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Johannes Reimer

Celebrando Deus no mundo

Em busca do culto missional


Johannes Reimer

Celebrando Deus no mundo Em busca do culto missional  


Johannes Reimer

Celebrando Deus no mundo Em busca do culto missional

1ª edição Tradução Doris Körber

Curitiba 2012  


Johannes Reimer

Celebrando Deus no mundo Em busca do culto missional

Coordenação editorial: Walter Feckinghaus Título original: Gott in der Welt feiern: Auf dem Weg zum missionalen Gottesdienst Tradução: Doris Körber Revisão: Josiane Zanon Moreschi Capa: Sandro Bier Edição: Sandro Bier Editoração eletrônica: Josiane Zanon Moreschi Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Reimer, Johannes Celebrando Deus no mundo : em busca do culto missional / Johannes Reimer ; tradução Doris Körber. - - 1. ed. - - Curitiba, PR : Editora Esperança, 2012. Título original: Gott in der Welt feiern : auf dem Weg zum missionalen Gottesdienst. Bibliografia ISBN 978-85-7839-075-4 1. Celebrações litúrgicas 2. Culto público 3. Deus - Adoração e amor 4. Evangelismo 5. Igreja - Crescimento 6. Missão da Igreja 7. Novas Igrejas - Desenvolvimento I. Título 12-03644

CDD-264.041

Índices para catálogo sistemático: 1. Culto público : Igreja : Cristianismo

264.041

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Sumário

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Prefácio..........................................................................................................11 1. Culto – e ninguém aparece.....................................................................15 1.1 Fim de uma tradição eclesiástica?.................................................15 1.2 Culto na sociedade do entretenimento.........................................17 1.3 O que é culto?...................................................................................19 2. Não é igreja se não há culto...................................................................25 2.1 A correlação entre igreja e culto.....................................................25 2.2 O culto na perspectiva do NT........................................................27 2.3 Ekklesia – a reunião dos responsáveis............................................30 2.4 O caráter trinitário do culto eclesial – o conceito teológico básico................................................................................35 2.4.1 Missio Dei: Deus convida.....................................................43 2.4.2 Missio Christi: Deus serve....................................................46 2.4.2.1 Culto – compreensível e culturalmente relevante....................................................................51


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2.4.2.2 Culto – proximidade com as pessoas e a vida......................................................................53 2.4.2.3 Culto – conexão local...............................................54 2.4.2.4 Culto – missional e dialógico.................................54 2.4.3 Missio Spiritus: Deus conduz...............................................55 2.4.3.1 O culto como espaço para a atuação do Espírito.................................................................58 2.4.3.2 O culto como local em que a igreja assume sua forma espiritual...................................59 2.4.3.3 O culto como local da missão do Espírito............62 2.4.4 Culto como ação missional do Deus trino........................63 3. Culto com conteúdo................................................................................65 3.1 O que acontece no culto?.................................................................65 3.2 Ênfases e perspectivas.....................................................................66 3.2.1 Perspectiva espiritual: liberdade para adorar..................67 3.2.2 Perspectiva social: liberdade para ter comunhão............68 3.2.3 Perspectiva individual-pastoral: liberdade para encontrar-se a si mesmo......................................................68 3.2.4 Perspectiva missionária: liberdade para o serviço e para a missão......................................................................69 3.3 Os cinco dons de Deus....................................................................70 3.3.1 A ênfase apostólica – Missão..............................................71 3.3.2 A ênfase profética – Visão...................................................75 3.3.3 A ênfase evangelística – Comunicação..............................79 3.3.4 A ênfase pastoral – Transformação....................................82 3.3.5 A ênfase pedagógica – Verificação.....................................84


Sumário

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3.4 Sobre perspectivas e ênfases no esboço geral..............................87 3.4.1 As cinco características do culto missional.......................87 3.4.2 Não tudo de uma vez só, mas de tudo um pouco...........93 4. A forma do culto missional....................................................................95 4.1 Culto – o centro da igreja................................................................95 4.2 Aculturação como necessidade......................................................96 4.3 Formas, estruturas, organização....................................................98 4.3.1 Nada de culto sem forma....................................................98 4.3.2 Entre a experimentação e a tradição................................100 4.3.3 Renovação do culto – um resumo da prática.................101 4.4 Formas de culto – o que é apropriado?.......................................104 4.4.1 Culto como evento..............................................................104 4.4.2 Tipos de evento no contexto do culto..............................105 4.4.2.1 O culto litúrgico......................................................105 4.4.2.2 O culto tradicional.................................................106 4.4.2.3 O culto avivado......................................................107 4.4.2.4 O culto de adoração...............................................108 4.4.2.5 Cultos para quem busca........................................109 4.4.2.6 Culto de igrejas nas casas......................................111 4.4.2.7 Culto na igreja emergente.....................................112 4.4.2.8 Cultos na mídia......................................................113 4.5 O que está por trás de nossas expectativas de culto?...............114 4.6 Evento com perfil...........................................................................117 4.7 O que faz do culto um culto.........................................................118 4.7.1 Louvor e adoração..............................................................120 4.7.1.1 O que é adoração?..................................................120


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4.7.1.2 Local da adoração...................................................120 4.7.1.3 Propósito da adoração...........................................121 4.7.2 Comunhão com Deus e com pessoas...............................122 4.7.2.1 O que é comunhão?................................................122 4.7.2.2 Onde acontece comunhão?...................................122 4.7.2.3 Propósito da comunhão no culto.........................124 4.7.3 Ouvindo a Palavra de Deus..............................................125 4.7.3.1 Qual é o propósito da pregação em um culto?..........................................................125 4.7.3.2 O meio de comunicação........................................128 4.7.3.3 Finalidade e objetivo da pregação.......................128 5. A direção do culto.................................................................................131 5.1 Não há culto sem direção..............................................................131 5.2 Não há direção sem uma equipe de líderes...............................132 5.3 Não há direção sem colaboradores.............................................134 5.3.1 Pessoas que compreendem a essência do culto.............135 5.3.2 Pessoas em um relacionamento pessoal com Deus.......136 5.3.3 Pessoas com visão de graça e cura...................................136 5.3.4 Pessoas com disposição para pregar a Palavra de Deus...............................................................137 5.3.5 Pessoas com visão para criatividade e beleza................138 5.3.6 Pessoas que querem aprender..........................................139 5.4 A equipe de direção do culto (EDC)...........................................141 6. O planejamento do culto......................................................................145 6.1 Um processo criativo.....................................................................145 6.2 Determinando os objetivos do culto...........................................147


Sumário

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6.3 Definindo a prioridade..................................................................148 6.4 Seguindo os princípios..................................................................149 6.4.1 Textura do culto..................................................................150 6.4.2 Objetivo e tema do culto....................................................153 6.4.3 Período de tempo................................................................153 6.4.4 Participantes........................................................................154 6.4.5 Cultura de culto..................................................................155 6.4.6 Não há culto sem avaliação...............................................155 7. A caixa de ferramentas do dirigente do culto...................................157 7.1 Treinamento é dever......................................................................157 7.2 Como escrever textos litúrgicos?.................................................158 7.3 Onde obter ilustrações e símbolos?.............................................161 7.4 Como, quando e por que orar?....................................................163 7.5 Socorro, preciso de um testemunho!.........................................164 7.6 Onde encontrar os cânticos certos?............................................166 7.7 Movimento e dança no culto.......................................................167 7.8 Esquetes, pantomimas e peças de teatro...................................168 7.9 Como arrumar o ambiente?........................................................169 7.10 E quando puserem os olhos em mim........................................170 Posfácio........................................................................................................171 Bibliografia..................................................................................................175


Prefácio

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Já se vão quase 100 anos desde que começamos a dizer que a Alemanha se tornou um alvo missionário1. Neste período também lamentamos o fato de que as igrejas evangélicas estão perdendo seus membros e que as programações dominicais das igrejas estão esvaziadas. O discurso da crise do culto é tão antigo que há tempo esquecemos quando ele surgiu. Seria ingênuo acreditar que mais um livro sobre esse assunto seria a solução para essa crise. Mas ele pode se mostrar útil em muitas igrejas nas quais os membros estão cansados da rotina costumeira dos cultos. Também tenho histórias de cultos sem graça para contar. Na época do meu ministério houve tempos em que tive vontade de jogar a toalha. Nada parecia funcionar da forma como tinha sido planejado e preparado. Ah, se não fosse a graça de Deus! Não, não desisti. Este livro é a melhor prova disto. Deus me sustentou durante esse tempo. E assim o meu ministério prático na igreja também passou a ter muitos exemplos encorajadores. Portanto, não limito este livro a um teologuês puro. Mesmo os conceitos teológicos básicos discutidos aqui nasceram 1 Gerhard Hilbert expressou esse pensamento já em 1916 (Herbst 2005:202), e desde então repetem-se as referências à Alemanha como um país alvo de missões.


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da prática. A teologia na qual este livro se baseia nasceu da prática para a prática. Por isso, este livro dirige-se àqueles que se preocupam com o futuro do culto evangélico em nosso país e também a tantos pastores e pastoras que, domingo após domingo, lutam com a questão de como elaborar um culto atraente. A teologia deste livro foi elaborada conscientemente em forma de teologia prática. Seu objetivo é a ação. Ela deseja e precisa ser aplicada. Minha preocupação principal é a direção do culto. Portanto este livro é sobre a direção espiritual do culto. Isto descreve os vários aspectos da problemática tratada neste livro. Por um lado, parto do princípio de que a crise nos cultos nas nossas igrejas decorre do fato de que é justamente isso que falta hoje – a capacidade de liderar, e, mais especificamente, dirigir cultos. Por outro lado, acredito que o tédio que reina nos cultos atuais é causado pelo fato de que há muito tempo perdemos de vista o que realmente significa cultuar. Quando não conhecemos o objetivo, o empreendimento da liderança como um todo se torna questionável. Pelo conteúdo do livro você perceberá rapidamente que seu autor é um missiólogo. Na minha opinião, o culto não pode ser realizado fora do conselho eterno de Deus. É como nos referimos hoje à expressão latina missio dei. A essência do culto cristão só pode ser pensada dentro do contexto da essência da própria igreja, e esta deve ser puramente missionária. A igreja é missionária por natureza – esta frase do segundo Concílio do Vaticano já se tornou praticamente um dogma para quase todas as denominações cristãs. Mas se isso for verdade, a única forma de pensar o culto é a forma missional. Não é de admirar, então, que a crise do cristianismo ocidental, que é principalmente uma crise do entendimento da sua missão, tenha acarretado uma crise no culto. Portanto, se buscamos uma renovação ontológica do culto a questão primária é redescobrir a natureza missional do culto cristão.


Prefácio

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Também há uma grande insegurança a respeito do processo da própria direção dos cultos. Como conduzir as pessoas a um ponto em que Deus lhes sirva? Como levá-las à posição em que elas mesmas passam a servir a Deus? Como o culto normal de uma igreja normal pode se transformar em um acontecimento missional? Não basta aqui um simples evento religioso, qualquer que seja seu formato litúrgico. Por isso é preciso esclarecer dois pontos: a natureza do culto e os princípios da direção do culto. Como já mencionei, minha experiência inclui a prática de culto e não há nada que eu deseje mais do que ver essa prática fundamentalmente renovada em muitas igrejas. A prova de que isso é possível não está apenas na grande quantidade de livros escritos sobre o assunto nos últimos anos2, mas também nas experiências extremamente encorajadoras das igrejas que passaram por esse processo de renovação. É nessas experiências que encontro motivação e forças para este livro. É muito representativo o testemunho de uma jovem que certa vez veio falar comigo depois do culto em nossa igreja. Ela disse: - Hoje Deus falou comigo. Não me olhe com essa cara, estou falando sério: Deus estava aqui hoje. Eu pude experimentá-lo. - Mas Deus está sempre aqui no culto - respondi com cuidado. - Pode ser, pastor, pode ser. Mas eu ainda não o tinha experimentado em culto nenhum. Hoje, aqui com vocês, isto aconteceu pela primeira vez. E acredite, vou à igreja desde pequena. Foi diferente. É sobre isso que quero escrever: o que essa jovem percebeu como sendo diferente e que lhe possibilitou ter uma experiência com o Deus vivo e eterno. “Imagine só: é hora do culto e todo mundo quer participar” – esta é a visão que permeia este livro.   2

Veja entre outros Kuen 1998.


1 w Culto – e ninguém aparece

1.1 Fim de uma tradição eclesiástica? Há anos ouvem-se lamentos a respeito do culto evangélico. Cada vez menos pessoas frequentam os programas dominicais nas igrejas e comunidades. Uma dúzia de frequentadores de culto parecem perdidos na gigantesca nave de uma igreja luterana no bairro Altona, em Hamburgo. E na maioria das igrejas batistas da cidade menos da metade dos membros aparece na hora do culto. Hamburgo não é, nem de longe, uma exceção. As coisas não são muito diferentes em Berlim, ou Frankfurt, Munique, Zurique, Viena. A situação é precária. Uma pesquisa regular realizada pela EKD (Igreja Evangélica Luterana da Alemanha) entre seus membros mostra que 15% nunca vão ao culto, 27% participam uma vez ao ano ou menos, 35% vão mais de uma vez ao ano (normalmente apenas aos “eventos obrigatórios”). Ocorre que 77% dos membros nunca frequentam o culto de fato. Ainda de acordo com a pesquisa, os membros que participam de um culto todas as semanas mal chegam a 10%3. Um número ainda mais realista seria 5%, como mostrou o estudo de Beck (Beck 3

Kirchenamt 2003; Huber 2006. Sobre a avaliação da pesquisa, veja Hermelink 2006 e Beck 2007.


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2007:46). E os que se atrevem a ir à igreja são, em sua maioria, pessoas de mais idade. Um grupo de estudo chamado “Igreja para amanhã” realizou em 19 de outubro de 2003 uma análise detalhada da distribuição das faixas etárias entre os frequentadores de 123 cultos evangélicos na Alemanha escolhidos aleatoriamente. O levantamento mostrou que 47,6% dos frequentadores têm mais de 60 anos; 28,2% estão entre 40 e 60 anos; 17,9% têm de 20 a 40 anos de idade e apenas 6,4% têm menos de 20 anos. O resultado desse levantamento levou o grupo a concluir que estamos lidando com uma igreja da terceira idade (:86ss). Será que a igreja tradicional está a ponto de se aposentar? Em 1977 o bispo emérito da Igreja Evangélica Luterana de Württemberg Theo Sorg já tinha expressado sua profunda preocupação com a diminuição da frequência nos cultos (Sorg 1977:62). Dez anos depois ele repetiu sua inquietação com a mesma veemência (1987:56). Outros confirmaram seus temores4. E hoje a situação não mudou muito. Por que as pessoas não frequentam mais os cultos, apesar de estar provado que se consideram membros? Será que perderam o interesse pelas questões espirituais, ou o problema está na forma como o culto é realizado nas igrejas? Será que a crise enfrentada pelos cultos originou-se dentro da própria igreja? Seria possível que o formato do culto tradicional típico estivesse contribuindo de forma determinante para que as pessoas não consigam mais identificar-se com ele? Ou, para ir um pouco mais fundo, será que a natureza do culto mudou tanto que aquele que deveria apresentar-se para servir, o próprio Deus, retirou-se dele? Se o culto é o melhor lugar para “expressar o nosso amor a Deus” (Kuen, 1998:1), é preciso perguntar: o que saiu dos eixos para que justamente o desejado encontro de amor não aconteça mais? Ou será que este encontro não está mais sendo buscado? Não é preciso ser especialista para descobrir que a maioria dos cultos atuais trata apenas 4

Neste contexto, veja o estudo de Willi Beck (2007).


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marginalmente de Deus. Para muitos frequentadores o culto tradicional é, principalmente, um culto de casualidades. As pessoas vão porque parece ser socialmente apropriado incluir experiências de culto em determinados momentos da própria biografia. Batismo, confirmação, casamento e funeral são líderes nesse sentido. Também podemos mencionar experiências de vida inesperadas e situações de estresse como acontecimentos que podem desencadear o desejo de participar de um culto. Mas essa casualização do culto, como temem determinados representantes eclesiásticos5, demonstra uma ressignificação substanciosa do culto e, no fim, também uma redefinição do cristianismo em si. Aqui o culto é pensado a partir do ser humano. Tornou-se um lugar, uma fonte de satisfação espiritual e emocional para o indivíduo. Encontrar-se com Deus passou a ser percebido como uma experiência religiosa distante, impessoal. As pessoas vão porque pensam que podem transformar a religião em um instrumento para si mesmas. É este o culto que a Bíblia ensina? Ou será que uma postura básica genuinamente pagã assumiu o controle, transformando o culto como tal em uma desfiguração dele mesmo? O cristianismo casual conseguirá sobreviver em um mundo que busca cada vez mais o significado da fé para o dia a dia?

1.2 Culto na sociedade do entretenimento Uma alternativa consciente aos cultos de casualidades são aquelas propostas de formatação de culto que se esforçam para ir ao encontro do ser humano moderno, encontrando-o em sua situação atual. Um “culto humanizado”, como demanda, por exemplo, Winfried Blasig (1981). Nesta era do entretenimento a experiência pessoal adquiriu importância central. A sociedade do entretenimento dos nossos dias busca a satisfação dos próprios anseios por experiências6. Argumenta-se que o 5 6

Cf. Grethlein 2003:16s. Sobre o conceito e a definição da sociedade do entretenimento de nossos dias, veja Schulze (2000).


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culto pode e deve oferecer o ambiente religioso em que a necessidade de experiências espirituais possa ser atendida7. Quando o entretenimento se torna o princípio de formatação da existência social, o culto precisa transformar-se em entretenimento. Dessa forma o culto torna-se uma obra de arte (Grözinger 1998:98ss), uma “encenação teatral” (Kunz 2006: 65), “fantasticamente encenada, deixando as pessoas admiradas, mas sem (...) consequências práticas” (Beck 2007:47). Mas será que essa conclusão não é também perigosa? Um evento em que o frequentador recebe sua dose de espiritualidade é culto simplesmente porque trata de espiritualidade? E o espírito do entretenimento deve ser equiparado com a presença do Espírito Santo? Ou será que devemos presumir que a mentalidade da diversão no fim se tornará o necrotério da igreja? Parafraseando o título de um livro de Neil Postman (2000)8, não estaremos nos matando de tanta diversão se permitirmos que o espírito da época determine a formação das nossas opiniões nesta era da indústria do entretenimento? Não são poucos os que pensam assim, como ilustra H.-G. Heimbrock em seu artigo “Culto na sociedade do entretenimento” (Heimbrock 1999:143s). Sejamos sinceros: onde está a diferença entre os cultos de experiência e aqueles cultos casuais tradicionais tão criticados? Tanto um quanto outro têm como objetivo central atender às necessidades do ser humano. Tanto cá quanto lá a religião transforma-se em uma fonte da qual a pessoa busca extrair algo útil para si mesma. Tanto aqui quanto ali o ser humano torna-se o centro daquilo a que chamamos de culto. Estaria escondido aqui o verdadeiro problema? Será que precisamos fazer uma mudança radical se quisermos alcançar outro tipo de qualidade espiritual nos cultos de nossas igrejas?

7 8

Veja também a dissertação de Hartmut Beck (1996), registrada na Universidade de Bonn sob o título “Culto na sociedade do entretenimento”. Amusing Ourselves to Death (Diversão até a morte, em tradução livre), não publicado em português. (N. de tradução)


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1.3 O que é culto? Ao refletir sobre o tema “culto”, Theo Sorg chega a uma conclusão decisiva: o importante é o objetivo que a igreja deseja alcançar com o culto (Sorg 1987:55). O culto deve continuar sendo culto. Mas o que isso significa? Como é o culto realizado de acordo com os preceitos bíblicos? O que acontece nele? Como são elaborados e dirigidos? Em outras palavras: qual é a natureza do culto evangélico; um culto oriundo do Evangelho e reflexo da visão original de Deus? “Mas todo mundo sabe o que é culto”, alguém poderia objetar. Montanhas de livros já foram escritas e publicadas sobre este assunto. Para quê o esforço, então? Não tenho certeza de que toda essa literatura realmente seja capaz de dar uma resposta clara. Nas igrejas que visito sempre fico espantado com o onipresente desconhecimento sobre o assunto. Mas quando buscamos renovação é preciso primeiro esclarecer o status quo. Estamos separados da vida de Deus, diz o apóstolo Paulo, por causa da ignorância em que [estamos], devido ao endurecimento do [nosso] coração (Ef 4.18). Precisamos começar notando a ignorância e o endurecimento dos posicionamentos antes de conseguir mudá-los. “E conhecerão a verdade, e a verdade os libertará” – este princípio de Jesus (Jo 8.32) vale também aqui. Portanto, como nós entendemos o culto? Como você entende o culto? O exercício a seguir pretende ajudá-lo a esclarecer isso. Por favor, complete as frases a seguir: Entendo culto como: ____________________________________________________________ ____________________________________________________________ O culto verdadeiro não pode prescindir dos seguintes elementos: ____________________________________________________________ ____________________________________________________________


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As seguintes pessoas têm papel decisivo no culto: ____________________________________________________________ ____________________________________________________________ Meu papel no culto é: ____________________________________________________________ ____________________________________________________________ O papel de Deus no culto é: ____________________________________________________________ ____________________________________________________________ Também será muito útil discutir estas questões com os outros membros da sua igreja. O ideal seria que a igreja como um todo pudesse refletir sobre elas e dar suas respostas. Todo caminho tem seu começo. O caminho da renovação sempre começa no ponto em que a realidade a ser mudada é exposta. “Perestroika começa com glasnost” – esta frase do ex-secretário geral do Partido Comunista da URSS, Mikhail Gorbachev, que deu início a uma reestruturação radical do mundo, vale também no nosso contexto. Perestroika significa transformação, glasnost significa transparência. Portanto, mudança começa com franqueza e honestidade. Depois pergunte a pessoas que não frequentam cultos cristãos: o que você acha que acontece entre as quatro paredes da minha igreja, domingo após domingo? Consulte também as pessoas na vizinhança da sua igreja. Você pode ficar espantado com o que elas pensam! Depois compare seus próprios conceitos com os de outras pessoas. Eles são compatíveis? É oferecido às pessoas aquilo que elas esperam ou imaginam? Se não, os problemas estão pré-programados. Por que as pessoas iriam a um evento que não compreendem? Por que ficariam empolgadas com cultos que não lhes dizem nada?


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E ainda tem Deus. O que ele pensa sobre o culto? Ele quis e quer aquilo a que nós chamamos “culto”? Se sim, onde encontro na Bíblia a confirmação correspondente? Ou será que também ele já se despediu de nós há muito tempo, por não encontrar mais seu lugar no programa que oferecemos? Reconheço que são perguntas simples e diretas. É fácil respondêlas. Mas infelizmente isso raramente é feito. Atreva-se! A leitura deste livro adquirirá uma qualidade diferente se você suspender a leitura neste momento e fizer o exercício sugerido. Quando terminar, preencha a tabela a seguir. Compare as declarações. Se você detectar contradições e tensões entre elas, anote na coluna “Tensões”.


O papel de Deus no culto é...

No culto acontece...

O que pensamos em nossa igreja

O que os vizinhos pensam O que a Bíblia diz

Tensões

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Culto dá...

Culto é...

Tema

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Terminou? Ótimo! Agora, mãos à obra. Que perguntas relacionadas ao culto ainda não têm resposta? Que perguntas este livro deve responder? Anote essas questões: ____________________________________________________________ ____________________________________________________________ ____________________________________________________________ ____________________________________________________________ ____________________________________________________________ ____________________________________________________________  


Tenho histórias de cultos sem graça para contar. Na época do meu ministério houve tempos em que tive vontade de jogar a toalha. Nada parecia funcionar da forma como tinha sido planejado e preparado. Ah, se não fosse a graça de Deus! Não, não desisti. Este livro é a melhor prova disto. Deus me sustentou durante esse tempo. E assim o meu ministério prático na igreja também passou a ter muitos exemplos encorajadores. Por isso, este livro dirige-se àqueles que se preocupam com o futuro do culto evangélico e também a tantos pastores e pastoras que, domingo após domingo, lutam com a questão de como elaborar um culto atraente. A teologia deste livro foi elaborada conscientemente em forma de teologia prática. Seu objetivo é a ação. Ela deseja e precisa ser aplicada.

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