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Educação e trabalho interprofissional em saúde


FICHA TÉCNICA

TÍTULO Educação e trabalho interprofissional em saúde EDITOR Escola Superior de Enfermagem de Coimbra COORDENAÇÃO EDITORIAL Aida Maria de Oliveira Cruz Mendes ISBN 978-989-53081-3-2 DEPÓSITO LEGAL 480892/21 COPYRIGHT © 2021 Escola Superior de Enfermagem de Coimbra (ESEnfC) CAPA, DESIGN INTERIOR E PAGINAÇÃO Carlo Bruno Santos (ESEnfC | Gabinete de Comunicação e Imagem) ANO DE PUBLICAÇÃO 2021


Educação e trabalho interprofissional em saúde


FICHA TÉCNICA

TÍTULO Educação e trabalho interprofissional em saúde EDITOR Escola Superior de Enfermagem de Coimbra COORDENAÇÃO EDITORIAL Aida Maria de Oliveira Cruz Mendes ISBN 978-989-53081-3-2 DEPÓSITO LEGAL 480892/21 COPYRIGHT © 2021 Escola Superior de Enfermagem de Coimbra (ESEnfC) CAPA, DESIGN INTERIOR E PAGINAÇÃO Carlo Bruno Santos (ESEnfC | Gabinete de Comunicação e Imagem) EXECUÇÃO GRÁFICA Tipografia Lousanense, Lda. TIRAGEM 400 exemplares ANO DE PUBLICAÇÃO 2021


ÍNDICE

NOTA DE ABERTURA - Aida Cruz Mendes 

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01. Afaf I. Meleis

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02. Alfredo Lourenço

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03. Amílcar Falcão

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04. Anabela Mascarenhas

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05. Ana Paula Monteiro

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06. Andréa Marques

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07. Áurea Andrade

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08. Catarina Resende de Oliveira

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09. Clara Ventura

45

10. Clarinda Cruzeiro

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11. Constantino Sakellarides

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12. Corália Vicente

57

13. Elisabete Santos

61

14. Élvio Jesus

65

15. Fernando Ramos

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16. Gilles Dussault

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17. Hugo Raimundo

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18. Inês Fronteira

81

19. Isabel Fernandes

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20. Jacinto Oliveira

89

21. Joana Ferreira

93

22. Joana Sá

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23. João Apóstolo

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24. João Rodrigues

105

25. João Tavares

109

26. Jorge Apóstolo

113

27. José António Pereira da Silva

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28. José Pereira Miguel

121

29. Manuel Lopes

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30. Manuel Oliveira

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31. Manuela Frederico-Ferreira

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32. Margarida Filipe

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33. Maria da Conceição Bento

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34. Maria do Céu Barbieri-Figueiredo

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35. Maria Neto da Cruz Leitão

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36. Miguel Castelo-Branco Sousa

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37. Paulo Queirós

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38. Purificação Gandra

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39. Rogério Rodrigues

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40. Rosa Reis Marques

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41. Silvia Cassiani

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42. Suzana Duarte

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43. Vítor Rua

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NOTA DE ABERTURA AIDA MARIA DE OLIVEIRA CRUZ MENDES

Enfermeira Especialista em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica. Doutorada em Educação. Presidente da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra

A Escola Superior de Enfermagem de Coimbra comemora, em 2021, 140 anos ao serviço da saúde e do bem-estar das populações. Nascida no seio dos Hospitais da Universidade de Coimbra, acompanhando um movimento de formalização da educação de enfermeiras e enfermeiros em todo o mundo e de valorização das ideias higienistas e de respeito pela ciência no século XIX, tem granjeado respeito académico e social, ocupando hoje um lugar de relevo na formação, na investigação e na intervenção em enfermagem e na saúde. Ao longo da sua existência, mas com particular relevância nas últimas décadas, tem feito jus à sua denominação de Escola, pois no seu ambiente se tem gerado e consolidado conhecimento em enfermagem, criado ideias inovadoras, fruto do estudo e partilha de saberes, e formado novas gerações de enfermeiros, cada vez mais preparados para os desafios profissionais e para a complexidade da intervenção na área da saúde e dos cuidados e, também por isso, conscientes da necessidade de estudo ao longo da vida. A Escola, tendo sido criada por um médico - Dr. Costa Simões (18191903) -, construiu a sua autonomia num processo identitário sólido, que lhe permitiu, desde sempre, manter o diálogo com todos os outros intervenientes na saúde e reconhecer os benefícios do trabalho interprofissional. Se duvidas houvesse, o ano transato, com a eclosão e desenvolvimento de uma grande crise pandémica, demonstrou à saciedade o quanto o trabalho na área da saúde necessita de um trabalho colaborativo entre todos os trabalhadores da saúde e de como a resiliência de um serviço nacional de saúde depende dos seus recursos humanos. Esta resiliência Educação e trabalho interprofissional em saúde

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dependente de recursos humanos não diz respeito só ao número absoluto de efetivos – cuja escassez a crise veio a realçar -, mas também se refere à sua diversidade e articulação. A Organização Mundial da Saúde designou 2021 como o Ano Internacional dos Profissionais de Saúde e Cuidadores, em sua homenagem e reconhecimento. A alocação dos profissionais de saúde certos, na quantidade certa e com competências para trabalharem de forma articulada - o que supõe autonomia e interdependência, especificidade de atribuições, mas também sobreposição de competências – só será plenamente conseguida com estratégias nacionais na área da educação e da saúde, setores que, também ao nível governamental, têm que trabalhar de forma articulada. Esta crise pandémica, que ainda atravessamos, mostra a importância dos recursos humanos em saúde e abre a oportunidade para relançarmos a análise, a decisão e a ação sobre a educação e o trabalho interprofissional. Esta brochura recolhe depoimentos de 43 personalidades de reconhecido mérito, de diferentes áreas da saúde e com diferentes trajetórias e experiências pessoais e profissionais, transmitindo o seu pensamento e reflexões acerca da educação e trabalho interprofissional. Nestes 140 anos da nossa existência e neste Ano Internacional dos Profissionais de Saúde e Cuidadores, esta brochura é um contributo para o necessário e urgente debate desta temática. Há 140 anos, por si, pela saúde, por todos!

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Aida Cruz Mendes Aida Maria de Oliveira Cruz Mendes é Doutorada em Educação, ramo de Psicologia da Educação, pela Universidade do Minho (2000), Mestre em Saúde Ocupacional pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (1997) e Enfermeira Especialista em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica, pela Escola Superior de Enfermagem Dr. Ângelo da Fonseca (1991). É Professora Coordenadora da Unidade Científico-Pedagógica de Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra (ESEnfC), Coordenadora do grupo de Investigação Bem-Estar, Saúde e Doença, da Unidade de Investigação em Ciências da Saúde: Enfermagem (UICISA: E) e Coordenadora da Rede de Enfermagem de Saúde Ocupacional-Portugal (RedENSO). Atualmente, é membro do Conselho Científico das Ciências da Vida e da Saúde, da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e do Conselho Científico-Pedagógico da Liga Portuguesa Contra o Cancro, Núcleo Regional do Centro. Publicou mais de 125 artigos em revistas científicas, 4 livros e 14 capítulos de livros. É revisora da Revista de Enfermagem Referência, da Revista Latinoamericana de Enfermagem e da Revista Eletrônica Saúde Mental, Álcool e Drogas. Obteve distinção Honors in recognition, pela Sigma Theta Tau International, Honor Society of Nursing (2013) e medalha de mérito pela Associación Latinoamericana de Escuelas y Facultades de Enfermería (2011). Atualmente, serve como Presidente da ESEnfC (2018-2022).

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01. COMENTÁRIO SOBRE OS ANOS DO ENFERMEIRO E DA PARTEIRA EM 2020 E 2021 COMMENTARY ON 2020 AND 2021 YEARS OF THE NURSE AND MIDWIFE AFAF I. MELEIS

Reitora Emérita e Professora de Enfermagem e Sociologia/Dean Emerita and Professor of Nursing and Sociology Escola de Enfermagem da Universidade da Pensilvânia/University of Pennsylvania School of Nursing

Numa ação sem precedentes, a OMS declarou o ano de 2020 como o ano do Enfermeiro e da Parteira e este foi, de facto, um ano incrível! A pandemia da COVID-19 assolou o mundo, provocando muito sofrimento e tristeza, e representou um desafio para os serviços de saúde e para a prestação de cuidados de saúde. Todavia, também realçou a centralidade do papel desempenhado pelos enfermeiros

In an unprecedented action, WHO declared the year 2020 as the year of the Nurse and Midwife, and indeed it was an incredible year! COVID 19 Pandemic ravaged the world causing many sorrows and much grief. It also challenged health care services and the delivery of health care. But, it also shed an incredible light on Educação e trabalho interprofissional em saúde

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em todos os aspetos da pandemia, desde a prevenção, o diagnóstico, o tratamento, a cura, até à gestão da transição para a morte. Embora os enfermeiros tenham estado sempre no centro dos cuidados de saúde, desempenhando papéis de relevo a vários níveis, a visibilidade global e os desafios associados à incerteza de uma nova pandemia evidenciaram a importância do papel cuidador e curativo destes profissionais. Os enfermeiros brilharam através do seu conhecimento, da sua prática, da sua voz, da sua advocacia e do seu cuidado. Destacaram-se igualmente dois outros aspetos da prática dos enfermeiros: um qualitativo e outro quantitativo. A grave escassez de enfermeiros já é bem conhecida e tem sido alvo de muita discussão. No entanto, a gravidade desta escassez face às necessidades acrescidas de cuidados especializados nos hospitais e nas unidades de cuidados intensivos deu um rosto a estas carências. O aspeto de caráter qualitativo relativo aos enfermeiros foi o papel fundamental que desempenharam nos cuidados paliativos e no processo de morte. Devido ao isolamento provocado pelo nível de transmissibilidade da COVID-19, as famílias não puderam estar com os seus familiares doentes no fim da vida. No entanto, os enfermeiros estiveram presentes para estabelecer o contacto entre os doentes e as suas famílias através de plataformas digitais e prestar cuidados de qualidade basea12

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the centrality of nurses roles in all aspects of the pandemic from prevention, to diagnosis, to treatment, to healing, to managing the transition to dying. While nurses have always been at the center of health care, and in many ways nurses have always played significant roles in health care, the global visibility and the challenges associated with the uncertainty of a new pandemic highlighted nurses caring and healing roles. Nurses’ knowledge, practice, voice, and advocacy and caring shined. Two other aspects of nursing practice became very apparent. One is qualitative and the other is quantative. The severe shortage of nurses which has been well known and much discussed however, the acuity of the shortages in the face of the heightened needs for expert caring in hospitals and in intensive care units put a face on these shortages. The second qualitative aspect about nurses highlighted, was the central roles they played in palliative care and in the dying process. Due to isolation because of COVID 19 contagiousness, families could not be with patients at end of life. But nurses were there to connect their patients with families virtually and to provide evidence


dos na evidência durante as últimas horas de vida dos seus doentes. Prestaram, igualmente, assistência às famílias, usando os mesmos meios digitais. A telessaúde adquiriu um significado e uma importância diferentes durante esta pandemia. Bravo, Enfermeiros! Os decisores políticos observaram em primeira mão a forma como a escassez de enfermeiros devastou os sistemas de prestação de cuidados de saúde e como a experiência dos enfermeiros em saúde familiar e cuidados em fim de vida foi fundamental nos cuidados prestados. Tudo aquilo que os líderes de enfermagem têm vindo a discutir e a realçar junto dos decisores políticos tornou-se uma realidade tangível. Em mais uma decisão sem precedentes, a OMS declarou que o Ano do Enfermeiro e da Parteira seria também celebrado em 2021. Agora, torna-se imperativo tirar o máximo partido da visibilidade do papel dos enfermeiros e da ciência na saúde a nível mundial, bem como da declaração da OMS no sentido de avançar rumo a políticas de saúde universais que garantam cuidados de saúde equitativos e de qualidade. Existem duas áreas específicas que poderiam beneficiar do timing, do contexto e dos tão necessários cuidados de qualidade: em primeiro lugar, as oportunidades educativas dos enfermeiros e, em segundo lugar, os papéis de liderança dos enfermeiros nas políticas de cuidados de saúde. Com base nas recomendações e obje-

based quality care to the patients during their last hours. They also provided family care as well, all of which was virtually delivered. Telehealth acquired different meaning and importance during this pandemic. Brava nurses! Policy makers saw first hand how the shortages of nurses devastated health care delivery systems and how nurses’ expertise in family health and end of life was instrumental in the care provided. What nurse leaders have been discussing and highlighting to policy makers became a tangible reality. WHO made another unprecedented decision to declare the continuation of the year of the nurse and midwife during 2021. And, now it is imperative to take full advantage of the visibility of nurses’ roles and science in global health as well as the declaration of WHO to press on toward universal health policies, to insure equitable and quality health care. Two particular areas that could benefit from the timing, the context and touch needed quality care are first to nurses educational opportunities and the second in nurses leadership roles in health care policies. Building on the platform and the goals of Nursing Now Educação e trabalho interprofissional em saúde

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tivos estratégicos da campanha Nursing Now, aprovados a nível mundial, os países devem oferecer formação de nível universitário aos enfermeiros de forma a prepará-los para implementarem modelos de cuidados baseados na evidência. Portugal deve transferir rapidamente todos os cursos de enfermagem para as universidades. Os países devem ainda garantir que os enfermeiros estão bem preparados para desempenhar funções de liderança e que os organismos responsáveis pelas políticas de cuidados de saúde incluem as vozes dos enfermeiros. Os enfermeiros devem poder trabalhar na sua máxima capacidade funcional e o âmbito da sua prática deve ser consistente com as suas qualificações. Os enfermeiros devem estar bem posicionados para influenciarem as políticas de cuidados de saúde a nível mundial. Desejo aos meus colegas enfermeiros portugueses um ano de liderança marcado por medidas que comecem com a integração de todas as escolas no seio das universidades enquanto parceiros de pleno direito e com a nomeação de enfermeiros para todos os órgãos de decisão política do país. O ano de 2021 deve ser um ano de ação para os enfermeiros que se encontrem em posições de destaque de forma a utilizarem os seus conhecimentos de enfermagem para o desenvolvimento de melhores modelos de cuidados e formulação de políticas que melhorem efetivamente a qualidade dos cuidados. 14

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recommendations and strategic goals, which are endorsed globally, countries must provide university education for nurses that prepare them to deliver evidence-based models of care. Portugal must promptly move all educational programs for nursing to universities. Countries also are expected to insure that nurses are well prepared for leadership roles and that health care policy bodies must include nurses’ voices. Nurses should be expected and allowed to work up to their full capacity and their scope of practice should be congruent with their educational levels. Nurses should be well positioned to influence health care policies globally. I wish for my colleagues Portuguese nurses a year of leadership marked by actions beginning with inclusion of all schools within the halls of universities as full partners and with the appointment of nur-ses to every policy making body in the country. The year 2021 should be an action year for nurses who are very well positioned to use nursing knowledge in the development of the best care models and the policies that could and would enhance the quality of care.


Afaf Ibrahim Meleis É professora de Enfermagem e Sociologia na Universidade da Pensilvânia, onde foi nomeada Reitora Margaret Bond Simon na área da Enfermagem e Diretora do Centro Colaborador da OMS para a Liderança em Enfermagem e Obstetrícia nessa universidade entre 2002 e 2014. Antes disso, a Professora Afaf Meleis fez parte do corpo docente da Universidade da Califórnia, em São Francisco, e Los Angeles, ao longo de um período de 34 anos. É uma cientista de enfermagem e socióloga de renome internacional. Ao longo de cinco décadas, os seus contributos académicos influenciaram gerações de enfermeiros em todo o mundo, assim como os seus programas de ensino, prática e investigação. Através da sua obra e da sua investigação, tem contribuído para aprofundar o conhecimento sobre a saúde global, a saúde da mulher, as práticas culturalmente competentes, a formação interprofissional e a análise epistemológica da disciplina de enfermagem. A Professora Meleis é detentora de vários prémios internacionais, entre eles o título de Cidadão Honorário do Porto, Portugal. Dr. Afaf Ibrahim Meleis is a Professor of Nursing and Sociology at the University of Pennsylvania, where she was the Margaret Bond Simon Dean of Nursing and Director of the School’s WHO Collaborating Center for Nursing and Midwifery Leadership from 2002 through 2014. This followed her 34-year tenure as a Professor at the University of California, San Francisco and Los Angeles. Dr. Meleis is an internationally renowned nurse scientist and medical sociologist. Over the course of 5 decades her scholarly contributions have informed generations of nurses around the world and influenced their education, practice and research programs. Her writings and research have advanced knowledge in global health, women’s health, culturally competent practice, interprofessional education and the epistemological analysis of the discipline of nursing. Dr. Meleis is the recipient of many global awards among them is the distinguished Honorary citizenship of Oporto, Portugal.

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02. EDUCAÇÃO EM ENFERMAGEM E TRABALHO INTERPROFISSIONAL ALFREDO LOURENÇO

Professor Coordenador. Unidade Científico-Pedagógica de Enfermagem Fundamental Escola Superior de Enfermagem de Coimbra

Em tempos de pandemia por Covid-19, os profissionais de saúde têm tido um papel fundamental em assegurar a saúde e bem-estar das populações a nível mundial, daí a OMS ter anunciado o ano de 2021, como o Ano Internacional dos Trabalhadores de Saúde e Cuidadores. Como coordenador da Unidade Científico-Pedagógica de Enfermagem Fundamental, da ESEnfC, realço a importância da educação e formação de enfermeiros e futuros enfermeiros, no domínios ou áreas centrais da Enfermagem, por forma a poderem partilhar os seus saberes, em termos interprofissionais, para a facilitação dos processos de transição tendo em vista a Saúde, a organização e gestão das respostas institucionais aos desafios da saúde bem como a teorização da Enfermagem enquanto corpo de conhecimento específico. Os professores, enquanto educadores e formadores no domínio da Enfermagem, a sua grande preocupação será, sem dúvida, preparar futuros enfermeiros que sejam capazes de se responsabilizar pela prestação e gestão de cuidados de enfermagem e de saúde, como parte de uma equipa interprofissional, às pessoas, famílias e comunidades ao longo do ciclo de vida. Para além disso, devem ter capacidades de liderar equipas de Educação e trabalho interprofissional em saúde

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saúde, gerir cuidados e recursos, avaliar resultados no sentido da melhoria dos cuidados dentro, de equipas interdisciplinares para alcançarem melhores resultados em termos de cuidados de saúde. Para que tudo isto aconteça é necessário que a formação dos futuros enfermeiros ocorra em contextos académicos de nível universitário, onde os estudantes de enfermagem, desde o início da sua formação, possam partilhar viver e conviver com as suas experiências e as suas aprendizagens, com outros futuros profissionais de saúde. A ideia central será formar em conjunto para trabalhar em conjunto (Frenk et al., 2010; OMS, 2013). De acordo com a OMS (WHO, 2010) a efetiva prática colaborativa resulta de bons processos de educação interprofissional e isso poderá fortalecer os serviços e sistemas de saúde. Assim sendo, profissionais de saúde que sejam formados em conjunto poderão adquirir competências e habilidades que lhes possibilitem colocar o conhecimento interprofissional em prática, numa lógica de respeito e valoração entre todos. Será necessário passar do isolamento à integração e à complementaridade na formação, pois só assim se conseguirá um verdadeiro trabalho interprofissional em saúde, onde os profissionais pensam e interagem de forma profissional, no sentido de alcançarem uma cultura e um ambiente de trabalho que tenham como fim o benefício da saúde em termos comunitários. Sabemos que a Organização Mundial de Saúde reconhece e valoriza a colaboração interprofissional em educação nas áreas da saúde como uma das estratégias inovadoras que possibilitarão a redução da crise de saúde a nível mundial. Assim, no presente e no futuro, caberá também a nós professores no ensino de Enfermagem contribuir para a educação interprofissional e as práticas colaborativas tendo em vista garantir que as pessoas e a comunidade recebam a melhor assistência e os melhores cuidados esbatendo as barreiras interprofissionais habituais, para enfrentar os desafios dos complexos sistemas de saúde a nível mundial. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Frenk, J., Chen, L., Bhutta, Z. A., Cohen, J., Crisp, N., Evans, T., … Zurayk, H. (2010). Health professionals for a new century: Transforming education to strengthen health systems in na interdependent world. The Lancet, 376(9756), 1923-1958. doi: 10.1016/S0140-6736(10)61854-5.

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World Health Organization (2010). Health Professions Networks Nursing and Midwifery Office within the Department of Human Resources for Health. Framework for action on interprofessional education and collaborative practice. Geneva, Switzerland: Author.

Alfredo Cruz Lourenço Alfredo Cruz Lourenço é Professor Coordenador da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra (ESEnfC). Iniciou funções na Escola Superior de Enfermagem de Bissaya Barreto, em 1992, como docente na área de Enfermagem e Psicologia. Desempenhou cargos como Presidente do Conselho Científico e VicePresidente da Escola. Em 2016, transita para a Escola Superior de Enfermagem de Coimbra (ESEnfC) como Professor Coordenador. Na ESEnfC é regente/responsável de várias unidades curriculares do Curso de Licenciatura em Enfermagem (CLE) e da Pós-licenciatura de Especialização/Mestrado em Enfermagem. Desempenhou funções como responsável e coordenador do 1º ano do CLE, entre 2008 e 2012, ano em que foi nomeado como Diretor do ciclo de estudos do CLE. Em 2018, foi nomeado Coordenador da Unidade Científico-Pedagógica de Enfermagem Fundamental, cargo que desempenha até ao momento. É investigador da Unidade de Investigação em Ciências de Saúde: Enfermagem (UICISA: E).

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03. A PREPARAÇÃO DOS PROFISSIONAIS DE SAÚDE DEVE SER UM TRABALHO EM EQUIPA AMÍLCAR FALCÃO

Professor Catedrático da Faculdade de Farmácia da UC Reitor da Universidade de Coimbra

A pandemia de SARS-Cov-2 que assola o planeta permitiu-nos confirmar, se necessário fosse, que a “realidade” é um conceito abstrato profundamente dependente da perspetiva individual e coletiva. O desenvolvimento de vacinas num tempo muito curto deu uma enorme visibilidade à ciência e a quem a ela dedica a sua vida. No entanto, devemos estar conscientes que se trata de um fenómeno passageiro, porque rapidamente voltaremos a ser bombardeados com as chamadas “figuras públicas” e/ou os “famosos”. Ainda assim, ficam muitas lições que deverão indicar caminhos futuros. Entre elas destaco o facto de ser ter finalmente começado a tomar consciência de que, por comparação com as alterações climáticas, o efeito pandémico do SARS-CoV-2 terá certamente um menor impacto para a humanidade. Veremos se esta lição ganha raízes ou se apenas nos lembraremos dela quando for demasiado tarde. Fica igualmente claro que a educação é um valor fundamental para que haja mais justiça social e, especialmente, mais consciência coletiva. Uma sociedade mais educada é uma sociedade mais resistente e mais resiliente. Entende melhor a realidade e adapta-se melhor às circunstâncias. Se quisermos, torna a realidade mais homogénea quando encarada coletivamente. Educação e trabalho interprofissional em saúde

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Esta pandemia trouxe ainda uma consciência coletiva mais apurada do valor da vida e de como a expressão “a saúde não tem preço” é um conceito intemporal. Os esforços pedidos aos profissionais de saúde ao longo desta pandemia tem sido enorme. Estão na linha da frente, lidam com situações extremas, levando com facilidade ao esgotamento emocional e físico. E talvez de tudo o que tem sido esta experiência pandémica, aquilo que mais salta à vista é que nada se consegue fazer sem a força do coletivo. Quando olhamos para os hospitais e, com destaque, para as Unidades de Cuidados Intensivos, percebemos que todos os profissionais de saúde são igualmente importantes. É da conjugação e da articulação entre diferentes competências que se obtém um resultado sinérgico muito superior à soma das partes. Se o trabalho em equipa é fundamental para conseguirmos fazer mais e melhor, não tenho dúvidas de que a preparação dos profissionais de saúde deve também ela ser um trabalho em equipa. A aquisição de competências per si não garante que a articulação entre diferentes competências seja a mais adequada. E para que a sinergia aconteça, é fundamental que o treino exista. Só treinando e simulando nos tornaremos mais aptos. Que esta lição perdure no tempo e seja transportada para o ensino das ciências da saúde é a mensagem que gostaria de deixar num momento em que o Ensino da Enfermagem em Coimbra comemora os seus 140 anos de existência.

Amílcar Falcão Licenciado em Ciências Farmacêuticas, Doutorado e Agregado em Farmácia (Especialidade de Farmacologia) pela Universidade de Coimbra, instituição na qual é Professor Catedrático (2007). Foi Diretor da Faculdade de Farmácia e do Instituto de Investigação Interdisciplinar, Vice-Reitor para a Investigação & Inovação (2011-2019). Atualmente, é Reitor da Universidade de Coimbra (UC) para o mandato 2019-2023.

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04. NENHUM PROFISSIONAL DE SAÚDE PODE TRABALHAR SOZINHO ANABELA MASCARENHAS

Especialista em Farmácia Comunitária Presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Farmacêuticos

Acredito que, a par da formação especializada, ser profissional de saúde assenta muito na capacidade de servir o outro, no espírito altruísta e na paixão pelo que se faz. A minha paixão pela área da saúde começou ainda em criança, quando acompanhava o médico da vila, o meu “Padrinho velho”, a quem o povo chamava de médico dos pobres. Com 6 anos de idade, já lhe fazia pequenos recados que ele compensava com uma moeda ao final do dia, estimulando sempre o meu entusiasmo e sublinhando que “sem a tua ajuda isto não teria sido possível”. Hoje sou proprietária e Diretora Técnica da Farmácia Saúde, na Figueira da Foz, tendo o privilégio de implementar todos os dias os meus princípios e modelos de exercício profissional em farmácia comunitária. Entendo a farmácia comunitária como um espaço de gestão e promoção da saúde, no sentido mais amplo. E é neste espaço que diariamente contacto com profissionais de saúde das mais diversas áreas no acompanhamento farmacoterapêutico de doentes polimedicados, assim como noutros projetos. Um bom exemplo desta colaboração, nos últimos meses, foi o envolvimento dos meus colegas farmacêuticos no esclarecimento, dentro e fora da farmácia, sobre a execução dos testes rápidos de antigénio para a Covid-19, dirigido a enfermeiros de várias instituições Educação e trabalho interprofissional em saúde

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e a médicos dentistas, por forma a que, juntos, possamos minimizar o contágio em lares e nas clínicas. A farmácia é cada vez mais, o primeiro recurso dos doentes aquando da emergência de um problema de saúde, o que se acentuou com esta pandemia. O farmacêutico está preparado, e detém as competências necessárias, para avaliar a queixa, dando-lhe o seguimento mais adequado, envolvendo seguidamente o(s) profissionais de saúde mais competentes para acompanhar cada situação. As alterações demográficas que têm vindo a acontecer nas últimas décadas também nos colocam importantes desafios. Numa sociedade cada vez mais envelhecida, torna-se essencial reforçar a intervenção especializada na gestão da polimedicação, muitas vezes inapropriada, e a adesão aos tratamentos. Neste campo, tal como em tantos outros, o trabalho do farmacêutico é de fulcral importância, complementado com a intervenção colaborativa de outros profissionais de saúde, dos quais se destaca a importância dos enfermeiros no reforço da adesão à terapêutica. Estou certa de que a aplicação sistemática deste tipo de intervenção, assim como do acompanhamento farmacoterapêutico de doentes idosos e doentes crónicos, da promoção da adesão à terapêutica – um dos fatores mais relevantes dos fracos resultados em saúde, especialmente na população idosa – se traduz em valor acrescido para a saúde do doente e das populações, gerando inevitáveis poupanças ao nível dos gastos em saúde, não somente para o Estado como também para o cidadão. Nenhum profissional de saúde pode trabalhar sozinho, se o que o motiva é contribuir para uma melhor saúde e bem-estar dos seus concidadãos, sendo fundamental o envolvimento multidisciplinar e nunca esquecendo o contributo dos próprios cidadãos. Neste dia especial de comemoração dos 140 anos da Escola de Enfermagem, quero deixar aqui o meu agradecimento público pelo vosso trabalho e pela vossa resiliência.

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Anabela Mascarenhas Atualmente, é Diretora Técnica e Proprietária da Farmácia Saúde, na Figueira da Foz, estando neste ramo desde 1988. Começou a atividade profissional na Gestão e coordenação geral do laboratório, desenvolvimento de novas tecnologias na área de Microbiologia e Parasitologia no Hospital Distrital da Horta - Faial Açores (1987 – 1988). É especialista em Farmácia Comunitária (2018) pela Ordem dos Farmacêuticos, tem Mestrado Integrado em Ciências Farmacêuticas (2011), que concluiu na Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra – aqui se licenciou, em Ciências Farmacêuticas: ramo de Análises Químico-Biológicas (1987) –, e equivalência em Farmácia de Oficina e Hospitalar (1989). É Presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Farmacêuticos (desde 2019).

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05. EDUCAÇÃO INTERPROFSSIONAL EM SAÚDE MENTAL ANA PAULA MONTEIRO

Unidade Científico-Pedagógica de Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica Escola Superior de Enfermagem de Coimbra

Em Saúde Mental (SM), a implementação de cuidados interprofissionais é essencial para a qualidade dos serviços de saúde, a eficácia das intervenções terapêuticas, a redução de riscos e erros clínicos, havendo evidência científica de que é mais eficaz na prevenção de recaídas e gestão de condições crónicas. As equipas de saúde mental (SM), quer em contexto hospitalar, quer em contexto comunitário, incluem profissionais altamente diferenciados, que devem atuar de forma articulada, compartilhando objetivos terapêuticos e tendo como centro a pessoa alvo dos cuidados, famílias e comunidade. A interprofissionalidade em SM pressupõe uma verdadeira prática colaborativa, aproveitando ao máximo as competências específicas e expertises dos diferentes profissionais, distinguindo-se do conceito de skill mix e task transfer. Neste contexto, a educação interprofissional (EIP) pode constituir uma das vertentes mais importantes da formação em todas as profissões da saúde mental. Apesar de não existir um modelo abrangente de implementação, nem uma única definição deste conceito, numerosas Guidelines e protocolos internacionais referem que a educação interprofissional (EIP) é essencial nas políticas de saúde mental, como um meio de melhorar as práticas clínicas, contribuindo para a formação de profissionais mais preparados para uma atuação integrada em equipa, Educação e trabalho interprofissional em saúde

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na qual a colaboração e o reconhecimento da interdependência das áreas predominam sobre a competição e a fragmentação. Assim, tem sido defendido que a EIP deve estar centrada no cuidado ao paciente e família; orientada para a comunidade e para os processos; vinculada a atividades de aprendizagem, estratégias educacionais e avaliações comportamentais apropriadas ao desenvolvimento dos estudantes, integradas em todo o continuum de aprendizagem; sensível aos contextos e aplicável em todas as profissões envolvidas; utilizando uma terminologia comum e significativa para os vários grupos profissionais. Como tornar mais exequível a EIP em saúde mental? Em primeiro lugar, é relativamente consensual que é necessária uma mudança profunda no ensino das profissões de saúde. Serão necessários docentes com formação académica transdisciplinar e multiprofissional; a formação dos próprios docentes para a EIP, que permita a quebra da hegemonia e da uniprofissionalidade existentes nas instituições de ensino superior que oferecem formação em saúde; a existência de Campus comuns onde estudantes possam partilhar espaços, recursos, laboratórios e equipamentos. É também consensual que, embora não existam as condições ideais, é possível iniciar a formação conjunta usando as redes já existentes, mesmo que informais; construir módulos de aprendizagem com tópicos realistas e significativos, em que diferentes profissionais de saúde se envolvam no "mundo real" da prática clínica; olhar para os diversos currículos académicos das profissões de saúde e encontrar tópicos comuns, em que seja possível realizar formação académica conjunta; e, oferecer experiências de atividades extracurriculares conjuntas entre estudantes de várias áreas da saúde, o que pode ser um excelente ponto de partida. Deste modo, Estudantes de várias profissões de saúde mental que aprendem juntos, poderão trabalhar juntos, para benefício dos utentes e comunidade.

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Ana Paula Teixeira de Almeida Vieira Monteiro É doutorada em Ciências Biomédicas pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, mestre em Sociologia, pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e Licenciada em Enfermagem, especialista em Enfermagem e Saúde Mental e Psiquiatria. Atualmente, é Professora-Adjunta na Escola Superior de Enfermagem de Coimbra e investigadora da UICISA: E. As suas áreas de interesse incluem as temáticas da Saúde Mental e Direitos Humanos, tendo realizado pesquisa e publicações científicas nesta área, projetos de extensão à comunidade e missões internacionais, com destaque para o trabalho com refugiados, migrantes e minorias.

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06. A MINHA EXPERIÊNCIA DE “CUIDAR” COM UMA EQUIPA INTERDISCIPLINAR EM SAÚDE ANDRÉA ASCENÇÃO MARQUES

Enfermeira. Professora Adjunta Convidada Serviço de Reumatologia/CHUC. Escola Superior de Enfermagem de Coimbra

Hoje, ao refletir sobre a questão da interdisciplinaridade dos cuidados, fico bastante feliz por constatar que não conheço outra realidade desde que sou enfermeira para além desta, especificamente ao doente crónico com patologia reumática em Portugal, mas também internacionalmente, indo além-fronteiras aprender com as experiências de outros contextos. Durante os mais de 10 anos de prática clínica, fui desenvolvendo diferentes papeis nesta equipa, sendo que neste momento o foco da minha prática se centra na coordenação do cuidado ao doente com fratura de fragilidade fornecido por vários profissionais (em diversos contextos CSP, ERPI, ECCI) incluindo médicos, enfermeiros, farmacêuticos, nutricionistas, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais e associações de doentes. O meu grande papel nesta equipa é promover a comunicação e cooperação de todos os intervenientes de forma a providenciar os melhores cuidados aos doentes que necessitam de tratamentos complexos. Acima de tudo, “CUIDAMOS” na aceção de cuidados globais (de saúde, sociais, psicológicos, de reabilitação, afetivos, espirituais, ocupacionais e outros) permitindo responder às necessidades da pessoa. Como é obvio, trabalhar numa equipa multidisciplinar exige resposta Educação e trabalho interprofissional em saúde

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a constantes desafios a nível do diálogo, da cooperação, da partilha de conhecimento, e até mesmo da tomada de decisão e da responsabilidade pela intervenção, mas tudo pode ser ultrapassado, prova disso é o lema da nossa equipa “Promover Felicidade mediante cuidados de excelência”. Hoje, sem dúvida, sou melhor Enfermeira e Professora porque tenho a oportunidade de partilhar a visão de diferentes profissionais, com todos aprendi, com todos partilhei e acima de tudo “Cuidamos” todos melhor.

Andréa Marques Enfermeira especialista em Enfermagem Médico-Cirúrgica: Enfermagem à Pessoa em Doença Crónica no Serviço de Reumatologia - Consulta Externa do CHUC - Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (2010) e Professora Adjunta Convidada da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra (2017). Doutorou-se em Ciências de Enfermagem com louvor pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. Tem realizado, publicado e divulgado investigação na área da osteoporose, fraturas de fragilidade, enfermagem e educação ao doente. É, atualmente, a presidente da Associação Portuguesa de Profissionais de Saúde em Reumatologia.

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07. INTERDISCIPLINARIDADE PROMOTORA DE UMA PRÁTICA CLÍNICA CENTRADA NA PESSOA ÁUREA ANDRADE

Enfermeira Diretora Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra

O ano de 2021 foi designado pela Organização Mundial de Saúde como Ano Internacional dos Profissionais da Saúde e Cuidadores. Por coincidência, este é o ano em que a Escola Superior de Enfermagem de Coimbra (ESEnfC), pioneira em Portugal no ensino em enfermagem, comemora 140 anos a formar enfermeiras e enfermeiros capacitados para as diversas dimensões do exercício profissional. Ao longo de décadas, tem-se verificado uma excelente articulação e cooperação em todas as dimensões da profissão, entre todas as instituições que atualmente integram o Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC) e as Escolas de Enfermagem que hoje constituem a ESEnfC. É neste contexto que o CHUC, ao longo de décadas tem dado o seu melhor contributo para a valorização do processo ensino aprendizagem, em particular no ensino clínico, investigação, formação e na gestão. Assim, o esforço do CHUC nos processos de ensino aprendizagem nas referidas áreas, assenta na prática reflexiva, permitindo aos estudantes a gestão do seu processo formativo num contexto de múltiplas práticas, promovendo múltiplas aprendizagens. Os modelos baseados na multiprofissionalidade e na interdisciplinaridade devem ser explorados e ensinados aos estudantes de enfermagem, Educação e trabalho interprofissional em saúde

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para que em contexto clínico, estes se tornem facilitadores e promotores de uma prática clínica centrada na pessoa e, em que a valorização de todos é de supra importância no processo de cuidados de saúde. As organizações de saúde constituem espaços de forte interação entre os diferentes profissionais de saúde, os estudantes e a pessoa cuidada. Perceber as diversas relações interpessoais no contexto multiprofissional leva-nos a refletir numa lógica de modelo centrado no ser humano. Neste ensejo, o entendimento da interdisciplinaridade em contexto clínico favorece a integração das diferentes profissões que compõem as equipas multiprofissionais em saúde, focadas nas respostas adequadas às suas necessidades de cuidados. O desafio da eficiência no cuidar só se concretizará se houver uma forte consciencialização para a importância da interdisciplinaridade e da multiprofissionalidade na abordagem dos processos de trabalho e na sua gestão aos diferentes níveis de cuidados de saúde. É nesta perspetiva que a ESEnfC e o CHUC se desafiam e solidarizam mutuamente, concentrando esforços para que a educação e formação dos estudantes assentem neste paradigma.

Áurea da Cruz Flamino de Andrade • Curso de Licenciatura em Enfermagem • Curso de Especialização em Enfermagem Médico Cirúrgica • Pós-Graduação em Gestão de Serviços de Saúde • Gestão para Executivos Hospitalares • Programa de Alta Direção de Instituições de Saúde • Assistente Convidada • Enfermeira Gestora • Gestora da Qualidade • Enfermeira Gestora em funções de Direção • Enfermeira Diretora no Hospital Arcebispo João Crisóstomo • Enfermeira Diretora do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra

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08. “EDUCAÇÃO E TRABALHO INTERPROFISSIONAL”: UMA BREVE REFLEXÃO CATARINA RESENDE DE OLIVEIRA

Professora Catedrática Jubilada da Faculdade de Medicina da UC Presidente da Agência para a Investigação Clínica e Inovação Biomédica

O trabalho interprofissional é, simultaneamente, uma oportunidade e um desafio, perante a necessidade de respostas seguras, eficientes e efetivas na prestação de cuidados de Saúde. São vários os desafios que a Saúde enfrenta, resultantes de múltiplos processos e interações complexas que vão desde as alterações demográficas, em que o aumento da longevidade e a consequente alteração do paradigma de doença, associado ao aumento da prevalência das doenças crónicas, progressivas, incapacitantes, com elevado peso socioeconómico, passa a ser dominante, às alterações inesperadas que surgem em contexto de pandemia. A procura de respostas para estas situações, e sobretudo a preparação dos serviços de Saúde antecipando essas respostas, requer abordagens que transcendem os saberes unidisciplinares, em que a integração de perspetivas de múltiplas disciplinas permite um olhar transdisciplinar sobre os problemas complexos emergentes, facilitador do fluxo entre o conhecimento e a sua aplicação prática. O trabalho interprofissional sólido e eficiente está alicerçado na criação de espaços e práticas colaborativas, fruto de um processo educativo em que, indivíduos provenientes de diferentes áreas profissionais se enconEducação e trabalho interprofissional em saúde

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tram, interagem, aprendem e praticam tendo como foco o bem-estar e o cuidar do individuo doente. Consegue-se assim a formação de equipas colaborativas e uma melhor coordenação dos cuidados prestados, resultado de uma maior capacidade de comunicação e de compreensão do papel de cada um dos intervenientes, e a consequente otimização dos resultados alcançados. Para atingir este objetivo não basta juntar profissionais de saúde com formação em diferentes áreas num mesmo espaço, onde enfrentam a necessidade de encontrar a melhor solução para uma questão prática, mas é necessário criar um espaço de formação e de diálogo, ou seja, um espaço educativo interprofissional. Uma das questões que se nos coloca é a de saber quando e como se organiza um processo educativo desta natureza. A criação desta nova cultura requer alguma maturidade de quem aprende, um desenho curricular específico seguindo um modelo de ensino em pequenos grupos e um acompanhamento por docentes com treino especializado no desenvolvimento de competências transdisciplinares. É um processo de ensino/aprendizagem em que o desenvolvimento de um pequeno projeto centrado numa questão bem definida que, embora abordada sob diferentes perspetivas, procura chegar a uma solução ou a um resultado considerado como sendo o mais adequado sob o ponto de vista prático, movendo-se na direção considerada pelo grupo como a mais desejável. Em que o objetivo final do desenvolvimento do projeto não é apenas conseguir a publicação dos resultados alcançados, mas a sua implementação no mundo-real. A abordagem transdisciplinar ao ensino e investigação em Saúde é, seguramente, mais exigente do que a abordagem tradicional, mas irá permitir a realização de um trabalho em equipa capaz de mitigar os custos humanos e financeiros do erro na prática em Saúde.

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Catarina Resende de Oliveira Catarina Isabel Neno Resende de Oliveira, natural de Coimbra, licenciou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, em 1970, e obteve o grau de doutor na especialidade de Neurologia, em 1984, na mesma Universidade. Professora Catedrática Jubilada, foi presidente do Centro de Neurociências e Biologia Celular de 2003 a 2013. Catarina Resende Oliveira exerceu vários cargos de direção, participou e presidiu a várias comissões na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, tendo estado envolvida nas reformas curriculares desta Escola Médica e participado nos projetos pedagógicos desenvolvidos pela Escola em colaboração com as Universidades dos Açores e Cabo Verde. Recebeu vários prémios e distinções de entre os quais a Ordem da Instrução Pública – Grande Oficial, atribuída pela Presidência da República Portuguesa, e a Medalha de Serviços Distintos (Ouro) do Ministério da Saúde de Portugal. Foi Coordenadora da Unidade para a Inovação e Desenvolvimento (UID) do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC) e membro da direção do Centro Académico Clínico de Coimbra. É, atualmente, Presidente da Agência para a Investigação Clínica e Inovação Biomédica (AICIB).

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09. UM AMBIENTE DE PARTILHA DE CONHECIMENTOS COM ENRIQUECIMENTO MÚTUO CLARA VENTURA

Professora Coordenadora. Unidade Científico-Pedagógica de Enfermagem de Reabilitação Escola Superior de Enfermagem de Coimbra

Os novos desafios do Ensino Superior, face à complexidade de um mundo novo, instantâneo e global, exigem mudanças no sistema de ensino para uma adaptação às necessidades impostas pela sociedade, em benefício da qualidade da formação profissional. Na superação destes desafios, as Instituições de Ensino Superior produzem conhecimentos adequados aos contextos emergentes, com processos formativos capazes de articular saberes e práticas numa perspetiva interdisciplinar, proporcionando a compreensão da relação das diferentes áreas, nomeadamente ligadas á saúde. A saúde apresenta-se como um campo interdisciplinar abrangente, pois requer conhecimentos e práticas de diferentes áreas, com profissionais que se cruzam em atividades conjuntas no mundo do trabalho e académico. Para isso, é importante que cada um saiba ultrapassar a sua área de formação e competência, reconhecendo os seus limites e procurando a contribuição de outros profissionais. Assim, respeitando o conhecimento de cada profissional, será possível distinguir os pontos que os unem e os que diferenciam, discutir os problemas e encontrar soluções compartilhadas pelas pessoas e instituições. Educação e trabalho interprofissional em saúde

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A complexidade do objeto das ciências da saúde e a consequente exigência de um olhar abrangente, exigem um trabalho conjunto para a construção do saber, marcado pelas relações entre os profissionais de bases disciplinares específicas. O Ensino de Enfermagem requer o compromisso com a formação de profissionais capacitados por meio de propostas inovadoras de formação. Apresenta-se como fundamental, para o desenvolvimento do profissional em saúde, a adoção de metodologias inovadoras de ensino-aprendizagem, acrescentando à formação valores fundamentais como o Humanismo e a Cidadania, partindo da visão da pessoa como uma unidade complexa, saudável ou doente. O longo percurso profissional, que proporcionou uma diversidade de experiências e contextos, torna hoje possível entender os grandes marcos na evolução e desenvolvimento da Enfermagem em geral, e da Enfermagem de Reabilitação em particular. O contacto com todos os intervenientes no ensino/aprendizagem, incluindo toda a comunidade académica e os profissionais de saúde que intervêm neste processo, deve decorrer de forma assertiva que permita um ambiente de partilha de conhecimentos com enriquecimento mútuo, estimulando a formação de profissionais competentes em termos científicos, técnicos e culturais, ajustados a uma sociedade permanentemente em mudança.

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Maria Clara Ventura Doutorada em Ciências de Enfermagem (2015). Mestre em Sociopsicologia da Saúde (1999). Licenciada em Enfermagem e com Curso de Pós-Licenciatura Especialização em Enfermagem de Reabilitação (1989). Professora Coordenadora da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra (ESEnfC), da carreira do Pessoal Docente do Ensino Superior Politécnico. Atualmente, é Regente da disciplina de Anatomofisiologia I no Curso de Licenciatura em Enfermagem. Nos cursos de Pós-Licenciatura de Especialização e de Mestrado em Enfermagem de Reabilitação assume a regência das unidades curriculares de Enfermagem de Reabilitação na Família e na Comunidade e Opção de Avaliação Funcional. Investigadora na Unidade de Investigação em Ciências da Saúde: Enfermagem (UICISA: E). Membro do Conselho Editorial da Revista de Enfermagem Referência, da UICISA: E. Membro do Conselho Geral (2017-2021) e do Conselho Técnico-Científico (20192024) da ESEnfC. Coordenadora da Unidade Científico-Pedagógica de Enfermagem de Reabilitação, da ESEnfC.

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10. DESENVOLVEMOS INVESTIGAÇÃO E INTERVENÇÃO COMUNITÁRIA QUE PROMOVE A PRÁTICA COLABORATIVA CLARINDA MARIA CRUZEIRO

Professora Coordenadora. Unidade Científico-Pedagógica de Enfermagem de Saúde Pública, Familiar e Comunitária Escola Superior de Enfermagem de Coimbra

Os sistemas de saúde e ensino devem trabalhar em conjunto a educação interprofissional e a prática colaborativa, pois estamos diariamente diante de situações de vida e saúde muito complexas, que exigem um trabalho integrado, com foco no atendimento dessas necessidades, sendo a lógica do trabalho em equipa a premissa para que possamos avançar numa atenção à saúde global e local, mais integral e eficaz. Deste modo, as políticas de reorientação da formação dos profissionais de saúde com vista à formação de profissionais mais implicados com o fortalecimento e consolidação de cada sistema de saúde, é um desígnio da OMS e do Marco para Ação em Educação Interprofissional e Prática Colaborativa. A História mostra-nos que em muitos países a cultura da formação separada acaba por construir identidades profissionais muito rígidas, o que se tem configurado como uma barreira para a comunicação entre os diferentes profissionais de saúde. O processo de formação também reforça a construção dessas identidades. Desenvolver competências capazes Educação e trabalho interprofissional em saúde

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de melhorar a capacidade para o trabalho em equipa é uma necessidade no contexto atual e, nos últimos anos, em virtude das alterações demográficas e epidemiológicas, esta discussão vem ganhando ainda mais força e passou a ser estudada e discutida nos espaços de formação e assistência em saúde. Sabemos que no trabalho em saúde há uma grande imprevisibilidade, diante das necessidades dos utentes, das famílias ou das comunidades, na maioria das vezes de difícil complexidade, exige-se uma colaboração em parcerias entre profissionais e/ou entre organizações, pessoas, famílias, grupos e comunidades para a tomada de decisões compartilhadas, tendo em vista o benefício nos resultados em saúde. Conscientes da centralidade deste conceito e na capacidade de aprender a colaborar uns com os outros a formação graduada e pós-graduada da ESEnfC tem incorporado ao longo do seu percurso formativo nos vários currículos escolares este desiderato. Coordenamos projetos de extensão que reforçam a interprofissionalidade e a proatividade perante os grupos mais vulneráveis e em diversos contextos. Os nossos projetos articulam-se com serviços de saúde e desenvolvimento social para efetivação de políticas e programas de saúde. Desenvolvemos investigação que promove o trabalho em equipa e a prática colaborativa na aprendizagem dos estudantes. Fazemos parte de uma Escola socialmente responsável com “140 anos na vanguarda do ensino de Enfermagem”. Parabéns à ESEnfC.

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Clarinda Cruzeiro • Professora Coordenadora da ESEnfC • Coordenação de cursos de Pós-Licenciatura de Especialização e de Mestrado em Enfermagem Comunitária • Regente de Unidades Curriculares de Pós-Licenciatura e de Licenciatura • Coordenadora da Equipa Disciplinar de Enfermagem Comunitária e Familiar • Formação Académica: Licenciatura em Enfermagem, Especialização em Enfermagem de Saúde Pública e Mestre em Saúde Pública • Pertenceu ao Conselho Diretivo da Escola Superior de Enfermagem de Bissaya Barreto, como Vice-Presidente da Área Científico-Pedagógica (2003-2006) • Coordenadora da Unidade Científico-Pedagógica de Enfermagem de Saúde Pública, Familiar e Comunitária (2011 até à data) • Membro efetivo do Conselho Técnico-Científico (2014-2019) • Membro do Conselho Geral da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra (2008-2012, 2013-2016 e de 2017 até à data)

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11. A IMPORTÂNCIA DA FORMAÇÃO E DO TRABALHO INTERDISCIPLINAR EM SAÚDE CONSTANTINO SAKELLARIDES

Professor Catedrático Jubilado Escola Nacional de Saúde Pública, Universidade Nova de Lisboa

Crescemos em sistemas de saúde fragmentados pela predominância dos núcleos identitários das diferentes organizações e profissões sobre quaisquer outras considerações. Pouco espaço tem havido para acrescentar a estes núcleos identitários, as interfaces colaborativas entre diferentes pessoas e entidades, necessárias para convergimos melhor na resposta aos desafios de saúde das nossas comunidades. Sempre encontramos boas razões para o difícil que era evoluir no sentido dessa convergência. Hoje, é razoável dizer que a “sociedade do conhecimento” em que vivemos, os novos desafios que reconhece, os instrumentos que proporciona e a cultura que impulsiona, deixam pouca margem para que fique tudo na mesma. Senão vejamos. É hoje quase trivial partilhar extensas “bases de conhecimento” e dar origem, expandir, uma “inteligência coletiva”. Mas podemos fazer mais: distribuir informação pelos diferentes atores sociais de acordo com o seu perfil e tipo de contribuição para a realização dos objetivos comuns. E, ainda, criar as condições necessárias para que essa informação propositadamente distribuída se interiorize como conhecimento, ajudandoEducação e trabalho interprofissional em saúde

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-nos a convergir na ação. Com a intenção de produzir um intangível essencial – “inteligência colaborativa”! Assumimos então também o compromisso de monitorizar, analisar a resposta dos diferentes atores em causa, saber até que ponto essa nova forma de inteligência foi produzida, como se tem manifestado e porquê. Temos hoje as tecnologias computacionais para o fazer. Estaremos de acordo, então, que, como resultado dessa análise, podemos retroalimentar as nossas bases de conhecimento e estratégias distributivas, de forma a construir um ciclo contínuo de desenvolvimento conjunto. Passamos a ter um novo paradigma comum de aprendizagem. O mesmo, para todos, em contextos diferentes, dentro e fora da Escola. Com a pandemia que nos assola, aprendemos, cruamente, que temos que mudar de vida – que esta pode constituir a grande oportunidade para pedir, contribuir e liderar as transformações qualitativas no nosso sistema de saúde, a que há muito aspiramos. Que melhor forma para comemorar 2021, como Ano Internacional dos que trabalham na saúde?

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Constantino Sakellarides • Professor Catedrático Jubilado da Escola Nacional de Saúde Pública • Membro do Conselho Geral da Fundação para a Saúde – SNS • Membro do Conselho Consultivo da Fundação Pulido Valente (2019 - ) • Membro do Conselho Consultivo para o Plano Nacional de Saúde (2019 - ) • Membro do Conselho Nacional de Saúde Pública (2000 - ) • Membro da Comissão Científica da nova “Escola de Saúde” da Universidade de Évora • Médico rural e delegado de saúde em Moçambique, fez parte da fundação e coordenação do primeiro centro de saúde universitário (como assistente da Faculdade de Medicina) da então cidade de Lourenço Marques (1969-71) • Diretor do Centro de Saúde Sofia Abecassis, Lisboa (1976-1984) • Consultor para os Cuidados de Saúde Primários da OMS/Europa, Copenhaga (1981-82) • Diretor Académico da Escola Andaluza de Saúde Pública, Granada (1985-87) Coordenador dos programas de cooperação com os países europeus da OMS/ Europa, Copenhaga (1987-90) • Diretor para as Políticas e Serviços de Saúde OMS/Europa, Copenhaga (1991-95) • Presidente do Conselho de Administração da ARS de Lisboa e Vale do Tejo (1996) • Diretor-Geral de Saúde (Portugal, 1997-99) • Fundador e primeiro coordenador do Observatório Português dos Sistemas de Saúde (2000-2006) • Presidente da Associação Europeia de Saúde Pública (2008-2009) • Diretor da Escola Nacional de Saúde Pública (2007-2011) • Primeiro presidente da Fundação para a Saúde – SNS (2013-2016) • Consultor do Ministro da Saúde para a literacia em saúde e a integração dos cuidados (2016-2018) • Presidente do Conselho Geral da Universidade de Évora (2017-2018) • The Baxter Award 1999 (European Health Care Management Association) “for an outstanding publication contributing to excellence in health care management in Europe” • Honorary Distinction 2004 (Greek Association of General Practitioners) “for his contribution to the development of Primary Health Care and General Practice in Greece” • Medalha de Ouro de Serviços Distintos, 2006, pelo Ministério da Saúde de Portugal

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12. A INTERDISCIPLINARIDADE EM SAÚDE CORÁLIA VICENTE

Professora Catedrática Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar - Universidade do Porto

Nada como os tempos que vivemos hoje para nos lembrarmos de quem se bateu, há muitos anos, para que a formação em saúde envolvesse todo um conjunto de áreas tradicionalmente separadas, mas que em conjunto se transformam em muito mais que a soma das partes. Lembro Corino de Andrade, neurologista português e um dos fundadores do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto, (ICBAS-UP) que já em 1944 defendia que a investigação em saúde deveria abranger um conjunto diverso de áreas e dava o exemplo das sezões (malária). Dizia Corino de Andrade “Todos sabem, por terem sofrido, observado ou ouvido contar, os malefícios que as sezões provocam; poucos sabem no entanto que o combate ao sezonismo exige actualmente o mais variado conjunto de técnicos e investigadores trabalhando cada um no seu campo, mas em sentido convergente. O entomologista que estuda o mosquito e os seus hábitos, o parasitologista que estuda o Plasmodium, ou seja o agente que produz as sezões, o Químico que estuda a composição das drogas e procura realizar a sua síntese, o médico que estuda os efeitos dos medicamentos nos doentes, o climatologista que estuda as condições do meio, todos enfim colaboram numa obra comum – a de nos libertar dêsse flagelo; e o que acabo de dizer a propósito das sezões poderá aplicar-se a tantas outras doenças.....” Educação e trabalho interprofissional em saúde

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Ao ler este pequeno excerto de uma palestra intitulada “A Investigação Científica ao Serviço da Saúde”, proferida em 1944, parece que estamos a ouvir o que hoje é notícia todos os dias em relação à SARS-CoV-2 (Covid 19) e podemos identificar todo um conjunto de áreas que na sua inter e multidisciplinaridade estão a trabalhar para nos libertar deste flagelo. Na saúde temos que aprender e fazer investigação em conjunto, tal como já tinha sido preconizado no preâmbulo da portaria nº293/75 de 5 de Maio justificando a criação de uma nova escola: o ICBAS-UP. No caso desta pandemia que tem feito parte da nossa vida neste último ano há os matemáticos e epidemiologistas que nos ajudam a perceber os números; os virologistas, bioquímicos, imunologistas e tantos outros cientistas na área biomédica que tentam perceber como actua o vírus causador desta pandemia e como ele próprio se vai alterando e o que podemos fazer para o combater e nos defendermos dele, desenvolvendo testes e tentando encontrar vacinas e tratamentos. Para além da investigação, há todo um trabalho também multidisciplinar e também em colaboração no terreno, identificando doentes e contactos de risco; e no fim da linha as equipas hospitalares, com os mais variados técnicos que lutam todos os dias para salvar vidas. O muito ou pouco que se conseguiu por esse mundo fora no combate à pandemia foi devido a uma colaboração estreita entre diversas áreas de conhecimento que por sua vez têm diferentes, mas colaborantes áreas de actuação. Esta colaboração tanto na investigação como na acção só é possível a partir de uma formação e de um trabalho interdisciplinar onde o objectivo é apenas um: melhorar a qualidade de vida dos cidadãos ou seja: Cuidar.

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Corália Vicente É Professora Catedrática no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto (ICBAS-UP) desde 2001. Pertenceu à direcção desta escola desde 1989, quando foi eleita Vice-Presidente do Conselho Diretivo tendo sido em 1992 eleita Presidente, lugar em que se manteve até fevereiro de 2004. Actualmente, para além de docente na área da sua especialidade, bioestatística, em vários ciclos de estudos é Presidente do Conselho Pedagógico, membro do Conselho de Representantes, membro do Conselho Científico e directora do Doutoramento em Ciências de Enfermagem, directora da biblioteca ICBAS-FFUP e membro do Conselho Geral da Universidade do Porto. A sua actividade científica tem a ver com a aplicação de metodologias estatísticas em problemas das áreas biomédicas.

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13. EDUCAÇÃO E TRABALHO INTERPROFISSIONAL – UMA PERSPETIVA ELISABETE SANTOS

Enfermeira. Adjunta da Enfermeira Diretora para a Área da Formação e Desenvolvimentos Pessoais Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra

Ao longo das últimas décadas, as constantes mudanças das necessidades em saúde dos cidadãos, quer individuais quer coletivas, determinaram uma crescente complexidade na oferta de cuidados de saúde. Este facto, motivou e desafiou os diferentes intervenientes nos processos de ensino/aprendizagem, instituições de saúde e escolas de enfermagem, a repensar os múltiplos e diferentes modelos em que são formados os enfermeiros e outros profissionais de saúde. A procura constante de diferentes modelos de formação que interliguem educação, saúde e desenvolvimento pessoal e profissional é determinante para as aprendizagens, cabendo às escolas de enfermagem e às instituições de saúde no geral, e ao Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC) e Escola Superior de Enfermagem de Coimbra (ESEnfC) em particular, procurar as melhores respostas e cenários de formação clínica, de investigação e de gestão que sustentem, numa perspetiva reflexiva, as aprendizagens nesses contextos específicos de interdisciplinaridade e multiprofissionalidade. À semelhança de organizações similares, o CHUC e a ESEnfC enfrentam diariamente constantes mudanças na realidade e complexidade dos Educação e trabalho interprofissional em saúde

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serviços e dos cuidados de saúde que motivam diferentes cenários, bem como dos modelos de ensino/aprendizagem, conduzindo ao recurso a estratégias de um ensino que se pretende cada vez mais criativo, para que os estudantes aprendam em contextos cada vez mais motivadores e desafiadores. Os cuidados em saúde são muito mais do que a execução de tarefas e o exercício das competências de diferentes profissões e profissionais. Assim, os estudantes de enfermagem, devem ser preferencialmente formados e treinados para aprendizagens conjuntas com outros estudantes de outras áreas da saúde, nos diversos e diferentes contextos, melhorando as relações entre si e o desenvolvimento e aperfeiçoamento do trabalho em equipa multiprofissional. Os modelos baseados na multiprofissionalidade e interdisciplinaridade, deverão continuar a ser explorados e trabalhados com os estudantes de enfermagem e outros, para que possam ser promotores de práticas clínicas facilitadoras dos processos de aprendizagem. Esta é apenas uma das muitas reflexões possíveis acerca da “Educação e Trabalho Interdisciplinar”, que deu o mote, no ano em que se comemoram simultaneamente os 140 anos de vida do ensino de Enfermagem em Coimbra, e em que a Organização Mundial de Saúde designou 2021 como o “Ano Internacional dos Trabalhadores da Saúde e dos Cuidadores”. Sublinha-se ao mesmo tempo, e numa feliz coincidência, o reconhecimento do exercício profissional de um dos grupos profissionais que mais cria valor na área da saúde, a Enfermagem, e o pioneirismo do ensino de enfermagem no país, pela Escola Superior de Enfermagem de Coimbra.

Maria Elisabete Simões dos Santos • Enfermeira • Especialista em Enfermagem de Saúde Infantil e Pediátrica • Serviço de Formação do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra • Adjunta da Enfermeira Diretora para a Área da Formação e Desenvolvimentos Pessoais

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14. ANO INTERNACIONAL DOS PROFISSIONAIS DA SAÚDE E CUIDADORES – SOBRE A IMPORTÂNCIA DA FORMAÇÃO E DO TRABALHO INTERDISCIPLINAR EM SAÚDE… ÉLVIO JESUS

Enfermeiro Supervisor. Professor Auxiliar Convidado Serviço de Saúde da Região Autónoma da Madeira

Os profissionais constituem o elemento crítico dos sistemas de saúde. A sua formação, valores e desenvolvimento de competências tornam-se, assim, fundamentais. A experiência e a prática reflexiva também. O trabalho em equipa é, igualmente, um requisito da maior importância. Permite a concretização do potencial sinérgico dos seus elementos, incluindo o dos doentes e seus cuidadores, formais ou informais, que no conjunto potenciam a tão necessária coprodução em saúde (1). A Liderança, participativa e partilhada, é também um factor determinante. Sem ela, dificilmente se conseguirá o integral aproveitamento dos diferentes capitais, humano, material ou imaterial. Neste âmbito, a qualidade dos ambientes de trabalho, ou seja, as condições que facilitam ou dificultam a actividade profissional, afigura-se

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um elemento aglutinador de todos estes importantes aspectos. Sem um ambiente saudável, dificilmente se conseguirão serviços e cuidados de saúde de qualidade. Qualidade esta que, segundo a OMS, OCDE e BM (2), pressupõe um conjunto de caraterísticas mensuráveis, designadamente: efectividade, segurança, enfoque (centração) nas pessoas, oportunidade (em tempo útil), equidade, integração de cuidados e eficiência, o que só é possível conseguir-se com profissionais bem formados, fortalecidos, motivados e competentes. E em que estes disponham dos recursos adequados e das condições necessárias para o aproveitamento integral do escopo das respectivas qualificações e competências disciplinares e profissionais (3). Sucede que, perante a maior parte das situações de saúde, no mundo moderno, é exigida cada vez mais multiprofissionalidade e inter e transdisciplinaridade nas intervenções, assim como a partilha de um conjunto de objectivos e valores comuns. Novos modelos de cuidados, capacidade resolutiva e maior colaboração interprofissional são igualmente requeridos. Daí ser importante existir uma base formativa comum, sobretudo para os candidatos às profissões mais essenciais nos processos de prestação de cuidados de saúde. Em todos os contextos, serviços ou sectores, com especial destaque para os Cuidados de Saúde Primários (4). Além de que, na actualidade, a saúde deve estar muito para além dos cuidados de saúde propriamente ditos. Os factores ambientais, sociodemográficos, económicos e culturais têm muito maior impacto na saúde das pessoas do que os tradicionais cuidados de saúde - mais de 80%, segundo alguns autores. E a cobertura universal em cuidados de saúde é, de há muito, um desafio mundial. Por isso, atendendo ao carácter modificável e dinâmico destes elementos, também denominados determinantes sociais da saúde, e face aos desafios colocados pelos objectivos da ONU para o desenvolvimento sustentável, defendemos que a formação inicial, pós-graduada e contínua dos profissionais de saúde deverá ocorrer cada vez mais em contextos multiprofissionais e multidisciplinares, ser baseada na evidência em cada momento disponível, de modo a preparar os profissionais para, conjuntamente, enfrentarem, de modo equitativo, eficaz e eficiente, e num quadro regulador dinâmico e moderno, os diferentes desafios que as necessidades das pessoas, individual ou colectivamente consideradas, se lhes colocam. Numa única palavra: para que lhes acrescentem Valor! 66

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1 - World Health Organization. (2015). WHO global strategy on people-centred and integrated health services: interim report (No. WHO/HIS/SDS/2015.6). World Health Organization. 2 - OECD/WHO/World Bank Group (2018), Delivering Quality Health Services: A Global Imperative, WHO, Geneva, https://doi.org/10.1787/9789264300309en. 3 - WHO (2020). State of the world’s nursing 2020: Investing in education, jobs and leadership report. (accessed, 26/2/2021) https://apps.who.int/iris/ bitstream/handle/10665/331677/9789240003279-eng.pdf 4 - OECD (2020), Realising the Potential of Primary Health Care, OECD Health Policy Studies, OECD Publishing, Paris, https://doi.org/10.1787/a92adee4-en.

Élvio Jesus • Enfermeiro Supervisor no Serviço de Saúde da Região Autónoma da Madeira • Mestre e Doutor em Ciências de Enfermagem • Professor Auxiliar Convidado na Universidade Católica Portuguesa/Instituto de Ciências da Saúde e na Escola Superior de Enfermagem de S. José de Cluny • Deputado na Assembleia Legislativa Regional da Madeira (ALRAM) • Presidente da 5ª Comissão Permanente de Saúde e Assuntos Sociais da ALRAM

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15. ESEnfC – 140 FERNANDO RAMOS

Professor Associado com Agregação Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra

O convite da Senhora Presidente da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra foi direto: Fernando, em 2021 comemoramos 140 anos da fundação da Escola de Enfermagem. Vamos editar uma brochura alusiva e estás convidado a escrever um depoimento sobre “Educação e trabalho interprofissional”. Porquê o convite, pensei eu? Mas facilmente encontrei inúmeros motivos, dos quais me atrevo a destacar três, a saber: 1) Aqueles que me conhecem há mais tempo sabem que, apesar das diversas atividades que desempenhei ao longo da vida, a profissão de que gosto mais é a que exerço ininterruptamente há 55 anos: ser Estudante; 2) Não me tendo sido nunca solicitada carteira profissional para exercer essa profissão, o mesmo já não aconteceu para outras das duas atividades, uma que já desempenhei, Enfermeiro (1980-1986) e outra que exerço, Farmacêutico (1986-???); 3) Fui condiscípulo da Senhora Doutora Aida Mendes, na então Escola de Enfermagem Doutor Ângelo da Fonseca, e com ela, mas não só (permito-me destacar o curso de 1977-1980 e aproveitar para dizer que se algum dia se fizer uma edição do tipo “Who is Who?” referente a esse curso, muita gente vai ficar surpreendida...), tivemos a honra de “transportar” a Escola dos Antigos Hospitais da Universidade de Coimbra sitos, então, na Praça D. Dinis, para as atuais instalações do Pólo A da ESEnfC. Ora, facilmente se percebe que o convite era irrecusável. Educação sem

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Estudantes não existe, Enfermeiro e Farmacêutico são Trabalhadores de Saúde imprescindíveis e o trabalho com mais e melhores resultados é sempre interprofissional. Parece, então, que estavam reunidos os diversos critérios na minha pessoa para um depoimento a ter em conta. Nada mais errado, porque a minha Amiga Aida, sempre com a lucidez e assertividade que se lhe reconhece, tratou de limitar, e bem, este depoimento a uma página. Não fosse assim, eu e, muito provavelmente, os outros convidados tenderíamos a escrever depoimentos que a coberto de uma reflexão, dita aprofundada, só permitiriam a publicação desta edição para a comemoração do 141º Aniversário da ESENFC... Atrevo-me, por isso, a trazer à coação o conceito “One Health” que trata as questões relacionadas com a saúde de forma holística, reunindo as vertentes da saúde humana, saúde animal e saúde ambiental. Ora, este conceito, que é de particular importância, não apenas em crises pandémicas como a que presentemente vivemos, articula vários sectores profissionais que convergem para o desenvolvimento de respostas rápidas e eficazes em situações de emergência, como ficou provado recentemente com as popularmente chamadas vacinas COVID. Por outro lado, permite, também, antecipar estratégias de prevenção de doenças altamente patogénicas ou doenças emergentes, ou re-emergentes, só para realçar os aspetos mais importantes que estão mais em foco hoje em dia. É, por isso, que acredito que em Coimbra se pode, e sobretudo, deve, cada vez mais, contribuir para que não seja só 2021 o “Ano Internacional dos Trabalhadores de Saúde e Cuidadores”. A conjugação das competências existentes nas diversas escolas de saúde da cidade, facilmente demonstra que a soma obtida é significativamente maior que a “adição das parcelas”. A ousadia dos prudentes aconselha a que assim se faça. Seremos capazes?

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Fernando Ramos Fernando Ramos é Professor Associado com Agregação da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra, desenvolvendo a sua atividade nas áreas da Química Analítica, Bromatologia e Segurança Alimentar. Colabora com a EFSA (Autoridade Europeia de Segurança Alimentar), é membro do JECFA (Comité misto FAO/OMS para Aditivos Alimentares, especialidade de resíduos de medicamentos veterinários em alimentos), do Grupo de Avaliação de Medicamentos Veterinários da DGAV e Vice-Presidente do Conselho Científico da ASAE. É, também, VicePresidente do Comité Executivo da COIFFA (Conferência Ibero-americana de Faculdades de Farmácia) e Membro Estrangeiro da Real Academia de Farmácia de Espanha, da Academia de Farmácia de Castilla y León e da Academia de Farmácia Ibero-americana. Autor e/ou coautor de mais de 150 publicações científicas, entre as quais seis livros, 22 capítulos de livros e mais de 100 artigos completos em revistas internacionais indexadas na Web of Science e na Scopus.

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16. TRABALHARMOS JUNTOS PELA SAÚDE NÃO É UMA OPÇÃO, MAS UMA NECESSIDADE GILLES DUSSAULT

Professor Aposentado Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa

Em 2006, a OMS intitulou o relatório mundial da saúde “Trabalhando juntos pela saúde”. A declaração do ano 2021 “Ano Internacional dos Trabalhadores de Saúde e Cuidadores” oferece uma oportunidade para refletir sobre o que é “trabalhar juntos” em saúde. No último ano, as imagens de pacientes com forma severa de Covid-19 tratados por grandes equipas de profissionais nos cuidados intensivos demonstraram quotidianamente a importância do trabalho interprofissional. Nos cuidados que têm menos visibilidade na comunicação social, como os cuidados primários, o nível de complexidade das intervenções também exige a colaboração de trabalhadores de várias profissões. Só equipas de profissionais com competências complementares podem atender as múltiplas dimensões da maioria dos problemas de saúde. Os benefícios da colaboração interprofissional são conhecidos, mas não são colhidos facilmente. A combinação de competências de vários profissionais permite diagnósticos e tratamentos mais holísticos e, assim, melhora a qualidade do atendimento e as necessidades dos utentes. O trabalho interprofissional também gera uma melhor produtividade, por exemplo quando o enfermeiro ou o farmacêutico substituem o médico no exercício de algumas tarefas. Juntos, esses três profissionais podem serEducação e trabalho interprofissional em saúde

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vir mais utentes e melhorar a acessibilidade aos serviços de saúde. Outro importante benefício observado é uma maior satisfação dos utentes, que recebem cuidados melhor coordenados e mais integrados, e também dos próprios profissionais, que adquirem novas competências graças à partilha de conhecimentos que o trabalho interprofissional favorece. Porém, algumas condições devem estar presentes para a concretização desses benefícios. Para colaborar de modo eficaz, importa que todos falem a mesma linguagem e que todos saibam que tipo de contributo podem os outros dar. A formação interprofissional em serviço, quer a nível da formação inicial, quer da complementar, é uma estratégia que tem demonstrado resultados positivos, incluindo o desenvolvimento da confiança mútua e do respeito dos colegas de outras profissões. Outro pré-requisito é implementar uma gestão adaptada, ou seja, que facilite a definição clara das tarefas e responsabilidades e a coordenação entre os colaboradores. A liderança das equipas interprofissionais não pode ser autoritária, nem baseada em relações de subordinação de uns a outros; deve ser assumida por quem tem a formação e as capacidades pessoais adequadas, e não ser atribuída em função da profissão. Um fator facilitador do trabalho interprofissional é a existência de um quadro regulador que permita uma divisão do trabalho flexível e a utilização de todo o potencial de cada profissional. Isto supõe rever as definições rígidas dos papéis profissionais e limitar as áreas reservadas que favorecem o trabalho em silos, que é o exato oposto do trabalho interprofissional. A adaptação das regras que definem “quem faz o quê” em saúde deve ser parte de uma politica clara de recursos humanos em saúde. O fortalecimento do trabalho interprofissional é coisa difícil. Exige a colaboração das instituições de educação, das organizações profissionais, em particular das ordens, e de órgãos do governo nos setores da saúde, da educação e da administração pública, sem esquecer o das finanças. O desafio é que todos percebam que “Trabalharmos juntos pela saúde” não é uma opção, mas uma necessidade e mesmo um dever.

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Gilles Dussault Gilles Dussault é membro do grupo População, Políticas e Serviços do centro de investigação Global Health and Tropical Medicine do Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT), da Universidade Nova de Lisboa, onde foi Professor Catedrático convidado de 2006 a 2018. Antes de se juntar ao IHMT, integrou o Instituto do Banco Mundial (Washington DC) como responsável pelas atividades do Programa da Reforma do Setor da Saúde e Financiamento Sustentável nos países de língua francesa, portuguesa e espanhola. Entre 1985 e 2000, foi Professor e Diretor do Departamento de Administração de Saúde da Universidade de Montreal (Canadá). Lecionou em vários países, incluindo um ano na Escola Nacional de Saúde Pública do Brasil. Publica, principalmente, sobre temas relacionados com a regulação e gestão da força de trabalho em saúde.

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17. 2020-2021 VEM DEMONSTRAR A IMPORTÂNCIA DE TODOS OS PROFISSIONAIS DE SAÚDE HUGO RAIMUNDO

Enfermeiro Diretor Hospital da Luz Coimbra

Assumida como pilar fundamental nos sistemas de saúde globais, a enfermagem tem desempenhado um papel ímpar na melhoria do estado de saúde das pessoas, das comunidades e da população global. Fruto de um intenso investimento profissional e académico no último século, a ciência da enfermagem tem desenvolvido um corpo de conhecimentos científicos que ajudou, de maneira decisiva, a transformar a forma como as intervenções em saúde são organizadas e como os cuidados de saúde são disponibilizados aos cidadãos e às comunidades em todo o mundo. É também na e pela enfermagem que os serviços de saúde podem fornecer os pontos de convergência para as ações inter e intra-disciplinares em saúde. Esta convergência na enfermagem permite continuar a melhoria dos indicadores globais de saúde e de bem-estar da humanidade. Os desafios globais que enfrentamos na atualidade, que se tornaram verdadeiramente impactantes com a atual pandemia de COVID-19, vêm reforçar a necessidade de implementar e reforçar os sistemas de saúde com intervenções de saúde comunitária responsivas, focados no desígnio da cobertura universal em saúde e que promovam ambientes de trabalho alinhados com os objetivos globais de desenvolvimento sustentável. Este reforço dos sistemas de saúde a nível global, com a aposta clara na Educação e trabalho interprofissional em saúde

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capacitação da enfermagem e dos enfermeiros, fará a diferença com a promoção de intervenções de alto impacto e de baixo custo. Como afirma Hans Rosling, no seu livro “Factfulness”, e a título de exemplo, quase todo o aumento da sobrevivência infantil em países de baixos rendimentos (onde o rendimento por pessoa/dia é inferior a 8 dólares – que representam 4000 milhões de pessoas) é conseguido com medidas preventivas fora dos hospitais por enfermeiros, parteiras e pais com educação. Por isso não vacilemos; tenhamos a consciência de que o fortalecimento da enfermagem para apoiar a cobertura universal em saúde é um imperativo fundamental para melhorar a saúde das populações. Se dúvidas houvessem, o biénio 2020-2021, vem demonstrar de forma exemplar, a importância de todos os profissionais de saúde e dos cuidadores de todos os sistemas de saúde. É esse o objetivo da OMS em designar o ano de 2021 como o Ano Internacional dos trabalhadores da saúde e cuidadores, salientando o seu papel fundamental na garantia da saúde e bem-estar das populações, num ano pautado pela dedicação, sacrifício e compromisso extremos, não apenas para com o seu trabalho diário mas também para ultrapassar a atual pandemia. Por mais que os profissionais da saúde sejam apelidados, nos tempos que correm, de heróis, devemos procurar construir e fortalecer sistemas e não procurar heróis. Ultrapassar epidemias que se assemelham a batalhas, ganhando-se de forma prosaica, sem espetacularidade, com intervenção e envolvimento de todos os atores num sistema de saúde resiliente e capacitado, devidamente preparado para responder aos desafios que se colocam à saúde pública numa escala local, regional e global. É neste cenário de desafios à saúde global que a Escola Superior de Enfermagem de Coimbra comemora o seu 140º aniversário. O seu contributo pioneiro na formação de enfermeiros em Portugal, assim como o papel de serviço público que tem desempenhado ao longo da sua existência institucional, com a formação e educação de enfermeiros, através de uma aprendizagem transformadora (focada na interdependência da educação profissional, procurando convergências entre as esferas de ação local e global, entre os sistemas de saúde e a educação, entre todos os profissionais de saúde e os restantes cidadãos, garantindo competências adaptadas aos diferentes contextos), é marca distintiva nacional e internacional da ESEnfC. Aliado a esta marca e de forma indissociável, registo a sua importância no desenvolvimento do ensino superior, na investigação científica e na consolidação do sistema de saúde português, 78

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nomeadamente no fortalecimento do seu pilar fundamental, o Serviço Nacional de Saúde, contributos estes que serão sempre determinantes na capacitação e fortalecimento da cobertura universal de saúde.

Hugo Alexandre Raimundo • Licenciatura em Enfermagem pela Escola Superior de Enfermagem de Coimbra • Mestre em Enfermagem, com Especialização em Enfermagem Médico-Cirúrgica • Enfermeiro Diretor do Hospital da Luz Coimbra Funções anteriores: • Adjunto da Direção de Enfermagem – Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, EPE • Gestor da Qualidade – Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, EPE • Consultor Internacional Prevenção e Controlo de Infeção da Organização Mundial de Saúde/Genebra • Auditor Interno de sistemas de gestão da qualidade – Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra • Avaliador Externo para a Certificação de unidades de saúde ACSA/Direção-Geral de Saúde • Assistente Convidado na Escola Superior de Enfermagem de Coimbra • Enfermeiro Especialista em Enfermagem Médico-Cirúrgica – Hospitais da Universidade de Coimbra e Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, EPE • Enfermeiro - Cuidados de Saúde Primários – Centro de Saúde Figueira da Foz – Buarcos

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18. O CONHECIMENTO DAS PRÁTICAS DAS DIFERENTES PROFISSÕES DA SAÚDE TEM, INEVITAVELMENTE, DE COMEÇAR NAS FACULDADES INÊS FRONTEIRA

Professora Auxiliar. Doutorada em Saúde Internacional Universidade Nova de Lisboa - Instituto de Higiene e Medicina Tropical

Reserva de poucas profissões e de alguns “curiosos” durante muitos séculos, a saúde é, hoje, uma área de conhecimento que atreveria a adjetivar de única, em particular no que diz respeito à variedade de profissionais e profissões que a compõem. Durante muito anos, a lente social com que observamos, medimos e intervimos em saúde, focou a saúde pública, os aspetos macro e sanitaristas, sobre os quais era preciso atentar e atuar para resolver grande parte dos problemas de saúde então existentes (maioritariamente infecciosos, largamente dependentes da salubridade do ambiente). À medida que a lente da saúde foi focando a comunidade, a família, o indivíduo, o sistema, o órgão, o tecido, a célula, a molécula, observou-se, na saúde e nas ciências que nela encontram aplicação, uma especialiEducação e trabalho interprofissional em saúde

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zação crescente e que se veio a reflectir na criação e no desenvolvimento de um sem número de profissões. Estas profissões foram ganhando o seu espaço, o seu foco e o escopo de ação e muitas, se não a grande maioria, fecharam-se sobre si próprias, numa ávida preocupação de salvaguardar terreno, como se esse terreno, fosse ele a molécula ou o sistema, não fizesse parte de algo maior, completo e complexo. Nunca como nestes tempos pandémicos que hoje correm se tornou tão evidente que, tal como poetizou John Locke, acerca dos homens, nenhum profissional é uma ilha isolada. Não se pode trabalhar a saúde por uma só profissão, ou com primazia de uma ou de várias profissões, não se pode trabalhar a saúde numa cristalização de saberes ou práticas profissionais que, numa atitude de pura tautologia, pretendem em si encerrar um saber monástico, não compartilhável ou sequer substituível, apenas para seu próprio bem e raras vezes pensando em quem cuidam ou na eficiência no próprio sistema de saúde. É claro que existe um saber próprio das profissões que sendo característico e definidor, não será certamente exclusivo, principalmente naquilo que é a evolução das necessidades das populações e dos próprios sistemas de saúde. É esta possibilidade miscigenatória das profissões, ou, mais concretamente, das competências profissionais, que marcará o futuro da prestação dos cuidados de saúde. Presenciamos esse futuro com a pandemia, em que o que importa não são as profissões mas as pessoas, em que é dever dos profissionais de saúde garantir que as necessidades de saúde das populações são satisfeitas ainda que, para isso, se sacrifiquem atos tidos como próprios ou reserva de uma profissão. Não podemos partir rumo ao futuro com profissões estanques e cristalizadas, com exclusivos e reservas de práticas, salvaguardadas que estejam a ciência, a técnica, a qualidade e a segurança. Se é este o futuro que nos aguarda e que “está ali mesmo ao virar da esquina” então a interdisciplinaridade, o conhecimento das práticas das diferentes profissões da saúde tem, inevitavelmente, de começar nas escolas, nas faculdades, para que se transporte, com maior efetividade, para o sistema de saúde. Esta interdisciplinaridade, a cultura da plasticidade de competências, de complementaridade, mas também de substituição, de horizontalização das profissões, na óptica de tornar mais eficientes os cuidados de saúde mas, igualmente, mais próximos da pessoa, tem de germinar na formação e grassar na vida profissional.

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Inês Fronteira Licenciada em enfermagem, pós-graduada em epidemiologia, mestre em saúde pública e doutorada em saúde internacional. Professora Auxiliar na Universidade Nova de Lisboa - Instituto de Higiene e Medicina Tropical. Membro do Conselho Científico do Research Center Global Health and Tropical Medicine. Foi adjunta da Ministra da Saúde do XXI Governo Constitucional e perita do Conselho Nacional de Saúde (2016-2018). Membro da equipa portuguesa do Observatório Europeu dos Sistemas de Saúde. Deputy-editor da BMC Human Resources for Health. Publicou 67 artigos em revistas especializadas. Possui 6 capítulo(s) de livros e 3 livro(s). Orientou vários trabalhos de doutoramento e mestrado. Recebeu 3 prémio(s) e/ou homenagens. É investigadora em vários projetos nacionais e internacionais. Atua na área das Ciências Médicas e da Saúde, com ênfase em Epidemiologia, Serviços e Políticas de Saúde e Recursos Humanos da Saúde.

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19. FORMAÇÃO E TRABALHO INTERDISCIPLINAR EM SAÚDE(*) ISABEL FERNANDES

Professora Coordenadora. Unidade Científico-Pedagógica de Enfermagem Médico-Cirúrgica Escola Superior de Enfermagem de Coimbra

Escrever sobre a importância da formação para o trabalho interdisciplinar em saúde, a partir das vivências ou experiências pessoais, ultrapassa qualquer exercício de concetualização teórica. Centra-se nos processos formativos desenvolvidos para um trabalho colaborativo na saúde, entre indivíduos de diferentes áreas disciplinares que se entrecruzam no esbater das delimitações concetuais e no fortalecer as interações. Na formação, assim como no trabalho em saúde, a importância de superar fronteiras entre as disciplinas remete-nos para Edgar Morin e para o pensamento complexo. Na atualidade este assume um sentido especial pela incerteza e contradições, como parte da vida e da condição humana, pela solidariedade e pela ética como caminho para a religação dos seres e dos saberes. Nas últimas décadas tem sido um tema muito discutido e investigado e frequentemente apontado como o meio para integrar os cada vez mais fragmentados cuidados de saúde no mundo. A emergência do tema não é atual, já a declaração de Alma Ata (WHO, 1978) mencionava a prática colaborativa como essencial para os cuidados de saúde primários. Atualmente, a complexidade dos problemas em saúde exige trabalho conjunto, harmonioso e de complementaridade de todos os profissionais que integram as equipas de saúde. Equipas que funcionem como orquestras,

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em que cada um tem um papel distinto, mas em que todos são complementares pois a música, no seu conjunto, necessita e flui dos vários instrumentos. É o enriquecimento pela presença das sinergias multi e interdisciplinares. Um conjunto de questões inquietam-nos - os curricula e as práticas têm sido orientados para formar profissionais que respondam a estas exigências? Temos dado espaço à integração da enfermagem com outras áreas disciplinares nos programas curriculares em saúde? Porque subsistem dificuldades em formar para a tomada de decisão conjunta, cuidados partilhados, relações não hierárquicas e partilha de poder? Estamos, ainda, num patamar de abordagem multiprofissional, reconhecemos o contributo de diferentes profissões e vamo-lo chamando à formação, persistem dificuldades para trabalhar em interprofissionalidade. A conquista da licenciatura e a criação de um regulador profissional, limitaram o trabalho interdisciplinar e a criação de redes para o desenvolvimento curricular, ajudaram a manter os processos formativos centrados na disciplina e profissão de enfermagem. Na resposta a uma situação complexa, ainda, não é comum desafiarmos múltiplos profissionais a pensarem em conjunto, a tomar decisões e a complementarem-se, emergindo assim um conhecimento que é interdisciplinar. Mesmo em contexto clínico, um espaço ímpar para a colaboração interprofissional, verifica-se que as profissões se têm fechado, especializado cada vez mais e perdido alguma capacidade de colaboração interprofissional. Isto ilustra a cultura e o pensamento que são dominantes, mas não limita que tenhamos outras práticas. Temos bons exemplos e bem ilustrativos – no trabalho na simulação, na resolução de cenários com grupos profissionais diferentes, nos cursos multiprofissionais em contexto de trabalho – mas ainda os olhamos como exemplos ilustrativos, esta ainda não é a nossa realidade quotidiana! A simulação está ou pode assumir um papel de relevo enquanto estratégia pedagógica que potencia o trabalho interdisciplinar. O relevo da simulação na construção de uma cultura interdisciplinar tem de ser assumido ainda que tendo consciência que temos um longo caminho a percorrer, pois neste momento temos bons exemplos mas muito isolados e apenas de alguns contextos. Muitos desafios ainda se colocam na evolução das práticas colaborativas no campo da saúde. Mesmo sendo um exercício arriscado, atrevemo86

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-nos, à luz de Nóvoa (2009), “…a pensar para criar o futuro…”. Deste modo, associado à simulação, os processos formativos terão de ser permeados por trabalhar as competências transversais para o trabalho em equipa – liderança, tomada de decisão, resolução de conflitos, comunicação, respeito e tolerância, confiança, … Assim, a segurança, a qualidade de cuidados, os resultados e a satisfação profissional serão consequência do trabalho colaborativo entre profissionais de saúde, de organizações assentes em modelos integrados e em redes de colaboradores e no (re)direcionamento das energias para um bem comum. Isto é “pensar para criar o futuro” organizando o presente de maneira a atuar sobre esse futuro. Esta reflexão resultou do contributo dos professores da UCPEMC da ESEnfC. (*)

Maria Isabel Domingues Fernandes É Professora Coordenadora da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra. Licenciou-se em Enfermagem, especializou-se em Enfermagem Médico-Cirúrgica, obteve o MSc em Saúde Ocupacional (1996) e PhD (2010) em Didática, pela Universidade de Aveiro. Atualmente, é coordenadora da Unidade Científico-Pedagógica de Enfermagem Médico-Cirúrgica (UCPEMC) da ESEnfC. É Investigadora da Unidade de Investigação em Ciências da Saúde: Enfermagem, da ESEnfC. Coordena e/ou integra vários projetos de investigação que se focalizam na intervenção de enfermagem com o doente crítico, supervisão clínica e promoção de relações de intimidade saudáveis. Publicou artigos científicos e capítulos de livros em coautoria com colaboradores ou equipas de investigação.

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20. A ÁREA DA SAÚDE É POR EXCELÊNCIA INTERPROFISSIONAL JACINTO OLIVEIRA

Enfermeiro Chefe. Gestor de Risco Clínico e não Clínico Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra

“A educação é a única ferramenta capaz de transformar o mundo”, li, há muito tempo, sem ter memorizado o autor, (assim mesmo, uso aspas, porque a frase me não pertence!). Acredito, que só através dela, da educação, conseguimos transformar mentalidades, “moldando-as” no sentido que melhor aproveite ao desenvolvimento humano. Tal feito, é sempre desejável e necessário, mas, restam-me poucas dúvidas, é ainda mais importante quando formamos pessoas para áreas de actividade, onde o contributo de cada um é essencial para o resultado pretendido. O resultado só é eficaz e eficiente, se souber aproveitar e potenciar a relação entre várias disciplinas ou áreas do conhecimento, que o mesmo é dizer, se souber aproveitar o precioso contributo das diversas profissões. Do que estamos a falar, bem entendido, é de interprofissionalidade! Como muito bem se compreende, pela sua natureza, a área da saúde é por excelência interprofissional. Na prestação de cuidados de saúde, seja em que contexto for, cruzam-se um conjunto vasto de saberes e competências, de outras tantas disciplinas, corporizados por diversas profissões, que buscam a “resposta perfeita”, para quem necessita de ser cuiEducação e trabalho interprofissional em saúde

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dado, pessoa ou comunidade. Nesta área, mais do que em qualquer outra, não se pode ignorar ninguém, não se pode, nem se deve, prescindir de ninguém. Prescindir de alguém, prescindir de algum dos profissionais que fazem parte da vasta constelação da saúde, hipoteca o resultado e prejudica a qualidade do cuidado. Porque penso assim, há pelo menos três reflexões, que merecem ser evidenciadas, a saber: - que modelo de formação deve ser adoptado, para potenciar um padrão de cooperação robusto, onde todas as profissões convivam, harmoniosamente, no respeito pela autonomia de cada uma delas; - que modelo de formação deve ser adoptado, capaz de afirmar a interprofissionalidade, fazendo do trabalho em equipa e da decisão partilhada, a pedra angular da prestação de cuidados; - que estratégias organizacionais estão definidas para promover a interprofissionalidade, fazendo dela tema da agenda permanente e prática quotidiana. Teremos de ser capazes de criar e oferecer um modelo de formação, que contemple espaços comuns de convívio, discussão e aprendizagem, nos casos em que o conhecimento a transmitir o aconselhe. Há, inequivocamente, diversos momentos, onde a transversalidade do conhecimento permite essa “combinatória virtuosa”. Do mesmo modo, as organizações devem promover metodologias de trabalho e outras, que promovam o encontro intencional, tendente ao desenvolvimento conjunto das profissões que as integram. Creio que estas são “inovações” necessárias, se queremos fazer da interprofissionalidade uma “prática” quotidiana e permanente, da prestação de cuidados. A meus olhos, no caso da saúde, a interprofissionalidade deve ser treinada e integrada, formalmente, durante o processo de formação inicial das diversas profissões desta área, e, bem assim em todos os momentos da vida das organizações. Parece-me óbvio que esta estratégia, mais do que urgente, influenciará, decisivamente, o posicionamento e a conduta dos diversos profissionais, quando se “confrontarem” na arena onde a realidade acontece. Numa palavra, educar para a interprofissionalidade é um desafio que, pela sua importância crucial, merece ser integrado na agenda política, aos diversos níveis, pelos benefícios que é capaz de acrescentar no pro90

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cesso da prestação de cuidados e pelo inequívoco aumento da satisfação de todos – profissionais e utentes!

Jacinto Malva de Oliveira • Especialista em enfermagem de saúde mental e psiquiátrica e Enfermeiro Chefe do IPOCoimbra, EPE • Pós-Graduado em Higiene e Segurança no Trabalho, com C.A.P. de Técnico Superior de Higiene e Segurança no Trabalho • Integrou a Comissão de Gestão da Escola Superior de Enfermagem de Bissaya Barreto nos anos lectivos de 1986 e 1987 • Presidente da Associação de Estudantes da Escola de Enfermagem de Bissaya Barreto, 1986 e 1987 • Foi fundador e dirigente do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses e membro do Conselho Nacional da Interjovem • Membro de diversas associações profissionais e formador em diversas acções de formação em Portugal e no estrangeiro, colaborando igualmente com diversas escolas superiores de Enfermagem e de Saúde, bem como com outras instituições do Ensino Superior • Ex-Enfermeiro Director dos Serviços de Enfermagem do CROC/IPOFG e por inerência membro do Conselho de Administração • Membro da Comissão de Investigação Oncológica do CROC/IPOFG 2000/2007 • Fundador e ex-Director da Revista VITAEnfermagem • Presidente do Conselho de Enfermagem Regional da Secção Regional do Centro da Ordem dos Enfermeiros (mandato 2000/2003) • Vice-Presidente da Ordem dos Enfermeiros (mandatos: 2004/2007 e 2008/2011) • Gestor do Risco Clínico e Gestor do Risco Geral do IPOCFG, EPE, 2001 a 2006 • Gestor do Risco CHC, EPE desde Julho de 2007 até 2012 • Gestor do Risco clínico e não clínico do CHUC • Membro da Comissão de Qualidade e Segurança do Doente do CHUC • Membro do Gabinete da Qualidade do CHUC • Ex-Adjunto do Enfermeiro Director do CHUC para a Área da Gestão da Qualidade e Segurança do Doente • Membro da Comissão de Catástrofe e Planeamento Hospitalar de Emergência do CHUC • Formador na área da Gestão do Risco e Segurança do Doente em diversas instituições

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21. A EDUCAÇÃO E O TRABALHO INTERPROFISSIONAL NA DEMÊNCIA JOANA FERREIRA

Enfermeira. Consultora em Gestão de Lares Complexo de Neurointervenção da Cruz Vermelha Portuguesa

Ao longo dos últimos 14 anos, altura em que me licenciei na Escola Superior de Enfermagem de Coimbra (ESEnfC), tenho vindo a desenvolver a Enfermagem na área de Saúde do Idoso numa perspetiva interdisciplinar e, na sua correlação prática, interprofissional. O envelhecimento, parte integrante do ciclo de vida, apresenta uma amplitude de áreas do saber onde se torna essencial manter uma perspetiva interprofissional na sua abordagem. Desde a intervenção direta com a pessoa idosa às áreas de gestão, é fundamental existir, em consonância, uma visão interdisciplinar para que o modelo praticado na gestão de cuidados seja abrangente o suficiente para conseguir atingir os objetivos na promoção da saúde e prevenção da doença dos mais velhos. Quando pensamos em exercer a nossa profissão numa área tão específica, e ainda tão esquecida, como o envelhecimento, torna-se absolutamente imprescindível a continuidade da nossa formação académica e pós-graduada para que consigamos, de forma sustentada, desenvolver novos modelos de intervenção e abordagem à pessoa idosa, contribuindo com saber para a mudança do paradigma atual. Quando surgiu o I Mestrado de Enfermagem de Saúde do Idoso e Geriatria, foi a oportunidade perfeita para fundamentar toda a prática que desenvolvia na Educação e trabalho interprofissional em saúde

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prestação de cuidados à pessoa idosa e impulsionar novos saberes para promover a mudança necessária àquilo que a equipa desempenhava diariamente. Sabia já que modelo queria implementar, não só nas instituições, mas também na comunidade, mas precisava de mais formação, mais conhecimentos científicos, mais experiência para conseguir desenvolver esse mesmo modelo em toda a sua plenitude. Ao surgir a oportunidade de desenvolver funções de gestão institucional e consultoria, tornou-se extremamente relevante desenvolver o trabalho interprofissional, havendo a necessidade primária de o estudar e, por conseguinte, o ensinar aos diferentes profissionais que constituíam as equipas. Aprender a trabalhar em parceria, em equipa, tendo todos um único objetivo – o bem-estar e a qualidade de vida da pessoa idosa – é diferente da perspetiva de cada um trabalhar a sua área profissional e obter os seus resultados individuais. Iniciam-se caminhos de aprendizagem conjunta, de partilha de saberes, de compreensão e de respeito por todos os intervenientes no processo, aprendendo que, com o saber teórico e a experiência de cada um, os ganhos na pessoa idosa são extraordinários. A felicidade organizacional instala-se, o mérito da equipa é notório e os benefícios obtidos na intervenção junto da pessoa idosa é francamente superior. A satisfação de um eficaz e eficiente trabalho interprofissional sente-se em cada um dos membros integrantes da equipa. Com o aprimorar dos modelos, com a formação contínua das equipas nesta nova forma de olhar, surge uma nova necessidade, mais específica. A educação e o trabalho interprofissional na demência. Ao longo dos anos verificou-se que a forma de intervenção para pessoas sem e com défice cognitivo por demência era semelhante nas instituições e na comunidade, alterando o bem-estar e a qualidade de vida das mesmas, sem que fosse preparada uma adaptação da pessoa e sua família a esta nova condição por parte das equipas. Foi necessária a readaptação do modelo interprofissional, com a mesma base paradigmática, encontrando-se em desenvolvimento nesta fase. Todas as áreas profissionais que contribuem para a capacitação e manutenção da funcionalidade da pessoa com demência através da sua intervenção/estimulação, são consideradas e aprendem a desenvolver trabalho interprofissional, com formação teórico-prática nesta área, onde há só um plano e um grande objetivo geral: a felicidade da pessoa.

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Joana Ferreira • Licenciada em Enfermagem pela Escola Superior de Enfermagem de Coimbra • Mestre em Enfermagem de Saúde do Idoso e Geriatria pela Escola Superior de Enfermagem de Coimbra • Pós-Graduada em Gestão de Equipamentos destinados a Pessoas Idosas • Pós-Graduada em Gestão de Instituições e Associações de Economia Social • Membro do Conselho Jurisdicional da Secção Regional do Centro da Ordem dos Enfermeiros • Membro do Conselho Técnico do Complexo de Neurointervenção da Cruz Vermelha Portuguesa • Consultora em Gestão de Lares • Fundadora e mentora da Resposta Especializada na Demência • Cofundadora e coorganizadora do Congresso do Envelhecimento Bem Viver, Bem Envelhecer • Formadora na área da saúde, da gestão organizacional e do envelhecimento • Autora de artigos sobre envelhecimento em publicações assíduas • Membro do Conselho Consultivo da Associação Nacional de Gerontologia Social

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22. ENFERMAGEM: O FIO CONDUTOR DOS CUIDADOS DE SAÚDE Joana Sá

Enfermeira Diretora Comité Internacional da Cruz Vermelha (Genebra, Suíça)

Os enfermeiros são a categoria profissional que mais tem afirmado a sua relevância nos diversos níveis de cuidados em saúde. Desde a prestação de cuidados diretos até ao apoio à gestão de grandes unidades de saúde ou mesmo aconselhamento político, a enfermagem constitui-se como a pedra basilar dos serviços de saúde em qualquer contexto. A evolução da enfermagem enquanto profissão tem sido no sentido da contínua melhoria dos cuidados prestados através do desenvolvimento dos seus profissionais. Desde a formação de base até à formação como especialistas ou ao desenvolvimento académico nos mais diversos graus de estudo, os enfermeiros procuram melhorar o seu nível técnico e científico, impactando diretamente a qualidade dos serviços de saúde. Tenho desenvolvido a minha atividade profissional dentro de uma instituição humanitária, internacional, que conta com mais de 300 enfermeiros provenientes de mais de 70 países. Trabalhando especificamente em contextos de guerra ou outras situações de violência, os enfermeiros estão incluídos em equipas multidisciplinares compostas por equipa de gestão, equipas técnicas, equipas administrativas e equipas de serviços não clínicos. Dentro das diferentes equipas, existe staff local e staff internacional que deve trabalhar em conjunto para alcançar os objetivos previstos. Como pode facilmente entender-se, as equipas multidisciplinares são Educação e trabalho interprofissional em saúde

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também multiculturais, o que traz uma variedade de desafios adicionais, que podem conduzir a dificuldades ou vantagens dentro do contexto onde estão a trabalhar. Frequentemente, um ou mais membros da equipa têm dificuldade em integrar uma linguagem de cuidados distinta daquela que conhecem nos seus países de origem. A adaptabilidade e a capacidade de aprender continuamente são duas das características mais valorizadas e a capacidade de trabalhar em equipa, com pessoas de diferentes níveis educacionais e com culturas distintas, define o sucesso de cada indivíduo dentro da equipa. Os enfermeiros têm demonstrado ser o fio condutor de todos os cuidados prestados nos contextos em que trabalham. Constituem o maior grupo profissional e também o mais diverso em termos de background educacional. A visão holística, a compreensão dos diversos fatores que impactam a recuperação de um doente e a capacidade de comunicar e ser entendidos pelo doente e família, distinguem-nos de outros profissionais. Compete ao enfermeiro, no contexto humanitário descrito, zelar pela uniformidade dos cuidados prestados, assegurar o respeito pelos protocolos estabelecidos, promover a integração a novos membros de equipa, e até assumir funções de gestão. A maioria dos coordenadores destas equipas (chefes de projeto hospitalar) são enfermeiros de formação que demonstram ter as competências necessárias à gestão de equipas em ambientes complexos. A identificação inicial das características necessárias a um gestor é acompanhada de um programa de formação exigente, que permite um desenvolvimento continuo e assegura uma linha coerente na organização dos serviços. Com uma identidade própria que difere de país para país, a enfermagem não é ainda unanimemente considerada como pedra-basilar em diferentes contextos. No entanto, é com particular orgulho que reconheço que, mesmo aos mais altos níveis, os enfermeiros com quem tenho trabalhado têm demonstrado relevância e assertividade nas suas ações, contribuindo para afirmar a importância da profissão onde ela ainda não conseguiu ter o destaque devido. Com uma aposta contínua no desenvolvimento e na relevância da profissão no seio das equipas multidisciplinares, espera-se que a enfermagem continue a amplificar a importância das suas ações, chegando aos mais altos níveis de decisão, como lhe é merecido.

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Joana Sá Licenciada pela Escola Superior de Enfermagem Dr. Ângelo da Fonseca em 2006, começou a trabalhar em Lisboa no Hospital da Ordem Terceira, serviço de cirurgia. Em 2007 iniciou funções no Hospital Fernando da Fonseca, na Amadora, no serviço de neurologia e simultaneamente no Hospital da Luz, serviço de internamento médico-cirúrgico. Em 2009, regressa a Coimbra, ao Centro Hospitalar de Coimbra – Hospital dos Covões – para trabalhar no Serviço de Urgência onde permaneceu até 2013. Desde 2011, trabalha com o Comité Internacional da Cruz Vermelha (CICV) em missões de Cirurgia de Guerra, atividade que desenvolve em exclusividade desde 2014. Passou pelo Paquistão, República Democrática do Congo, República Centro Africana, Palestina, Líbano, Iémen, Afeganistão, Coreia do Norte, Venezuela e Honduras, em diferentes funções: Enfermeira, Enfermeira especializada em Emergência, Enfermeira-Chefe e Chefe de Projeto Hospitalar/Chefe de Equipa. Atualmente, trabalha na sede, em Genebra, assumindo as funções de Enfermeira Diretora da instituição. Adicional à experiência de trabalho, concluiu uma Pós-Graduação em Enfermagem em Emergência Pré-Hospitalar pela Escola de Enfermagem S. Francisco das Misericórdias, em 2010, e uma Pós-Graduação em Saúde Global pela Universidade de Manchester (Reino Unido), em 2015. Iniciou, em 2020, mestrado em Saúde Internacional pelo Swiss Tropical Public Health Institute, em Basileia (Suíça).

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23. EDUCAÇÃO E TRABALHO INTERPROFISSIONAL João Apóstolo

Professor Coordenador Principal Unidade de Investigação em Ciências da Saúde: Enfermagem

Para minimizar a fragmentação decorrente da multiprofissionalidade é ambicionável que os profissionais de saúde, de diferentes áreas, naturalmente com diferentes competências, desenvolvam trabalho colaborativo, isto é, interprofissional. Para fomentar este tipo de trabalho colaborativo, a promoção do conhecimento interdisciplinar e dos papeis dos diferentes profissionais deverá ser objetivada e operacionalizada pelos programas formativos das diversas profissões envolvidas. Esta operacionalização potencia a interpenetração do conhecimento e das práticas que suporte uma tomada de decisão integrada e promotora de cuidados de saúde de qualidade. Na Universidade de Lund, Suécia, pude observar, na prática, um programa formativo com estas características, em que estudantes de enfermagem e de medicina desenvolviam conjuntamente capacidades em aulas práticas laboratoriais com recurso à simulação. Este recurso à simulação, como metodologia para formação interprofissional, tem um impacto positivo e eficaz na competência colaborativa tal como sugerem os resultados de uma revisão sistemática publicada em 2020 na revista Nurse Education Today. Adicionalmente, coloca-se a questão relativa ao momento dos percursos formativos em que a formação conjunta deverá ser desenvolvida. Uma revisão sistemática publicada em 2020 no BMC Medical Education, que avaliou intervenções de aprendizagem interprofissional e mediu atitudes em relação à educação interprofissional, sugere que as intervenções devam ser introduzidas nos Educação e trabalho interprofissional em saúde

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primeiros anos e continuar ao longo do currículo. Também o envolvimento de equipas interdisciplinares é uma mais-valia para o desenvolvimento da investigação. Na UICISA: E, vários projetos têm integrado equipas com profissionais de diferentes áreas, tais como enfermagem, medicina, engenharia informática, engenharia mecânica, psicologia, gestão, terapia ocupacional, biotecnologia, robótica, engenharia têxtil, nanotecnologia, engenharia de polímeros, engenharia de moldes, microbiologia, física e química. Esta multidisciplinaridade tem evoluído para interdisciplinaridade à medida que os projetos se vão desenvolvendo e que os investigadores vão interpenetrando nas áreas de saber dos seus pares. A capacidade competitiva das equipas para captar financiamento bem como a qualidade das soluções e dos produtos desenvolvidos em projetos de investigação têm evoluído positivamente. Esta evolução tem-se verificado sobretudo nas equipas que adotam a interpenetração disciplinar e o trabalho colaborativo. Apesar destes argumentos favoráveis ao desenvolvimento colaborativo, a disciplina deverá, a cada passo, refletir sobre e modelar o grau de interpenetração interdisciplinar sem descuidar a sua matriz e saberes próprios.

João Luís Alves Apóstolo • Professor Coordenador Principal na ESEnfC, Adjunto da Presidente da ESEnfC, Coordenador da Unidade de Investigação em Ciências da Saúde: Enfermagem (UICISA: E) e Diretor do Centro Português para a Prática Baseada em Evidência (PCEBP), um centro de Excelência do JBI • Doutorado e Agregado em Ciências de Enfermagem • Especialista em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica • Licenciado em Enfermagem • Publicou 282 trabalhos • Integra e coordena equipas de projetos de investigação financiados • Membro da Parceria Europeia de Inovação para o Envelhecimento Ativo e Saudável • Integra o Grupo de Coordenação do consórcio Ageing@Coimbra

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24. A SEMPRE NECESSÁRIA APOSTA NOS RECURSOS HUMANOS! JOÃO RODRIGUES

Médico Administração Regional de Saúde do Centro

É reconhecido por todos que em saúde, mais do que em qualquer área de ensino e trabalho, os recursos humanos devem ser qualificados ao longo do processo formativo académico (licenciatura/mestrado), formação pré-graduada inicial (inserção profissional tutelado) e formação graduada em exercício, inserida numa carreira profissional exigente com graus (diferenciação técnico-científica) e categorias (competências de exercício), possibilitando assim, uma atualização permanente com progressão na horizontal e na vertical de cada carreira, defendendo-se a qualidade do exercício profissional na defesa do cidadão. Apesar do setor da saúde ser altamente regulado do ponto de vista das qualificações profissionais, com intervenção direta das diversas Ordens Profissionais, já em relação à política de recursos humanos no SNS, o diagnóstico tem sido evidente e consensual, sendo as soluções não tão simples como muitas vezes se pretende fazer crer, tendo em conta a cronicidade instalada de incapacidade de gestão nacional e mesmo local. A nível nacional, impera o centralismo bacoco do Ministério das Finanças e uma cultura burocrática do Ministério da Saúde focada num processo opaco sujeito a pressões individuais ou corporativas e a decisões pouco estudadas e arbitrárias. Educação e trabalho interprofissional em saúde

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O planeamento da formação com base nas necessidades nacionais e regionais da população ou o desenvolvimento individual e coletivo dos profissionais de saúde, pouco têm sido considerados. Por sua vez, os profissionais são remunerados pelo tempo e, para tal, picam o ponto. O desempenho qualitativo pouco conta para a remuneração ou a quase impossível progressão. O multiemprego é fomentado em vez de se criarem condições para o pleno emprego em dedicação plena. Sem a definição de um projeto de carreira, sem condições de trabalho adequadas, sem um modelo de retribuição que considere a senioridade e o desempenho, assente em trabalho de equipa multidisciplinar, onde seja possível discutir em condições de igualdade objetivos e metas que irão contribuir para o plano de trabalho da Unidade de Saúde e depois nos incentivos institucionais coletivos resultantes da eficiência da equipa, continuaremos a ter jovens e menos jovens profissionais “fugir” do SNS, seja para o setor privado, seja para o estrangeiro. Sem rotinas implementadas de formação contínua, melhoria contínua da qualidade, auditorias clínicas, supervisão clínica e qualificação da referenciação, alimentando-se a rede das redes das Unidades de Saúde, pouco irá acontecer na satisfação dos profissionais de saúde e sua fixação no SNS. Tem de ser reinventada a cultura do SNS com partilha interpares e multidisciplinar de boas práticas e progressão técnico-científica nas carreiras, assente em Unidades de Saúde com cultura organizativa de participação ativa de todos os profissionais. Numa área em que as decisões demoram anos a terem impacto, liderança clínica e coragem procuram-se, independentemente das profissões!

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João Rodrigues • Vice-Presidente do CD da ARS do Centro, por concurso público, desde 2 de maio de 2019 em acumulação de funções clínicas na USF Coimbra Celas como assistente graduado sénior de MGF. • De 2005 a Abril de 2007, integrou a estrutura de Missão para os Cuidados de Saúde Primários (MCSP) que a nível nacional, desenvolveu e implementou a reforma dos Cuidados de Saúde Primários e implementar as Unidades de Saúde Familiar (USF), • Presidente eleito da USF-AN nos anos de 2015 até abril de 2019.

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25. A PESSOA NÃO É DIVISÍVEL POR DISCIPLINAS JOÃO TAVARES

Enfermeiro. Professor Adjunto Escola Superior de Saúde da Universidade de Aveiro

Refletir sobre a educação e trabalho interprofissional é um convite a revisitar a minha trajetória pessoal e profissional. Evoco o primeiro dia que ingressei na Escola Superior de Enfermagem Dr. Ângelo da Fonseca, sem saber como isto contribuiria para este trabalho. Refletindo sobre isso, consigo identificar a aprendizagem mais transformadora para entender esta perspetiva – o cuidado centrado na pessoa. Quando realmente centrei o cuidado na pessoa, despertei para as minhas potencialidades, limitações e vulnerabilidades. Entendi que a pessoa não é divisível por disciplinas, mas que cada profissional contribui com a sua expertise para um objetivo comum centrado na complexidade, integralidade e autenticidade da pessoa. Para que o trabalho interprofissional não seja um polissémico irrealista que usamos para enriquecer os discursos, é importante que encontre eco na educação das(os) enfermeiras(os). Deste modo, esta prática não é unicamente uma exigência académica, mas um requisito para a qualidade e segurança do cuidado. Contudo, uma coisa é (re)conhecer a sua importância, a outra é a vivência real do trabalho em equipa. No início do meu percurso profissional e académico, dedicado à gerontogeriatria, experienciei o trabalho interdisciplinar durante o estágio no NYU Langone Medical Center. Durante três meses integrei a equipa interdisciplinar de geriatria coordenada pela enfermeira Marilyn Lopez (Nursing Administrative Coordinator/GeriEducação e trabalho interprofissional em saúde

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atric Nurse Practitioner). Esta oportunidade apontou-me um caminho essencial para a qualidade do cuidado de Enfermagem, sublinhando que o trabalho interprofissional mais do que uma opção, deve ser uma determinação. Anos mais tarde, em 2015, foi convidado para integrar a consulta de geriatria do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra. Esta equipa tinha como um dos pilares a interdisciplinaridade, refletindo o modelo de trabalho que tinha vivenciado anteriormente. Enquanto enfermeiro, integrei uma equipa constituída por médico, psicólogo, nutricionista e assistente social. Todos os profissionais compreendiam os seus papeis e contribuições das suas disciplinas, bem como, a importância da comunicação, planeamento e responsabilidade pela pessoa idosa e/ou familiares. Partindo desta premissa, antes de concluir a consulta, a equipa reunia para integrar as suas avaliações e recomendações de intervenção. Um plano de intervenção interdisciplinar era elaborado, partindo sempre do pressuposto que a pessoa idosa e os seus familiares eram considerados elementos integrais da equipa. No âmbito da consulta de geriatria, posso afirmar que realmente vivi o trabalho em equipa através da dialética entre todos os profissionais. Esta experiência faz-me afirmar que o trabalho interprofissional promove a inovação e a prática de Enfermagem. Concluo, dizendo que a experiência genuína do trabalho interprofissional representa o caminho a seguir. Para empreender esta jornada todos temos de contribuir, começando por transformar a forma como: educamos, organizamos a nossa prática, perspetivamos as outras disciplinas, mas principalmente, permitamo-nos trabalhar em equipa.

João Tavares • Enfermeiro, Mestre em Gerontologia e Doutor em Gerontologia e Geriatria – área de especialização em geriatria, pela Universidade de Aveiro e do Porto • Título de especialista em Enfermagem (carreira académica - Decreto-Lei n.º 206/2009) • Especialista em Enfermagem Médico-Cirúrgica na área da pessoa em situação crónica e em Enfermagem Comunitária • Professor Adjunto da Escola Superior de Saúde da Universidade de Aveiro

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26. A IMPORTÂNCIA DA FORMAÇÃO E DO TRABALHO INTERDISCIPLINAR EM SAÚDE INFANTIL JORGE APÓSTOLO

Professor Coordenador. Unidade Científico-Pedagógica de Enfermagem de Saúde da Criança e do Adolescente Escola Superior de Enfermagem de Coimbra

A formação de profissionais de saúde altamente qualificados é essencial para que os indicadores de saúde e bem-estar das populações possam continuar a evoluir. Em Saúde Infantil estas melhorias são evidentes mesmos em países não extraordinariamente desenvolvidos nem com sistemas de saúde altamente resilientes. O caso português é um excelente exemplo e podemos afirmar que a melhoria destes indicadores, cuja expressão máxima é a mortalidade infantil, ocorre num contexto de desenvolvimento global, mas é sempre o fator “recursos humanos altamente qualificados” que faz a diferença. Assim, a aposta da sociedade e dos governos em profissionais de saúde com formação de topo, é um investimento indutor de resultados a curto, e médio/longo prazo. No entanto, somos confrontados desde os anos 90 do século XX com novas realidades tão complexas que exigem uma mudança de paradigma na abordagem à criança e jovem. A Nova Pediatria, tão bem definida por Gomes Pedro, fundamenta-se em alterações

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verificadas nas circunstâncias, conceitos, e atitudes obrigando a rever, a recriar e a inovar intervenções capazes de dar sentido e substância um modelo de bem-estar da criança mais situado no familiar, comunitário e social, e menos nos esquemas biomédicos tradicionais. Por que razão isto ocorre? Pela complexidade e pelos desafios emergentes de que são exemplos: as ações de intervenção pediátrica nas etapas precoces do desenvolvimento e face à nova patologia do comportamento; a pediatria de cuidados intensivos, frequentemente excessivos e agressivos; a promoção de mais resiliência face a novas vulnerabilidades; a deficiência e sua adequação à comunidade; processos de adaptação da criança e da família à doença crónica. Estes desafios são tão complexos que só equipas bem articuladas são capazes de responder e evoluir do saber disciplinar para um conhecimento de cariz mais sistémico e interdisciplinar. Para isso é necessário que as instituições ensino respondam a esta mudança, que se reinventem e criem condições para que os formandos compreendam que da integração das diversas áreas do saber são gerados novos conhecimentos, potenciadas novas atitudes e abordagens. A consequência será a redução da fragmentação e a promoção de uma formação global e crítica dos estudantes, capacitando-os para, enquanto profissionais, fazerem face aos problemas do mundo atual, no caso concreto da saúde da criança e do adolescente e sua família. Fica este desafio para uma escola centenária, mas a cada dia capaz de se reinventar. A Escola Superior de Enfermagem de Coimbra pode contar connosco.

Jorge Manuel Amado Apóstolo • Professor Coordenador na Escola Superior de Enfermagem de Coimbra • Coordenador da Unidade Científico-Pedagógica de Enfermagem de Saúde da Criança e do Adolescente da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra • Enfermeiro Especialista em Enfermagem de Saúde Infantil e Pediátrica • Experiência na clínica – Hospital Pediátrico e Coimbra – 7 anos • Experiência de ensino – Escola Superior de Enfermagem de Coimbra - 34 anos

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27. COLABORAÇÃO INTERDISCIPLINAR E INTERPROFISSIONAL EM SAÚDE JOSÉ ANTÓNIO PEREIRA DA SILVA

Professor e Diretor de Serviço de Reumatologia Faculdade de Medicina e Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra

No meu ponto de vista profissional, como médico e académico, a colaboração interdisciplinar e interprofissional impõe-se como uma necessidade autoevidente, quer no domínio assistencial, quer no domínio de investigação e ensino. No domínio assistencial é muito óbvio que a realidade do sofrimento é demasiado complexa para caber num campo técnico estrito, mesmo quando a realidade da doença e dos seus mecanismos possa parecer estrita e estreita. Uma doença genética, por exemplo, tem a sua explicação no defeito genético, único, definito, suficiente e universal a todas as pessoas que sofrem da mesma doença. O sofrimento, contudo, será tão diverso quanto o número das suas vítimas, modificado e enriquecido pelas trajetórias de vida, pelos valores e pelas nuances emocionais e cognitivas de cada um. Nenhuma doença é puramente física ou não merece chamar-se de “doença”. Que importância terá uma perturbação orgânica que não cause sofrimento nem encurte a vida? Nenhuma doença é puramente psicológica, porque a psicologia não existe num vazio biológico, antes sendo conduzida e modulada pelos mesmos suportes físicos e moEducação e trabalho interprofissional em saúde

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leculares que as doenças ditas orgânicas. Todo o ser humano é poliédrico, complexo, multidimensional e por isso inacessível, na sua plenitude, ao conhecimento limitado de uma qualquer profissão ou especialidade. Estas considerações estendem-se, naturalmente, ao domínio da investigação e do ensino na área da Saúde, porque ambos têm o ser humano como objeto de estudo e comunicação: ninguém pode almejar a entender a complexidade com uma visão uniplanar. Isto exige uma atitude de abertura que está longe de ser cómoda: a melhor forma de encontrar consenso é falar sozinho! Mas não será um “consenso” útil nem construtivo. O progresso do conhecimento, o crescimento individual e coletivo impõem a necessidade de cooperação, a conjugação de visões e experiências diversas granuladas não apenas ao nível da profissão, mas até ao nível da pessoa: também os profissionais variam na sua forma de ver e sentir o mundo e o problema do outro... Juntos, encontraremos melhores soluções, mais completas, mais humanas, mais ajustadas ao ser único que cada ser humano é... Acrescento que esse trabalho interdisciplinar e interprofissional é também, na minha experiência, uma enorme fonte de felicidade e de realização pessoal para os que se envolvem nele: nada mais triste e desmotivador do que pensar-se que se sabe tudo o que se precisa saber, nada mais lamentável do que desperdiçar a riqueza que os outros podem trazer à nossa vida e aos nossos desafios intelectuais quando partilham a riqueza que acumularam nos seus percursos profissionais e pessoais. A todos os que aceitaram partilhar comigo os seus trajetos, conhecimentos e talentos, médicos, enfermeiros, psicólogos, biólogos, educacionalistas, engenheiros, matemáticos, administrativos, auxiliares, bombeiros, doentes e tantos outros, o meu sincero obrigado pelo contributo para o meu sucesso como académico e como médico e, sobretudo, para o meu crescimento pessoal.

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José António Pereira da Silva O Professor Pereira da Silva recebeu o grau académico de Doutor em Medicina (MD) pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, em 1982, e o seu Doutoramento em Medicina/Reumatologia pela Universidade de Londres, em 1993. Atualmente, é Professor Catedrático de Medicina e Reumatologia da Universidade de Coimbra e Chefe do Departamento de Reumatologia dos Hospitais da Universidade de Coimbra. Tem uma longa dedicação à Educação Médica, consolidada nas suas atividades como Presidente da Comissão Permanente de Educação e Formação da EULAR (de 2001 a 2005) e Presidente do Conselho Europeu de Reumatologia, de 2006 a 2010. Publicou mais de 250 artigos em revistas nacionais e internacionais revistas por pares (HI 37, ORCID 0000-0002-2782-6780) e, atualmente, participa no Conselho Editorial de várias revistas científicas na área de Reumatologia. Os seus interesses atuais ao nível da investigação focam-se, especialmente, na artrite reumatoide, na osteoporose, na fibromialgia e nos domínios psicológicos das doenças reumáticas.

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28. EDUCAÇÃO E TRABALHO INTERPROFISSIONAL JOSÉ PEREIRA MIGUEL

Professor Catedrático Jubilado. Presidente do Conselho Geral da ESEnfC Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa

Na atualidade, e em circunstâncias normais, o trabalho dos profissionais de saúde é sempre interprofissional. Ao longo do tempo os cuidados de saúde foram-se tornando mais complexos, as competências requeridas mais diversificadas, a prática passou a mobilizar uma maior diversidade de agentes. “Trabalho interprofissional” tornou-se um conceito bem definido, abrangendo a colaboração de profissionais de saúde entre si, com outros profissionais e, até com os doentes, famílias e comunidade. Temos cada vez mais a noção de que esta colaboração é essencial à realização de cuidados de saúde de qualidade e ao cumprimento dos objetivos de saúde. No contexto do ensino cabe-nos perguntar se estaremos a realizar tudo ao nosso alcance para preparar os profissionais de saúde para a desejável prática interprofissional. Basta pesquisar a Wikipedia – Inter professional education para nos darmos conta do interesse que o tema tem suscitado nos últimos anos, com várias Universidades a proporcionarem programas de ensino interprofissional nos curricula dos cursos de saúde. Este ano, dedicado pela OMS como Ano Internacional dos Profissionais de Saúde, é um bom momento para voltar ao tema e retomar o quadro de orientações, Framework for Action on Interprofessional Education & Collaborative Practice, que a própria OMS já tinha publicado em 2010. Pôr em prática os princípios aí preconizados será um passo importante Educação e trabalho interprofissional em saúde

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para reforçar o sistema de saúde, reduzir a iatrogenia, melhorar a qualidade dos cuidados prestados e obter, de um modo geral, mais ganhos em saúde.

José Pereira Miguel • Médico • Professor Catedrático Jubilado da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa • Presidente do Conselho Geral da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra • Ex-Diretor Geral e Alto Comissário da Saúde • Ex- Presidente do INSA - Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge • Ex-Membro do Conselho Executivo da OMS

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29. IMPORTÂNCIA DA FORMAÇÃO E DO TRABALHO INTERDISCIPLINAR EM SAÚDE MANUEL LOPES

Professor Coordenador com Agregação Universidade de Évora

Desde o dealbar do novo século, mas principalmente nos últimos 10 anos, têm sido múltiplos os documentos produzidos pelas mais diversas entidades que refletem sobre três polos, entre outros, do mesmo problema: o perfil epidemiológico da população, as suas alterações e a sua diversidade; as necessidades de formação de profissionais e os modelos de cuidados para dar resposta às necessidades decorrentes desses perfis; e, mais recente, os desafios decorrentes das novas tecnologias de informação e comunicação (TIC) para a formação e para a prestação de cuidados. Talvez o documento que melhor sintetiza os dois primeiros polos seja o relatório Lancet (Frenk et al., 2010). Nele se defende uma perspetiva global, multiprofissional e uma abordagem sistémica. Um documento produzido especificamente para a realidade portuguesa (The Future for Health: Everyone has a role to play), acaba por refletir aqueles princípios e propor um sistema de saúde centrado na pessoa e baseado em equipe. Neste caso a ordem dos fatores não é arbitrária (Crisp et al., 2014). Num outro documento marcante, The Future of Nursing (Institute of Medicine, 2011), atualmente em revisão, defendia-se que os enfermeiEducação e trabalho interprofissional em saúde

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ros devem ser parceiros plenos, com médicos e outros profissionais de saúde, no redesenho dos cuidados de saúde. Sobre as TIC, tenho-o afirmado repetidamente, na ausência de uma estratégia na formação e na prestação de cuidados, andamos a reboque dos muitos gadgets que diariamente invadem o mercado (Lopes, 2020). Conclusão, estamos confrontados com desafios diferentes de todos os vividos até aqui. Para os enfrentar dispomos provavelmente dos profissionais mais preparados que alguma vez tivemos. Todavia, os modelos de formação e de prestação estão ancorados no passado e são tenazmente defendidos pelas respetivas corporações. O que temos feito em Portugal para, pelo menos, discutirmos plataformas de entendimento e estratégias de desenvolvimento? A resposta é simples: Nada! Nos últimos 20 anos nunca nenhum governo (das diferentes cores políticas) esboçou qualquer preocupação a este nível num formato que possamos apelidar de estratégia. E as ordens profissionais? Comportam-se como corporações, quiçá como sindicatos, digladiando-se publicamente aumentando assim a desconfiança das pessoas no sistema. E as escolas? De costas voltadas e fechadas sobre si próprias. As escolas médicas organizadas em grupo de elite, recusando o aparecimento de novas, muito menos de qualquer outra matriz de formação. As de enfermagem num modelo profundamente heterogéneo, mas que, na essência, mantém uma matriz mais promotora da obediência que de rebeldia inteligente. Das restantes escolas não sei se poderemos falar sequer em matriz. Sobre os modelos de cuidados haveria todo um tratado, mas resumo-os da seguinte forma: hierárquicos e medicocêntricos. A conclusão é simples, temos um mandato social que nos compromete com a saúde e bem-estar das pessoas. Isso obriga-nos a, em cada momento, encontrar as melhores respostas. No presente isso exige que aprendamos em conjunto para podermos trabalhar em conjunto, ou seja, as escolas têm que se reinventar; que repensemos os modelos de cuidados em função das pessoas e que reequacionemos o “processo de cuidados” como um processo de coprodução onde participam todos os cuidadores, ou seja, as organizações precisam de se repensar para garantirem a integração e continuidade de cuidados; os governos precisam entender as profissões como o seu ativo mais importante e pensarem-nas numa 126

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perspetiva integrada e de desenvolvimento. Em suma e parafraseando um cartoon: quem quer mudança? Todos. Quem quer mudar? Ninguém! Mudar significa sair da zona de conforto! REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Crisp, N., Berwick, D., Kickbusch, I., Bos, W., Antunes, J. L., Barros, P. P., & Soares, J. (2014). The Future for Health: Everyone has a role to play. Calouste Gulbenkian Foundation. www.gulbenkian.pt. Frenk, J., Chen, L., Bhutta, Z. A., Cohen, J., Crisp, N., Evans, T., & Fineberg, H. (2010). Health Professionals for a New Century: Transforming Education to Strengthen Health Systems in an Interdependent World. The Lancet, 376(9756), 1923–1958. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(10)61854-5. Institute of Medicine. (2011). The Future of Nursing. Leading Change, Advancing Health. National Academies Press. https://doi.org/10.17226/12956. Lopes, M. J. (2020). A Inovação Tecnológica e o Envelhecimento. In F. Mendes, C. Pereira, & J. Bravo (Eds.), Envelhecer em Segurança do Alentejo (pp. 379–414).

Manuel Lopes • Professor Coordenador com Agregação da Universidade de Évora • Investigador do Comprehensive Health Research Centre • Membro do Conselho Geral da Universidade de Évora • Vice-Presidente do Conselho Científico do Instituto de Investigação e Formação Avançada da Universidade de Évora • Presidente do Conselho Técnico-Científico da Escola Superior de Enfermagem de S. João de Deus (2019-2020) • Coordenador da Reforma do SNS para a Área dos Cuidados Continuados Integrados (2016-2018) • Diretor da Escola Superior de Enfermagem de S. João de Deus (2009-2016) • Membro cooptado do Conselho de Gestão da Universidade de Évora (2011-2016) • Pró-Reitor da Universidade de Évora (2006-2009) • Coordenador do Observatório Português dos Sistemas de Saúde (2009-2015)

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30. CENTRANDO O CUIDAR NA PESSOA Manuel Oliveira

Enfermeiro Gestor Administração Regional de Saúde do Centro

Se dúvidas subsistissem, da pandemia COVID-19, emergem: o valor fundamental da Saúde para a vida e bem-estar dos povos; a demanda do trabalho em rede, intersectorial e interprofissional para garantir uma vida saudável, socialmente justa e inclusiva, com níveis de qualidade e segurança exigentes, reforçando a necessidade do respeito pelos princípios fundamentais da universalidade, acessibilidade e equidade, fundamentais dos sistemas de saúde; e a imprescindibilidade dos serviços públicos de saúde para os alcançar, concretizada em Portugal pelo nosso Serviço Nacional de Saúde (SNS). Também, deste presente, advém a propensão para um desígnio coletivo quanto à necessidade da convergência colaborativa, integrativa e interdisciplinar de saberes, traduzida na complementaridade de competências na ação do cuidado em saúde, para garantir o bem comum e cumprimento cabal de um imperativo ético e deontológico de todas as profissões, nomeadamente as da saúde. Este novo paradigma da prestação de cuidados de saúde, que a todos interpela, transita da intervenção individual para a intervenção em equipa, decorrente da crescente complexidade da resposta exigida pelas atuais necessidades em saúde, onde a interdisciplinaridade do ato em saúde acrescenta valor. Assim, globalmente, estamos perante três desafios. O primeiro, colocaEducação e trabalho interprofissional em saúde

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-se ao nível da concepção e implementação de modelos de organização de cuidados que apostem na sua integração, continuidade e proximidade, centrados na pessoa e suportado por um sistema efetivo de governação clínica. O segundo, assenta na necessidade emergente da revisão da missão e visão dos sistemas de saúde no sentido de passarmos do modelo “hospitalocêntrico” vigente, centrado na gestão da doença, para um modelo “salutogénico”, centrado na gestão do projeto de saúde de cada cidadão, família e comunidade, sob a liderança dos Cuidados de Saúde Primários e focalizado na promoção/proteção da saúde e na prevenção da doença. O terceiro desafio, decisivo para a concretização dos anteriores, interpela-nos para uma mudança cultural assente na constituição de equipas multiprofissionais que devem mobilizar novas competências, através de um movimento dinâmico, colaborativo e responsabilizante, a saber: autonomia e gestão processual; negociação e construção de compromissos; responsabilização e partilha de uma cultura comum. Para a concretização destes desafios constituem premissas fundamentais: trabalho em equipa, que implica o desenvolvimento de uma cultura de referenciação interprofissional; implementação de um sistema de educação/formação interdisciplinar, nomeadamente ao nível pré-graduado (1.º ciclo), que melhor permita conhecer a especificidade de cada profissão para agir em complementaridade, mas também ao nível pós-graduado, no âmbito da imprescindível formação contínua; e maior produção e partilha de evidência científica, capaz de reforçar a translação interdisciplinar do “conhecimento novo”, cada vez mais necessário à fundamentação das opções de política de saúde e das profissões sobre modelos de cuidados efetivos. Considerando que o foco de atenção do enfermeiro é o diagnóstico das respostas humanas à doença e aos processos de vida e transição, a sociedade não espera que este tome decisões sobre o diagnóstico e tratamento da doença ou preste cuidados em substituição de outros profissionais. Nesta perspetiva, os enfermeiros contribuem especificamente para satisfação das necessidades humanas fundamentais, a máxima independência na realização das actividades da vida (promoção do autocuidado e capacitação do familiar cuidador/cuidador informal), os processos de readaptação e adaptação funcional aos défices, em suma, a promoção dos projectos de saúde que cada pessoa vive e persegue.

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Importa referir que o paradigma, desafios e premissas para a mudança, suprarreferidos, somente serão concretizáveis se desenvolvidos em contexto interdisciplinar, desenvolvido num quadro de “skill mix” (recombinação e complementaridade de competências profissionais) e nunca num modelo de “task shifting” (delegação de tarefas). Reforçando, o ato em saúde obriga à interdisciplinaridade até chegarmos à transdisciplinaridade, pelo que, na formação e gestão de recursos humanos não poderemos deter-nos numa mera e redutora atitude/visão “egocêntrica” e economicista deste. Por fim, o poder das profissões da saúde terá que abandonar definitivamente a tradição e aderir à inovação, alicerçando-se no valor que estas criam, de forma colaborativa e interdisciplinar, em prol da saúde de todos.

Manuel Oliveira • Enfermeiro especialista em Enfermagem Comunitária, pós-graduado em Gestão e Economia da Saúde (2000) pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra • Enfermeiro Gestor na Administração Regional de Saúde do Centro, IP (desde 2013) • Distinção: Medalha de Serviços Distintos do Ministério da Saúde - 7 de abril 2018 • Equipa Regional de Apoio para os Cuidados de Saúde Primários da ARS Centro, IP (desde 2012) • Assessor para a Qualidade do Conselho Diretivo da ARS Centro, IP (desde 2014) • Conselho Geral da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra (desde abril de 2019) • Comissão Científica Prémio de Boas Práticas em Saúde (desde 2014) • Auditor do Programa Internacional de Acreditação Hospitalar (CHKS) - (desde 2000) • Coordenação Nacional para a Reforma do Serviço Nacional de Saúde na área dos Cuidados de Saúde Primários - Ministério da Saúde (dezembro 2015 a outubro 2019)] • Presidente do Conselho Diretivo Regional da Secção Regional do Centro da Ordem dos Enfermeiros (2008-2011), e, por inerência, membro do Conselho Diretivo da Ordem dos Enfermeiros

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31. “NINGUÉM IGNORA TUDO. NINGUÉM SABE TUDO. TODOS NÓS SABEMOS ALGUMA COISA. TODOS NÓS IGNORAMOS ALGUMA COISA” (PAULO FREIRE) MANUELA FREDERICO-FERREIRA

Professora Coordenadora. Doutorada em Ciências Empresariais. Coordenadora do Conselho para a Qualidade e Avaliação Escola Superior de Enfermagem de Coimbra

É este o princípio que o Conselho para a Qualidade e Avaliação da ESEnfC adota, de forma consistente, nomeadamente, na procura do diálogo com a comunidade educativa, na procura da inovação promovendo a integralidade das ações, o rigor e transparência, bem como na partilha de saberes e na filosofia de melhoria contínua face à qualidade em particular à qualidade no ensino superior. Este Conselho conta com a participação formal de docentes, não docentes, estudantes e um perito externo. Conta também com, e solicita-se, a participação de Todos, desde a Presidência e Outros Órgãos da Escola, a docentes, não docentes, estudantes, ex-alunos, entidades empregadoras e outros stakeholders externos. É relevante sublinhar, aqui, a importância da informática para os sistemas de qualidade. Tem sido reconhecida a importância das ações interdisciplinares, da Educação e trabalho interprofissional em saúde

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perspetiva global, da articulação de diferentes conhecimentos, do trabalho e da tomada de decisão em equipa, da comunicação efetiva, da cultura corporativa positiva e do valor da interação, assim como da indagação constante, aspetos que se tornaram essenciais à eficácia das nossas práticas e a um sistema de garantia da qualidade bem-sucedido. Celebrar os 140 anos da ESEnfC é, principalmente, honrar todos aqueles que contribuíram para idealizar, implementar, construir e fazer crescer um grande projeto, esta realidade que sucessivamente se tem transformado e que nos possibilita ser a Escola que somos hoje. É devido um reconhecimento aos membros que têm participado no CQA, docentes, não docentes, estudantes e peritos externos, desde a sua criação em 2006 e que têm desenvolvido um trabalho interprofissional de inexcedível valor na dinâmica da qualidade e na possibilidade de melhoria da qualidade da Escola nas diferentes vertentes da sua missão. Releva-se a interdisciplinaridade deste Conselho, quer pelos seus membros internos, quer pelo membro externo, que tem sido de diferentes áreas disciplinares, mas perito em avaliação e em qualidade. A ESEnfC apesar do seu foco de ensino fundamentalmente monodisciplinar tem, impulsionada por grandes desafios, criado e diversificado os aportes ao ensino, tem sido uma Escola de estudo e de trabalho interdisciplinar. Uma Escola com capacidade de inovação e de adaptação, onde o conhecimento e a diversidade de opiniões são essenciais para a melhoria. Este investimento permite ser uma Escola com uma trajetória ascendente de qualidade. Uma Escola com certificação do sistema interno de garantia da qualidade, com certificação institucional e com acreditação de todos os seus cursos conferentes de grau. Não se pode negar que os últimos tempos têm sido muito incertos e por isso ainda mais exigentes e desafiadores do que antes. Fomos Todos, praticamente sem exceção, privados da “normalidade” a que estávamos habituados. Mas, a Escola, através do trabalho interdisciplinar soube, com qualidade, oferecer oportunidades e dar resposta a essas incertezas e desafios. Só com trabalho conjunto é possível responder com Qualidade às, cada vez mais, exigências do ensino superior e do mundo atual.

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Manuela Frederico Professora Coordenadora, Doutorada em Ciências Empresariais, área de Organização e Políticas Empresariais e Pós-doutorada em Ciências Empresariais. Detém o título de especialista em Enfermagem, obtido através da realização de provas públicas. É Mestre em Gestão e Economia da Saúde e Enfermeira Especialista em Enfermagem de Saúde Pública. Desde 2006, coordena o Conselho para a Qualidade e Avaliação da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra. Áreas de interesse e de investigação: Qualidade em instituições de ensino e em instituições de saúde; Gestão em Saúde/Enfermagem e Comportamento organizacional.

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32. DA FORMAÇÃO AO TRABALHO INTERDISCIPLINAR MARIA MARGARIDA LEITÃO FILIPE Enfermeira Gestora Unidade Local de Saúde de Matosinhos

A reflexão sobre a formação dos profissionais da área da saúde no sentido de se encontrar mecanismos que promovam o trabalho interdisciplinar é algo que tem preocupado várias individualidades e instituições ao longo dos últimos 50 anos. A Organização Mundial de Saúde no seu relatório em 1988, referia que é importante para a melhoria dos cuidados, os profissionais de saúde, terem a oportunidade de aprender a trabalhar em conjunto, assim como, deveria dar-se tanta ou mais importância às competências relacionais do que às instrumentais e cognitivas. O Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade do Porto (ICBAS), criado em 1975, por iniciativa de um grupo de personalidades, entre os quais se destacavam Corino de Andrade, Nuno Grande e Ruy Luís Gomes, teve logo na sua génese a formação conjunta nas áreas das Ciências da Vida. Assumindo-se desde o princípio como uma escola multidisciplinar e multiprofissional ao apostar numa formação abrangente em áreas como a Medicina, a Veterinária, a Agronomia ou as Ciências do Meio Aquático, mas também na cooperação com diferentes instituições da cidade do Porto – designadamente o Hospital Geral de Santo António – e na promoção de serviços especializados à comunidade. Em 1993, fruto do trabalho de duas referências na formação de Profissionais de Saúde em Portugal, o Prof. Nuno Grande, do ICBAS, e, Enf. Maria Aurora Bessa, Diretora da Escola de Enfermagem Cidade do Porto, Educação e trabalho interprofissional em saúde

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foi criado o primeiro mestrado em Ciências de Enfermagem numa parceria da Escola de Enfermagem Cidade do Porto com o ICBAS. O caminho para formação conjunta na área da saúde em Portugal começava assim a dar alguns passos, mas ainda longe do sonho do Prof. Nuno Grande que defendia que sobretudo a Enfermagem e a Medicina deveriam desenvolver parte da sua formação nos mesmo bancos da escola. Desde os primórdios da Antiguidade, que o ser humano sentiu necessidade de conviver coletivamente, desempenhando tarefas e ações improváveis de serem alcançadas sem o apoio de seu semelhante. Dessa maneira, as pessoas agrupavam-se no intuito de viverem e sobreviverem em sociedade. No mundo contemporâneo as respostas às necessidades em saúde são asseguradas por grupos de profissionais distintos, havendo cada vez mais a necessidade de transformar esses grupos em verdadeiras equipas multidisciplinares. Quando os grupos se constituem em equipe, conseguem realizar tarefas que grupos comuns não fazem, são mais criativos e eficientes na resolução de problemas, produzem mais e com maior qualidade, desenvolvem maior autonomia e estão mais motivados. Foi tendo em conta estes princípios que o Ministério da Saúde quando da reforma dos cuidados saúde primários, organizou as respostas em saúde através de unidades mais pequenas, autónomas e multidisciplinares como são as: Unidades de Saúde familiares (USF) e as Unidades de Cuidados na Comunidade (UCC). A eficácia nos cuidados de saúde está na diversidade dos contributos específicos que cada membro da equipa traz e esses, serão tanto mais eficientes, quanto mais a comunicação for clara e precisa, isso só se alcançará quando a formação tiver a mesma origem de modo a que se possa criar um ambiente de confiança e cooperação mútuo, onde o respeito por cada um seja uma realidade. Ainda longe desse ideal sobretudo ao nível da formação inicial, podemos e devemos no entanto promover percursos de aprendizagem focados na eficiência coletiva e na capacidade de desenvolver fortes hábitos de trabalho em equipa, de forma a melhorar não apenas o modo com que se interage individualmente com os seus pares, mas também aumentar a capacidade dos nossos estudantes de enfermagem de desenvolverem sentimentos de autoconfiança no seu conhecimento especifico como a grande mais-valia da sua intervenção.

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Margarida Filipe É doutorada em Enfermagem na Especialidade de gestão pela Universidade Católica Portuguesa, detém um MBA em Administração de Serviços de Saúde pela Universidade Lusíada e Mestrado em Ciências de Enfermagem pela Universidade do Porto. Há mais de 20 anos que desempenha funções de gestão e administração em várias instituições. Atualmente tem funções de Direção na área de Enfermagem da ULSM e é Presidente do Conselho Geral da Escola Superior de Enfermagem do Porto. Foi vogal do Conselho de Administração da ULSM e Enfermeira Diretora de junho 2008 a julho 2020. Foi Presidente do Conselho Regional Norte da Ordem dos Enfermeiros no mandato 2004-2007. Foi Assessora do Ministro da Saúde Prof. Doutor António Correia de Campos no XIV Governo Constitucional. Foi vogal do Conselho de Administração da ARSN de 1996-2000. Foi docente nas Universidade Fernando Pessoa, Universidade Católica Portuguesa no Porto e Lisboa e na Cooperativa de Ensino Superior Politécnico e Universitário. Apresentou várias comunicações em Portugal e no estrangeiro e publicou vários artigos.

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33. FORMAR EM CONJUNTO PARA TRABALHAR EM CONJUNTO MARIA DA CONCEIÇÃO BENTO

Professora. Ex-Presidente da ESEnfC Escola Superior de Enfermagem de Coimbra

Há mais de trinta anos atrás fui desafiada pelo Professor Nuno Grande (1932-2012) a refletir sobre a pertinência de virmos a ter, em Portugal, um modelo de formação na área da saúde que garantisse que os profissionais das várias profissões da saúde se formavam em conjunto para virem, de forma verdadeiramente efetiva e colaborativa, a trabalhar em conjunto. A convicção com que o Professor Nuno Grande defendia esta ideia, e os argumentos que aduzia, faziam-nos acreditar que esse era o caminho e que, dada a bondade da visão, fazer o caminho era possível. Nas últimas duas décadas, publicaram-se muitos relatórios internacionais e nacionais que recomendam a educação interprofissional como estratégia promotora da aprendizagem transformadora, com a finalidade de formar profissionais capazes de operar as mudanças necessárias para se alcançar a universalidade e equidade no acesso aos cuidados de saúde e a disponibilidade de cuidados de qualidade para todo(a)s. Estas recomendações alicerçam-se no pressuposto de que a socialização e aprendizagem em conjunto dos diferentes profissionais que trabalham na equipa permitirá que na vida profissional desenvolvam um verdadeiro trabalho de colaboração, com ganhos para a saúde das pessoas e aumento da satisfação dos profissionais. Mas, em Portugal, esta não é ainda a realidade. Educação e trabalho interprofissional em saúde

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Acredito piamente que os desafios em saúde que hoje temos pela frente necessitam de equipas de saúde capazes de trabalhar em verdadeira prática colaborativa, como recomenda a OMS. Convicta da importância da formação interprofissional tenho vindo a defender, nos últimos anos, que em Portugal, à semelhança de outros países do mundo, deve ser reconhecida a natureza universitária da formação em enfermagem e que se deve operar uma transformação no modelo de organização da formação dos profissionais de saúde, passando de um modelo de Escolas/ Faculdades isoladas, para um modelo de organização em Sistemas Académicos de Formação Interprofissional, como preconizado no relatório publicado, em 2010, na revista The Lancet. Num modelo de organização do ensino em Sistemas Académicos de Formação Interprofissional passaríamos da formação em instituições isoladas para a formação em rede - alianças e consórcios de instituições/faculdades/escolas -, intencionalmente organizada para garantir a formação de profissionais de saúde para trabalhar em equipa de forma colaborativa e centrada na pessoa. Estes sistemas académicos, que abrangeriam redes de instituições de ensino e de saúde, incentivariam o trabalho académico e clínico em diálogo e cultivariam uma cultura de investigação crítica. Da mesma forma, também devem incorporar outros aliados, como os órgãos de governo local, organizações da sociedade civil, empresas e meios de comunicação social. No relatório já citado defende-se que este sistema permitiria promover a educação interprofissional e favorecer a quebra de silos profissionais, melhorando as relações interprofissionais, tornando-as colaborativas e não hierárquicas e tornando as equipas do futuro mais eficaz. Em nosso entender, estas redes não devem confinar-se ao nível local ou de um país, mas devem alargar-se ao mundo. Sistemas Académicos como os que descrevi contribuirão para o reforço das qualificações dos profissionais que formam, quer inicialmente, quer ao longo da vida, e garantirão o desenvolvimento da evidência cientifica e da inovação para dar resposta aos problemas de saúde das pessoas, concorrendo para mais e melhor saúde para todo(a)s. Acredito que se todo(a)s, aos diferentes níveis de decisão, fizermos um esforço para pensar fora da caixa, este é um sonho que vamos querer realizar.

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Maria da Conceição Bento Enfermeira desde 1985. Professora da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra desde 5 de janeiro de 1989. Vogal da Comissão Nacional de Cuidados Gerais (1999-2003). Presidente da Escola Superior de Enfermagem de Bissaya Barreto (2003-2006) e da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra (20062018). Membro do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos (CCISP), onde representou as Escolas de Enfermagem não integradas (2006-2018), e da sua Comissão Coordenadora (2011-2013 e 2016-2018). Coordenadora da Comissão Técnica da Saúde do Conselho Coordenador dos Institutos Politécnicos (2005-2018). Membro do Conselho Consultivo para a Reforma dos Cuidados de Saúde Primários (2009-2011). Membro da Comissão de Reconhecimento de Graus Estrangeiros (2011-2019). Membro do Conselho Consultivo e de Acompanhamento do Plano Nacional de Saúde (2012-2016) e Revisão e Extensão a 2020 (20142018). Membro do Conselho Nacional de Saúde (2017-2019). Vogal da Mesa da Assembleia Geral do Instituto Pedro Nunes (2012-2020). Membro do CientíficoPedagógico do Núcleo Regional do Centro da Liga Portuguesa Contra o Cancro (2016-2018). Vice-Presidente da Associação Ibero-Latino-Americana de Escolas e Faculdades de Enfermagem (ALADEFE) para a Região Europa (2011-2014 e 2015-2019). Presidente da Assembleia Geral do Capítulo Phi Xi da Sigma Theta Tau International, Honor Society of Nursing (22/09/2011-Atual). Membro do Conselho Nacional para os Problemas da Droga, das Toxicodependências e do Uso Nocivo do Álcool, em representação do CCISP (2013-Atual). Membro do Fórum Nacional Álcool e Saúde, em representação do CCISP (2013-Atual). Coordenadora da Rede Saúde e Bem-Estar no Politécnico, do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos (2017-Atual). Membro do Conselho Executivo do GANES (Global Alliance for Leadership in Nursing Education and Science), em representação da ALADEFE (2013-Atual). Membro da Comissão Ética da Saúde da Administração Regional do Centro (2018-Atual). Vogal do Conselho Executivo da ALADEFE para o Desarollo Institucional (2019-Atual). Membro do Conselho Geral da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra (2018-atual).

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34. EDUCAÇÃO E TRABALHO INTERPROFISSIONAL: A EXPERIÊNCIA DA FORMAÇÃO PÓS-GRADUADA DE ENFERMAGEM NO ICBAS, UP MARIA DO CÉU BARBIERI-FIGUEIREDO

Investigadora Distinguida Senior Departamento de Enfermagem da Universidade de Huelva, Espanha

“Educar em conjunto para trabalhar em conjunto” foi uma frase que ouvi recorrentemente da boca do Professor Nuno Grande em relação à ideia que esteve na origem da criação da Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar, da Universidade do Porto. Infelizmente tal desígnio nunca foi concretizado, pelo menos da forma como tinha sido idealizado, e que perspetivava que, numa fase inicial, os estudantes dos diferentes cursos de saúde frequentassem um tronco comum e, numa fase posterior, cada estudante seguiria a sua área de formação específica. Mesmo em 1975 esta visão era demasiado revolucionária! A criação do Mestrado de Ciências de Enfermagem em 1993, no ICBAS, coordenado pelo Professor Nuno Grande e cuja equipa científica tive o privilégio de integrar, foi uma oportunidade para trazer a formação de enfermagem para dentro da universidade e de fazer uma aproximação ao desiderato de formar os diferentes profissionais de saúde em conjunto

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Aquando da sua criação em 1993, era escasso o número de Cursos de mestrado oferecidos pelas Universidades Portuguesas, e ainda mais restrita era a formação avançada em Ciências de Enfermagem (apenas existia o Curso de Mestrado em Ciências de Enfermagem da Universidade Católica Portuguesa), pelo que o facto de ter sido criado numa instituição moderna, apesar da vetustez das instalações, foi marcante no percurso dos cerca de 330 enfermeiros que frequentaram este curso. Ao longo das 20 edições deste Curso de Mestrado os estudantes enfermeiros, alguns com uma vida profissional longa, experimentaram a vivência de uma instituição multidisciplinar, com médicos, bioquímicos, matemáticos, psicólogos, e onde o currículo do Mestrado pré e pós-Bolonha, favorecia esta abordagem, valorizando as diversas perspetivas disciplinares, que permitem evidenciar a especificidade da disciplina de enfermagem. Apesar do Curso de Mestrado em Ciências de Enfermagem ter sido descontinuado em 2013 com a oferta crescente deste nível de formação, possível com a legislação que adequou o Ensino Superior Português ao Processo de Bolonha (Decreto-Lei n.º 74/2006), o legado permanece no Programa Doutoral em Ciências de Enfermagem. A multidisciplinaridade continua a ser valorizada nos membros da equipa de supervisores das teses de doutoramento, mas também na organização de eventos científicos (seminários, debates, conferências), em que os olhares dos outros nos permitem refletir e evidenciar a especificidade do contributo do conhecimento de enfermagem para a saúde e bem-estar dos cidadãos, honrando a memória e os ideais do Professor Nuno Grande, o nosso eterno mentor.

Maria do Céu Barbieri-Figueiredo Enfermeira Especialista em Saúde Infantil e Pediátrica, Mestre e Doutora em Ciências de Enfermagem. Professora Coordenadora da Escola Superior de Enfermagem do Porto e membro da Comissão Científica do Programa Doutoral em Ciências de Enfermagem do ICBAS, UP, desempenha atualmente as funções de Investigadora Distinguida Senior na Universidade de Huelva, Espanha.

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35. PROFISSIONAIS DE SAÚDE REALIDADES & NECESSIDADES(*) Maria Neto da Cruz Leitão

Professora Coordenadora. Unidade Científico-Pedagógica de Enfermagem de Saúde Materna, Obstétrica e Ginecológica Escola Superior de Enfermagem de Coimbra

Congratulamo-nos por estarmos a viver o Ano Internacional dos Profissionais de Saúde e Cuidadores, com o lema “Proteger. Investir. Juntos.”, definido na 73ª Assembleia Mundial da Saúde, como reconhecimento e gratidão pela dedicação e o sacrifício de milhões de profissionais de saúde e cuidadores na pandemia de Covid-19 e o seu papel essencial na garantia da saúde e da prosperidade. Esta pandemia fez parar o mundo e veio reforçar a ideia que a saúde é essencial para o desenvolvimento humano e que os profissionais de saúde e os cuidadores são os guardiões da saúde das populações. Espera-se e precisa-se que eles assistam e apoiem as pessoas no seu ciclo de vida, para que estas desenvolvam o seu potencial máximo de saúde e de bem-estar. Mas para que os profissionais de saúde e cuidadores protejam a saúde de todos e de cada um, é urgente que também eles sejam apoiados, protegidos e motivados, o que requer maior investimento e reformulação de políticas públicas, desde a sua educação/formação até às condições de trabalho e de emprego, à remuneração e ao reconhecimento social. O mundo enfrenta uma escassez global de profissionais de saúde. Segundo a OMS, 70% da força de trabalho social e de saúde são mulheres – em comparação com 41% em todos os setores de emprego – e as en-

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fermeiras e as midwives representam quase 50% da força de trabalho global em saúde. Para que todos os países atinjam o 3º Objetivo de Desenvolvimento Sustentável sobre saúde e bem-estar, a OMS estima que o mundo precisa de mais 9 milhões de enfermeiras e midwives até ao ano de 2030. Estes dados obrigam-nos a olhar a realidade dos profissionais de saúde e cuidadores com enfoque de género, ou seja, ter presente o reconhecimento (teórico) do contributo das mulheres – nomeadamente enfermeiras e midwives – para a saúde global e para o desenvolvimento humano. Atente-se ainda na necessidade de políticas formativas e profissionais compatíveis com esse reconhecimento, bem como condições que permitam ocupar lugares de liderança, partilhando os lugares de decisão política e de gestão em saúde. Alcançar saúde para todos dependerá da existência de um número suficiente de enfermeiras e midwives adequadamente educadas/formadas, com profissões regulamentadas, com remuneração e reconhecimento proporcional à importância social e à qualidade da assistência que prestam. A saúde é significativamente afetada por múltiplos determinantes – biológicos, psicológicos, sociais e ambientais – que interagem e que influenciam a exposição individual, a vulnerabilidade e a resiliência das pessoas, dos grupos e das comunidades. Assim, considera-se fundamental a existência de profissionais de diferentes áreas do saber, capazes de sustentarem as diferentes abordagens de forma articulada e colaborante. Isto requer uma visão e uma diversidade de conhecimentos compartilhados, potencializadores da concretização de saúde para todos. Mas, para que exista uma cooperação e trabalho em equipa nos diferentes e diversificados contextos profissionais, consideramos fundamental uma educação/formação interprofissional, ou seja, a oportunidade de profissionais de diferentes áreas aprenderem entre si, com e sobre os outros (CAIPE, 2002)1. O processo de aprendizagem que prepara os profissionais através de educação interdisciplinar e das diversas experiências da realidade do trabalho em saúde, em colaboração com as comunidades, para atender às necessidades multifacetadas de crianças, jovens e famílias (Interprofessional Education Collaborative Expert Panel, 2011)2, deve sustentar-se numa abordagem pedagógica de capacitação conjunta para trabalharem em equipa em torno de um objetivo comum: cuidados centrados na pessoa/utente. Acreditamos que se a graduação inicial 150

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dos diferentes profissionais de saúde for de nível superior, com parte dos currículos partilhados e interligados, com recurso a metodologias e estratégias de aprendizagem próximas do que a realidade profissional apresenta (ex: resolução de problemas) e desenvolvida nas mesmas unidades de ensino, de certo promoverá “práticas integradas em saúde” onde o trabalho em equipa é facilitado e os resultados em saúde se tornam mais evidentes. Mas estamos longe de o conseguir, não porque falte o conhecimento que sustente estas práticas formativas interprofissionais, mas pela resistente persistência de alguns lobbies. (*)

Contributo das professoras da UCPESMOG da ESEnfC.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1

Center for The Advancement of Interprofessional Education (CAIPE) (2002). Centre for the Advancement of Interprofessional Education. United Kingdom: Center for The Advancement of Interprofessional Education. 2

Interprofessional Education Collaborative Expert Panel (2011). Core competencies for interprofissional collaborative practice. Washington, DC: Interprofessional Education Collaborative. Recuperado em https://www.aacom.org/ docs/default-source/insideome/ccrpt05-10-11.pdf?sfvrsn=77937f97_2.

Maria Neto da Cruz Leitão Enfermeira. Especialista em Saúde Materna e Obstétrica. Mestre em Ciências da Educação. Doutora em Enfermagem. Pós-doutorada em Enfermagem. Terapeuta Sexual. Pós-Graduada em Direito de Igualdade de Género. Especialista e formadora em igualdade de género. Professora coordenadora na ESEnfC. Investigadora principal na UICISA:E. Co-fundadora e co-coordenadora de vários projetos de investigação e extensão com financiamento nacional e internacional. Principais áreas de interesse académico e de investigação: saúde e género; violência de género – com ênfase na violência exercida por parceiros íntimos; saúde sexual e saúde reprodutiva.

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36. IMPORTÂNCIA DO ENSINO INTERPROFISSIONAL NO CAMPO DA SAÚDE Miguel Castelo-Branco Sousa

Professor Catedrático. Doutor em Medicina Universidade da Beira Interior

A evolução do conhecimento e da tecnologia no campo da saúde tem sido extraordinária, a par com os desenvolvimentos civilizacionais, permitiram um crescente aumento da longevidade. Durante a metade final do século XX assistiu-se, nos países com maior grau de desenvolvimento, a uma mudança no predomino da prevalência das doenças com maior impacto na população, passando das agudas de natureza essencialmente infecciosa ao predomínio das doenças não contagiosas, designadamente as doenças vasculares, neoplasias malignas e doenças pulmonares crónicas. Se bem que a pandemia que vivemos tenha vindo reforçar a importância de saber lidar com as doenças infecciosas e, particularmente a desafiar os sistemas de saúde para a necessidade de serem capazes de se adaptar, com rapidez à emergência de situações supervenientes, as doenças não comunicáveis, continuam a ser o predomínio das situações que são acompanhadas pelos sistemas de saúde. Numa fase em que se alargam os campos de intervenção da denominada medicina personalizada, no sentido da identificação de particularidades moleculares que permitem alvos terapêuticos mais precisos e mais efectivos em muitas doenças, continuamos a ter necessidade de personalizar noutros campos os cuidados de saúde. Sabemos no entanto Educação e trabalho interprofissional em saúde

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que a evolução científica e organizacional implica a especialização, e daí decorrendo, a necessidade de haver equipes multiprofissionais a convergir para cuidar mais efectivamente os doentes, ou mesmo a intervir para prevenir doenças e promover a saúde. Portanto juntamos um desafio adicional que é ter processos centrados na pessoa, mas com envolvimento de equipes multiespecialidade e multiprofissionais Na actualidade vivemos nesta área um processo de transição, até há uns anos era possível centrar em uma, ou em poucas pessoas, o cuidado do doente individual, na actualidade é manifestamente impossível fazer isso. Em qualquer nível institucional duma organização de saúde, há sempre diversos profissionais de áreas complementares a serem necessários para cuidar as pessoas. Embora ainda assistamos a visões verticais em áreas profissionais, pretendem dominar, o certo é que é em equipe, e quanto mais entrosada mais efectiva, que se conseguem os melhores resultados, reduzindo as situações que implicam insegurança para o doente e sistema. Sabe-se, aliás, que o processo comunicacional tem papel central na fluidez destes processos. Defendo que a educação para a atuação em equipe e para a compreensão adequada do papel que cada profissional tem que assumir deve, explicitamente, fazer parte do currículo de formação, desde a formação generalista, relativa aos processos básicos de comunicação e de relação interpessoal, incluindo respeito, até aos aspectos técnicos e especializados. Em Portugal o ensino das profissões de saúde está dividido entre duas organizações diferentes; Politécnicos e Universidades o que levanta desafios adicionais, no entanto é importante que se consigam, mesmo assim, desenvolver processos de aprendizagem interprofissional que contribuam, desde os primórdios da formação superior, à inclusão dos princípios e da pratica de trabalho de equipe e o desenvolvimento da confiança e do espírito de interacção que assume as especificidades e especializações de cada um e parte para uma acção concertada afinada e harmoniosa para a intervenção nas necessidades do doente ou da população, que são o centro da acção. É uma necessidade a que as organizações de ensino superior da área da saúde devem responder criando soluções de articulação efectivas.

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Miguel Castelo-Branco Sousa Tem 60 anos, é médico, doutor em Medicina, professor catedrático da Universidade da Beira Interior, professor coordenador convidado da Escola Superior de Saúde Dr Lopes Dias, do Instituto Politécnico de Castelo Branco, e médico sénior do Centro Hospitalar Universitário da Cova da Beira (CHUCB). Especialista em Medicina Interna e Medicina Intensiva e titular da Competência de Emergência exerce funções de clínica médica desde 1994. Também desempenhou funções de gestão hospitalar, como Presidente do Conselho de Administração e noutras funções, no CHUCB. Docente de Medicina, Telemedicina e Segurança do doente. Foi membro de diversos órgãos científicos e pedagógicos e foi Presidente da Faculdade de Ciências da Saúde (FCS) de 2009 a 2011 e é novamente desde novembro de 2017. Atualmente, é Diretor do Curso de Medicina e do curso não conferente de "Formação avançada em Telessaúde”. Docente do ensino superior desde 1992, é docente clínico e responsável científico do Laboratório de Competências da FCS. É pesquisador em docência aplicada à saúde, hipertensão e doenças cerebrovasculares, segurança do paciente, telemedicina e telemonitorização. Tem mais de quarenta artigos publicados e capítulos de livros e participou de multiplos workshops, mesas redondas, comunicações e ensaios clínicos. Orientador científico de alunos de doutoramento e de mestrado e integrou várias Comissões Científicas. Conquistou o Prêmio Santander UBI de Pesquisa Clínica em Ciências da Saúde em 2013. É Especialista Europeu de Hipertensão, pela European Society of Hypertension, membro de várias sociedades científicas, nacionais, europeias e internacionais e Membro da Academia Nacional de Medicina.

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37. A INTEGRAÇÃO DAS ESCOLAS DE ENFERMAGEM, AS QUE SE MANTÊM AUTÓNOMAS, EM UNIVERSIDADES, SERÁ UM PASSO CONTRIBUTIVO E NECESSÁRIO PAULO JOAQUIM PINA QUEIRÓS

Professor Coordenador. Presidente do Conselho Técnico-Científico Escola Superior de Enfermagem de Coimbra

Partindo do conceito de complexidade, facilmente percebemos a necessidade do trabalho interprofissional. Em contexto de enfermagem, atente-se que os enfermeiros visam a facilitação dos processos de transição com vista à saúde e ao bem-estar das pessoas de que cuidam. Este propósito tem um objetivo de uma enorme complexidade: facilitar os processos de transição com vista à saúde e ao bem-estar de pessoas, que são por natureza e definição seres de necessidades e de potencialidades, seres intrinsecamente, eles próprios, de uma enorme complexidade. Teríamos, então, os enfermeiros a atuar em situações de grande complexidade, sobre humanos igualmente de enorme complexidade, em contextos que serão tudo menos simples, de grande variabilidade e imprevisibilidade em ambientes complexos e, já agora, os próprios enferEducação e trabalho interprofissional em saúde

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meiros, como humanos, são também seres complexos. Tudo isto torna impossível, porque inalcançável, a tão referida visão holística. Surge a necessidade de outros referenciais para a enfermagem moderna. A compreensão do humano e das suas circunstâncias vivenciais, em saúde e em doença, requerem visão larga, humildade científica, parceria e partilha na ação de cuidar, para que os cuidados disponibilizados não sejam parcelares e segmentados. Os teóricos de enfermagem, os mais proficientes na atualidade, apontam com suficiente clareza o que se espera dos enfermeiros e da enfermagem. Meleis, em 2012, considera, como características definidoras da enfermagem: ser uma ciência humana orientada para a prática; uma disciplina do cuidar; com um relacionamento cuidativo entre enfermeiros e utentes; orientada para a saúde e para o bem-estar das pessoas. Kim, em 2010, complementa, apontando como pressupostos da enfermagem como ciência: que os seres humanos são complexos e como tal é impossível conhecer os seres humanos no seu todo; a prática de enfermagem requer mutualidade; o conhecimento de enfermagem vai para além do científico e assenta também em princípios normativos, morais e estéticos; o conhecimento em enfermagem é complementar e inclusivo em vez de competitivo e exclusivo; e por último, é um conhecimento de síntese. Encontramos com facilidade, nas autoras referidas, o caminho para a interdisciplinaridade e a interprofissionalidade. O trabalho em equipa (em mutualidade, complementar e inclusivo), com a junção das diversas perspetivas profissionais, mantendo a autonomia, garantindo as diferentes abordagens, em respeito mútuo, permite trabalhar para um objetivo consensualizado e por isso tornado comum. É com estas referências que se percebe o trabalho interprofissional como uma necessidade imperiosa. Sem o trabalho de cooperação interprofissional, as avaliações e as ações para cuidar de utentes, facilitando processos de transição, serão sempre segmentares, parciais e por isso mesmo não otimizadas. De um outro ângulo, importa a análise de como educar futuros profissionais para a interprofissionalidade, para o trabalho conjunto interdisciplinar na concretização de uma abordagem integrada das pessoas que cuidamos e tratamos. Desde logo, inquieta e importa pensar como preparar estudantes para o exercício interprofissional. A tarefa complica-se quando os formadores desenvolveram os seus percursos profissionais

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em contextos monoprofissionais e corporativos quanto baste. E complica-se ainda mais em instituições de formação monodisciplinar, em que, desde logo o convívio, as aprendizagens formais e informais, fazem-se em circuito fechado. As estratégias de educação efetiva para o trabalho interprofissional passam, necessariamente, pela formação em ambiente de formação interprofissional, na partilha de pontos de vista diferentes sobre o cuidar e o tratar de pessoas, na convivência da pluralidade de aprendizagens profissionais e da vida, na vivência entre estudantes de formações diversas. Esta perspetiva parece-me profícua. A integração das escolas de enfermagem, as que se mantêm autónomas, em universidades, será um passo contributivo e necessário para a concretização do trabalho interprofissional.

Paulo Joaquim Pina Queirós • Professor Coordenador • Investigador na Unidade de Investigação em Ciências da Saúde: Enfermagem (projeto estruturante História e Epistemologia da Saúde e Enfermagem) • Enfermeiro Especialista • Licenciado em Enfermagem de Reabilitação pela Escola Superior de Enfermagem Dr. Ângelo da Fonseca • Licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra • Mestre em Saúde Ocupacional pela Faculdade de Medicina da UC • Doutor em Desenvolvimento e Intervenção Psicológica pela UEx-Espanha, com registo na UC em Ciências da Educação • Pós-doutoramento no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto, com investigação em “Pensamento teórico de enfermagem” • Presidente do Conselho Técnico-Científico da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra

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38. A RNCCI E A IMPORTÂNCIA DA FORMAÇÃO E DO TRABALHO INTERDISCIPLINAR PURIFICAÇÃO GANDRA

Enfermeira Supervisora/Gestora Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados

A RNCCI criada pelo Decreto-Lei n.º 101/2006 constitui-se como um nível intermédio de prestação de cuidados de saúde e de apoio social, entre os de base comunitária e os de internamento hospitalar. Atravessa de forma transversal o SNS e as respostas institucionais do Setor Social, assentando no funcionamento em redes de parceria com as entidades do sector privado e social. Apesar de esta Rede se destinar a pessoas de todas as idades que se encontrem em situação de dependência e necessitem de cuidados de saúde, hoje, torna-se evidente que cerca de 85% dos seus utentes são idosos. Apesar disto, a Rede não é, nem pode ser considerada, como uma resposta social, lar ou Estrutura Residencial Para Idosos (ERPI). Não é uma resposta permanente ou definitiva. É uma resposta de cuidados de saúde com o apoio da área social, na procura da melhor resposta aos doentes e famílias, com vista ao seu regresso ao domicílio. Segundo a OCDE, à medida que a população dos países envelhece, um número crescente de pessoas vai precisar do apoio de serviços de cuidados continuados e providenciar atendimento seguro a esses pacientes é um desafio fundamental para os sistemas de saúde, sendo necessário formar e capacitar cuidadores formais e informais. É preciso trabalho Educação e trabalho interprofissional em saúde

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em equipa interdisciplinar, articulado, integrado, dinâmico e resiliente, para vencer os obstáculos diários. É muito importante que se criem sinergias de trabalho entre as respostas de saúde, de apoio social, respostas comunitárias, apoio das autarquias e, principalmente dos doentes e das famílias e dos cuidadores informais. As suas equipas são constituídas por diversos profissionais, de diferentes áreas técnicas, médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, técnicos do serviço social, psicólogos, nutricionistas, farmacêuticos, assistentes operacionais, e outros, na procura de uma resposta multissectorial, interdisciplinar e articulada. Enquanto Sociedade eticamente responsável, temos de ter em conta toda a população, valorizar e cuidar de todas as pessoas, mais novas e mais velhas, e tentar fazer tudo o que é possível para proteger a saúde, enquanto ao mesmo tempo protegemos a sociedade. Perante a gravidade da pandemia por COVID-19, a RNCCI foi confrontada com um desafio acrescido. O ciclo de vida com mais vulnerabilidade a esta nova doença é o grupo etário mais elevado. A sua situação de dependência e comorbilidades, tornou prioritária a prevenção e contenção da propagação deste vírus nas UCCI, aumentando a necessidade de proteção a doentes e profissionais. Todos os profissionais da RNCCI, com a sua dedicação e profissionalismo, permitiram dar a segurança e cuidados que estes doentes necessitaram, e a sociedade exigiu, vencendo o próprio medo e pondo de lado a vida pessoal e a sua própria família, lutando diariamente com a pandemia por COVID-19. A taxa de mortalidade de < a 1% na Rede, refletiu o trabalho desenvolvido pelos profissionais das equipas e UCCI. Os cuidados continuados têm feito o seu caminho, lentamente, sempre com recursos deficitários face às necessidades, mas, importa salientar, com profissionais motivados, empenhados, resilientes, cheios de esperança e expectativa nesta área de cuidados, dispostos a aceitar os desafios que lhes são colocados, valorizando a importância do controlo de infeção. No futuro, em novas ou idênticas situações, as equipas da RNCCI estão mais preparadas para lidar com um inesperado e difícil combate, que ameaça a saúde e põe em risco a vida humana. Hoje cabe-me a mim, com a ajuda da equipa de coordenação que comigo trabalha, as ECR e ECL e todas as equipas prestadoras, procurar que a RNCCI seja uma resposta efetiva e atempada, para todos os cidadãos que dela necessitam,

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mas também um polo de emprego e desenvolvimento na sociedade portuguesa.

Purificação Gandra É atualmente (2019-) Adjunta no Gabinete da Ministra da Saúde do XXII Governo Constitucional de Portugal e Coordenadora Nacional da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados. Foi Técnica Especialista no Gabinete da Secretária de Estado da Saúde do XXI Governo Constitucional de Portugal (2018 – 2019) e assessora no Gabinete do Secretário de Estado Adjunto da Saúde do XVII Governo Constitucional de Portugal (2008-2009). Exerceu diversos cargos de direção tanto em ARS como em Hospitais do SNS Formação: • Pós-Graduação em Cuidados Paliativos Pediátricos (2014) • Licenciatura em Gestão de Unidades de Saúde (2011) • Mestrado em Gestão de Serviços de Saúde – parte curricular (2007) • Pós-Graduação Administração de Serviços de Enfermagem (1993) • Especialidade em Enfermagem de Saúde Infantil e Pediátrica (1990) • Licenciatura em Enfermagem (1978)

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39. UM ESPAÇO ANTERIORMENTE OCUPADO POR MÉDICOS E ENFERMEIROS ROGÉRIO RODRIGUES

Professor Coordenador. Presidente do Conselho Pedagógico Escola Superior de Enfermagem de Coimbra

O trabalho interdisciplinar nas equipas de saúde, prática antiga e que sempre tive o privilégio de encontrar nos meus contextos de trabalho, quer na prestação de cuidados quer na atividade docente, é tido, consensualmente, como boa prática para o objetivo final de prestar os cuidados que a evidência demonstra melhor responderem às necessidades do utente. Não sendo, na sua essência, um conceito novo, o que vem sofrendo alterações será a forma como se materializa no dia-a-dia da atividade profissional e nas relações entre profissionais. Tal como nas outras esferas da vida, em que as relações entre as pessoas são relações de poder, também aqui o relacionamento entre profissionais oriundos de diferentes áreas disciplinares, embora balizado pela definição de áreas de competências específicas, encontra áreas cinzentas de exercício, em que a indefinição e o horror ao vazio levam a competição por esse espaço de atuação. As novas profissões que têm surgido no campo da saúde, em resposta a novas necessidades resultantes do avanço tecnológico, ou outras menos recentes e que agora procuram responder a necessidades, reais ou sentidas, que anteriormente eram respondidas de forma deficitária, integram Educação e trabalho interprofissional em saúde

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por direito próprio um espaço anteriormente ocupado de forma quase hegemónica por médicos e enfermeiros. O alargamento das equipas (em sentido lato, incluindo os profissionais das áreas tecnológicas de ponta que trabalham mais nos bastidores e não tanto em contacto direto com os utentes nos serviços) foi a resposta necessária aos avanços tecnológicos, ao alargamento dos cuidados de saúde à generalidade dos cidadãos e à resposta a necessidades em saúde anteriormente não cobertas. Para os próximos 140 anos, haverá novos desafios e mudanças que nem imagino, mas olhando para o passado e percecionando o que ocorre no presente, sinto que há aspetos de que devemos estar cientes e que legitimarão a manutenção da profissão de Enfermagem: o respeito pelo espaço de competências de todas as outras profissões mantendo um nível de desempenho que imponha a reciprocidade; um exercício baseado na perceção clara da sua autonomia, do seu domínio de competências e das necessidades que os cidadãos, e as comunidades, esperam ver respondidas; uma visão de partilha com outras áreas disciplinares (novas ou antigas) assumindo o trabalho colaborativo como aquele que melhor se adequa à responsabilidade moral e ética de melhor qualidade de cuidados; uma permanente aprendizagem e atualização, com um exercício profissional que tenha como centro o recurso à melhor evidência disponível. E a Escola em todo este contexto? Nunca a conheci como casulo, e se nos tempos mais longínquos a relação de dependência de outras disciplinas era manifesta, hoje continuamos a trabalhar com essas, mas fomos recebendo outras com resultados que avalio como positivos. Esta interdisciplinaridade não passará despercebida aos nossos estudantes, futuros profissionais, e mais do que discursos será a vivência desta prática que levam consigo. Mas não tenho ilusões de que o nosso espaço esteja garantido… não está. O trabalho interdisciplinar, entre disciplinas com igual dignidade e reconhecimento, carece da nossa parte de um trabalho permanente de construção/reconstrução da disciplina de Enfermagem. Temos passado, temos presente… logo, temos tudo para ter futuro.

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Rogério Manuel Clemente Rodrigues • UCP de Enfermagem de Saúde Pública, Familiar e Comunitária • Curso Enfermagem Geral (EEBB), 1988 • Centro Hospitalar de Coimbra (Serviço de Neurocirurgia) • Hospital Sobral Cid (vários Serviços) • Curso de Especialização em Enfermagem de Saúde Pública (EEÂF), 1993 • Pós-Graduação em Direito da Medicina (Fac. Direito – Universidade de Coimbra), 1996 • Centro Regional de Alcoologia de Coimbra (CRAC- MLMM) • Mestrado em Saúde Pública (Fac. Med. – Universidade de Coimbra), 2000 • Professor Adjunto (ESEÂF/ESEnfC), 2000-2020 • Doutoramento em Enfermagem (ICBAS – Universidade do Porto), 2008 • Presidente do Conselho Técnico-Científico da ESEnfC, 2009-2014 • Pós-Doutoramento na Área de Especialização de Ciências de Enfermagem (ICBAS – Universidade do Porto), 2014 • Presidente do Conselho Pedagógico da ESEnfC, (2017-2021) • Professor Coordenador da ESEnfC (2020-…)

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40. O PAPEL FUNDAMENTAL DOS ENFERMEIROS PARA A COESÃO DO SNS Rosa Reis Marques

Administradora Hospitalar. Presidente do Conselho Diretivo da ARS Centro Administração Regional de Saúde do Centro

A minha geração teve o privilégio de assistir à profissionalização e especialização da carreira de enfermagem, fruto da conjugação virtuosa de diversos fatores, entre os quais se destaca a universalização do direito de acesso à saúde a todos os portugueses – cuidados preventivos, curativos e de reabilitação – com a criação do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Outro fator estruturante foi a formação, motivação e treino no cuidar, ministrados pelas Escolas de Enfermagem, socialmente reconhecidos e valorizados pela comunidade. Em Coimbra, a Escola de Enfermagem, depois duas escolas, que voltaram a ser uma, o que as reforçou como parceiros no âmbito do ensino superior, acompanharam, desde a sua criação, o desenvolvimento dos saberes de enfermagem, depois das ciências da saúde, das novas tecnologias, projetando a nível internacional os enfermeiros formados em Portugal, pelos seus conhecimentos e competências científicas, que a escola fomenta, pela obtenção de graus académicos, o que faz deles profissionais com trabalho garantido em qualquer parte do mundo. Neste ano, em que se comemoram 140 anos de trabalho da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra, agradeço ao seu corpo docente, do qual só o número de doutoramentos, bem como os trabalhos científicos Educação e trabalho interprofissional em saúde

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publicados, abarcando os diversos níveis de cuidados do SNS, revelam a grande preocupação com a investigação e desenvolvimento de novas abordagens aos problemas do sistema de saúde. A todos os enfermeiros agradeço o papel fundamental para a coesão do SNS e das suas instituições, pelo trabalho imprescindível que desenvolvem, quer ao nível da prestação de cuidados, quer na organização e gestão das mesmas, fruto indiscutível da cultura de boa organização e gestão que, desde sempre, lhes foi incutida pela Escola de Enfermagem de Coimbra. Ao reconhecimento do trabalho desenvolvido ao longo de 140 anos, junto o meu desejo de que a Escola Superior de Enfermagem de Coimbra continue a ser uma referência para o ensino e para os valores éticos e profissionais dos enfermeiros da região centro e do país. Muito obrigada pelo vosso trabalho!

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Rosa Reis Marques Licenciada em Direito, ramo de Ciências Jurídico-Económicas, pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra (1978) e com Pós-graduação em Administração Hospitalar, pela Escola Nacional de Saúde Pública (1982), Rosa Maria dos Reis Marques Furtado de Oliveira é, desde dezembro de 2017, Presidente do Conselho Diretivo da Administração Regional de Saúde do Centro. Ingressou na carreira de Administração Hospitalar em setembro de 1982, tendo desempenhado funções ao nível da gestão intermédia, nos Hospitais da Universidade de Coimbra, no Hospital Distrital de Cantanhede, no Centro Hospitalar de Coimbra e agora Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, onde ocupa o lugar de administradora hospitalar de 1ª classe. Exerceu os cargos de vereadora e de vice-presidente da Câmara Municipal de Coimbra (de novembro de 2013 a outubro de 2017, em comissão extraordinária de serviço), Presidente do Conselho de Administração dos Serviços Municipalizados de Transportes de Coimbra, Presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar de Coimbra (de dezembro de 2009 a dezembro de 2011), VicePresidente do Conselho Diretivo da Administração Regional de Saúde do Centro (de agosto de 2007 a novembro de 2009), administradora-delegada no Conselho de Administração do Centro Hospitalar de Coimbra (de outubro de 1995 a outubro de 2003). Tem participado em diversos grupos de trabalho no âmbito do Ministério da Saúde. Frequentou formação para gestão de topo e alta direção e outras ações de formação, incluindo como formadora.

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41. EDUCAÇÃO E TRABALHO INTERPROFISSIONAL EM SAÚDE SILVIA HELENA DE BORTOLI CASSIANI

Enfermeira. Assessora Regional de Enfermagem e Técnicos de Saúde Organização Pan-Americana de Saúde (Washington,DC, EUA)

Em setembro de 2020, a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas reconheceu o papel crítico dos recursos humanos em saúde para atender a pandemia de SARS-CoV-2, ao mesmo tempo que enfatizou a necessidade de promover condições decentes de trabalho e treinar, formar, reter e proteger os trabalhadores de todas as formas de violência e práticas discriminatórias. O ano de 2021 foi designado pela Assembleia Geral da Organização Mundial de Saúde (OMS) como o Ano Internacional dos Trabalhadores e Cuidadores de Saúde como um reconhecimento aos esforços incansáveis dos profissionais. A pandemia de SARS-CoV-2 destacou a necessidade de ter um número suficiente de profissionais e com as habilidades certas. Embora o número de médicos e enfermeiras tenha aumentado na última década em quase todos os países, a escassez persiste em muitos e foi bem revelada durante a pandemia. Existem aproximadamente 28 milhões de profissionais de enfermagem no mundo e estes representam 59% do total da força de trabalho em saúde (formada por dentistas, enfermeiros, farmacêuticos, médicos e parteiras). Entretanto, estima-se uma carência de 5,9 milhões de profissionais, sendo que 89% (5,3 milhões) desse déficit se concentra em países de baixa e média-baixa renda. Investimentos na educação e na preparação de profissionais para trabalharem de maneira colaborativa, em todos os níveis da assistência Educação e trabalho interprofissional em saúde

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à saúde, são necessários. A Região das Américas é uma das regiões da OMS com os menores padrões de educação interprofissional e as barreiras identificadas para sua efetiva implementação foram a preparação do corpo docente, o uso da tecnologia e a disponibilidade de campos clínicos para a educação interprofissional e a prática colaborativa (EIP). Para tanto a OPAS/OMS tem adotado uma série de iniciativas para apresentar aos formuladores de políticas, propostas e diretrizes para incorporar a EIP como uma abordagem inovadora para transformar os sistemas de saúde, como a formação da Rede Regional de Educação Interprofissional das Américas e a organização de discussões, cursos virtuais e eventos com a participação de representantes dos ministérios da saúde, educação e universidades. Investimentos de todos os setores: universidades, associações, municípios e governo devem ser fortalecidos para aumentar o número de profissionais e prepará-los para o trabalho em conjunto. A pandemia apresentou um desafio particular para as escolas das áreas de saúde que se viram imediatamente forçadas a repensar seus conteúdos, limitar seus campos clínicos e a utilizar tecnologias para atender as expectativas de telessaúde. A comunicação virtual, simulação clínica e a educação à distância tomaram um volume nunca antes imaginado. A forma de ensinar teve que ser reformulada. Embora o ano 2020 foi desafiante, pode ter-se constituído uma oportunidade para evidenciar as debilidades dos sistemas de saúde e educação. Se espera, assim, que na revisão destas debilidades, se prepare mais profissionais que atuem de maneira interprofissional, colaborativa e que mais resultados positivos em saúde surjam para a população em geral.

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Silvia Cassiani A Doutora Silvia H. De Bortoli Cassiani ocupa, desde abril de 2013, o cargo de Assessora Regional de Enfermagem e Técnicos de Saúde da Organização PanAmericana da Saúde/Organização Mundial da Saúde, em Washington, D.C. Antes das funções que desempenha atualmente, a Doutora Sílvia foi membro do corpo docente, chefe de departamento e diretora na Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, no Brasil. Ao longo da sua carreira, já recebeu diversos prémios e menções, tendo igualmente publicado vários livros e artigos. Foi ainda responsável pela criação da Rede Brasileira de Enfermagem e Segurança do Paciente no Brasil, cuja missão é promover ações/atividades e investigação na área da segurança do doente. A Rede foi reconhecida como uma das melhores iniciativas, coordenadas por enfermeiros, para influenciar as políticas de saúde no Brasil. Possui um Doutoramento em Enfermagem pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. É responsável por 15 Centros Colaboradores da OPAS/OMS para a Enfermagem e Obstetrícia, tendo colaborado no reforço do ensino, da prática e da investigação em enfermagem com vista à Cobertura Universal de Saúde. Além disso, coordena várias iniciativas que visam o alargamento do âmbito da prática de enfermagem na área dos cuidados primários de saúde na Região das Américas e integração da Enfermagem de Prática Avançada em países da América Latina e das Caraíbas. Foi membro da Academia Americana de Enfermagem, e, em 2018, foi distinguida com o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade da República, no Uruguai.

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42. EDUCAÇÃO E TRABALHO INTERPROFISSIONAL SUZANA DUARTE

Professora Adjunta. Unidade Científico-Pedagógica de Enfermagem do Idoso Escola Superior de Enfermagem de Coimbra

A Declaração de Bolonha subscrita a 19 de junho de 1999 objetivou a modificação do paradigma de ensino, daquele alicerçado na transmissão de conhecimentos para um modelo fundamentado no desenvolvimento de competências (genéricas e específicas) que, ao considerar a centralidade do estudante no processo, torna-o elemento ativo na aprendizagem a qual se pressupõe acontecer ao longo da vida. A educação compromete-se, então, com a construção do conhecimento enquanto instrumento de transformação social. Na Unidade Científico-Pedagógica de Enfermagem do Idoso, aquele comprometimento concretiza-se, entre outros, no “Projeto Antecipar a experiência de ser idoso”, no qual participam professores da Unidade Científica, incluindo a Coordenadora da mesma. Com início em 2012, aquele projeto proporciona, aos participantes, a experiência das limitações do envelhecimento na execução das atividades de vida diária. Desenvolve-se através da utilização de um simulador que permite experienciar as mudanças que ocorrem no decurso do processo de envelhecimento, designadamente na postura, na marcha, na visão e na audição. Tem, como finalidade a promoção de valores de igualdade e cidadania entre as gerações. Igualmente, ao envolver, além dos estudantes e dos professores, uma multiplicidade de profissionais nas áreas de educação e formação de crianças, de jovens e de adultos, Educação e trabalho interprofissional em saúde

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assistentes sociais, enfermeiros, assistentes operacionais e, igualmente, Juntas de Freguesia, constitui-se como estratégia para a formação de profissionais capacitados para o trabalho em equipa interprofissional, prática essencial nos cuidados de saúde centrados na integralidade da pessoa. A necessidade de organizar as sessões com a inclusão de outros profissionais, integrando a dimensão organizacional, afetiva e cognitiva, capacita o estudante para participar num processo de trabalho em que, profissionais com formações académicas diversas realizam um trabalho integrado que resulta 1. numa definição, conjunta, de métodos de observação e interpretação dos fenómenos partindo da incorporação de conhecimentos; 2. na modificação das práticas através da colaboração interprofissional baseada no campo específico de cada profissão e, 3. na construção de um campo comum de intervenção com a partilha de práticas entre os profissionais, de forma indistinta1. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Ellery, A. E. L. (2012). Interprofissionalidade na Estratégia Saúde da Família: condições de possibilidade para a integração de saberes e a colaboração interprofissional (Tese de Doutoramento, Fortaleza: Universidade Federal do Ceará). Disponível em http://www.repositorio.ufc.br/handle/riufc/7086 1

Suzana Duarte Professora-Adjunta na Unidade Científico-Pedagógica de Enfermagem do Idoso, é especialista em Enfermagem Médico-Cirúrgica pela Escola Superior de Enfermagem Dr. Ângelo da Fonseca, Mestre em Saúde Pública (Universidade de Coimbra) e Doutora em Ciências de Enfermagem, pela Universidade de Lisboa. Participa no “Projeto Antecipar a experiência de ser idoso”, coordenado pela Professora Doutora Maria de Lurdes Almeida, com a participação dos Professores Doutores Alberto Cavaleiro e Isabel Gil.

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43. FORMAÇÃO E TRABALHO INTERPROFISSIONAL Vítor Rua

Enfermeiro Gestor Agrupamento de Centros de Saúde Baixo Mondego

Apesar de ser teoricamente consensual considerar a saúde como um campo transdisciplinar, ao observarmos as práticas, percebemos que a organização dos serviços se faz, na maior parte das situações, de forma fragmentada. Os ganhos em saúde resultam cada vez mais do trabalho de diversas áreas profissionais, com profusão de saberes e competências, pelo reconhecimento da natureza holística das necessidades dos doentes e suas famílias, o que levou à constituição de equipas multidisciplinares como garante da resposta integrada aos seus problemas, em que os profissionais de diferentes áreas têm de trabalhar em conjunto, como uma equipa. A equipa, sendo constituída por profissionais com conhecimentos, linguagens e experiências diferentes e competências próprias, deve centrar-se no seu foco de atenção – o doente e a sua família – tendo objetivos e missão comuns. A intervenção concertada de todos os profissionais na abordagem da pessoa como um todo e projetada nas verdadeiras necessidades da mesma, deve acontecer mediante uma organização norteadora da ação, com objetivos comuns, e baseada numa relação de cooperação e diálogo – a interdisciplinaridade. As vantagens do trabalho em equipa sobrepõem-se muito a todas as dificuldades, permitindo ultrapassá-las. A dinâmica de uma equipa depende da sua composição, estrutura e interações, e a eficácia do seu trabalho requer a integração de conhecimenEducação e trabalho interprofissional em saúde

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tos de cada profissional, em cada momento, em função das necessidades das situações. A adoção de uma conceção comum de cuidados, abordagem conjunta de problemas que se considera serem de todos, colocando as suas capacidade e competências no interesse comum, são o paradigma do trabalho em equipa. A tomada de decisão deve, neste contexto, basear-se no trabalho interdisciplinar, em que se verifica consensualização de objetivos, apoio mútuo, reconhecimento, partilha de experiências e saberes, e decisões difíceis. Entendendo a interdisciplinaridade como um paradigma, este tipo de organização funcional exige uma flexibilidade nas regras hierárquicas e técnicas que regem o funcionamento da maior parte dos serviços. A interdisciplinaridade preserva a autonomia de cada uma das profissões, e constrói-se a partir de um nível avançado de trocas e cooperação entre as diferentes áreas. A experiência pessoal de treze anos numa equipa de Cuidados Paliativos que assumiu desde o seu início o trabalho interdisciplinar como metodologia, em que profissionais de diferentes áreas profissionais (médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, entre outros) participam ativamente na definição e consensualização de objetivos e intervenções, e os resultados obtidos em termos de eficácia e eficiência, de satisfação dos doentes e famílias e também dos próprios profissionais, leva a reforçar a convicção de que este é o caminho a seguir. O trabalho em equipa, contudo, não pode ser apenas uma experiência de um serviço ou de uma unidade funcional. Tem de ser uma cultura, transorganizacional, na qual a formação dos profissionais para este paradigma é fulcral, cabendo neste aspeto às Universidades e Escolas Superiores um papel de extraordinária relevância na sua construção. Cumprir o paradigma do trabalho interdisciplinar é um esforço de todos quantos pugnam pela melhoria da qualidade da resposta dos serviços de saúde em qualquer dos seus níveis, fazendo valer a máxima de que “sozinhos vamos mais rápido, mas juntos chegamos mais longe”.

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Escola Superior de Enfermagem de Coimbra


Vítor Rua Costa • Enfermeiro Gestor no ACeS Baixo Mondego • Especialista em Enfermagem de Reabilitação • Pós-Graduação em Gestão Hospitalar e Serviços de Saúde • Formação especializada em Cuidados Paliativos

Educação e trabalho interprofissional em saúde

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Vítor Rua Costa • Enfermeiro Gestor no ACeS Baixo Mondego • Especialista em Enfermagem de Reabilitação • Pós-Graduação em Gestão Hospitalar e Serviços de Saúde • Formação especializada em Cuidados Paliativos

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Educação e trabalho interprofissional em Saúde  

Monografia publicada pela Escola Superior de Enfermagem de Coimbra por ocasião do Dia Mundial da Saúde e das comemorações, em 2021, dos 140...

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Monografia publicada pela Escola Superior de Enfermagem de Coimbra por ocasião do Dia Mundial da Saúde e das comemorações, em 2021, dos 140...

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