Recomeçar - Testemunhos de vida

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RECOMEÇAR Testemunhos de vida PROJETO PERSONA



Recomeçar Projeto Persona Testemunhos de vida



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Prefácio

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Apresentação

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O Mundo Pelos Pés De Nuno

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O Mundo Paralelo De Carolina

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Crohn(ologia) De Uma Vida

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Liberdade

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Carrer Catalunya

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Segue o Teu Destino

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A Vida Requer Coragem

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Um Acidente Inesperado

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Os Dois Lados

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Olho De Hórus

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Perdido Sem Ti

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Um Exemplo De Superação

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Posto à Prova

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Que Este Clamor, Vibre Imortal!

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“Casamento Falhado, Filho Esquecido...”



Prefácio L a educación debe reimaginarse. Debe

repensarse, deconstruirse y volver a combinar los elementos que la conforman de otra manera, con otra relación. Aprender y formarse, no puede ser ir acumulando los contenidos que prescribe el currículum sin un sentido y una relación clara con la vida y el entorno. Por esto es tan importante establecer, dentro del proyecto educativo de cada escuela y con la capacidad que da su autonomía funcional, una propuesta del perfil del egresado específico que se quiere trabajar y proponer, y concretarlo en proyectos en las aulas que lo lleven a la realidad… Y este es el caso del PROYECTO PERSONA, actividad educativa transversal que tiene por objetivo desarrollar las habilidades y competencias humanas vinculadas al trabajo colaborativo en equipo, la comunicación, la empatía y la gestión emocional y el proyecto de vida de cada alumno. Así, conociendo mediante entrevistas las vidas y puntos de vista de distintos interlocutores del entorno, lo alumnos van percibiendo y entretejiendo hilos de vida que interpelan sus propios pensamientos, ideas y enfoques vitales… y de esta manera, como en un espejo, esta actividad educativa impulsa y devuelve vida… Y al fin y al cabo, esto es lo más importante en la escuela… Ojalá estos testimonios de vida y este recomenzar de este libro haga entrar con más fuerza la realidad y la vida en la escuela, y sobre todo hagan crecer y desarrollarse humanamente a los alumnos que lo han realizado. Estoy seguro que este es muy buen camino para reinventar la educación, y felicito por ello a los alumnos y profesores de la Escuela de Comercio de Porto que han realizado este interesante trabajo. Por Xavier Aragay.

A

educação deve ser reimaginada. Deve ser repensada, desconstruída e reformulada com os elementos que a compõem, de outra forma e com outra relação. A aprendizagem e a formação não podem ser a acumulação dos conteúdos prescritos pelo currículo sem um sentido e uma relação clara com a vida e o ambiente que nos rodeia. É por isso que é tão importante estabelecer, dentro do projeto educativo de cada escola e com a capacidade que sua autonomia funcional dá, uma proposta do perfil do currículo específico que queremos trabalhar e propor, e concretizá-lo em projetos nas salas de aula que o levem à realidade...E este é o caso do PROJETO PERSONA, uma atividade educativa transversal cujo objetivo é desenvolver capacidades e competências humanas ligadas ao trabalho em equipa, comunicação, empatia e gestão emocional e ao projeto de vida de cada aluno. Assim, sabendo através de entrevistas, as vidas e pontos de vista de diferentes interlocutores da sua comunidade, os alunos percebem e entrelaçam os fios de vidas que desafiam os seus próprios pensamentos, ideias e abordagens vitais ... e desta forma, como num espelho, esta atividade educativa impulsiona e devolve a vida ... E afinal, esta é a coisa mais importante na escola... Esperamos que estes testemunhos de vida e este RECOMEÇAR façam com que a realidade e a vida entrem com mais vigor na escola e, sobretudo, que os alunos que o fizeram cresçam e se desenvolvam humanamente. Por Xavier Aragay.

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Apresentação “Sempre há uma outra chance, uma outra amizade, um outro amor, uma nova força. Para todo fim, um recomeço.” - Zirtaeb Onamaac

R ecomeçar! Significa ter a coragem de romper com o que já não interessa e o discernimento

de mudar de rumo. Olhar para o passado reconhecendo os erros, ou simplesmente rejeitar o que já não faz sentido ou não queremos mais. Viver o presente como uma dádiva e uma oportunidade. Os testemunhos de vida que servem de narrativa a este livro foram recolhidos pelos alunos da Escola de Comércio do Porto (ciclo de estudos 2017/2020) e fizeram com que cada um deles compreendesse vivências, que só conseguiriam ser entendidas ao “calçar os sapatos do outro”. Através de estórias reais, os nossos alunos convidam-nos também, a nós, a mergulhar na leitura de um livro que nos espicaça a entrar na intimidade de pessoas que rejeitam ser agentes passivos de uma aventura desafiante e intimidante a que chamamos “Vida”. Este livro é um dos frutos do Projeto Persona, pensado e concretizado pelo Serviço de Psicologia da Escola de Comércio do Porto (ECP), no âmbito do projeto de Autonomia e Flexibilidade Curricular que a escola aderiu logo na sua fase piloto. A ECP é uma escola profissional em atividade desde 1990, especializada na área do comércio e dos serviços que tem vindo a ter um papel fundamental na capacitação, educação e formação dos jovens e, também, na formação e requalificação de adultos. Na sua missão educativa foi definido o modelo de pessoa que se pretende formar, tendo como referencial “O perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória”, que além dos conhecimentos e competências profissionais referentes a cada qualificação, aposta no desenvolvimento de capacidades, atitudes e valores fundamentais neste mundo globalizado e complexo. O foco da aprendizagem é um perfil humanista, assente num modelo de pessoa que os torne pessoas colaborativas, comprometidas, criativas e comunicativas (os “4 C’s” do aluno ECP). É neste âmbito que o livro “Recomeçar, Testemunhos de Vida” se reveste de um valor extraordinário e especial, pois é o resultado do trabalho colaborativo de alunos, professores e comunidade local em que o treino das competências, antes mencionadas, visam a promoção de uma educação para a cidadania ativa, centrada em padrões éticos de humanismo e solidariedade.

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Na Escola de Comércio do Porto, um aluno tem a sua individualidade respeitada, conforme o contexto em que nasceu e cresceu, mas a ela é acrescida a educação e formação com padrões de excelência, através do contacto com outras culturas mediante as mobilidades Erasmus+; a integração em empresas de múltiplos quadrantes sectoriais; a participação em vários eventos culturais; o estabelecimento de um projeto de vida desafiante, inspirador, mas real e, sobretudo, integrado num ambiente de simplicidade e proximidade, com a alegria e o entusiasmo que toda a comunidade educativa dedica aos seus jovens alunos. Este livro – Recomeçar, Testemunhos de Vida – transmite a dimensão ética de sabermos colocarmo-nos no lugar do outro, na medida em que implica, juntamente com os valores pelos quais nos guiamos, um modo de estar na vida e ver o mundo. Para todo fim, um recomeço! É com esta crença que vos convidamos a mergulhar nestas aventuras de vida, onde cada indivíduo e cada experiência apresentados, são únicos e singulares. São estórias contadas e registadas. Nunca cairão no esquecimento! Boa leitura! Pela Equipa Pedagócica ECP. Ana Mestre (diretora).

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O Mundo Pelos Pés De Nuno



Q uando conhecemos o Nuno, não passou despercebida a sua elevada estatura e o seu “afro hair”. Com um estilo descontraído e simpático fez com que nos apercebêssemos que estávamos diante de um ser único. Quem é o Nuno? Ele descreve-se como “alguém que acredita. Isso não é um adjetivo propriamente dito, mas eu acredito em coisas boas, acredito no bem e que podemos fazer mais e melhor. Sou alguém extremamente versátil e muito flexível, consigo adaptar-me ao que quer que seja e acho que sou alguém simples, no sentido em que acho que não preciso de muita coisa, acho que consigo estar bem no meio da simplicidade.” Mas afinal qual é a verdadeira história do Nuno? Não podemos falar dele sem mencionar que o seu Mapa Mundo está quase preenchido. Até aos 18 anos teve uma vida igual a tantos jovens da sua idade, mas, a partir daí, a sua vida começou a mudar radicalmente. Partiu para Inglaterra em busca de um futuro melhor e aí passou os três anos seguintes a estudar Ciências Políticas. Quando terminou, seguiu para a Holanda, onde realizou o seu mestrado em Estudos Europeus, seguiu-se uma passagem pela Bélgica, entrando no Secretariado Europeu do Ambiente e na Alemanha trabalhou no Secretariado das Nações Unidas. Era um sítio fantástico, à beira rio, num castelo recuperado para escritórios, algo que nos remetia aos verdadeiros contos de fadas. Depois de tanto tempo longe, decidiu voltar às suas origens. Regressar a casa, ao país onde nasceu e cresceu. Esta decisão fez com que matasse as saudades e continuasse a trabalhar a partir de Lisboa a ter contacto com outras partes do mundo. Continuou na sua área de estudo e ingressou na Política Internacional com Israel, Palestina e Líbano. A procura de conhecimento é uma parte integrante da sua personalidade, a correr de uma universidade para a outra, entre Porto e Lisboa, frequentando cursos simultaneamente, o tempo tornava-se difícil de gerir. Como dizia Saramago, “O tempo, ainda que os relógios queiram convencer-nos do contrário, não é o mesmo para toda a gente”. Na história do Nuno, definitivamente não é, pois revela ser um homem cheio de garra, força e vontade para ir mais além. Com tanto esforço e dedicação, conseguiu uma bolsa de doutoramento nos Estados Unidos. Este passo importante na carreira do Nuno foi interrompido de forma dramática por uma notícia chegada de Portugal. Tinha sido diagnosticado um cancro, já em estado avançado, ao seu pai. Coincidência, ou não, entrevistamos o Nuno no dia do pai, que era o seu herói e a quem só disse o último adeus quando lhe realizou o maior desejo. Em pleno mês de julho de 2013, na Suíça, quando as temperaturas estavam muito elevadas, o Nuno fez aquilo que nunca tinha pensado fazer a prova de triatlo mais dura de sempre, um IronMan. Esta prova consiste em nadar 3,8 km, pedalar 180km e correr uma maratona, tudo isto com um limite de 17 horas. Esta prova extremamente exigente, requer uma força de vontade enorme, que era o que não lhe faltava.

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Apesar de todos os contratempos e obstáculos ele não desistiu, mesmo sendo, segundo as suas palavras “um desafio que não me pertencia”. Ele nunca se sentiu sozinho, pois a presença do pai esteve continuamente com ele ao longo da prova, o que lhe deu alento para cruzar a meta. Emocionado, verteu uma única lágrima do olho direito, sinónimo de felicidade e realização. Como não é uma pessoa de baixar os braços, não deixou que a ausência do pai o condicionasse, continuou a viajar e a experienciar momentos inesquecíveis. Mas a vida não deixou de o surpreender: voltou a deixar os seus planos em pausa, desta vez para cuidar da sua avó, a quem tinha sido diagnosticada uma doença terminal e que acabou por lhe falecer nos braços. Cuidar da sua avó fez-lhe relembrar os velhos tempos, de quando tomava banho numa bacia no quintal. Porém, a sua infância humilde não influenciou o modo como crescera e teve uma infância feliz. No fundo, apesar da dor de estar a perder a sua avó, sentiu que a sua partida seguia a ordem natural das coisas. Cuidar da sua avó, apesar de ter sido uma das experiências mais difíceis, foi também uma das mais bonitas. Outro momento inesquecível na vida do Nuno passou-se em Timor, quando estava ao serviço das Nações Unidas e se encontrava alojado num convento de freiras. Numa noite de céu estrelado, uma das freiras deu pela falta de uma doce senhora que no seu quotidiano costumava ir à missa. Preocupados, foram à sua procura. Ao chegar à habitação da senhora desaparecida, depararam-se com uma barraca: 4 paus, terra batida, chapa no telhado e uma mulher toda enroscada na cama. Quando entraram não puderam deixar de sentir um cheiro nauseabundo. A senhora estava praticamente a morrer de uma forma tenebrosa! Eram visíveis buracos nas costas por onde larvas e formigas entravam e saíam cena de um filme de terror. Com os cuidados necessários, aparentemente parecia estar a recuperar e melhorar, mas passados dois dias acabou por falecer. Do ponto de vista do Nuno, morreu de uma forma digna e a sentir que alguém se preocupava com ela. Depois de ouvirmos o Nuno, concluímos que, para ele, o que realmente importa são estas pequenas ações. Ajudar os outros de boa vontade e sem esperar nada em troca – este é o seu lema. História de Cátia Silva, Inês Monteiro, Ana Moreira e Ana Baptista.

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O Mundo Paralelo De Carolina



Numa família normal, numa casa onde tudo corria de forma habitual… um casal apai-

xonado e recém-casado encontra-se numa situação de horror, uma situação que tornaria a ser a rotina durante 11 anos e que envolveria dois filhos menores, que nem capacidades de entender tinham, quanto mais de se defender... Uma história que marcaria a vida de todos de forma a moldar suas personalidades e características. Aos olhos da filha mais velha, que na altura tinha menos de 8 anos de idade, a sua vida era normal como uma criança vive, “ia à escola (...)”, “nunca me faltou nada, eu era feliz”. Quando voltava para casa entravam para o “mundo paralelo”, um lugar horrível que marcou a vida das crianças e da mãe, um lugar onde o pai já não era pai e mãe já não tinha direitos. Antes de aprofundarmos o que se passava no “mundo paralelo” é importante realçarmos a relação que Carolina (a filha mais velha) mantinha com os seus avós maternos, um laço que, segundo a própria, foi muito importante para sua vida, tal como uma relação que Carolina manteve com um colega de escola. João Pedro era mais velho e no início da relação era muito “mauzinho” para Carolina, mas quando ela mais precisou dele, tudo mudou e os dois intensificaram muito uma amizade. Carolina esteve um mês sem voltar à escola e quando voltou ele parecia que tinha visto um “Deus do Céu”, como se tivesse sido a “luz dele”, e, desde então nunca deixaram de se falar. Carolina era uma miúda que sempre se deu mais com os rapazes do que com as raparigas, ela considera-se uma “maria-rapaz”, então brincava mais com os “rapazitos” e tinha uma boa ligação com eles. Porém Carolina sempre destacou a sua amizade com o João Pedro. Um fator a destacar-se é que, até ao 4º ano, Carolina não tinha problemas alguns em relação às notas e desempenho escolar. Porém, do 5º ao secundário as coisas mudaram... A atenção e a vontade acabaram e ela só conseguia pensar em deixar as coisas acontecerem naturalmente. Já no 8º e no 9º as coisas correram mal e Carolina acabou por repetir nas duas oportunidades. Essas mudanças drásticas na sua vida deram-se, justamente, por tudo o que corria no “mundo paralelo”. Na altura, Carolina não tinha grande ligação com o seu pai porque chegava a casa, ele não estava e de manhã, quando saía, estava a dormir. Não havia qualquer tipo de ligação entre os dois, poderemos dizer que o vínculo que existia entre eles era uma questão de amor e ódio, por ser seu pai e pela má ligação que tinham. O facto de o pai maltratar a mãe provocava em Carolina um sentimento de revolta. A relação entre os pais já não era boa e isso provocava sentimentos de fuga por parte da mãe, por muito que tentasse evitá-la essa seria a única saída. Isso porque, no mundo paralelo, o que acontecia eram agressões diárias verbais e até físicas... com o passar do tempo era sempre “Eu vou mudar”, e depois ele pede desculpa, muda durante uns tempos, oferece algumas prendas para se redimir e quando tudo parece bem, as coisas voltam ao mesmo, agressões físicas, violência psicológica e dúvidas de traição.

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É até mesmo difícil para os dois irmãos lembrar ao certo como as coisas eram quando tudo estava bem... “lembro-me de alguns episódios dos mais fortes e tenho a noção de que a violência era diária”. “Todos os dias observávamos violência em casa eu e o meu irmão” diz Carolina ao introduzir o terrível episódio que terminaria com o irmão espancado pelo próprio pai. A única reação que as crianças tinham era chorar! Apesar de quererem muito ter uma atitude de “não faças isso ou… nós não deixamos isso acontecer”, porém nunca tiveram esse tipo de reação. A violência física existia diariamente, assim como a violência psicológica que também estava presente na relação familiar. Podemos destacar como as atitudes mais recorrentes, os insultos, o maltratar, a desconfiança e o dizer que a mãe tem outros homens ou que os filhos não são dele.… questionando a paternidade dos mesmos. Estas palavras eram tão persistentes que se tornou a rotina lá de casa. A minha mãe dizia que “o pai poderá consumir algumas substâncias psicoativas e álcool”, talvez como tentativa de justificar tais atitudes. Porém, a nossa entrevistada refere: “nada justifica a violência”, “não consigo perceber o porquê de ele fazer isso!”. O que é certo é que a avó paterna de Carolina contava que o seu filho já tinha visto o seu próprio pai (avô de Carolina) a ter este tipo de comportamento e daí … a mesma história se repete em gerações diferentes. O episódio que decidimos destacar foi-nos detalhado pela nossa entrevistada como sendo o mais traumático e violento de todos os momentos vividos nessa época com o pai (Carolina emocionada…). Nesta altura, o pai estava desempregado, no entanto, queria o dinheiro que a mãe recebia (por ser a única a trabalhar em casa). Os rendimentos eram baixos, por isso, as despesas da renda da casa e do infantário das crianças eram pagas de dois em dois meses. Carolina diz-nos que num final de mês, depois de a sua mãe receber o rendimento mensal, o pai de tom agressivo pede-lhe esse dinheiro com o propósito de gastar com outras mulheres; era essa a vida que ele tinha durante as noites e voltava desnorteado para casa já de manhã, apenas para dormir. No episódio que contamos, o pai pediu-lhe dinheiro, a mãe recusa e uma pequena discussão inicia-se. Nessa altura, a família estava com muitas dificuldades financeiras, não tinham luz em casa, estavam à luz das velas. A mãe tinha trazido jantar da casa da avó materna que prontamente tinha o hábito de ajudava de quando em quando. O pai de forma muito intensa e agressiva decide que a família não irá alimentar-se daquele jantar e chateado decide fazer outro. Assim o fez, e todos jantaram num ambiente tenso e incómodo, findo foram para a cama em silêncio. A mãe deitou Carolina de forma carinhosa como o habitual. A casa era um espaço amplo onde a sala, o quarto da mãe e o quarto dos filhos eram muito próximos, toda a divisão era apenas separada por armários. “O meu irmão Miguel não tem um rim (diz-nos Carolina) e com quatro anos ainda dormia de fralda habitualmente com a nossa mãe, uma vez que o pai numa estava presente”.

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Continuando o episódio que estamos a contar… o pai não sai naquela noite, decide ficar e não quer o Miguel no quarto com a mãe. Os ânimos levantam-se, inicia-se assim uma grande discussão. A mãe recusa, argumentando que quem deveria de lá estar era o filho. Revoltado o pai começou a bater no Miguel dando-lhe umas ligeiras palmadas, dava umas palmadas e o menino nem chorava só dizia que queria “fazer chichi, fazer coco, ir beber água, comer...” A mãe tentava agarrá-lo para que isso não continuasse ou não se agravasse ainda mais, mas à medida que o filho pedia mais coisas “irritava” o pai, ficava mais agressivo até que a certa altura perdeu os limites e completamente desequilibrado começou a “bater como se não houvesse amanhã”. De repente as luzes apagaram-se e já não se via nada, apenas ouviam-se gritos de desespero por parte da mãe e do filho. Carolina no seu quarto, com medo não sabia o que se passava, mas quando acordou viu que o irmão tinha a cara e o rabo completamente roxos e com as marcas da mão do pai, a mãe com o seu rosto igualmente roxo e maltratada. Nessa manhã, por mais difícil que fosse a mãe levou os filhos ao infantário. Porém a educadora disse que não podia tomar conta deles. Facilmente identificou um quadro de violência doméstica e, sendo assim, não seria possível ficar com as crianças naquele estado. Falaram com a diretora do infantário, onde foram levados diretamente para uma sala reservada, perguntaram-lhe o que tinha acontecido. Posto isto, foram levados ao centro de saúde, onde foram examinados. O médico passou imediatamente uma carta de urgência ao hospital, dada a drástica situação clínica em que o Miguel se encontrava. No Hospital São João, mais especificamente no instituto de medicina legal, a criança foi fotografada e levada à realização de vários exames. Nesse dia não regressaram a casa, foram encaminhados para um posto de abrigo, porém infelizmente, não existiam vagas. Como alternativa, esta família foi conduzida para o Hospital Pedro Hispano, onde permaneceram durante uma semana, como forma de os proteger do agressor. Se a história até aqui já não é absurda, o capítulo que se inicia no domingo a seguir, serve como ponto chave para percebemos o que acontece depois. O pai ressabiado, quando soube onde estava a família, cinicamente vai ao encontro deles. Como não existia um mandato judicial que o impedisse de os ver, friamente demonstra o seu direito de pai e permaneceu como se nada fosse junto da família. Ao fim daquela semana uma assistente social que mais parecia um “anjo” chegou para os salvar daquela terrível situação. Em conversa com a mãe das crianças, esta assistente diz “Se você continuar com o seu marido, não a podemos ajudar em nada e ficará sem os seus filhos. Se você quiser continuar com eles estamos a abrir uma porta para isso.” Neste instante, ao perceber o que se estava a passar, o pai começou a ficar bastante irritado e maltratou toda a gente que estava à volta. Fez ameaças e mais ameaças. Entretanto entrou o corpo de intervenção e seis policiais tentam acalmar os ânimos. A ajuda desta assistente social foi de extrema importância, uma vez que mãe e filhos, felizmente, foram afastados do agressor.

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Um dos grandes motivos pelas quais situações de violência doméstica são tão comuns na nossa sociedade, passa pela queixa das vítimas junto das autoridades. No entanto, o certo é que sabemos que depois de algumas horas, regressam junto dos agressores, o que faz com que as vítimas fiquem ainda mais frágeis. Hoje, após 15 anos Carolina encontra-se em paz, trabalha no que gosta e diz-nos que ajuda muitas pessoas, pois este gesto tão nobre preenche o seu coração, conseguiu superar a mágoa e tristeza do passado e encontrou o caminho na sua vida. Neste momento trabalha e projeta entrar no ensino superior. A história de Carolina, infelizmente, coincide com tantas história com que nos deparamos cada vez mais em Portugal e no mundo. Tivemos o interesse em contar esta narrativa, pois acreditamos que esta mulher é uma vencedora e pode incentivar e ajudar muitas pessoas que estão a passar pela mesma situação. A violência doméstica tem de acabar! Todos deveriam ser civilizados e entender a gravidade de tais situações, não só para a vítima, mas também para todas as pessoas que estão próximas! História de Ana Rita Reis, Lucas Grillo, Gonçalo Oliveira e Luís Mendes.

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Crohn(ologia) De Uma Vida



No ano do assassinato de Martin Luther King nasceu Augusta Fernandes. Humilde e simpática, Augusta é uma mulher de estatura baixa, sorriso na cara e algo vaidosa. A maior parte do seu tempo é dedicado a ajudar os outros no lar de idosos onde trabalha, embora também goste de sair com as amigas e passar longos períodos com a família. Desde a infância a viver em Rio Tinto, Augusta encontrou cedo o que muitos procuram a vida toda. Ainda muito jovem conheceu o amor da sua vida, com quem casou e teve, em 1987, o seu único filho. Nuno sempre foi um menino feliz. Com as suas brincadeiras de criança, era o menino da mamã e, apesar de ter uns olhos verdes encantadores, capazes de conquistar qualquer rapariga, na sua vida, nem tudo corria pelo melhor… Desde muito cedo, Nuno era diferente das outras crianças. Durante a gravidez, Augusta sofreu de toxoplasmose. Como consequência, Nuno nasceu com a parte motora esquerda semiparalisada (hemiparesia esquerda). Para recuperar, Nuno precisava de sessões de fisioterapia, obrigando a mãe a trabalhar arduamente para pagar as elevadas despesas. O esforço de Augusta foi compensado e, lentamente, Nuno foi melhorando, embora não ficasse totalmente curado por se tratar de uma doença irreversível. Os anos foram passando e Nuno revelou-se um aluno responsável e dedicado, tendo concluído o ensino secundário na Escola Secundária de Rio Tinto. Terminados os estudos começou a trabalhar, embora não tivesse gostado das primeiras experiências. Na empresa LIPOR tinha contacto direto com o lixo todos os dias e, muitas vezes, chegava a casa triste. Nesses momentos, desabafava com a mãe sobre o cheiro a lixo, que não aguentava, pois só lhe apetecia lavar-se com lixivia. No entanto, devido à toxoplasmose, acabaria por ser dispensado, ficando desempregado. Sem perspetivas de conseguir um emprego decidiu fazer uma formação em hotelaria, pois queria muito ajudar a mãe com as despesas. Na altura, Nuno tinha uma namorada que vivia e trabalhava em Inglaterra. Apesar das tecnologias, um namoro à distância é complicado, motivando Nuno a inscrever-se num curso de língua inglesa e a comprar enciclopédias para o ajudarem a familiarizar-se com a língua. Quando se sentiu preparado fez as malas e rumou a Londres, para se juntar à namorada. Através de um amigo conseguiu um trabalho num restaurante, mas nem tudo correu bem, pois vivia em condições desumanas. Os quartos eram pequenos, as camas desconfortáveis e o rendimento quase não chegava para pagar as contas. Insatisfeito, começou a enviar currículos e conseguiu um emprego num hotel onde o alojamento estava incluído na mensalidade. Em contrapartida, trabalhava de sol a sol (terminava às duas da manhã para retomar às sete da manhã). Quando falava com a mãe mostrava-se desesperado, dizendo que não aguentava. A mãe tentava motivá-lo a procurar um novo emprego e Nuno assim fez. Conseguiu emprego num hospital privado a cuidar de idosos, onde ainda hoje trabalha. Entretanto, durante a sua permanência em Londres iniciaram os problemas de saúde de Nuno.

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Começou a padecer de uma simples dor de apêndice e, após alguns exames, foi submetido a uma cirurgia. Como a dor permanecia repetiu exames e descobriu sofrer da doença de Crohn (uma inflamação no intestino, em que a pessoa pode estar sujeita à utilização de um saco, em que o intestino é transferido da barriga para a zona abdominal). No caso de Nuno, como o intestino estava muito deteriorado, foram-lhe colocados dois sacos na barriga e uma fissura (dreno) na zona intestinal, sem possibilidade de reconstrução do intestino. Atualmente, Nuno precisava de fazer uma nova cirurgia, mas devido à sua falta de peso, não a pode realizar. Em Portugal, Augusta reagiu muito mal ao saber que o filho tinha a doença, embora nada pudesse fazer. A doença de Crohn não era estranha para Augusta, pois um dos seus irmãos mais velhos sofria do mesmo mal, embora cada caso seja único e diferente. A relação entre Nuno e Augusta sempre foi muito forte. Toda a vida estiveram juntos, exceto nesta etapa da sua vida, em que Augusta não o pôde acompanhar de perto. Por serem tão próximos e unidos, Augusta não aguentou a distância, comprou os bilhetes de avião e foi ao encontro do filho, em Inglaterra. Quando lá chegou, Nuno já tinha sido operado e estava em recuperação. A forte união que os une faz com que Augusta tenha muita vontade em deixar tudo para estar ao lado de Nuno, mas o marido não partilha a mesma opinião. Não quer abandonar o país, por não dominar a língua inglesa e por recear não encontrar um emprego onde se sinta confortável. Augusta deixaria tudo para ir ter com o filho, pois sente-se familiarizada com a língua inglesa e tem um emprego garantido: iria trabalhar com o filho no lar de idosos. Atualmente, Nuno encontra-se em Londres e os pais em Portugal. As saudades são muitas e a distância ainda as aumenta mais. Augusta prefere que o filho permaneça em Londres, onde tem os cuidados necessários que, em Portugal, talvez não tivesse. Nuno ganha o seu próprio dinheiro, tem uma vida estável… desde que Nuno esteja feliz, Augusta é feliz. Em contrapartida, nas épocas festivas como, por exemplo, o Natal, ambos vão trabalhar porque, desde que Nuno foi para Inglaterra, estes períodos não são passados em família. Tudo mudou na vida desta família e todos sofreram muito com o percurso de Nuno e com os seus problemas de saúde. Mas, apesar da dor é preciso ser forte. Apesar de, em alguns momentos, parecer que não é possível aguentar e tudo puxar para o fundo do poço, questionamos o porquê de nos ter acontecido a nós porque numa família… quando um sofre, sofrem todos! História de Andreia Barbosa, Daniela Carvalho e Jéssica Santos.

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Liberdade



M arlene vive em Vila Nova de Gaia, com os seus tios e o seu afilhado. Como a entrevistada referiu, o maior obstáculo que enfrentou foi o facto de a mãe ter emigrado. Esta refere que quando a mãe foi trabalhar para o estrangeiro sentiu muita saudade e um vazio enorme. Marlene é estudante atual na Escola Comércio do Porto no 11º ano, pretende ingressar no ensino superior e já tem uma vaga ideia daquilo pretende fazer no futuro: tornar-se empresária por conta própria, embora não tenha grandes ideias, ainda.

Após uma breve apresentação referiu o que idealiza para o seu futuro. Esta refere que, neste momento, não é feliz porque está longe da mãe e não se tem deparado com situações fáceis. O seu passado foi pautado por duas relações que tem algo em comum: Na primeira relação amorosa com a duração de cinco anos, o que também não lhe trouxe momentos aprazíveis. Ela refere que o ex-namorado usufruía de plena liberdade, enquanto ela não, “estava presa”, referindo que estava fechada na sua casa, tendo sofrido muitas traições e muito jogo psicológico. Acrescentou, ainda, que não perdoou, e não esqueceu, mas conseguiu colocar um “basta” quando percebeu que aquela não estava a ser bom para ela, e estava a estragar a sua vida. Passados alguns meses, Marlene começou-se a envolver na noite para se “abstrair” e começou a tomar certas drogas muito prejudiciais e viciantes. O expectável aconteceu: tomou uma caixa de comprimidos, um “mix” de vários comprimidos, e esteve em coma durante dois dias. Depois desta explicação perguntamos por que não é feliz sendo que esta relação já acabou há dois anos? A nossa entrevistada, muito emocionada, referiu que quando se sentia preparada para ter outra relação, e deu oportunidade a alguém, essa pessoa magoou-a. Nesta última relação que durou meio ano, Marlene sofreu vários tipos de violência: psicológica, verbal e física. Depois deste acontecimento, superou esta mágoa, com ajuda dos amigos e com o apoio da família. Acrescentou, ainda não perdoou, e não esqueceu, mas conseguiu colocar um “basta” quando percebeu que aquela relação não estava a ser boa para ela, estando a prejudicar-se a todos os níveis. Passados alguns meses, a Marlene começou-se a envolver na noite para se “abstrair” e começou a tomar certas drogas muito prejudiciais e viciantes. Marlene admite que teve medo em certas decisões, receando das reações da parte do rapaz. Ela confessou-nos que se arrepende de ter deixado este ambiente chegar a este ponto, na sua mente ainda existem e persistem consequências das suas vivências, tal como, falta de confiança nas relações interpessoais, de tal forma que não se conseguir envolver noutra relação. Marlene refere que ainda hoje esconde muitas situações e não as conta porque tem medo que tenham pena dela… Se pudesse voltar atrás, desacreditava destas relações, como por exemplo ao primeiro sinal colocaria um ponto final, sendo que não acabou porque em ambas as relações, faziam-lhe acreditar que iam mudar.

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Nesta última relação, Marlene descobriu que sofreu traição e que o sentimento não era mútuo… sentia-se usada. Descobriu esta situação passado meio ano, e em relação a esta pessoa sente rancor, ódio, nojo, e daqui para a frente vai fazer de conta que ele não existe, no entanto, referiu que é bastante difícil. Marlene afirma: “daqui para a frente, deposito toda a confiança na minha família, nos meus amigos e no meu futuro, apenas”! Continuou desabafando e afirmou que não se deve confiar em ninguém e não se deve entregar a ninguém, logo ao primeiro sinal. História de Bibiana Sousa, Cassandra Ventura, Diogo Almeida e David Coelho.

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Carrer Catalunya



No ano em que nasceram duas cantoras famosas da atualidade (Rihanna e Adele), nasceu também Isabel Pinto, uma rapariga que nasceu com condições de vida humildes, mas isso não a impediu de crescer como uma criança feliz e alegre. Foi criada e educada no bairro Fonte da Moura, pela avó, numa casa com três quartos, uma casa de banho e uma cozinha e sala de estar juntas. O bairro tinha conflitos com outros bairros, por vezes havia roubos, desacatos e havia tráfico de droga, mas Isabel era nova e não tinha noção do que realmente se passava por lá. O bairro tem cerca de 1.566 habitantes e fica situado na União de Freguesias de Aldoar. O dia a dia no bairro para uma criança era divertido, com brincadeiras desde que se levantavam até que se deitavam. Frequentou a primária da Fonte da Moura até ao 4º ano e concluiu o 5º ano na escola de Manuel de Oliveira. Não se adaptou à escola devido há ausência de amigos, o que afetou o seu rendimento escolar, fazendo com que reprovasse três vezes no 7º ano. Decidiu mudar de escola e frequentar a escola Fontes Pereira de Melo, acabando depois por fazer um curso de práticas administrativas no Bonfim. Isabel tirou o curso de práticas administrativas para concluir o 9ºano e começar a trabalhar imediatamente após o finalizar. Isabel, na sua adolescência, era uma rapariga magra e de baixa estatura, com o cabelo encaracolado castanho claro, era divertida e muito humana. Apesar de não ser uma rapariga estudiosa, era inteligente e curiosa, sempre teve vários amigos e muito unidos. Aos 16 anos conheceu o amor da sua vida e que, mais tarde, viria a ser seu namorado. Era alto com cabelo e olhos castanhos, adorava jogar futebol e era muito divertido. Ela andava na escola quando se conheceram, a paixão entre eles começou a surgir quando o rapaz, depois de sofrer um acidente, foi parar ao hospital o que levou a Isabel a visitá-lo todos os dias. Ambos partilhavam uma grande sensibilidade, uma imensa vontade de ajudar o outro e ter uma vida melhor. Apaixonou-se de tal modo que o acompanhou numa viagem a Andorra para ver o nascimento de um primo do namorado. Encantou-se com a cidade e viu uma oportunidade de melhorar a sua vida. Não podendo mudar-se de imediato por ter apenas 17 anos, esperou cerca de dois meses para completar os 18 anos e começar um novo capítulo que esperaria que fosse melhor. Embora fosse complicado separar-se dos seus pais e do resto da família, a Isabel ganhou coragem e agarrou uma oportunidade que não podia deixar escapar, pois também tinha a ajuda dos pais e da família do namorado, que acabou por facilitar a adaptação. Uma das dificuldades que Isabel teve na mudança foi a adaptação à nova língua que não dominava (catalão e francês), embora no início tivesse algum receio, principalmente no trabalho que exercia, com o tempo foi ficando mais fácil comunicar, contando com a ajuda dos colegas que também eram portugueses.

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Não teve dificuldade em arranjar casa, pois os primos já tinham selecionado algumas casas para a Isabel visitar, mas durante um mês teve que viver na casa dos primos do namorado. Depois de alguma procura, conseguiu arranjar um apartamento onde esteve durante meio ano, mas o nascimento do primeiro filho trouxe novas exigências para o casal e decidiram mudar-se para outro apartamento, no qual esteve nove anos. Mais tarde mudou novamente de casa devido ao nascimento do seu segundo filho. Neste momento vive numa casa grande situada na rua “23 Carrer Catalunya” numa cidade rodeada de montanhas. A Isabel teve o primeiro filho aos 18 anos em Andorra. No início chorou muito, porque não estava nos seus planos ter um filho tão jovem e tinha medo de não conseguir fazer o melhor por ele, mas depois sentiu-se concretizada por ser mãe. Estava ansiosa pelo momento de estar com o seu filho nos braços e o mais positivo neste imprevisto, é que ia estar sempre ao lado dele durante a vida toda. Aos vinte e um anos casou-se finalmente com o seu namorado. O casamento foi feito pelo conservatório e os padrinhos do casamento foram os pais da Isabel. Foi um dia cansativo, esteve presente a família toda e de seguida foram para um restaurante onde a mãe de isabel era cozinheira e fizeram lá a festa. O vestido de Isabel era bege e o fato do namorado era preto. A vida fora do país não era fácil devido à distância, as saudades apertavam e a Isabel não via a hora de ir de férias a Portugal para estar com a sua família, contudo com o passar dos anos a Isabel foi-se adaptando. A experiência de vida que a Isabel quer transmitir é que tem de se viver um dia de cada vez e que é com os erros da vida que nos tornamos melhores pessoas. A vida de emigrante não é fácil como as pessoas dizem, pois é muito difícil estar longe de quem mais se gosta. Os anos passam e nem se dá conta, a vida de emigrante é de trabalhado, porque se não se trabalha não se consegue viver. As pessoas têm a ideia de que os emigrantes são ricos. Se fossem ricos não estavam fora do seu país a ganhar dinheiro para sobreviver. Ter dois filhos é a melhor coisa do mundo, são muitas vezes o suporte para seguir a vida em frente, por eles faz-se tudo, dar uma boa educação e terem princípios. Em relação a trabalho, existem boas condições, com horários flexíveis e sobretudo respeito. História de Tiago Pinto e Rodrigo Matos.

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Segue o Teu Destino



Vamos contar a história de Márcia Marqueira que nasceu a 24 de setembro de 1995 e é

natural do Porto. Vive com os avós no Porto e é treinadora de futebol, tal como sempre foi. A Márcia inicialmente estudou na escola Irene Lisboa e no secundário no Rodrigues de Freitas, passou ainda um ano na Faculdade de Letras, mas acabou por tirar o curso de treinadora na Associação de Futebol do Porto. As figuras mais presentes da sua infância foram os avós maternos, pois passou muito tempo com eles e são o seu grande pilar. A sua infância foi igual a tantas outras: brincava, fazia disparates e de resto bastante tranquila com muito carinho. Aos nove anos o pai saiu de casa, os pais divorciaram-se e a sua guarda ficou ao cuidado dos seus avós. Dois ou três anos depois perdeu o contacto com a sua mãe e considera que esta a abandonou, mas respeita a decisão dos pais se afastarem. Acredita que os últimos anos lhe têm corrido bem e que é uma privilegiada com a vida quem tem. Antes de ser treinadora era jogadora de futebol, começou a jogar por gosto e porque o avô também jogava, assim como o pai. Depois do gosto veio a paixão e descobriu que o futebol era muito importante para si e era o único lugar ao qual sentia que pertencia, o único sítio que sabia que enquanto desse o que tinha, a modalidade não a ia abandonar nem virar as costas. Era o seu lugar de conforto, e por isso a sua paixão.

A Márcia jogou futsal dos cinco aos nove anos e dos nove aos vinte jogou futebol e só deixou de praticar quando se lesionou no joelho. Estava a jogar no CCD (Clube Cultural e Desportivo), mesmo local onde decorreu a nossa conversa com a Márcia. Era um jogo contra o Leixões, para impedir o remate da melhor jogadora da equipa adversária, a Márcia pôs-se à frente da jogadora e em vez dela rematar a bola rematou o seu joelho. Posteriormente precisou de ser operada e fazer uma reconstrução do joelho, necessitando de recorrer à fisioterapia para voltar a ganhar mobilidade. Face à evidência de não poder jogar, sentiu um grande choque e sem saber o que fazer a seguir, sentiu que a vida a tinha traído. Decidiu não ser vítima, pegar no que lhe tinha acontecido e fazer algo positivo daí, aliás, esse sempre foi o seu lema tanto na vida pessoal e familiar como também no futebol, pois é preciso ter paixão por aquilo que se faz e admite que a carreira de treinadora acabou por lhe correr bem. Com a lesão aprendeu que consegue viver sem jogar, não consegue é viver sem um objetivo. Por esse motivo, considera que a lesão que teve no futebol foi muito importante para o seu crescimento. Decidiu ser treinadora tendo como modelo o seu próprio treinador, o Mister Brito que lhe disse “segue o que tu gostas de fazer”. A Márcia sempre tentou perceber o jogo e a motivação do Mister levou-a a ser treinadora. Sente orgulho em partilhar essa paixão com os outros e ajudar os mais pequenos ou até mesmo colegas com quem já tinha jogado, a evoluir, pois é uma tarefa gratificante para si e sente a satisfação de como se fosse ela a jogar.

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Tornou-se treinadora aos 21 anos, tem ao seu cargo os iniciados e os seniores, admite que os seniores dão mais trabalho, principalmente as seniores femininas. A Márcia é uma pessoa muito focada no presente e não mudaria nada do passado, apesar de ter vivido situações familiares difíceis. Relembra com tristeza o dia da mãe e dos colegas a professores dizerem “as mães vão estar sempre ali para ti” nesta altura a Márcia soltou uma gargalhada irónica e continuou: “olha a minha foi-se, e foi-se porque quis. A decisão foi dela e eu só tenho de aceitar e respeitar, pois não é por ser da minha família que tem de sentir amor por mim, que tem de ter um laço forte. Eu aceito isso e aprendo com isso.” A Márcia honra-se da sua palavra até ao fim, independentemente do que a vida trouxer. Quando se olha no espelho gosta do que vê e gosta de si, foca-se no presente, sente-se extremamente equilibrada, que é o que considera ser o mais importante. Leva como lição do seu passado que o essencial é ser feliz mesmo com as dificuldades que a vida nos vai trazendo. Aprender a ser feliz e perceber que as pequenas coisas são as que realmente contam e quando aparece “um puto de seis anos que quando marca um golo no treino tem de ter necessidade de vir para o colo e abraçar-te e dar beijinhos, ok isso é felicidade”. A nível pessoal sabe muito bem saber que consegues fazer alguém feliz. Todos nós temos alturas menos boas e passamos demasiado tempo a pensar sobre elas, mas as coisas boas vêm depois. Depois de pensar e respirar fundo! A Márcia acredita que a vida é justa pois sabe que é possível rir e chorar com a mesma intensidade, é necessário encontrar o equilíbrio e essa é a lição mais valiosa que ela aprendeu. Considera tudo o que passou e poderá passar para encontrar o equilíbrio. História de Luana Monteiro, Maria Soares, Rafaela Oliveira e Marco José.

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A Vida Requer Coragem



No ano de 1975, na cidade de Gondomar Adélia Nogueira nasceu. Hoje com 43 anos é uma mulher viúva e com dois filhos. Considera que a sua infância foi espontânea e maravilhosa. Viveu na altura em que não havia computadores, telemóveis nem televisão, brincava na rua e viveu a liberdade de uma infância simples e solta, como a de outra criança qualquer, mas mais genuína. Adélia foi mãe pela primeira vez aos 18 anos e confessou-nos que ficou assustada quando descobriu que estava grávida, teve o apoio necessário do seu companheiro e da família, apesar de sentir que muitas das pessoas ao seu redor a criticavam, em silêncio, por engravidar tão cedo. Acalentava a perfeita consciência de que a sua vida iria mudar. Teria de crescer e amadurecer rapidamente perante tal responsabilidade e, naquela altura, tornou-se o seu foco principal. A gravidez correu normalmente, conseguiu focar-se em si própria e no seu bebé, de forma esperançosa e positiva. Passaram três anos e com todo o apoio do seu marido e família, considera que foram anos muito felizes, tendo sido a melhor fase da sua vida, até que num dia trágico, o seu marido, pai do seu filho, perdeu a vida num acidente de trabalho. Para Adélia este dia “foi como uma bomba, de manhã tu despedes-te do teu marido e quando chegas a casa nunca mais o vês. É uma coisa que não se explica”, ela sentiu-se “sem chão”, em choque e desamparada, mas conseguiu superar tudo isso pelo seu filho. O Diogo com apenas três anos, ainda não tinha a plena consciência do sentimento de perda. Costumava perguntar infinitas vezes pelo pai e a mãe, Adélia costumava dizer “O pai foi para o céu, é uma estrelinha que vai estar sempre a olhar por nós.”. Apesar de tudo e com o decorrer dos anos, lidou bem com a situação por ser uma criança bastante comunicativa, social e que teve sempre pessoas que o adoravam e ajudavam. Adélia refere que, Diogo com vinte e seis anos ainda tem recordações do pai. Apesar deste acontecimento triste na sua vida, sente-se uma mulher forte e guerreira por ter conseguido fazer o papel de ambos os progenitores e, como tal, nunca baixou os braços. Sente que o seu filho não sofreu muito com a ausência do pai, pois tinha o tio que era muito presente na vida de ambos e passados dez anos, Adélia conseguiu refazer a sua vida, encontrando alguém, a quem denominou “o seu anjo da guarda” que a apoiou e assumiu o papel de pai. Desde o fatal acontecimento, já passaram vinte e três anos. A nossa entrevistada afirma que atualmente é uma mulher feliz, que tem um bom marido e outra filha com dezessete anos. Ela caracteriza o seu passado com “Força, luta, mas amor. O amor superou tudo!” Aconselha a outras pessoas que estejam a passar pelo mesmo a lutarem por aquilo que acham melhor para elas, para não ouvirem o que os outros dizem, pois se o tivesse feito provavelmente não tinha tido a sorte que teve. Não se arrepende de nada. História de Rafaela Barroca, Leonor Sousa e Ana Santos.

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Um Acidente Inesperado


No dia 25 de setembro de 1975 nasceu o Fernando José Teixeira de Oliveira que mora até aos dias de hoje no mesmo lugar onde nasceu, São Pedro da Cova. Todos o consideram uma pessoa determinada e solidária. Com apenas 22 anos decidiu ingressar como voluntário nos Bombeiros Voluntários de Gondomar, onde fez formação para prestar o serviço pré-hospitalar. Enquanto não terminava a formação, o Fernando apenas podia desempenhar funções não urgentes, ou seja, transportar pessoas do hospital até casa. Quando completou o seu treino, iniciou o processo como bombeiro. O Fernando explica-nos que aprendia diariamente com as novas experiências que tinha ao serviço das emergências e dos incêndios rurais, urbanos e industriais. Compreendia tudo como tarefas importantes e enriquecedoras, mas o que ele realmente gostava de fazer, eram os serviços de emergência em ambulâncias. Passados quatro anos de ter ingressado nos bombeiros voluntários de Gondomar, surgiu uma situação que foi muito marcante na sua vida. Ele estava com sua filha mais velha num ensaio da Fanfarra dos Bombeiros Voluntários de Gondomar da qual ela fazia parte, quando foi solicitado um bombeiro para efetuar uma urgência médica. O Fernando Oliveira não hesitou e disponibilizou-se para a fazer, foi até ao carro o mais rápido possível buscar o colete dos bombeiros e correu para dentro da ambulância na qual já se encontrava a equipa dele e foram até ao local. A viagem tinha sido rápida devido ao facto de a ocorrência ser muito próxima do quartel. Já no local, deparou-se com um caso horripilante: um homem que aparentava ter cerca de trinta e poucos anos que se contorcia no chão, a gritar com dores agonizantes. Só dizia: “Tirem-me as dores, tirem-me as dores!”. Quando abordaram a vítima depararam-se com queimaduras de nível acentuado acima da cintura do individuo. Eram queimaduras às quais ele e a sua equipa não podiam dar resposta, pois era necessário um suporte avançado, por isso iriam precisar de um médico no local para efetuar o respetivo tratamento. Começaram por colocar a vítima dentro da ambulância e a colocar compressas com soro fisiológico em todas as queimaduras, enquanto isso, o motorista solicitava apoio diferenciado. Foi-lhes enviado um carro de emergência médica com um médico ou enfermeiro, a equipa entrou em contacto com o carro médico e estes disseram que iriam prestar assistência na rotunda mais próxima. Deslocaram-se a grande velocidade para lá e foi onde a médica e o enfermeiro entraram na ambulância começaram a prestar os cuidados à vítima. Depois de lhe administrarem a dose máxima de morfina e o estabilizarem, iniciaram o transporte para o hospital. Quando chegaram ao hospital, a vítima totalmente medicada, foi diretamente enviada para a sala de urgências onde os enfermeiros começaram a retirar todas as peles queimadas que tinha no corpo. Ele lembra-se que no rosto não havia qualquer tipo de queimaduras. À saída do hospital estiveram à espera da maca na qual o doente foi transportado, já que os enfermeiros estavam a fazer todo o processo na maca da ambulância.

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Quando foi possível a devolução da maca, puderam retornar a base. O Fernando recorda que a ambulância ficou com um cheiro muito forte e que o colete que usava, ficou uma semana no arame depois de lavado, pois o cheiro estava entranhado. Foi uma lembrança negativa, pois viu como aquele homem sofria. O Fernando explicou que tudo aquilo aconteceu porque o homem estaria a assar sardinhas com o telemóvel à cintura, com o calor a bateria do telemóvel sobreaqueceu e explodiu, provocando todas aquelas graves queimaduras. Depois desta experiência, decidiu deixar uma mensagem para todos: “Nós descuramos muito a segurança com os telemóveis e muitas das vezes estamos com o telemóvel a fazer chamadas enquanto está a carregar, outras das vezes vamos com ele no carro a apanhar sol”, relembra que cada telemóvel tem uma bateria que passa por vários níveis de segurança, mas que não está isenta de rebentar e já houve muitas histórias por aí em que as baterias rebentaram e infelizmente, por vezes resulta em ferimentos graves. Temos que ter muito cuidado ao usar o telemóvel, quando este está a carregar, não o devemos usar, o que não quer dizer que não podemos mandar uma mensagem, mas encostar ao ouvido não aconselha. Relembra que “Devemos estar atentos ao sobreaquecimento, pois isso pode fazer com que rebente.” O Fernando passou por momentos bons, como também por momentos menos bons, momentos gratificantes e frustrantes. Para ele, o verdadeiro lema de um bombeiro é “sabemos que vamos, mas não sabemos se voltamos”, mas isso não o fez mudar de ideias. A cada serviço que fazia havia uma vida por socorrer, salienta também que um bombeiro pode passar por situações extremas, mas ele tem que estar preparados para tal, e o mais gratificante é ouvir um simples “obrigada” proferido do fundo do coração. São momentos destes que marcam a vida do Fernando. História de Gabriel Oliveira.

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Os Dois Lados



A entrevista iniciou-se no dia 24 de março pelas 22h30 e a nossa entrevistada tem por nome Marina Rubim. Mãe solteira de dois filhos: Pedro Rubim de 17 anos e Lisandra de 10 anos. Atualmente mora no Bairro de Francos, na cidade do Porto e tem 37 anos. Para Marina a família é, sem dúvida, a parte fundamental da sua vida, descreve-a como maravilhosa, diz-nos que é nela, com todos os defeitos e qualidades de uma família comum, que se encontra realizada, os seus filhos são o motivo da sua vida e o maior orgulho para uma mãe. Marina fala-nos da relação que mantem com a sua mãe Cidália Santos, uma relação de afeto e cumplicidade, embora a relação com o seu pai não tenha sido a melhor. Descreve-nos um episódio de separação, devido ao sequestro organizado pelo seu próprio pai. Este é o momento em que a nossa entrevistada nos fala do acontecimento de separação da sua mãe que aconteceu aos seis anos de idade, memória ainda bem presente até hoje. Nesta altura, os seus pais divorciam-se e decidem viver em casas separadas, porém permanecendo na cidade do Porto. Esta fase da sua vida é-nos relatada de forma bastante difícil, porque, revela-nos Marina, para uma menina tão pequena, andar de casa em casa não foi possível manter uma forte ligação entre as duas. Recordemos acontecimento de um lindo dia de sol quando o seu tio paterno Paulo a vem buscar para uma visita ao seu pai Ângelo Rubim. Prontamente, Cidália lhe calçava as botas e lhe penteava os seus longos negros, quanto Marina se depara uma forte intuição ou uma espécie de instinto de menina e, nesse instante, esta criança disse espontaneamente: “tu nunca mais me vais ver porque eles nunca me vão trazer”. Cidália numa tentativa de a tranquilizar, conforta-a com as seguintes palavras: “tu és tola, é claro que eles te vão trazer, não sejas maluca”. Assim foi…O pressentimento de Marina estava correto. Os dias passavam e o pai recusava a entregar a menina. Desesperada e com receio, Cidália não podendo aguentar mais tempo sem ver a sua amada filha entram com um processo em tribunal, solicitando os seus direitos; o direito à guarda da menina. Neste impasse de processo judicial, Ângelo cegamente tenta influenciar a boa relação entre mãe e filha, com o objetivo de ferir o sentimento que existe entre as duas. Nesta fase de “elástico” Marina, triste e desolada sem saber o que lhe iria acontecer, sofria em silêncio, estava frágil e insegura, facilmente influenciável. Para uma mente de seis anos, acreditava nas palavras dos adultos. A vivência nesta fase permanente com o seu pai permitiu a má influência de um adulto que mais uma vez tinha o objetivo não de criar uma criança com amor e afeto, mas sim fortalecer um orgulho e uma raiva que sentia por parte da família de Cidália. Este efeito provoca “confusão” na mente da menina e sem pensar, se é que uma criança de seis anos consegue decidir, em tribunal opta por ficar com o pai. O juiz, prevalece as palavras da menina e dá o veredicto final. A guarda total de Marina fica a favor do pai. Morar com o seu pai foram os piores anos sua vida, em vários sentidos. Marina ficou uma menina ainda mais revoltada, sentia-se diferente dos outros. Nos momentos de medo, nostalgia e insegurança procurava refúgio nos braços da sua mãe. Estas procuras tornaram-se rotina, até que um dia, Marina não volta para junto do pai, fica no calor e conforto da sua antiga casa.

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Surpreendentemente Ângelo cede porque, na verdade, o importante é ver a sua filha feliz. Marina fala-nos de um passado afastado, superou e perdoou o seu pai. Hoje é grata porque, reconstruiu a ligação que mantinha com a sua mãe. Continuando ainda a entrevista, diz-nos que talvez ainda sente algum arrependimento, pelo facto, de em tempos ter ignorado a sua mãe, porém sabe que uma criança é facilmente influenciável e não tem maturidade suficiente para compreender o que na verdade é o caminho mais certo. Hoje em dia está serena com a vida que construiu, contudo percebemos que apesar de feliz, existe uma sensação de medo que de algum modo a persegue, porque subtilmente, já no final desta entrevista, Marina deixou vir ao de cima o medo de um dia perder a sua mãe. Será este medo de perda que ficou no passado na memória da menina e prevalece ainda hoje? História de Bernardino Saraiva, Fernando Costa, Jorge Carvalho e Pedro Rubi.

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Olho De Hórus



No ano de 1981, na Maternidade Júlio Dinis, no Porto, nascia Virgínia França. Natural de São Pedro da Cova, concelho de Gondomar, Virgínia cresceu numa terra de minas de carvão. A sua infância foi risonha e feliz, vivida entre o carinho e o apoio dos pais e os constantes desafios dos amigos para “roubar” a fruta do tio, que vivia na casa ao lado. Lembra-se de tudo, afirmando que a consequência era apenas um ou outro raspanete dos pais, que a repreendiam pelo comportamento. Mas as recordações não ficam por aqui! Também se lembra de quando a bisavó a chamava para comer meloa, pois era a única pessoa com quem ela conseguia comer fruta. Na sua vida académica, concluiu o liceu e completou duas licenciaturas: uma em Ciência de Computadores, na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, porque queria algo que lhe garantisse emprego e essa licenciatura era a melhor opção, outra em Psicologia Social, na Universidade Aberta, pois esta licenciatura seria uma ferramenta que a iria ajudar a trabalhar com as equipas que liderava. Porém, para suportar as despesas da faculdade, começou a trabalhar com 17 anos de idade na loja Morgan de Toi. Quem a conhece sabe que é uma pessoa muito extrovertida, porque se ri muito. Por essa razão, nem sempre a levam a sério, mas quando conhecem o seu lado profissional e dedicado, veem que se trata de uma pessoa em quem podem confiar e com quem podem contar. Porém, o facto de ser uma pessoa extremamente sincera e genuína reservou-lhe algumas inimizades. Na sua opinião, deve um pedido de desculpas aos seus pais, porque foi uma adolescente irreverente e obstinada na sua convicção de que estava sempre certa e era “dona” da razão. Agora, vê-se a repetir com o filho as mesmas discussões que tinha com os pais. Destaca como momento mais importante o nascimento do seu filho, responsável pela mudança radical que ocorreu na sua vida. Os médicos tinham-na alertado para o facto de não poder ser mãe, mas, mesmo assim, engravidou três meses antes de lhe retirarem o útero. Passou oito meses da gravidez na cama e, para ela, o nascimento do seu filho foi um sonho tornado realidade. Felizmente, algumas pessoas já a fizeram sentir-se especial: a irmã, por exemplo, é uma das que mais orgulho tem nela, repetindo-lhe incessantemente que gostaria de ter a sua força, determinação e garra. Gosta muito de cantar! Por essa razão, o seu marido e a sua irmã inscreveram-na no programa de talentos “Ídolos”, tendo respondido a este desafio com um “porque não?”. Foi uma boa experiência, mesmo nos momentos em que não acreditava no seu talento, ou naqueles em que bloqueava sempre que as câmaras estavam por perto. Algumas pessoas não gostaram de a ouvir, mas havia muitas outras que adoraram! Vê, na música, o seu refúgio, a forma mais genuína de mostrar ao seu filho o quanto o adora. Ajuda-a não só nos momentos tristes, mas também nos mais felizes. Através da música acede, descreve e compreende os seus sentimentos mais profundos. Para além do “Ídolos”, marcou presença na tropa, no exército, porque considera que as experiências não devem ficar para amanhã.

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No fundo, e apesar de, aparentemente, esta sua experiência não ter tido muita relevância, compreende que a ajudou a perceber que os limites físicos são apenas uma barreira e que, quando realmente desejamos algo, conseguimos superar todas as nossas dificuldades e ir mais além. Os seus pais, bem como o seu marido e o seu filho, são as pessoas mais importantes na sua vida. Foram eles que a ajudaram a ser o que é hoje. Apesar de ter nascido numa zona desfavorecida, fizeram-na acreditar mais em si. Também são o seu ponto de abrigo. Os seus avós já “partiram”, mas o seu avô foi alguém muito importante, pois tinham uma relação diferente de todas as outras. Ela era a menina dele, a sua neta favorita e, embora distante, espera que ele esteja orgulhoso dela. Lembra-se claramente da altura em que tinha quatro ou cinco anos e ele a levava ao café. Sentava-a em cima do balcão para cantar e, no final, recebia um chocolate do avô e do dono do café e 25 escudos de um outro senhor amigo do avô. Com o seu avô, divertia - se muito. Constantemente lhe repetia o quanto gostava dele e o admirava. O seu filho sabe quem ele é, apesar de ter nascido depois de ele ter “partido”, e será sempre relembrado. Espera que o seu filho fale sobre o seu bisavô e como ele era um bom homem aos seus futuros descendentes. Em relação ao seu marido, é o seu melhor amigo. Namoraram desde o liceu e foi o seu primeiro amor. Casou-se com ele, não obstante terem feitios completamente opostos. Como meta para a sua vida elege o conseguir levar todos os seus projetos a bom porto para que ela se torne num exemplo para o seu filho. Acima de tudo, tudo faz e fará para que o seu filho acredite nele próprio, lute por aquilo que quer ser e tenha a capacidade de sonhar ao máximo e de conquistar. Transmite às novas gerações que podemos ser o que cada um quiser, independentemente da opinião dos outros. O importante é que toda a gente pode chegar onde quiser. Basta lutar pelos nossos objetivos e nunca desistir! História de Catarina Correia, Miguel Alves e Nuno Coelho.

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Perdido Sem Ti



F rancisco vive em Vila Nova de Gaia, tem 18 anos e atualmente frequenta o curso Técnico de Marketing, na Escola Comércio do Porto. A sua infância foi baseada em momentos de amargura e de relatos inesquecíveis vividos com os seus amigos e os seus dois irmãos, irmão gémeo João de seis anos e André, irmão mais velho de 12 anos. Os amigos que dela fizeram parte marcaram longas aventuras, entre peripécias e brincadeiras, porém, algumas histórias ficaram, ficaram de tal forma vincadas nas memórias, que ainda hoje prevalecem. Francisco, menino de seis anos, no ano de 2006, depara-se com uma triste tragédia, que irá prevalecer no resto da sua vida. Dificuldades que foram difíceis de ultrapassar, de imediato um forte impacto, de uma notícia que o marcaria para o resto da sua vida… o falecimento do seu irmão mais velho André, figura líder, protetor e mentor das brincadeiras mais engraçadas entre eles. O André sofria de leucemia desde tenra idade os prematuros seis anos do Francisco, não lhe concederam a plena consciência da realidade em que o irmão vivia, daí o forte impacto desta fatalidade na vida desta criança. Dias longos de sofrimento e amargura... a leucemia era a doença que ele confrontava, ajudando o irmão de todas as maneiras possíveis, entre lágrimas e memórias... o fim chegara. O coração destroçado, o corpo fragilizado, os dias cinzentos e as memórias eram recordadas... os momentos que passaram juntos nada mais eram agora que antigas memórias. Fechado em casa, rodeado por quatro paredes sem poder ver a luz do sol, a beleza do céu... tudo lhe parecia escuro e de certa forma agoniante. Sem quaisquer tipos de força para superar tal acontecimento... entre os seus próprios sofrimentos tudo parecia cada vez mais perdido, nada podia ele fazer. Família e amigos, dois aspetos fulcrais para que conseguisse, de certa forma, superar alguns pensamentos que lhe tiravam a esperança de algum dia voltar a ver o irmão. Os membros familiares apoiaram de diversas maneiras, tendo assim de certa forma acalmando o seu estado de espírito de tão vulnerável e enfraquecido que estava… Os pais e seus familiares de corações quebrados, sem ferramenta alguma que os conseguisse concertar tinham um papel fundamental nesta fase negativa na vida do Francisco, tentando ampará-lo e direcioná-lo para um caminho mais certo e com menos sofrimento… Para este rapaz ainda frágil, no que toca a esta dolorosa realidade, sofre de saudades notórias, de certas brincadeiras passadas com o seu irmão, de várias e longas risadas, a nostalgia ainda permanece. Memórias que irão ficar para o resto da sua vida. De acordo com Francisco, a morte do seu irmão ainda hoje o abala… Mas à medida que o tempo foi avançando, tornou-se mais fácil de encarar e aceitar esta triste realidade. Recordar os acontecimentos passados é algo que assusta a mente do Francisco, pois momentos de grande amargura foram sentidos de uma maneira que nunca tinha acontecido.

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Terminando a nossa entrevista, Francisco emocionado, deixou vir ao de cima uma sensação de culpa porque, no fundo, sente que poderia ter feito algo que permitisse ao André levar as melhores memórias deste plano. “Esteja onde estiver… desejo que fique num lugar harmonioso e bem-aventurado”. Francisco felizmente recuperou desta perda não nega que em certos momentos do seu dia-a-dia se lembra do seu irmão, recordo-o com amor e ternura. Diz-nos que superou, considera-se uma pessoa bastante alegre e, principalmente, uma pessoa feliz! História de Afonso Meireles, Diogo Pereira, João Pereira e Rui Rocha.

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Um Exemplo De Superação



I olanda Raquel Mota Voz de Abreu, de 34 anos, sofreu uma doença designada por Car-

cinoma Papilar na Tiroide, o que fez com que tivesse de retirar toda a sua tiroide. E só após esse procedimento se foi apercebendo que se tinha desleixado da sua saúde e bem-estar. Esta fase começou em 2011, numa consulta médica que a levou a realizar uma ecografia onde verificou o crescimento de um nódulo que já tinha sido descoberto antes, face a essa evidência foi submetida a um controlo anual. Estava numa boa fase da sua vida, tinha um trabalho que adorava, era muito bem-sucedida na empresa e atingia todos os objetivos que tinha proposto a si mesma. Após a descoberta do crescimento do nódulo, um outro médico sugeriu-lhe que fizesse uma biópsia e pediram-lhe para aguardar pelo menos 15 dias pelo resultado. No dia seguinte recebe uma mensagem para que fosse levantar os resultados, o que achou estranho. Foi-lhe então diagnosticado o carcinoma papilar da tiroide. Os pais não tiveram coragem para lhe contar, foi o seu médico o portador da má notícia. Quando soube, não quis escutar mais nada, saiu da consulta foi trabalhar. Toda a gente lhe dizia que dizendo que estava “maluca”, mas mesmo assim ela foi, pois ela gostava realmente do seu trabalho. Na empresa, disseram-lhe para não voltar até a sua situação estar resolvida, pois já tinham conhecimento. No dia 12 de março de 2012 foi operada, toda a sua tiroide foi retirada, esvaziou 23 gânglios que estavam em redor porque alguns já tinham sido invadidos. Foi uma operação muito complicada e demorada, mas tudo correu bem, dentro da normalidade possível. Pensou que a situação estaria resolvida, mas depois de fazer uns exames necessários depois da operação, verificou-se que havia ainda alguns vestígios, sendo que um indicador que devia dar zero, deu valores de oito ou nove ponto tal. Esse momento foi o momento mais duro para ela, pois já estava mentalizada que na operação tinha retirado tudo e entrou em pânico. Teve que fazer tratamento de iodo radioativo, isolada num quarto e sem qualquer contato durante dois dias. Bebia bastante água para que pudesse sair dali mais depressa, pois a água ajudava com que as radiações saíssem do seu corpo, mas só poderia sair dali com um valor adequado de radiação. No dia 17 de março de 2012, pensou que não ia passar daquele dia. Nesse dia perdeu todo o cálcio que tinha no organismo, pois o médico “mexeu” nas paratireoides, responsável pela produção de cálcio. Perdeu a mobilidade e os seus pais não estavam a entender o que se estava a passar. Foi muito complicado! Contactaram o médico e ele disse que era melhor irem para as urgências. Quando chegou, já estava num estado muito complicado em que quase não se conseguia mexer e tiveram que lhe dar uma injeção diretamente no coração, quase que a tiveram que reanimar. O processo demorou algum tempo, pois teve que levar cálcio injetável. Conseguiu voltar a mexer os membros e a cara, foi uma situação muito delicada. Os familiares e amigos chegaram a achar que ela poderia não passar daquele dia. Conseguiu recuperar com medicação reforçada e vitamina D. Depois disso ainda teve que fazer tratamento de iodo e só pode sair no dia 25 de abril de 2012.

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Uma das coisas que a motivava era poder assistir ao concerto dos Coldplay, a sua banda favorita, que ia estar no estádio das Antas (atual estádio do Dragão) no dia 8 de maio. A partir deste momento, foi desanimando cada vez mais e acabou por ganhar imenso peso. Apesar de ter sempre praticado desporto, não estava a praticar e encontrava na comida algum conforto. Sempre com a consciência que gostava de ser mãe, pois já tinha uma relação de vários anos, esta questão da sua saúde foi um abre olhos porque o casal andava sempre a adiar ou porque não tinham emprego, ou porque não estavam efetivos ou porque não viviam juntos. Entretanto já tínhamos reunido as condições todas, mas estavam sempre a adiar e isso fez com que quisessem, mas desta vez não poder. O médico sabia do seu interesse em ser mãe e então em dezembro de 2012 foi novamente fazer o exame. O resultado mais uma vez não deu zero, deu seis, contudo ele sabia do seu interesse em ter filhos e como o valor tinha descido deu luz verde para seguir com o seu plano de vida. Em fevereiro decidiram avançar com o projeto de ter filhos e não demorou muito a ficar grávida. Soube que estava grávida no dia 17 de março de 2013, exatamente um ano depois de pensar que ia morrer. Recorda a sensação de “toma lá”, de presente de Deus, “vais ter o bebê que sempre quiseste para te compensar”. Realmente sente que foi incrível. E assim nasceu o Santiago, em novembro de 2013 e é uma criança fantástica, lindíssimo e saudável, que é o mais importante, foi uma gravidez de risco devido ao seu historial clínico, mas correu tudo dentro da normalidade. Em abril de 2016 nasce o Salvador e os seus filhos passam a ser o foco da sua vida. Deixou de cuidar de si e da sua imagem e quando regressou ao médico, recebeu a notícia de que estava fora de perigo em relação ao seu problema de tiroide, mas que a obesidade mórbida poderia pôr em risco a sua vida. Neste momento, o médico acreditava que já pouco ou nada havia a fazer a não ser um bypass gástrico. Saiu do consultório muito triste, muito desmotivada e foi começando a pensar no que o seu marido lhe dizia muitas vezes: “mas achas que é necessário seres operada? Achas que não vais conseguir sozinha?” Ela achava que não tinha essa força para conseguir sozinha, mas muitas vezes ponderava: “Será que não tenho?” Aí vai a questão crucial da situação. No dia 15 de junho de 2017 voltou ao ginásio que sempre tinha frequentado, mas que tinha suspendido naquele período de tempo. Foi regressando aos poucos porque o Salvador entrou para o infantário, então achou que poderia de vez em quando ir fazendo qualquer coisa. Naquela altura, nem pensava que ia chegar ao que é hoje, mas queria praticar algum desporto porque sempre gostou e tinha algumas saudades.

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Começou tudo por uma brincadeira: fazia umas zumbas, umas danças, umas coisinhas e quando se foi pesar, não se acreditou no valor que lá apareceu. Questionou a PT sobre o valor que lá estava, ao que a PT respondeu que o valor era 130kg, sendo que era o que marcava, mas que não lhe dava esse peso todo. Naquele momento deu-lhe um “clique”, que fez com que mudasse realmente de vida. Tinha muito medo de ser operada, pois já tinha passado por muito, e depois, há sempre problemas associados às operações de redução de estômago. Lembrou-se que tinhas os dois filhos e que eles iriam precisar que ela brincasse com eles. Tomou a decisão de com o seu irmão que esteve sempre a apoiá-la, pois dá aulas de PT e adora desporto. Naquele dia decidiu que não iria mais comer francesinhas nem outras comidas gordurosas, pois todas as segundas feiras ia com o seu marido comer francesinhas. Ele estranhou quando ela disse que não ia e que ia acabar com isso. Ele ficou estupefacto, mas lá concordou em fazer o mesmo, achando que aquilo acabaria por passar. Durante muitos meses, o marido achou que aquilo fosse uma brincadeira e que ela não ia aguentar muito tempo, mas duas semanas depois, ela já tinha perdido 7Kg. Para ela era e não era muito peso perdido, pois ainda não sabia comer bem, havia alimentos que desconhecia, e que agora adora, como abacate e curgete. O paladar “descontrolado” vinhas desde de criança, pois não tinha sido habituada a uma alimentação saudável, mas sim “porcarias”. Ela faz de tudo para que os seus filhos tenham uma boa alimentação e não se percam tanto como ela se perdia em criança. Nessas duas semanas simplesmente cortou os doces (principalmente os bolos), nada de especial, mas isso fez com que perdesse 7Kg em tão pouco tempo. Passadas essas duas semanas ela consultou uma nutricionista, pois queria perder peso, mas não queria ficar flácida. Estava a praticar exercício físico e a nutricionista fez-lhe um plano de musculação para também ganhar músculo, ou retomar o músculo que já tinha antes. Deu-lhe imensas dicas sobre alimentos que não conhecia e que a nutricionista lhe indicou para experimentar e fez-lhe um plano, que foi incrível. Através das dicas que a nutricionista lhe tinha dado, ela começou a elaborar o seu próprio plano, e em 19 de agosto já tinha perdido 19 kg na totalidade, desde o dia 15 de julho. Aí decidiu criar uma página que ajudasse as outras pessoas e a si própria também, pois ainda faltava um enorme percurso. O seu objetivo era perder no total 50kg. Consultou novamente a nutricionista, mas apercebeu-se de que sua única preocupação era que a Iolanda desse uma entrevista para o Jornal de Notícias para ter visibilidade, pois era como uma publicidade gratuita. Não voltou a falar com a nutricionista, deixou de ir às suas consultas e no final de novembro, início de dezembro desse mesmo ano, já estava nos 30kg perdidos, “sempre a bombar”, mesmo sem mudar nada. Ficou mesmo como seu modo de vida, não lhe custou nada, adora aquilo que come e adora praticar desporto, tornando-se mesmo o seu modo de vida.

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Em dezembro, recebeu um pedido da TVI para ser entrevistada sobre a sua perda de peso, ficou um bocadinho reticente, pois seriam precisas imagens. Teve uma tarde inteira com uma jornalista a colocar imensas questões, pois ela tinha criado um Instagram e um blogue e foi através dessas redes sociais que a descobriram. No ginásio perguntou a um professor de quem ela gostava imenso e ele aconselhou-a a ir, pois podia incentivar outras pessoas. Acabou por ir, mas não revelou a ninguém que ia, pois estava um pouco nervosa com os vinte minutos a falar em direto. O que ela acha que realmente fez a diferença, foi não beber qualquer tipo de leite, mas isso ela já fazia, retirou o leite da sua alimentação. Respeita as pessoas que querem beber leite na perda de peso, mas acha que o leite não traz benefícios nenhuns e pode até trazer desvantagens, pois a maior parte da população é intolerante a lactose e não sabe ou têm algum tipo de intolerância. Não bebe refrigerante algum, só bebe água e chá, desde essa altura de mudança não sabe mais o que é beber um refrigerante e não lhe faz falta nenhuma, mas também foi um bocadinho ajudada, porque quando estava grávida do Salvador, o seu segundo filho, enjoou todos os refrigerantes com gás, parecia que ao beber sufocava. E o que realmente foi tirada foi o iced tea, pois ela já não bebia refrigerantes, já não bebia leite, e não comia fritos. Batatas fritas nunca mais comeu na sua vida, um rissol já comeu uma vez ou outra numa festa ou assim, portanto foi fácil deixar. Em 2018 conseguiu atingir os 50kg e agora tem 52kg. Atingiu o seu objetivo, percebeu que era só uma questão de modo de vida. Já está numa altura de maior estabilidade, tanto que não tem feito tantas publicações pois já está cansada, era um ritmo muito “agressivo”, pois sempre que treinava publicava. Foi convidada para fazer um anúncio da Garnier com a Isabel Silva, em maio ou junho de 2018, foi um anúncio divulgado nas redes sociais. Ainda é contactada por marcas para fazer publicidade ou dar o seu testemunho. A Iolanda é um exemplo de superação, de quem poderia facilmente desistir perante as adversidades, mas que escolheu não o fazer! O que aconselha aos que não acreditam ser capazes de mudar a sua vida é visitar o seu blog ou publicações nas redes socias, pois aí poderão constatar a mudança que tomou lugar na sua vida, com evidências. Todos são capazes, se acreditarem no seu potencial e mantiverem o foco. História de Adriana Silva.

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Posto à Prova



O Bruno nasceu na cidade do Porto e cresceu num bairro social da zona do Amial, mais concretamente no Bairro Novo do Amial. Foi criança numa altura em que os jovens passavam grande parte do seu tempo na rua, a jogar futebol, hóquei, voleibol, andavam em grupo de bicicleta, etc. Raramente fazia algo sozinho porque começou a ter uma enorme dependência do seu grupo de amigos do bairro. Esta dependência saudável numa fase de criança alongou-se até chegar a uma idade de adolescência, tendo sido esta uma fase menos saudável, onde o espírito de grupo os fazia sentir os donos de tudo, sabendo que, enquanto grupo, ninguém os impedia de nada. Nos autocarros, por exemplo, faziam barulho, danificavam bancos, escreviam nas cadeiras (de plástico), raramente esperava nas filas de espera que deveriam ser respeitadas. Dentro dos estabelecimentos de ensino que frequentavam, escreviam nas paredes, portas, cadeiras, etc. Basicamente este espírito de grupo levou-os para caminhos de conduta cívica desviantes, mesmo sem ter essa noção, uma vez que isso o fazia sentir bem, pois era parte integrante do grupo. Infelizmente, nenhum dos elementos do grupo tinha qualquer perspetiva de vida de futuro, uma vez que tinham a clara perceção de que tudo era fácil e conseguido sem qualquer tipo de punição. À medida que a idade foi passando a escalada dos seus comportamentos desviantes foi acompanhando os do grupo, iniciando um processo de comportamentos criminais que levaram alguns dos seus amigos a irem parar a estabelecimentos prisionais. Felizmente não foi o que aconteceu consigo. Durante o seu crescimento sempre jogou futebol e acredita que foi o futebol que o “salvou”. Isto porque no contexto do futebol tinha amigos que tinham ambições de se tornarem médicos e engenheiros, despertando em si uma vontade de fazer algo diferente e de poder, também ele, ter uma carreira longe dos amigos do bairro que considerava inseparáveis. Foi então que, já com 18 anos e apenas com o 9º ano, o Bruno decide voltar a estudar para fazer algo diferente. Contrariando todas as expectativas de alguém que cresce num bairro e no meio do crime, decidiu estudar criminologia para combater o crime e assim fez. Durante 4 anos de máximo empenho, conseguiu fazer o 12º ano e licenciar-se em criminologia. Infelizmente a criminologia em Portugal não tinha grande reconhecimento na altura em que terminou o curso e para pouco lhe serviu enquanto saída profissional. O facto de ter entrado novamente no contexto académico e de se ter envolvido a fundo em tudo o que era relacionado com ensino, mais o facto de ter tido toda uma vida ligada ao futebol, deram-lhe uma ideia que hoje considera ter sido brilhante. A ideia passou por procurar um curso de gestão, que era uma das suas paixões dentro do ensino, associada ao futebol. Foi então que decidiu tirar uma licenciatura em gestão do desporto e criar a sua própria empresa de gestão de carreiras desportivas. E assim foi, licenciou-se em gestão do desporto.

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Iniciou o seu projeto da Elite Team - sports career management e tem uma posição de grande responsabilidade dentro de uma empresa de gestão de eventos desportivos, a Toda a Prova. Resumindo, aquilo em que acredita hoje é que o contexto em que nós estamos inseridos diariamente nos molda e faz de nós o que iremos ser no futuro, por isso, é importante fazermos uma boa seleção de quem queremos perto de nós! Hoje quando se cruza com amigos do bairro e lhes diz que tem duas licenciaturas, eles não se acreditam, isto porque só conheciam a parte menos boa de si. História de Bárbara Cardoso, António Gonçalves, Joana Lopes e Luana Borges.

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Que Este Clamor, Vibre Imortal!


O Senhor Major Pedro França nasceu em Gens, Gondomar, no seio de uma família organizada, com toda a hierarquia devidamente colocada à sua volta. Viveu na casa dos seus avôs maternos e os seus avôs paternos viviam a 300 metros dele. A sua mãe era empregada doméstica e o seu pai motorista de pesados, pelo que tinha sempre a sua mãe e os seus avós maternos em casa. Mas ao contrário da sua vida familiar que se manteve estável ao longo destes anos, a sua personalidade evoluiu com o passar dos anos e as suas escolhas. Cresceu gradualmente com a evolução da sua carreira, o seu casamento e o nascimento do seu filho, passando de uma criança muito tímida e acatada, para um homem de responsabilidade. O Major casou-se em 2006 e foi morar para a Foz de Sousa, no mesmo ano, vivendo lá desde 2008. Em 2006, casou e foi viver com a sua esposa, também ela Major num posto similar ao seu em que presta serviços no comando pessoal. O Major descobriu as Forças Armadas durante o secundário. Mesmo sem qualquer referência, observava, atentamente, as feiras de empregos e os sites na Internet. e conforme começou a entender o que eram, e o seu interesse foi crescendo. Assim, aos 18 anos, após a conclusão do 12º ano, mudou-se para Lisboa para ingressar-se na Academia Militar na área de informática. A falta de motivação para continuar a estudar levou a que escolhesse não ir para a faculdade. Concorreu, portanto, à Força Aérea, mas desta vez eram as disciplinas que não correspondiam aos seus interesses. Foi então que em setembro de 2001, realizou uma aptidão militar para ingressar na Academia Militar. Esteve 4 anos no exército, nas armas combatentes, especializando-se em combate a pé, forças ligeiras. Realizou 1 ano chamado tirocínio que é um estágio prático sobre a sua especialidade. Terminando o treino, entrou para os quadros permanentes e a sua primeira colocação foi em São Jacinto em Aveiro, onde permaneceu durante 5 anos. Começando em batalhão de infantaria e paraquedista, em 2006 e 2007 bateu em todas as áreas: a guerra convencional, operações de apoio à paz e apoio humanitário e pertenceu à FRI, Força de Reação Imediata. Em 2011 foi para Regimento de Guarnição nº1 na Ilha Terceira, Arquipélago dos Açores, onde foi Comando de Companhia. Dois anos depois, regressou para o continente e foi Comandante de companhia e Comando de Serviços no Hospital Militar na Avenida da Boavista, sendo responsável pela segurança do hospital e por toda a sua manutenção. Decidiu tomar um novo passo na sua carreia ao frequentar o Curso Oficial Superior, de 2013 a 2016, em Lisboa, após o qual foi promovido a Comandante e colocado no centro de recrutamento de Vila Nova de Gaia na Serra do Pilar, onde é o subchefe desde 1 de setembro de 2017. A primeira vez que lhe atribuíram um pelotão – grupo militar com cerca de 30 elementos- foi quando deu instrução em Abrantes como expirante, tendo um sargento adjunto. Foi nesse momento que começou a sentir que havia um dever moral por todas aquelas pessoas e recrutas. Na verdade, desde o momento em que se candidatou, mesmo estando numa fase de recrutamento, a vontade de incorporar o Exército Português era tanta, que se não tivesse entrado na academia teria ido para o Regime de Contrato, pois sempre se atraiu muito pela área militar.

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Os seus valores, o sentido de missão e tudo o que Exército fazia pelos Portugueses e pelo País, deu-lhe o sentimento que que era através do mesmo poderia realizar o seu sonho. Essa concretização, porém, trouxe também consigo momentos difíceis, como a perda de três camaradas, dois deles seus amigos. Um médico de unidade, num acidente de aviação logo à saída da base, caindo à via afogado. Um soldado, Soldado Pedrosa, falecido num acidente de viação no Afeganistão após o capotamento da viatura em seguia, sendo que se encontrava nela por se ter oferecido para trocar com o colega que conduzia a viatura na torre momentos antes ao aperceber-se que este já ia muito cansado. Também num acidente de viação faleceu também o Comandante do pelotão do Soldado Pedrosa, o Tenente Pesado. O momento mais marcante e crítico na sua carreira foi buscar o seu amigo falecido ao Afeganistão. É algo que ainda lhe ocupa o passamento. O Sr. Major França deslocou-se num avião da Força Aérea, num voo de 10 horas para recolher o corpo do soldado Pedrosa, atendendo a que o seu irmão do falecido era do seu pelotão, ou seja, estava à sua responsabilidade. Esta viagem foi particularmente dura pelo facto de vir com o falecido ao seu lado e pela tristeza que testemunhou no momento entregá-lo à família. A perda do Sr. Pedrosa deixou marcas profundas, quer no seu irmão, também soldado, que muito sentido com o ocorrido, não voltou a ser destacado, quer na mãe de ambos, que já não conseguiria ter no pensamento de ter o seu outro filho no exterior com o risco de o perder. No funeral do Sr. Pedrosa, o olhar do seu irmão, que era uma pessoa alegre bem-disposta e um bom militar, estava num estado lastimável, não deixando de nutrir um grande orgulho para um grande sentido de colocar os que estão a nossa frente em primeiro lugar e deixar de pensar só em nós. Também o Major tem dificuldades em ultrapassar este momento, e, a partir daí, passou a ter outro olhar sobre todos aqueles que via à sua frente, sentindo-se responsável por eles e temendo voltar a passar pelo sucedido. Por outro lado, viveu um dos melhores momentos da sua carreira numa viagem que realizou ao Kosovo, onde pôde, por entre a miséria extrema que viu, ter sempre um sorriso nos lábios para quem lá estava presente. Admirou a bondade dos seus militares, capazes de dar o que tinham e o que não tinham para tentar aliviar o mal de alguém e deixá-los melhor do que os encontraram. Mesmo sabendo que aquilo não iria resolver os problemas deles, puderam, pelo menos durante aquele período de tempo em que estiveram presentes, dar-lhes melhores condições.

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A possibilidade de trabalhar com outras Forças Armadas de outros países, vivenciando uma realidade totalmente diferente, e a disponibilidade que os seus militares tinham para com aquelas pessoas em sofrimento. Refletindo sobre todas as situações ocorridas, o Major reconhece que nunca pensou em desistir, encorajado pela consciência de que em todos os períodos da carreira militar os elementos do exército têm alguém à sua responsabilidade que poderá estar a viver momentos piores que nós. Por isso, quando “eu” tiver dificuldades em lidar com ser responsável por todos os membros da hierarquia, aí é que “nós” temos de estar presentes e dar ânimo mutuamente para continuarmos. A sua vida como militar envolveu diferentes patentes e missões ao longo dos anos, treinando pessoal desde a parte operacional no Exército, em S. Jacinto ao RG1 na Ilha Terceira na área do combate. Viu a evolução do número de homens e mulheres, reconhecendo que não há qualquer impeditivo para que estas possam participar na vida militar, tendo inclusive enviando soldados do sexo feminino para o Kosovo, e reconhece com gosto que cada vez há mais mulheres no Exército. Atualmente é chefe da secção de voluntariados, onde arranja e faz ligações com escolas e diferentes instituições, com o intuito de mandar as suas equipas para fazer divulgação. Tal como ele foi cativado quando era um jovem, a missão do Major é agora encontrar novos recrutas para viverem sob o lema que entoam: “Iremos até onde a pátria for, e seja em paz, ou seja, em guerra, que este clamor, vibre imortal, de mar em mar, de serra em serra. Portugal! Portugal! Portugal!”. História de Beatriz Barros, Tânia Almeida e Joana Pinto.

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“Casamento Falhado, Filho Esquecido…”



Juliana Catarina Valente Oliveira tem 19 anos, reside atualmente em Vila Nova de Gaia com a mãe e com a sua avó materna. Acabou o secundário, no Instituto de Artes e Imagem no curso de Comunicação e Multimédia. Presentemente está a trabalhar na loja H&M, diz gostar do que faz, no entanto, não é propriamente a sua área de formação. Juliana comenta que é uma forma de juntar dinheiro para a sua independência e, portanto, neste momento sente-se feliz com o seu trabalho. O seu sonho é trabalhar no mundo do cinema, a multimédia e a comunicação são áreas que a preenchem, embora em Portugal a realidade cinematográfica é um pouco competitiva e escassa. Por essa razão, ingressar no ensino superior será uma meta a atingir a longo prazo. Refere que a sua família estará sempre do seu lado, sendo esta a sua maior base e o orgulho da sua existência. Para Juliana, a família é o bem que mais valoriza, imagina-se daqui a uns anos construir a sua própria família e ampliar este sentimento tão nobre que sente. Ao longo desta conversa, Juliana foi falando das figuras mais importantes da sua família. As memórias que guarda dos seus avós, sem nunca referir, uma única vez, o papel do seu pai, foi algo que consideramos estranho e decidimos perguntar se existia alguma razão. Perante esta evidência, respondeu que o pai é alguém que ela não tem presente na sua vida, pois, ele decidiu abandonar esse papel, quando tinha apenas cinco anos de idade. A ausência paterna em tão tenra idade não permitiu criar laços entre pai e filha. Apesar de contrariada e insatisfeita, por um vazio de uma ausência de um sentimento de amor, que nunca foi preenchido, a vida ensinou-lhe a viver sem essa presença. Acostumou-se a ser órfã de pai. A nossa entrevistada diz-nos que já sentiu mais saudades do que sente no presente, porque se foi adaptando a essa ausência que não é imputável a si. Por isso, acostumou-se a viver desta forma. Sente apenas, um vazio que provavelmente não vai conseguir preencher durante o resto da sua vida. Apesar de tudo isto, Juliana não sente culpa, porque a escolha foi exclusivamente do seu pai. A nossa entrevistada diz-nos que não o condena, pois teve sempre o enorme apoio da mãe e esta conseguiu preencher, apesar de tudo o papel de um pai. Juliana refere-se a mãe como sendo uma força principal, um exemplo de vida, uma lutadora, uma guerreira, atualmente é o seu maior exemplo e o seu maior pilar. Retrocedendo na história, recordarmos o tempo em que os seus pais ainda eram aparentemente um casal. Um casamento fracassado que ao fim de dez anos não sobrevive à rotina do dia a dia. Nessa altura, a mãe ganhou coragem e de uma forma afetuosa e preocupada, tentou explicar que o casamento dos pais não estava bem e que a partir daquele momento, eles não iriam viver na mesma casa, porém, nada iria mudar – o pai continua a ser pai e a mãe continua a ser a mãe.

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Sabemos que foi uma conversa difícil, como se poderá explicar um assunto tão delicado a uma criança de cinco anos? Seguiram-se momentos de solidão. Os dias, os anos foram passando e o que é certo é que o pai de Juliana a esqueceu. Não existiram visitas, não existiram telefonemas, não existiram prendas de Natal, nem prendas de aniversário. Perguntamos a Juliana se tivesse oportunidade de ter hoje uma conversa com o seu pai, o que lhe diria? Juliana suspira... fica em silêncio alguns segundos e responde “Não sei se algum dia o poderei aceitar.” Continuando a entrevista Juliana recorda a figura do seu avô materno como sendo um elemento fundamental que a ajudou preencher de alguma forma o vazio de um pai que deixou de estar presente. Fala-nos também do momento em que o seu avô faleceu (...suspirou profundo e com emoção). Nesse dia, tudo voltou... um misto de memórias antigas e sensações do passado veem à superfície. A figura de um pai que de alguma forma foi atenuada com a presença do avô, deixa de fazer parte da sua vida. Neste momento, Juliana sente-se abandonada. Perguntamos-lhe qual a relação que tem com a família paterna, diz-nos manter algum contacto, embora essa ligação seja um pouco distante e formal, não se cultivaram laços de afeto nem de cumplicidade. Falando ainda de afetos Juliana relata-nos um episódio ocasional de um encontro com o seu pai no shopping. Um final de dia, acompanhada com alguns familiares maternos, de súbito o seu pai dirige-se para as cumprimentar. Cumprimenta todos os familiares exceto Juliana, isto porque, não a reconheceu. Confrontado com a presença da filha, este homem não conteve as lágrimas e chorou. Pálida e serena conteve-se e não exprimiu uma única palavra. Magoada por não ter sido reconhecida pelo pai, deixa vir ao de cima a dor e o vazio que sempre acompanhou. Ignora o pai e continuou a caminhar pelo shopping. Perguntamos-lhe que conselho daria a pessoas que partilham da mesma história. Não quis deixar a sua mensagem, limitou-se a ficar em silêncio e dizer que cada caso é um caso. História de Ana Valente, Bárbara Sousa e Tiago Teixeira.

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Abril 2020 Editorial


UM PROJETO DOS ALUNOS DO CICLO 2017/2020