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Mark R. Laaser

Curando as feridas do

VĂ?CIO SEXUAL


Curando as feridas do

VĂ?CIO SEXUAL


Mark R. Laaser

Curando as feridas do

VÍCIO SEXUAL

1ª Edição Tradução: Mariângela Antonella Chirico França Oliveira

Curitiba 2013


Mark R. Laaser

Curando as feridas do vício sexual Coordenação editorial: Walter Feckinghaus Tradução: Mariângela Antonella Chirico França Oliveira Revisão: Josiane Zanon Moreschi Edição: Sandro Bier Capa: Sandro Bier Editoração eletrônica: Josiane Zanon Moreschi Originally published in the U.S.A. under the title: Healing the Wounds of Sexual Addiction Copyright © 1992, 1994, 2004 by Mark Laaser Published by permission of Zondervan, Grand Rapids, Michigan. www.zondervan.com All rights reserved. Further reproduction or distribution is prohibited.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Laaser, Mark R. Curando as feridas do vício sexual / Mark R. Laaser ; traduçãço Mariângela Antonella Chirico França Oliveira. -- 1. ed. -- Curitiba : Editora Esperança, 2013. Título original: Healing the wounds of sexual addiction. Bibliografia. ISBN 978-85-7839-092-1 1. Viciados em sexo - Aspectos religiosos - Cristianismo 2. Viciados em sexo - Reabilitação 3. Viciados em sexo - Tratamento 4. Viciados em sexo - Vida religiosa I. Título 13-10317

CDD-241.66

Índices para catálogo sistemático: 1. Sexo : Vício : Vida cristã : Cristianismo 241.66 Todos os nomes e circunstâncias foram mudados a fim de proteger a privacidade das pessoas envolvidas. As citações bíblicas foram extraídas da Nova Versão Internacional, Editora Vida (2000), salvo quando identificada outra versão na referência. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução total e parcial sem permissão escrita dos editores. Editora Evangélica Esperança Rua Aviador Vicente Wolski, 353 - CEP 82510-420 - Curitiba - PR Fone: (41) 3022-3390 - Fax: (41) 3256-3662 comercial@esperanca-editora.com.br - www.editoraesperanca.com.br


Sumário

e

Prefácio – Fiel e verdadeiro...................................................................7 Prefácio – O Pecado Secreto...................................................................9 Agradecimentos.......................................................................................11 Há esperança.............................................................................................13 Parte 1: O que é dependência sexual?.................................................21 1. A dependência sexual e o pecado.......................................................23 2. Comportamentos fundamentais dos dependentes sexuais.....................................................................29 3. Tipos de dependência sexual.............................................................37 4. Compreendendo e identificando as características do vício sexual.......................................................................................47 Parte 2: As raízes do vício sexual........................................................73 5. Dinâmicas familiares doentias...........................................................75 6. Abuso familiar......................................................................................95 7. Como os viciados em sexo suportam o abuso...............................113 Parte 3:

Curando as feridas do vício sexual...................123

8. A jornada da cura..............................................................................125 9. Confrontando o dependente sexual...............................................145

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Sumário

10. Aspectos do tratamento do vício sexual.......................................153 11. Cura para casais...................................................................................177 Parte 4: Curando as feridas da igreja...............................................197 12. Pastores e padres sexualmente dependentes................................199 13. Cura para congregações.....................................................................213 Conclusão................................................................................................227 Recursos....................................................................................................231 Leituras recomendadas........................................................................235

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Prefácio

Fiel e Verdadeiro

e R

aramente leio todas as páginas de um livro. Quando recebi a cópia deste, li de capa a capa. Sublinhei e anotei passagens que queria relembrar e reler. Esse é o livro mais marcado que possuo. Uma das coisas que me atraíram foi a descrição que Mark faz de famílias saudáveis e de famílias doentias. O capítulo 6, no qual ele traça as raízes da dependência sexual na família, por si só, vale o preço do livro. Nunca maridos e esposas precisaram tanto de um compromisso mais profundo com seus casamentos e suas famílias. Mark revelou eloquentemente o mistério por trás do comportamento compulsivo e me ajudou a ver que, quando nossos relacionamentos não estão vivos e em desenvolvimento, a tentação para vários tipos de dependência é desencadeada. O autor clara e concisamente define o que um relacionamento saudável é e o que não é. Explica o que evitar em seu casamento e em sua família para que você não caminhe para um padrão comportamental destrutivo, e o que maximizar para criar um padrão mais saudável. Raramente telefono para os autores dos livros que eu leio. Na verdade, só telefonei para dois até agora. Mark Laaser foi um deles. Quando terminei de ler seu livro, telefonei para ele e o cumprimentei. Esse é um livro que todos precisam ler. Gary Smalley

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Prefácio

O pecado secreto

e A

igreja cristã, tanto a protestante quanto a católica, tem experimentado uma tremenda turbulência na área da sexualidade. Temos líderes cristãos cujo comportamento sexual tem se tornado um problema para a credibilidade de seus ministérios. Pedem perdão e voltam a se envolver em pecados sexuais repetidas vezes. A mídia expõe seus desatinos e o sacro se torna motivo de piada e sarcasmo em nossa cultura. O problema parece epidêmico. Há um religioso, um padre católico romano, responsável por 163 casos de assédio sexual a crianças. Temos um bispo cujo caso amoroso tornou-se um escândalo nacional nos Estados Unidos e, mais tarde, descobriu-se que a mulher em questão tinha se envolvido com vários sacerdotes. Temos uma denominação enfrentando acordos extrajudiciais de cerca de um bilhão de dólares por abuso sexual a crianças. Temos um religioso que pregava em cruzadas nacionais contra a pornografia, preso por produção e distribuição de pornografia infantil. Os membros das igrejas têm suas lutas também. Alguns lutam com desejo sexual reprimido. O desejo de Deus para suas vidas sexuais permanece indefinido. A compulsão sexual de outros os conduz a vidas secretas de vergonha e ódio de si mesmos por não conseguirem viver à altura de seus valores. Ambos os tipos provavelmente sofrem os efeitos do abuso sexual, cuja lembrança reside na periferia sombria de suas consciências. Eles não sabem o que os aflige e mesmo a oração incessante não consegue remover a dor.

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Prefácio

Pior ainda, toda a nossa cultura está em crise sexual. Os problemas entre homem e mulher são ressaltados pela indicação de Clarence Thomas para a Suprema Corte dos Estados Unidos (acusado de assédio sexual). O fato de que toda uma nação pudesse estar envolvida e confusa sobre o que é um comportamento sexual abusivo ressalta nossa dor sexual e nossa incerteza. Os pais, por sua vez, enfrentam isso todos os dias. A idade média para a primeira relação nos Estados Unidos é de 16,2 para as garotas e 15,9 para os garotos. A grande maioria dos estudantes será sexualmente ativa até o quarto ano do Ensino Médio. Os pais não sabem o que fazer. Eles sabem que as velhas proibições pouco adiantaram para eles. Ainda assim, sabem em seu coração como seus filhos estão despreparados para a atividade sexual. Tudo isso foi obscurecido pela epidemia da AIDS que está transformando nossa cultura. Nada conecta mais claramente o comportamento responsável e o sexo do que essa doença. Em 1993 mais de um milhão de americanos estavam infectados com o vírus da AIDS e com essa estatística sentimos a consciência emergente de nossa dor sexual. A mensagem do Evangelho permanece porque os cristãos aprendem a transformar o sofrimento em significado. Agora é hora de focar aquele poder curador em nossas vidas sexuais. Precisamos de vozes que testemunhem o que a graça sexual pode significar. O dr. Mark Laaser fez isso nesse livro. Ele é escrito de coração no contexto de sua própria cura. Ele apresenta o melhor do que sabemos sobre a doença da dependência sexual e desafia a comunidade cristã a enfrentar as realidades sexuais à nossa volta. É um livro arriscado de se ler se você deseja evitar seu eu sexual. O mais importante: este livro coloca o sexo em um contexto espiritual. Como os alcoólatras, os jogadores compulsivos e outros dependentes já descobriram, o caminho da recuperação é espiritual. Assim como muitos de nós da área da saúde sabemos, Deus não pensa em compartimentos. O Espírito trabalha com a medicina e a ciência se estivermos abertos para o Senhor. Essa é a natureza deste livro poderoso e essa deverá ser a natureza de sua leitura. Patrick Carnes, Ph.D. New Freedom Treatment Programs Scottsdale, Arizona

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Agradecimentos

e

A

realização deste livro não seria possível sem a força, a ajuda e o apoio de muitas pessoas que tiveram fé em mim e no projeto, quando, às vezes, precisei desesperadamente de encorajamento. As incontáveis horas que levei para escrevê-lo não estariam disponíveis sem o amor paciente e sacrificial de minha família. Minha esposa Deb ajudou a inspirar este livro de mais maneiras do que ela imagina. O que escrevi sobre intimidade, coloquei em prática com ela. Ela foi um exemplo de como ser vulnerável e compartilhar sentimentos. Muito do que eu “prego” são comportamentos que ela pratica. Seu incentivo gentil me estimulou a compartilhar alguns de meus sentimentos pela primeira vez e seu perdão tem me mostrado que o perdão genuíno é possível. Com o passar dos anos, meus filhos, Sarah, Jonathan e Benjamin têm aturado um pai que se senta e olha hipnoticamente para a tela de um computador. Inúmeras vezes eles diminuíram o ruído de suas atividades e brincaram sozinhos para que eu pudesse escrever. Mais do que isso, eles expressam um sincero interesse por meu trabalho e muitas vezes me perguntaram como estava indo. É uma gentileza da parte deles tolerar um pai cujo trabalho no campo da dependência sexual vem de suas próprias experiências. À medida que eles crescem e amadurecem na fé minha oração é que os pecados do pai deles não sejam transmitidos a eles. Em 1987, Pat Carnes se tornou meu herói, um profeta apontando o verdadeiro caminho da cura. Desde então, ele tem se tornado um colega, um amigo e um patrocinador de meu trabalho.

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Agradecimentos

Acima de tudo, entre muitos guias no decorrer de minha jornada pessoal estão dois conselheiros excelentes, Tom e Maureen Graves. Sua habilidade de me confrontar com bondade, criar um lugar seguro para descobrir minha dor e me mostrar como amar a mim mesmo são dons profundos. Eles também modelaram e me ensinaram o processo de recuperação para todas as dependências. O que posso dizer sobre todos os meus amigos em recuperação cujo companheirismo foi um auxílio sempre presente em tempos de alegria e tribulações? Por razões profissionais esses companheiros de jornada devem permanecer sem nome. Muitas vezes um escritor é encorajado por outros escritores. Escrever tem mais a ver com disciplina e menos com inspiração do que eu pensava! Estou em dívida com Jennifer Schneider e Ralph Earle, escritores que me incentivaram a ser disciplinado. Incontáveis conselheiros, terapeutas e doutores criticaram construtivamente as ideias deste livro. Agradeço especialmente a John Lybarger, Ph. D., Eli Machen e NIls Friberg, PH.D. por suas críticas. Os escritores não escrevem seus livros sozinhos. Os livros são escritos e então reescritos com a ajuda de editores cujos esforços recebem pouco crédito. Por duas vezes, em 1991 e 2004, Sandy Vander Zicht tem sido uma editora gentil. Ela tomava o texto, muitas vezes esnobe, enrolado ou confuso, e me ajudava a torná-lo mais inteligível. Agradeço a Sandy e à Zondervan por confiar em mim.

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Há esperança

e

E

ra uma vez um jovem pastor que se tornou um conselheiro individual, matrimonial e familiar de tempo integral. Ele, sua esposa e três filhos viviam em uma ótima vizinhança. A família tinha muitos amigos e gostavam de viver ali. Além do aconselhamento, esse pastor era um pregador substituto em uma igreja local, lecionava na faculdade cristã e fazia parte da diretoria da escola. Como era um orador famoso, dava palestras para muitos grupos e era frequentemente entrevistado no rádio e na televisão. Ele também fazia serviço voluntário em uma casa de repouso. Em todos os aspectos esse pastor era apreciado e respeitado por sua comunidade e muitos o procuravam em busca de apoio, conselho e incentivo. No entanto, também era um dependente sexual. Ele se masturbava em excesso desde a faculdade. No curso de mestrado começou a visitar livrarias pornográficas e casas de massagem, um hábito que continuou em sua carreira profissional. Embora tivesse medo de ser descoberto e humilhado publicamente, ele não conseguia vencer sua dependência sexual. É desnecessário dizer que seu casamento, que na aparência era amoroso e estável, tinha muitos problemas. Ele e sua esposa estavam tão ocupados com sua família e suas carreiras que tinham pouco tempo um para o outro. Sem noção do que é intimidade e acreditando que sua esposa não o amava de verdade, o pastor pensou em procurar uma mulher que o amasse.

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Há esperança

Quando mulheres sofridas e vulneráveis o procuravam para aconselhamento pastoral em busca de ajuda, ele praticava sexo com elas. Confundia sexo com amor e acreditava realmente que gostava delas, sem jamais perceber como as magoava. O pastor vivia atormentado pela dúvida. Não gostava muito de si mesmo e se perguntava como essas mulheres poderiam se sentir atraídas por alguém como ele. Repetidas vezes prometia terminar com os casos e repetidas vezes caía novamente em pecado. Então, um de seus colegas descobriu um de seus casos amorosos e o pastor foi demitido de sua posição de conselheiro. Ressentido e decepcionado, o colega e vários outros pastores o confrontaram. Um deles, médico e alcoólatra recuperado lhe disse: “Seu comportamento com o sexo parece o meu com o álcool. Você está fora de controle. Deixe-nos procurar ajuda para você”. O médico abraçou o pastor porque conhecia a dor dos comportamentos incontroláveis. Embora estivesse chocado e com medo, o pastor também estava cansado de sua vida dupla, cansado o suficiente para não resistir às tentativas de procurar ajuda. Vários dias depois ele deu entrada na unidade de dependentes sexuais do Centro de Saúde Golden Valley. Nos meses que se seguiram, descobriu a dor e a alegria da cura. Foi um processo repleto de lembranças dolorosas da infância, culpa por seu comportamento e angústia pelo abuso que infligiu a outros. Seu vício lhe custou bem caro. Ele nunca mais aconselharia ou pregaria em um púlpito novamente. Várias mulheres que ele aconselhava o processaram. Algumas viam seu comportamento com ódio e desprezo. O processo, porém, estava repleto da alegria de ser honesto, de uma vida nova e de relacionamentos restaurados com sua esposa e amigos. Ele começou a descobrir a paz da cura e decidiu que não a trocaria por nada nesse mundo. Salvo aos dezesseis anos e ordenado pastor por dez anos antes de encontrar a cura, ele sempre se sentiu indigno do perdão de Deus. Embora fosse admirado pelas pessoas, sentia que elas o odiariam se soubessem da verdade. Somente após ter abraçado a honestidade e se lançado na jornada transformadora longe da dependência sexual é que ele veio realmente a conhecer Deus, a redenção e a restauração. Os dependentes do sexo, como esse pastor, cometem um pecado secreto. Ele é tão pecaminoso que quase todas as pessoas têm vergonha demais para falar a respeito. Ainda assim, seu pecado, uma profunda violação da lei de Deus, ameaça nossa cultura e o âmago da igreja cristã.

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Há esperança

O pecado secreto da dependência sexual cresce das sementes plantadas na infância e os sintomas podem permanecer imperceptíveis por anos. Na adolescência, os indicadores dessa enfermidade podem ser confundidos com o desenvolvimento sexual normal. Na idade adulta, a doença cresce e piora progressivamente. No fim, se não tratada, suas vítimas morrerão. O pecado secreto é uma doença compulsiva que existe desde o princípio dos tempos. Mesmo assim, recebe outros nomes, é tratada de forma incorreta, é ignorada ou absolutamente não diagnosticada. Embora tenha matado, humilhado e feridos casais sem conta, alguns ainda não acreditam que ela exista. Aqueles que sofreram de dependência sexual são motivo de riso, desprezo e perseguição. Consumidos demais pela vergonha para pedir ajuda, confinam suas vidas à solidão e isolamento. Apenas recentemente temos reconhecido o pecado secreto como doença e oferecido tratamento para suas vítimas. Os cristãos não estão isentos dessa enfermidade. Os especialistas especulam que cerca de 10% do total da população cristã nos Estados Unidos é viciada em sexo. Se for verdade, isso significa que, de uma congregação de 500 membros, 50 são dependentes sexuais. Essa porcentagem pode estar aumentando. Em um estudo, dois terços de todos os homens cristãos admitem estar “lutando” com a pornografia. Em outro estudo, 40% dos pastores pesquisados confessaram que viam pornografia. Embora esses achados não indiquem que os pesquisados sejam completamente viciados, é trágico que a porcentagem de homens interagindo com pornografia seja muito mais alta hoje do que há poucos anos atrás. Isso ocorre em grande parte devido à disponibilidade da pornografia na Internet. Os cristãos que lutam com ela oram incessantemente, leem a Bíblia constantemente e consultam vários pastores, mas ainda não conseguem parar. Desanimados, eles deixam a igreja. O pecado sexual não é novidade para a igreja. Vozes em nosso meio têm consistentemente protestado contra essa imoralidade e chamado ao arrependimento. Ainda assim, o pecado sexual permanece um tópico difícil de ser abordado. Quando “um de nós” comete um pecado sexual, o restante fica chocado e constrangido pela aparente hipocrisia e completo fracasso de fé. Em resposta, nos voltamos para nossa própria vergonha, medos e confusão e tentamos manter a situação o mais secreta possível. É hora de trazer o problema do pecado sexual para a arena do discurso público dentro da comunidade cristã. A igreja não pode mais ignorar

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Há esperança

a dependência sexual ou fingir que exista somente “lá fora” porque ela aflige nossas famílias e nossas congregações. Curando as feridas do vício sexual é minha tentativa de examinar e abordar a questão do vício sexual entre os cristãos. Vamos expor esses pecados secretos à luz do Evangelho e de nosso melhor entendimento psicológico. Você pode pensar que não conhece um dependente sexual. Os viciados em sexo, porém não se encaixam nos estereótipos populares. Eles são gentis e bondosos. Preocupam-se profundamente com os outros. Aos seus amigos membros da igreja aparentam ser os cristãos ideais, mas um lado secreto deles comete coisas horríveis e hediondas, coisas sexuais, algumas delas terríveis demais para descrever detalhadamente. A atividade sexual deles é incontrolável e eles não conseguem parar. São viciados. Mas há esperança. Em seu clássico Out of the Shadows (Fora das sombras), o dr. Patrick Carnes reconhece que o comportamento sexual descontrolado se assemelha ao alcoolismo e que muitas pessoas são dependentes de sexo. O tratamento que Carnes aplica à dependência sexual é o mesmo que tem mantido os alcoólatras sóbrios por cinquenta anos. Eles alcançam a “sobriedade sexual” ou aquilo que os cristãos chamam de “pureza sexual”. Há esperança para a igreja e para as muitas pessoas que sofrem, secreta ou publicamente, com o pecado sexual. Há esperança para cônjuges, famílias e amigos. Há esperança para milhares de pessoas cuja fé foi traída pelo pecado sexual de um pastor ou outro líder cristão. Há esperança para as vítimas dos dependentes de sexo. Há inclusive esperança para aqueles que, há muito tempo, deixaram a igreja quando seu pecado sexual foi recebido com julgamento em vez de ajuda. A história da mulher samaritana em João 4 me dá esperança. Casada cinco vezes e vivendo naquele momento com um homem que não era seu marido, ela ficou abismada quando Jesus ofereceu a ela – uma pecadora sexual – a água viva da salvação. Depois de curar a mulher, Jesus não entrou na vila para pregar às pessoas respeitáveis. A mulher adúltera foi. Jesus confiou a mensagem de salvação a uma pecadora sexual redimida. Isso é que é esperança! Finalmente, eu sei que há esperança porque estou me recuperando da dependência sexual. Não digo mais que sou um dependente sexual. Muitas características me descrevem: um cristão comprometido, marido, pai, conselheiro, professor e escritor. Também sou o jovem pastor descrito no início desta introdução. Meu pecado sexual prejudicou muitas pessoas,

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Há esperança

traiu a confiança de outras e trouxe dolorosas consequências para mim. Como a mulher samaritana, eu também tive que ficar junto ao poço na hora mais quente do dia, cheio de vergonha, solid�������������������� ão, medo e fui orgulhoso demais para pedir ajuda. Deus me encontrou ali. Com a ajuda de muitos outros conheci a paz na recuperação. Por causa de minha própria dor e desespero é que estendo a mão a outras pessoas para socorrê-las em meio à dor e ao desespero delas. Oro para que este livro mostre o caminho da água viva que só Deus pode oferecer.

Hoje há uma necessidade ainda maior de esperança Já se passaram doze anos desde que escrevi a primeira edição deste livro, O Pecado Secreto. Desde que o livro foi publicado algumas coisas mudaram e algumas, não. As realidades que Pat Carnes descreve em seu prefácio continuam a ser verdadeiras como eram em 1992, talvez ainda mais. Há uma crise crescente em nossa igreja e em nossa cultura. Algumas formas de vazão sexual são epidêmicas. Raramente se passa uma semana sem que eu receba um telefonema de um pastor ou missionário que tenha “caído”. Hoje estamos expostos rotineiramente a comportamentos sexuais que, em sua maioria, seriam considerados aberrações há apenas uma década. A disponibilidade da pornografia através da mídia convencional tem aumentado dramaticamente. Até em programas de televisão no “horário nobre”, antigamente considerado seguro para a audiência familiar, incluem agora o sexo explícito em seu conteúdo. Estamos travando uma guerra contra a dependência sexual e a imoralidade sexual – e estamos perdendo. Um dos maiores problemas que enfrentamos hoje é a disponibilidade de material sexualmente explícito na Internet. Na época da primeira edição deste livro, a Internet era de uso restrito. Apenas uma pequena porcentagem da população sabia de sua existência. Hoje, 80% de nós surfamos na Internet e a maioria a usa regularmente. Pornógrafos, prostitutas e predadores sexuais a usam também, geralmente de formas perturbadoramente criativas. Por exemplo, quando a Internet estava começando a ganhar popularidade, os pornógrafos registraram nomes de domínios de websites de muitos termos comuns e marcas famosas – especialmente aqueles que seriam mais prováveis de serem usados por crianças e adolescentes, como Cinderella e Coke. Eles usaram

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Há esperança

esses nomes para criar websites pornográficos. Como resultado, toda a vez que a palavra Cinderella dava entrada em um instrumento de busca na Internet, material pornográfico em forma de imagens “pop-up” aparecia na tela. Este livro contém agora material que se dirige a alguns dos problemas peculiares apresentados pela Internet. Além de abordar os problemas recentes da Internet, essa revisão também inclui as últimas informações sobre a dependência sexual, bem como o aprimoramento de meus próprios conceitos e conhecimentos. Por exemplo, usei menos a palavra recuperação e mais a palavra transformação. Não voltamos atrás e nos recuperamos, em vez disso, avançamos para sermos curados e transformados. Também passei a crer que não é útil descrever as famílias como saudáveis e não saudáveis. É melhor enxergarmos que todos nós viemos de famílias que cometeram erros. O importante é descobrir como fomos feridos por esses erros e como podemos ser curados. O capítulo 8 (anteriormente capítulo 9) “A Jornada da Cura” foi completamente reescrito para dar uma ênfase maior ao crescimento espiritual e aos princípios bíblicos. O capítulo anterior tinha uma extensa explicação dos Doze Passos como um instrumento de cura. Continuo a crer que os Doze Passos contêm muita sabedoria espiritual e ainda incentivo as pessoas a praticá-los e a frequentar as reuniões. No entanto, cheguei à conclusão de que os Doze Passos não enfatizam o suficiente a transformação espiritual radical que só pode ser obtida através de um relacionamento mais íntimo com Jesus Cristo. O novo capítulo ainda contém a sabedoria dos Doze Passos, mas apresenta esses princípios dentro de um contexto mais amplo de princípios bíblicos. Este livro foi escrito por um homem dependente sexual e é obviamente influenciado por uma perspectiva masculina. Alguns podem pensar que só os homens podem se viciar sexualmente. No entanto, esse não é o caso. Até a primeira edição desse livro contém exemplos de mulheres dependentes de sexo. Há um aumento dramático em nosso conhecimento da prevalência do vício sexual feminino. Por décadas, nossa cultura tem incentivado as mulheres a serem mais agressivas e assertivas. Em alguns aspectos, isso tem sido positivo. As mulheres hoje têm oportunidades iguais às dos homens em muitas áreas. No entanto, assim como o homem pode usar seu poder de maneiras nocivas, a mulher também, e em número crescente as mulheres têm se viciado sexualmente.

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Há esperança

Esta revisão procura atender às necessidades e aos problemas singulares das mulheres dependentes de sexo. Embora mais e mais recursos tenham sido desenvolvidos para as mulheres, tem sido difícil para elas obterem acesso à ajuda por causa do estigma que ser uma mulher sexualmente dependente traz. Enquanto um homem que age sexualmente é considerado um “garanhão”, uma mulher recebe a pecha de “vagabunda” e “mulher à toa” pelo mesmo comportamento. Pode ser também problemático para as mulheres participarem em grupos de apoio para dependentes sexuais frequentados por homens em sua maioria. No entanto, por crer que homens e mulheres dependentes sexuais têm muito mais coisas em comum do que diferenças, não acrescentei um capítulo sobre a dependência feminina1. Talvez a mudança mais evidente seja a inclusão da Parte 4, “Curando as feridas da igreja”. Ela é composta de dois capítulos: “Pastores e padres viciados em sexo” (antigo capítulo 5) e “Cura para congregações”. Nos últimos anos tenho trabalhado com um número crescente de igrejas cujos pastores caíram em pecado. Parece-me uma boa hora para abordar esse problema criando uma nova seção dedicada às necessidades específicas de pastores e congregações. Deus é bom e gracioso. Eu continuo me restabelecendo e crescendo. Tenho estado sóbrio por dezessete anos. Hoje, minha esposa Debbie e eu trabalhamos como uma equipe ministrando a outras pessoas. Nosso casamento continua a se transformar na união de uma só carne para a qual Deus nos chamou. Acima de tudo, cremos com fé sempre crescente que a verdadeira cura é possível. Oramos continuamente para que este livro seja um ponto de partida para você em sua jornada de cura.

1

Para mais informações sobre o vício sexual feminino veja No Stones: Women Released from Sexual Shame (Sem pedras: Mulheres libertas da vergonha sexual), 2ª ed., de Marnie C. Feree. (IVP Books, 2010)

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Parte 1

O que é dependência sexual?

e


Capítulo 1

A dependência sexual e o pecado

e F

alei recentemente com um pastor sobre a vergonha de ser um cristão viciado em sexo. Em todos os sentidos ele parece um homem bem-sucedido. Lidera uma grande igreja “cheia de muitos dons do Espírito”. Bem quisto por seu povo, ele prega sermões maravilhosos. É casado, tem filhos e parece um pai de família normal. Mesmo assim, esse pastor tem uma vida dupla. Muitas vezes ele é atraído a um parque local onde tem encontros com homens desconhecidos e pratica sexo com eles. A maior parte desses encontros dura menos de trinta minutos e nenhuma palavra é pronunciada. Então, ele retorna ao seu gabinete sentindo-se mais vazio do que antes. Buscando intimidade, encontra somente frustração e medo. Quando alguém de sua igreja vai descobrir?

A dependência sexual é pecado A dependência sexual é uma doença que envolve qualquer tipo de atividade sexual incontrolável. Pelo fato de o dependente sexual não conseguir controlar seu comportamento, eventualmente resulta em consequências negativas. Todas as vezes em que eu falo a cristãos sobre a dependência sexual, há sempre alguém que pergunta: “Quando você chama esses comportamentos sexuais de dependência ou de doença, não está esquecendo de que são pecaminosos? As pessoas devem se arrepender, mudar seus

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Capítulo 1

caminhos e se acertar com Deus”. Eu sempre concordo com essas afirmações. Os comportamentos sexuais que se tornam compulsivos são pecado. As pessoas precisam se arrepender, mudar seus caminhos e se acertar com Deus. O arrependimento, a mudança de comportamento e um relacionamento mais profundo com Deus, tudo isso são objetivos da jornada de cura para um viciado em sexo. Eu geralmente respondo com outra pergunta: Quanto você espera que esse arrependimento e essa mudança devam durar? O pecado e o vício têm algumas características em comum. Como um vício, o pecado é incontrolável e indomável. De fato, Deus teve que sacrificar seu único Filho porque não conseguíamos controlar nossas próprias vidas. O vício em sexo tem a ver com tentar controlar um comportamento e falhar. Como os alcoólatras, os sexodependentes dizem a si mesmos que podem parar amanhã se quiserem. Eles gostam de pensar que estão no controle, mas não estão. Na verdade, sua incapacidade de desistir da ilusão de controle é precisamente o que impede os viciados em sexo de serem curados. O mesmo ocorre com qualquer pecado. Nossas tentativas de controlar nossas vidas impedem que confiemos em que Deus cuidará de nós. O vício oferece uma válvula de escape para os sentimentos. A despeito das experiências que tiveram com o amor de Deus e com seu poder, as pessoas de fé às vezes têm naturezas temerosas e desconfiadas que as levam a buscar uma fuga para seus sentimentos. Considere o profeta Elias. Depois de derrotar os profetas de Baal no Monte Carmelo, temeu por sua vida. Em vez de enfrentar seus medos, fugiu e se escondeu em uma caverna. Jonas fugiu de seu medo de obedecer à ordem de Deus de pregar e acabou na barriga de uma baleia. Os discípulos fugiram com medo daqueles que vieram prender Jesus no Jardim do Getsêmani. Como o vício, essa compulsão de escapar de emoções dolorosas torna-se incontrolável. Faz parte da natureza pecaminosa que herdamos. Os vícios oferecem uma forma de escape, uma solução falsa, um meio de controlar a solidão, a ira, a ansiedade e o medo. Os vícios, sendo incontroláveis, também levam a consequências destrutivas. Destroem vidas, separam famílias, arruínam carreiras. O pecado também tem suas consequências. Romanos 6.23 nos fala que o salário do pecado é a morte. A maior parte dos dependentes sexuais experimenta uma vergonha devastadora e acreditam ser totalmente indignos. No jardim do Éden,

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A dependência sexual e o pecado

antes de Adão e Eva pecarem, estavam nus e não se envergonhavam. Depois, no entanto, sentiram vergonha. Por sermos filhos e filhas de Adão e Eva, nós também sentimos vergonha quando pecamos. Portanto, uma compreensão mais clara do vício oferece um entendimento mais claro do pecado. O pecado é mais do que apenas uma lista de comportamentos imorais. É a falta de um relacionamento com Deus e os comportamentos destrutivos cometidos são seu resultado. O pecado é incontrolável e leva as pessoas a não confiarem no governo de Deus em suas vidas e a cometerem comportamentos destrutivos contra si e contra os outros. Causa vergonha e leva à morte. O descontrole, a fuga, a vergonha e – para alguns – o vício, permeiam o próprio tecido do pecado.

Vício sexual como doença O vício sexual é também uma doença – uma situação na qual alguma coisa normalmente saudável se torna nociva. Tanto o vício sexual quanto a doença possuem sintomas observáveis e uma progressão natural que, se deixada sem tratamento, piora e eventualmente leva à morte. Definir vício sexual como doença é também consistente com a definição de pecado. A pecaminosidade tem uma causa. Herdamos o pecado original quando nascemos. E o pecado tem sintomas. Não confiamos em Deus. Fazemos escolhas prejudiciais. Tentamos controlar nossas próprias vidas. Como a doença, a pecaminosidade é um processo degenerativo. A Bíblia continuamente nos alerta sobre a possibilidade que nós temos de cair cada vez mais fundo no pecado. No fim, a pecaminosidade pode nos levar à morte. Os conceitos de vício e doença esclarecem e aprofundam nosso entendimento das consequências do pecado. Aceitando que o vício sexual é uma doença e um pecado, precisamos aceitar que o diabo, a personificação do mal, está trabalhando no vício sexual. Ele usa muitos instrumentos para criá-lo, incluindo dinâmicas familiares doentias, abuso e sentimentos de vergonha. O diabo nos convence de que somos maus e irredimíveis. Ele semeia desesperança nos convencendo de que não vamos melhorar. Não tenho a menor dúvida de que estamos engajados em uma batalha espiritual quando tentamos nos curar da dependência sexual.

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O pecado sexual não é novidade para a igreja. Vozes em nosso meio tem consistentemente protestado contra essa imoralidade e chamado ao arrependimento. Ainda assim, o pecado sexual permanece um tópico difícil de conversarmos. Quando “um de nós” comete um pecado sexual, o resto de nós fica chocado e constrangido pela aparente hipocrisia e completo fracasso de fé. Em resposta, nos voltamos para nossa própria vergonha, medos e confusão e tentamos manter a situação o mais secreta possível. É hora de trazer o problema do pecado sexual para a arena do discurso público dentro da comunidade cristã. A igreja não pode mais ignorar a dependência sexual ou fingir que ela exista somente “lá fora” porque ela aflige nossas famílias e nossas congregações. Curando as feridas do vício sexual é minha tentativa de examinar e abordar a questão do vício sexual entre os cristãos. Vamos expor esses pecados secretos à luz do Evangelho e de nosso melhor entendimento psicológico. O autor

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Curando as feridas do vicio sexual