vivem nestes lugares, bem como divulgar e incentivar a troca cultural entre o centro e a periferia.

POÉTICA Na ditadura, em meio ao tropicalismo e a era dos festivais de música, Helô reuniu o trabalho de poetas que faziam barulho na época. Roberto Schwarz, Chacal, Adauto de Souza Santos, João Carlos Pádua, Leila Miccolis, Zulmira Ribeiro Tavares, Antonio Carlos Secchin e Torquato Neto são alguns representantes da chamada geração mimeógrafo ou poesia marginal. Intitulada 26 poetas HOJE (Editorial Labor, 1976), a antologia era um esforço de expor ao público a produção marginal, que não circulava em galerias e nem tinha contrato com grandes editoras. “Foi a poesia que entrou na moda ou foram os poetas? O fato é que a poesia circula, o número de poetas aumenta dia a dia e as segundas edições já não são raras”, esclarece na introdução da obra. Este fenômeno, que mobilizou intelectuais, professores universitários, poetas e artistas da época, usou a poesia como uma de suas formas de diálogo, já que havia quem acreditasse que essa estava morta desde João Cabral de Melo Neto. “Há uma poesia que desce agora da torre do prestígio literário e aparece com uma atuação que, restabelecendo o elo entre poesia e vida, restabelece o nexo entre poesia e público”, afirma no prólogo. “Dentro

da precariedade de seu alcance, esta poesia chega na rua, opondo-se à política cultural que sempre dificultou o acesso do público ao livro de literatura e ao sistema editorial que barra a veiculação de manifestações não legitimadas pela crítica oficial”.

TECNOLÓGICA Aos 71 anos e antenada, Helô é adepta de novas tecnologias, como o Kindle, o iPad e o iPhone – aliás, quando contatada por e-mail, ela responde em poucos minutos usando o celular multifuncional da Apple. A relação com as novas plataformas high-tech alia-se a sua relação com a literatura e a pesquisa. “Uma das grandes novidades, em meio aos novos meios, é o ‘Estudos Culturais do Software’ feito pela Universidade Federal de Juiz de Fora e com o apoio do Ministério da Educação. Ele diz respeito ao uso de várias linguagens ao mesmo tempo. O fenômeno da literatura começar a virar cinema, é um exemplo disso”, cita a professora. “Para a academia a existência do softbook é muito bom. O conteúdo é deixado na rede para download e pode ser reescrito, editado ou atualizado sempre. Um livro ou artigo colaborativo mesmo”. Ela destaca, no entanto, um dos problemas dos novos aparatos. “Eu fico com um grilo na cabeça com relação ao Kindle. Ele tem um problema de consumo, pois o livro é alugado. Você não pode ter aquilo”, diz com a voz rouca, porém doce, que parece que vai cessar a qualquer momento. “No Kindle, além de você não poder ter o livro que comprou – afinal o serviço é pago –, ele traz características primitivas. É preciso se dar conta de que os comentários feitos nele podem ser travados e não publicados”, esclarece na palestra realizada na Bienal. “O livro levou muito tempo para ter o formato que encontramos hoje e permite leitura confortável. Ainda não temos este tipo de conforto na internet”, diz e depois morde, costumeiramente, a ponta do dedão direito. No decorrer do debate sobre a legitimidade dos novos meios relacionados à literatura, ela dispara uma crítica, dizendo que “a literatura que faz os hiperlinks é muito chata. Quando você lê um romance, o faz para chegar ao fim. Ficar escolhendo sempre o caminho é muito chato e cansativo”. Após beber um copo cheio de água em um único gole, ela ainda lembra que “nada pode substituir o cheirinho de livro” e toda carga afetiva que isto contém. Assim que os debates do Sesc se encerram, ela fica em pé e atende a todos, com sorriso sempre estampado. Em poucos segundos, um círculo de pessoas ansiosas por uma simples troca de palavras a cerca e o tsunami de perguntas recomeça. Ao receber a edição #47 Sexo do Esquinas, ela se mostra ainda mais simpática e se prontifica a esclarecer eventuais dúvidas da repórter. “Para qualquer dúvida ou complemento pode me telefonar. Mas só não me ligue depois das sete, por favor”, diz ela com meiguice, e logo dispara o motivo: “é que sou viciada em novelas!”

“A literatura que faz os hiperlinks é muito chata. Quando você lê um romance, o faz para chegar ao fim” Heloisa Buarque de Hollanda

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ENTREVISTA

produção híbrida Nuno Ramos é escritor e artista plástico. No entanto, prefere não misturar as coisas. Sua intenção é que cada uma de suas habilidades artísticas se manifeste de forma autônoma REPORTAGEM Lais peterlini e nathália henrique (2o ano de Jornalismo) IMAGEM nathália henrique (2o ano de Jornalismo)

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NATHÁLIA HENRIQUE

Nuno Álvares Pessoa de Almeida Ramos é um dos expoentes da cena contemporânea artística brasileira. Aos 50 anos, além de artista plástico, é escritor, cenógrafo, ensaísta e videomaker. Lançou recentemente o livro O Mau Vidraceiro (2010) pela Globo Livros. No entanto, foi na 29ª Bienal de São Paulo, realizada no segundo semestre deste ano, que o seu trabalho ganhou repercussão. Sua obra, intitulada “Bandeira Branca”, foi alvo de protestos por parte de grupos de defesa dos animais e da opinião pública. Isso porque Nuno Ramos manteve três urubus vivos na composição de sua obra. Durante a abertura da Bienal, a instalação do artista foi pichada com a frase “liberte os urubu” (sic). “Não vou prestar queixa. O mundo da cultura é o do diálogo. Não estou revoltado, estou triste”, disse Nuno ao jornal Folha de S.Paulo após o incidente. Formado em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), o artista de múltiplos talentos parece ter cumprido o seu objetivo de deixar o evento artístico mais interessante. “Eu achei a última Bienal muito triste, sem força e chata. O que eu espero é que nesta haja um retorno à ênfase nas obras”, afirma.

De que forma e quando as artes plásticas entraram na sua vida? Eu comecei meio tarde, aos 20 anos. Aconteceu de forma muito súbita, porque eu nunca tinha pensado em ser artista plástico. Desde jovem, sempre quis ser escritor. Quando eu entrei em crise com o ato de escrever, me senti atraído pela linguagem artística. O aspecto físico da relação de um material com o outro sempre foi muito marcante para mim, principalmente nos primeiros trabalhos.

A sua família te apoiou a seguir a carreira artística? Meu pai dava aula na USP, então ninguém da minha família foi contra a minha carreira artística. Até porque desde criança eu quis ser artista. Como sou formado em Filosofia, talvez houvesse alguma expectativa que eu seguisse uma carreira acadêmica.

O artista plástico, Nunos Ramos, em frente ao esqueleto daquilo que seria a sua mais polêmica obra da 29ª Bienal de São Paulo: “Bandeira Branca”

Você acha que a filosofia incidiu mais no aspecto literário da sua vida ou entrou também nas artes plásticas, te inspirando na criação das obras? Eu acho que é um todo: aparece tanto no lado da literatura quanto no lado das artes plásticas. Eu nunca tive vocação para a filosofia, mas acho uma área do conhecimento muito louca, na qual você trata de questões totalmente absurdas como a existência de Deus e dos sentidos. E é quando você pode até desconfiar da Matemática que é uma ciência exata. Então, acredito que a filosofia ajudou no sentido de me dar um imaginário mais forte, mais ambicioso. Ela me mostrou que a cultura não deve intimidar, porque ela não foi feita pra isso, mas para ajudar a fluir o pensamento de muitos modos.

Como você encara o momento das artes plásticas no Brasil hoje? Qual sua visão diante disso? Eu não conheço tudo, mas acho que há bastante coisa boa acontecendo, muitos artistas novos aparecendo. Quando eu comecei, nos

anos 80, o mercado de arte era muito fraco. O Brasil tem hoje uma realidade artística razoável, porque as obras já se estão se inserindo no mundo. Atualmente, a dinâmica é muito diferente, até porque há várias galerias novas.

Em quais nomes você aposta como sendo talentos promissores da nova geração das artes plásticas? Eu não tenho conseguido acompanhar muito bem essa nova geração, mas sempre lembro da Ana Paula Oliveira, da Tatiana Blass e do Tiago Rocha Pita. Tem muita coisa interessante, mas fica tudo homogeneizado, pelo modo como é mostrado. Ás vezes eu tenho a impressão que o que falta para alguns artistas é a oportunidade de mostrar o que fazem.

Qual a sua expectativa para a Bienal deste ano? Eu acho que é uma Bienal que vem suceder uma crise terrível. A última falou de si mesma e, por isso, tomou lugar daquilo que devia vincular. Eu achei a última muito triste, sem força e chata. O que eu espero é que nesta haja um retorno à ênfase nas obras. O que te impulsionou a escrever livros? Para mim, escrever e pensar são duas coisas que se comunicam o tempo todo. Eu procuro fazer com que aquilo que eu escrevo seja uma experiência própria, não algo que venha das artes plásticas. Quando eu escrevo, tenho o chamado da literatura com seus truques, seus pontos fortes e fracos. O bacana é que cada linguagem te faz exigências e te dá novas possibilidades.

A literatura e as artes plásticas têm o mesmo peso na sua vida? Sim. Tenho uma vivência maior em artes plásticas e literatura, mas também fui para outros lados como a composição, pois para mim arte é uma coisa só.

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NA RUA

DE GRAÇA: A aposentada Odetti Costa distribui sua obra, com o intuito de levar cultura a quem não pode pagar

palco

quando a rua vira

Artistas que nasceram dentro da cena urbana e se apropriam do espaço a céu aberto

REPORTAGEM LUCAS PAULINO, MICHELLE RODRIGUES, PAULA TERESA MIRANDA E SUELLEN FONTOURA (1º ano de Jornalismo IMAGENS LUCAS PAULINO E PAULA TERESA MIRANDA (1º ano de Jornalismo)

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Transformadores do espaço urbano, os artistas de rua possuem histórias tão distintas quanto as suas habilidades, porém com um vínculo em comum: o viver pela arte. Não levantam muros, pois se trata de algo que não se encontra em um museu ou em uma galeria - o palco é a própria calçada. Quebrando a monotonia da paisagem, esse tipo de manifestação interrompe o ritmo frenético das cidades grandes. Enquanto alguns nem chegam a cobrar pela sua arte, outros dependem do que ganham nas ruas para sobreviver. A pé, no carro ou no ônibus, todo dia se pode cruzar com artistas dos mais diversos estilos nas principais vias urbanas - basta saber olhar. Eles podem ser músicos, cantores, mágicos, pintores, poetas, artesões, humoristas ou qualquer um que mostre criatividade e se comunique de alguma forma. Apesar de serem pessoas anônimas, quem acha que eles não têm público, enganase. Todas as terças, no vão do MASP (Museu de Arte de São Paulo), Odetti Costa, de 75 anos, distribui carisma impresso em folhas de

papel. Sendo vista e ouvida pelos passantes deste trecho da Avenida Paulista, ela interage. “Quem quer um pouco de poesia? Podem pegar, é de graça!’’, diz. Para os transeuntes, a “Vó Detti” - como é conhecida - causa curiosas reações. “Interessante. Essa é a palavra que posso descrever nesse momento. Lindo o ato de filosofar, de expressar os sentimentos em poesia, de sair à rua e distribuir suas ideias a quem quiser recebê-las”, diz encantada a estudante Sofia Marchetti, de 18 anos. Nascida em São Paulo e moradora do bairro de Santana, Odetti mantém o projeto que se iniciou em 2004. Contudo somente no ano passado ela resolveu distribuir suas poesias na rua. “Nós, poetas, temos que cutucar as pessoas nas ruas e até mesmo questionar, como os filósofos faziam antigamente”, declara a mulher influenciada por Castro Alves e Eça de Queirós. Os temas de seus trabalhos são variados, e vão do amor ao vício, além do “problema da invisibilidade dos idosos” - como ela critica. Casada há 53 anos, confessa que o marido “morre de vergonha”, pois ele acha que


Mágica e música Calcinha preta fio dental, cobra, mão e ovos - todos de borracha - são os instrumentos do número de mágica de Franklin Machado, de 38 anos. Conhecido como “Aranha”, devido a uma tatuagem no pescoço, o piauiense foi mais um que veio à capital paulista em busca de emprego. “Nordestino sem estudo e instrução, não tive muita oportunidade. Era professor de capoeira e instrutor de Muay Thai, uma arte marcial tailandesa, mas comecei a fazer apresentações na rua”, conta. O show acontece no cruzamento da Rua Direita com a Quinze de Novembro, no centro de São Paulo. No local, um círculo de água é formado e o mágico convida os passantes a se aproximarem. Por volta de vinte pessoas se juntam ao redor e a apresentação tem então início. Uma mistura de truques e bom humor conduzem o espetáculo. Ao final, um saco de pano é passado para recolher dinheiro. “Em um dia muito bom dá para tirar até 300 reais com três shows. Em dias fracos entra 30, 40 reais”, revela Machado. Sobre seu trabalho nas calçadas, Franklin constata as diversas reações que desperta. “Quando chego, ainda não tem ninguém, então tento chamar a atenção das pessoas que passam. Alguns podem olhar feio, discriminar, mas no fim todos se divertem. Gosto de trabalhar na rua, porque você tem a chance de animar o público”. Além

“Acho que a poesia escolhe alguns poucos e me sinto um desses privilegiados” André Rezende Marques, poeta

desse número de mágica, ele demonstra sua versatilidade ao pular sob um arco cheio de facas, dar saltos mortais, fazer um número com chicote e outro com relógios. “Tenho que variar. O que aprendi foi na rua mesmo, vendo os outros fazendo”, conta. Flanklin enfatiza o problema da violência nas ruas. “Às vezes sou discriminado, já me levaram até para a delegacia. Tem também gente que aparece para brigar, mas nunca parti para a ignorância, levo na conversa”. Ainda pelo centro, um senhorzinho tímido sentado em um banco improvisado no Viaduto do Chá toca seu instrumento: o violino. O nome dele é José Rocha, tem 86 anos. Com a pele marcada pelo sol, usando boné e roupas leves, não é o tipo de sujeito imediatista que procura sucesso ou dinheiro fácil. À sua frente, um pote de tinta amarelo com moedas de baixo valor. Recolhe entre cinco e trinta reais por dia, mas garante que qualquer quantia já vale a pena. Apesar de haver o risco de ser roubado, diz que nunca isso lhe ocorreu. “Acredito que cada um tem o livre arbítrio para fazer o que acha certo, sendo que depois terá que conviver com sua consciência. Eu nunca fiz mal a ninguém,

talvez essa seja minha recompensa, nunca terem feito mal a mim também’’. De segunda a sábado, das 8h30 às 15 horas, encontra-se lá para tocar seu instrumento. Antes de trabalhar no viaduto, José puxou carrocinha de papelão durante quarenta anos e até chegou a não ter onde dormir. Com franqueza, fala que “puxar carrocinha costumava ser melhor financeiramente. Ganhava pelo menos 120 reais por dia. Hoje minha força diminuiu e já não faço esse tipo de coisa”. Viúvo duas vezes e pai de sete filhos, com os quais não tem muito contato, ele mantém o bom humor, apesar das adversidades. Autodidata em música, sabe também tocar sanfona, cavaquinho, violão e bandolim. O dinheiro ganho com a música complementa a sua aposentadoria. Quanto aos planos futuros, revela: “O que eu ganho aqui dá para pagar a comida e o remédio, o resto eu estou juntando para comprar um terreno e montar meu barraco”. Apesar de todas as fragilidades a que estão sujeitos, os artistas de rua não deixam de levar sua arte ao povo; não importando se é no palco ou na rua, com aplausos ou sem.

PAULA MIRANDA

PAULA MIRANDA

somente ela tem tal iniciativa. “Digo a ele que, então, serei a primeira a puxar a fila”, afirma-se. Tentar poetizar em um espaço público pode causar estranhamento em alguns, mas nada a impede. “A literatura é muito cara e os mais pobres, quando têm algum dinheiro, precisam comprar comida. Por isso distribuo meu trabalho, para que todos tenham acesso à informação”, explica. Outro poeta que se destaca pelas ruas da capital é André Rezende Marques, de 37 anos. Paranaense, está em São Paulo há mais uma década, escrevendo contos, crônicas e poesias. Explora tanto temas românticos como urbanos e autobiográficos. Aos 20, André lançou seu primeiro folheto de poesias e, desde então, nunca mais parou. “Acho que a poesia escolhe alguns poucos e me sinto um desses privilegiados”, explica. Pai de duas crianças, André é casado com uma corretora de seguros. “Alguém tem que ter juízo na família”, brinca. Para ele, a Avenida Paulista é um mosaico que reflete a diversidade do Brasil e, por isso, a escolheu como local de divulgação de suas obras. Trabalhando lá, o poeta já vivenciou diferentes situações e nem todas deixaram boas recordações - a rua é um espaço de risco onde as coisas são imprevisíveis. Chegou a ver famosos pela região, mas também já se deparou com violência. “Você tem que amar o que faz, senão não aguenta. Esse ambiente não é para qualquer um”. Apesar dessa condição vulnerável, gosta muito do que faz: “Eu poderia ter um blog, por exemplo, mas gosto mesmo é do contato físico com as pessoas e esse é o melhor lugar para isso”.

“Vó Detti” encanta os passantes da Avenida Paulista com seus poemas ESQUINAS – 2º SEMESTRE 2010

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Metrô

Estação Arte Metrô de São Paulo é ocupado por atividades culturais: de saraus a shows de rock

Com novo padrão de arquitetura, a estação SantosImigrantes está adaptada a receber monumentos artísticos

Todos os dias, mais de três milhões de pessoas utilizam o metrô para se locomover em São Paulo. A rapidez com que o usuário paga a passagem, passa pela catraca, desce a escada rolante e entra no trem poderia desanimar o investimento em projetos culturais nas estações. Contudo, o Metrô se transformou em um importante palco para exposições de arte, sessões de cinema e espetáculos diversos. As atividades culturais não se restringem ao Metrô. Graças à parceria, desde junho deste ano, com o projeto Cinemagia, criado em 2002 para levar cinema a comunidades carentes, a arte é “transportada” a estações da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) e terminais da EMTU (Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos). Já a Coordenadoria da Juventude da Prefeitura de São Paulo, por meio do projeto Som Jovem, indica conjuntos musicais para tocar nas estações. O Sesc (Serviço Social do Comércio) instalou pianos nas estações Luz e Santo Amaro, em 2008 – nesta última o instrumento é itinerante entre as estações da

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Contraste: já na estação Penha não há espaço específico para arte. As obras ocupam a plataforma de embarque/desembarque

CPTM. “O piano faz parte de uma ideia que a secretaria implantou: tornar as estações ambientes de convivência”, diz Rodrigo Pontes, gerente de marketing da CPTM. Por dia, aproximadamente 400 mil pessoas passam pela Luz. “As pessoas se surpreendem ao ver o piano. Algumas até têm medo, não sabem se podem tocar, se podem encostar”, acrescenta. O piano pode ser visto, tocado e até revelar talentos. O operador de máquinas Jocimar Gonçalves, de 47 anos, aprendeu a tocar piano na estação da Luz e hoje é compositor. “Se falar para você que aprendi a tocar aqui! Não tive escola de ninguém. É que já tenho o dom, não é?”, brinca. “A gente chega aqui e se distrai, pois a música dá alegria às pessoas”, declara Jocimar, que irá gravar um CD com suas composições. O Metrô disponibiliza em cada estação uma lista mensal de atrações para divulgar os diferentes projetos. Os usuários aprovam. “Acho muito interessante. Eu sempre leio e, quando estou passando pela estação que sei que tem algo, paro para conferir”, declara o

engenheiro Mario Harada. “Se chama a minha atenção, paro para olhar”, afirma a contadora Fabiana Silva, que usa o Metrô diariamente. A reportagem acompanhou o show da banda de rock dos anos 1950, Calhambeks, uma das indicadas pela Coordenadoria da Juventude, dentro do projeto “Encontros”, lançado em abril de 2009 na estação Santa Cecília. “Mandamos uma amostra para o projeto Som Jovem e fomos classificados. Depois de alguns meses, eles entraram em contato conosco e disseram que iam nos encaixar no projeto”, conta o vocalista Rodrigo Montoya. O cantor, aliás, não vive sem o Metrô. Formado em engenharia elétrica, o “músico por hobby” trabalha há oito anos na manutenção dos trens da linha 1-Azul. “Vim do Jabaquara e vou à Parada Inglesa. Praticamente não saio do trabalho”. À exceção de guitarras e microfones, todos os instrumentos são fornecidos pela empresa Phobus, parceira do Cinemagia.

ARTE NA MULTIDÃO O “Seis na Sé” traz entretenimento para mais de 700 mil passagei-


As principais atrações culturais do Metrô

REPORTAGEM ananda cseiman, andré Oliveira, Giovana Nunes e patricia rodrigues (1o ano de Jornalismo) FELIPE CORDEIRO, lAYS USHIROBIRA e pAULO PACHECO (2o ano de Jornalismo)

FOTOS: ananda cseiman / patricia rodrigues / FELIPE CORDEIRO

Cydoka mostra seu talento no piano em plena estação da Luz

ros que circulam pela estação. O projeto faz parte de uma estratégia operacional do Metrô, a fim de conter o número de embarques às 18h, horário mais crítico do sistema de transporte público. Os usuários tinham um bom motivo para retardar a volta para a casa: assistir a apresentações de música, teatro e dança. “Eles aguardam para embarcar num momento de mais tranquilidade”, explica a coordenadora de Ação Cultural do Metrô, Sandra Theodozio. Segundo ela, o número de pessoas variava conforme a atração, com uma média diária entre 100 e 150. Mas não há dúvida de qual fazia mais sucesso: “com certeza, dança de salão às sextas-feiras”. O projeto, que ocorreu de setembro de 2009 a julho deste ano, está temporariamente suspenso para a definição da nova programação. Sandra adianta que ele será incorporado ao “Encontros”: será diário e expandido para outras estações como Santa Cecília e Sé, e outras quatorze. “O que vai ter em cada estação depende do que se adapta ao espaço. Algumas não têm espaço disponível”, destaca a coordenado-

ra. Outro incentivo à cultura que tem atraído os usuários do Metrô é o “Embarque na Leitura”. Mais de 24 mil títulos de livros estão disponíveis para empréstimo nas estações Luz, Paraíso, Brás, Tatuapé, Santa Cecília e Largo Treze. Os usuários devem ficar atentos, pois cada uma das seis bibliotecas existentes exige um cadastro. A carteirinha de uma não vale nas demais. A diarista Sheila Maria da Silva, de 37 anos, enfrenta o problema: diariamente, passa pela estação Marechal Deodoro (linha 3-Vermelha), mas não pode pegar livros na vizinha Santa Cecília, uma vez que tem cadastro apenas na Luz (linha 1-Azul). No entanto, Sheila não se importa de ter que realizar um breve desvio em seu itinerário e aprova o “Embarque na Leitura”. “É ótimo. Muitas pessoas não têm condições nem tempo para ir a uma biblioteca. Deveria ter em todas as estações. Facilitaria bastante”, diz a diarista, mostrando o livro que tinha acabado de pegar: A viagem de Heitor, de François Lelord. LEIA MAIS NO PORTAL DA REVISTA ESQUINAS

“Arte no Metrô” - Desde 1978, obras de diversos artistas plásticos brasileiros vêm sendo expostas nas estações de Metrô de São Paulo. O projeto, que começou na estação Sé (linha 3-Vermelha), reúne hoje 90 obras em exposição permanente em 36 estações de suas cinco linhas. “Poesia no Metrô” - Reúne textos de grandes nomes da poesia em língua portuguesa, como Camões, Fernando Pessoa e Olavo Bilac em painéis espalhados por diversas estações. Foi iniciado em 2009, apenas na linha 2-Verde, mas será levado também para outras linhas. “Encontros” – Traz à estação Santa Cecília espetáculos artísticos em dias específicos: artes cênicas às segundas-feiras, oficinas culturais às terças (exceto na última do mês, dia do Sarau do Metrô), dança às quartas, música às quintas, curtas-metragens às sextas e longas-metragens aos domingos. As apresentações ocorrem geralmente às 18 horas, quando o movimento de usuários se intensifica. Iniciado em abril de 2009, o Encontros será levado para mais quinze estações. “Seis na Sé” – Uma alternativa à correria e ao empurra-empurra dos usuários da estação Sé (linha 3-Vermelha). Com duração aproximada de 50 minutos, o “Seis na Sé” trazia de segunda a sexta-feira artistas amadores em apresentações de teatro, música e dança. Iniciava-se sempre às 18 horas, quando a maior parte dos passageiros volta para casa. O projeto teve início em setembro de 2009, mas está temporariamente suspenso para a definição das novas atrações. O “Seis na Sé” não tem previsão de retorno. “Embarque na Leitura” – Para incentivar e disseminar o hábito da leitura entre os usuários, o programa empresta livros gratuitamente para os 45 mil cadastrados. São seis bibliotecas que reúnem juntas mais de 24 mil títulos, entre romances, histórias infantis, policiais, infanto-juvenis e de autoajuda, além de livros em braile e em áudio. Para fazer cadastro, é necessário levar uma foto 3x4, comprovante de endereço e cópia do CPF e do RG, além dos documentos originais. “Piano na Luz” – Localizado na estação Luz do Metrô (linha 1-Azul) e da CPTM, o piano pode ser tocado por qualquer pessoa. Esta ideia existe desde o início do projeto, em outubro de 2008, quando o Sesc-SP instalou pianos com a inscrição “Toque-me, sou teu” em vários espaços públicos da cidade.

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periferia

Paradoxo cultural A múltipla cultura da periferia invade o centro e se transforma, gerando discussões e polêmicas REPORTAGEM giulia afiune, natali coelho, raphael rezende e renata lucchesi (1o ano de Jornalismo)

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renata lucchesi

“Difícil dar uma só identidade à cultura da periferia, porque a mistura é grande. Não há nada que seja tão puro. Nela, há vários mundos e dentro de cada mundo há sua especificidade’’, comenta Anderson de Carvalho, vulgo G-Box, MC desde 1991. A cultura da periferia possui características próprias, mas não é homogênea: é produzida por grupos sociais com identidades distintas. “Tais grupos coabitam a mesma periferia, há uma convivência e aproximação entre eles’’, esclarece o MC. “O que vai para a periferia se torna parte dela. É algo de cunho bastante popular”, destaca Rafael Datoni, integrante do grupo de rap alternativo Produção Caseira. Os costumes, hábitos e tradições dos moradores moldam as manifestações artísticas que percorrem a música, a dança e as artes visuais. A cultura da periferia se apropriou dessas linguagens e fez-se mãe do samba, funk e forró, além do rap (ritmo&poesia), do breakdance e do graffiti (elementos do hip-hop). “A produção cultural vem da capacidade de improviso’’, diz Tiago Barbosa, também conhecido como Tiagão, representante paulista na Liga dos MCs de 2009. Em geral, essas manifestações buscam resistir ao preconceito, expor sofrimentos, angústias e problemas sociais vivenciados diariamente pelas comunidades da periferia. Mas não deixam de lado as alegrias, amores e o orgulho que o MC compartilha. Segundo o DJ Hadji, bicampeão do Hip Hop DJ, “o próprio rap tem múltiplas faces: pode falar tanto de racismo, do boy e da polícia, como da vida do trabalhador, de política”.

Da periferia ao centro: DJ Hadji toca na casa noturna Heaven Club, localizada na Rua Augusta, no bairro dos Jardins. Os frequentadores são jovens paulistanos da classe média alta

HISTÓRIA Por muito tempo, a cultura da periferia foi produzida apenas para seus próprios moradores. Porém, em 1992, o massacre de presos que deixou 111 mortos no presídio do Carandiru, na zona norte paulistana, escancarou na mídia uma série de tensões e conflitos que já vinham se desenrolando entre os mais pobres. Problemas sociais se evidenciaram com a chacina: o preconceito, a violência policial e a lógica excludente e hierárquica que pauta a sociedade. Tal realidade é notável na música Diário de um Detento, do grupo Racionais MCs. “Minha vida não tem tanto valor quanto seu celular, seu computador”. Nesse contexto, a arte foi um dos caminhos encontrados para a crítica. “Quando você faz cultura e não era pra fazer, isto é um ato político”, alfineta Sérgio Vaz, criador da Cooperifa, Cooperativa Cultural da Periferia. A voz da periferia ecoava no centro, principalmente com os versos agressivos dos Racionais. Em 1998, o grupo lançou o clipe de Diário de um Detento na MTV, dando espaço para a divulgação ampla do rap nacional e da cultura hip-hop. Em rádio, baladas, seriados, novelas e filmes (como o Cidade de Deus, de Fernando Meirelles que concorreu ao Oscar em 2002): a periferia podia ser vista nas mais variadas formas de expressão artística. Esta popularização pode ser interpretada como benção ou maldição: um paradoxo.

Enquanto torna pública uma realidade antes desconhecida, muitas vezes pinta um retrato superficial, um estereótipo consumível da periferia. Isso ocorre em programas como Central da Periferia, da Rede Globo, cujo foco está nos traços culturais - modo de vida, hábitos, roupas, gírias. A atração desvia dos mecanismos exploratórios e excludentes, não colocando em evidência questões políticas e econômicas. Se antes os artistas vindos da periferia eram acusados de se venderem ao sistema que criticavam - como aconteceu com Mano Brown, o vocalista dos racionais MCs -, hoje a realidade é outra. “Mudou muito. A música dele toca no Caldeirão do Huck e ele gravou com o Ben Jor”, destaca Hadji, que ainda comenta: “É a evolução da música”. Outro exemplo são Os gêmeos, uma dupla de grafiteiros que contribuiu para consolidar o estilo no Brasil. Atualmente eles expõem seu trabalho em galerias, tirando o grafite da rua, seu verdadeiro habitat.

COOPERIFA A possibilidade de expressar ideias, desejos e pensamentos à sua própria maneira mobiliza diferentes pessoas a se envolverem com arte nas periferias. O Sarau da Cooperifa acontece todas as quartas-feiras, desde 2001, no bar do Zé Batidão, em Piraporinha, zona Sul de São Paulo. O evento reúne representantes de diversas periferias de São Paulo em torno de música, teatro, rap, e, principalmente, poesia. “O Sarau da Cooperifa é nosso quilombo cultural”, afirma Sérgio Vaz. Com o documentário Povo Lindo, Povo Inteligente de Sérgio Gagliardi e Mauricio Falcão, a iniciativa se tornou amplamente conhecida, inspirando a criação de diversos outros saraus literários na periferia. Assim, pessoas do centro começaram a frequentálos. Para Heloisa Buarque de Hollanda, professora de Teoria Crítica da Cultura da UFRJ e estudiosa da cultura da periferia, o “hiphop brasileiro agrega também a literatura, além do break, rap e grafite. É uma tendência muito forte e prestigiada”. Para Thaís Toshimitsu, doutora em literatura e professora de uma escola particular de São Paulo, é importante mostrar para seus alunos um pouco dessa cultura. Músicas dos Racionais integram o curso ao lado de Castro Alves e Machado de Assis. “A literatura permite que você experimente o ponto de vista de outro indivíduo”, argumenta. A intenção é colocar o outro em evidência, no que diz respeito à identidade, peculiaridades e o relacionamento com o leitor. A cultura da periferia atual é inovadora, pois se expressa através da voz própria daquelas pessoas. “Nós somos meros espectadores ou consumidores dessa arte, não participamos de sua produção. Essa posição nunca foi ocupada pela classe média alta”, observa Thaís. Para que alguém de fora da periferia se coloque como participante nessa cultura, ele precisaria assumir a responsabilidade política por imergir naquela realidade. Mas quem quer adotar tal posição?

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tecnologia

O “drama interativo” do jogo Heavy Rain, lançado em 2010

de Van Gogh a Miyamoto Com interatividade e evolução gráfica, os games se consolidam como expressão artística 30

ESQUINAS – 2º SEMESTRE 2010

REPORTAGEM Caio hornstein, gustavo gusmão, Victor bussiki (1o ano de Jornalismo) e Maria Zelada (2º ano de Jornalismo)


REPRODUÇÃO

A indústria dos videogames está em vias de completar quatro décadas. Pouco tempo se comparado ao cinema e à música, mas suficiente para que os games se estabelecessem como ferramenta de manifestação artística. As evoluções técnicas ocorridas permitiram que os jogos digitais evoluíssem de sua premissa original: ser um entretenimento descompromissado. Hoje, são uma complexa mídia que se apropria de elementos audiovisuais avançados, tendo como principal atrativo a interatividade. Flávio Croffi, redator da revista especializada Entertaiment Game World (EGW), afirma que “a percepção de videogames como arte deve-se principalmente ao crescimento do mercado desse segmento”. A venda de consoles e jogos em 2009 movimentou cerca de 98 bilhões de dólares, com a perspectiva de superar a cifra de 110 bilhões de dólares ainda neste ano. Para Croffi, o crescimento, aliado à competição no mercado, tem feito com que produtores se preocupem cada vez mais com o desenvolvimento do jogo, tornando isto fundamental na busca por inovações, na parte visual e técnica. Assim, pode-se citar o jogo Flower, lançado em 2009, com visual deslumbrante e uma proposta diferenciada. Cabe ao jogador controlar uma pétala de flor e reunir outras de modo a embelezar o aspecto monocromático do meio urbano.

INTERATIVIDADE O aprimoramento visual e o desenvolvimento de narrativas mais complexas aproximaram os games do cinema. Há quem chame o videogame de “filme interativo”. Lançado em 2010, o jogo Heavy Rain é um exemplo. Considerado basicamente um “filme jogável”, ou na definição dos próprios desenvolvedores (a empresa americana Quantic Dream), um “drama interativo”. Encarnando o papel de quatro personagens, é possível executar ações pré-determinadas sugeridas pelo próprio jogo. Cada movimento colabora para dar continuidade à trama e, dependendo do que o jogador optar, a perspectiva do enredo é alterada. O cinema e os games compartilham uma história semelhante, no que diz respeito à sua rejeição inicial em ser considerada uma expressão artística. O desenvolvimento e o domínio da técnica foram fundamentais para a aceitação de ambos. Hoje, o nível de complexidade atingido pelos jogos faz com que um progressivo número de pessoas se envolva no processo de criação. Além das profissões tradicionalmente associadas ao gênero, os games produzidos por grandes estúdios contam com experientes atores de dublagem que emprestam vozes a personagens (caso de Mafia, de 2002, cuja dublagem foi feita pelos atores da série The Sopranos, do canal HBO). Orquestras são contratadas para executar elaboradas trilhas sonoras (como em Super Mario Galaxy, de 2007, orquestrada por cerca de 50 músicos). O jogo Assassin’s Creed II, de 2009, chegou a contar com uma equipe de pesquisadores responsável por colher

informações históricas para permitir uma recriação digital precisa da Itália renascentista, local em que se situa o enredo.

INDEPENDENTE A produção de jogos independentes – os indie games – tem sido fomentada pelo aparecimento de canais de distribuição digital dos jogos. Isso permite às pequenas equipes terem seu espaço em um mercado originalmente dominado por empresas como Nintendo, Sony e Eletronic Arts. É o caso de Limbo, jogo dinamarquês lançado por meio de download na rede XBOX Live Arcade em agosto de 2010, que contou com uma equipe de apenas oito desenvolvedores. Uma megaprodução, como GTA IV, de 2008, envolveu cerca de 400 profissionais, entre desenvolvedores e dubladores. Apesar da equipe reduzida, Limbo foi aclamado pela crítica especializada como um exemplo de “jogo arte” por sua estética baseada no cinema noir (que remete aos filmes policiais) e seu enredo propositalmente cheio de lacunas, que permite ao jogador interpretá-lo de diversas maneiras. Esse último aspecto é fundamental na concepção de arte, para Fábio Santana, editor da revista especializada em games EDGE. Segundo ele, “uma obra que vai se consagrar como arte é aquela que abre margem para diversas interpretações. Nesse aspecto, os roteiristas de jogos ainda são muito amadores”. Além de elementos cinematográficos, os videogames também se aproveitam de outros meios de expressão artística. Shadow of the Colossus (2005), para Fábio Santana, se aproxima da literatura. “É muito lírico e possui um escopo épico”, diz. Contudo, a despeito dessas semelhanças, os meios de arte diferem quanto ao tipo de interação com o sujeito espectador. “As interatividades presentes nas outras formas de expressão artísticas não são ativas: não há capacidade de interferência na série de comportamentos que estão sendo apresentados. No jogo digital, o jogador é estimulado a interferir, seja em alguma medida ou capacidade”, analisa Luís Carlos Petry, professor do curso de Tecnologia em Jogos Digitais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Nos games, a relação entre o personagem e o sujeito jogador é tão intensa que este passa a se identificar pessoalmente com sua representação digital. No momento em que o personagem executa as decisões do jogador, cria-se a possibilidade da experiência do jogo despertar emoções intensas, como medo, solidão e alegria. Para o filósofo português Alexandre Andrade Martins, “uma das finalidades da arte é justamente despertar sentimentos adormecidos”. Os pais dos jogadores de games agora podem ficar tranquilos. Seus filhos poderão estar desfrutando não apenas de uma forma de diversão, mas de uma experiência tão enriquecedora quanto uma visita a um museu de arte. Em breve, quem sabe, Shigeru Miyamoto, criador de Mario Bros, seja tão reverenciado quanto Vincent Van Gogh.

Arte 2.0 A Internet é a única ferramenta capaz de armazenar e distribuir conteúdos simultaneamente. No entanto, o crescente excesso de informação acaba gerando dúvidas aos internautas. Afinal de contas, qual é a relevância e a veracidade de tudo aquilo que é acessado? Para que o público aproveite ao máximo os bons conteúdos da web, seguem algumas dicas de sites que divulgam e armazenam temas ligados à cultura com legitimidade.

Catraca Livre www.catracalivre.folha.uol.com.br No site, ligado à Folha.com, são encontradas diversas dicas de livros, notícias, exposições, cinema, cursos e oficinas, dança, atividades para crianças, música, encontros e palestras, teatro, literatura e ainda uma “Agenda SP”, com os eventos que acontecem em São Paulo.

Digestivo Cultural www.digestivocultural.com O diferencial deste site, além do conteúdo variado, é a forma como são apresentados os assuntos. Os menus são divididos por dias da semana, ou seja: segunda-feira é dia de artes e internet; terça, teatro e televisão; quarta, cinema e música; quinta, gastronomia; e sexta, imprensa e literatura. Também são encontradas sessões de ensaios, entrevistas, fóruns, editoriais e colunas.

Omelete www.omelete.com.br Mesmo com o slogan “Entretenimento levado a sério”, o site trata do conteúdo de forma descontraída. Pode-se acessar dicas de cinema, televisão, quadrinhos, música, games, dvd/ blu-ray, promoções, vídeos e o “Omelete TV*”, sessão na qual são apresentados vídeos e textos exclusivos do site. LEIA MAIS NO PORTAL DA REVISTA ESQUINAS

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História

Mais do que meras

imagens

A palavra e a figura se combinam para compor a narrativa da nona arte REPORTAGEM andré silva, bárbara vanderlei, fernando antonialli, helena dutt-ross e juliana ruiz (1o ano de Jornalismo) e bruno podolski (2o ano de Jornalismo) IMAGEM E INFOGRAFIA jULIANA RUIZ (1º ano de Jornalismo)

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No dia dez de julho, às nove da manhã, iniciou-se a venda dos ingressos da Festa Literária Internacional de Paraty de 2010. Dez minutos depois, uma notícia: duas das mesas já estavam esgotadas. A primeira, da escritora chilena Isabel Allende, autora de A Casa dos Espíritos. A segunda era a do quadrinista norte-americano Robert Crumb. Ele se destacou nos anos 1960 ao integrar o movimento de quadrinhos underground. Eram revistas independentes que tratavam de assuntos polêmicos para a época, como drogas, sexo e violência. Crumb voltou a ter destaque em 2009, com o lançamento de Gênesis, uma adaptação bíblica em quadrinhos. O gênero tem crescido bastante no Brasil. Na edição de 2009 da festa literária, foram convidados os cartunistas brasileiros gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá - criadores da HQ 5 e de adaptações para quadrinhos de obras como O Alienista, de Machado de Assis - , Rafael Grampá - que produziu Mesmo Delivery, premiada no exterior - e Rafael Coutinho, que escreveu Cachalote em parceria com Daniel Galera. Em 2008, Neil Gaiman, famoso pela

série The Sandman, marcou presença. Contudo, o mais bem-sucedido autor de HQs no Brasil ainda é Maurício de Sousa que alcançou o sucesso com o gibi da Turma da Mônica, criada há mais de 50 anos. O cartunista tem estúdio próprio e criou recentemente uma versão para o público adolescente de sua série, a Turma da Mônica Jovem. Lourenço Mutarelli, revelado pelo álbum Transubstanciação (1991), ressalta “que na cultura brasileira, ao se falar em quadrinhos, a maioria imediatamente pensa no quadrinho infantil”. A origem dos quadrinhos vem de tempos remotos: desenhos rupestres, hieróglifos ou mesmo vitrais góticos, mas só apareceram como os conhecemos no iníco do século XX. A adaptação dos cartoons para diferentes formatos fez com que a arte se popularizasse, primeiramente, como tirinhas. O suíço Rudolph Töpffer é considerado um precursor das HQs com seu The Adventures of Obadiah Oldbuck. As falas e descrições das cenas eram colocadas como uma espécie de legenda em cada quadrinho. Quem estreou o uso dos balõezinhos foi Richard F. Outcault, apontado como


Produção nacional: trabalhos dos gêmeos Bá e Moon, Rafael Coutinho e Lourenço Mutarelli

criador da primeira HQ com formato atual, Yellow Kid, publicada nas páginas do jornal New York Sunday World, em meados de 1880. No Brasil, o pioneiro foi o italiano Ângelo Agostini, que publicava seus desenhos cheios de críticas ácidas ao Segundo Reinado. Em 1869, o artista criou para a revista Vida Fluminense o personagem Nhô Quim, um caipira sofredor de choques de costumes na capital.

História dos quadrinhos no brasil

super-heróis Na década de 1930, surgiram revistas separadas, trazendo uma inovação: os super-heróis. Eles seriam vitais para as HQs por criar a cultura do fã. Segundo o jornal americano New York Daily News, o gibi mais caro do mundo é a primeira edição do Action Comics, que introduziu o Superman, a qual é estimada em US$1,5 milhão. Na época, entretanto, ninguém defendeu essa forma de fazer arte como legítima. Isso durou até meados dos anos 40, quando Will Eisner começou a divulgar o que chamava de arte seqüencial. O legado do criador do detetive Spirit é tão importante que o “Oscar” dos quadrinhos leva o seu nome. Dessa forma, os quadrinhos americanos saem das Grandes Guerras como histórias típicas de super-heróis, com tema adulto. Havia, então, um enredo complexo, que falava sobre terror e violência. Eisner e a EC Comics, onde nasceu a revista MAD, representam tal mudança. Mas os quadrinhos só deslancharam como itens de colecionador a partir da segunda metade do século XX, graças à colaboração de nomes como Alan Moore e o próprio Robert Crumb. Os álbuns e graphic novels (termo cunhado por Eisner, que significa “romances ilustrados”) passaram a conquistar terreno nos anos 1970. As graphic novels, diferentemente dos gibis, têm maior extensão e, portanto, podem abordar temas com maior elaboração. Por aqui, os álbuns e revistas ganharam força significativa no final dos anos 1980 graças aos fanzines, as HQs produzidas por amadores (“fan magazine”, literalmente “revista do fã”, em inglês). Durante a ditadura, figuras como Angeli, Laerte e Glauco foram se destacando. O Pasquim, que contava com nomes como Ziraldo e Millôr Fernandes, criou vários personagens e histórias, na maioria das vezes utilizando-se do humor. Entre os países que mais produzem quadrinhos (além dos EUA) estão o Japão, com os mangás; e a França, que possui longa tradição das bandes dissinées (BD) - os quadrinhos

franceses. A importância que as HQs têm na França pode ser estendida por toda Europa, a ponto de terem sido incluídas depois no Manifesto das Sete Artes como a de número nove. A indústria de HQs no Brasil é tímida, porém vem ganhando reconhecimento no exterior. Em 2008, Fabio Moon, Gabriel Bá e Rafael Grampá ganharam o prêmio Eisner, na categoria Melhor Antologia com 5, e, no ano seguinte, Bá recebeu três prêmios por seu trabalho em The Umbrella Academy. “Se no Japão, na Europa ou nos Estados Unidos nossa profissão tem mais respeito, quem produz para estes mercados acaba respeitando mais o seu próprio trabalho”, escreve Gabriel em seu blog (10paezinhos.blog.uol.com.br). “Aqui não temos este respeito, nem por parte do público, nem dos autores”. Lourenço Mutarelli, afastado dos quadrinhos desde o cancelamento de sua tira experimental Ensaio sobre a bobeira, no jornal O Estado de S.Paulo, tem um projeto de livro ilustrado previsto para 2011. O autor, entretanto, não pretende voltar aos quadrinhos tão cedo. “Quero voltar por prazer e não por obrigação”. A respeito da situação brasileira, Grampá teoriza: “tem gente que tem preconceito, pois, talvez, entenda quadrinhos como uma coisa de criança. Há países em que quadrinhos são muito aceitos como arte”. Muitos autores brasileiros que publicam exclusivamente no exterior não são conhecidos aqui. Quanto ao fato de quadrinho ser uma forma de arte, para o autor de Desvendando os Quadrinhos, Scott McCloud, as dúvidas são quase nulas. “Apesar dos problemas, os autores brasileiros”, disseram Fábio Moon e Gabriel Bá em seu blog, “tentam inovar, trazer para cá a enorme diversidade de estilos vista lá fora”. Cachalote, de Rafael Coutinho e Daniel Galera, por exemplo, foi um lançamento aclamado pela crítica em 2009: traz em si cinco tramas paralelas de mistérios insolúveis. Editoras como a Companhia das Letras, Desiderata e o selo LeYa Cult têm enriquecido as estantes de livrarias com os quadrinhos de Ota a Arnaldo Branco. As revistas independentes e fanzines também continuam pipocando - a internet provou-se um ótimo meio de divulgação. Tarja Preta, Prego e Beleléu são algumas representantes do legado da Chiclete com Banana e outros sucessos do passado. Para Moon e Bá, “quadrinhos são como poesia, porque na poesia, palavras são mais que palavras e as imagens nos quadrinhos são mais do que meras imagens”.

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economia reprodução

Desenhando Passos Do traço ao 3D, a animação brasileira tenta superar os problemas de um mercado historicamente deficiente

REPORTAGEM gabriela nunes (1o ano de Jornalismo) Andressa basilio, fernando menezes e ivan oliveira (2o ano de Jornalismo) IMAGEM Fernando menezes (2o ano de Jornalismo)

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Em 2001, após 20 anos de produção e um orçamento de 4,7 milhões de reais, estreava nos cinemas de todo o Brasil O Grilo Feliz, animação de Walbercy Ribas, arrecadando cerca de um milhão de reais. Tal marca foi considerada um sucesso para uma produção nacional até então. No mesmo ano, a produtora americana Dreamworks trazia a história de Shrek, um ogro verde, gordo e rabugento que faturou do público brasileiro 262 milhões de dólares só na semana de estréia – 575 vezes mais que a produção nacional. Para Arnaldo Galvão, diretor da Associação Brasileira de Cinema de Animação (ABCA), o empecilho está nas diferenças de recursos que o mercado de animação brasileiro e o internacional dispõem. “Temos pouco espaço para divulgar o trabalho feito aqui. Os produtos americanos ocupam nossos cinemas com propriedade. Muitas vezes, o orçamento de um filme norte-americano é maior que o do Ministério da Cultura inteiro, para todas as áreas”, compara. Porém, as estimativas para a animação brasileira são positivas. Em toda a história, o país produziu 22 longas, sendo nove somente

em 2010. A evolução atinge também a variedade de temas: além das clássicas animações da Turma da Mônica, impulsionadas pelo sucesso dos quadrinhos, há hoje um grupo incipiente de animalovers se formando. Um dos motivos é a evolução do mercado nacional, principalmente na profissionalização do animador. “Nos últimos cinco anos surgiram cursos de formação acadêmica. O animador deve ter conhecimento mais abrangente, que envolva linguagem cinematográfica e técnicas narrativas”, completa Marcelo “Marão”, que trabalha com animação no Brasil há 15 anos.

contadores de histórias O problema atual dos animadores brasileiros não é mais o meio. A internet fez com que o acesso à tecnologia ficasse mais fácil e viabilizou a difusão de conteúdo. “Mesmo que a aparelhagem venha ao Brasil com atraso e a preços altos, a informação chega rápido. Então, isso fez com que pudéssemos instrumentalizar melhor os talentos daqui. Os desenvolvedores de software já olham para o Brasil como um mercado em potencial”, conta o diretor da ABCA. Viviane Adade, professora da escola de


plica a professora Viviane Adade. Por exemplo, o Canadá, além de contar com um mercado forte, tem profissionais qualificados que produzem por volta de 85% dos softwares de animação. Em comparação às brasileiras, uma produtora canadense de grande porte trabalha com um número dez vezes maior de profissionais. Mesmo assim, esse país tem investido na animação brasileira, principalmente na área de comerciais e curtas para a televisão. Muitos contratos pequenos já foram fechados, mas ainda há receio de investir em produções totalmente nacionais. “Quando o primeiro grande contrato for fechado, haverá um boom de qualidade na animação no Brasil, tanto no cinema como na TV”, acredita Dean Ivatchkovitch, sócio da EneSolutions - produtora de animação. Além de produções inteiras, há o mercado de freelances internacionais: os clientes pedem cenas animadas e os brasileiros as fazem aqui. Na área de comerciais de TV há um terre-

no fértil para a criatividade dos animadores brasileiros. É na área das propagandas que a maior parte dos profissionais consegue atuar no mercado”, diz Ivatchkovitch, que já lecionou em cursos da Academia de Arte e do Instituto Europeu de Design. A animação se tornou a principal fonte de renda da maioria dos estúdios do gênero no Brasil. “As emissoras preferem comprar direitos de transmissão de seriados estrangeiros a investir em uma série exclusiva, mesmo que os gastos sejam maiores na primeira opção”, explica Ivatchkovitch. Muitas propagandas brasileiras são bem vistas no exterior, como a do “siri da Brahma”, lançada em 2006. A qualidade na publicidade se deve aos maiores prazos e altos investimentos. “Para fazer a animação publicitária, uma produtora conta com três vezes mais tempo e dinheiro do que para fazer um curta ou uma série”, finaliza o professor Dean. LEIA MAIS NO PORTAL DA REVISTA ESQUINAS

Fernando menezes

animação 3D Mélies, acredita que o que falta aqui é formar bons contadores de histórias. “A animação tem que estar visualmente perfeita, assim como o roteiro, senão inviabiliza todo o trabalho. Infelizmente, é o que acontece com muitas produções nacionais. Fazer animação não é só saber usar software e fazer o ‘bonequinho se mexer’”. Sabendo da necessidade, escolas em todo o país estão investindo mais no profissional de animação. “O Brasil está crescendo e se profissionalizando. Ainda é limitado, mas as novas séries de TV, por exemplo, são a ponta do iceberg: sinal de que estamos evoluindo”, sinaliza Arnaldo Galvão. O diretor da ABCA se refere a quatro séries de TV animadas brasileiras que estão no ar: Escola pra Cachorros, Peixonauta, Princesas do Mar e Meu AmigãoZão. O desenvolvimento dessas produções é resultado de programas de incentivos, como o AnimaTV, concurso realizado pelo Ministério da Cultura e pela Secretaria do Audiovisual. O objetivo das iniciativas é diminuir a desvantagem que os animadores enfrentam no que diz respeito ao trabalho artístico e aos investimentos. Rosana Urbes trabalhou em filmes como Mulan e Tarzan durante os nove anos em que foi animadora da Disney, e sentiu a diferença. “Lá, davam dois meses para animar uma cena e esperavam. É preciso compreender que o artista é menos racional, dizer: ‘tudo bem, você está empregado, se não conseguiu fazer a cena nessa semana, faça semana que vem’. Isso aumenta o comprometimento com o filme. No Brasil, você tem três dias para animar um filme inteiro”, conta.

PROCESSO diferente A ABCA surgiu em 2003 com o intuito de desenvolver a animação brasileira e ajudar na criação de editoriais para o gênero. A associação conseguiu financiamento para pesquisas históricas sobre o que já foi produzido no país, direcionando a atenção para a animação brasileira. Assim, o Ministério da Cultura tem financiado projetos através de fomento direto e na realização de parcerias, promovendo a coprodução com outros países. Além disso, o Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES) também contribui concedendo empréstimos a juros baixos e com prazo extenso. São passos importantes para compensar o atraso e desenvolver uma indústria sustentável no Brasil. Mas o caminho é longo. “De acordo com os números, estamos próximos do patamar que os EUA estavam na década de 1930. A animação estava começando a florescer e a Walt Disney logo despontaria como principal estúdio”, compara Marão. Se a analogia pode soar negativa, ainda assim a constatação é a de que o Brasil está no melhor momento. “Vivemos a época mais fácil para conseguir incentivos e fazer sua produção”, acredita o animador. a CRISE E O BRASIL “Com a crise internacional de 2008, os clientes de animação buscaram produtoras com preços mais acessíveis, mas que faziam um trabalho de qualidade, como Índia, Coréia do Sul, Israel e Brasil”, ex-

No estúdio: Rosana Urbes, animadora brasileira que trabalhou na Disney por nove anos ESQUINAS – 2º SEMESTRE 2010

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ENSAIO

Retratos com Nossos fotógrafos saíram pelas ruas de São Paulo em busca de imagens eternizadas nas canções do cronista Adoniran Barbosa 36

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THAIS CAMPOY (2º ano de Jornalismo) usou uma Nikon D80 ƒ/8.0 – 18mm– ISO 1000 – 1/80s com Luz Natural. Movimento da estação da Luz, inspirado em “Trem das onze”

SAMBA ESQUINAS – 2º SEMESTRE 2010

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ANDRESSA CARRARA (3º ano de Relações Públicas) usou uma Canon EOS 7D – ƒ/4.0 – 50mm– ISO 400 – 1/60s com Flash Integrado para flagrar o animado casal dançando ao samba do grupo Demônios da Garoa, no SESC Interlagos

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ANDRESSA CARRARA usou uma Canon EOS 7D – ƒ/2.8 – 59mm– ISO 500 – 1/60s com Luz Natural para retratar Sérgio Rosa e seu pandeiro, do Demônios da Garoa

ANDRESSA CARRARA usou uma Canon EOS 7D – ƒ/5.6 – 65mm– ISO 100 – 1/160s com Luz Natural, entregando a simplicidade de acordes em “Apaga o fogo, Mané” ESQUINAS – 2º SEMESTRE 2010

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Vivyane Garbelini (3º ano de Jornalismo) usou uma Nikon D90 – ƒ/9.0 – 70mm– ISO 200 – 1/320s com Luz Natural para mostrar uma homenagem ao sambista em meio ao caos da cidade

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Vivyane Garbelini usou uma Nikon D90 – ƒ/9.0 – 70mm– ISO 200 – 1/320s com Luz Natural para revelar a grandiosidade da homenagem grafitada ESQUINAS – 2º SEMESTRE 2010

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YOLANDA MORETTO (1º ano de Jornalismo) usou uma Nikon D80 – ƒ/8.0 – 18mm– ISO 1000 – 1/80s com Luz Natural para mostrar os caminhos que um dia inspiraram o cronista

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rock paulistano

Rua Augusta: Inferno Club traz as novas caras do rock paulistano

Esse tal de

Rock n’ Roll

Pelas ruas de São Paulo, guitarras distorcem o som em diferentes estilos TEXTO Ana Luiza Pandolfi, bruno abreu, júlia caldeira, letícia valente, liliana barretto, lucas menegale, miguel amado, rodrigo tolotti (1º ano de Jornalismo) IMAGEM letícia valente (1º ano de Jornalismo)

Do centro velho ao novo: os pontos de encontro da cena rock paulistana transitam pela metrópole. Por São Paulo, podem-se encontrar garotos de cabelo estilo “tigela”, inspirados no rock’n’roll da década de 1960, até a nova geração do hardcore, com seus alargadores nas orelhas e tatuagens. Nos anos 80, a Galeria do Rock – localizada na Rua 24 de Maio, Anhangabaú – concentrava os cabeludos da cidade, fãs de rock pesado, de heavy metal e do som que vinha, sobretudo, dos Estados Unidos e da Inglaterra. Hoje, no entanto, o movimento se espalha ao longo do bairro Jardins, pela Rua Augusta, dividindo-se em clubes, bares e casas de show. “Não tem como fugir. Todos os rocks estão lá”, diz Anderson Endelécio, de 25 anos, frequentador da noite paulistana e integrante da banda Os RadiophonicoS. A Inferno Club é um exemplo de diversidade no local. A casa recebe desde bandas internacionais de hardcore, como a Madball, que se apresentará em novembro, até o stoner rock dos goianos Black Drawning Chalks. A Studio

SP também não fica atrás: lá se apresentam grupos como o carioca Copacabana Club e o Heroes, que toca covers de David Bowie. Na Zona Leste, também há espaço para o gênero. Lá se encontram as bandas de rock psicodélico, que buscam inspiração nos escritores do fim da década de 1950, como Jack Kerouac, autor de Geração Beat (2007, LP&M). Por esses lados também há um nicho para os fãs de rock gótico. O clube Aeroflith, localizado no bairro Belém, foi fechado há pouco tempo, mas aos poucos está voltando à ativa, promovendo eventos em feriados prolongados. Mas a maioria das festas voltadas para este público acaba se concentrando na Rua Augusta.

novo território Muitas bandas de outros estados vêm para São Paulo procurando melhorar sua carreira, já que a cidade oferece diversas opções de clubes e gravadoras. Os gaúchos do Fresno e os capixabas da Dead Fish são exemplos de músicos migrantes que ascenderam ao tentar sucesso na capital. “Dependendo do mês, entramos

em contato com uma média de 50 a 60 bandas”, explica Marco Badin, representante da casa de shows Hangar 110. Na internet, também é possível angariar público. Sites como MySpace e Trama Virtual auxiliam a conquistar ouvintes e a divulgar o trabalho da banda. Contudo, há aqueles que ainda não botam muita fé na rede. “A internet não tem filtros. Às vezes, você passa horas ouvindo lixo”, diz Luiz Calanca, dono da loja de discos Baratos Afins. “As pessoas têm que se desconectar e ver as coisas ao vivo, porque elas estão acontecendo”. A Secretaria da Cultura de São Paulo também tem incentivado a cena rock. Calanca, além de comerciante, é idealizador e organizador do projeto Rock na Vitrine. “Novas bandas se apresentam em uma caixa de vidro na Galeria Olido, todo segundo sábado do mês”. A entrada franca e o cenário pouco convencional são um convite para os pedestres da região. Atitudes como essas diversificam o rock paulistano, proporcionando opções diversas para os amantes da música.

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consumo IZABELA COSTA

ÁLBUM VIRTUAL: Em parceria com a gravadora Trama, o grupo Móveis Coloniais de Acajú disponibilizaram suas músicas para download

Música 2.0

Bandas independentes, festivais e o crescimento de downloads: a mercado da música tem se transformado cada vez mais REPORTAGEM izabela COSTA, luan freitas, marina maranhão, tainá grassi e yolanda moretto (1o ano de Jornalismo)

“Não existe mais regra nenhuma”, afirma o produtor e músico Chuck Hipolitho. Vocalista e guitarrista da banda de rock Vespas Mandarinas, ele reconhece as mudanças ocorridas no meio musical tanto no consumo, como na produção. “A internet e outros meios tecnológicos permitiram uma distribuição ilimitada, alterando o cenário em que produtores e músicos atuavam de forma definida”. Assim, a gravadora perde a maior parte de suas funções, dando espaço aos artistas independentes. “Teve um boom e agora estamos na infância da nova era da música”, esclarece o jornalista musical Lúcio Ribeiro. As mudanças criaram preocupações para quem está envolvido no meio, afetando diretamente a questão financeira, como o retorno dos investimentos e a legalidade das novas plataformas oferecidas. “O Móveis não defende a pirataria nem nada que é ilegal. Defendemos novos jeitos de se vender música”, alega BC, guitarrista do conjunto brasiliense Móveis Coloniais de Acajú. Há doze anos na estrada, os músicos sempre enfrentaram dificuldades, desde a luta pelo reconhecimento até as atuais implicações geradas pela internet. Por meio da parceria com a gravadora Trama, eles encontraram uma solução adequada para equilibrar a exigência do público,

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o ganha-pão do artista e as novas plataformas: o Álbum Virtual. Tal projeto permite o download gratuito e legal do CD, enquanto o artista é remunerado por patrocinadores, de acordo com o número de acessos. “Desde que a gente colocou o CD para baixar, a quantidade de vendas aumentou. Não necessariamente quem baixou, comprou. Mas quem comprou, necessariamente baixou”, completa Eduardo Borém, tecladista da banda. Os direitos autorais preocupam músicos e produtores. O ECAD (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição) é o órgão responsável pelo controle dos direitos autorais e reproduções públicas no Brasil. Sua atuação tem sido objeto de controvérsias, por ser vista com receio e desconfianças. “Não há um critério, um sistema claro de como as coisas funcionam”, argumenta Borém, em relação à distribuição de arrecadações. “Toda essa discussão de direitos cai na história de que a revolução está em curso. Ninguém sabe o que vai acontecer, nem o que fazer”, analisa Lúcio Ribeiro.

ECONOMIA Outra polêmica é a pirataria, pois além de infringir a lei, põe em xeque a questão dos direitos autorais. O hábito de pagar pela música adquirida na internet não é comum entre os brasileiros, ao contrário do que

acontece no exterior. “Não temos o mesmo mercado, por exemplo, que a Inglaterra tem. A música é considerada com um profissionalismo lá que aqui não existia”, aponta Lúcio. Faz parte deste fenômeno o aplicativo gratuito iTunes. Desenvolvido pela Apple, ele detém 70% do mercado de música digital, representando 28% de todas as canções comercializadas no primeiro trimestre de 2010, segundo uma pesquisa feita pelo NPD Group. “Lá fora, nenhuma banda ganha dinheiro vendendo disco”, reforça o produtor Chuck. Cada vez mais o artista passa a fazer o papel de próprio produtor, contribuindo para o crescimento de um cenário independente. Por outro lado, o produtor de bandas como NxZero e Planta e Raiz, Rodrigo Castanho, acredita que a troca de informações entre produtor e músico é fundamental. “Frequentemente o músico se apega às composições e às ideias, mas nem sempre todas são boas”, comenta e completa confirmando que “é importante que alguém limpe isso e tire um pouco do tal apego”. Resta às gravadoras a tarefa de divulgar e apoiar o artista em suas criações. “A gravadora vai agora atrás de shows e eventos, em busca do que gera lucros. Podemos dizer que o papel da gravadora, hoje em dia, é achar o seu papel”, arremata Lúcio.


TAINÁ GRASSI

“O artista tem que dar opção para quem quer comprar. O formato é só o formato, o que importa é a música” Eduardo Borém, do Móveis Coloniais de Acajú

Chuck Hipolitho acredita que novas tecnologias permitiram maior distribuição da música

FESTIVAIS Com tantas possibilidades, é difícil prever o futuro da música brasileira, tanto no seu conteúdo quanto no acesso. Os festivais independentes vêm como a tentativa de fomentar uma nova cultura, fazendo o público se enxergar como consumidor de arte. A tecnologia participa ativamente do processo, seja na divulgação ou comercialização. “O mercado atingiu um momento muito crítico, ninguém sabe o que e como fazer. Acontecerão muitas tentativas, mas nem todas vingarão”, conclui um Borém duvidoso. No dia 15 de agosto de 1969, acontecia nos EUA o festival Woodstock Music & Art Fair. A partir de então, o conceito e organização de grandes eventos musicais foi modificado, tornando-se referência até os dias de hoje. No Brasil, o contato entre público e ídolo ocorre com iniciativas como o Rock in Rio e o recente SWU (Starts With You). As grandes empresas também aproveitam os festivais, inserindo-se como patrocinadores, e usando a deixa para fazerem propagandas. O Tim Festival e o Pla-

neta Terra, são alguns exemplos deste nicho. Em um caminho paralelo, porém menor, os festivais independentes brasileiros promovem este mesmo contato e dão oportunidade à bandas menos conhecidas, mescladas às mais novas. “A gente deve fazer um intercâmbio com os festivais estrangeiros, aprender com eles e colocar em prática aqui”, expõe Lúcio Ribeiro. Chuck explica que “os festivais não estão preocupados com o sucesso, mas com a cultura e em trazer artistas que julgam serem interessantes, mostrar ao público o que ele quer ver e o que ele ainda não conhece”. A falta de patrocínio, e o extenso espaço geográfico do Brasil contribuem dificultando organizar e produzir esse tipo de evento. A principal motivação por trás dos festivais independentes é a transmissão de diferenciadas propostas, as quais nem sempre são compreendidas pelo público brasileiro. “A gente precisa mudar essa mentalidade”, acrescenta BC.

MERCADO Para o crítico Lúcio Ribeiro, a música está tomando um novo rumo

YOLANDA MORETTO

Entre tantas mudanças, há também o retorno de meios antigos, como o vinil. Considerado por muitos como um objeto clássico, o bolachão é mais uma opção para os amantes de música, demonstrando a imprevisibilidade deste comércio. Fernanda Takai, Cachorro Grande e Pitty são alguns dos artistas que passaram a utilizar o formato. “O artista tem que dar opção para quem quer comprar. O formato é só o formato, o que importa é a música”, destaca Borém, integrante do Móveis. Entretanto, os preços mais elevados fazem do vinil um produto especial. De acordo com um relatório da ABPD (Associação Brasileira de Produtores de Disco), no ano de 2009, o setor de plataformas físicas (CD, DVD e Blu-Ray) sofreu uma leve redução de 0,49% das vendas, o que gerou uma receita de aproximadamente R$ 358 milhões. Em contrapartida, as vendas digitais tiverem um aumento de 159,4%, o que representa 58,7% no mercado total de vendas digitais. Os outros 41,3% ficam por conta da telefonia móvel.

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circo CIRCO SPACIAL. Abertura do espetáculo conta com o show “Idade da Pedra”

A vida no

picadeiro As histórias, as dificuldades e os sonhos daqueles que percorrem o país e o mundo em nome da paixão pela arte circense REPORTAGEM luana fagundes, mayara moraes (2o ano de Jornalismo) e JULIANA DIAS (4º ano de Jornalismo) COLABORAÇÃO AMANDA NOGUEIRA (1º ano de Jornalismo) e GUSTAVO NÁRLIR (2º ano de Jornalismo) IMAGEM Luana fagundes e mayara moraes (2o ano de Jornalismo)

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luana fagundes

Eles dançam, cantam, tocam e voam. Fazem objetos e pessoas desaparecem em um estalar de dedos, desafiam a gravidade no trapézio, causam vertigem com os malabares e arrancam deliciosas gargalhadas da plateia. Crianças, jovens, adultos: não há quem não se renda a todo o encantamento dos artistas de circo. Pode ser que as origens e os destinos diferenciem-se uns das outros, mas a paixão pelo o que fazem é única, basta observar o brilho nos olhos e o sorriso no rosto. De habilidades tão fascinantes e aura tão mágica, o respeitável público é capaz de, por momentos, esquecer que, exceto pela vida itinerante, esses artistas cultivam hábitos iguais aos de qualquer mortal. Por trás da maquiagem, do figurino e do artista existe uma pessoa com histórias, sonhos e dificuldades. Para viver do circo as barreiras internacionais são transpostas. André Faleiros é hoje músico e recrutador de talentos do canadense Cirque du Soleil. Nascido na Holanda em 1975, sua trajetória sempre teve a música e o circo como referências. Após formar-se em Jazz na Universidade de Concordia, no Canadá, André foi chamado para integrar o Soleil como baixista. “Eu já adorava o circo quando conheci os internacionais Cirque de Demain, Éloize e o 7Doits de laMain, além do próprio Cirque du Soleil”, conta, satisfeito em integrar uma companhia de alcance mundial. “Foi ótimo seguir a carreira de músico e mudar de país. Meus pais me avisaram das dificuldades, mas nunca me desmotivaram. Continuo exercendo minha profissão, agora ao lado da minha esposa e dos meus filhos”, conta o músico, feliz em poder exercer sua escolha sem prejudicar o relacionamento familiar.

casa de lona Para Caroline Rigoletto, de 19 anos, malabarista do Circo Spacial, os bastidores do show sempre foram sua casa. Membro da quarta geração de artistas da tradicional família circense, para ela aventurar-se na carreira faz parte de um ciclo natural. “Eu tive iniciação em números aéreos, mas não gostava. Foi com meu namorado, Thiago de Oliveira, que aprendi malabares. E isso faz a minha história diferente das outras famílias tradicionais: uma pessoa de fora me ajudou a aperfeiçoar a minha arte”, conta orgulhosa. Carol diz ainda que “vivia brincando com as bolinhas, jogava laranja, maçã e tudo o que tinha na escola”

para treinar e a vinda do acrobata e malabarista Thiago só a encorajou mais. No caso da mãe de Caroline, Elaine Rigoletto, mais conhecida como Aline, de 43 anos, os pais também não influenciaram a decisão de trabalhar nos espetáculos. Para ela, “é muito natural, pois criança de circo brinca observando os artistas experientes e tentando imitá-los”. Pensando em um futuro melhor tanto a mãe quanto a filha fazem faculdade: Carol faz Educação Física e Aline quer ser veterinária. “Se for possível, eu gostaria de unir as duas profissões, ficaria muito realizada”, confessa a mãe.

A escolha O paranaense Gilmar Querubim foi bancário por oito anos até sua irmã, Marlene, o convidar para fazer parte da Trupe Spacial. “De um simples bancário, virei um dos palhaços mais respeitados do país”, declara, sem modéstia, o hoje famoso palhaço Pingolé. Ele já ganhou prêmios da categoria, sendo eleito em 2000 o melhor palhaço do Brasil. Gilmar conta com bom humor que ele “era aquele bobo da corte que vivia contando piada, só que deu certo”. Deu tão certo que ele trabalhou com palhaços de renome, como Chupetinha, Catatau e Bossa Nova, reconhecidos e fonte de inspiração no cenário circense nacional. Entrar no circo foi só o começo para Pingolé. Hoje pensa seriamente em realizar dois sonhos que sempre teve: gravar um CD e fazer um programa de televisão. Para estes artistas, a formação profissional e o contato com a família não se sobrepõem à profissão circense. É a dedicação e a força de vontade que movem cada espetáculo no palco, e fazem com que o show não pare, no Brasil e no mundo. LEIA MAIS NO PORTAL DA REVISTA ESQUINAS

mayara moraes

Arte exportada Como André Faleiros, outros artistas brasileiros são exportados

e ganham reconhecimento internacional. É o caso de Peterson Jardim, o palhaço Peter, de 22 anos, que praticamente nasceu no picadeiro e, a convite de um amigo, foi para os EUA trabalhar com o Moscou State Circus, na Flórida. “Em menos de um mês já estávamos viajando para os Estados Unidos”, lembra. Atualmente, Peter se apresenta com a trupe norte-americana Circus Dreams que traz artistas de várias nacionalidades, além de musicais. “O circo consegue fazer uma mistura interessante com um estilo Broadway. Já ficou em cartaz em Nova Iorque por dois meses”, destaca. As experiências que teve no decorrer da vida, relacionadas ao circo, lhe serviram de inspiração. “Eu comecei graças ao Chang Bayeta, que me deu o primeiro empurrão”, conta em referência ao equilibrista. Chang já ganhou os troféus Picadeiro 2000, Arte Circense Cidade de São Paulo, além do Festival de Circo do Chile em 1999. Ele explica a gana do artista circense brasileiro em trabalhar no exterior. “Os artistas trabalham aqui, mas pensam nos Estados Unidos, na Europa, na Itália. É como o jogador de futebol: começa aqui, mas quer fazer carreira fora. Não é culpa de ninguém, pois isto é cultural”.

DE FAMÍLIA. Aline Rigoletto mostra sua arte na apresentação ESQUINAS – 2º SEMESTRE 2010

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POINTS

TEXTO E IMAGEM fernanda gonçalves (1º ano de Jornalismo)

Entre petiscos, drinks e cultura Restaurantes e bares: onde os comes e bebes vão além da filosofia de boteco

Risadas, vozes em alto volume e muito barulho

Espaço Parlapatões na Praça Roosevelt

Bar do Cidão Escondido no bairro de Pinheiros, o Café du Rève – apelidado de Bar do Cidão, em homenagem ao dono, o ex-motorista de carreta Aparecido Pereira de Melo – é o lugar ideal para aqueles que apreciam MPB, samba de raiz e choro. “O que eu mais gosto é o fato de ter música todos os dias. É um lugar pequeno, sem aquele clima de balada. Há também o fato de o Cidão, que é uma figura ímpar, sempre abrir a porta para novos músicos”, conta João Camarero, de 20 anos, músico e frequentador do bar. Aberto em 1995, conta com uma estreita porta de vidro que leva a um ambiente pouco requintado, porém intimista, regado a cerveja e música ao vivo de alta. A tradicional roda de samba composta por músicos da nova e velha guarda, como Aldo Bueno e Beth Carvalho. Café Du Rève (Bar do Cidão) Rua Deputado Lacerda Franco, 293 – Pinheiros Telefone: 3233-2453 Couvert: 8 reais

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são elementos presentes em qualquer bar de esquina. Mas naquele canto da Vila Madalena ou no começo da Rua Augusta, é provável que o vozerio seja formado por conversas sobre a direção de determinada peça, o tom da música ou a nova obra de algum artista em ascensão. Os artistas escolheram seus pontos de encontro. “No teatro, convivemos muito uns com os outros e nos relacionamos durante anos, como uma família. Jantamos juntos depois de cada espetáculo, e sempre arranjamos tempo para darmos uma passada nos vários bares e restaurantes que frequentamos”, conta o diretor Marcus Cardelíquio, que costuma ir aos restaurantes do Baixo Augusta e à Praça Roosevelt. Ao cruzar o ambiente é possível perceber qual “gueto” se formou ali - isto se a roda de samba da mesa ao lado ou os cartazes de peças de teatro pregados nas paredes já não tiverem denunciado onde estamos. Triângulo das Permutas Localizadas na região do Baixo Augusta, as cantinas Piolin, Luna di Capri e Planeta’s são os principais pontos de encontro da classe teatral paulistana. Eles receberam o apelido de “triângulo das permutas” por estarem próximos e oferecerem descontos às companhias em cartaz. Os três ficam abertos até de madrugada, já que o pessoal costuma sair para jantar após os ensaios e espetáculos. No cardápio, alguns pratos levam o nome de artistas frequentadores e de peças, como o “Picadinho à Cocó” e filé à “Trair e Coçar”. Piolin Rua Augusta, 311 – Bela Vista Telefone: 3256-9356 Planeta’s Rua Martinho Prado, 212 – Bela Vista Telefone: 3256-5330 Luna di Capri Rua Martinho Prado, 187 – Bela Vista Telefone: 3258-7768

Praça Roosevelt Perto do início da Rua Augusta, também se encontram pessoas ligadas às artes cênicas: a Praça Roosevelt, palco do recente caso de violência em que o dramaturgo Mário Bortolotto foi baleado. O local vem sendo revitalizado com a presença das companhias de teatro. Na praça estão situados diversos espaços de teatro e bares que contam com mesas na calçada e performances artísticas, deixando a região movimentada e alegre. Espaço dos Satyros Praça Franklin Roosevelt, 134 e 214 – Consolação Telefone: 3258-6345 Entrada franca Espaço Parlapatões Praça Franklin Roosevelt, 158 – Consolação Telefone: 3258-4449 Entrada franca

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TEXTO E IMAGEM laura hauser (2º ano de Jornalismo)

INTERNACIONAL

à francesa

Tradicional reduto de arte francês, o Centro Georges Pompidou inova com eventos voltados às novas artes e à inclusão dos imigrantes em Paris

A arquitetura psicodélica do Centro Georges Pompidou choca os turistas que passeiam pelo coração de Paris. Embora idealizado em 1970 pelo então presidente francês Georges Pompidou, o centro apresenta estrutura de tubos retorcidos que trazem uma impressão de modernidade. O objetivo era fundar um local destinado às novas formas de arte, que atualmente provoca um belo contraste com as construções clássicas parisienses. “Venho aqui aos domingos para conversar com os amigos, deitar sob o sol e ver algo de interessante”, conta a frequentadora Marguerite Puennte, de 25 anos. A jovem estava sob o enorme pátio de entrada do Pompidou, que acolhe jovens, artistas de rua e ainda manifestações públicas. Para entender o papel do centro, é preciso compreender o que se passa com a arte contemporânea. Quanto mais os fenômenos artísticos se aproximam de nossa época, mais difícil fica compreendê-los e, por consequência, julgá-los. O Pompidou entra neste

contexto como um espaço de experimentação aberto não só aos artistas, mas a todos que querem discutir e entender a arte, além de si próprios. A mediadora e chefe de projeto do centro, Cathérine Boireau, acredita que “o artista fala da sociedade, da política e da economia. Portanto, a cultura e a arte somos nós”. No dia 11 de setembro deste ano, ela inaugurou o “Studio 13/16”, espaço destinado a aproximar adolescentes de 13 a 16 anos dos museus e da arte. A estreia contou com o workshop dos artistas franceses Roman Demongeot e Lauront Lacotte. “O intuito é tratar da ideia da vestimenta. Achamos um tema interessante para dialogar com adolescentes: a carapaça que usamos todos os dias”, explica Demongeot. Outro destaque do Pompidou é a exposição do trabalho da artista Tânia Bruguera. Ela enviou e-mails a diversos nomes, como o suíço Christoph Draeger e o mexicano Daniel Guzmán, pedindo permissão para copiar seus vídeos artísticos em DVD. Bruguera imprimiu

e expôs as respostas de todos eles nas paredes do último andar do edifício. Os DVDs foram vendidos, a um euro cada, por estudantes de arte e imigrantes que ganham a vida com o comércio ilegal. “Foi uma ótima oportunidade de começar a trabalhar, ainda mais numa proposta que acho interessante”, conta Jean Pigounides, estudante de arte de 21 anos. A ideia dos projetos e exposições que acontecem no Pompidou é trabalhar a questão do direito à cultura, considerado um dos pilares da democracia. Os eventos propõem discutir as barreiras que impedem a população, principalmente os jovens, de ter acesso a esse segmento. Por isso, Paris é uma cidade interessante a ser trabalhada, pois tem uma presença imigrante forte e enorme quantidade de pessoas a serem integradas ao mundo artístico. “Venho aqui com meus pais. Agora eles estão vendo outra exposição, mas eu preferi ficar aqui, é legal! Acho que voltarei mais vezes”, afirmou Pierre Demetrion de 11 anos, enquanto participava do “Studio 13/16.

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TEATRO Pedro Pires, diretor e ator da Companhia do Feijão, se prepara para a peça “Pálido Colosso”

Palcos e

palanques Sem panfletagem nem partido político, o teatro engajado de hoje assume nova forma e postura social REPORTAGEM Amanda secco, estevan muniz (1o ano de Jornalismo), GIULIA LANZUOLO, JAQUELINE GUTIERRES, JESSICA FIORELLI, NATÁLIA ALVES (2º ano de Jornalismo)

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GIULIA LANZUOLO

desde 1994, explica que o “engajamento está relacionado à liberdade de expressão e que, para eles, o teatro deve ser uma ferramenta para melhorar o mundo e as relações humanas”. O espetáculo do grupo que melhor refletiu esse posicionamento foi Utopia, realizado em comemoração aos quatro anos do Espaço Parlapatões neste ano. Na peça, o palhaço Leo Bassi criticava os dois extremos da política: a direita pelas injustiças sociais e a esquerda pela falta de paixão e de ideias. “Tem que se fazer piada com quem estiver no poder. O humor tem que ser anárquico. Engajado, ele só empobrece porque não permite olhar o outro lado”, argumenta Barretto.

MOvido a Feijão Desde 2006, a Companhia do Feijão estabeleceu sua sede na região central de São Paulo. Quando fundada, em 1998, pelo ator e diretor Pedro Pires e pela atriz Camila Bolaffi, era um teatro itinerante. “Desde o início, a ideia era falar de assuntos que nos incomodavam e isso ainda acontece. A nossa responsabilidade é com os dias de hoje”, explica Pires. Apesar de serem críticos e irônicos ao retratarem a política nacional, a Companhia do Feijão não tem o título de engajada. “De forma alguma somos panfletários ou temos respostas e receitas políticas”, afirma Zernesto Pessoa, diretor do grupo. “A gente é engajado no sentido de fazer com que o teatro seja um lugar de discussão do homem e da sociedade”, complementa Pedro Pires O marco inaugural do grupo foi o espetáculo Movido a Feijão, que rendeu nome à Companhia. Pires conta que estavam fazendo uma pesquisa de campo para a primeira peça, ainda sem título, quando viram “atrás de uma das carrocinhas de catador de papel escrito: movido a feijão”. Apesar das instabilidades da área, Pedro afirma que a Companhia independe de modismo de mercado. “A moda muda rapidamente e de repente vai pra onde acha que vai dar dinheiro. Não seguimos isso”, pontua. Pessoa enfatiza que “o importante é que o teatro os mobilize”. Nem todos que transitam pelo universo das artes cênicas pensam assim. Para o crítico de teatro Michel Fernandes, responsável pelo site Aplauso Brasil e membro da Associação Paulista de Críticos de Arte, esse tipo de teatro é algo fora de seu tempo. “Depois da ditadura, falar em teatro político ficou um pouco ultrapassado, pois, teoricamente, ia contra uma proibição que vinha com a censura”.

Cortejos de Dionísio Ainda na Praça Roosevelt, encontram-se as sedes Espaço dos Satyros I e II. O grupo, que surgiu entre as décadas de 1980 e 90, tinha a intenção de fazer um teatro vinculado à pesquisa e à experimentação. O nome vem da mitologia grega: Satyros eram as divindades que abriam caminho para os cortejos do deus Dionísio e que deram origem ao teatro. Em 1990, o grupo encenou seu primeiro sucesso inspirado na obra de Marquês de Sade, Sades ou Noites com os Professores Imorais, que mais tarde foi remontada sob título Filosofia na Alcova. A peça trata “de uma menina inocente apresentada a um mundo corrupto, que só vive de aparência”, diz o dramaturgo Rodolfo Vázques. “Nós éramos a menina e aquele mundo, o governo Collor”. O teatro “político-terapêutico” do grupo prega maior consciência sobre o conflito da exploração humana. Para Vázquez, “o engajamento é inevitável, mas não necessariamente político”. A Companhia não faz teatro marxista e não trabalha com uma perspectiva ideológica clara, mas leva a política ao plano social e das relações pessoais. “Redu-

Parlapatões Nas proximidades do centro está a Praça Roosevelt, famosa pela vida cultural agitada desde a década de 1960. Lá fica a sede do grupo Parlapatões desde 2006. Fundado em 1991 por Hugo Possolo e Alexandre Roit, o grupo começou realizando espetáculos circenses que, aos poucos, ganharam forma teatral e que depois foram integrados aos espetáculos de rua. A Companhia não se vê como um grupo de teatro político. Raul Barreto, ator do grupo

zir as pessoas a classes é diminuir o poder do teatro”, comenta o dramaturgo.

o Latão Na Vila Madalena está a Companhia do Latão. Desde o início, em 1996, o grupo se compromete a ser um teatro de pensamento político que “vai contra certas práticas sociais e ideologias dominantes”, como conta Sergio de Carvalho um dos idealizadores e atual diretor do projeto. A Companhia optou por não assumir diretamente um posicionamento partidário, mas faz uso do marxismo e da dialética como referência crítica. “No teatro épico, você não perde a emoção da personagem ou o gosto de ir ao teatro, mas coloca o prazer em outro nível, seja ele político ou econômico”, afirma Felipe Moraes assistente de dramaturgia do grupo. O engajamento do Latão está também na forma como ele é pensado e encenado. “Não existe arte revolucionária sem forma revolucionária”, diz Moraes. Isso porque as peças da Companhia pretendem gerar uma tomada de posição por parte de quem assiste em relação ao que se desenrola no palco. Segundo Moraes, os espectadores compreendem os conflitos de acordo com uma dimensão social em vez de uma dimensão psicológica. “A história do Latão é de modificação da obra do dramaturgo alemão Bertold Brecht, segundo um contexto nosso e também um tempo nosso”, define Carvalho ao falar da atualidade do trabalho da companhia. O Latão e a Academia têm íntima relação. O grupo pesquisa e escreve artigos que, dependendo da verba, são compilados em livros como Introdução ao Teatro Dialético – Experimentos da Companhia do Latão (Expressão Popular:2009). Além dessas obras, a Companhia publica a revista Vintém, com discussões sobre arte no Brasil e o jornal Traulito. DIVULGAÇÃO

Espetáculos grandiosos, releituras de textos clássicos, atores e palcos famosos são algumas imagens do que se entende por teatro. Estas características foram originadas do chamado Teatro Italiano e até hoje vingam nos espetáculos comerciais brasileiros. Já os “engajados” lutam por incentivos do governo, encenam peças a baixos preços e têm a intenção de instigar o espectador. No Brasil, estas peças surgiram com o Teatro de Arena, em 1953. Por conta da proposta inovadora, o grupo vivia numa corda bamba financeira, que só teve fim quando, em 1958, com a encenação Eles não usam Black-Tie, dirigida por Gianfrancresco Guarnieri.

Por trás da cortina: bastidores da Companhia do Feijão ESQUINAS – 2º SEMESTRE 2010

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pais

Família

como nossos

Filhos de nomes relevantes no cenário da música nacional contam como é seguir os mesmos passos dos pais REPORTAGEM Anna beatriz pouza, bianca paulino chaer , DÉBORA PINHO, MARIANA MATHEUS RIZZATTO (1o ano de Jornalismo) e IONE AGUIAR (2º ano de Jornalismo)

“Na minha casa/Todo mundo é bamba/ Todo mundo bebe/Todo mundo samba” Foi no refrão de “Casa de Bamba”, que Martinho da Vila, cantor e compositor carioca de 72 anos, resumiu a inclinação de sua família à música. Dos oito filhos, as cantoras Analimar Ventapane, de 46 anos, e Mart’nália, de 45 anos, começaram adolescentes fazendo backing vocals nos shows do sambista e seguiram carreira. Mart’nália, considerada hoje um forte nome da MPB, revela, em entrevista ao jornal mineiro Diário do Aço, ter recebido do pai alguns ensinamentos importantes. “Aprendi com ele que o palco é um lugar para se ficar à vontade e entre amigos. Não é um lugar para a solidão”, avalia. Mais difícil de acreditar é que nessa casa de bambas alguém troque Noel Rosa por Chopin: a terceira mais nova, Maíra Freitas, de 25 anos, é pianista erudita, premiada em concursos nacionais e internacionais, e estuda música na UFRJ. Este é apenas um dos exemplos de filhos de pais músicos que seguem o mesmo caminho. Como explicar o grande número de cantores na MPB que carregam a música no sobrenome? Não é difícil lembrar alguns: Sandy & Jr., a dupla infantil lançada pelo pai, o cantor sertanejo Xororó; Maria Rita e Pedro Mariano, filhos de Elis Regina e César Camargo Mariano; Gonzaguinha, que seguiu os passos do pai, Luiz Gonzaga; Bebel Gilberto, filha de João Gilberto e Miúcha; Nana, Dori e Danilo Caymmi, prole de Dorival Caymmi; Luiza Possi, cantora assim como sua mãe, Zizi Possi; o ídolo teen Fiuk, famoso herdeiro

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de Fábio Jr... A lista só aumenta. Os dois últimos, em especial, estão há algum tempo sob os holofotes da mídia e do público. O caso de Filipe Galvão, o Fiuk, de 20 anos, deve-se ao recente sucesso de sua banda Hori e ao trabalho como protagonista em Malhação, seriado da Rede Globo. Apesar da divergência de estilos musicais, Fiuk diz espelhar-se no pai. “Parece que sou Fábio Jr. versão 2000, é meio doido. Ele é meu ídolo. Quero um dia ter 40 anos de sucesso”, afirmou em entrevista ao site Terra. Já Luiza Possi, de 26 anos, tem viajado o país com a turnê do CD, “Bons Ventos Sempre Chegam”, lançado em maio de 2009. Em entrevista ao programa Ponto Remix, da TV Cultura, a cantora afirma que sua mãe a “influenciou, sim, mas nunca induziu”. Outro artista que herdou a musicalidade paterna é o cantor e produtor musical Wilson Simoninha, de 46 anos, irmão do também cantor Max de Castro, de 37. Simoninha chegou a cursar um semestre de Direito, mas optou pela música. Para ele, “crescer em um ambiente artístico foi determinante”. Desde pequeno, o cantor conviveu com personalidades dos palcos e dos bastidores da música popular. “Me lembro de um almoço que teve em casa com o Stevie Wonder e era gozado porque eu nunca tinha visto um cego, achei aquilo diferente”. A escolha por seguir o caminho do pai acabou sendo natural. “Show, estúdio, gravação passam a ser coisas cotidianas. Até porque, para manter os filhos por perto, a única forma que tinha era ele

levando a gente junto”, diz o músico sobre o pai, o showman Wilson Simonal. A cantora Luciana Mello, de 31 anos, é a herdeira mais nova do músico Jair Rodrigues argumenta que, além do aprendizado valioso sobre os segredos do showbizz, a musicalidade vem praticamente do berço. “Se você tem pais músicos, é muito mais fácil seu ouvido se adaptar à música do que alguém que entrou em contato com esse mundo só mais tarde”, explica. Conta que, desde muito novos, quando recebiam em casa os amigos do pai, ela e o irmão cantor, Jair Oliveira, de 35 anos, preferiam vê-los compor a brincar na rua. “Acho que foi nessa que meu pai percebeu meu interesse e me convidou para cantar uma música com ele”, relembra. Após a interpretação conjunta de “O Filho do Seu Menino” - composição de Hildo Hora -, aos 5 anos, nunca mais parou, e hoje contabiliza cinco álbuns gravados. Jairzinho também começou cedo a carreira musical: aos 10 anos, entrou para o grupo infantil Balão Mágico. Contudo, nem sempre há o incentivo do pai artista. Filho do violonista e compositor Baden Powell, falecido em 2000, o também violonista Marcel Powell, de 28 anos, teve contato com a vida profissional do pai desde pequeno, acompanhado do irmão Phillipe Powell, pianista. Mesmo assim, não foi incentivado a seguir o mesmo caminho. “Acredito que, pelas dificuldades que ele já tinha passado no mundo da música, não queria que a gente passasse também”. De todo modo, o sobrenome famoso pode


Filho de peixe: Luciana Mello, Marcel Powell e Wilson Simoninha assim como seus pais se aventuram na música

“Meus pais sempre me disseram que, na vida, é 50% dom e 50% chance. Não adianta Deus te dar talento se não há esforço” Luciana Mello

proporcionar facilitações. Filho de Roberto Menescal, de 73 anos, um dos fundadores da Bossa Nova, o produtor e baixista do grupo carioca BossaCucaNova, Márcio Menescal, de 44 anos, conta que o prestígio do pai “abriu portas e continua abrindo.” Se é muito mais fácil começar uma carreira com um empurrão dos pais, em contrapartida há muito preconceito com filhos de pais consagrados. É só puxar pela memória a enxurrada de comparações entre Maria Rita, no início da carreira, e Elis Regina, pela semelhança de timbre e pose das duas. No primeiro show de Maria Rita, o jornal Folha de S.Paulo afirmou que a cantora “evocava o gestual de helicóptero que a mãe fazia nos primórdios de ‘Arrastão’”. Com o tempo, conseguiu descolar sua imagem da de sua mãe. A cobrança é frequente tanto por parte da mídia quanto do público. Mesmo assim, a maioria lida ou diz lidar bem com a questão. “Eu costumo dizer que, se estão me comparando ao Baden: que bom!”, conta Marcel. Luciana afirma nunca ter sofrido muito nesse sentido. “Exatamente por ser filha de Jair Rodrigues, fui muito bem preparada. Já havia visto não só meu pai, mas também meu irmão, passarem por isso, e essa experiência me ensinou a me comportar melhor frente a esse tipo de situação”. Por conta das constantes comparações, alguns artistas fazem questão de buscar suas próprias características musicais. “Nunca fiz uma coisa muito na cola do meu pai”, conta Luciana que afirma ainda nunca ter recebido

interferências do pai. “Ao contrário, sempre cuidou para que eu fizesse o que queria”. Embora a paternidade famosa abra muitas portas, não garante a manutenção do sucesso de ninguém. Maria Rita, que em seu álbum homônimo lançado em 2003 com direito a especial na Rede Globo, atingiu a marca de um milhão de cópias. Porém, com o trabalho mais recente, “Samba Meu”, não atingiu um quinto desta marca. “Essa história de filho vai até um certo ponto. Você tem que saber usar isso a seu favor, mas não pode ficar só atrás disso”, opina Marcel Powell. Luciana compartilha dessa opinião. “Meus pais sempre me disseram que, na vida, é 50% dom e 50% chance. Não adianta Deus te dar talento se não há esforço”. Na sombra de gigantes da música brasileira, os cantores de linhagem nobre dificilmente transcendem o minguado título de filho. Sobre essas expectativas causadas pelo sobrenome, Menescal opina: “Me dedico à musica com tanto respeito e dedicação que as pessoas sentem isso. Nunca serei um musicista ou diretor de uma grande gravadora como meu pai, mas aos poucos venho mostrando meu trabalho.” De fato, em raríssimos casos – como o de Luiza Gonzaga e Gonzaguinha - chegam a ter reconhecimento similar ao dos pais. Resta a busca pela originalidade. Simoninha defende-se como pode: “O Simonal é um gênio, difícil eu querer me comparar a um gênio. Vou estar sempre em desvantagem. Eu tenho o meu caminho, eu busco”, completa.

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MODA

Tendência e movimento A moda é considerada expressão histórica de um povo. Mas moda é arte? REPORTAGEM marília leoni, virgínia mesquita (1o ano de Jornalismo) e LOUISE SOLLA (2º ano de Jornalismo)

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Roupas? Arte? Comportamento? Identidade? Segundo o coordenador do curso de Moda da faculdade Fundação Armando Álvaro Penteado, Ivan Bismara, moda é tudo isso e um pouco mais. “A moda representa o comportamento das pessoas e revela como são e onde vivem”. A palavra moda começou a ser utilizada na França no século XV, a ainda considerada pátria desse ofício, e provém da palavra em latim Modus, que também significa “maneira de se conduzir”. Como indica a etimologia, o conceito vai muito além das roupas. A maneira como uma sociedade se veste reflete o comportamento e o modo de pensar de uma época. “A moda representa as épocas e a sociedade como um todo, nada melhor que ela para retratar o que aconteceu em um período histórico” afirma Bismara. Sexo, idade, identidade social, religião, nacionalidade, tribo urbana, profissão e outros aspectos de personalidade. Muito dizemos sobre nós mesmos apenas ao abrir o guarda-roupa de manhã. “A moda expressa de forma indelével à verdadeira alma de um povo: é a arte de fazer de um pedaço de tecido algo tridimensional”, defende Bismara. O primeiro a tentar aproximar seu ofício da expressão artística foi o inglês Charles Frederick Worth, no século XIX. Não satisfeito em ser considerado apenas um artesão, ele passou a assinar suas peças e a se referir como artista, e não alfaiate, o termo mais utilizado na época. A partir desse momento, os costureiros passaram a ganhar o status de estilistas, mas ainda assim, não de artistas. Apesar dos esforços de Worth e outros estilistas que buscam o reconhecimento de artistas, a moda ainda é, muitas vezes, considerada uma atividade extra artística, sendo vista apenas como um ofício ou uma atividade comercial.

A DISCUSSÃO Segundo Otávio Pereira Lima, professor de Negócios de Moda da Faculdade Anhembi Morumbi, um dos fatores que afasta a atividade do âmbito artístico é exatamente a influência do comercial, que a impede de ser considerada arte. “Não podemos pensar na moda como um movimento artístico e considerá-la arte, visto que as coleções estão atreladas ao comportamento de consumo de um nicho mercadológico”. No entanto, ele acredita que a moda bebe nas fontes de outras correntes artísticas. “A arte influencia a moda na questão do desenvolvimento de visualidades e movimentos estéticos pensados segundo o olhar do artista para o contexto em que vive a sociedade”. Recém-formada em Moda pela Universidade Anhembi Morumbi, Mariana Lima concorda que a influência do aspecto mercadológico pode interferir no lado criativo da produção. “Quando saímos para o mercado de trabalho, nos deparamos com quem irá nos contratar: as empresas. Elas estão preocupadas com números, ou seja, gastar pouco para lucrar mais com a venda. Existe

um orçamento para desenvolver a coleção, então é necessário saber conciliar”, lamenta. Atualmente, os limites entre moda e mercado são difíceis de serem determinados, o que leva a atividade a ser comumente associada ao consumismo e não à expressividade. A alta-costura, também conhecida por haute couture, é forma que mais se aproxima de arte, pois devido aos seus altos valores, se desprende do mercado e é mais voltada para a liberdade criativa do estilista. “Como essas peças são únicas, artesanais e extremamente caras o estilista tem total liberdade para se expressar, sem precisar se preocupar muito com os materiais a serem utilizados, valores, conforto e o quanto a peça é usável ou não”, explica Mariana Lima. Denise Polini, uma das Coordenadoras do Setor Educativo do Museu de Arte Brasileira da FAAP e pesquisadora de História da Arte não acredita que diferenciações entre moda e arte sejam necessárias, já que ambas apresentam discursos diferentes. “A questão mais pertinente não é se moda

é arte, mas sim discutir porque precisamos delimitar tanto as fronteiras. A moda é uma expressão criativa riquíssima, que pode ser tão instigante quanto a arte, porém está sujeita a outra dinâmica”, esclarece. “Na verdade, hoje em dia, o que é arte? É o que está nas galerias? Muitas vezes você vê coisas incompreensíveis que são chamadas de arte. Nesse querer segmentar, rotular, perde-se o mais importante que é o conteúdo”, concordou o estilista Jum Nakao, que realizou o desfile “A Costura do Invisível” em 2004, quando perguntado sobre a natureza da moda pelo Jornal do Povo. A expansão do conceito de arte que ocorreu no século XIX, com movimentos como a arte contemporânea, tornou os limites entre moda e arte ainda mais difíceis de serem determinados, talvez até inexistentes. Arte ou não, a moda é uma das formas de expressão estética mais básicas do homem e, assim como outras formas de manifestação artísticas, é capaz de narrar a história do seu tempo.

Embora não seja arte, a moda vive influenciando as sete formas de manifestação artística e por elas é influenciada também: Cinema

Dança e Teatro

Filmes de época impressionam pelo detalhismo e a reconstrução do contexto histórico como “Elizabeth – A era de ouro” e “Maria Antonieta”. Algumas películas criam frisson entre fashionistas de todo mundo como em Bonequinha de Luxo, onde a atriz Audrey Hepbur tranforma o little black dress (tubinho preto) em símbolo de elegância. O estilista Christian Lacroix, que desenvolveu figurinos de apresentações de balé como Sherazade para Opéra Nacional de Paris, é também presidente Centro Nacional do Traje de Cena. Coco Chanel, assim como ele, também apoiou muito a dança. O estilista Karl Lagerfeld, conhecido como Kaiser da moda, desenhou os trajes da comemoração dos 100 anos da companhia russa de balé Diaghilev.

Escultura

A estilista Schiaparelli inspirou-se em duas obras de Dalí, o “TelefoneLagosta”, que reproduziu em um vestido com estampa da lagosta, e em “Vênus de Milo com gavetas” para desenvolver seu casaco-mesa, repleto de bolsos e botões que remetiam às gavetas da obra surrealista.

Pintura

Dos estilistas, um dos que mais se inspirou em artistas plásticos foi Yves Saint Laurent, que criou peças baseadas em obras de Mondrian a Wesselmann. Em 2007, no aniversário de 60 anos da Dior, John Galliano desenvolveu uma coleção inspirada em seus pintores favoritos, incluindo Monet e Degas.

Música

Os trajes performáticos que eternizaram Elvis Presley, o soutien de cone de Jean Paul Gaultier utilizado por Madonna e as calças skinny de couro popularizadas por Jim Morrison: a música, dita comportamento, atitude de seu tempo.

Literatura

Um dos livros de cabeceira das aficionadas por moda é “O diabo veste Prada”, de Lauren Weisberger, que mistura romance com uma pitada de ironia ao descrever os bastidores do mundo da moda. No Brasil, o principal bestseller sobre o assunto é o “Chic”, de Glória Kalil, uma das principais críticas de moda do país. Em “As 100 +”, Nina Garcia, editora de moda da revista Marie Claire USA, enumera os cem itens fundamentais em qualquer guarda-roupa daquelas que desejam ter estilo. ESQUINAS – 2º SEMESTRE 2010

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CURIOSIDADES

TEXTO roberto causo (1º ano de Jornalismo) e LIDIA ZUIN (3ºano de Jornalismo)

De volta para o passado Do silício ao cobre, a Era Vitoriana retorna a todo vapor sob o codinome steampunk acervo pessoal / daniel kato

Carlos Felippe é co-fundador do Conselho Steampunk e membro da Loja São Paulo

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Em São Paulo, e em outras capitais brasileiras, jovens passeiam pelas ruas de sombrinha, espartilho, goggles (óculos protetor) e chapéus. Entre tons de sépia estão localizados os membros do Conselho Steampunk, como Bruno Accioly, Carlos Felippe e Raul Cândido. “Na primeira onda, na década de 1980 e 90, o movimento se limitava aos livros. Agora, ele se espalha em outras formas de arte, como subcultura. É natural que algo chegasse aqui. Calhou apenas de não ser com um atraso muito grande”, conta Felippe. Surgida nos Estados Unidos, a vertente da ficção científica (FC) celebra a arte e a ciência da era vitoriana. As narrativas trabalham com uma tecnologia paradoxalmente avançada para o período de regência da rainha Vitória, no Reino Unido, que teve início em meados do século XIX e fim no começo do século XX. O steampunk reinterpreta o passado, trazendo à tona um parecer contemporâneo sobre tecnologias antigas, como o vapor – daí o prefixo “steam”. Apesar de ter “nascido” no livro The Difference Engine (EUA: Victor Gollancz, 1990), de Bruce Sterling e William Gibson, que também fizeram parte da criação do cyberpunk (outro gênero da FC), o steam abrange sua produção em diferentes manifestações artísticas. Ele está presente em filmes como O Grande Truque (2006), nas esculturas da SteampunkWorkshop.com e nas roupas da ClockworkCouture.com, por exemplo. Aliás, o movimento evoca fãs de todo o mundo a se unirem em grupos de discussão e celebração, como ocorre em São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná e Paraíba a partir das Lojas. O título das sedes, que não são físicas, é baseado no termo inglês “Lodge”, o qual é usado por algumas sociedades secretas. “Existe uma distribuição de tarefas quanto à atualização do site ou quando precisamos de um porta-voz. Normalmente, a parte ‘social’ fica nas mãos do Cândido, porque ele tem mais jeito com as pessoas”, diz Felippe. Sobre o sucesso do gênero no Brasil, o carioca Accioly afirma que vem de dois anos para cá. “Isso tem a ver com a maturidade que o gênero está ganhando, além de a vertente fascinar os fãs pela sua capacidade imaginativa, que é própria da FC.” Este fato aliado à organização de eventos, publicações e grupos dá ao steampunk a visibilidade necessária para reunir mais seguidores. “As narrativas

podem servir mesmo como ferramenta pedagógica de resgate cultural e histórico, além de o steam estar muito próximo da nossa realidade de evolução tecnológica e degradação da ética e do moral”, opina.

Investimento Editoras como a Draco e a Tarja, ambas paulistanas, publicaram duas coletâneas (uma cada) sobre o tema. Steampunk: Histórias de um passado extraordinário (Tarja, 2009), editada por Gianpaolo Celli, traz contos de escritores brasileiros já conhecidos na vertente da FC e fantasia, como Fábio Fernandes e Roberto Causo, além de autores recémdescobertos, tais qual Romeu Martins. “Foi um desafio para um cara que mal tinha começado a se dar conta de que estava escrevendo ficções e ser publicado ao lado de gente consagrada”, diz o autor do conto Cidade Phantástica. Mais recentemente lançada, a coletânea Vaporpunk (Draco, 2010) esgotou seus 300 exemplares em menos de uma semana. O livro, inclusive, rendeu até matéria para a revista americana Wired, por conta de uma indicação do escritor Bruce Sterling. Significa que o steampunk brasileiro está chamando mesmo a atenção dos estrangeiros. “Isso foi e sempre será motivo de grande orgulho para nós”, diz Erick Santos, editor da Draco, sobre a atitude de um dos principais nomes da FC. Sterling confirma o apreço pela produção brasileira, inclusive seguindo autores nacionais através do Twitter. “Estou interessado em todas as formas de steampunk fora dos Estados Unidos”. Ele explica que lá as pessoas estão mais voltadas para a construção de aparatos e no uso de roupas “curiosas”, além de muita produção musical e eventos. “No entanto, na literatura há um afastamento, porque os escritores estão mais aliados à subcultura gótica e estão mostrando uma resistência similar”, indica. O autor americano faz parte do movimento já considerado steampunk, enquanto Julio Verne e Tim Powers se mantêm num período anterior, o chamado proto-steampunk. Junto de Sterling, estão escritores como H.G. Wells, Conan Doyle e Mark Twain. Para quem quer se iniciar no movimento sem ser pela literatura, vale a pena assistir à animação Steamboy (2005) ou aguardar pelo novo game Bioshock Infinite (2012). LEIA MAIS NO PORTAL DA REVISTA ESQUINAS


TEXTO Helder ferreira (1º ano de Jornalismo) e LUMA PEREIRA (3º ano de Jornalismo)

POP por dentro dos sonhos do

De toy art a Tim Burton: quando o surreal e o popular formam uma nova estética Cores berrantes, rostos de boneca, situações inusitadas, monstros e lugares fantásticos. É assim que se apresentam as obras do surrealismo pop, movimento underground – antes conhecido como lowbrow art – surgido nos Estados Unidos, nos anos 1970. “Apesar da morbidez na maioria das imagens, o estilo tem grande apelo plástico e as sacadas são simples e geniais”, afirma a artista plástica Clarissa Torres, de 27 anos. Mas como expor na mesma obra de arte o surrealismo de Salvador Dalí e o pop art de Andy Warhol? Segundo o artista plástico Márcio Pulga, de 36 anos, o surrealismo “nos desperta para uma atmosfera onírica ou impossível, estranha, inesperada ou inusitada”. As imagens “são paisagens e personagens que só seriam possíveis em sonhos ou que estão muito bem instalados no inconsciente”, completa Clarissa. Já a arte pop empresta “a herança das cores e o uso de meios de comunicação de massa”, explica a artista plástica. Pulga ainda completa: “como as histórias em quadrinhos, grafite, ilustração, desenho animado, design gráfico e de brinquedos, vídeo-game e outras manifestações populares”. Assim, forma-se este movimento, pois “a estética pop nos cerca da mesma maneira que os sonhos e a imaginação nos acompanham o tempo todo”, conclui Rafael Silveira, de 31 anos, artista plástico paranaense. O gênero traz de novo “além da liberdade de criação, a ‘síndrome de Frankenstein’ bem desenvolvida”, como define Clarissa. Para este tipo de arte, não há uma convenção definida: as obras são a união de diversas influências e correntes artísticas. Pulga esclarece que é possível “injetar elementos extraídos de outras influências”, o que permite variar estilos. Para Silveira, o pop surreal “se mistura aos elementos clássicos”, por exemplo. Foi essa característica que levou Markora, artista plástico catarinense, de 41 anos, a apreciar o surrealismo pop. “O estilo é mais

aberto e aceita influências e artistas vindos de variados lugares. Não é elitista”. Tendo como principais artistas brasileiros os grafiteiros “Os Gêmeos” e Nina Pandolfo, e internacionais Turf One e Amy Sol, as imagens são utilizadas como ilustração de capas de cadernos, CDs e outros objetos do cotidiano. Podemos, também, encontrar arte pop surreal “na revista Zupi, nas galerias, entre ilustradores, nas ruas em forma de grafites”, indica Clarissa. “Através da inovação do suporte, da releitura do brinquedo”, esclarece Andrea May, artista plástica, de 45 anos, o pop surreal imprime novidade ao que “antes seria apenas um objeto”. Mas a vertente não se restringe às artes plásticas. “O conceitual pode invadir quaisquer outros meios de comunicação e quebrar convenções sociais, criando algo diferente”, esclarece Pulga. Há manifestações no cinema, no teatro, na fotografia. Para Christian Petermann, de 44 anos, crítico de cinema, algumas produções cinematográficas do diretor norte americano Tim Burton podem ser consideradas pop surreais. A Fantástica Fábrica de Chocolate, Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas e Alice no País das Maravilhas são filmes baseados nessa nova estética. Quanto a este último, Petermann esclarece que “surreal era Lewis Carroll, Tim Burton é pop surreal”, já que “partiu do universo de Carroll e nele injetou incontáveis referências tanto do cinema quanto de seu imaginário pessoal. A leitura que Burton faz de Carroll torna seu ‘Alice’ pop”, conclui. Ver uma imagem pop surreal é como contemplar um sonho, pois ocorre “um estranhamento ao observador, que não está acostumado a receber estímulos midiáticos que envolvam essa combinação peculiar em seu cotidiano”, explica Pulga. Para Clarissa, “é uma delícia poder pensar em algo e fazê-lo visível”. Com essa nova tendência artística, não é mais necessário dormir para sonhar.

O surreal pop de Andrea May. O trabalho da artista plástica espalhado pela cidade

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dança

Apresentação do grupo de dança The Face no Programa Raul Gil, em 2006

Baila comigo A vida de dançarino: hobbie ou profissão? Paixões, dificuldades e recompensas daqueles que são embalados pelos ritmos mais variados

REPORTAGEM cAROLINE TEIXEIRA, PATRÍCIA HOMSI (1o ano de Jornalismo), FERNANDA LOPES e THAIS SAWADA (2º ano de Jornalismo) IMAGEM PATRÍCIA HOMSI (1o ano de Jornalismo)

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No palco, tudo é glamour. Os dançarinos usam e abusam do dom de entreter os espectadores com seus movimentos, figurinos e carisma. Porém, entre um espacate e outro, poucos sabem que há um mundo real cheio de alongamentos, exercícios, dietas, muitas horas de ensaio e poucas de sono. Seja na ponta dos pés ou no compasso da bateria, o mundo da dança é um misto de esforço e encantamento. “Vida de dançarina profissional não é fácil”, segundo Aline Araújo, dançarina de axé. Ela, que começou aos 14 anos, trabalhou com artistas, entre eles Alexandre Pires, Wando e Leonardo, dançou em programas de televisão e viajou pela América do Sul se apresentando com seu grupo. Aline se tornou famosa “ao ponto de ter escolta no aeroporto e não poder sair na rua sem maquiagem”.Apesar do sucesso, ela ressalta que passou por altos e baixos na carreira. “Fui da estaca 0 à estaca 100. Morei em um hotel chiquérrimo, mas também já cheguei a ficar sem um dólar para almoçar”

Contudo, há quem defenda a ideia de que os benefícios da dança valem o esforço. “Se é isso mesmo que você quer fazer na vida, tem que correr atrás”, afirma Ronaldo Santos, coordenador do grupo paulistano profissional de street dance The Face. A companhia foi criada por Lenilson Rodrigues, conhecido como Haysten. Aos 9 anos, ele descobriu seu gosto pelo estilo. “Eu estava indo para a escola e vi uns caras fazendo um som diferente”, referindo-se ao estilo característico do hip hop. Apaixonou-se e, hoje, com 38 anos, além de liderar o The Face, dá aulas em diversos lugares, entre eles a academia Contemporânea de Artes na Mooca e num condomínio em Santo Amaro. Um dia raramente é igual ao outro: quando vai para a Fundação Casa, Franco da Rocha, onde também dá aulas, pega metrô, ônibus e trem, mas nos dias em que vai ao Brás e a Santo Amaro usa apenas a bicicleta. “Você vive cada momento de uma forma única”, diz. Para ele, ser um artista


PATRÍCIA HOMSI divulgação

tiva (CBDance), tem uma escola de dança há 25 anos e é professora de pós-graduação. Já para Maria Bernadete Rangel, 38 anos, a dança surgiu como conselho de sua terapeuta. Conhecida como Dete, a professora de dança de salão e proprietária da escola Aerodança, em Santos (SP), sofria de síndrome do pânico – uma condição mental que faz com que a pessoa tenha intensos ataques de desespero. Dançar foi uma forma de superar as dificuldades: tornou-se menos retraída, mais tolerante e alegre e aprendeu a expressar melhor os sentimentos. Ela encara isso como uma missão. “Já tirei muitas pessoas das drogas e tenho orgulho de dizer isso”. Além dos benefícios para a mente, Dete também ressalta que a dança de salão é uma ótima forma de estimular a sociabilidade. Uma delas é através da integração entre pessoas de várias idades. “Na dança de salão, não há divisão. Existe a integração entre o jovem e alguém mais experiente”. Dete ainda destaca que o mais importante é ter ritmo, criatividade e estilo. Mas, apaixonada pelo que faz, é a autoestima que parece ser o maior ganho. “Eu me sinto a pessoa mais livre do mundo!”, afirma.

Superação na dança: Dete, após a síndrome do pânico, orienta casal de alunos

da dança requer foco. “Não é fácil, porque você está lidando com o corpo. É preciso gostar de se mexer, de fazer exercícios”. O The Face também já participou de campeonatos mundiais, alcançando o sexto lugar no World Hip Hop Crew Championship. “É muito legal, mas bate um nervosismo: è quando você vê o resultado do seu trabalho”, afirma Ronaldo.

ESCOLHAS E o trabalho de um dançarino começa desde cedo. Na ponta da sapatilha desde os 5 anos, Carla Salvagni dançava ballet clássico no colégio, tendo como professora Maria Helena Weber, bailarina do Municipal de São Paulo. Conciliar a dança com os estudos exigia muita dedicação, entretanto, como era boa aluna, nunca teve problemas. Mas confessa que a vida social ficou abalada: devido à intensidade dos ensaios, era difícil viajar e sair com amigos. “Aos 14 anos, tinha aulas de ballet clássico todos os dias, com 2 horas de duração. Fora os ensaios,

cerca de 4 horas de treinos, aos sábados. Paralelamente, fazia flamenco, jazz e sapateado - 3 horas de cada, por semana. Quando havia workshops e aulas com professores estrangeiros, lá estava eu”, comenta. Quando pensava em desistir, a família sempre a confortava. Tê-la ao lado foi fundamental para que superasse os obstáculos e o desânimo. Até os 18 anos seus pais pagaram seus estudos na área - a dança ainda não lhe trazia nenhum tipo de retorno financeiro. Essa situação se modificou quando conheceu a dança de salão. “Com 19 anos fui campeã paulista da modalidade e comecei a dar aulas. Nunca mais parei. A partir daí, comecei a viver da dança”. Ela se considera vitoriosa, pois, ao invés de abandonar tudo, como suas amigas fizeram, persistiu. “Muitos se afastam, porque é muito difícil pagar as contas apenas trabalhando com a dança”, diz ela. Hoje, com 42 anos, ela é presidente da Confederação Brasileira de Dança Espor-

PRAZER A paixão também é o que move Ana Carolina, de 25 anos, passista da escola de samba X-9 Paulistana. O samba que corre em suas veias é herança de família - ela desfila desde os 6 anos. Carol, como é conhecida na comunidade, frequenta os ensaios da Escola todos os domingos e hoje ocupa o posto de Musa dos Compositores. Com físico típico das mulatas de Carnaval ela paga um preço caro por isso. “Por ano, devo gastar uma média de mais de R$ 10 mil, com academia, roupa, sapato, uma drenagem linfática aqui, um aplique de cabelo ali”, confessa. Carol também dança esporadicamente em eventos, porém não pretende largar o emprego de consultora fiscal para se dedicar apenas a sua paixão. Seu maior sonho é tornar-se rainha de bateria. Para isso, é preciso passar por um concurso, e, segundo ela, há rivalidade entre as concorrentes dentro da escola. Mesmo assim, a vontade fala mais alto. “Já recebi propostas para frequenatr outros barracões, mas não quis. Não é a minha bateria, não é o meu pavilhão. Tem que ser na X-9. E eu também quero ser da velha-guarda, ser baiana. Quero envelhecer aqui”. Apesar de todas as adversidades, dançarinos dos mais variados ritmos entram em consenso em relação às vantagens que a prática traz. “A dança me trouxe tudo de bom. Conheci pessoas, culturas, comidas, lugares, aprendi outra língua. Mais do que dinheiro, ganhei experiência de vida”, conta Aline Araújo. Para Ana Carolina, o maior retorno que a dança proporciona também não é financeiro. “É um prazer imensurável. Os 13 minutos que eu passo na avenida são os mais maravilhosos do ano inteiro”. E assim segue a vida dos dançarinos: nem sempre com uma coreografia prédefinida, nem com um camarim de luxo. Mas com muito empenho, muita satisfação pessoal e muitos aplausos ao final do espetáculo.

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NOVO ESPAÇO

LUZ

TEXTO E IMAGEM THAIS CAMPOY (2º ano de Jornalismo)

no fim do túnel Complexo cultural trará novidades sobre artes a toda população A arquitetura antiga se destaca na paisagem. O conjunto de museus que se agrupa no centro velho de São Paulo dá o tom. No entanto, atualmente, o local é mais conhecido pelo nome nada honroso de “Cracolândia”. Estamos na Luz, espaço marcado pela presença de moradores de rua, traficantes de drogas e usuários de crack. Para tentar reverter esse triste quadro, o governo tem investido em projetos culturais para a revitalização da região. O principal deles é o Projeto Luz Monumenta, iniciado em 2002 pelo Governo e a Prefeitura de São Paulo. Segundo Beatriz Murano, assessora de imprensa da Secretaria de Cultura do Estado, o objetivo do Governo é construir um equipamento de excelência para as artes e espetáculos na cidade, o que contribui para o desenvolvimento da área. “A revitalização da região é uma consequência do investimento que vem sendo realizado há anos”, afirma. Beatriz diz que a proposta do Complexo Cultural é receber as apresentações de dança, ópera e teatro, tornando-se um dos mais importantes centros destinados à arte do espetáculo no país. “O objetivo principal é estimular a difusão e a formação cultural na cidade. O local é estratégico, o que facilitará o acesso das pessoas que moram na periferia e também em outras cidades”, explica. Em 2007, o Governo do Estado desapropriou um quarteirão de 19 mil m² para dar lugar ao Complexo, terreno que anteriormente abrigava o Shopping Center Luz (antiga rodoviária da Luz). A demolição já foi iniciada e o fim da construção do edifício tem previsão para o primeiro semestre de 2011. Quando finalizado, o prédio terá 95 mil m² de área construída, aproximadamente 10 vezes o tamanho do Museu de Arte de São Paulo (MASP). O Complexo abrigará 3 salões principais: um para dança e ópera com 1750 lugares, outro para teatro e recitais com 600 acomodações e o último será uma sala expe-

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Novo reduto de artes da capital visa promover a cultura e melhorar a imagem da região tomada pela Cracolândia rimental com capacidade para 450 pessoas. “Não haverá nenhum tipo de restrição ao público. Em relação à taxa de cobrança ainda não há um valor definido. Serão oferecidos espetáculos culturais, cursos e oficinas. Algumas atividades serão gratuitas e outras não”, completa a assessora. Além disso, haverá espaço para a instalação da sede definitiva da Escola de Música Tom Jobim, salas de ensaio, biblioteca, estúdios, auditório, café, lojas, praça de convivência e estacionamento para mil veículos. O projeto promete criar ainda um “corredor verde” que consistirá na fusão do Complexo Cultural com áreas do Parque da Luz e na criação de um jardim na Sala São Paulo. A bailarina argentina Irupé Sarmiento, 26 anos, que faz parte da Escola de Dança de São Paulo, teve que vir ao Brasil para encon-

trar lugares que investissem em seu talento. “Eu como bailarina acho maravilhoso que o governo invista em um local que abrigue a dança, a música e o teatro. São espaços raros em países como o meu.”. O projeto arquitetônico do prédio foi realizado pelo escritório suíço Herzog & De Meuron, conhecido também pela obra do estádio olímpico de Pequim, Ninho do Pássaro. O edifício proposto não terá fachada, será composto de uma estrutura horizontal, seguindo os moldes da Sala São Paulo. Uma lâmina que se projetará na Praça Júlio Prestes dará lugar à entrada principal do prédio. Apesar de estar longe do ideal, dados da Secretária de Segurança Pública indicam que a violência tem diminuído nos últimos anos. E, quem diria, o investimento em cultura é uma das armas para combater esse problema.


ACERVO PESSOAL / douglas nascimento

RESTAURAÇÃO

Antigo imóvel da Santa Casa de São Paulo, na rua Marquês de Itu

Preservação e restauro na rua

Projeto visa dar nova vida à obras e monumentos arquitetônicos da cidade TEXTO DÉBORA CENTOAMORE (3º ano de Jornalismo)

“A importância primordial é preservar a história local. A cada imóvel demolido perde-se um pouco da memória urbana e a nossa história não é feita apenas por monumentos e palacetes, mas sim por várias casas de menor importância que também contribuem, a sua maneira, para a história de São Paulo”. É assim que o jornalista Douglas Nascimento defende o trabalho realizado pelo São Paulo Antiga (www.saopauloantiga.com.br). No portal, ele e a historiadora Glaucia Garcia de Carvalho postam fotos e notícias sobre imóveis e monumentos abandonados na capital paulista e em outras cidades do estado, como Guarulhos, Botucatu e Salto. O trabalho de pesquisa é feito pelos dois, tanto com a ajuda de denúncias recebidas pelo site - são em média quatro por semana - quanto por rondas que eles próprios fazem pela cidade. “Após recebermos as denúncias, organizamos as informações em uma planilha dividida por bairros e partimos para a averiguação”. Para evitar deslocamentos desnecessários, o grupo mantém colaboradores em mais de 12 bairros de São Paulo, que checam a veracidade das denúncias. Caso confirmadas, eles vão ao local e fazem fotografias nas primeiras horas da manhã, para evitar que hajam carros estacionados em frente. “Além das denúncias, saí-

mos a cada 15 dias pela cidade aleatoriamente em busca de novos pontos para cadastrar e sempre voltamos com muitas imagens”, destaca Nascimento. Depois de postada a foto, eles mantêm uma vigilância sobre o imóvel, mas não é sempre que conseguem contatar os donos. Alguns deles até procuram o site com interesse de obter ajuda em restauros e, muitas vezes, conseguem intermediar ou indicar boas soluções. Um exemplo recente e bem sucedido é o caso do Monumento aos Armênios, localizado na Praça Armênia, ao lado da estação de metrô do mesmo nome, na região central da cidade. O abandono e depredação total da obra do escultor José Jerez Recalde, construída em granito e bronze e inaugurada em 1966, foi denunciado no site. A publicação despertou o interesse do banco Induscred, que patrocinou a reforma por meio do programa “Adote uma Obra Artística”, da Prefeitura de São Paulo. A obra foi entregue no dia 25 de abril deste ano.

INICIATIVA Primeiramente chamado de “São Paulo Abandonada”, o site foi idealizado nos moldes de dois projetos semelhantes: o português “Lisboa Abandonada” e o argentino “Basta de Demoler”. Douglas Nascimento diz

que não conseguiu entrar em contato com os responsáveis pelo portal português, pois o projeto foi desativado. “Já no caso do site de Buenos Aires, conversamos várias vezes com eles e cheguei até a ir conhecer o trabalho lá na capital Argentina. Embora façam o trabalho com o viés político, como o de Portugal, a iniciativa é brilhante”, reconhece. O site cresceu, as visitas aumentaram e surgiu o desejo de tomar alguns caminhos que não estavam previstos. “Basicamente a mudança veio ocorrendo no editorial desde janeiro deste ano. O site está há quase três anos no ar e cresceu muito, tanto em conteúdo quanto em visitações. E muitas pautas que publicamos não se encaixam no termo ‘Abandonada’. Com isso, ampliamos o site e transformamos o ‘São Paulo Abandonada’ em uma das várias sessões do site”, explica o idealizador do projeto brasileiro. Além de preservar a história, a conservação de imóveis e monumentos contribui para embelezar a cidade. “A restauração é um trabalho rico e minucioso, que não é para qualquer um. Infelizmente não temos muitos escritórios de restauro por aqui, talvez por uma ausência de boa divulgação da importância deste trabalho em nossas universidades”, lamenta Douglas.

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MÚSICA

SANGUE NOVO: A maior barreira dos novos músicos é a falta de oportunidade de serem ouvidos e experimentarem novas ideias na prática

Os novos eruditos A música clássica está se reinventando e procurando seu lugar na modernidade REPORTAGEM fernando gonzalez e stéphanie concistré (3o ano de Jornalismo) IMAGEM NOME DO REPÓRTER (Xo ano de Curso)

Quando alguém fala em música clássica, o que vem à sua cabeça? Bach, Mozart e Beethoven? E por que não Ligeti, Berio e Xenakis? A história da música erudita não acabou no século XIX e continua a todo vapor. Por sua aparente complexidade, no entanto, a música contemporânea acabou isolada do público, perdendo espaço até mesmo entre os frequentadores de concertos tradicionais. Para o compositor paulista Silvio Ferraz, isso se deve ao discurso teórico que predomina na música hoje em dia. “Mesmo que as pessoas não entendam sobre artes plásticas, dança ou cinema, elas leem os artigos do jornal. Mas sobre música contemporânea as pessoas nem começam a ler. É muita teoria, mais chata do que aula de álgebra do terceiro colegial”.

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Importante para a definição dos rumos da música nas décadas de 1950 e 1960, a teorização acabou se tornando um peso, que criou uma barreira para o público. Com isso, muitos deixam de conhecer a diversidade da produção atual, que vai desde a música gerada por cálculos matemáticos de grandes computadores até a música acusmática, reproduzida somente através de alto-falantes. “Isso vem da tradição da música concreta, essa música pré-gravada que você não vê quem está fazendo, só ouve o som”, explica Silvio.

BRASILEIRINHOS Para os jovens compositores José Henrique Padovani, de 29 anos, e Marcílio Onofre, de 28 anos, a maior barreira é a falta de oportunidade de serem ouvidos e experimentarem novas ideias na prática.

“Acho que seria bastante produtivo criar ambientes em que bons instrumentistas ou mesmo estudantes tivessem o compromisso de tocar peças de novos compositores com a mesma seriedade e interesse que estudam o repertório já estabelecido”, afirma Padovani. Formado em composição pela Universidade Federal de Minas Gerais, José Henrique ficou com o 1º lugar no Prêmio Camargo Guarnieri pela peça “Impedance”, para flauta e grupo de câmara - estreada no último Festival Internacional de Inverno de Campos de Jordão. “Durante a graduação, foi muito importante para esse processo de me tornar compositor a experiência de escrever e reger peças minhas com um grupo de colegas e alunos da Fundação, batizado de Camerata Experimental da Fundação de Educação Artís-


tica”, afirma. Algumas de suas peças foram interpretadas por grupos importantes, como a Camerata Aberta da Escola de Música do Estado de São Paulo e Orquestra Filarmônica de Minas Gerais. Em 2009 sua peça “Canto Diviso”, para 18 cordas, foi incluída no álbum Novos Universos Sonoros, uma coletânea com músicos ligados a diversas universidades e orquestras do estado de São Paulo. Já Marcílio Onofre cursou piano na Universidade Federal da Paraíba e, inspirado pelo compositor francês Claude Debussy, começou a estudar no Laboratório de Composição Musical da UFPB. “Lembro que estava estudando alguns prelúdios de Debussy e fiquei muito entusiasmado com essas peças. Daquela época para cá não me vejo fazendo outra coisa se não trabalhando diretamente com a composição”, conta. Suas criações já foram executadas pela Nouvel Ensemble Moderne, no Canadá, Arditti String Quartet, na Inglaterra e Orquestra Sinfônica Jovem da Paraíba. Ambos os compositores tiveram uma formação clássica, mas utilizam recursos tecnológicos para enriquecer a experiência de escutar uma peça contemporânea. As técnicas estendidas possibilitam novas sonoridades para instrumentos como a flauta e o violino e garantem uma expressividade gestual e dramática para o intérprete. “Se mesmo a melodia mais simples é escutada de maneiras diversas por um mesmo ouvinte, uma peça com texturas, sonoridades e relações temporais não apenas possibilita essa escuta múltipla, mas exige do ouvinte a percepção de coisas que não lhe haviam aparecido”, explica Padovani. Com tantas opções para o compositor, delimitar uma única vertente a que ele pertence é tarefa complexa. “Gosto de ouvir, estudar e conhecer vários compositores para poder utilizar e aprender diferentes maneiras de resolução dos problemas composicionais de minha própria música. Cada compositor chega a ser quase uma vertente”, afirma Onofre.

DIFUSÃO No Brasil, a música contemporânea acaba sendo o resultado do que vem do exterior. Misturam-se aqui diversas tendências, como a musique spectrale francesa, a new complexity inglesa, a Nova Simplicidade alemã e o minimalismo norteamericano todos convivendo com o nacionalismo brasileiro. “Nós temos grandes liquidificadores que fazem essa mistura e dão origem a algo novo, que só poderia nascer aqui”, resume Ferraz. Esse trabalho é realizado principalmente nas universidades, nas quais alguns professores formatam linhas específicas e que acabam seguidas por seus alunos. A diversidade na produção não é exclusiva do século XXI. Antes a regra do que a exceção: é uma característica de toda a música erudita ao longo da história. Na década de 1940, por exemplo, enquanto Anton Webern produzia música serial, Arnold Schoenberg compunha música dodecafônica, Richard Strauss escrevia música romântica, Igor Stravinsky criava seu próprio estilo e em al-

Concerto da Orquestra Sinfônica do Estado de Minas Gerais, no hall da Universidade Federal de Minas Gerais

guns lugares já surgia a música eletrônica. Por todas essas particularidades da música contemporânea, Silvio Ferraz acredita que seja necessária uma mudança nos hábitos de consumo da música. “Para a música contemporânea nós precisamos desfazer todas as paredes que foram erguidas: as paredes das salas de concerto e de sair de casa muito bem vestido. Não é o público da Sala São Paulo que vai ouvir música contemporânea. Quem tem que ouvir são os bailarinos, os artistas plásticos, os poetas, os jornalistas jovens, os novos escritores, os atores e diretores de teatro, um pessoal que está buscando outro tipo de pensamento e que talvez também tenha uma produção artística própria.”, conclui Silvio, propondo uma abordagem diferente e uma nova comunidade musical.

“Quando se fala sobre música contemporânea, é muita teoria, o que é mais chato do que aula de álgebra do colégio” Silvio Ferraz, compositor

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PONTO DE VISTA

Em uma tarde de outono em 1965, um jovem norte-americano de 22 anos digitou em sua máquina de escrever sete letras – lighght. A expressão foi imediatamente consagrada como um poema e ainda hoje há críticos que vêem na composição minimalista de Aram Saroyan “arte”. O exemplo pode ser radical, mas ajuda a refletir sobre um fenômeno inédito desde o início da era moderna: a arte – e a poesia, particularmente – foi perdendo relevância cultural em nosso meio. Ainda que possa merecer destaque nas páginas das colunas sociais, converteu-se em mais um evento da agenda pública, quando sua função tradicional sempre foi gerar reflexão e algum tipo de discussão estética. O que nos obriga a dar razão a Heidegger, quando afirma que no mundo contemporâneo a obra de arte perde sua aura. O filósofo alemão não estava sozinho nessa avaliação. Antes dele, Nietzsche já denunciava o caráter dúbio da cultura, pois se por um lado alcançava um círculo cada vez mais amplo de

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TEXTO E ILUSTRAÇÃO Lídia rogatto (3º ano de Jornalismo)

pessoas, por outro se destituía de grandeza. Poderia a poesia ser enquadrada nessa explicação? O público, na sua configuração atual, talvez seja o maior entrave para a fruição poética. Pois ainda que ele exista para ver um urinol de Duchamp, ouvir uma canção do Great American Songbook ou até mesmo para assistir a um curta-metragem, um poema ready made encontra um número infinitamente menor de pessoas dispostas a lhe dar atenção. Isso se deve, em boa medida, à existência insuficiente de leitores comprometidos com a produção e a reflexão da poesia em geral. Porém não é justo atribuir somente a essa minoria “literariamente letrada”, como chamou C. S. Lewis, a responsabilidade por esse estado de coisas. A própria publicação de poemas, algo comum até mesmo em jornais operários no início do século XX, é cada vez mais rara nas páginas de nossos periódicos, inclusive nos mais prestigiados. Assim, se os leitores de Goethe podiam

facilmente concordar que sua obra era verdadeira, bela e grandiosa – como de resto era qualquer obra artística digna dessa concepção – hoje seria quase impossível encontrar um leitor que formulasse a mesma opinião, pelo simples fato de que raramente ele é exposto a uma manifestação de tal porte. O que mostra que Yves Michaud está certo ao sugerir que vivemos a “utopia da arte”. Mas a poesia não é um eco vão dos homens. Não se pode confundir sua atual fragilidade com sua condição verdadeira; e também não há fórmulas mágicas para assegurar o seu renascimento. Porém, nessas situações de crise é sempre possível (re)aprender as lições do passado. Talvez pudéssemos seguir os passos do poeta W. B. Yeats quando, percebendo semelhante impasse na sua Irlanda, recorreu aos celtas e às musas, debruçou-se sobre a literatura universal e fundou um novo movimento nacional. Em 1923, laureado pelo prêmio Nobel, foi reconhecido por sua “contribuição à humanidade”.


REPRODUÇÃO

TIPOGRAFIA

Escultura de TEXTO danylo martins e marília diniz (1º ano de Jornalismo)

Abrimos o programa de edição de textos no computador. De uma lista extensa e diversificada, escolhemos a fonte que mais agrada. Escrevemos e não nos damos conta de que, num determinado dia, alguém precisou pensar nos desenhos e formatos dos caracteres que aparecem na tela. Esse é o trabalho dos tipógrafos, os artistas textuais. A técnica já não é mais como antes. No tempo de Gutenberg – que imprimiu a Bíblia de 42 linhas por página em 1455 –, para construir um texto, cada letra era impressa a partir da imagem presente em matrizes em alto-relevo. Todo o processo exigia que várias pessoas trabalhassem para que o conjunto de palavras fosse formado. Hoje, a tipografia é digital, mas os esboços são muitas vezes feitos no papel. O trabalho do tipógrafo, também conhecido por type designer, virou artístico quando surgiu a fotocomposição. A utilização de meios digitais somente reforçou e facilitou o trabalho em tal vertente. “A tipografia dialoga com a arte”, diz o tipógrafo e sócio-diretor da Oficina Tipográfica São Paulo, Marcos Mello. A oficina é uma das únicas do ramo em atividade. “A estrutura das fontes é escultural e o desenho é como um trabalho arquitetônico”.

A arte do texto Criatividade e imaginação são aspectos fundamentais no desenvolvimento de novos tipos. Mas os caracteres não podem ser dispostos aleatoriamente. No momento da composição dos alfabetos, a legibilidade e a coerência são fatores importantes. “É o olho do artista que vê se o desenho está bom, se uma letra combina com a outra”, explica o type designer e artista plástico Tony

TINTA

de Marco. Além da passagem como ilustrador do jornal Folha de S.Paulo, em 2003, ele ganhou o prêmio “Linotype Internacional Type Design Contestz” com a fonte Samba. A escolha da fonte certa para um texto depende também do público receptor. Neste sentido, é importante que os caracteres se harmonizem e tornem a leitura o mais agradável possível. “Em um encarte de disco, você pode delirar e, mesmo assim, o cara vai procurar ler. Nos livros, isso não acontece”, comenta De Marco. A tipografia utilizada no logotipo da marca Coca-Cola, por exemplo, é um desses delírios publicitários que cansariam os leitores caso as fontes fossem usadas em textos longos. Entretanto, somente ter boas idéias e combinar letras não é o suficiente. Conhecer os variados tipos de fontes e decidir a aplicabilidade de cada uma são elementos necessários para o desenvolvimento de novos tipos. “É como o futebol: não adianta estudar o esporte e gostar dele, tem de assistir e praticar”, exemplifica Tony. De acordo com ele, dedicação é imprescindível para quem deseja ingressar nesse mercado. Com o lançamento recorrente de novos formatos de alfabetos, a produção tipográfica está cada vez mais variada e permite a interpretação da prática como arte. “O acesso aos computadores facilitou muito essa diversidade”, explica Marco Mello.“Quem leva a atividade a sério valoriza a tipografia”. Tony de Marco conclui o pensamento. “O que a gente tem hoje é uma variedade de tipos. Alguns foram redesenhados”. Outros, por sua vez, buscam a ruptura com os padrões, já que há mais liberdade para criação de fontes.

A técnica inventada por Gutenberg exige sensibilidade dos type designers, os artistas da comunicação visual

Helvetica Considerada uma das fontes mais populares do mundo, o design neutro da Helvetica foi desenvolvido em 1957 pelos suíços Max Miedinger e Eduard Hoffman. Inicialmente o intuito era aplicá-la em placas, porém ela foi adaptada para a publicidade e empregada, até mesmo, em publicações. Originalmente chamada Neue Haas Grotesk, a denominação atual é uma derivação de Confoederatio Helvetia, nome latino da Suíça. Ela logo se tornou uma espécie de curinga, sendo modelo para novas criações e uma das fontes sem-serifa – sem prolongações nas hastes das letras – mais utilizadas na comunicação visual. Apesar do surgimento e da aplicação de outras fontes, como o Arial, é possível ainda ver a Helvetica empregada no nosso cotidiano. Logotipos, as placas do Metrô de São Paulo, aeroportos e empresas de ônibus: para leituras rápidas e claras, vale ainda a fonte suíça. ESQUINAS – 2º SEMESTRE 2010

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roteiristas

CABEÇA A PRÊMIO: O ator Daniel Hendler em cena do filme roteirizado pelo escritor Marçal Aquino

a busca da

essência Roteiristas como escritores: o caminho à procura da valorização profissional REPORTAGEM melissa panteliou (1o ano de Jornalismo), Lidyanne aquino e maíra roman(2o ano de Jornalismo)

O trabalho com roteiros se assemelha muito ao de um escritor ou jornalista: há apuração, preocupação com diálogos e frases bem feitas. “Escrever é um ato inato, não adianta ensinar. O máximo é dar orientação”, define Di Moretti, responsável pelos roteiros de filmes como Latitude Zero (2001) e Cabra Cega (2004), ambos ganhadores do prêmio de melhor roteiro no Festival de Brasília. Moretti participa ainda da AAC (Associação dos Autores de Cinema), que tem como objetivo profissionalizar a atividade daqueles que atuam na área. “É diferente falar ‘sou escritor’ e ‘sou roteirista’, mas ambos são uma profissão”, justifica. O fato de o processo de escrita para livros ser muito semelhante ao de cinema faz com que os ofícios se tornem convergentes. É o caso do escritor americano Michael Cri-

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chton, autor de livros como Jurassic Park (Ballantine Books, 1990). Crichton, falecido em 2008, foi também roteirista e produtor de cinema e televisão. Entre seus trabalhos está ER (conhecido aqui como Plantão Médico), de 1994, um dos seriados mais premiados da história. No Brasil, citamos nomes como Reinaldo Moraes, Antônio Prata e Daniel Galera, entre outros. Marçal Aquino, jornalista, escritor e também roteirista adaptou seus livros para o cinema, na maioria das vezes em parceria com o diretor Beto Brant. Seu filme O Invasor venceu em várias categorias no Festival de Brasília, além de ter sido escolhido como melhor produção cinematográfica latinoamericana de 2002, no Sundance Film Festival. Sobre a rotina, Aquino aponta que “no caso da literatura, é um trabalho solitário,

no qual o escritor toma todas as decisões. Já o roteiro, ainda que seja redigido muitas vezes por um único profissional, terá necessariamente de passar por um processo coletivo na hora de virar filme”. O conceito de produção cinematográfica em conjunto criou, ao longo do tempo, uma polêmica envolvendo o ofício dos roteiristas. Ao unir o texto com o olhar do diretor, questiona-se a autoria da obra. Quem, afinal, merece os créditos pelo filme?

CRÉDITO COLETIVO “Ao filmar, estabelecer a posição da câmera ou montar a personagem, o diretor pode seguir o roteiro à risca ou até agir inversamente”, comenta Luis Carlos Merten, crítico de cinema do jornal O Estado de S.Paulo. Di Moretti afirma esperar “70% ou


IMAGENS: DIVULGAÇÃO

TENDÊNCIA: Em seu primeiro longa-metragem, Marco Ricca contou com o roteiro do escritor Marçal Aquino

menos” do roteiro bruto no produto final. “Como em qualquer outro ofício da escrita, a palavra é o desapego. É necessário mostrar, estar pronto para receber crítica, principalmente porque, no caso do texto, o resultado passa por um processo que envolve visões diferentes”. Ele complementa afirmando que a “AAC pretende valorizar o trabalho dos roteiristas em meio a essa polêmica: ao invés de ‘roteiro de’, pretende-se substituir por ‘escrito por’”. No caso de adaptações, a polêmica se estende. “Literatura e cinema são linguagens diferentes. É preciso transmutar e isso envolve uma visão distinta”, acrescenta Merten. “É quase lendário no cinema brasileiro a história de Nelson Pereira dos Santos, que foi para o set com o livro de Graciliano Ramos, Vidas Secas, debaixo do braço e seguia o que

estava na obra, não o roteiro. Claro que são casos particulares, mas deu certo”. A relação de pesquisa e escrita entre roteiros e obras literárias é tão latente, que a Reforma dos Direitos Autorais, em fase de aprovação, prevê um reconhecimento maior para autores de cinema e televisão, garantindo uma participação nos lucros. “Além do cachê, essa prática incentivaria o trabalho do roteirista, que só pode assinar um trabalho se tiver sido autor de, no mínimo, 1/3 da obra”, opina Di Moretti. A discussão de autoria no mundo cinematográfico busca equilíbrio e o reconhecimento de que roteirista é, sim, um escritor. “O fundamental é saber qual essência buscar. É simplesmente uma questão de se adequar a uma linguagem técnica específica”, finaliza Marçal Aquino.

“Literatura e cinema são linguagens diferentes. É preciso transmutar e isso envolve uma visão distinta” Luiz Carlos Merten, crítico de cinema ESQUINAS – 2º SEMESTRE 2010

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FILMES

a arte que imita a

Antes considerados cansativos, os documentários estão ganhando as telas e a consideração do público. Mas qual é a razão disso?

divulgação

REPORTAGEM Adriano Garrett (2o ano de Jornalismo), ANA JULIA CASTILHO, THAÍS LIMA E VIVIANE LAUBÉ (3º ano de Jornalismo)

Kiko Goifman defende a imersão do cineasta no tema que pretende filmar

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2010 irá fechar com 74 filmes nacionais lançados em circuito, sendo 25 deles documentários. Ligados à cultura brasileira, as películas vão desde biografias, retratos sobre momentos musicais do Brasil até tragédias pessoais de mães que tiveram seus filhos mortos em chacinas. Crítico de cinema da Folha de S.Paulo, Franthiesco Ballerini acredita que esses filmes criam discussão pertinente na sociedade. “O cinema não é lugar para amarras: é preciso liberdade criativa e reflexiva”. A explicação para tal boom no Brasil, segundo Ricardo Calil, crítico de cinema e editor-chefe da Revista Trip, foi a redução dos custos de produção com a chegada da tecnologia digital. “Tornou-se muito mais barato fazer cinema com câmeras digitais. Em um documentário, é preciso fazer entrevistas mais longas e, ao contrário da câmera digital, em um filme em película, cada minuto de gravação se gasta dinheiro”, explica. Em sua primeira experiência dentro do cinema, Calil dirigiu, junto com Renato Terra, o filme Uma Noite em 67, um documentário que conta a história da final do III Festival de Música Popular Brasileira, realizado pela TV Record em 1967. Na mesma linha, nos últimos cinco anos no Brasil foram lançados os documentários Simonal - Ninguém sabe o duro que dei, Cartola- Música para os olhos, Fabricando Tom Zé, e tantos outros. A migração da filmagem em película para a gravação digital e outras facilidades tecnológicas modificaram o trabalho dos documentaristas. Isso fez com que as produções acompanhassem a mudança e a inclusão quase que constante de computações gráficas no decorrer do filme. “Só um público muito conservador criaria aversões a este tipo de inovação de linguagem no documentário”, adiciona Ballerini. Eduardo Coutinho, documentarista e diretor dos premiados Moscou (2009) e Jogo de Cena (2007), viveu essa mudança. Editava

filmes na moviola - equipamento onde o material é cortado e editado manualmente - e gravava seus documentários em película. “Antes, eu tinha 20 minutos disponíveis para gravar. Hoje tenho 10 horas”, contou durante o Congresso de Jornalismo Cultural, promovido pela Revista CULT em maio desse ano. “Os documentários tinham um padrão para filmar, um padrão na mudança de eixo e até na troca de lente. Isso deixava o filme parado e monótono, sendo que o cinema é a arte do movimento e da ação”, lembra. “Em Jogo de Cena, por exemplo, sabemos que se trata de documentário, mas há encenação com atores, o que torna o jogo fílmico mais dinâmico, instigante e reforça o caráter reflexivo destas produções”, analisa Ballerini. Mesmo com a facilitação oferecida pelos meios digitais, para o documentarista e antropólogo Kiko Goifman, pesquisa e preparação são fundamentais para a execução do projeto e, por isso, o torna mais difícil. “Há temas que pedem maior imersão e pesquisa, as quais chegam a durar de semanas a anos”. Para o diretor de FilmeFobia (2008) e Morte Densa (2003), isso precisa acontecer para que as ideias não sejam simplesmente uma criação e junção de cenas em uma tela de cinema. “Em 33, trato de adoção e, como fui adotado, faço da minha história de vida o pano de fundo e com isso discuto o tema. Mas é claro que seria muito fácil encontrar cinco ou seis filhos adotivos e falar com ele”, diz.

imersão Transporte e locações também se mostram um problema. “A nossa profissão é andar de van e, de vez em quando, a gente para e filma”, brinca Goifman. “O mais difícil é conseguir recursos para produzir o filme, mas isso ocorre com todos os gêneros do cinema”. Porém, todo o esforço é compensado quando a imersão do documentarista no tema é completa. Goifman explica que sua


ANA JULIA CASTILHO

Cineasta de primeira viagem, Ricardo Calil abandonou o lado jornalista no documentário

dissertação de mestrado foi o ponto inicial para seu primeiro documentário: Tereza. Produzido em 1982, trata sobre o mundo dos presidiários. O diretor passou sete meses em uma penitenciária de segurança máxima conversando e observando o cotidiano dos que lá viviam. Somente depois entrou com a sua equipe para filmar. O curta-metragem de 16 minutos foi bastante premiado e, segundo Goifman, “o levou a conhecer um pouco mais do mundo do audiovisual”. Tornar-se íntimo e passar com clareza a realidade dos presidiários para os espectadores foi um trabalho de fôlego. Para ele, as pessoas tendem a tentar agradar os entrevistadores, mas, ao adquirir proximidade é possível abordar temas mais pessoais e que dificilmente iriam abordar. “O exemplo concreto que eu tenho disso é no Tereza: um preso falava que não era homossexual e, depois, com mais intimidade, contou que era”, recorda. Calil, em Uma noite em 67, precisou do depoimento de personagens importantes da história da música brasileira, e teve pouco tempo disponível para ganhar a confiança dos entrevistados. Largou mão da prática jornalista, de escrever perguntas no papel e se manter fixo a elas, direcionando as gravações para uma conversa informal, o que ele acredita que lhe rendeu muito mais material. “Era mais importante ter o olho no olho, as respostas. O que queríamos era a memória das pessoas, mesmo que fosse falha em alguns pontos”. Ele ainda tentou contato com Rita Lee e Geraldo Vandré, figuras importantes para o filme, mas que não não conseguiu os depoimentos. Mesmo com tal empecilho, Calil não se surpreende com a quantidade de filmes sobre a música brasileira. Ele acredita que a qualidade e o êxito são mais do que suficientes para justificar novos títulos. “A música talvez seja o terreno mais bem-sucedido da cultura brasileira, então é natural se volte para ela”, afirma. “Há um longo casamento entre cinema e mú-

sica brasileira, desde a época das chanchadas até chegar aos documentários. O público naturalmente aceita e gosta da música”. Goifman, porém, vai além ao afirmar que cruzar a tênue - ou inexistente - linha que separa o documentário da ficção faz parte da produção do cineasta. “Eu quero ficar naquele lugar que é difícil classificar se é documentário ou se é ficção”. FilmeFobia, nota-se, é um trabalho de ficção, mas usa moldes de documentários. “O divertido é que FilmeFobia passa em festivais só para documentários e em festivais só para filmes de ficção, o que mostra que as duas categorias já são suposições bem velhas”, comenta. Apesar de muitas pessoas ainda terem um ‘pé atrás’ com documentários, Calil crê que o rótulo negativo está desaparecendo. “Eu acho que o estigma está caindo. As pessoas estão indo aos cinemas ver documentários e saem felizes, não entediadas”, acredita. Outro ponto foi levantado por Franchiesco Ballerini. “A nova onda se deve a mais recursos e um maior parque exibidor, além de mais canais de TV e internet que possibilitam maior veiculação e comercialização destes produtos”, expõe. João Moreira Salles, diretor de Entreatos (2004) e Santiago (2006), afirma que “filmar é como o jazz, você vai improvisando”. A idéia é lidar com o conceito de realidade e tentar passálo a um público que, ano após ano, enche salas de cinema e vence o preconceito de que documentários são enfadonhos e cansativos. Para Moreira Salles, o documentário não é sobre um tema, mas sobre ele mesmo: as dificuldades de mostrar um fato que aconteceu perante as câmeras. Goifman compartilha da mesma visão. “Todos consideram que vivemos em um mundo mais complexo. O documentário propõe um olhar para esse mundo mais difícil de uma forma mais delimitada. O cineasta passa anos estudando um tema e vai aprofundando. Então, um documentário nos ajuda a entender o mundo que a gente vive”.

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ALI NA ESQUINA TEXTO Bruno Guerrero e Nathalia Garcia (3º ano de Jornalismo) IMAGEM Bruno Guerrero (3º ano de Jornalismo)

A arte da boemia

Em busca de preservar sua história, o Bar do Museu divulga o trabalho de jovens artistas Paredes decoradas com o violão de Sílvio Caldas – que um dia encantou com os versos “o tempo tudo mudou, mas não apagou a tua poesia”, da música “Perfil de São Paulo”; quadros de Volpi, Aldemir Martins, Clóvis Graciano e Maria Leontina. O Bar do Museu não esconde que tem história para contar. Cenário que fica ainda mais peculiar pelo carpete vermelho e pelo mobiliário dos anos 1950 exalando cheiro de brechó. Para o frequentador Martim Maita, gastrônomo, os adereços dão charme ao botequim. “Aqui encontramos algo diferente, que você não vê em outros bares na cidade: pelo menos com obras de arte e com essa característica marcante. É quase um museu mesmo”, comenta enquanto dá um gole em seu copo de cerveja. Na sobreloja de um prédio comercial ao lado do edifício Copan, no centro de São Paulo, o local segue normas rígidas. A começar pela falta de estacionamento próprio e pela recepção do edifício, que exige cadastro e só permite a entrada até às 21 horas durante a semana e às 14 horas aos sábados. Para os boêmios que ficam até altas horas da madrugada na rua, o bar perde um pouco seu charme - a saída tem hora marcada: meia-noite.

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HISTÓRIA Os tempos já foram muito diferentes. Instalado no coração da capital paulista, em 1978, o espaço foi criado para sediar a Associação dos Amigos de Arte Moderna (AAMAM). O Bar do Museu era frequentado por um grupo fechado de cem sócios - políticos, intelectuais, socialites e convidados. Paulo Autran, Baden Powell, Plínio Marcos, Raul Seixas, Jânio Quadros, Luís Carlos Prestes e o coronel Erasmo Dias estão entre os que marcaram presença. A atual presidente da confraria, Clarice Berto, conta que os membros políticos conviviam pacificamente. “Era um local neutro, o que foi meu grande desencanto para não participar de movimentos a favor e contra a ditadura militar. De um lado, tinha o Prestes e, do outro, o Erasmo Dias que viviam brigando nas ruas, mas aqui só falavam baboseiras e conversavam animadamente”. Com o envelhecimento dos parceiros, Clarice assumiu a administração e, para manter as contas em dia, expandiu o negócio ao público em 2001. Contudo, a recente implantação de novas normas no prédio resultou na diminuição da clientela. “Quando entrou o novo síndico ele começou a restringir o horário e impossibilitou os eventos. Com isso, tive lançamentos cancelados, pois as

pessoas não conseguiam chegar a tempo. Com a lei antifumo, a situação ficou ainda mais difícil”. Apesar das dificuldades, a presidente insiste para que a história continue viva, visitando faculdades. O medo é que não haja alguém para substituí-la e o local, propriedade do Museu de Arte Moderna, seja utilizado para outros fins. “Os antigos sócios estão muito velhos ou morreram. Quando não puder mais cuidar do bar, ele será vendido para pagar dívidas e o restante será doado à instituições de arte”, explica Clarice. O Bar do Museu ainda mantém-se como uma instituição sem fins lucrativos, responsável por divulgar o trabalho de jovens artistas. “Estamos sem recursos e na esperança de aparecer alguém para nos patrocinar. e que dê continuidade ao nosso trabalho”, afima, otimista. BAR DO MUSEU Avenida Ipiranga, 324 – Bloco C Segunda a sexta - das 18h às 24h (Obs. só é permitido entrar no prédio até as 21h)/ sábados – até às 14h 3259-0157/3214-6427 Entrada gratuita



“A arte é um tipo de coisa que a gente gosta e às vezes nem sabe por que gosta” Ana Paula Oliveira, destaque nas Artes Plásticas