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escola de psicanรกlise dos fรณruns do campo lacaniano - brasil

Stylus revista de psicanรกlise

Stylus Rio de Janeiro

nยบ26

p.1-176

junho 2013


© 2013, Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano (AFCL/EPFCL-Brasil) Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta revista poderá ser reproduzida ou transmitida, sejam quais forem os meios empregados, sem permissão por escrito. Stylus Revista de Psicanálise É uma publicação semestral da Associação Fóruns do Campo Lacaniano/Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano – Brasil. Rua Goethe, 66 – 2o andar. Botafogo. Rio de Janeiro, RJ Brasil. CEP 22281-020 - www.campolacaniano.com.br - revistastylus@yahoo.com.br Comissão de Gestão da Afcl/Epfcl- Brasil Conselho Editorial Diretora: Delma F. Gonçalves Ana Laura Prates Pacheco (EPFCL -São Paulo) Secretária: Andréa Milagres Andréa Fernandes (UFBA/EPFCL-Salvador) Tesoureira: Madalena Kfuri Ângela Diniz Costa (EPFCL-Belo Horizonte) Ângela Mucida (Newton Paiva/EPFCL-Belo Horizonte) Angélia Teixeira (UFBA/EPFCL-Salvador) Equipe de Publicação de Stylus Bernard Nominé (EPFCL-França) Ida Freitas (coordenadora) Clarice Gatto (FIOCRUZ/EPFCL-Rio de Janeiro) Angela Costa Conrado Ramos (PUC-SP/EPFCL-São Paulo) Conrado Ramos Christian Ingo Lentz Dunker (USP/EPFCL-São Paulo) Daniela Scheinkman-Chatelard (UNB/EPFCL-Brasília) Geísa Freitas Edson Saggese (IPUB/UFRJ-Rio de Janeiro) Lia Carneiro Silveira Luis Achilles R. Furtado Eliane Z. Schermann (EPFCL-Rio de Janeiro e Petrópolis) Silvana Pessoa Elisabete Thamer (Doutora U.Paris IV/EPFCL - Paris) Eugênia Correia (Psicanalista-Natal) Indexação Gabriel Lombardi (UBA/EPFCL-Buenos Aires) Index Psi periódicos (BVS-Psi) Graça Pamplona (EPFCL-Petrópolis) www.bvs.psi.org.br Helena Bicalho (USP/EPFCL-São Paulo) Henry Krutzen (Psicanalista/Natal) Editoração Eletrônica Kátia Botelho (PUC-MG/ EPFCL-Belo Horizonte) 113dc Design+Comunicação Luiz Andrade (UFPB/EPFCL-Paraíba) Marie-Jean Sauret (U. Toulouse le Mirail-Toulouse) Tiragem Nina Araújo Leite (UNICAMP/ 500 exemplares Escola de Psicanálise de Campinas) Raul Albino Pacheco Filho (PUC-SP/EPFCL-São Paulo) Sonia Alberti (UERJ/EPFCL-Rio de Janeiro) Vera Pollo (PUC-RJ/UVA/EPFCL-Rio de Janeiro) FICHA CATALOGRÁFICA

STYLUS: revista de psicanálise, n. 26, junho de 2013

Rio de Janeiro: Associação Fóruns do Campo Lacaniano Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano – Brasil - 17x24 cm Resumos em português e em inglês em todos os artigos. Periodicidade semestral. ISSN 1676-157X 1. Psicanálise. 2. Psicanalistas – Formação. 3. Psiquiatria social. 4. Psicanálise lacaniana. Psicanálise e arte. Psicanálise e literatura. Psicanálise e política. CDD: 50.195


sumário 07 editorial: Ida Freitas

conferência 15

Colette Soler: A oferta, a demanda e ... a resposta

ensaios

35 45 51 59 67

Raul Pacheco: O real: a resposta da ciência e a resposta do psicanalista Conrado Ramos: A interpretação como valor de verdade e como função poética Bábara Guatimosim: A moral mundana e os princípios da ética do desejo Sandra Berta: A operância psicanalítica... ou pior Leonardo S. Rodríguez: Uma resposta com base em evidência

trabalho crítico com conceitos 75 83 93 101

Ingrid de Figueiredo Ventura: Uma escrita que brota à flor da pele Adriana Simões Marino: A criança nos quatro discursos – o psicanalista diante do infantil Carolina Zaffore: Estado paradoxal do desejo Maria Helena Martinho: O que responde o psicanalista sobre a perversão?

direção do tratamento 111 123 133

Gabriel Lombardi: O conhecimento do sintoma e as opções no fim da análise Dominique Fingermann: Resposta a uma letra em instância Marc Strauss: O que responde o psicanalista?

entrevista 141

Maria Anita Carneiro Ribeiro entrevistada por Luis Achilles Rodrigues Furtado

resenha 155

Leandro Alves Rodrigues dos Santos: Resenha do livro O livro negro da psicanálise

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contents 07 editorial: Ida Freitas

conference 15

Colette Soler: The offer, demand and ... response

essays

35 Raul Pacheco: The real: the answer of science and the answer of the psychoanalyst 45 Conrado Ramos: The interpretation as a value of truth and poetic function 51 Bábara Guatimosim: The mundane morality and the principles of the ethics of desire 59 Sandra Berta: The psychoanalytic operance ...or worse 67 Leonardo S. Rodríguez: A response based on evidence

critical paper with the concepts

75 83 93 101

Ingrid de Figueiredo Ventura: A piece of writing which blossoms upon the skin Adriana Simões Marino: The child within the four discourses – the psychoanalyst before the infantile Carolina Zaffore: Paradoxical state of the desire Maria Helena Martinho: What does psychoanalyst answer about perversion?

the direction of the treatment 111 123 133

Gabriel Lombardi: The awareness of the symptom and the options at the end of the analysis Dominique Fingermann: Response to a letter in instance Marc Strauss: What answers the psychoanalyst?

interviewed 141

Maria Anita Carneiro Ribeiro interviewed by Luis Achilles Rodrigues Furtado

reviews 155

Leandro Alves Rodrigues dos Santos: Review of the book The black book of psychoanalysis

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Editorial

Editorial Em julho de 2012, ocorreu o VII Encontro Internacional da IF – EPFCL, no Rio de Janeiro, contando com a participação de psicanalistas de diversas partes do mundo, membros ou não da IF – EPFCL, que apresentaram e debateram seus trabalhos em torno da pergunta: O que responde o psicanalista? Ética e clínica, que se tornou tema para o atual número de Stylus, e do que virá em seguida. Portanto, em sua maioria, os textos aqui publicados foram apresentados no referido encontro. Assim é que inauguramos Stylus 26 com a conferência proferida por Colette Soler – A oferta, a demanda e a resposta – na qual, partindo de uma distinção da posição atual dos analistas em relação às de Freud e Lacan, se pergunta: “Como se fazer passar ao ato, em cada caso, a oferta já ali na cultura?” E responde à questão marcando a diferença entre o saber e o saber-fazer do analista, distinção fundamental que leva Lacan a dizer que o analista só é responsável no limite de seu saber-fazer. Entende-se, a partir daí, que toda e qualquer resposta do analista, toca o saber-fazer, saber - dizer, saber - interpretar, saber - silenciar, para que se alcance um para além da fala, numa báscula proposta por Lacan, do efeito de sentido para o efeito de sentido real. Na seção Ensaios, contamos com cinco artigos, sendo o primeiro de Raul Pacheco, que interroga, de um lado, as relações entre psicanálise e ciência, retomando as aparentes contradições entre a convicção freudiana da cientificidade da psicanálise, defendida também por Lacan até os anos 60. E, de outro, as afirmações lacanianas defendendo a sua exclusão interna do campo da ciência, ao final da sua obra. O autor sugere que tanto o campo do gozo constituído por Lacan, como o estabelecimento da noção de real e suas consequências clínicas, que convidam aos analistas a introduzir o novo em suas respostas, podem constituir um caminho para a compreensão das contradições ressaltadas em seu argumento. A seguir, encontramos uma precisa articulação entre lógica e poética pela via da interpretação, no artigo de Conrado Ramos. A dimensão lógica da interpretação é entendida, aqui, como “a tradução em palavras do valor de verdade que o sintoma é, enquanto função” ao passo que sua dimensão poética se articula ao valor econômico existente no efeito de sentido, o que leva o autor a se perguntar: devemos tomar a produção do efeito de sentido, da mesma forma que entendemos a significação cristalizada, encontrada naquilo que se institui pelo valor de verdade? Para demonstrar a especificidade da ética da psicanálise, o terceiro artigo dessa seção toma, como orientadores, o conto de Kafka Diante da lei e uma referência crítica de Lacan à moral kantiana. Esse cotejamento da literatura com

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freitas, Ida

a teoria lacaniana conduz a autora a afirmar que “a ética do desejo não serve nem ao Outro nem ao eu, mas serve ao desejo, esse lugar terceiro que se engendra quando a lei da castração, a barra da perda de gozo atinge ambos, o eu e o Outro liberando o caminho”. Utilizando-se do neologismo lacaniano operância – que, entre outras acepções desenvolvidas pela autora em seu artigo, aponta tanto para o que opera na psicanálise quanto para a produção de efeitos –, Sandra Berta nomeia seu artigo, produto de um cartel de transmissão, de forma interessante, a saber, A operância psicanalítica...ou pior, que tem como eixo a questão sobre o objeto a, numa articulação entre o passe e a lógica, tomando como referência o ensino de Lacan compreendido entre os anos 1968 e 1972. A expressão operância psicanalítica, também utilizada por Lacan para abordar aquilo que opera no ato analítico, nos desdobramentos dessa pesquisa, articula as condições do ato analítico às suas consequências, o que leva a autora a afirmar: “O psicanalista ‘estabelece’, ‘permite’, ‘autoriza’”, pela interpretação, as condições desse ato na operância psicanalítica, numa temporalidade que lhe habilita da sua função”. Ato e ética são, portanto, aqui enlaçados. Num questionamento crítico bastante atual das práticas baseadas em evidências no campo da saúde mental, Leonardo Rodriguez denuncia a exclusão da psicanálise dos serviços públicos de saúde mental, em muitos países, por não corresponder ao modelo predominante, e propõe que, menos do que levantarem bandeira numa defesa da psicanálise, os psicanalistas devem buscar “dignificar a noção específica de evidência, submetendo-a a uma crítica racional, e mais especificamente, as provas da evidência”. É assim que o autor vai discutir a questão da evidência através de distintas perspectivas, sempre numa interlocução com as ideias de Freud, partindo do campo da filosofia da linguagem, representada pelas ideias empiristas do filósofo americano Quine, até Roth e Fonagy que, em seu livro O que funciona para quem?, baseiam-se no princípio de que “cada caso é um caso” e os tratamentos devem ser específicos e corresponder estritamente às condições que estão sendo tratadas. Na seção Trabalho crítico com conceitos, estão dispostos quatro artigos: no primeiro, Ingrid Figueiredo Ventura quer pensar o fenômeno psicossomático, distinto do sintoma histérico, a conversão, remetendo a princípio à expressão lacaniana falha epistemo-somática, que se manifesta no real do corpo e que acarreta, em última instância, limitações ao tratamento do real pelo simbólico. A autora percorre algumas referências ao fenômeno psicossomático em Freud e Lacan, apontando a holófrase como um mecanismo psíquico dessa falha no saber, que afeta o corpo de modo tão particular, não dialetizável pela interpretação, o que a faz perguntar: estaríamos diante da letra nesse caso, e este fenômeno teria

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Editorial

a função de desenhar a borda do furo do saber e constituir litoral entre saber e gozo? Em A criança, nos quatro discursos – o psicanalista diante do infantil, segundo artigo dessa seção, Adriana Marino se interroga qual o lugar da criança no laço social, articulando a pergunta sobre o lugar do infantil, a clínica psicanalítica e, mais ainda, o lugar do psicanalista nessa clínica, defendendo a seguinte hipótese: menos do que uma especificidade da psicanálise, a clínica com crianças apontaria para um lugar privilegiado ao desejo do analista. Antecipando o trabalho com o tema do próximo Encontro Internacional da IF – EPFCL, Cristina Zaffore propõe uma reflexão acerca do desejo do analista em seu estado paradoxal. Privilegia assim três principais estados do desejo, que nomeia como “estado ético do desejo”, “estado irrealizável do desejo” e “estado vivo do desejo”. A autora demonstra que cada um desses estados do desejo implica, necessariamente, um paradoxo que se apresenta ao psicanalista como um desafio ao seu desejo, colocando em cheque seu ato. O artigo que encerra essa seção é uma convocação aos psicanalistas para o debate sobre um viés da clínica que apresenta impasses, o que leva Maria Helena Martinho a explorar a categoria clínica da perversão no artigo O que responde o analista sobre a perversão? A autora, a princípio, se interroga quais as razões para certo desprestígio da perversão na literatura psicanalítica em comparação com a neurose e a psicose e passa a ressaltar os principais momentos de articulação teórica sobre a perversão em Freud e Lacan, verificando que há uma sutileza no diagnóstico dessa estrutura, já que ela não é definida a partir da presença de um gozo perverso, pois o que diferencia a estrutura neurótica da perversa é a posição que o sujeito ocupa diante do Outro na fantasia, no jogo entre o sujeito e o seu parceiro. A seção Direção do tratamento reúne três artigos, sendo o primeiro deles O conhecimento do sintoma e as opções do fim da análise, que traz uma interpretação histórica da formação do psicanalista, interrogando o que é uma análise didática e como considerar o fim das análises em diferentes momentos da psicanálise e distintas instituições. Situa a atual experiência do passe como uma terceira fase de nossa experiência institucional, denominando-a de etapa analítica diferenciada da didática, para evitar os julgamentos do que é um fim de análise. Gabriel Lombardi dá destaque ao termo consequências, para marcar que ser analista não é uma consequência lógica de uma análise, porém uma escolha. Para demonstrar seus argumentos, o autor faz uma explanação do que é O sintoma para a psicanálise, distinguindo-o da inibição e da angústia a partir da posição subjetiva ante a divisão, chegando à formulação de sintoma enquanto gozo, pois que um final de análise se apresenta como um gozo partido em consequência

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do saber que o sujeito alcança de sua divisão. O autor desenvolve a expressão “o sintoma é verdadeiramente real”, perguntando: como o sintoma, que não pede interpretação, se engata no trabalho analítico? Como tentar o sintoma com a verdade? o sintoma é real? E, numa outra expressão, “o sintoma real” retoma o sintoma que vem do real, se perguntando: qual é então seu real? Dominique Fingermann tem como fio condutor, em seu artigo Resposta a uma letra em instância, o conceito de letra, com o qual joga, a exemplo do fazer poético com sua multiplicidade semântica, assim como demonstra a importância do seminário sobre a carta roubada, que percorre todo o ensino de Lacan como uma lettre en souffrance, letra em suspenso. A autora desenvolve seus argumentos se perguntando inicialmente: poder-se-ia dizer que o sujeito é resposta à letra? Conclui, em sua resposta, que “o sofrimento do sujeito se embaralha, dá nós com seu sintoma, que ele proclama como verdade e se dedica à repetição da qual ele faz seu destino. A menos que ele encontre “um parceiro que tenha chance de responder” [LACAN, 1973, p.555] de outro modo a essa letra em espera [souffrance]”. Chegando a esse ponto, Dominique Fingermann trata da resposta do analista como um suportar a verdade e fazer valer o real, através dos distintos modos de interpretação. Conclui seu artigo apontando para a responsabilidade do dizer em uma análise e o uso que se faz da letra, seu enodamento ao sujeito. Finalizando a seção, Marc Strauss pergunta “O que responde o psicanalista?” – título de seu artigo –, ampliando a questão para: o que responde o analista àquele que quer desvendar seu saber insabido, cifrado e consequentemente fixado? O autor deduz, em sua resposta, que “o analista responde em ato, acompanha e guia o deciframento; suas pontuações desfazem as fixações”. Ao marcar a importância do encontro com um interlocutor para o falasser, à medida que esse encontro pode atestar sua existência, Strauss arrisca a proposição do que seria o cogito lacaniano, a saber: “Ele reponde, logo, eu disse, logo eu sou”. Para fazer eco aos recentes debates em torno das críticas e interdições do Estado sobre a atuação do psicanalista no atendimento do autismo no serviço público, a Equipe de publicação de Stylus considerou fundamental abrir o espaço da Entrevista para ser mais uma voz, que se torna escrito, documentando assim, nas palavras experientes de Maria Anita Carneiro Ribeiro, entrevistada por Luis Achilles a história, a memória, os fatos, enfim, a posição da psicanálise diante do autismo e dos inúmeros julgamentos e sanções de que tem sido alvo. Encerrando as ofertas de Stylus 26, na seção Resenha, Leandro Alves Rodrigues dos Santos faz uma resenha crítica de O livro negro da Psicanálise: viver e pensar melhor sem Freud, que vem corroborar muitas das questões apontadas na entrevista acima referida, demonstrando, mais uma vez, como e por que a psicanálise tem sido objeto de frequentes ataques.

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Editorial

Em nome da Equipe de Publicação de Stylus, espero que nossa presente oferta, que, a nosso ver, veicula uma riqueza de elaborações em torno do tema proposto, alcance seu destino, que é ao menos, provocar respostas e causar o desejo de novas leituras e escritos. Ótima leitura! Ida Freitas

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conferĂŞncia


A oferta, a demanda e... a resposta Colette Soler Nosso título – “O que responde o psicanalista?”*– é menos banal do que parece, pois ao dizer o psicanalista, no singular, e não os psicanalistas – isto é, aqueles que se dizem como tais – é-se obrigado a ler: O que responde o psicanalista, se ele é psicanalista? É, portanto, precisamente, uma questão ética sobre a natureza desta prática, sobre seus fins e sobre o ato que lhe convém. As “Preliminares”,(NT) que reli com grande interesse, consideraram isso justamente desta forma. O pressuposto implícito de nosso título é que uma psicanálise, do começo ao fim, sua entrada, seu processo e, claro, seu fim, estão a cargo do analista, pois ele opera aí em posição de causa. Mas, antes de desenvolver este ponto, quero primeiramente deter-me no termo “resposta”. Diacronicamente, a resposta não é primeira, e o termo provoca mal-entendidos.

A oferta antes da demanda A resposta do analista, contrariamente ao que o termo sugere, não é do registro da interlocução. Se procurarmos nesse nível da troca das réplicas, do “ele disse” (“ele” é o analisante) e “eu respondi”, ou, de forma inversa, “eu disse e meu analista me respondeu”, poderemos falar indefinidamente, mas não encontraremos a resposta do analista. Em uma análise, é claro, há muitos ditos de interlocução, trocas de enunciados entre analista e analisante que dão uma ideia de interlocução, isso é inegável. Eles têm aí, porém, uma outra função, diferente do que nos outros discursos. Esse é o bê-a-bá, e é por isso que Lacan insistiu tanto sobre a função das entrevistas preliminares, que é de marcar um limiar, de instaurar um corte com “ao que vier da demanda”. É isso que falta a todas as ditas psicoterapias da fala, e sem o que o psicanalista permanece, na * Referência ao VII Encontro Internacional da IF-EPFCL – O que responde o psicanalista: Ética e Clínica, ocorrido no Rio de Janeiro, em julho de 2012. NT Conjunto de textos preparatórios escritos por diversos psicanalistas para o VII Encontro Internacional da IF-EPFCL, difundidos via rede e que podem ser acessados no site <http://www. rio2012if-epfcl.org.br/>.

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melhor das hipóteses, um psicoterapeuta. Essa virada de entrada, e até mesmo essa “retificação”, como diz Lacan, só pode vir do analista; apenas ele pode ser a causa possível disso, não por sua resposta, mas por sua oferta antes da demanda. A oferta não responde, ela se coloca de antemão, ela é a condição primordial, inaugural, e deve ser bem distinguida da resposta. Ela é prévia à demanda que deve produzir. A oferta já estava ali, “anterior à solicitação”, diz Lacan (1976/2003, p. 569). A oferta é, portanto, o primeiro passo do ato analítico: ela é o começo. Para marcar bem que essa oferta não é uma resposta, e isso não somente porque ela é anterior à demanda, utilizo a expressão de Lacan: ela é, já na entrada, um ato de “posição do inconsciente”, do inconsciente suposto. Ela é assim desde a instrução da associação livre, aliás, já que ela, ao convidar a falar sem censura, é convite para que se emita significantes sem consideração pela coerência, a correção ou a validade dos significados produzidos. Daí decorre que quando se interroga sobre a resposta, o ato já está ali. Isso levanta a questão daquilo que o condiciona. Dizse “um desejo”, é verdade, mas o desejo em si mesmo é sempre condicionado, o que remete à mesma questão. Voltarei a isso no final. A partir daí, um leque de questões, as quais enumero, aparece rapidamente: É preciso distinguir nossa posição atual da dos fundadores – inicialmente Freud, que criou a primeira oferta, e para nós também Lacan, que a renovou. Nossa diferença com relação a eles é que nós podemos nos apoiar sobre a oferta deles, já presente no discurso, e enquanto se falar, bem ou mal, da psicanálise no discurso comum, a oferta implícita estará ali. O que não era o caso deles, embora o próprio Lacan já tenha podido se apoiar em parte sobre a oferta de Freud – o retorno a Freud era isso, mas não o que ele, em seguida, introduziu de novo. Como fazer passar ao ato, em cada caso, a oferta já ali, na cultura? Isso é relançado a cada demanda. O efeito de entropia analítica produzido no pósfreudismo é conhecido pela falta no nível da colocação em funcionamento da oferta freudiana de origem. Mesmo problema para aqueles que hoje se dizem lacanianos, especialmente se não tiverem tido acesso a essa parte da prática de Lacan que não se depositou nos textos. Com este problema, está-se no terreno da diferença entre o saber e o saber-fazer do analista, que é outra coisa, bem difícil de circunscrever, e que é de um peso tal, que Lacan pôde dizer que o analista só é responsável no limite de seu saber-fazer. Questão mais geral e que diz respeito aos debates contemporâneos sobre o futuro da psicanálise. São todos debates sobre a questão de se saber se sua oferta pode continuar a prevalecer, a “dar dividendos ao mercado”, dizia Lacan (1974/2003, p. 314), na ideologia pseudocientífica do capitalista contemporâneo. É certo que não é toda oferta que chega a criar demanda. Isso poderia nos convidar a uma reflexão sobre as condições discursivas que permitem que uma oferta prevaleça.

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A oferta, a demanda e...a resposta

Volto à oferta do analista, esse primeiro passo do ato analítico que engendra não a demanda, mas uma demanda que se pode dizer analítica. Com relação ao intuito dessa oferta, não há grandes debates, embora haja diversas fórmulas para dizê-la. Seu objetivo primeiro é, em resumo, a instauração da transferência, ou seja, a colocação em jogo da significação do Sujeito suposto Saber na interlocução entre o paciente e o analista. Essa significação é justamente aquilo que põe fim à dupla da interlocução, que é necessária no início. Ressalto dois pontos sobre essa oferta. Primeiro, longe de ser uma oferta de diálogo, ela visa a uma ruptura de qualquer semblante de diálogo, pois instaura aquilo que Lacan chama de uma “disparidade” subjetiva na entrada. Digo semblante de diálogo para evocar a tese de Lacan: não há diálogo. O que dá a ilusão de diálogo – ilusão forte, consistente, aliás – é o fato de que a fala inclui a função da réplica. Assim, todos os diálogos de Platão são construídos apenas sobre o procedimento retórico, que consiste em repartir uma única tese – a de Platão – entre diversos parceiros, que se replicam. Mas não basta falar em réplicas para que haja diálogo. Nada melhor que os grandes duetos das óperas para presentificar o quanto cada um, a despeito dos acordes da música que levam a crer em uma harmonia, fala sozinho, ainda que em paralelo. Segundo ponto: não é uma oferta de cuidado, mesmo se, ao término, a análise cuide; é uma oferta que dirige para o saber inconsciente suposto, e que deve produzir esse amor inédito que é o amor que se dirige ao saber inconsciente, segundo a última definição da transferência em Lacan. Sua função é causal para a instauração e elaboração da transferência. Sem ela, não há nenhuma chance para que haja entrada em análise, qualquer que seja a confiança conferida ao clínico e às confidências que lhe serão feitas. O efeito dessa oferta é de fazer emergir, a partir da queixa e da demanda de reconforto e de cuidados, uma demanda outra, uma demanda de interpretação – a qual, aliás, gera uma nova queixa bem conhecida, endereçada ao analista: “você não diz nada”.

Uma resposta que contradiz a oferta Chego agora à resposta propriamente dita, a resposta a ser feita à demanda transferencial, uma vez que esta esteja assegurada. Seu objetivo é, evidentemente, produzir a análise. Lacan deu diversas fórmulas daquilo que é preciso obter, e a melhor, sem dúvida, é a de Televisão, que diz que se trata de elucidar o inconsciente de que cada um é sujeito. Mas a fórmula engana em sua simplicidade, pois não desdobra o que ela implica, a saber, que elucidar o inconsciente é produzir a queda da transferência, evidenciar seu impasse e seu engodo, assim como a miragem

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da verdade. A tal ponto, que podemos dizer que a diferença entre o propósito da oferta e o da resposta é maciça – é por isso que não se pode dizer que a oferta seria uma resposta antecipada: é preciso manter a distinção entre elas, embora oferta e resposta suponham um desejo, do qual toda a questão é saber se se trata do mesmo. Em todo caso, a oferta instaura a transferência e a resposta deve reduzir o engodo dela. A primeira promete, e Lacan dizia mesmo que é caridosa, já que se significa ao sujeito que, o que quer que ele diga – e, sobretudo se ele disser qualquer coisa –, isso valerá a pena, terá seu preço e efeitos curativos sobre aquilo de que ele está se queixando. A segunda, a resposta, não promete, ela fornece, mas invertendo as promessas da oferta, pois o que se revela de mais real não é tão encantador quanto a oferta levaria a pensar. É por isso que Lacan (1967/2003) se perguntou repetidas vezes de início, se o analista não era o servente de um deus enganador (A Equivocação do Sujeito Suposto Saber); em outras palavras, se ele não fazia uma promessa mentirosa instaurando, pelo ato de entrada, um engodo (Sujeito suposto Saber), que, para ele, “já não é sustentável” (LACAN, 1969/2003, P. 372), e, sobretudo: o que pode levar a ser analista se se obteve a resposta de fim? De quais termos nós dispomos para qualificar essa resposta? Interpretação, disse Freud; interpretação, diz Lacan. Ele nunca renunciou a isso, nunca pôs fim ao uso da palavra. Pelo contrário, até o fim, ele não cessou de interrogar seus meios, e de remanejar sua definição em função de seus avanços sucessivos no que diz respeito ao conceito de inconsciente. Dela, ele deu, então, uma série de fórmulas sucessivas diversas. Não posso recenseá-las aqui, já fiz isso em outra ocasião; quero ressaltar hoje o que constitui o seu impacto interpretativo comum. Primeiramente, todas elas, do início ao fim do ensino de Lacan, visam a um real, mesmo no tempo da metáfora e da metonímia. Não digo o real, pois o real não é unificado, mas plural. Ou ele é o real das emergências do significante “sem nenhuma espécie de sentido”, disse Lacan muito cedo; ou o real do impossível de se escrever da relação sexual; ou o real da contingência do dizer, sem esquecer a interpretação poética acentuada no final, que conjuga o jogo sobre o fora de sentido do significante e o dizer que enoda. Essa diversidade não deve ser pensada como uma hierarquia, aliás, a última que aparece, a poética, estava ali na origem de Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise (LACAN, 1953/1998), basta reler o texto. Essa não hierarquização me parece capital no que diz respeito ao uso que fazemos de Lacan em nossa prática. Segundo traço, correlativo do primeiro, uma interpretação nunca é conciliadora, ela não corrige aquilo que falha, ela mostra algo do real que se coloca de forma atravessada. Lembrem-se do dedo erguido de São João Batista, quadro de Leonardo da Vinci, em A direção da cura: ela só pode desconcertar, “provocar ondas” como diz Lacan, cair ao lado, ao lado das homeostases do significado, e no fundo, ao lado das ficções da verdade

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A oferta, a demanda e...a resposta

das quais cada um se assegura, mesmo que elas sejam edípicas. Ainda que seja preciso não confundir esse “provocar ondas” com o barulho e o furor dos amores de transferência, e imaginar que quanto mais esquenta aí, mais a análise avança; é o contrário, e o próprio Freud sabia disso. O que estou dizendo aí sobre a interpretação (na medida em que ela visa a um real) abriria, evidentemente, o capítulo daquilo que é interpretar a verdade, já que é por aí que Lacan começou. Não entro nesse capítulo, no fundo bem clássico, mas marco um pequeno traço distintivo. Constata-se que uma interpretação pela verdade, passado o primeiro sobressalto, pode encantar. Mas uma interpretação que encanta é algo suspeito, pois o real não é encantador. Deixo isso em suspenso. Enfim, o terceiro traço, que é bem conhecido, mas de que é preciso tirar as consequências: não há universal da interpretação. Estava aí o erro de Jung. Cada uma delas só vale para um, assim como o gozo é um. A consequência é que não há relato possível da interpretação. A experiência direta disso se faz cada vez que um analista expõe um caso, ou que um analisante, falando de sua análise, quer fazer valer uma interpretação recebida de seu analista. Ele poderá dizer que a fórmula de interpretação é memorável, inesquecível, inaudita, marcante, indelével etc., e isso será apenas uma banalidade derrisória na orelha do ouvinte, e até mesmo pior, se ele estiver fora do campo analítico. Para isso há diversas razões, que não têm a ver com as pessoas. A primeira é que o impacto de uma interpretação é relativo simultaneamente à verdade e ao real do inconsciente do sujeito; em outras palavras, aos efeitos de sua alíngua, insondáveis, mesmo quando seus efeitos são experimentados e manifestos. Em segundo lugar, razão mais importante, é que a resposta de interpretação não se confunde com nenhum dito de interpretação. Os ditos são restituíveis, mas eles não dizem nem o porquê de seus efeitos, nem a princípio de seus efeitos. Ora, o princípio operador principal de seu efeito está para além das ressonâncias do significante, no dizer, que é outra coisa.

A interpretação é dizer... que não “O dizer é um ato”, diz Lacan (1974-75) em 18 de maio de 1975. Ele é existencial, emergência, jaculação, acontecimento, escolha absoluta, eventualmente. No começo estava o dizer – de onde Lacan passa ao deuzer [dieure], o dizer faz deuzer, o criador. É preciso refazer o catecismo. O que é deus? Deus é dizer, e o verbo é somente segundo, pois ele supõe o dizer. O significante é ex-nihilo, claro, e ele coloca o problema da existência posto que se pode sempre falar daquilo que não existe, ainda que seja preciso que o significante seja emitido, pois é o dizer que dá testemunho da existência. Em outras palavras, no nó tríplice da fala, o

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dizer permanece esquecido. Vocês reconhecem a expressão. É o quarto que retém invisivelmente as três consistências carregadas pela fala, pois desde que se fala, as três dimensões estão ali. O dizer não é a fala, é seu ato de emissão, e sem o dizer, não há ditos. Donde o “nunca 3 sem 4” do nó. É possível dizer isso de outra forma? A dimensão da fala é dupla: há seu texto – instância da letra, disse Lacan – e há sua emissão. Pode-se calar um texto (recalque), mas um dizer pode também ser emitido sem texto. Sem dúvida, é por isso que há tantos borborigmos do lado do analista. E, no que diz respeito ao analisante, o que se fez ou não pelo dizer, pode ser desfeito ou refeito pelo dizer analítico. O falasser é filho do dizer familiar, ou, antes, da maneira pela qual ele recebe esse dizer. A função da alíngua materna em si é suspensa ao dizer. Lacan (1975) insiste fortemente nisso em 24 de novembro de 1975, nas conferências na Yale University. Só há linguagem estruturada porque há dizer, isto é, sujeitos que usam a alíngua. Pois bem, é isso que falta ao pequeno autista, essa passagem dos efeitos multiformes da alíngua à linguagem orientada. A resposta pelo dizer é uma resposta, com certeza , mas uma não resposta pelos ditos. “Os ditos se colocam sempre em verdade, mesmo que seja para nunca ultrapassar um meio-dizer”, diz Lacan (1972/2003, p. 451), em O aturdito, mas, citando ainda, “o dizer não é da diz-mensão da verdade”. Entretanto, ele não deixa de ter relação com a verdade, e mesmo uma relação precisa; o dizer, eu cito, “diz que não” à verdade, ele está, portanto, em lugar de exceção com relação a todos os ditos de verdade. Essa expressão, “dizer que não”, que se aplica ao Pai, é de longe bem mais geral. Ela situa a relação do dizer com os ditos. Mas, cuidado: “dizer que não” não é negar, é conter, conter todos os ditos de verdade colocando-se fora. Também não é contradizer. Responder assim, citando ainda, “suspende o que o dito tem de verdadeiro” (LACAN, 1972/2003, p. 453); é, portanto, uma resposta que relativiza a verdade, em benefício do dizer existencial que, por sua vez, não pode mentir – ele é ou não é. Vejam, aliás, o Posfácio ao Seminário XI, de 1973 ainda, e sua mensagem àqueles que têm o “dever de interpretar”; pois bem, o que deve ser lido na fala não é, cito, “o que ela diz” (LACAN, 1973/2003, p. 504). Donde sua ironia sobre aqueles que se impulsionam pela escuta, como ele dizia. O que é isso, então, senão o “que se diga” da demanda analisante, existencial, real? Pois na análise há dois dizeres: o do analisante, que é o dizer de demanda, o que quer que ele formule; e o do analista, que é apofântico. É uma particularidade desse discurso, pois não diríamos que no Discurso do Mestre ou no Discurso Universitário há dois dizeres. O escravo ou o astudado(NT2) são, antes, servos do dizer magistral, eles baixam a cabeça. O dizer analisante é demanda, o que NT2 No original, astudé. Referência ao termo criado por Lacan no Seminário 17 (O Avesso da Psicanálise), na aula de 11/03/1970 (na edição brasileira, p. 98). O termo joga foneticamente com o particípio passado do verbo étudier [estudar] – isto é, étudié [estudado] – substituindo o “e” inicial do verbo por “a” (do objeto a).

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quer que ele diga. Esta tese foi antecipada em Lacan por sua distinção anterior entre a demanda transitiva e intransitiva. O dizer de interpretação do analista é apofântico, o que quer dizer oracular. Insisto, portanto, nisso: tanto um quanto o outro desses dizeres dizem que não a todos os ditos. O dizer da demanda analisante diz que não a todos os ditos analisantes. É por isso que a célebre frase de Lacan (1973-74, aula de 15/01/1974) “peço que recuses o que lhe ofereço porque isso não é isso” pode receber, entre outras, a seguinte leitura: peço que recuses meus ditos, sejam eles de demanda ou não, porque eles não são isso. Que isso? Meu dizer informulável, mas que deve ser interpretado. Quando, ao dizer da interpretação, ele também diz não a todos os ditos analisantes, é isso que se faz quando se responde a ele “você disse isso”, mas ele também diz não a todas as fórmulas de interpretação. Então, é claro que um dizer, uma jaculação sem texto, parece bem inapreensível; e para se aproximar de seu silêncio de forma racional, Lacan não pôde fazer menos senão se aproximar dele pelas modalidades lógicas, modalidade da demanda ou modalidade oracular. Quando Lacan diz apofântico, ele designa uma asserção, sem proposição ao sentido gramatical da palavra, contrariamente à definição de apofântico em Aristóteles. É, portanto, uma asserção que posso dizer sem texto, que, assim como o oráculo – e aí estou citando Lacan (1973/2003a, p. 555) – “não revela nem oculta”. Ocultar ou revelar, no fundo, procede de A instância da letra produtora de verdade via metáfora e metonímia. O oráculo é de outra ordem; ele não esconde nem revela: ele faz signo [fait signe]. Signo de quê? Daquilo que não poderia passar à instância da letra, à linguagem, signo, portanto, de um real. Com o apofântico da interpretação, ele faz signo do real ex-sistencial do dizer. Com relação a todos os dizeres, essa resposta coloca um “existe” que não é da ordem da verdade, mas da ordem do real. É um dizer que suscita, que é causal, mas que, em si mesmo, não diz nada; ele orienta o outro dizer, o da demanda analisante. Daí decorre que esta resposta não é a resposta do bem dizer; ela é somente uma condição de sua produção. Lacan (1972/2003a) atribuiu a si mesmo o bem dizer, mas enquanto pensador de sua prática e não enquanto agente de sua prática – isso está explícito em Televisão. Ao querer precisar aquilo que fez, ele diz – eu cito: “extrair de minha prática a ética do bem dizer” (p. 539). Na análise, o bem dizer não é nem o do analisante, nem o do analista, mas o resultado da conjugação de ambos. Ainda que seja preciso, que o efeito desta conjugação dos dizeres não se evapore, que ele deixe rastro, e é, na verdade, isso que se escreve em uma análise. O bem dizer é aquele que faz o suficiente, escrito suficiente para satis-fazer, e ele se produz quando a interpretação apofântica opera sobre o dizer da demanda analisante. Traduzo o dizer apofântico ao falar de um dizer que não diz nada para fazer imagem; Lacan, por sua vez, em 1975, fala de um dizer silencioso. É melhor. A

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expressão foi justamente feita para marcar a diferença para com todos os ditos que dizem algo, todos os “ele me disse”, restituíveis, é claro, mas derrisórios.

Três efeitos de sentido real É preciso, portanto, se interessar – ao lado dos efeitos de significante – pelos efeitos que são próprios ao dizer. Lacan (1974-75) volta a esse ponto em 11 de fevereiro de 1975. Ele interroga a interpretação analítica a partir desta distinção dos ditos e do dizer. “Tratar-se-ia de saber como a interpretação impacta [porte] e que ela não implica forçosamente uma enunciação” (aula de 11/02/1975). É aí que ele fala de um dizer silencioso, que vai mais longe do que a fala, e ele precisa isso, pois muda a perspectiva sobre o efeito de sentido, visa a uma báscula no impacto do efeito de sentido para um efeito de sentido real. Algumas observações sobre essa noção de um efeito de sentido real. Ela nos parece paradoxal. Por duas razões: primeiro, fomos habituados por Freud; e em seguida, por Lacan, a pensar o sentido como efeito de uma cadeia significante e, portanto, como procedente do simbólico. Em seguida, Lacan nos habituou a falar do real como fora de sentido. Com o inconveniente de que o real fora de sentido é inacessível à linguagem. Ele é como o deus da teologia negativa, do qual não se pode aproximar a não ser pela negação. É isso que Lacan faz no fim: ele não tem sentido, ele não é Um, ele não faz um todo etc.; em outras palavras, ele não tem nenhuma das propriedades circunscritíveis no simbólico. Seríamos nós, então, místicos do real? Nós não podemos sê-lo, e creio que com essa noção de sentido real, Lacan procura sair do que chamo, por imagem, do risco de uma teologia negativa do real. E para sair daí, é preciso poder dar uma fórmula apreensível, senão do real, ao menos do sentido real. Pois bem, é isso o que Lacan fez antes de R.S.I., em A Terceira, com relação ao sintoma – já tive a oportunidade de desenvolver esse ponto. Ao lado do sentido do sintoma dado pela “instância da letra”, que só o alimenta, ele postula que o sentido real do sintoma é o “não há relação sexual”. Esse “não há”, uma vez estabelecido, não alimenta o sintoma, mas mostra sua função necessária. Digo uma vez estabelecido, mas não nos livros – isso se estabelece em cada cura. Em outras palavras, o real fora de sentido do sintoma recebe um efeito de sentido real, deste outro real que é o impossível da relação. O efeito de sentido real é dado por um real, aqui o do impossível, e não pelo Simbólico. No ano seguinte, em R.S.I., que acabo de citar, ele coloca a mesma questão, não mais para o sintoma, mas para o efeito de sentido real da interpretação. Ele pergunta: será que esse efeito de sentido real da interpretação deve-se

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ao significante ou à sua jaculação? Ele insiste – cito: “acreditava-se que são as palavras que impactam [portent], ao passo que se nos infligimos a pena de isolar a categoria do significante, vemos bem que a jaculação guarda um sentido isolável” (LACAN, 1974-75, aula de 11/02/1975). Qual? Vê-se que Lacan procura saber como a jaculação do dizer que interpreta a demanda pode lhe dar um sentido real. E eis a resposta, que deduzi do texto: assim como para o sintoma, há um duplo sentido do dizer da demanda. Seu sentido simbólico é a falta do objeto que faz dela uma re-petitio transfinita. Seu sentido real, em contrapartida, é dado, como é o caso para o sintoma, por um real, um outro real que se diz Há Um [Y a d’l’Un], UM sozinho, e nada mais. A interpretação apofântica incide sobre aquilo que se esquece nos ditos analisantes, na re-petitio transfinita de sua demanda, e ela lhe dá, deve lhe dar, o sentido real do “há Um” [y a d’l’Un] que aí insiste. Assim, o dizer apofântico, por mais silencioso que seja, faz responder o real, faz signo [fait signe] da resposta do real, a resposta que estava lá antes da questão, por efeito de linguagem. Essa resposta não depende do analista, não é a sua resposta, mas o que depende dele é que ele chegue a fornecê-la ou não. Recapitulo: evoquei dois efeitos de sentido que se pode dizer reais. Primeiro, o sentido real do sintoma, dado pelo real da ausência da relação, do ab-sexo. Em seguida, o sentido real do dizer da demanda analisante, sentido que não vem da metonímia do objeto, como ele postulava no Posfácio do Seminário XI, mas que é dado graças à interpretação pelo real do “há Um” [y a d’l’Un]. Dois reais, portanto, que se escrevem pelo dizer analítico. Questiono agora o sentido real da jaculação interpretativa em si, independentemente de seus efeitos, sobre a demanda. Ela tem um sentido, o da presença de uma ex-sistência, ou seja, de um real que não se demonstra, nem resulta da estrutura de linguagem. Pode-se dizer novamente a respeito dele que o “não há diálogo” é que é a regra para o falante – eu cito: “tem seu limite na interpretação, através da qual se garante como no tocante ao número, o real” (LACAN, 1973/2003b, p. 548). Lacan havia postulado isso a propósito da interpretação que permite a passagem da impotência ao impossível da não relação. Pode-se estender isso à interpretação que produz o sentido real. Se daí tivéssemos que dar uma fórmula aproximada desse sentido real da jaculação seria a seguinte: “ex-siste Um”, que, por exceção, pode responder. É claro que o analista acolhe os ditos de verdade do analisante, ele ouve o que eles todos comportam de paixão inevitável e diversa, de esperança e decepção, de dor e, às vezes, de terror diante do inelutável, mas seu dizer silencioso marca um mais além. Isso não faz dele um deu...zer [dieure], nem o deus do Sujeito suposto Saber, nem o deus dos profetas, já que sua jaculação não diz nada, só o coloca

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como aquele que responde do dizer do outro. Aqui aparece a vantagem de um dizer silencioso sobre o dizer que se veicula pelos enunciados do analista, pois a pressão do dizer silencioso dá lugar à emergência dos significantes próprios ao paciente. Digamos que ele preserva o espaço de liberdade da reação analisante. Parece que até aqui minimizei os ditos de verdade, sem dúvida, mas é preciso também dizer o valor deles: sem esses ditos de verdade, não há acesso aos significantes do inconsciente, nem ao saber inconsciente que determina meu gozo, pois o saber está no lugar de verdade na análise, e é justamente nos ditos analisantes que o deciframos. Na análise, a efetuação do desejo do saber passa pela verdade. Então, a performance da interpretação é de se manter entre essas duas balizas: de um lado, orientar o dizer da demanda, fazer escrever seu sentido real, o “há Um” [y a d’l’Un] do real da estrutura que vale para qualquer falante em análise; mas... por outro lado, sem perder a singularidade própria ao saber inconsciente que, para cada um, não é similar a nenhum outro. Não bastaria apontar que o dizer analisante é, em todos os casos, demanda, dizer de solidão; é ainda necessário, para acertar na mosca, fazer ressoar os significantes singulares que o analista não sabe, mas que, em cada analisante, carrega o dizer do Um sozinho. Na sua falta, o dizer interpretativo bascularia em um derrisório “bem entendido!” – o “bem entendido” da solidão ordinária. Sustentar juntos esses dois extremos é o dever do analista. Pois bem, creio que o analista – um analista –, a menos que ele seja louco, só pode se sentir inadequado no lugar dessa performance. Era justamente esse o caso do próprio Lacan que, bem longe de ser fanfarrão, lamentava por não ser suficientemente pouâte,(NT3) por não ser suficientemente poeta (pouâte assez). Mas tivesse ele sido mais pouâte, tivesse ele manejado mais os equívocos do discurso, ele não teria mudado o outro impacto da interpretação, a saber, o sentido de sua jaculação, que, por sua presença em si só, faz limite ao “não há diálogo” ou, melhor dizendo, faz o não diálogo dar um pequeno passo de diálogo.(NT4)

NT3

Jacques Lacan (1976-1977). Le Séminaire – Livre 24 – L’insu que sait de l’une-bévue s’aile à

mourre, inédito (Aula de 10/05/1977). Neologismo criado por Lacan que articula as palavras poeta [poète] e ato [acte]. NT4 Em francês “fait faire au non dialogue un petit pas de dialogue”.

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O luto Eis quem pode dar um novo vislumbre sobre a fase final da análise, especialmente sobre o fato de que ela se prolonga para bem além do espaço da transferência e das elaborações significantes de verdade que ela permite. Colocando a ênfase sobre o dizer apofântico da interpretação, acrescenta-se algo não à modalidade do fim, quer ela seja feita por uma conclusão de impossível (como postula O Aturdito e a Introdução à edição alemã dos Escritos), ou pela satisfação que conclui a báscula entre verdade e real (como propõe o Prefácio à edição inglesa do Seminário XI), mas acrescenta-se algo à função do analista no processo. Ela se desdobra entre função significante e função de dizer, que, sem dúvida, ficou bastante esquecida. Dá-se muita importância àquilo que se nomeia como a queda da transferência. Mas essa queda se situa no eixo da função significante, ela não é apenas uma queda do analista, mas, antes, uma queda das esperanças depositadas no dizer da verdade, no saber falado que habita a fala e que, essencialmente, escapa ao sujeito. O dizer apofântico, que suspende o que o dito tem de verdadeiro, contribui, é claro, amplamente para denunciar o engodo transferencial, ele intervém no nível da verdade e contribui para tornar sua mentira apreensível; esse efeito, porém, deve ser drasticamente distinguido da função existencial do analista. Acredito que é esta última que prende o analisante à sua análise – não estou dizendo a seu analista – para além das elaborações transferenciais, quando ele pensa que tudo foi dito daquilo que era possível dizer. Não esqueçamos que, de uma maneira geral, é o dizer que suscita os afetos mais violentos, quer seja de adoração ou de execração. É essa dimensão do dizer, creio eu, que faltou à teoria freudiana do chefe, aliás. Ele viu bem a função de ideal e de objeto dela, mas não sua função existencial. Na análise, que faz aparecer o Um-dizer [Un-dire] que se sabe só – o do analisante, portanto –, este Um dizer, ainda assim, não está tão só, já que há um dizer de resposta que existe, quaisquer que sejam as fórmulas de resposta e mesmo que esse dizer seja silencioso. Pois bem, no fim, é disso que o analisante também precisará abrir mão, dessa ex-sistência que tinha chance de resposta, e isso é algo bem diferente da dita queda do Sujeito suposto Saber.

Nossa conjuntura Termino com algumas observações sobre o lugar possível dessa resposta analítica na civilização atual. Estou às voltas há muito tempo com esse tema, e não tenho tese sobre ele, mas alguns pontos de certeza, ainda assim. Ressaltei a função causal da oferta de entrada que está a cargo do analista.

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Certo é que os psicanalistas de hoje, mesmo quando eles reclamam bem alto de Freud e de Lacan, não conseguem mais fazer prevalecer a radicalidade daquilo que foi a oferta em ato deles. Mas não seria justo encarregá-los excessivamente dessa entropia. Preferi me perguntar: em que condições uma oferta pode fabricar demanda? É claro que não é em todos os casos. Cheguei à conclusão de que é preciso que o valor de troca da oferta prevaleça sobre o valor de uso. Quando é esse o caso, a oferta é, digamos... vendável. O valor de troca é aquilo que coloca o objeto de oferta em jogo em um laço social, o que faz funcionar este objeto como o índex da identificação ao semelhante (ter seu iPhone assim como os outros) e simultaneamente o índex da competição, da emulação imaginária (ter o modelo mais recente que nem todos ainda têm). Assim, o valor de troca supõe a colocação em jogo do Imaginário e do Simbólico. É esse o paradoxo e o êxito da oferta capitalista: de um lado, com seu estímulo ao consumo de gadgets, ela pretende oferecer, e mesmo criar, valor de uso; em outras palavras, oferecer novos gozos e, de fato, ela cria, assim, novas necessidades, fazendo de nós seres ao mesmo tempo aparelhados e normatizados, mas só consegue isso porque faz primar o valor de troca sobre o valor de uso. Essa primazia do valor de troca tal como eu a defini é a própria astúcia de qualquer propaganda, e é também isso que perceberam e denunciaram todos os combatentes da dita sociedade do espetáculo. Não se deve ver aí somente a irrealização do valor de uso, mas seu veículo. Os psicanalistas têm hoje a tendência a denunciar as redes que chamamos “sociais”, por meio das quais os sujeitos dispersos e precarizados do capitalismo tentam se conectar a outros. Não estou dizendo que eles estão errados, todas essas conexões são derrisórias com relação àquilo que é um verdadeiro laço social; mais do que denunciá-los, porém, não seria preciso reconhecer aí a busca daquilo que o capitalismo não oferece – a saber, um discurso que faça laço entre os indivíduos, ele, que só oferece o laço de cada um aos seus mais-de-gozar? O que acontece, para a psicanálise, com relação a esse duplo valor de uso e de troca? Não há dúvida de que a psicanálise, ao fornecer o efeito de sentido real do sintoma e da demanda analisante, muda o valor de uso deles, isto é, o valor de gozo e de satisfação deles. É isso que implica a própria noção de identificação ao sintoma. Mas, evidentemente, ela só faz isso no um por um. O que é que pode, então, fazê-la passar ,fazer passar aquilo que produz a resposta analítica ao valor de troca, o valor de troca que é necessário para que a psicanálise tenha sucesso de mercado? A questão se coloca principalmente porque o saber inconsciente, contrariamente ao saber da ciência, não se presta à troca. A Nota italiana – já com 40 anos – e a leitura que faço dela me inspiraram algumas observações válidas para nossa atualidade. Lacan tem uma tese sobre o que permitiu à psicanálise se inscrever na

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civilização da ciência. É a seguinte: o modelo dado pelo saber no real da ciência conseguiu inspirar um desejo inédito do saber. Não do saber da ciência, mas deste outro saber alojado em outro lugar e do qual a psicanálise se ocupa, o saber inconsciente. A quem ele inspirou? Não foi a todos, Lacan (1973/2003c) postula isso explicitamente: a ciência, diz ele, é responsável “de ter transmitido”, eu cito, “unicamente aos rebotalhos da douta ignorância” (p. 313) o desejo em questão. Isto equivale a dizer que a psicanálise não se recruta dentre aqueles que têm a fibra para se fazer de agentes da ciência, e isso é uma evidência, de fato. Com efeito, o que é o douto ignorante senão alguém que, embora sábio em seu tempo – douto, portanto – percebia e afirmava, por sua própria ignorância, aquilo que faltava ao saber da ciência, que chamamos, com Lacan, de a verdade, ou o sujeito ou objeto causa? A psicanálise terá marcado, portanto, segundo Lacan, o fim da figura histórica da douta ignorância. Ali onde estava sua ignorância quase didática, a psicanálise fez vir um outro desejo por um outro saber, que pode ir até o gay sçavoir e que é suposto poder ser transmitido. Assim, ele faz do desejo do saber a condição histórica da psicanálise, e esse desejo do saber é, com efeito, manifesto em Freud, e sem ele Freud não teria inventado sua técnica de deciframento. Acrescento que isso é também aquilo que é prévio de cada análise, e sem esse desejo, não há associação livre possível. A marca do desejo do saber está na entrada, e isso leva a precisar o que a operação da análise vai produzir sobre essa condição prévia. Que essa condição não esteja em todos, então, está aí já, primeiramente, algo que exclui a pretensão a uma psicanálise para todos. Isso permanece válido hoje. Ninguém está excluído da psicanálise a priori, mas só entra aí aquele ou aquela a quem esse desejo foi transmitido, aquele ou aquela que, por causa de suas próprias aventuras, está em afinidade com o desejo do saber que falta à ciência e que sustenta a psicanálise. Donde concluo que a psicanálise de massa não pode existir. Lacan distinguiu muito justamente em seu Ato de fundação a psicanálise pura e aquilo que ele chamou de “psicanálise aplicada”, que também permanece atual; ela, porém, não é de massa e está subordinada à psicanálise pura em intensão, como se diz, e é dela que estou falando. O desejo do saber não foi, mesmo assim, uma condição suficiente nem para a ciência – que, além disso, teve que seduzir o mestre, isto é, aquele que paga – nem para o psicanalista, diz Lacan, pois foi preciso que se acrescentasse o clamor da humanidade – que não quer o saber – e cujo “já por aí” o psicanalista é o rebotalho. “Já por aí”, isto é, pelo desejo do saber que condiciona a análise. E, de fato, o desejo da felicidade e o desejo do saber são coisas bem distintas. Esse ponto poderia dar lugar a uma pesquisa metódica para qualquer entrada em análise. Ressalto a dissimetria com relação à ciência: a ciência pôde entrar como vencedora no campo do discurso do mestre, que ela infiltrou por toda parte. O

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psicanalista, pelo contrário, e é meu segundo ponto, já pelo desejo inédito que é a sua marca de origem, se instaurou por uma separação para com a humanidade – é, aliás, por isso que Freud acreditava que isso era uma peste, e é também essa sua homologia com o santo que também se instaura por uma separação com relação à via canônica da religião. Seria curioso que depois de uma análise, os analistas de hoje aspirem a retornar à massa prometendo a felicidade àqueles que sofrem. Nem o saber da ciência, nem o saber da psicanálise prometem isso, somente a transferência faz espelhar sua possibilidade, ao passo que a resposta da análise não promete nada a não ser em matéria de desejo e de mudança de gozo. Em terceiro lugar, ponto capital, se o desejo do saber está na entrada, ainda é preciso dizer o que a análise faz dele. Lacan responde: ela deve verificá-lo. É seu o termo. Verificar aqui quer dizer, penso eu, duas coisas: ela se assegura dele, mas submetendo-o à prova do dizer da verdade e a seu meio-dizer, que faz fracassar o desejo de saber. É no término que se saberá se o desejo de origem sobreviveu à prova analítica, pois nesta prova as consequências do saber inconsciente se atestam, e são elas mesmas que geram o horror não do saber, mas de saber. É assim que Lacan postula essa tese inaudita, segundo a qual isso não foi verificado por Freud, que não passou além dos “amores com a verdade”, segundo sua expressão. “Modelo (ele fala do modelo freudiano) do qual o analista, se tiver um, representa a queda” (LACAN, 1973/2003c, p. 313), diz ele. Em caso de queda do modelo freudiano, então, o analista sabe que ele é rebotalho. Mas, cuidado, “não qualquer um”, diz Lacan; em outras palavras, não aquele que condicionou a psicanálise, mas aquele que ela produz. Não é o rebotalho da humanidade; ele já era isso. Mas é, além disso, o rebotalho dos amores com a verdade, o rebotalho, o sicut palea, as elaborações de transferência, eu poderia dizer o rebotalho da linguagem, por seu desejo não mais do saber, mas de saber, de saber as consequências reais do saber inconsciente. Então, questão para hoje: pode-se fazer passar isso, essa promessa ali, com valor de troca? Esse é o desafio de nossa atualidade. Alguns duvidam. Já na época da Escola Freudiana de Paris, algumas pessoas se alarmavam com o fato de que, ao prometer, à época, a destituição subjetiva de fim corria-se o risco de desencorajar os candidatos à análise. Preocupação mal fundada, segundo Lacan (1967/2003a), pois, diz ele, “nada jamais deterá o inocente, que não tem outra lei senão seu desejo” (p. 258). Mas quem é que diz que esse desejo o levaria para a psicanálise? O implícito desta resposta de Lacan é que: enquanto a oferta do analista sustentar e transmitir o desejo ad hoc, a psicanálise não está ameaçada. E, na verdade, sob a falácia da oferta do Sujeito suposto Saber, o que o analista coloca em posição de causa verídica é um desejo. O que é verdadeiro da oferta do Sujeito suposto Saber é a oferta de um desejo que,

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como desejo do Outro, se dirige para o saber. Ora, o desejo está do lado do valor de troca, ao passo que o gozo está do lado do valor de uso. Noto, em todo caso, que todos os livros negros da psicanálise, todas as campanhas de ódio, falam do psicanalista como um rebotalho. Mas de quê? Da humanidade, justamente, de seu bom-senso em matéria de saber e de seus supostos valores morais. E isso porque eles se esforçam sempre para demonstrar que sua teoria é maluca, que está longe de ser científica, e que seu inventor, Freud, era animado por más tendências – e nem falemos de Lacan. Tudo isso é inexato, mas de uma certa forma, verdadeiro: o psicanalista não partilha em nada o desejo de alguns dos conformistas (bien pensants) da nova e antiga moda. É inútil, então, que ele apresente provas de honestidade nas mídias, e disfarce o Eros negro na pele de cordeiro do bom pastor, como diz Lacan. O psicanalista tem hoje uma tarefa redobrada. Não se pode mais contar com o saber da ciência para suscitar um desejo inédito do saber, até mesmo porque não se pode mais falar do saber da ciência, cujo modelo principal era o da Física? Não somente a Física não é mais a ciência de ponta – ela foi suplantada pela Biologia –, mas os saberes são despedaçados em especialidades múltiplas, mas restritas. Ademais, apesar dos progressos impressionantes das ciências, acredito que daqui por diante, passadas as grandes esperanças, uma certa douta ignorância se aloje, doravante, do lado daqueles que realmente fazem a ciência, e que, por causa disso, cada um em sua área, está em condições de ver os limites, os furos que se multiplicam na medida dos saberes. Daqui por diante só se pode contar com a psicanálise ela mesma para a transmissão desse desejo do saber, e é esse o objeto de sua oferta. Mas, além disso, o analista deve fazer prevalecer sua resposta depois de um século de uma experiência cujos efeitos são difundidos nos discursos. Ora, o que ela produz só pode seduzir aqueles ou aquelas que têm, eu não diria um desejo do real, não sei se isso existe, mas, ao menos, um desejo de saber algo dele. Sobre esse ponto, talvez o real da ciência e do capitalismo – bem pior do que o da psicanálise – poderia fornecer um repelente, que seria um complemento para o real da psicanálise. Tradução de Cícero Alberto de Andrade Oliveira Revisão de Dominique Fingermann

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A oferta, a demanda e...a resposta

resumo

A partir da pergunta: “O que responde o psicanalista?” - título do VII Encontro da Internacional dos Fóruns e da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano - a autora situa o que é da ordem da oferta, da demanda e da resposta em uma psicanálise. A resposta do analista não é do registro da interlocução, a oferta, anterior a demanda e distinta da resposta, é o primeiro passo do ato analítico seu começo. Distinguindo a posição atual dos analistas, das de Freud e Lacan, se pergunta: Como se fazer passar ao ato, em cada caso, a oferta já ali na cultura? Responde a questão marcando a diferença entre o saber e o saber-fazer do analista, distinção fundamental que leva Lacan a dizer que o analista só é responsável no limite de seu saber – fazer. A autora retoma a discussão em torno da resposta, aquela a ser feita à demanda transferencial que tem por objetivo produzir análise, destaca a formulação de Lacan em Televisão, que diz que se trata de tirar a limpo o inconsciente de que cada um é sujeito, isto é produzir a queda da transferência, evidenciar seu impasse e seu engodo, assim como a miragem da verdade. Essa operação desdobra a resposta em duas, sendo que o que qualifica a resposta de fim é a interpretação. A autora ressalta no desenvolvimento de seu texto o alcance comum as diversas formulações que dá Lacan do termo interpretação, a que visa a um real, nunca é conciliadora, não há universal da interpretação. Com a ideia de que a interpretação é um dizer que não, a autora se utiliza da afirmação de Lacan, “o dizer é um ato”, apontando para a dupla dimensão da fala, o dito e o dizer, que irá desdobrar apoiando-se em diversas referencias a Lacan sobre esse tema. Evoca dois efeitos de sentido reais que se escrevem pelo dizer analítico, o sentido real do sintoma e o sentido real do dizer da demanda analisante. Destaca o dizer apofântico da interpretação demonstrando ser uma via possível a trazer um novo olhar sobre o final da análise. A autora conclui sua elaboração com observações sobre o lugar possível da resposta analítica a civilização atual.

palavras-chave

transferência, interpretação, dizer, dizer apofântico, dito, cultura.

abstract

Departing from the question: “What does the psychoanalyst answer?” – the title of the VII Meeting of the International Forums and the School of Psychoanalysis of the Forums of the Lacanian Field – the author situates what is from the order of the offer, demand, and the response in a psychoanalysis. The analyst’s response is not from the recording of the interlocution, the offer, before the demand and distinct from the response, it is the first step of the analytical act, its beginning.

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Distinguishing the current position of the analysts from those by Freud and Lacan, it is asked: How to pass to the act, in each case, the offer already in the culture? She answers the question by calling attention to the difference between knowledge and the ‘knowing how to do’ of the analyst, a fundamental distinction that leads Lacan into saying that the analyst is responsible only at the limit of its ‘knowing how to do’. The author returns to the discussion about the response, that one to be made to the transference demand that aims to produce analysis. She also highlights Lacan’s formulation in Television, which says that it is about clearing up the unconscious of each one is subject, that is, to produce the transference fall, to highlight its impasse and its deception, as well was the mirage of truth. This operation unfolds the response in two, being interpretation what qualifies the final response. The author emphasizes in the development of her text the common reach of various formulations Lacan provides the term interpretation with, since the one which aims at a real, is never conciliatory, there is no universal of interpretation. With the idea that interpretation is a “saying no”, the author utilizes Lacan’s statement “saying is an act,” pointing to the double dimension of speech, the said and the ‘to be said’, which will unfold itself relying on various references to Lacan on this topic. She also evokes two real effects in the sense that they are written by analytical saying, the real sense of the symptom and the real sense of the saying of the analyzing demand. Finally, she highlights the apofantic saying of interpretation, proving to be a possible way of bringing a new look over the end of the analysis. The author concludes her elaboration with observations about the possible place of an analytical response to the current civilization.

keywords

transfer, interpretation, saying, apofantic saying, said, culture.

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ensaios


O real: a resposta da ciência e a resposta do psicanalista1 Raul Pacheco O discurso do mestre é ponto de origem do humano, poderíamos dizer com Freud e Lacan, na medida em que oferece a condição estrutural de constituição do sujeito e de possibilidade de compartilhamento de alguma realidade social entre os membros da comunidade, o que ocorre por meio da ordenação do gozo e da construção do laço social. Mas é também momento de inauguração do conflito e do mal-estar específico, inerentes à condição humana, já que, ao umbral de entrada só é permitido o acesso pela via da alienação estrutural, com pedágio cobrado na moeda do gozo; e seguida da escolha forçada da separação, que recorta um objeto impossível de recuperar para o âmbito do simbólico. Porém, tanto o significante-mestre (S1), quanto o sujeito ($), o objeto (a) e o saber (S2), mudam de lugar e de função, nas diferentes circunstâncias e ao longo dos diferentes momentos das histórias das sociedades, operando transformações sociais e subjetivas apreciáveis e merecedoras de atenção. Foi o que Lacan buscou mostrar no Seminário 17 (1969-1970/1992) e em várias outras apresentações e escritos, por meio de seu rodízio nos quatro lugares definidos pelo matema do discurso. Sabemos que em resposta ao mal-estar estrutural do sujeito, as sociedades constroem, no laço social, suas formas próprias de dissimulação da castração e da ausência da relação sexual: fórmulas que emulam o ardil da perversão, embora não impliquem alteração da estrutura do sujeito. Aqui entra o discurso do capitalista, com sua forma própria paradoxal de aparelhar o gozo ao mesmo tempo em que convoca ilusoriamente à sua realização, fazendo crer que o impossível possa ser ludibriado por meio do consumo de objetos-mercadorias: manobra de prestidigitação que se articula à ciência, pois, sem a tecnologia que desta se deriva, o capitalismo não teria condições de responder aos sujeitos com o mesmo poder de sedução. Já a resposta do analista, com seu discurso, dizemos que opera por via diversa da foraclusão da castração. Considerando minha intenção de pensar sobre a resposta da ciência e a resposta do analista, e dado que o termo ciência aqui tem o sentido específico de “ciência moderna” (essa surgiu a partir do século XVI, com Galileu, Descartes, Francis 1 Uma versão bastante condensada deste trabalho foi apresentada no VII Encontro Internacional da IF-EPFCL “O que responde o analista?”, realizado em julho de 2012, no Rio de Janeiro.

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Bacon, Newton e outros, e nasceu intimamente conectada ao capitalismo), acho que posso passar direto ao momento histórico imediatamente precedente, momento em que Lutero e a Reforma Protestante terçaram armas contra a Weltanschauung do Catolicismo. Afinal, como nos lembra Weber (1974/19041905), a “ética protestante” e o “espírito do capitalismo” estão intimamente relacionados. E parece fora de dúvida que ambos tenham unido seus esforços na preparação da recepção de boas-vindas à Weltanschauung científica. O Protestantismo não questionou a centralidade e unicidade do S1 (Deus). Sua crítica dirigiu-se à Igreja Católica, como único centro institucional autoproclamado legítimo para falar em nome dele. Como diz Marx nos “Manuscritos EconômicoFilosóficos”, Lutero reconheceu a “essência subjetiva” da religiosidade, pois “superou a religiosidade exterior, ao fazer da religiosidade a essência interior do homem; ele também negou a separação entre o sacerdote e o leigo, porque transferiu o sacerdote para o coração do leigo” (1844/1974, p. 9). Mas isto não significa que esta subjetivação (enquanto “superação da objetividade exterior”), que seria mais bem denominada “individualização”, tenha sido utilizada para libertar o ser humano da religião, já que Lutero a empregou para colocar o ser humano sob a determinação (Bestimmung) da mesma: o Protestantismo proposto em substituição ao Catolicismo. Constate-se que a competição pelo lugar de porta-voz da palavra divina (e de centro produtor de ideologia) produz o enfraquecimento de qualquer um dos pretendentes, ao fraturar o consenso social. Deste modo, pode-se dizer que o Protestantismo “preparou o terreno” (nos dois sentidos em que se pode entender o termo “terreno”) para o giro discursivo indicado por Lacan na segunda aula do Seminário 17: (...) o que se opera entre o discurso do senhor antigo e o do senhor moderno, que se chama capitalista, é uma modificação no lugar do saber. (...) O fato de que o tudo-saber tenha passado para o lugar do senhor, eis o que, longe de esclarecer, torna um pouco mais opaco o que está em questão – isto é, a verdade. De onde sai isso, o fato de que haja nesse lugar um significante de senhor? Pois este é precisamente o S2 do senhor, mostrando o cerne do que está em jogo na nova tirania do saber. Isto é o que torna impossível que nesse lugar apareça, no curso do movimento histórico – como tínhamos, talvez, esperanças –, o que cabe à verdade. O sinal da verdade está agora em outro lugar. Ele deve ser produzido pelos que substituem o antigo escravo, isto é, pelos que são eles próprios produtos, como se diz, consumíveis tanto quanto os outros. Sociedade de consumo, dizem por aí (pp. 29-30).

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Soler (2010) propõe que, em lugar de entender como “esquizofrenização”, essa “pluralização dos termos em concorrência que presidem aos pontos de vista em nossos tempos”, é melhor recorrer ao diagnóstico preciso de “degenerescência do significante-mestre”, que Lacan apresenta na última aula do Seminário 17. Eu também acredito que isso explica melhor a aceleração paroxística das transformações produzidas pelo capitalismo, que posteriormente conduziram Lacan a apresentar o matema do discurso do capitalista, para buscar explicar-lhe as mudanças no laço social e na ordenação do gozo; e sem os equívocos instaurados pela expressão “declínio da função paterna”. E prosseguindo com as reflexões de Colette Soler “sobre a forma que toma hoje a degradação do Significante Mestre, que Lacan diagnosticou com o Discurso Universitário”, e sobre a “tirania do saber” por ele implicado, encontramos que: (...) em relação ao saber, não há apelo: ele dispensa qualquer justificativa e se impõe como vindo do real, notadamente quando se trata do verdadeiro saber da ciência, aquela que é dita dura [da distinção entre hard e soft sciences; homofonia que soa ainda melhor em português que em francês: dit dure (dita dura) / dictature (ditadura)]. E essa tirania se redobra em nossa época de ideologia pseudocientífica, com tudo que pretende autorizar-se do saber (SOLER, 2010, p. 257). Não quero demorar-me sobre a afirmação de que o sujeito contemporâneo é tiranizado pela massa espetacular de pseudociência gerada para dar sustentação ao capitalismo, pois isso me parece evidente a ponto de dispensar maiores considerações. Já a proposição de que o saber da ciência impõe-se como vindo do real parece-me merecer uma reflexão mais elaborada, por envolver controvérsias importantes no âmbito da filosofia da ciência contemporânea. E permite um contraponto com o avanço decisivo de Lacan para o campo do gozo, sua delimitação rigorosa da noção de real e uma forma inovadora de resposta do analista na condução da clínica, coerente com uma opacidade e um limite intransponíveis para a busca de sentido das interpretações. “Que o verdadeiro visa ao real, este enunciado é fruto de uma longa redução das pretensões à verdade” (LACAN, 1972-1973/1982, p. 123). Essa passagem de Lacan da verdade ao real não pode ser dissociada dos limites encontrados na clínica com a “rocha da castração”. Primeiro, ele precisou escapar dos limites freudianos do “sentido sexual” do desejo. Depois, teve que encontrar um modo de operação do analista que escapasse aos próprios limites da linguagem. Com isso ele adentrou no mesmo território em que se situam as mais importantes controvérsias da Epistemologia e da Filosofia da Ciência.

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Aliás, nestas, as noções de verdade e verdadeiro também perderam muito do seu prestígio, diante do questionamento à existência de critérios absolutos para se comparar dois saberes diferentes alternativos, originados em duas fontes distintas (o tema da incomensurabilidade entre paradigmas ou teorias). E aqui existe um ponto de contato com o que ocorreu na psicanálise, já que o problema da pluralidade – e, consequentemente, da incomensurabilidade das interpretações – estava subjacente ao núcleo da crítica de Popper à cientificidade da psicanálise (POPPER, 1956-1957/1985). E a questão da verdade da interpretação inserese no âmbito das questões, a um só tempo clínicas e epistemológicas, que movimentaram o ensino de Lacan. Isto se observa na direção da práxis e na teoria: na primeira fase, na recomendação inicial sobre a supremacia do significante, em oposição à interpretação baseada no significado ou no “simbolismo verdadeiro”; na sequência, na construção progressiva do conceito de “sujeito suposto saber” e na disjunção entre verdade e saber; e nas etapas posteriores, no questionamento aos limites da interpretação baseada no sentido e no já citado deslocamento da ênfase da verdade para o real, que exigiu sua definição rigorosa. Lembremos que Kant é um marco histórico nesse debate, ao propor que o conhecimento seja construído por sínteses dos dados, ordenados a partir das categorias apriorísticas do entendimento. Consequentemente, não seria possível conhecer o noumenon – que corresponderia às coisas em si –, mas apenas o fenômeno – que corresponderia às aparências, aos objetos que resultariam das sínteses a priori do próprio ato de conhecer (KANT, 1781/2012). E Lacan tem plena consciência de que as dificuldades do analista têm, também, um vínculo com esse assunto, como aparece, por exemplo, em O aturdito: (...) A referência pela qual situo o inconsciente é justamente aquela que escapa à linguística, posto que, como ciência, ela não tem o que fazer com o “pareser” [parêtre, em lugar de paraître], assim como não numena. Mas nos conduz [nous mène, homófono a noumène: o noumenon kantiano] (...), embora decerto não para o inconsciente. (...) A psicanálise, por sua vez, só acessa a isso pela entrada em jogo de uma Outra diz-mensão, que se abre no que o condutor (do jogo) “finge” ser o grande efeito de linguagem, o objeto pelo qual se (a)nima o corte que com isso ela permite: o objeto (a), para chamá-lo pela sigla que lhe atribuo. (...) Uma língua entre outras não é nada além da integral dos equívocos que sua história deixou persistirem nela. É o veio em que o real (...) se depositou ao longo das eras (1973/2003, pp. 491-492). Sabemos que na Filosofia da Ciência o Positivismo Lógico tentou resolver esse problema com sua concepção de uma superação radical da diferença entre fatos

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e teorias e com a proposição do primeiro como fornecedora de uma espécie de metalinguagem capaz de possibilitar o consenso. Os fatos constituiriam um real consensual e insuspeito que poderia responder pela sustentação das teorias. Mas essa solução desperta cada vez menos entusiasmo entre cientistas e filósofos da ciência: A concepção de observação proposta pelos neopositivistas – por meio da qual o registro de dados sensórios e nossas elaborações intelectuais a eles relativas se mantêm apartados – é um golpe analítico equivalente ao de um açougueiro lógico. Resulta na morte da ciência natural, cujo pulsar é uma luta por observações mais inteligentemente buscadas, racionalmente compreendidas e teoricamente apreciadas (HANSON, 1967/1975, p. 128). Além disso, como lembra Lakatos, “os resultados de Einstein tornaram a virar a mesa e, agora, pouquíssimos filósofos ou cientistas ainda pensam que o conhecimento científico é, ou pode ser, o conhecimento demonstrado” (1970/1979, p. 110). Embora muitos não compreendam: (...) toda a estrutura clássica dos valores intelectuais desmorona e precisa ser substituída: não se pode simplesmente jogar por terra o ideal da verdade demonstrada – como fazem alguns empiristas lógicos – reduzindo-o ao ideal da “verdade provável”, nem – como fazem alguns sociólogos do conhecimento – à “verdade pelo consenso (mutável)”. (Idem). Não será possível indicar aqui nem ao menos os pontos centrais desse intenso debate, com posições inteiramente inconciliáveis, em torno da questão da verdade do conhecimento científico, na filosofia da ciência contemporânea. Debates que opõem neopositivistas, falsificacionistas, justificacionistas, e teóricos da revolução e do corte epistemológico, apenas para mencionar os grupos mais influentes. E que incluíram em suas “fileiras” nomes expressivos como Carnap, Quine, Popper, Koyré, Lakatos, Feyerebend, Bachelard e Kuhn. Mas cabe lembrar a influência e prestígio crescentes de teóricos que advogam a inexistência de um padrão linear de progresso científico e que questionam a própria existência de algo que possa ser denominado Ciência, no singular, na medida em que os próprios parâmetros de avaliação da verdade do conhecimento científico são um dos aspectos “em jogo”, no “jogo da ciência”. Aqui, devemos mencionar Kuhn, lembrando que do mesmo modo que Lacan,

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ele também declarou que Koyré é seu “mestre” em se tratando do assunto.2 Sua proposição de incomensurabilidade entre diferentes paradigmas científicos implica a inexistência de consenso sobre o que seria um real exterior às construções das teorias, que fornecesse base segura para sustentação (como queriam os neopositivistas) ou refutação (como queria Popper) das proposições teóricas em disputa: “Por que a tradução, seja entre teorias, seja entre linguagens, é tão difícil? Porque, como tem sido frequentemente observado, as linguagens cortam o mundo de maneiras diferente, e não temos acesso a um meio sublinguístico neutro de relatar” (KUHN, 1970/1979, p. 331). Ou, como Lacan nunca deixou de propor, “não existe metalinguagem”. Na opinião de Kuhn, para se visar a qualquer progresso no assunto, os filósofos da ciência precisariam “seguir outros filósofos contemporâneos no exame, numa profundidade até agora sem precedentes, da maneira como os termos se ligam à natureza, como se aprendem essas ligações e como são transmitidos de uma geração a outra pelos membros de uma comunidade linguística” (p. 290). E de qualquer modo, “a história da ciência desenvolvida mostra que a natureza não se deixará enclausurar indefinidamente em nenhum conjunto construído até agora pelos cientistas” (p. 325). Talvez em parte por isso, mas provavelmente também devido a implicações éticas do ofício do psicanalista, é que Lacan apresenta um percurso alternativo, ao formular uma margem de liberdade para o sujeito e buscar dar conta da opacidade do real introduzindo-o no próprio interior do campo da psicanálise, como um elemento conceitual necessário e não eliminável, uma vez que intrínseco ao próprio objeto que se trata de investigar. Não se trata de um resíduo que se possa conceber como provisório, cuja eliminação se possa esperar a partir de aperfeiçoamentos teóricos e metodológicos futuros. A posição de Lacan é que o psicanalista “não é apenas solicitado a construir a teoria do engano essencial ao sujeito da teoria – aquele a que chamamos sujeito suposto saber”. Para além disso, seu empenho orienta-se, “não sem experimentar sua atopia sem precedentes”, na direção de “uma teoria que inclua uma falta, a ser encontrada em todos os níveis, inscrevendo-se aqui como indeterminação, ali como certeza e a formar o nó do ininterpretável” (LACAN, 1967/2003, p. 338). Daí a justificativa da sua questão: “Quem sou eu para ousar tal elaboração? A resposta é simples: um psicanalista.” (Ibid., p. 339).

2 Veja-se Lacan (1966/1998, p. 870) e Kuhn (1977/2011, p. 46).

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pacheco, Raul

resumo

O objetivo desta apresentação é abordar a questão do que responde o analista ao mal-estar do existir na civilização, buscando-se a especificidade de sua oferta em relação à de outro campo historicamente articulado. Para isso, problematizam-se as conexões entre Psicanálise e Ciência, retomando-se como o capitalismo, liberto da necessidade de sua base religiosa, emancipou-se do pai do protestantismo puritano e passou a definir sua filosofia, ética, objetos específicos de demanda (mercadorias), sua lógica de gozo (discurso do capitalista) e sua maneira particular de produzir o seu saber: a ciência moderna, fundamentada na eliminação das singularidades do objeto de estudos, na foraclusão do sujeito, no desaparecimento do nome do autor (FOUCAULT, O que é um autor?, 1983 [1969]) e na progressiva destituição subjetiva dos próprios cientistas (SOLER, Variantes da destituição subjetiva, 2002). Interrogam-se as relações entre Psicanálise e Ciência, relembrando-se as contradições aparentes entre, de um lado, a convicção freudiana da cientificidade da psicanálise – “A psicanálise não precisa de uma Weltanschauung; faz parte da ciência e pode aderir à Weltanschauung científica” (FREUD, 1933/1980, p. 220) – defendida também por Lacan até meados dos anos 60. E, de outro, as afirmações lacanianas defendendo a sua exclusão interna do campo da ciência, mais para o final da sua obra. Propõe-se que uma busca de entendimento dessas contradições deva enfocar o modo como o avanço decisivo de Lacan para o campo do gozo (o campo propriamente lacaniano) e a delimitação rigorosa da noção de real vieram a convocar uma forma inovadora de resposta do analista, em sua tarefa de conduzir a clínica. Resposta esta congruente com a revelação de uma opacidade intransponível, que aponta um limite na busca de sentido das interpretações. Isso exigiu a formulação de uma margem de liberdade para o sujeito e de uma direção para a busca de saber, que apontam diferenças importantes em relação ao que acontece nos demais campos científicos. A opacidade do real, agora posta no interior do campo como um elemento conceitual necessário e não eliminável – uma vez que intrínseca ao próprio objeto que se trata de investigar –, não mais constitui resíduo que se possa conceber como provisório, cuja eliminação se possa esperar a partir de aperfeiçoamentos teóricos e metodológicos futuros.

palavras-chave

Real, ciência, resposta, psicanalista, epistemologia.

abstract

The objective of this presentation is to address the issue of what the analyst responds to the uneasiness of existing in civilization, seeking the specificity of

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O real: a resposta da ciência e a resposta do psicanalista

his/her offer in relation to another historically articulated field. For this, it is problematized the connections between Psychoanalysis and Science, returning to the point of how capitalism, freed from the necessity of its religious basis, emancipated itself from the father of puritan Protestantism and began to define its philosophy, ethics, specific objects of demand (goods), its logic of jouissance (the capitalist’s discourse) and its particular way of producing its knowledge: modern science, based on the elimination of singularities of the object of studies, in foreclosure of the subject, the disappearance of the author’s name (Foucault, What is an author?, 1983 [1969]) and in the progressive subjective destitution of scientists themselves (Soler, Variants of subjective destitution, 2002). The relationships between Psychoanalysis and Science are interrogated, reminding that the apparent contradictions between, on the one hand, the Freudian conviction of the scientific basis of psychoanalysis – “Psychoanalysis does not need a Weltanschauung, it is part of science and it can adhere to the scientific Weltanschauung” (Freud, 1933/1980, p. 220) – also advocated by Lacan up to the mid 1960s. And, on the other hand, the Lacanian statements defending the internal exclusion from the field of science, towards the end of his work. It is proposed that a search of understanding these contradictions focuses on the way how Lacan’s decisive advance for the field of jouissance (the Lacanian field itself) and the precise delineation of the notion of real came to invite an innovative way of response by the analyst in his/her task of conducting the clinic. This answer, congruent with the revelation of an insurmountable opacity, points to a limit in search of meaning interpretations. Such a process required the formulation of a degree of freedom to the subject and of a direction for the pursuit of knowledge, which point to important differences in relation to what happens in the other scientific fields. The opacity of the real, now placed within the field as a conceptual element necessary and not dischargeable – once intrinsic to the object itself that it is being investigated – no more constitutes a residue that can be conceived as provisional, whose elimination can be expected from theoretical and methodological future improvements.

keywords

Real, science, response, psychoanalyst, epistemology.

recebido 14/02/2013

aprovado 29/02/2013

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A interpretação como valor de verdade e como função poética Conrado Ramos Decidi tomar a questão provocativa de nosso Encontro Internacional (O que responde o psicanalista) pela via da lógica da interpretação: que bases poderíamos propor para uma lógica da interpretação? Podemos pensar que há um cálculo da interpretação? Em certa medida, o analista calcula, faz um cálculo proposicional do que escuta, cálculo do qual extrai suas intervenções, sem saber, obviamente, os efeitos que elas vão ter. Seus cálculos são feitos com base em suas hipóteses clínicas e diagnósticas, que podem não se verificar. Os efeitos são incalculáveis, mas não as intervenções do analista. Para dar um exemplo, é porque estava amparado no modus tollens, isto é, no modo que nega e faz a prova indireta de uma implicação, que um analista pôde ouvir na proposição “só não me caso porque não arrumei um emprego”, a premissa “se arrumar o emprego vai ter que casar”, da qual pôde subentender e interpretar que não era do emprego que se fugia. Assim, se considerarmos Emprego (E) e Casamento (C) como conjuntos, podemos dizer que, para este sujeito valia o argumento E ⊆ C, logo, se x ∉ E, é possível que x ∉ C. O que importava era escrever uma variável x como um lugar fora do conjunto C. Foi a lógica das articulações inconscientes deste sujeito que se pôde ouvir para interrogá-lo em seu “não conseguir arrumar um emprego”. Em outro exemplo, podemos entender que foi por tomar como um argumento lógico a proposição “um dia meu pai me confessou que, na verdade, ele não gosta da minha mãe”, que um analista pôde ouvir e fazer desdobrar-se a função edípica do gostar, presente nesta frase. O “na verdade”, da frase, é mais uma denúncia do que uma confissão, pois, se “na verdade” ele não gosta da mãe, cumpre perguntar: de quem, na verdade, ele gosta? O gostar aí é uma propriedade, da qual podemos dizer $(x)Φ(x), ou seja, que para o argumento (x) vale a função Φ, na qual podemos ler o endereçamento do gostar deste pai: Φ(x) = gostar de alguém. Assim, se na verdade ele não gosta da mãe, isto quer dizer que não é a mãe que entra em x. Quem, então, ali se aprisiona? Esta é a questão que faz vir à tona a proposição que se oculta na verdade. É a analisante, pois, que se sustenta ali, no x que recebe o gostar do pai, x no qual se suporia estar a mãe. O que se pode ler logicamente na proposição, então, é a função edípica atribuída ao gostar. Não se trata, nos casos destes dois exemplos, que seja verdade que haverá

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casamento depois do emprego, nem tampouco que seja a analisante aquela de quem o pai efetivamente gosta. O que conta, em suma, é o valor de verdade que estas formulações trazem e, como decorrência, que a interpretação é a tradução em palavras do valor de verdade que o sintoma é, enquanto função, conforme Lacan (1971-72/2011) propõe em O saber do psicanalista (aula de 2 de dezembro de 1971). Aquilo que traduz em palavras um valor de verdade é uma escrita, uma cifra. A significação produzida pelo cálculo da interpretação vale mais pelo que ela escreve logicamente como valor de verdade do que pelo significado que ela fixa e que é, em si mesmo, absurdo, muitas vezes. Afinal, todos sabem que é possível casar sem arrumar emprego ou mesmo arrumar emprego sem ter que casar, mas um saber inconsciente, de um sujeito singular, cifrou emprego e casamento numa relação que não existe e a tomou como verdade. É por isso que a decifração se resume ao que faz a cifra, conforme Lacan (1974/2007) disse em A terceira. Assim, ainda que no primeiro exemplo o sujeito fuja do emprego como quem foge do casamento, o que entrou em jogo não foi a revelação de sua condição de celibatário, como se esta fosse o conteúdo oculto do seu sintoma e a essência de seu ser, mas sim sua construção de uma resposta sintomática ao enigma do feminino, modo pelo qual fazia S1 representar um $ para S2. Pois bem, temos aqui o sintoma, entendido como uma fixação inconsciente de gozo pelo aparelhamento de uma linguagem cujo código e funcionamento constituem o trabalho da interpretação. Podemos achar na essência deste processo uma significação congelada, cuja referência à sexualidade e à fantasia deve ser considerada. Nestes dois exemplos, seja porque o sujeito não quer entrar no lugar lógico que seu discurso sustenta, como no primeiro caso; ou porque ele ali se aprisiona, como no segundo, as respostas do analista, pensadas como suas intervenções em cada caso, foram orientadas logicamente. O que ele ouviu – ou leu –, podemos assim dizer, foi a função matemática dos elementos da fala. Mas aqui devemos tentar ir além e nos perguntarmos: é esta a única função presente no horizonte do significante? É aqui que devemos trazer a necessidade de Lacan de buscar na poesia ou, mais especificamente, na função poética, um outro suporte teórico para a interpretação. Não à toa Lacan (1971-72/2012) escreve, na aula de 4 de maio de 1972 do seminário O saber do psicanalista, que o significante tem dois horizontes: um matemático e um maternal/material. Trago, então, o exemplo de um sujeito que passou suas entrevistas iniciais se queixando de não conseguir fazer nada. O máximo desta posição ele situou no fato de nunca ter se preocupado em levar a mãe doente a um médico. Obviamente, ela havia morrido e ele sentiu-se ainda mais culpado e inútil. Num dado momento, disse, indignado: “vivo numa tamanha inutilidade”. O analista ouviu e repetiu:

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“não mata a mãe, inutilidade”. O efeito foi a lembrança súbita de um sonho – o primeiro desta análise –, que esse sujeito disse não saber por que se lembrou, tendo em vista que “a mãe não aparece” (sic): está num parque de diversões com a família, “menos a mãe” (sic). De repente, saem com os carrinhos bate-bate por uma estrada de terra. Encontram um bezerro grande mamando numa vaca morta. Ele sai do carrinho para tentar salvar o bezerro. Pergunta-se, desesperado, no sonho, quem poderá ajudá-lo. Aqui, durante um tempo considerável, vira-se e fica imóvel, olhando em silêncio para o analista que, pela primeira vez, é convocado à cena: deu-se aí um corte de sessão e a entrada em análise. O que este exemplo tem de diferente dos outros dois é que a intervenção não operou logicamente, mas pela equivocação do significante. Não houve cálculo proposicional, mas sim algo mais próximo da construção de um chiste. Não houve uma articulação lógica de lugares e funções, mas apenas um rearranjo das relações entre som e sentido. Vale notar, entretanto, que ainda assim esta interpretação não é um “vale-tudo”, pois o analista deve ter em jogo a transferência e, além disso, o campo de significantes, de relações e de investimentos pulsionais de seu analisante. Assim, é improvável que a lembrança do sonho – no qual a mãe aparece pela via da denegação – e a função que ele assume nesta análise – de convocação do analista – não sejam respostas ao efeito de sentido provocado pela intervenção do analista. Lembremos que na função poética o destaque é dado à mensagem por ela própria, enquanto os outros elementos da comunicação tornam-se secundários (JAKOBSON, 1960/2008). Com a redução ao mínimo das funções comunicativas em favor da mensagem, o que temos é a entrada em jogo das combinações de sons, fonemas e escansões para a produção de efeitos de sentido que, no tocante à interpretação, se aproximam mais do chiste que do belo, tendo em vista que o que entra em jogo na função da interpretação é a economia, o gozo que o equívoco significante produz. Neste caso o que temos não está do lado da lógica, embora deva ser abordado pela via da função – função poética –, não está mais articulado ao valor de verdade, mas sim ao valor econômico existente no efeito de sentido. O que uma interpretação pelo equívoco significante gera, o que um chiste produz e que se manifesta pelo riso, é um efeito de sentido. Este efeito de sentido, no que diz respeito ao sintoma, só vale pelo que ele aponta de produção de gozo, na medida em que sua economia funda um valor, valor de uso. Neste horizonte do significante, portanto, o que a interpretação visa não é tanto ao valor de verdade como valor lógico, mas sim ao valor de uso como valor econômico do sintoma. Mas podemos, de todo modo, tomar o valor econômico gerado pelo efeito do sentido como valor de verdade, desde que consideremos que, nesta via, a verdade se especifica em ser poética, e não lógica (LACAN, 1976-77).

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Daqui eu tiro, enfim, minha questão: será que devemos tomar a produção do efeito de sentido, considerado por essa via econômica do equívoco, na mesma linha da significação cristalizada que encontramos naquilo que se institui pelo valor de verdade? Estou de acordo com Nominé (2011) quando ele diz que “o campo do sentido e da significação é um campo fundamentalmente instável, em que se pode chapinhar como em areia movediça” (p. 66). Entendo que ainda temos que articular as relações entre o valor de verdade da significação congelada e o valor de uso do efeito de sentido. É aí que entra o sintoma como cifra – F(x) –, não como significação cristalizada, mas como o tonel furado – um corpo – necessário para o escoamento do sentido, efeito do sentido, pelo qual uma economia de gozo possível produz uma fixação mínima necessária para se gozar do inconsciente. Em RSI, Lacan (1974-75) articula diretamente o dizer o sintoma à função do sintoma, a se entender pela formulação matemática F(X). O X aí em questão, como letra, é o meio pelo qual o inconsciente se escreve numa função para fazê-la operar como sintoma. Isso que se traduz por uma letra, precisa, então, da função, do sintoma para que o sentido se capte (Begriff ) por escapar (LACAN, 1975/2003). Não se pode gozar do inconsciente senão por meio disso que faz laço: um corpo. A poesia e o chiste são efeitos de sentido, mas também efeitos de furo. Que os efeitos de sentido se fechem rapidamente, aí está o problema. Não seria, então, a interpretação que equivoca o significante, um ato de abrir o tonel? O que uma análise transmite, assim, articula a inscrição de uma função de gozo com o consentimento da fuga do sentido – os dois horizontes do significante.

referências bibliográficas JAKOBSON, R. (1960). Linguística e poética. In: Linguística e comunicação. São Paulo: Cultrix, 2008, pp. 118-162. LACAN, J. (1971-72). Estou falando com as paredes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2011. __________. (1971-72). O Seminário, livro 19: ... ou pior. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2012. __________. (1974). La tercera. In: LACAN, J. Intervenciones y textos 2. Buenos Aires: Manantial, 2007, pp. 73-108. __________. O Seminário: RSI. (1974-75): aula de 25 de janeiro de 1975. Inédito. __________. (1975). Introdução à edição alemã de um primeiro volume dos Escritos. In: LACAN, J. Outros escritos. Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro:

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A interpretação como valor da verdade e como função poética

Jorge Zahar Editor, 2003, pp. 550-556. __________. O Seminário: L’insu que sait de l’une bévue s’aile à mourre. (197677): aula de 18 de abril de 1977. Edição heReSIa (para circulação interna). Inédito. NOMINÉ, B. (2011). Luto do sentido? In: Wunsch 11. Boletim Internacional da EPFCL. Outubro de 2011. Disponível em: <http://www.champlacanien.net/ public/docu/4/wunsch11.pdf>. Acesso em 28 de janeiro de 2013.

resumo

O artigo desenvolve as implicações, para a interpretação, decorrentes dos dois horizontes do significante apontados por Lacan em O saber do psicanalista, quais sejam, um matemático e um materno/material. Pretende-se considerar, de um lado, a dimensão lógica da interpretação como a tradução em palavras do valor de verdade que o sintoma é, enquanto função. Nesta perspectiva, o sintoma pode ser entendido como uma fixação inconsciente de gozo pelo aparelhamento de uma linguagem cujo código e funcionamento constituem o trabalho da interpretação. De outro lado, porém, encontramos nos últimos anos do ensino de Lacan a interpretação pensada a partir da função poética, na qual o destaque é dado à mensagem por ela própria, enquanto os outros elementos da comunicação tornam-se secundários. Propõe-se ao final que, se por um lado não se pode esperar de uma análise o sentido último, tampouco, por outro lado, deve-se levá-la ao ponto da exclusão do sentido. É aí que entra o sintoma, não como significação cristalizada, mas como o tonel necessário para o escoamento do sentido, efeito do sentido, pelo qual uma economia de gozo possível produz uma fixação mínima necessária (uma função) para se gozar do inconsciente.

palavras-chave

Interpretação, sintoma, sentido, função poética.

abstract

The article sets to develop the implications for interpretation deriving from the two horizons of the signifier pointed out by Lacan in The Knowledge of the Psychoanalyst, namely, a mathematician and a maternal/material. The goal then is, on the one hand, to consider the logical dimension of interpretation as the translation into words of the value of truth which the symptom is while working as a function. Under such a perspective, the symptom can be understood as an unconscious fixation of jouissance through the equipping of a language whose code and functioning comprise the work of interpretation. On the other hand, in the last

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years of Lacanâ&#x20AC;&#x2122;s teaching, we find the interpretation articulated from the poetic function, in which the emphasis is given by itself to the message, while other elements of communication become secondary. It is proposed at the end that if, one the one hand, one cannot expect the ultimate meaning from an analysis, on the other hand, one should not take it to the exclusion point of the meaning. This is where the symptom comes in, not as crystallized significance, but as the necessary barrel for the flow of meaning, effect of meaning, through which a possible economy of jouissance produces a minimum necessary fixation (a function) for enjoyment from the unconscious.

keywords

interpretation, symptom, meaning, poetic function.

recebido 30/01/2013

aprovado 15/02/2013

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A moral mundana e os princípios da ética do desejo Bárbara Guatimosim

Desenho de F. Kafka

A moral mundana e os princípios da ética do desejo “Tinha sido impossível para ele entrar na casa, porque ele tinha ouvido uma voz que lhe dizia: ‘Espere até eu te conduzir! assim ele ainda estava deitado na poeira nafrente da casa.” Kafka, Diários, 21/10/1921.

A psicanálise é uma ética. Não é possível uma moral receber tratamento. Uma moral se obedece ou não. Na psicanálise trata-se de uma ética, porque trata-se de depurar a causa que orienta as ações do sujeito, guiá-lo para aquilo que pode conduzi-lo. Será que não é possível que se conceba uma conduta na medida desse verdadeiro estatuto do desejo, e será mesmo possível não nos apercebermos de que nada, nem um passo de nossa conduta ética pode, apesar da aparência, apesar da ladainha secular do moralista, sustentar-se sem uma referência exata da função do desejo? Será possível que nós nos contentemos com exemplos tão derrisórios quanto os de Kant quando, para nos revelar a dimensão irredutível da razão prática, ele nos dá como exemplo, que o homem honesto, mesmo no cúmulo da felicidade, não deixará de ter pelo menos um instante em que ponha em balanço

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que ele renunciaria àquela felicidade para não lançar contra a inocência um falso testemunho em benefício do tirano? Exemplo absurdo, pois, na época em que vivemos, e também na de Kant, não está a questão em outro ponto? Pois o justo vai balançar, sim, para saber se, para preservar sua família, ele deve ou não lançar um falso testemunho. Mas o que quer isso dizer? Será que quer dizer que, se ele dá chance através disso ao ódio do tirano contra o inocente, ele poderia lançar um testemunho verdadeiro, denunciar seu companheiro como judeu, quando ele o é de fato? Não será aí que começa a dimensão moral, que não é saber qual o dever que temos de cumprir ou não em face da verdade, nem se nossa conduta cai ou não sob o golpe da regra universal, mas se nós devemos satisfazer ou não o desejo do tirano? Aí está a balança ética propriamente falando; e é nesse nível que, sem fazer intervir nenhum dramatismo externo – não precisamos disso – temos também de nos ocupar com aquilo que, no término da análise, fica suspenso ao Outro. É enquanto a medida do desejo inconsciente, no término da análise, fica ainda implicado nesse lugar do Outro que encarnamos como analistas, que Freud, no término de sua obra, pode marcar como irredutível o complexo de castração, como inassumível pelo sujeito (LACAN, 1961-62, lição de 21/03/1962). Nesse ponto de seus seminários, vemos Lacan se deter em um claro prolongamento de suas críticas à moral kantiana, levantadas por ele anteriormente no Seminário 7 (1960/1988, p. 232), em contraponto com o que entende ser a direção do tratamento em psicanálise. Essas críticas se estenderão ao longo de seu ensino, principalmente em Kant com Sade (1963/1998, pp. 776-777) quando Lacan diz que a Filosofia da Alcova de Sade fornece a verdade da Crítica da Razão, e posteriormente, no final do Seminário 11, no qual, segundo Lacan (1964/1979), a Lei moral kantiana: não é outra coisa senão o desejo em estado puro, aquele mesmo que termina em sacrifício, propriamente falando, de tudo que é objeto de amor em sua ternura humana. (...) Aí está o exemplo do efeito de abertura dos olhos que a análise permite a tantos esforços, mesmo os mais nobres da ética tradicional (p. 260). Ao final da citação do Seminário 9, Freud nos é lembrado por nos deixar como testamento, em seu trabalho sobre Análise terminável e interminável, a referência a um ponto de resistência que vigoraria nas análises até então, ponto final suspeito – por ser neurótico – obstáculo feito limite pelo complexo de castração. Mas Lacan lança, nessa longa pergunta clínica, que se estende claramente até a política, um desafio aos analistas no sentido de responder de qual posição se confrontam com o Outro ao final de uma análise. Para Lacan é esse o ponto fundamental que

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distingue o moralismo, kantiano ou não, da possível ética do desejo. A atitude moral, ao se referenciar no dever para com uma dita verdade ou por se apoiar em “regras universais”, pode ser agir “corretamente” ou de acordo com as últimas. Verdades e regras, quando sustentadas por um Outro, mesmo não encarnado, a quem se deve obedecer, desobrigam o sujeito a se ajuizar ante o desejo que lhe dá a medida de sua ação. A pergunta que se precipita ao final do Seminário da Ética, “Agiste conforme o desejo que te habita?”, é uma pergunta que convoca a ação do juízo de cada um e desloca o topos de referência a que se deve consultar. Evidentemente, o desejo que habita o sujeito não pode se reduzir a uma vontade que deslizaria de um ponto, onde se satisfaz o Outro, para um segundo, que daria satisfação ao narcisismo do eu. Podemos dizer mais simplesmente que a ética do desejo não serve nem ao Outro nem ao eu, mas serve ao desejo, esse lugar terceiro que se engendra quando a lei da castração, a barra da perda de gozo atinge ambos, o eu e o Outro liberando o caminho. É por isso que a ética do desejo não está apensa nem ao tirano, nem ao súdito, nem à conveniência das regras que possam regê-los. A ética do desejo sustenta a conduta que mantém a “subsistência do sujeito” e a pergunta pelo desejo no ser falante. Uma questão análoga também pode se extrair da leitura do conto Diante da lei de Franz Kafka (1915/2011, p. 105), que narra o seguinte: Diante da Lei está um porteiro. Um camponês dele se aproxima e pede para entrar na Lei. Mas o porteiro diz que agora não pode autorizar-lhe a entrada. O camponês pergunta se pode entrar mais tarde. – É possível – diz o porteiro. – Mas agora não. Uma vez que o homem se inclina a olhar da porta da lei que continua aberta, o porteiro ri e diz: – Se o atrai tanto, tente entrar, apesar da minha proibição. Mas veja bem: eu sou poderoso. E sou apenas o primeiro dos porteiros. De sala para sala, porém, existem porteiros cada um mais poderoso que o outro. Nem mesmo eu posso suportar a simples visão do terceiro. O camponês não esperava tais dificuldades: a lei deve ser acessível a todos e a qualquer hora, pensa ele. No entanto, ao examinar mais de perto o aspecto estrangeiro do porteiro, decide que é melhor aguardar a permissão de entrada. O porteiro lhe dá um banquinho e deixa-o sentar-se ao lado da porta. Ali fica por anos. Ele faz muitas tentativas para ser admitido, e às vezes o porteiro faz ao homem pequenos interrogatórios, mas são perguntas indiferentes, como as que os grandes senhores fazem, concluindo sempre que ainda não pode deixá-lo entrar. O homem emprega tudo o que tem de valioso para subornar o porteiro. Este sempre aceita tudo, mas dizendo: – Eu só aceito para você não julgar que deixou de fazer alguma coisa. Durante longos anos o homem observa o porteiro. Esquece os outros e este

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primeiro guardião parece-lhe o único obstáculo para a entrada na lei. Amaldiçoa, no início, em voz alta; mais tarde, quando envelhece, apenas resmunga. Tornase infantil e, por estudar o porteiro anos a fio, conhecendo até as pulgas da sua gola de pele, pede a elas que o ajudem a fazê-lo mudar de opinião. Finalmente, sua vista enfraquece e em torno fica mais escuro. Reconhece agora no escuro um brilho que irrompe inextinguível da porta da lei. Mas já não tem mais muito tempo de vida. Antes de morrer, todas as experiências daquele tempo convergem para uma pergunta que até então não havia feito ao porteiro. Com o corpo enrijecido faz um aceno ao porteiro para que se aproxime. O porteiro precisa curvar-se profundamente até ele: – O que é que você ainda quer saber? – pergunta o porteiro. – Você é insaciável. – Todos aspiram à lei – diz o homem. – Como se explica que em tantos anos ninguém, além de mim, pediu para entrar? O porteiro percebe que o homem já está no fim, e para ainda alcançar sua audição em declínio ele berra: – Aqui ninguém mais podia ser admitido, pois esta entrada estava destinada só a você. Agora eu vou embora e fecho-a.1 Essa “história”, segundo Modesto Carone (in KAFKA, 2011, p. 103), é o centro nervoso da obra de Kafka e do romance O processo, no qual a lenda surge também em seu penúltimo capítulo. Carone lembra que Walter Benjamin chega a afirmar que a parábola Diante da lei é uma das melhores narrativas curtas da língua alemã.2 Kafka, algo raro, ficou muito satisfeito com a história e desde que a escreveu, a parábola sofreu inúmeras leituras. Levantaremos algumas: 1. Estamos com Kafka, nessa parábola, diante de qual lei? Não parece ser aquela advinda do corte da castração que opera o pai simbólico; não é uma lei separadora, distinta do supereu, que libera o desejo do sujeito, mas está ligada a uma figura parental dominadora que ameaça qualquer desobediência com o pior. A lei com que o homem da história parece se confrontar é a desse pai contaminado pela obscenidade do Outro primitivo, que lhe chega como uma lei arbitrária, caprichosa, que não vale para todos, e o paralisa diante da porta. Como em Kafka a obra dita de ficção e os escritos íntimos estão imbricados, lemos também na Carta ao pai (1919/2004, p. 33) “Vivia sob leis que tinham sido inventadas só para mim”. Kafka não conseguia levar adiante nada que não fosse autorizado pelo pai, o que comprometia todo e qualquer ato decisivo em sua vida. Voltando à lenda, o porteiro mantém o sujeito aprisionado na espera sem viabilizar, mas obstaculizando a entrada e, apesar de aceitar os subornos do homem, nada de 1 Resumo do Conto Diante da lei (KAFKA, 1915/2011, pp. 105-107). 2 Prólogo à Carta de Walter Benjamin a Gershom Scholem (BENJAMIN, 1993, p. 100).

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valioso é suficiente, sendo ainda preciso que o camponês ouça: “Você é insaciável”. Ficar diante dessa lei é ficar diante do porteiro, ou seja, submeter-se à lei absoluta do Outro. O homem responde aqui com a mais completa alienação. 2. Agamben (1995/2002) tem em Kafka um aliado para pensar o “estado de exceção” e as saídas possíveis. Agamben lerá a parábola3 Diante da lei, não como um fracasso do camponês em aí se fazer admitir, mas como uma bem-sucedida estratégia em fazer essa porta, sempre aberta e muito suspeita, se fechar ao final. Fica-se então diante da lei, até que por fim sua porta se feche, mesmo que isso custe toda uma vida. Este desfecho, fechar a porta que encarcera do lado de fora, que aprisiona no aberto do nada, recusar a Lei insensata, do primeiro porteiro fazer o último, pode ser uma resposta ao estado de exceção que é a pura vigência de uma lei sem significado. (Uma lei que vale só para um, se encontra com a voz que enuncia o que vale para todos em uma máxima da razão ou da vontade, como Lacan (1963/1998, pp. 777-778) lerá o imperativo categórico em Kant com Sade.) Essa resposta que emprega a vida para fechar a porta é o exercício do desejo puro de morte, desejo que também move Antígona diante da Lei de Creonte. Perante a ordem incondicional, temos aí a solução trágica. O título Diante da lei por si só detona um processo, um julgamento. A “lenda do porteiro”, tão cara a Kafka, é alegórica do que está no cerne de toda a sua vida escrita: um mundo sem saída. Da forma como a parábola é narrada, de imediato temos uma condição que força existir para a lei, que deveria estar aberta a todos, uma entrada, uma porta. Existe o camponês e um porteiro que determina a entrada na lei. São dois personagens em mundos diferentes. A lei não se aplica a ambos, que não estão igualmente sob sua égide. Um envelhece; o outro, não. É por isso que o camponês jamais poderá se autorizar na lei e ficará eternamente diante desse Outro, pedindo reconhecimento, barganhando por seus favores, para toda e qualquer autorização, até que a morte encerre a questão. É essa diferença de condições em relação à castração que faz com que o sujeito divinize o outro ou que o suponha como sabedor da boa hora. Fica-se assim diante da ameaça de castração ou da castração que ameaça: impasse freudiano. É por isso que Lacan (1969/2008), no Seminário 16, pode dizer que não há ateísmo, e nem castração efetiva que se sustente na suposição de saber. “Um verdadeiro ateísmo, o único que mereceria esse nome, é o que resultaria do questionamento do Sujeito suposto Saber.” (p. 273). Reconsiderando a questão que o conto nos traz, Agamben (2009, p. 56) curva seu pensamento para constatar mais recentemente que a lei, em si mesma, não é injusta; o problema não estaria na lei, mas em seu guardião. Por isso é preciso no 3 Principalmente no cap. IV, Agamben discute algumas outras interpretações da lenda, fazendo todavia, a sua leitura.

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conto entregar-se “ao longo estudo do porteiro”, para viver até o fim de seus dias, como ocorre na lenda, e não morrer como Josef K. n’O processo. Mas esse “estudo” pode se tornar apenas uma acomodação burocrática. Seguindo as trilhas de Benjamin (1934/1994), vemos que faz nesse “estudo” uma ressalva importante, comentando Bucéfalo, outro conto de Kafka: “A porta da justiça é o estudo. Mas Kafka não se atreve associar a esse estudo as promessas que a tradição associa no estudo da Torá (...) seus estudantes são discípulos que perderam a escrita” (p. 164). Sabemos que, nesse “estudo do porteiro”, pode-se filosofar até a morte. Já a análise do Outro, que o processo psicanalítico perfaz desde cada sujeito, acarreta a deflação de sua consistência, a queda dessa Lei soberana, pois quem se autoriza por si e por alguns outros já se encontra, nem dentro nem fora da lei, mas na ética do desejo em exercício, que permite em vida, o ato singular do sujeito. Diante dessa ética, a moralidade e a lenda (ou a moral da história) perdem o sentido ou não se aplicam. Delas só restam letras, ou resta o sentido literário.

Um dos desenhos que introduzem a lenda Diante da lei no filme O processo, de Orson Welles.

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A mural mundana e os princípios da ética do desejo

referências bibliográficas AGAMBEN, Giorgio. (1995). Homo Sacer I – O poder soberano e a vida nua. Tradução Henrique Burigo. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002, 207p. __________________. Nudités. Tradução Martin Rueff. Paris: Editions Payot & Rivages, 2009, 208p. BENJAMIN, Walter. (1934). Franz Kafka – A propósito do décimo aniversário de sua morte. In: Magia e Técnica, Arte e Política – Obras escolhidas v. 1 – Tradução Sérgio P. Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1994, pp. 137-164. _________________. (1938). Carta de Walter Benjamin a Gerschom Sholem. (tradução e nota: Modesto Carone). In: Novos Estudos, n. 35. São Paulo: Cebrap, março/1993, pp. 100-106. KAFKA, Franz. (1915). Diante da lei. In: Franz Kafka Essencial. Seleção, tradução e introdução: Modesto Carone. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2011, pp. 101-107. _____________. (1919). Carta ao pai. Tradução e notas: Marcelo Backes. Porto Alegre, L&PM Editores, 2004, 108p. _____________. Diarios: (1910-1923). Tradução J. R. Wilcock. Buenos Aires: Emecé, 1953, 508p. LACAN, Jacques. O seminário, livro 7: A ética da psicanálise (1959-1960). Versão Brasileira Antonio Quinet. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1988, 396p. _____________. O seminário, livro 9: A identificação (1961-1962). Inédito. Versões consultadas em francês e em português. _____________. (1963). Kant com Sade. In: Escritos. Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. pp. 776-803. _____________. O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. (1964). Tradução M. D. Magno. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1979, 269p. _____________. O seminário, livro 16: De um Outro a outro. (1968-1969). Tradução: Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 2008, 412p.

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guatimosim, Bárbara

resumo

A partir de uma citação de Lacan em que se questiona a moralidade kantiana via leis e regras universais, e do conto de Kafka Diante da Lei, onde uma lei arbitrária incide apenas sobre uma pessoa, pretende-se deixar clara a diferença na qual se ajuíza a ética da psicanálise que, ao contar com a função do desejo, coloca em questão o lugar e a consistência do Outro, deixado intactos nos dois casos precedentes.

palavras-chaves

Moral, lei/pai, ética, desejo, outro.

abstract

From a Lacan’s quote in which the Kantian morality via universal laws and rules is questioned, and from Kafka’s short story Before the Law, where an arbitrary law falls upon a single individual, the purpose of the work is to make clear the difference in which the ethics of psychoanalysis founds itself, and as it counts on the function of the desire, it questions the Other’s place and consistency, left intact in both precedent cases.

keywords

Morality, law/father, ethics, desire, other.

recebido 07/02/3013

aprovado 28/02/2013

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A operância psicanalítica... ou pior Sandra Berta

O desejo do psicanalista é sua enunciação, a qual só pode operar se caso venha ali na posição de x (LACAN, 1967). La experiencia, no la abandono. El acto, les doy la oportunidad de enfrentarlo (LACAN, 1980).

Neste texto se reúnem algumas experiências do fim. Trata-se do produto de um Cartel sobre Transmissão, que teve a particularidade de se reunir semanalmente, falando e colocando as questões para um público das Formações Clínicas do Campo Lacaniano do Fórum São Paulo; e no qual nos dedicamos a debater e escrever sobre uma passagem que notadamente se nos apresentou entre as articulações do passe e da lógica, tendo como referência os anos 68 a 72 do ensino de Jacques Lacan. Nesse trajeto minha pergunta versou sobre o conceito do objeto a, a invenção lacaniana. Agradeço aos colegas desse Cartel: Ana Paula Pires, Conrado Ramos, Rita Vogelaar e Ronaldo Torres (Mais-um) pelo caminho que sustentamos e pelo que pudemos tomar, ou mesmo, roubar-lhe essa experiência. Entre os anos de 1967 e 1968, Lacan recolhe algo que podemos chamar as consequências do seu ato, assim nomeado por ele, qual seja a Proposição sobre o analista de Escola (LACAN, 1967/2003). Sua Proposição se fundamenta numa premissa, aparentemente paradoxal, qual seja: “O término da psicanálise superfluamente chamada de didática é, com efeito, a passagem do psicanalisante a psicanalista” (LACAN, 1967/2003, p. 257). Nesse contexto, nos adverte sobre o real em jogo na clínica psicanalítica: ele provoca seu desconhecimento ou até sua negação sistemática. A possibilidade de sustentar essa passagem, de fazer dela, a cada vez, uma novação, leva Lacan a dizer que essa passagem deve ser uma constante, que tenha o valor de uma função, f(x), e que nomeia, em princípio, αγαλμα (agalma): “O desejo do psicanalista é a sua enunciação, a qual só pode operar se caso venha ali na posição de x” (Ibid, p. 257). O ato da Proposição foi um efeito nachträglich da sua pergunta pela psicanálise e pelo psicanalista, esse último a ser considerado fora de qualquer atributo ou de qualquer predicado,

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Berta, Sandra

no sentido lógico. Do psicanalista nada é predicável. Há do psicanalista (Il y a du psychanalyste) (LACAN, 22/11/1967, inédito), aponta-se com isso, o valor da função, no sentido matemático. Porque se o psicanalista não é Universalizável, no seu predicado, então haverá que extrair de cada experiência singular o que, nela responde, pelo seu ato. A conjunção das duas palavras “ato psicanalítico” pode evocar “o ato, tal como opera psicanaliticamente, o que o psicanalista comanda por sua ação na operância psicanalítica” (LACAN, 22/11/1967, inédito).1 A palavra operância (opérance) não está incluída nos dicionários de francês, português e espanhol consultados.2 Notadamente, trata-se de um neologismo que Lacan emprega nesse momento, articulando o antepositivo “antepositivo, do latim. opus, èris, trabalho (em sentido concreto), obra”, e acrescentando o subfixo “ância”. Como todo neologismo, este pode abrir a diferentes ressonâncias de significação. Uma delas refere-se à palavra “operante” (operante), adjetivo de dois gêneros: 1. que opera, realiza, trabalha; 2. que serve para operar; que produz efeito. A etimologia latina “opérans” permite-nos um tratamento semântico a partir do verbo operáre “trabalhar, ocupar-se com, executar, obrar, fazer”. O que significa nessa frase a expressão “operância psicanalítica”? Esse neologismo, “operância”, aponta tanto ao que opera na psicanálise quanto a produção de efeitos, lidos, neste ponto, como uma pergunta baseada na eficácia da experiência de uma análise. Dito de outro modo, “a operância psicanalítica” é o adjunto adverbial de lugar. Trata-se também aqui de um lugar paradoxal. A operância psicanalítica é a extraterritorialidade que permite que o desejo do psicanalista seja “o lugar de onde se está de fora sem pensar nele, mas no qual encontrar-se é ter saído para valer” (LACAN, 1967/2003, p. 260). Mas como esse lugar “se faz em ato”, é nela que o ato e a interpretação tornam-se acontecimento, no sentido da contingência. Dele somente sabemos na temporalidade nachcträglich. Essa temporalidade constitui a experiência de uma análise, à qual me refiro, sucintamente, com a finalidade de aproximar a resposta do analista à sua operância. Sublinho que, para Lacan, a “experiência” excede a questão da realidade empírica e analítica (no sentido da razão kantiana). A questão é saber o que define uma “experiência” psicanalítica, uma vez que suas coordenadas excedem os limites dos dados Simbólicos e Imaginários da realidade e remetem ao Real. Curiosamente, ao dizer “operância”, Lacan se pergunta pelo ato psicanalítico na sua diferenciação com a interpretação e com a transferência, acrescentando: “Qual é a essência disto que, do psicanalista, enquanto operando, é ato? Qual é a

1 “[...] l’acte qu’il opère psychanalytiquement, ce que le psychanalyste dirige de son action dans l’opérance psychanalytique”. Seminário XV, L’acte psychanalytique, 1967-1968, 22/09/1967. 2 Real Academia Espanhola, Laurousse, Le petit Robert, Aurélio, Michaelis e Houaiss.

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sua parte em jogo?” (LACAN, 1967-1968, inédito).3 Entendo que é pela operância psicanalítica que se faculta a experiência do inconsciente. Lembremos que em 1964 o inconsciente alcança uma definição que alude ao real em jogo na experiência, que a causa: o inconsciente, saber sem sujeito. Pelo qual o saber sem sujeito “faz a verdade” (LACAN, 1967/2003, p. 308) do discurso do analista. Isto significa dizer que o saber sem sujeito, pela operância psicanalítica, pode produzir a ocorrência de um encontro, em que o “representante da representação” represente a representação “ali onde ela falta, onde sou apenas uma falta do sujeito” (LACAN, 1967/2003, p. 334). Mas Lacan avança, e nos indica que a experiência da psicanálise é uma experiência de saber, na qual o que se permeia é a experiência do inconsciente. Por essa razão reformula sua mise en acte, apontando que se trata da colocação em ato do inconsciente. Não por acaso, é na meprise (equivocação, engano) do sujeito suposto saber que essa passagem pode vir a ser uma indicação do que nessa verdade que se alimenta do saber, se recolhe um “a-mais”. Lacan nomeia isso “mais de gozo”, apontando o que vai se decantando dessa experiência do equívoco do sujeito suposto saber. Mas para consentir com o “a-mais”, sem fazer disso consistência da verdade fantasmática, é preciso consentir com o inconsciente, entendido como “algo que se diz sem que o sujeito se represente nisso nem que nisso se diga – nem tampouco saiba o que diz” (LACAN, Ibid, 335). Esta frase me orienta, no sentido que indica qual é a passagem do horror ao saber para o horror ao ato. Com isso aponto que a operância psicanalítica não é o ato psicanalítico, ela cria suas condições para tal. Assim também, entendo que é pelo ato que se escreve, pela contingência, a ocorrência de cada interpretação, a qual faz funcionar o saber como verdade, porém, para equivocá-la. Isso se extrai da experiência de cada psicanálise. A operância psicanalítica articula as condições do ato analítico às suas consequências. O psicanalista “estabelece”, “permite”, “autoriza”, pela interpretação, as condições desse ato na operância psicanalítica, numa temporalidade que lhe habilita da sua função. Desde essa função, o psicanalista opera a partir do “não penso”. Esse “não penso” é concomitante com a proposta do objeto a. Ele, o analista, “faz-se produzir; do objeto a; com o objeto a”4 (LACAN, 1969/2003, p. 375). É na desaificação (désaification) que a topologia de uma análise tem lugar. É poder dar a condição para que a meprise do SsS faça valer a dimensão de semblante dos significantes mestres que amordaçam o gozo no fantasma. Por essa razão, desde esse lugar da operância psicanalítica – ele opera com objeto a (LACAN, 7/2/1968, inédito) 3 Quelle est l’essence de ce qui du psychanalyste en tant qu’opérant est acte? Quelle est sa part dans le jeu?. Seminário XV, L’acte psychanalytique, 1967-1968, 22/11/1967. 4 “se fait produire; de l´objeto a, avec de l´objet a” (Edição du Seuil, Paris, 2001, p. 379)

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Berta, Sandra

– autoriza a tarefa analisaste, respondendo com a interpretação. Uma vez que a relação do “a” com o saber se promove à articulação significante. Razão pela qual, no final da análise, quando o sujeito se sabe causado por esse objeto o que se recolhe como resposta é a Verleugnung, negação que aponta a divisão do sujeito no seu ato, uma vez que essa posição do sujeito consiste em sustentar alguma coisa do SsS que o ato vai desmentir. Por essa razão é pela via do ato que parece-me que Lacan apontará a destituição subjetiva. Quando Lacan se refere à destituição subjetiva, evoca o livro de Jean Paulhan Le Guerrier appliqué (LACAN, 1967/2003, pp. 278-9). A destituição subjetiva, em sua salubridade, nos diz Lacan, faz ser... de linguagem. Faz ser que sabe, pela experiência atravessada, que a mais da linguagem que lhe habita e que dela pouco ele pode saber. Mas do que dês-ser é desse pouco de ser que se trata. O desejo do analista opera para que naquilo que é determinação do sujeito se produza o indeterminado. Mas para tal, é preciso que a operância psicanalítica – esse saber fazer do psicanalista nesse lugar extraterritorial e na hora do acaso que lhe permite fazer semblante dessa causa “sem etiquetas”, mas com ética – promova esse saber como médio de gozo com o qual se apalavra o falasser (húmus da linguagem) ao lugar da verdade... mentirosa. Portanto, se esse saber produz um sentido obscuro – a verdade do fantasma – se espera que o psicanalista faça funcionar esse saber como médio dizer da verdade. Assim poderá pôr em causa a via da reiteração (re-spondere), do ricochetear da divisão do sujeito. Porque ele, desde esse lugar que promove a operância psicanalítica – isto é, o resto-dejeto, – é suposto saber sobre a verdade. Que “do analista” nada é predicável em termos do Universal lógico aristotélico, é o que Lacan afirma quando propõe que o analista, na sua operância psicanalítica deve “fazer-se produzir do objeto a com o objeto a”. Indica-nos assim, após a fundação da sua Escola, que o analista é aquele que, pelo seu ato, faz operar a ditmansão que o objeto a, causa analítica, enoda. É nessa dit-mansão que podemos apreciar como surge o objeto como nó, equivocando o sentido. Eis o que nos propõe Lacan quando sublinha que na série que cifra esse sentido, o objeto a pode tomar como nome o “não é isso” que é índice de, por um lado a infinitização da série, n+1; e por outro, da possibilidade de nomeá-la: Há do Um. Do unário ao Uniano, o objeto a faz nó. Não é isso (c’est pas ça) surge de um nó de sentido pondo à distância a demanda e a oferta. “Peço que me recuses o que te ofereço, porque não é isso” (LACAN, 1971-1972, p. 90). Fim. “Fui embora.” Fui embora quando soube que estava só na proposta de ir até o fim. São os limites do fim, se disse. E se dirigiu ao passe, sabendo que precisava transmitir isso: não há a última palavra. Soube disso, na transferência, no estranhamento que lhe produzia a castração do Outro, sem a resposta do

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fantasma. Ou, melhor dito, com a resposta mínima: não há a última palavra porque nunca saberei por que razão o Outro o fez. Por que razão o Outro faz o que faz, fez o que fez. Esse Outro, nesse limite ao saber, era sua extimidade. Já não sua fobia, já não suas estratégias de aferrar-se ao mestre. Isso se lhe apresentou como o saber de uma alteridade, vivido certamente em transferência com horror. Quarenta páginas escritas após décadas de análises. Leva-as impressas, sem pretender lê-las, mas estavam com elas nessa sessão. Tinha trabalhado um final de semana com poucas horas de sono, como costuma lhe acontecer quando o real lhe acorda. A analista cortou cinco minutos depois. Horror. O engraçado é que, após duas décadas de análise tinha dito a essa analista, nessa nova e curta análise: preciso que me ajude a cortar. Após esse corte voltou, não foi embora porque sabia que essa era a sua questão. Por que o fez? Absurdas ideias lhe atravessaram, mas sabia que isso era o ponto limite. Nunca saberei por que o Outro o fez. Isso lhe apareceu como o mais crucial, mais ainda do que seguir elucubrando sobre as respostas de saber, ficção fantasmática. Passagem da busca desenfreada pela verdade na última palavra para um saber sobre o horror de saber. Porque soube que entre saber e verdade não há relação, a não ser pelo mito. Porque o trauma, como instante que aponta um fora-de-sentido evidenciou nesse momento que é na busca do sentido que se encontra uma saída alienante. Saída sintomática que se apoia nas versões do fantasma. O necessário do sintoma para apagar o contingente desse impossível de significar: o trauma, o acontecimento, a estrutura! É possível que, por ficar tenha sonhado. O pai, sapateiro, lhe mostrava uma bota queimada, cor azul e lhe disse: “o couro foi queimado antes do tempo”. A seguir, um lapso que indicou numa precisão cortante sua posição e sua resposta enlouquecida à angústia, lhe fez articular o lapso e o azul. Marazul. Marazul. Uma lembrança dos seus quatro anos que enlaçava sua fobia infantil. E uma canção, como palavra imposta “azulunala”. Canção da bandeira que cantava na escola diariamente. A alegria lhe sobreveio porque um dia seu irmão – que cumpria uma função apaziguadora à sua angústia – rindo, ou sorrindo, lhe disse: não é “azulunala” é azul um ala”. A alegria dessa lembrança se lhe pegou na alegria do corte. Até que se deu conta que esse havia sido o final que escreveu o possível do pai, da lei que diz “não ao gozo do Outro”. Que esse lugar do analista havia modificado sua relação ao gozo, sem dúvida alguma! Pensou nisso borromeanamente: porque se a lei do pai permite amarrar um sentido no fantasma (entre Imaginário e Simbólico), esse sentido tenciona o laço entre o real e o imaginário (J%) para que a angústia não o invada todo no imaginário. É como “amarrar um sapato”. E por isso mesmo fica a possibilidade que algo do real se inscreva no simbólico, aí onde

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o sintoma estará, sempre…. Fui embora. Soube que havia aí um enigma cada vez mais opaco porque está aí como testemunha, monumento do inconsciente que grita: não há a última palavra. Concomitantemente, o que dava sentido se esvaziou. Uma frase veio ao lugar da busca pela última palavra. E a repetia em duas versões: o desejo é o mordisco de gozo que lhe roubamos à vida. Sua segunda versão era mais singela: se pudesse tirar um instantâneo da vida, se pudesse pará-la, seria agora, se dizia. Sustentar o “não é isso” é evidenciar que há um impossível em questão e que com o Outro não há relação/proporção. É também indicar o indeterminado que o partitivo “d” indica. Y’a d’l’Un. Há do psicanalista. O desejo do psicanalista é sua enunciação em posição de x: F(x) (LACAN, 1971-1972/2012, pp. 78-90). Não há relação/proporção... ou pior. Não é isso... ou pior. A operância analítica... ou pior. É o surgimento da causa o que sustenta o analista a cada vez. Dimensão da operância psicanalítica na qual ao “responder por”, a cada vez, o analista faz do seu ato, sua ética.

referências bibliográficas LACAN, J. (1967). Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola. In: _____. Outros Escritos. Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, Ed., 2003. pp. 248-264. LACAN, J. (1967-1968). O Seminário, Livro XV, O ato psicanalítico, inédito. LACAN, J. (1967). Discurso na Escola freudiana de Paris. In:_____. Outros Escritos. Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. pp. 265-287. LACAN, J. (1967). Alocução sobre o ensino. In:_____. Outros Escritos. Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003. pp. 302-310. LACAN, J. (1967). O engano do sujeito suposto saber. In:_____. Outros Escritos. Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. p. 334. LACAN, J. (1969). O ato psicanalítico. Resumo do Seminário de 1967-1968. In:_____. Outros Escritos. Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. pp. 371-379. LACAN, J. (1971-1972). O Seminário, Livro XIX, ...ou pior. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2012.

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A operância psicanalítica...ou pior

resumo

Que “do analista” nada é predicável em termos do Universal lógico aristotélico, é o que Lacan afirma quando propõe que o analista, na sua operância psicanalítica deve “fazer-se produzir do objeto a com o objeto a”. Indica-nos assim, após a fundação da sua Escola, que o analista é aquele que, pelo seu ato, faz operar a ditmansão que o objeto a, causa analítica, enoda. É nessa dit-mansão que podemos apreciar como surge o objeto como nó de sentido. Eis o que nos propõe Lacan quando sublinha que na série que cifra esse sentido, o objeto a pode tomar como nome o “não é isso” que é índice de, por um lado a infinitização da série, n+1; e por outro, da possibilidade de nomeá-la: Há do Um (Y’ad’l’Un). Do unário ao Uniano, o objeto a faz nó. É o surgimento da causa o que sustenta o analista a cada vez. Dimensão da operância psicanalítica na qual ao “responder por”, a cada vez, o analista faz do seu ato, sua ética.

palavras-chave

Psicanálise, transmissão, ato, lógica, objeto a.

abstract

That “analyst” nothing is predicable in terms of Universal Aristotelian logic, is what Lacan says when he proposes that the analyst, in his psychoanalytic operance should “make up to produce the object with the object.” Tell us well after the founding of their school, the analyst is the one who, by his act, does operate dit-mansion that object a, because analytical cause, knotting. It is in dit-mansion where we can appreciate how the object appears as a node of sense. That’s what Lacan proposes when points out that in the series that figure this sense, the object can take the name as “is not it” which is indicates in one side the infinitization of the series, n +1, and on the other side the possibility to name it: “there is something of (the) One” (Y’a d’l’Un) from the unary to Uniano, the object a does the node. The emergence of the cause is what sustains the analyst ever. Dimension of psychoanalytic operance in which the “respond by” each time, the analyst makes his act, his ethics.

keywords

Psychoanalysis, transmission, act, logic, object a.

recebido 18/02/2013

aprovado 20/03/2013

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Uma resposta com base em evidência Leonardo S. Rodríguez Por mais de um quarto de século, autoridades governamentais e acadêmicas têm exigido dos profissionais que trabalham no campo da chamada saúde mental que conduzam seu trabalho de acordo com um conhecimento baseado em evidências. O estudo de práticas baseadas em evidências na provisão de serviços de saúde tornou-se, por si só, uma disciplina; e esforços consideráveis têm sido perpetrados por entidades e instituições profissionais que administram a saúde pública (incluindo a Organização Mundial da Saúde) no sentido de estabelecer tal prática como “o” modelo a ser seguido. O debate sobre evidências em práticas clínicas está muito longe de ser algo puramente acadêmico. Há inúmeros e importantes interesses em jogo: a alocação de fundos está restrita a formas de tratamento fadadas a serem norteadas por princípios científicos e avaliadas de acordo com modelo baseado em evidências. Consequentemente, as oportunidades para treinamento e empregabilidade em instituições de saúde mental dependem da filiação a escolas que favorecem tal modelo. Não faz muito tempo que na Austrália e em outros países as instituições públicas responsáveis pela saúde mental ofereciam tratamento psicanalítico, mesmo em escala modesta. Desde que nossas autoridades decidiram que a psicanálise não preenche os pré-requisitos do modelo, a prática clínica psicanalítica em instituições públicas diminuiu sobremaneira, quase ao ponto de extinção, cedendo espaço para aquelas práticas tidas como mais eficientes. Como psicanalistas e membros de uma escola de psicanálise com responsabilidades sociais, temos o dever de discutir tal situação. Seria inútil, mais uma vez, embarcar na defesa da psicanálise ou igualmente em outro ataque à criação de Freud ou à sua pessoa. É muito mais produtivo fazermos da necessidade uma virtude e assumir os problemas no tocante à evidência na psicanálise. Isto porque a evidência é um problema não apenas para a psicanálise, mas também para outras disciplinas e práticas. Não somos obrigados a lidar com o problema nos termos defendidos por aqueles que advogam a prática baseada em evidências – longe disso. Trata-se mais de uma questão de dignificar a noção específica de evidência, submetendo-a a uma crítica racional, e mais especificamente, as provas da evidência. Outros antes de nós, a começar pelo próprio Freud, tinham consciência do fato de que na experiência psicanalítica, por razões conceituais, clínicas e éticas, precisamos encarar a questão da evidência.

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rodríguez, Leonardo S.

Alguns psicanalistas adeptos a orientações diferentes da nossa têm adotado a linguagem e os critérios da ideologia baseada em evidências. Refiro-me, especificamente, a um livro que se tornou referência nos países de língua inglesa, O que funciona para quem? (What Works for Whom?), de Anthony Roth e Peter Fonagy (2005). A questão não é de todo impertinente: muitos dos pacientes que chegam aos nossos consultórios, em especial aqueles que não têm qualquer familiaridade com a psicanálise, perguntam se o tratamento que eu ofereço irá servir para eles, ou quão eficiente é a psicanálise quando comparada com outros métodos. São questões razoáveis para as quais o psicanalista precisa ter as respostas. O vocábulo evidência vem do latim videre, “ver”; literalmente, “enxergar”. É preciso ver para crer: esta é a noção por trás da questão da evidência na ciência. De acordo com Willard Quine, esta é a regra da epistemologia empirista: não existe nada na mente que não possa passar pelos sentidos. Segundo Quine (1990, p. 19), “o ponto é normativo, nos prevenindo contra telepatas e videntes”. Mas não somos obrigados a compreender o termo e usá-lo segundo a concepção de um empirismo ingênuo. A forma como a evidência é definida e a sua função na produção de conhecimento são problemas epistemológicos fundamentais que poderiam nos ocupar por algum tempo (que não dispomos no momento). É suficiente dizer que, desde que a razão mudou a partir de Freud, nós podemos legitimamente afirmar algumas coisas sobre evidência na experiência psicanalítica e – por que não? – sobre evidência em geral com base naquilo que a experiência tem demonstrado. A avaliação dos tratamentos a partir do paradigma com base em evidências tem sido predominantemente orientada por critérios adotados pelo Instituto Americano de Medicina (American Institute of Medicine) e Associação Psicológica Americana (American Psychological Association), as quais definem a prática com base em evidências, como “a integração da melhor pesquisa disponível com a expertise clínica no contexto de características, cultura e preferências do paciente” (Australian Psychological Society, 2005). A forma de verificar se uma prática baseia-se em evidências válidas é o método experimental, e a modalidade preferida são as “tentativas de controle randomizadas” (randomised control trials), uma vez que estas oferecem a melhor garantia possível contra a intervenção no tratamento dos chamados “fatores comuns”, isto é, os fatores que, dentro de uma perspectiva psicanalítica, estariam subordinados à relação de transferência (JACKSON, 2005). Qualquer traço de manifestações subjetivas, tomado como interferência indesejável, seria, portanto, descartado. Se alguém decidisse testar a psicanálise usando este modelo, teria que planejar um experimento muito particular no qual o paciente não pudesse saber que está sendo tratado psicanaliticamente; e o analista saberia apenas que o paciente sofre de um sintoma ou problema definido – como (a chamada) co-morbidade é considerada um sério problema metodológi-

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Uma resposta com base em evidência

co que tende invalidar até mesmo as melhores situações experimentais. Trata-se apenas de encontrar voluntários para o experimento que sofrem de um problema, e um problema apenas. O fantástico é que as evidências recolhidas sob essas condições absurdas seriam consideradas sólidas pelos representantes da Ciência nos serviços de saúde mental. O trabalho de Roth e Fonagy é uma revisão da pesquisa conduzida para avaliar essas formas de tratamento que podem se acomodar às provas requeridas pelo modelo baseado em evidências. Os autores estão plenamente conscientes dos problemas metodológicos envolvidos, das limitações do paradigma, e acatam a noção de que a forma de tratamento não deveria ser considerada não efetiva uma vez que ela não foi testada de acordo com o modelo. Entretanto, historicamente, isso parece ser um outro caso de o opcional e voluntário tornar-se obrigatório e mandatório: decisões políticas, acadêmicas e financeiras estão sendo gestadas com base nas “demonstradas” eficácia e eficiência do tratamento – as quais, simplesmente, excluem a psicanálise. Roth e Fonagy intitularam o seu livro O que funciona para quem? (What Works for Whom?). Isto é baseado no princípio de que “cada caso é um caso” e os tratamentos deveriam ser específicos e corresponder estritamente às condições que estão sendo tratadas. Se temos uma dor de cabeça, tomamos uma aspirina: ninguém nos prescreve, nesse caso, uma terapia eletro- convulsiva, a qual, certamente, é indicada para outra condição. A medicina funciona assim, mas mesmo na medicina, reconhece-se que os efeitos terapêuticos de agentes farmacológicos são raramente específicos, e que a co-morbidade é mais a regra do que a exceção. “O que funciona para quem?” não foi exatamente o questionamento de Freud, simplesmente porque ele não detinha um repertório de tratamentos dos quais poderia dispor: ele teve que inventar um tratamento que funcionasse. Para quem? Para os histéricos, inicialmente. Antes de Freud, os histéricos eram um mistério, uma vez que a ciência positivista, por meio da atividade da moderna medicina, empolgante e em rápido desenvolvimento, recusava-se (com algumas notáveis exceções) a reconhecê-los como verdadeiros objetos epistemológicos de pesquisa séria. Eles foram excluídos como objetos de investigação científica e como pacientes em práticas clínicas com base nas evidências disponíveis. Evidências são evidências apenas para aqueles que querem dar uma olhada nelas, e isso depende do desejo daqueles que olham e da metodologia por meio da qual implementam tal desejo no campo do questionamento e da prática. Sem o desejo – em nosso caso, o desejo do analista – as evidências desaparecem. Há evidências que a psicanálise resgatou do ostracismo e das trevas do misterioso que um dia os histéricos encarnavam: evidência da existência do inconsciente e suas formações, evidência do real como sendo ao mesmo tempo sua condição

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e seus efeitos, e de um discurso psicanalítico eficaz em elucidá-los e neles atuar. Freud estudou as evidências que estavam à sua disposição e de outros médicos que, naquele tempo, entravam em contato como os histéricos – como Charcot, que avançou bastante nos seus estudos, mas não inventou a psicanálise. Freud teve que superar nele mesmo os obstáculos epistemológicos que seus antecessores enfrentaram e não foram capazes de suplantar. Ele estudou o que os histéricos apresentavam como fatos clínicos, mas também, por meio da criação de um novo discurso, expandiu o campo destes fatos de uma maneira revolucionária. Freud, efetivamente, tornou possível obterem-se evidências novas e sem precedentes. A experiência na qual tais evidências emergiram não foi um experimento, mesmo que assim o parecesse – uma vez que havia hipóteses a serem testadas dentro de uma situação clínica relativamente bem controlada. O que é evidente é evidente apenas para alguém: o sujeito da evidência. Bem, na psicanálise, o suposto sujeito da evidência é questionado: é isso que distingue nosso discurso e o fazer do analista por ele responsável. Isto quer dizer também que as evidências acumuladas em cento e vinte anos de psicanálise não serão suficientes como uma resposta para o ser humano que faz a seguinte questão: “Será que a psicanálise vai funcionar para mim?”. A psicanálise dele irá produzir as evidências e nenhuma garantia pode ser dada de antemão de que vai funcionar para ele, se funcionar. Ninguém, até o momento, encontrou uma fórmula que garanta que uma psicanálise em particular será eficaz. Nossa ética nos separa do clínico, cuja prática baseia-se supostamente em evidências e que pensa que sabe quais serão os resultados da experiência. Apesar disso, os cento e vinte anos de psicanálise não contam em nada na tarefa de fornecer as evidências que o cidadão honesto exige de nós. Graças àquela experiência, além do trabalho ali dedicado, cada um de nós deve ter acesso ao desejo do analista, o desejo que Jacques Lacan certa vez chamou de averti: um desejo informando, experimentado, alerta, o horror do administrador de saúde que prefere que ninguém mencione as evidências da existência de seres falantes desejosos. O próprio Freud foi o primeiro a questionar as indicações e contraindicações da psicanálise. Ele estava convencido de que a análise não é para qualquer um, e que é desejável, positivamente, excluir certos sujeitos, enquanto para outros ela pode ser seguramente recomendada. Bem, apenas o risco e a beleza, ou seja, as evidências da experiência real podem convencer ambos, paciente e analista, da eficácia da psicanálise, um dos poucos discursos, como afirmou Lacan, que permanecem a nosso inteiro dispor (LACAN, 1974, p. 518). Tradução: Sávio Siqueira Revisão: Conrado Ramos e Ida Freitas

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referências bibliográficas AUSTRALIAN PSYCHOLOGICAL SOCIETY. InPsych, 27: 6, p. 20, dez. 2005. JACKSON, H. A description and case for evidence-based praxis in psychology. InPsych, 27: 6, pp. 14-19, dez. 2005. LACAN, J. (1974). Télévision. In: Autres écrits. Paris: Seuil, 2001, p. 518. QUINE, W. V. Pursuit of Truth. Cambridge, Massachusetts and London, England: Harvard University Press, p. 19, 1990. ROTH, A., FONAGY, P. What works for whom? A critical review of psychotherapy research. New York: Guilford Press, 2005.

resumo

A ideologia da prática “baseada em evidências”, produto derivado da aplicação tendenciosa e economicamente orientada do discurso da ciência e da tecnologia, conseguiu excluir a psicanálise dos programas e serviços públicos de saúde mental, além de minar o status cultural da psicanálise com o público em geral: isso tem acontecido em um grande número de países já por algum tempo. Não faria o menor sentido responder a esta profunda depreciação da psicanálise nos termos adotados por tal ideologia. É muito mais proveitoso oferecer aos nossos colegas cidadãos as evidências apresentadas sem motivos outros por meio de nossa experiência. Como Freud argumentou há mais de um século na sua definição da psicanálise, nossa experiência diz respeito a fenômenos e eventos humanos que nenhuma outra disciplina, científica ou não, é capaz de investigar devidamente, quanto mais lidar com tal questão em qualquer grau de eficácia. A resposta analítica, portanto, tem se tornado um bem cultural que pode ser empregado muito eficientemente para se compreender e tratar os efeitos institucionais e sociais do mal de nossa civilização, e não apenas como um método de tratamento para aqueles indivíduos que procuram por nossa ajuda. Além disso, é pela análise do sofrimento íntimo de seres falantes individuais que a experiência psicanalítica traz à tona os descontentamentos de nossas sociedades, tal qual uma norma mascarada por formas sedutoras de prazer facilitadas pelos avanços tecnológicos.

palavras-chave

Discurso analítico, eficácia clínica, prática baseada em evidências, criação de Freud, psicanálise lacaniana.

abstract

The ideology of “evidence-based” practice, a derivative of an economically-driven, tendentious application of the discourse of science and technology, has ma-

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naged to exclude psychoanalysis from publicly-funded mental health programs and services and to undermine the cultural status of psychoanalysis among the general public: this has been happening in a good number of countries for some time now. It would be futile to respond to this severe depreciation of psychoanalysis in the terms dictated by such ideology. It is more fertile to offer our fellow citizens the evidence provided without ulterior motives by our experience. As Freud indicated nearly a century ago in his definition of psychoanalysis, our experience concerns human phenomena and events that no other discipline, scientific or not, is capable of investigating properly, let alone dealing with it with any degree of efficacy. The analytic response has thus become a cultural asset that may well be employed to understand and treat the institutional and social effects of the malaise of our civilization, and not only a method of treatment for the individuals who come for our assistance. Yet it is through the analysis of the intimate suffering of individual speaking beings that the psychoanalytic experience throws light upon the discontents of our societies, as a rule masked by the seductive forms of jouissance that technological advances facilitate.

keywords

Analytic discourse, clinical efficacy, evidence-based practice, Freud’s creation, lacanian psychoanalysis.

recebido 21/01/2013

aprovado 18/02/2013

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trabalho crĂ­tico com conceitos


Uma escrita que brota à flor da pele Ingrid de Figueiredo Ventura Introdução Este trabalho surgiu de interrogações provenientes de minha escuta nas entrevistas com pacientes portadores de afecções de pele, como psoríase e alopecia, no Instituto da Pele da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), instituição que compõe a Rede de Pesquisa em Sintoma e Corporeidade do Fórum do Campo Lacaniano – São Paulo, e da Universidade de São Paulo (USP). Em O lugar da psicanálise na medicina (1966), uma conferência endereçada a médicos, Lacan diz que nestas afecções, abordadas como fenômenos psicossomáticos, haveria uma falha de saber em um ponto específico da cadeia significante, à qual chamou falha epistemossomática. Estando fora das construções do registro simbólico, esta falha manifesta-se no real do corpo, no ponto onde este não foi recoberto pela linguagem, diversamente do sintoma, como a conversão histérica, um sintoma no corpo, que se manifesta como uma formação do inconsciente, obedecendo aos mecanismos da metáfora e da metonímia, segundo Lacan (1957/1998). Esse acontecimento coloca um impasse para a condução da análise com esses pacientes, pois eles permanecem fortemente vinculados ao diagnóstico médico, o que dificulta a regra fundamental da associação livre e o manejo da transferência. Portanto, a conversão histérica, manifestando-se como uma formação do inconsciente, conserva uma relação com o seu romance edípico. Dessa forma, o sintoma aparece como o retorno do recalcado, permitindo, parcialmente, uma satisfação pulsional. O fenômeno psicossomático, em contrapartida, não obedece a essas mesmas leis e aparece como um acontecimento de corpo, como uma tentativa de satisfação que não passa pelo encadeamento simbólico, estando, segundo Lacan (1964/2008), na mesma série da debilidade mental e da psicose. Freud (1895/1996) deparou-se com afecções que se manifestavam no corpo do sujeito, as quais em muito se aproximavam do fenômeno psicossomático, chamando-as de “neuroses atuais”; ocorreu-lhe nomeá-las dessa maneira, porque fazem referência a uma atualidade, por não guardarem relação com a história do sujeito. Além disso, elas indicam que a satisfação pulsional, em vez de estar restrita às zonas erógenas, pode ser obtida por qualquer órgão, mostrando que esse cor-

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po apresenta um ponto complacente para o seu adoecimento, fazendo referência a um masoquismo corporal, fato que o levaria a gozar do fenômeno, induzindo o paciente a pagar a dívida daquilo que não foi simbolizado. No que se refere a essa satisfação específica, Lacan (1975), na Conferência de Genebra sobre o sintoma, afirma que esses sujeitos comportam uma modalidade de gozo bastante particular, que os impede até mesmo de construir um saber sobre o mal que isso lhes causa. Este seria um gozo específico, um gozo Outro, atendo um significante isolado na sua carne. Esse gozo fixa uma corporificação da libido, como diz Assadi e Ramirez (2010). Tal fixidez de gozo acaba por desafiar o analista, impondo uma dificuldade à direção do tratamento, à medida que a demanda do paciente se apresenta como uma resposta ao sofrimento localizado em uma parte do seu corpo. O que se observa é uma dificuldade em incluir a queixa na esfera simbólica, pois a fala permanece circunscrita em torno da doença. Além disso, o autor admite que essas afecções manifestam-se a partir da lógica do número, referente à contagem e não à decifração. Destarte, pode-se considerar que se trata de uma escrita no corpo que não se dá a-ler. Diferentemente do sintoma, o fenômeno psicossomático apresenta uma holófrase local entre o primeiro par de significantes S1 – S2, o que impede o deslizamento na cadeia. Na mesma conferência, Lacan refere-se ao fenômeno psicossomático como um hieróglifo que não cede à interpretação. Estar-se-ia, então, diante da letra? Se, como diz Lacan (1971/2003), a letra constituiria litoral entre saber e gozo, e, se for considerado que o litoral separa dois domínios que nada têm em comum, diversamente da fronteira que delimita, simbolicamente, dois territórios da mesma natureza, pode-se dizer que o fenômeno psicossomático separa dois domínios de naturezas distintas? A partir destas formulações, é possível indagar acerca das relações entre o fenômeno psicossomático e a escrita. A escrita no corpo dessas doenças escapa à dimensão do significante, oferecendo uma inscrição ilegível. Estaria ele desenhando a borda do furo do saber e constituindo litoral entre saber e gozo? Na enfermidade psicossomática não há distância entre o gozo e o corpo (LACAN, 1969/1970), e, por isso, não cede à interpretação. Estes pacientes apresentam um congelamento, o que não oferece a chance de o sujeito comparecer. Diante desta clínica, qual a possibilidade de manejo com uma escrita no real do corpo? O que e como se poderia ler algo que se mostra como ilegível? Lacan (1971/2003) ressalta que, apesar de a escrita ser um traço onde se lê um efeito de linguagem, é necessário que haja uma reinscrição em outra parte. O autor consolida a distinção entre letra e significante, desconstruindo a noção de representação, levando a questionar qual o estatuto das noções de significante e de letra no fenômeno psicossomático e como, na análise, se daria a passagem de

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um a outro. Sendo assim, pode-se formular que a letra não é sem o significante, o que leva a pensar que o fenômeno psicossomático não é sem o sintoma, fato também observado na clínica, dado que estes pacientes não se queixam apenas de sua doença no corpo. O analista deve estar atento ao que escuta, pois é aquilo que pode ler, a partir do seu desejo de analista, nas entrelinhas do dito do analisante. No entanto, trata-se de distinguir o que é do simbólico daquilo que é do real, este como aquilo que diz respeito ao escrito (NICOLAU e GUERRA, 2011). Nesse caso, a transferência não se estabelece por uma suposição de saber ao analista, mas através do endereçamento de uma fala desvinculada da dimensão subjetiva sobre uma marca cravada na carne. Nesse caso se está diante de uma escrita que deverá ser decifrada. Para fazer esta articulação, será abordada a afecção a partir da concepção lacaniana sobre o fenômeno psicossomático; em seguida, se discutirá o conceito de escrita em Lacan. Por fim, tentar-se-á articular a afecção psicossomática e a escrita, na tentativa de compreender a possibilidade de manejo na direção do tratamento com estes pacientes.

O fenômeno psicossomático a partir do referencial lacaniano

Em uma de suas primeiras formulações sobre a afecção psicossomática, no seminário O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise, Lacan (19541955/1985) define-a como uma construção externa à cadeia de significantes, que não se encontra na ordem simbólica e que comporta um sofrimento do corpo. No seminário As psicoses, ao citar a análise do caso Schreber, Lacan (1955/1956) destaca os sintomas hipocondríacos e faz uma aproximação entre a psicose e o fenômeno psicossomático. A semelhança entre ambos residiria no fato de se estruturarem sem uma intermediação simbólica e sem uma dialética. Assim, o corpo pode apresentar o que permanecer como falha ou como descontinuidade no discurso. O fenômeno psicossomático aproxima-se de fenômenos elementares da psicose por causa de uma foraclusão local, articulada por Guir (1988/1990). No entanto, no primeiro caso, trata-se de uma foraclusão de um significante qualquer da cadeia, onde o desejo não estaria ausente, apenas suspenso, enquanto que na psicose se trata, invariavelmente, da foraclusão do significante nome-do-pai, que inaugura a entrada do sujeito na ordenação simbólica. Posteriormente, no seminário Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, Lacan (1964/2008) assinala que a psicossomática não é um significante, pois só é concebível à medida que, não havendo a afânise do sujeito, algo se passou a partir

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da indução significante. Percebe-se que menciona uma necessidade interessada na função do desejo no caso da enfermidade psicossomática. Se houve uma foraclusão local, isso significa que pode haver uma remontagem à cadeia. Tal formulação remete a uma falha na operação de constituição da imagem corporal, pois não houve um bordejamento pulsional em torno desse corpo que desse conta de recobri-lo de linguagem: algo permanece fora, o que indica uma fixidez de gozo no órgão, fixidez de um gozo específico, que não se encontra apenas circunscrito às zonas erógenas do corpo, quando este é esvaziado de gozo. Ao abordar o fenômeno psicossomático, Miller (1999), apud Fonseca (2006), fala de um retorno de gozo no corpo pela impossibilidade de o sujeito alcançar a esfera simbólica. O gozo, que deveria estar circunscrito às zonas erógenas das bordas, permanece fixado naquilo que deveria ser o vazio do corpo. Como na Conferência de Genebra Lacan (1975) ressalta que no fenômeno psicossomático o corpo se deixa escrever algo da ordem do número, tem-se, então, uma cifração de gozo escrita numericamente, sem possibilidade de haver uma série e sem submissão à significantização da letra. Por se inscrever dessa forma, aparece como frequência ou como uma escrita proveniente do real. Para tentar responder às questões formuladas acerca do manejo da transferência nesses casos, deve-se deter, ainda, a compreender as noções de letra e escrita a partir da concepção lacaniana.

Letra e escrita Seguindo as formulações de Lacan (1971/2003) acerca da letra, esta seria o que bordeja o real e o simbólico, o gozo e o semblante, borda essa que não se constitui de maneira muito precisa. Lacan (1971/2003, p. 18) diz que: “a borda do furo no saber, não é isso que ela desenha?”. Nesse trabalho, o autor afirma que é a insistência significante que determina o sujeito. Esta insistência é da letra no inconsciente, apesar desta não fazer parte do inconsciente, ressaltando a materialidade da letra em relação à linguagem. No seminário sobre A Carta Roubada (1955/1998), apesar da confusão aparente na conceituação de letra e significante, pode-se afirmar que o significante lettre1 remete à carta e aspira ao automatismo de repetição (ASSADI, 2011). Lacan (1955/1998, p. 18) faz referência à carta roubada como um significante puro, como algo que se desloca na cadeia e, segundo ele, “veremos que seu deslocamento é determinado pelo lugar que vem a ocupar em seu trio esse significante puro que é a carta roubada. E é isso que, para nós, o confirmará como automatismo de 1

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Diz respeito à carta/letra.

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repetição”. O significante lettre diz respeito aos significantes letter e litter, respectivamente, carta/letra e lixo. Esse seminário faz referência ao conto de Edgar Allan Poe sobre uma carta roubada, referente à reputação da rainha, pois continha conteúdo que a comprometia. A carta chega a se transformar em um material deteriorado, causa de intenso tumulto entre os policiais, que estavam em sua busca, pois acreditaram que aquela encontrada, aparentemente envelhecida, não era a referente à soberana. Esta carta, além de ter a função de levar uma mensagem ao seu destinatário, também tem o estatuto de resto, lixo, dejeto. Antes de ter chegado ao seu destino, a carta circula em diversas mãos como um lixo, como algo que pode ser rasgado e, por isso, passa despercebida. Desta forma, possui uma dupla função: a de transmitir uma mensagem, letter, carta, e a de ser manipulada e descartada, litter, lixo. Fazendo referência à relação entre a carta, a letra e o significante, Nicolau e Guerra (2011, p. 8) ressaltam: “enquanto símbolo de uma ausência, o significante também seria marcado por essa duplicidade, determinando as funções da letra”. Lacan (1971/2003, p. 28) articula claramente: “a escritura, a letra, estão no real; o significante, no simbólico”. Disso depreende-se que da letra como litoral faz-se literal. A letra não tem primazia sobre o significante, pois só pode estar em seus efeitos. Promove uma redução do sujeito à sua escrita. Conforme Nicolau e Guerra (2011, p. 9), “a letra escreve, assim, a radicalidade da diferença de consistências entre saber, elucubração em torno da verdade, e gozo, desfrute do que essa verdade tem de inacessível”. Então, retornando ao fenômeno psicossomático como escrita, pode-se tomá-lo na clínica como letra, como marca que precisa ser contornada com o simbólico. Na análise, esses fenômenos não permitem interpretação. É a partir desse impasse que se deve pensar essa clínica.

Fenômeno psicossomático: uma escrita que não se dá a-ler Nessa clínica, depara-se com uma escritura que remete a um gozo da letra que diz respeito ao registro da linguagem, mas que, paradoxalmente, não lhe pertence. O trabalho do analista, nesses casos, consistirá em possibilitar que o enigma no corpo do paciente acometido pela afecção psicossomática seja decifrado, sendo necessário que o sujeito construa um sintoma analítico, dado que só se vale de uma resposta, que é a sua doença. Nesse caso, o nó borromeano está sustentado em um ponto de cruzamento que tem uma falha, e o deciframento comparece como suplência. Essa falha no enlaçamento do nó acontece porque o discurso não encadeia a subjetivação do

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sujeito, sendo que aquilo que toca o corpo não é o significante encadeado e sim o significante absoluto, o traço unário. Szapiro (2008) afirma que a nominação, ou como se entende, o deciframento produz um ponto de reparação onde falhou a metáfora paterna, pondo em questão o nome-do-pai. Permite uma amarração do nó borromeano de quatro toros. A autora ressalta: “Se trata da passagem de uma escrita a outra. De um escrito, resíduo de gozo no corpo, a poder dizer, ao possibilitar no marco de uma análise, a operação de nominação” (SZAPIRO, 2008, p. 46, tradução nossa). Diante dessas formulações, se interroga: como ocorre o deciframento na afecção psicossomática? Nesse caso, o que se objetiva não é o sentido, mas sim o sem sentido. Logo, não é possível uma interpretação, mas sim aquilo que Allouch (2007) nomeia de transliteração. A transliteração pode ser entendida como uma forma de passagem de uma escrita para outra, uma interpretação regulada pela letra. Transliterar significa lidar com aquilo que é impossível de dizer. Assadi (2011) assegura que, como na proposição lacaniana o fenômeno psicossomático é assemelhado a uma escrita hieroglífica ou como uma assinatura, é possível promover um manejo da transferência por meio da transliteração como uma via para a abertura do inconsciente à interpretação, visando ao sujeito. Como dizem Nicolau e Guerra (2011, p. 14), “a partir da função do escrito, destaca-se a sombra do que não se lê, e se abre ao gozo como uma extração da letra, diferente do significante, no campo da linguagem”. Ressaltam que escrever a clínica significa narrar, contar, implicando um manejo possível considerando a lógica da quantificação por meio da operação por uma escrita de gozo.

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referências bibliográficas ALLOUCH, J. A clínica do escrito. Rio de Janeiro: Cia de Freud, 2007. 280p ASSADI, T. a-pelLe. In: RAMIREZ, H.; ASSADI, T.; DUNKER, C. (Org.). A pele como litoral: fenômeno psicossomático e psicanálise. São Paulo: Annablume, 2011. pp. 221-239. ASSADI, T.; RAMIREZ, H. H. A. A pele, suas marcas e o corpo: fenômeno psicossomático e tatuagem.In: XI ENCONTRO NACIONAL DA EPFCL/AFCL, 2010, Fortaleza. Anais... Fortaleza: EPFCL/AFCL, 2010. pp. 117-127. FONSECA, M. C. B. Fenômeno psicossomático na vertente do gozo. Stylus – Revista de Psicanálise, Rio de Janeiro, n. 13, 2006. pp. 103-110. GUIR, J. A psicossomática na clínica lacaniana. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988. 188p GUIR, J. Fenômenos psicossomáticos e função paterna. In: WARTEL, R. (Coord.).  Psicossomática e psicanálise  Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1990. pp. 47-56. LACAN, J. (1954-55). O seminário – livro 2: O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985. 413p _____. (1955-56). O seminário – livro 3: As psicoses. Tradução de Aluisio Menezes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008. 380p _____. (1957). O seminário sobre “A carta roubada”. In:______. Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, pp. 13-66. ______. (1964).O seminário – livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Tradução M.D. Magno. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008. 280p ______. (1966). O lugar da psicanálise na medicina. Opção Lacaniana, n. 32, São Paulo, 2001. pp.8-14 _____. (1969-70). O seminário – livro 17: O avesso da psicanálise. Tradução Ari Roitman. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992. 232p ______. (1971). Lituraterra. In: ______. Outros escritos. Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003. pp. 15-25. ______. (1975). Conferência em Ginebra sobre el sintoma. In: Intervenciones y Textos. Buenos Aires: Manantial, 1988, pp. 115-144 NICOLAU, R. F.; GUERRA, A. M. C. O fenômeno psicossomático no rastro da letra. Estudos e Pesquisas em Psicologia, Rio de Janeiro, v. 12, 2011. pp. 226-24. SZAPIRO, L. Elementos para una teoría y clínica lacaniana del fenómeno psicosomático. Buenos Aires: Grama Ediciones, 2008. 140p

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resumo

Este trabalho discute a relação do fenômeno psicossomático com a escrita, seguindo a proposição lacaniana de que, nesses casos, o corpo se deixa escrever algo da ordem do número. Nesse sentido, o fenômeno psicossomático seria uma escrita no corpo que não se dá a-ler como um hieróglifo e não cede à interpretação. Diversamente do sintoma, o fenômeno psicossomático apresenta uma holófrase local entre o primeiro par de significantes S1 – S2, o que impede o deslizamento na cadeia. Embora a escrita seja um traço onde se lê um efeito de linguagem, para que ela passe a algo legível é preciso uma reinscrição em outra parte. Diante dessa clínica, nos indagamos se, deparados com este fenômeno, estaríamos diante da letra e qual seria a direção do tratamento com pacientes acometidos por estas afecções.

palavras-chave

Fenômeno psicossomático, escrita, corpo, interpretação, tratamento.

abstract

This work discusses the relationship of psychosomatic phenomenon with writing, following the Lacanian proposition which holds that, in such cases, the body lets itself write something related to the number order. In this sense, the psychosomatic phenomenon would be a piece of writing on the body that does not set to be read as a hieroglyph and does not yield to interpretation. Differently from symptom, the psychosomatic phenomenon presents a local holophrase between the first pair of significant S1-S2, which prevents a slip in the chain. Although writing is a trace where one reads an effect of language, for that to pass on something legible, re-inscription on another part is needed. Faced with this clinic, we ask ourselves whether, having this phenomenon at hand, we would be in front of the letter and which direction of treatment with patients affected by these disorders would be chosen.

keywords

Psychosomatic phenomenon, writing, body, interpretation, treatment.

recebido 31/01/2013

aprovado 25/02/2013

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A criança nos quatro discursos – o psicanalista diante do infantil Adriana Simões Marino A psicanálise com crianças como um “lugar privilegiado” Para abordar o tema da criança por meio da noção de discurso em psicanálise, é preciso partir de uma reflexão sobre um eixo teórico fundamental que versa sobre o conceito de lugar. Neste trabalho, o referido eixo será trazido à luz das considerações propostas acerca dos laços sociais que formarão o enquadre para uma discussão proposta sobre o lugar do infantil em psicanálise ou, mais precisamente, daquilo que concerne à estrutura fantasmática no interior dessa clínica. À luz desses conceitos, pretende-se abordar o lugar da criança, enquanto sujeito, nos diferentes laços sociais, isto é, nos discursos do mestre, do universitário, da histérica e do psicanalista, o que permitirá extrair algumas considerações sobre a psicanálise diante do infantil. Entende-se que uma clínica que permite se interrogar – como em um aforismo – sobre o que responde o psicanalista pode também ter como questão de sua práxis o que pode responder o psicanalista na clínica com crianças. Nesse sentido, o que se coloca é a necessária implicação do lugar da criança diante da posição daquele que a escuta. Enquanto desejo implicado na análise desses sujeitos, esse lugar pode evidenciar uma experiência edificante, deferindo privilégio à formação por envolver tacitamente aquilo que se chama por “desejo de psicanalista”, ou seja, um desejo como puro desejo (enquanto falta) do analista que pôde atravessar “todas as montagens que o protegiam da terrível visão do real: o nada” e que permite uma relação inédita com o outro, não mais como objeto. Trata-se de um desejo, portanto, que “faz o outro desejar e assim encaminhar-se, também ele, para o momento de descobrir que não existe objeto [adequado] para o desejo” (STEFFEN, 2005, p. 2). O que se evidencia é justamente o avesso que a psicanálise com crianças pode oferecer ou, mais exatamente, o avesso das “adultices”, como disse Mafalda, a personagem de Quino (1993, p. 236). A princípio, como se revela na figura das incessantes perguntas ou mesmo nas respostas, no comportamento por vezes in-

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trigante e intransigente, na sua particular ou mesmo rudimentar forma de expressão, na evidência do sem sentido (presente no infinito das significações) ou mesmo na constatação do mal-entendido. É aí que ela, a criança, convoca o psicanalista, provoca-o quando desatento. Chama a atenção daquele que se propõe psicanalisar, pois, invariavelmente, faz-dizer. A experiência analítica com crianças, portanto, revela-se como um “lugar privilegiado” onde não existe escapatória para o psicanalista:

A criança tem a propriedade de recuperar o jogo, jogo que produz um saber com sabor de non-sense, descansado de sentido. Suscita assim questões, exige respostas, joga com o recalcado do nosso desejo. Incontáveis discursos buscam insistentemente transformar esse imerso mundo, produzindo um saber que prova sua eficácia ao calar o que aí nos diz respeito, o que aí toca as reminiscências do infantil da nossa sexualidade. Dar voz à criança, escutá-la, fazer tentativas de articulações. Tudo isso como num jogo infantil no qual a busca de sentido possa ser desperdiçada, lançada adiante, no qual se possa voltar atrás, inovar nas regras, começar tudo de novo (TEIXEIRA, 1991, p. 5).

Chamo de “lugar privilegiado” a posição daquele que se dispõe à escuta desses sujeitos, que busca a sustentação ética de sua clínica. Esse emprego nocional busca transmitir uma acepção particular, não condizente com um suposto privilégio da posição do analista diante da criança. O emprego proposital dessa conjunção de palavras é justamente uma provocação, na medida em que permite revelar um mal-entendido contido na ambiguidade da conjunção de seus termos. A noção do sintagma “lugar privilegiado”, portanto, visa transmitir e considerar a clínica com crianças uma oportunidade de ensino, de formação para o psicanalista, na medida em que se trata do lugar da escuta do sujeito do inconsciente. Os sentidos envolvidos no termo “infantil” variam. Podem remeter a uma ideia pejorativa, a um comportamento geral das crianças, a uma definição de pouca idade, da não aquisição de linguagem (infans), ou ainda corresponder ao período da infância (LÉVY, 2008). O conceito de infantil, contudo, ultrapassa essas noções, especialmente quanto à perspectiva de evolucionismo ou da maturação intelectual do indivíduo. Trata-se de um conceito que revela o fundamento da constituição subjetiva e, portanto, sinaliza uma clínica que encaminha suas respostas sem “especifísmos”. Neste trabalho, a proposta para investigar os lugares onde a criança, enquanto sujeito, pode ser localizada, parte da reflexão sobre os quatro discursos propostos

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por Lacan, quais sejam: como objeto dos saberes no discurso do mestre, como sujeito em constituição no discurso universitário, enquanto objeto de gozo no discurso histérico e, finalmente, como “sujeito” no discurso analítico. Dessa forma, o trajeto envolve a noção de lugar, tomado enquanto condição ética para se pensar a experiência psicanalítica. Assim, ao lermos a fórmula freudiana: Wo Eswar, soll Ich werden, retomada por Lacan (1966/1998, p. 878): “lá onde isso estava, lá, como sujeito, devo [eu] advir”, é possível apreendermos que o que está colocado como princípio é justamente uma questão sobre o lugar. Trata-se, neste percurso, de situar o lugar da falta a ser, do imperativo ético para a assunção do sujeito do inconsciente, isto é, “ele deve se reconhecer em seu lugar, lá onde seu desejo se articula, ou seja, reconhecer no Outro esse buraco deixado pelo corte do objeto” (DARMON, 1994, p. 7).

Considerações sobre o lugar da “criança” nos quatro discursos

Fig. 1

agente

outro

verdade

produção

No discurso do mestre, Lacan (1969-1970/1992) empreendeu uma leitura da dialética hegeliana (conforme Kojève) do senhor e do escravo para dizer que o significante do senhor (S1), no lugar de agente, dirige-se ao saber do escravo (S2) para poder fazer uso desse saber. Isto é, o significante mestre dirige-se ao savoir-faire do escravo “para que esse saber se torne um saber de senhor” (p. 21). O mestre é a figura daquele que nada quer saber e tem por objetivo “mostrar que o escravo sabe, mas, ao confessar isto... o que se oculta é que trata-se exclusivamente de arrebatar do escravo sua função no plano do saber” (p. 21). A dialética hegeliana aborda, invariavelmente, um saber absoluto, colocado no lugar da verdade. Esse saber, que está na origem da articulação significante, faz com que surja um resto que se evidencia no fracasso daquele que se propõe governar. O resto configura, tanto para o senhor quanto para o escravo, um meio de gozo, uma perda que se apresenta no que o autor chamou de “dialética com o gozo” (p. 36). O que aparece nessa dialética é que tanto o mestre quanto o escravo estabelece uma relação com o gozo. O saber-fazer do escravo comporta um meio de gozo que tem como produção um resto decorrente de seu “mais-de-trabalho”,

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como na mais-valia marxista. No caso do mestre, o gozo está situado no uso do saber que era originalmente do escravo. A este “mais-de-trabalho” Lacan efetuou uma equivalência com o que ele chamou de mais-de-gozar. Contudo, a plenitude de gozo é uma impossibilidade para todo ser falante, a repetição é falha, ou seja, comporta um fracasso. Dessa forma, se o gozo fálico (pleno) é interditado a todo ser falante, como surge o mais-de-gozar? O que Lacan apontou foi exatamente aquilo que remete à função do desejo, enquanto “presentificação da falta” na condição da “exclusão fálica no grande jogo humano de nossa tradição, que é o do desejo” (p. 80). Como esboçam os elementos a seguir:

Fig. 2

S1

S2

$

a

No discurso do mestre a dominante é o significante mestre (S1) que representa a lei e que caracteriza a ação de governar. No lado do outro, temos o dominado, onde se situa o escravo. No lugar da produção temos os objetos de gozo (a) do mestre (S1); e no lugar da verdade, o que está escondido e, ao mesmo tempo, sustentando esse discurso, é o sujeito ($). Esse discurso tem uma função reguladora e organizadora da sociedade, é aquele que promove a renúncia pulsional. Interessante ressaltar, como fez Prates Pacheco (2006), é que a criança, nesse discurso, encarna “um saber sobre a ‘Criança’” (p. 307). Objetificando-a nesse lugar, são produzidos diferentes tipos de conhecimento, de especialidades e disciplinas que tentam dar conta de governar o impossível do desejo. Nesse sentido, observa a autora: A consequência mais explícita de tal agenciamento é o aparecimento de uma série de disciplinas e especialidades cujo objeto de conhecimento é “A Criança”: a pedagogia, a pediatria, a pedopsiquiatria (...). A psicologia infantil, bem como a psicologia do desenvolvimento, também são consequências a posteriori desse discurso (PACHECO, 2006, p. 307). A criança, enquanto sujeito, encontra-se recalcada. Sua divisão, “como sintoma revelador da verdade da criança no lugar de objeto” causa a vontade de saber que está do lado do agente (p. 307). Nesse lugar, o S1 marca um universal onde toda

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criança é vinculada a um saber que a signifique (S2). É um discurso que evidencia uma dominação, em uma relação onde o “lugar privilegiado” é a lei do mestre (S1). Outro impossível é a tentativa de se educar o desejo, como mostra o discurso universitário:

Fig. 3

S2

a

S1

$

O educar está na base das relações que tradicionalmente se estabelecem com as crianças. Nesse discurso, o saber (S2) está no lugar de agente que se dirige ao aluno (a) por seu ato de educar. O que fica escondido, no lugar da verdade, sustentando esse discurso, é o significante mestre (S1) que é representado pelo autor. Com isso temos como produção um sujeito ($), “que se revolta ou sintomatiza ao ser tratado como objeto a” (QUINET, 2006, p. 36). Toda relação que trata o outro como objeto do saber, tendo em vista a produção de um sujeito “formado” ou “informado”, corresponde ao discurso universitário. Dito de outra forma, todos os atos que estabelecem uma relação com o outro como indivíduo em formação ou em constituição estão aí localizados. O educar (tal como vigora na ciência moderna) está na base de uma articulação em que o S2 (tudo saber) dirige-se à criança enquanto objeto, na condição de não estar “pronta”. Assim, por não estar pronto, o sujeito do inconsciente encontra-se recalcado, sob a barra. Aqui, o lugar privilegiado é o da burocracia. Segundo Prates Pacheco (2006), retomando o conceito de “dispositivo de sexualidade” de Foucault, na atualidade desse discurso encontramos o “dispositivo de infantilidade” de Corazza.1 A criança (enquanto objeto) localiza-se em um espaço-tempo do “eduque-se!”, donde passará da condição de infans (isto é, daquele que não fala) a adulto, portanto, formado, educado e desenvolvido. É importante salientar que foi justamente graças aos estudos realizados no âmbito do desenvolvimento psicológico, biológico e social do período da infância, que tornou possível a concretização da criança como sujeito de direitos humanos (PACHECO, 2006). De forma semelhante, pode-se dizer que foi sob os auspícios dessa manifestação discursiva que se tornaram possíveis a criação e a concretização das necessárias intervenções oferecidas no âmbito das políticas públicas (voltadas aos direitos humanos e constitucionais, como educação, saúde, habitação, 1 Referência ao trabalho de Sandra Corazza, História da Infância sem fim, 2000.

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lazer etc.) a essa parcela da população. No discurso histérico o que está escondido no lugar da verdade, sustentando o sujeito, é o objeto a (gozo). No lugar do dominado, temos o significante mestre, e na produção, o saber (S2) fabricado pelo mestre; “assim, a histérica busca um mestre para dominá-la” (DARMON, 1994, p. 222). No lugar do agente, o sujeito do inconsciente com o seu sintoma (a divisão do sujeito como lugar privilegiado) “faz desejar”:

Fig. 4

$

S1

a

S2

Para Lacan (1969-1970/1992), essa forma de laço caracteriza-se por ser um dos avessos da civilização. A justificativa para isso é que esse discurso, assim como o do analista, leva em conta o objeto a. Não por acaso, é uma estrutura discursiva provocada pelo discurso analítico quando da entrada em análise. Assim, por meio da transferência, torna-se possível a produção de um saber sobre o objeto (que está no lugar da verdade). Nas palavras do autor: O que o analista institui como experiência analítica pode-se dizer simplesmente – é a histerização do discurso. Em outras palavras, é a introdução estrutural, mediante condições artificiais, do discurso da histérica (LACAN, 19691970/1992, p. 33). Nesse discurso, a criança é tomada como um objeto que viria responder sintomaticamente ao “Che vuoi?”, isto é, à demanda de saber quem se é (S1). Na reflexão proposta por Cohen (2001), por meio da leitura evocada pela articulação entre o S1 (lado esquerdo) e o objeto a (lado direito, sob a barra): “No discurso da Histérica, ‘a’ criança habitaria o lugar da verdade recalcada, da pergunta freudiana: ‘O que quer uma mulher?’. Seu objetinho ‘a’, seu filho?” (p. 20). Já o discurso analítico traz uma experiência que convoca o real e que é da ordem de outro avesso, o psicanalisar:

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Fig. 5

a

$

S2

S1

Nesse discurso, temos o psicanalista que faz semblante do objeto causa de desejo (a). Seu ato tem relação com o desejo de analista e, por isso, faz-se semblante de objeto: É ao analista, e a ele somente, que se endereça essa fórmula que tantas vezes comentei, Woeswar, soll Ich werden. Se o analista trata de ocupar esse lugar no alto e à esquerda que determina seu discurso, é justamente porque de modo algum está lá por si mesmo. É lá onde estava o mais-de-gozar, o gozar do outro, que eu, na medida em que profiro o ato analítico, devo advir (LACAN, 1969-1970/1992, p. 55). O saber (S2), situado no lugar da verdade, será o da construção da fantasia em uma análise. Conforme Quinet (2006), essa construção refere-se a um “saber sobre a castração, a falta e a inexistência da relação sexual” (p. 33). No lugar do outro, temos o sujeito do inconsciente que está causado pelo desejo de saber sobre a sua divisão subjetiva. O significante mestre, que está no lugar da produção, é um S1, ou seja, apenas um significante que “não precisa necessariamente ser encarnado por ninguém” (p. 35). O Um nesse discurso é um traço, mas é um traço de “desidentificação aos ideais do Outro” em que “o sujeito é liberado das amarras do mestre do significante” (p. 42). Prates Pacheco (2006; 2004) observa que o que se desponta é a ética psicanalítica que leva em conta a divisão subjetiva, o desejo e a fantasia, portanto, o sujeito do inconsciente. A fantasia é uma resposta do sujeito ao encontro traumático com o significante – esse significante do desejo, ou seja, da falta no Outro, que atravessa a constituição do sujeito. É um ponto de báscula, uma operação significante que gera um resto impossível de significar. A constituição do sujeito atesta que a fantasia está na base desse instante em que se é sujeito, aquele que passa a pertencer à cadeia metonímica que o define, num sem fim do discurso (S1 – S2 – Sn). Tal formulação aponta para uma lógica específica, que é a do “não-todo”. Assim, com relação à criança, como sujeito nesse discurso ($), trata-se de privilegiar a passagem do infans à sexuação o que, segundo essa lógica, corresponde à inscrição do sujeito na partilha dos sexos, ou seja, a posição do sujeito diante da castração. A partir das contribuições lacanianas, conforme a autora, pode-se dizer

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que o infantil é um lugar onde, na fantasia, localiza-se uma operação de encontro traumático com o significante, com o impossível de significar. É uma operação que atravessa a concepção das fases da vida, pois refere um resto que é inacessível à consciência, constituindo o inconsciente. Portanto, o infantil como o que há de estrutural no sujeito: Só é possível tratar o infans por um saber que se acrescente ao Real, um saber no lugar da verdade. A verdade que, como sabemos, tem estrutura de ficção. Assim, o trauma é verdadeiro porque, como diz Lacan “o verdadeiro visa ao real”. Quanto ao tratamento desse real pelo simbólico – que chamamos de psicanálise – Lacan nos diz: “recorrer ao não-todo...” isto é, aos impasses da lógica, é mostrar a saída fora das ficções de mundanidade, fazer outra ficção do real, isto é, do impossível que o fixa pelas estruturas de linguagem (PACHECO, 2004, p. 133). Da infância como uma fase da vida a ser superada ao longo de seu desenvolvimento psicológico, biológico e social (discurso universitário), à infância como objeto de atenção dos diferentes saberes (discurso do mestre) e à criança como objeto de gozo (discurso histérico), a psicanálise questiona a concepção de infans para fazer falar a criança enquanto sujeito. Assim, é o infantil da estrutura, isto é, o sujeito do inconsciente, que encontra um lugar privilegiado na psicanálise.

referências bibliográficas COHEN, R. H. P. A criança objeto “a” nos quatro discursos de Lacan. In: Pulsional Revista de Psicanálise, n. 14, 2001. pp.12-25. DARMON, M. Ensaios sobre a topologia lacaniana. Porto Alegre: Artes Médicas. 1994. 301p. LACAN. J. A ciência e a verdade. In _______. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. pp. 869-892, 1998. (Trabalho original publicado em 1966) LACAN, J. O Seminário, livro 17: O avesso da psicanálise. (Texto estabelecido por J. A. Miller; versão brasileira de Ary Roitman, consultor Antonio Quinet). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992. (Trabalho original publicado em 1969-1970) LÉVY, R. O infantil na psicanálise: o que entendemos por sintoma na criança. Rio de Janeiro: Vozes. 2008. 167 p. PRATES, A. L. O trauma é o infantil – cena primária: verdade e ficção no caso do “homem dos lobos”. In: Stylus. Rio de Janeiro: associação Fóruns do Campo Lacaniano, n. 9, 2004. pp. 105-117

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PRATES, A. L. Da fantasia de infância ao infantil na fantasia – a direção do tratamento na psicanálise com crianças. Tese de Doutorado. Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo. 2006. 345 p. QUINET, A. Psicose e laço social: esquizofrenia, paranoia e melancolia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 2006. 237 p. QUINO. Toda a Mafalda. São Paulo: Martins Fontes. 1993. 420 p. STEFFEN, R. A formação do analista. A CARTA, Campinas, SP. set/out, 2005. pp. 1-2. TEIXEIRA, A. B. R. Apresentação desta coleção. In: _______. Coleção Psicanálise da Criança: Coisa de Criança. Salvador: Ágalma-Psicanálise. Vol. 1 n. 5. 1991. pp.5-6.

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resumo

O trabalho aborda a clínica com crianças a partir de uma reflexão sobre seu lugar nos quatro discursos. Salienta que se trata de uma clínica por excelência do infantil, no qual a noção de lugar e os conceitos de desejo de psicanalista, fantasia e estrutura do sujeito do inconsciente encontram-se imbricados. Extrai-se dessa clínica seu potencial de formação, como um lugar privilegiado, sem tratar de qualquer especificidade.

palavras-chave

Criança, discurso, infantil, psicanálise.

abstract

The paper discusses the clinic with children departing from one reflection about their place within the four discourses. It points out that it is – par excellence – a clinic of the infantile, in which the notion of place and the concepts of a psychoanalyst’s desire, fantasy and the subject’s structure of the unconscious are interrelated. From this clinic, its potential for formation as a privileged place is extracted, without having to treat any specificity.

keywords

Child, discourse, infantile, psychoanalysis.

recebido 01/02/2013

aprovado 20/02/2013

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Estado paradoxal do desejo1 Carolina Zaffore “Na ética que se inaugura com o ato psicanalítico – menos ethiqueta – perdoem-nos, do que jamais se vislumbrou ao se haver partido do ato – a lógica manda, isso é certo, por nela encontrarmos seus paradoxos” (Lacan, 1959, p. 376) Os paradoxos do desejo na neurose, na psicose e na perversão são, a esta altura, certamente palpáveis. Freud e Lacan dão inúmeras provas para que nós, analistas, estejamos advertidos a esse respeito. Mas o que podemos dizer do desejo produzido em uma análise levada até seu final? Poderíamos tentar qualificar um estado em que o desejo fica, depois da passagem por uma análise, mais além da estrutura subjetiva transitada? Eludindo a perigosa vertente que estabeleceria a análise como a resolução dos paradoxos, ressalto outro aspecto: diria que uma análise leva a certa metamorfose do desejo e, portanto, a um estado inédito para cada um, o que tentarei abarcar como um estado paradoxal. Entendo que uma análise deixa o desejo em um estado outro, diferente dos estados que vão ocorrendo sob transferência e, por certo, assinala a dimensão do irreversível. Proponho pensar essa conversão do desejo produzida no final da análise a partir de uma dupla vertente: o desejo do analista não se confunde com os desejos dos analistas, mas, por sua vez, o desejo do analista não é impermeável à singularidade e ao indômito de cada um. Que participação tem essa vertente na operação analítica em que a função “desejo do analista” põe-se em jogo? Como se diferenciam – mas, ao mesmo tempo, se conjugam – essas duas vertentes fora do consultório, mais além do analista em seu ato? Passo então a apresentar três estados que pude isolar até o momento e que me parecem determinantes para refletir sobre o “desejo do analista” como produto de uma análise levada a seu fim, mas também – e ao mesmo tempo – sobre os desejos dos analistas, aqueles desejos que convivem, diferem, encontram-se e desencontram-se, marcando o passo na vida institucional. Uma análise conduz a indicar os paradoxos, evitá-los, resolvê-los, mas – e isso é o que gostaria de enfatizar – de modo algum suprimi-los. 1 Trabalho apresentado na III Jornada de Cartéis dos Fóruns da América Latina Sul, 26 e 27 de outubro de 2012, na sede do Foro Analítico del Río de la Plata, em Buenos Aires, Argentina.

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zaffore, Carolina

Entendo que uma análise leva, sim, a coabitar com o que chamo o “estado paradoxal do desejo”, deixando, do mesmo modo, proposto que de um paradoxo, não à força, há que padecer. Talvez seja possível deixá-lo avançar sem pressa, evitá-lo algumas vezes, talvez seja possível desfrutá-lo naquilo que tem de surpresivo ou criativo. Inclusive, poder localizar o paradoxo um pouco melhor permite assumi-lo – mesmo quando comporta afetos nucleares como a angústia e a dor. Em contraposição, existem resoluções dos paradoxos que não condizem de modo algum com o discurso analítico, às quais haveria que estar especialmente atentos em uma Escola. Não para julgá-las, destruí-las ou tentar excluí-las, mas para situar essas resoluções forçadas e avançar um pouco mais advertidos na práxis analítica que nos concerne. Do mesmo modo, penso que é preferível não só conhecer esses paradoxos por intermédio dos outros, mas também tê-los transitado e chegado ao limite de sua resolução – irresolução. Isso, ao menos, se seguirmos as propostas que Lacan elabora conforme avança em seu Seminário 15, cujos destaques são categoricamente o ato e a experiência. O desejo é indomesticável e, portanto, nem o desejo mais analisado elude ao estado essencialmente paradoxal com o qual convive um analista, dentro e fora do consultório. A diferença é, certamente, a passagem de um paradoxo sofrido, padecido, negado, a um paradoxo encarnado realmente, experimentado, que, longe de ser resolvido, o analista deve sustentar, suportar e, inclusive, apostar nele em cada uma das análises que conduz. A partir disso, recortarei três estados paradoxais do desejo que o analista que quer conduzir curas deve custodiar, e não cair em falsas respostas resolutivas alheias ao discurso que nos atravessa. Creio que é o ponto central do assunto. Não tanto como advirto esse aspecto primordialmente paradoxal do desejo, mas como alguém que atravessou uma análise se vira para sustentar sem rodeios. Como um analisante que deveio analista abstém-se de sair dos paradoxos do desejo em sua práxis (e em sua vida!) com escapadas que habitualmente podem dividir-se entre a negligência, a submissão ou o cinismo. Passo então a analisar, à luz de três estados paradoxais do desejo e que entendo, deve amparar o discurso analítico, isso que nos confia Lacan, essa “conversão ética radical” (1965, p. 44), reduzindo nesta oportunidade a distância entre o “desejo do analista” como função da metamorfose do desejo, própria à experiência de cada análise:

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Estado paradoxal do desejo

1) estado ético do desejo Com este primeiro estado, indico a metamorfose que arroja uma análise, comprovando as relações paradoxais entre ética e moral. Isso não implica que o desejo analisado fica fora da moral, mas, pelo contrário, situa a moral em sua justa dimensão, em suas relações complexas e frágeis com a ética. A ética, sob a perspectiva analítica, inclui admitir o essencialmente paradoxal do desejo que não se conduz de maneira bondosa ou maligna. Uma análise nos leva, na verdade, a admitir em ato as armadilhas do eu e dos bons costumes que subjugam sempre o traço mais indócil e pulsional, nunca alheio no ser desejante. Nossas escolhas implicam uma responsabilidade marginal quanto mais nítida deixa-se ver a limitação dos famosos “códigos”. Limitação que de nenhuma maneira confunde-se com degradação, mas que simplesmente acentua o infrutífero de ditos códigos diante do desgarramento e da divisão mais crua que a experiência analítica ensina. Que se possam delimitar melhor os campos da moral e da ética não significa que os campos não se enlacem. Por um lado, o campo da moral o faz publicamente, às referências codificadas, às convenções alcançadas e absolutamente necessárias ao laço social. Por outro lado, o campo da ética talvez o faça à máxima intimidade, ao debate intrínseco ao ser falante que finalmente – depois de uma e outra vez passar pelos mesmos lugares – não encontra já codificação alguma. Essa borda mostra o lado não codificado com o qual o desejo analisado realiza-se. Não há manual de referência algum no momento de confrontar-se com as encruzilhadas contingentes, decisões e escolhas que correspondem a nosso desejo em ato, uma vez que o manual fantasmático caduca. O estado paradoxal a ser sustentado, penso eu, nesta tensão necessária entre o que cada um escolhe conforme seu desejo – inclusive, às vezes, contrário ao moralmente aceitável – é o estado que o discurso analítico, como laço social que inclui per se a dimensão do Outro, deve acolher. Como viver com os demais, como ser justo com nossos pares e, ao mesmo tempo, viver, decidir e marcar nossas ações ajustadas a nossos desejos – com suas luzes e sombras incluídas? O mais analítico, creio, é aceitar drasticamente as relações vacilantes e difíceis entre o ser falante e a moral. Como lidar com esse aspecto ineducável do desejo? Como lidar com esse fator desejante impossível de doutrinar? A ética do desejo corresponde à divisão e ao juízo íntimo desgarrado, muito mais do que ao aceito, reconhecido, inclusive valorizado pelo Outro.

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zaffore, Carolina

Entendo que em uma experimentada divisão elementar o desejo torna-se realizável e distingue-se francamente de qualquer pretensão em que se ancore o eu. Por um lado, em termos de nossa formação como analistas, é precisamente esse núcleo desejante – resistente a qualquer corpo teórico – que se erige como motor em uma Escola, que se faz presente cada vez que palpita um trabalho tanto coletivo quanto singular. Por outro lado, em termos de qualquer análise levada até seu fim, encontramos uma vez mais o estado paradoxal em que habita o desejo. É justamente atuar no compasso do desejo, e não mais no dos ideais, dos enganos do eu e da consciência moral – cujo contrassenso ético revela sua faceta mais feroz e de insaciável exigência (FREUD, 1929) – que entrega esse fio paradoxal indefectível ao qual devemos consentir enquanto analistas: o desejo, não poucas vezes, fica em xeque com a moral.

2) O estado realizável do desejo Com este segundo estado, indico a metamorfose do factível que se produz conforme avança a experiência analítica. O factível abarca um amplo espectro de ações, de alguns atos mais ou menos decisivos para si e para outros, mas, definitivamente, nomeio como factível aquilo que a via analítica habilita: que o desejo torne-se realizável. A ação impedida, inibida, extraviada, impossibilitada ou exacerbada imprime no percurso de uma análise as mordaças sucessivas que recaem sobre o desejo. O desejo somente realizável de maneira alucinatória – seja em fantasias, em sonhos ou em delírios – abre-se, depois de uma análise, à possibilidade de que se torne, em grande medida, realizável. A análise faz condescender do desejo alucinado ao desejo praticável. Que o desejo torne-se realizável implica as liberdades e os limites de uma ação que tem consequências, que tem um custo que não mais pagará o Outro, ficando por conta própria. O estado realizável do desejo necessariamente implica uma dimensão de lance, de um não saber que implica um risco em termos de resultados. Esse risco não significa ignorar – se posso dizer assim – os efeitos colaterais que a realização do desejo comporta. O sujeito que consente em analisar-se até o fim, esse sujeito “advertido” (LACAN, 1968), não ignora as consequências, mas – e aqui o estado paradoxal a ser mantido – incluiria uma dimensão drasticamente incalculável daquilo que pode produzir, em si mesmo e nos outros, a passagem do desejo fantasiado ao desejo

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Estado paradoxal do desejo

real. Incalculável e, ademais, diria, imprime uma zona de solidão máxima, talvez de “desassossego absoluto” (LACAN, 1958). O fio que atravessa a variável alucinatória do desejo – que cedo Freud evidenciou – e os eixos inconscientes a decifrar, experimentar e, por que não, padecer, dão passagem à variável realizável do desejo. Àquilo factível que não implica uma ação sem limite, mas sim um marco de liberdade em que se faça dessa incógnita tão temida como cardinal algo efetivamente praticável. Entendo que dita metamorfose provoca consequências certamente incalculáveis e, por sua vez, é algo que, como tal, resiste à conceitualização e às definições. Ao menos, então, levantemos alguns questionamentos: desde que coordenadas conduzem-se nossas ações uma vez que as amarras de sempre tornam-se ineficazes para deter o desejo? Quanta incidência tem o eu uma vez que algo do desejo aparece, impondo-se inclusive como real? Não é algo que promove ou decide a consciência, embora tampouco seja algo que “sucede”, e já, como obra do destino. Como nos conduzimos em função do desejo quando os objetos que comandaram nossa conduta revelam-se irreversivelmente como algo que se deixa em garantia, como “refém do desejo” (LACAN, 1958)? Há aí um ponto paradoxal a ser mantido onde o desejo mais “próprio” – se preferir, mais singular – torna-se realizável justamente quando se distingue, se discrimina, se recorta e adverte uma dimensão absolutamente heterogênea e inapreensível ao eu. É conveniente então manter esse estado paradoxal do desejo do analista em ação, do qual, se podemos estabelecer algumas coordenadas, advém até certo ponto de uma zona insondável e, portanto, impossível de enunciar. Aparece aí o imensurável valor de um dispositivo como o do passe. Solidariedade então na dimensão realizável dos desejos e do desejo do analista no ponto em que uma vez analisadas as múltiplas, complexas e diversas relações entre aquilo que toca ao mais pessoal e o mais pré-determinado do desejo precipita, por fim, essa zona radicalmente insondável que comprova o paradoxo inextinguível da relação entre o Sujeito e o Outro.

3) O estado vivo do desejo Este estado do desejo nomeia a metamorfose do corpo que advém durante uma análise na passagem pela castração, entendida como a impossibilidade que comanda os campos da sexualidade e a morte nos seres falantes. A respeito do primeiro nome da castração, podemos dizer que não há desejo que – mediante uma análise – não marque um corpo vivo e sexuado. O corpo

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ausente, anestesiado, fragmentado e doído pode conviver com um desejo morto ou, ao menos, postergado. Desde as paralisias histéricas que cativaram Freud, já se adverte sobre esse custo corporal que o neurótico está disposto a pagar por não se confrontar com o mais impetuoso que habita e se faz ouvir por caminhos labirínticos. Caminhos que a transferência acolhe sem pressa, mas sem pausa. A via analítica devolve, desde sua face mais terapêutica, a conexão do desejo com o vivo do gozo. E assim se aguarda a intromissão do inconsciente que vai nos enviando ao determinante traço sexual. O campo do gozo e o campo do desejo se não se confundem, unem-se. Um desejo vivo é um desejo que não se priva de sua relação com o gozo. Se bem, tal como nos ensinou Lacan, o desejo é “excêntrico à satisfação” (LACAN, 1957), o analisante recupera a trama entre o gozo sempre presente no corpo e a experimenta desde a posição de seres sexuados e desejantes. Daí a enorme tarefa do analista que não cede à problemática da escolha. É certo que o gozo e a face mais inconsciente do desejo pouco têm a ver com algum grau de decisão. Na verdade, mostram bem o quanto sujeitados e determinados estamos pelo radicalmente intrusivo da língua. No entanto, diante dessa absoluta determinação, a análise abre um caminho em que as preferências, os gostos, as diferenças e o mais resistente à tipificação tornam-se audíveis (ou ao menos deduzíveis). Sobre o segundo nome da castração, a morte, o que podemos dizer a partir de nossa experiência enquanto analisantes e analistas? O encontro com a dimensão temporal como castração essencial atesta de modo transparente a finitude da vida, a impossibilidade radical do imortal. Esse destino ineludível apresenta, contudo, um estado paradoxal a ser sustentado: se a morte é indefectível, seria possível negá-la. No dizer de Freud, poder-se-ia recusá-la à custa de muitas “renúncias e exclusões” (FREUD, 1915). O estado vivo do desejo supõe então a possibilidade real de “computar a morte no cálculo da vida” (Ibid). Estado paradoxal do desejo que, sobre o caminho do ineludível da morte, onde pareceria não haver margem alguma de manobra, erige-se em sua face eletiva (ALOMO, 2012). Desejo que, instalado na escassez do tempo, não nos leva a uma apática resignação, mas, pelo contrário, a um possível ato conclusivo. Que a análise precipite seu final anunciado (ou ao menos preparado em sua estrutura) é um modo de consentir com a castração. O desejo do analista, como produto final da análise, implica calibrar os limites impostos pela vida do ser falante a partir de uma genuína conveniência que permita atuar, decidir ou, ainda mais, simplesmente fazer o que se gosta, e já.

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Estado paradoxal do desejo

Estado paradoxal então que nomeia o vivo do desejo e que sustentamos quando nossos atos nos permitem, finalmente, determinar-nos e, até mesmo, afirmar-nos. Mas não mais na segurança do fantasma e suas diversas imagens, e sim no realmente fortuito e finito. Tradução: Maria Cláudia Formigoni Revisão: Conrado Ramos e Ida Freitas

referências bibliográficas ALOMO, M. (2012). Tres condiciones éticas, tres tipos electivos. Trabalho publicado em versão eletrônica na página do Foro Analítico del Río de la Plata. Disponível em: <www.forofarp.org>. Acesso em: 25 mai. 2013. FREUD, S. (1915). La Transitoriedad. In: Obras Completas de Sigmund Freud. Traducción de Etcheverry. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1982, v. 15, pp. 292-293. FREUD, S (1929). El malestar en la Cultura.In: Obras Completas de Sigmund Freud. Traducción de Eycheverry. Buenos Aires: Amorrortur Editores, 1990, v. 21, p. 76-77) LACAN, J. (1958-1959). El Seminario, libro 6: El deseo y su interpretación, clase del 12 de noviembre de 1958, inédito. LACAN, J. (1959-1960). El Seminario, libro 7: La Ética. Buenos Aires: Editorial Paidos, 1984. LACAN, J. (1959-1960). Reseña con interpolaciones del seminario de la ética en Reseñas de Enseñanza. Buenos Aires: Editorial Manantial, 1988, pp. 3-4. LACAN, J. (1965). El Seminario, libro 12: Problemas Cruciales para el psicoanálisis, clase del 5 de mayo de 1965, inédito. LACAN, J. (1967-1968). El Seminario, libro 15: El acto analítico, clases del 17 y 24 de enero de 1968, inédito. LACAN, J. (1967-1968). Reseña del Seminario 15 en Reseñas de Enseñanza. Buenos Aires: Editorial Manantial, 1988, pp. 47-55.

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zaffore, Carolina

resumo

O trabalho propõe uma reflexão acerca do estado paradoxal em que habita o desejo do analista. Demarcam-se três estados do desejo que exploram diversos rumos daquele desejo que advém de uma análise levada até seu final: o “estado ético do desejo”, o “estado irrealizável do desejo” e o “estado vivo do desejo”. Cada um desses estados implica necessariamente um paradoxo que o presente trabalho desdobra. Circunscrevem-se, assim, alguns paradoxos que, como analistas, não devemos eliminar nem evitar, mas sustentá-los com nosso desejo em ato.

palavras-chave

Paradoxo, desejo do analista, ato.

abstract

This paper proposes a reflection on the paradoxical state in which the desire of the analyst lives. The texts raises three states of desire which explore different aspects of that desire coming from a finished analysis: the “ethical state of desire, the “unrealizable state of desire” and the “living state of desire”. Each of these states necessarily implies a paradox that this work develops. Therefore, we arrive at some paradoxes that, as analysts, we are not supposed to eliminate or avoid, but sustain them with our desire in act.

keywords

Paradox, analyst’s desire, act

recebido 01/02/2013

aprovado 25/02/13

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O que responde o psicanalista sobre a perversão?

Maria Helena Martinho

Durante um século de psicanálise muito se produziu sobre neurose e psicose. Entretanto, isto não se passa da mesma forma com a perversão. Esta parece que ficou um pouco à margem na literatura psicanalítica. Fico me indagando qual a razão disso: a complexidade do tema? A pouca incidência de sujeitos perversos na clínica? Por que os psicanalistas se esquivam de falar sobre a perversão? Haveria um “não querer saber nada disso” sobre a perversão? Diante desse cenário interrogo: o que responde o psicanalista sobre a perversão? Freud, a meu ver, respondeu a essa indagação em três tempos lógicos de sua obra. Parafraseando a modulação do tempo forjada por Lacan, pode-se dizer que: o primeiro tempo – O instante do olhar – reflete o momento em que Freud vê algo de diferente daquilo que a comunidade científica daquela época apregoava em relação à perversão. Esse primeiro tempo se apresenta claramente delineado no extraordinário texto de 1905, Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, no qual Freud distingue com clareza a perversidade da perversão sexual encontrada em todo ser humano. Nesse texto, Freud reconhece que “a disposição às perversões é a disposição originária e universal da pulsão sexual dos seres humanos” (p. 211). O segundo – O tempo para compreender – é marcado por um momento de virada que provoca uma reviravolta em todo o desenvolvimento teórico do pensamento analítico no que se refere à neurose e à perversão. Esse tempo se evidencia em um estudo de 1919, sobre a gênese das perversões, intitulado “Bate-se numa criança: uma contribuição ao conhecimento da gênese das perversões sexuais”, a partir do qual Freud compreende que a fantasia de espancamento e outras fixações perversas análogas são precipitadas do complexo de Édipo, cicatrizes deixadas pelo processo que expirou. O terceiro tempo – O momento de concluir – introduz um novo desenvolvimento metapsicológico na obra freudiana. Nesse tempo, baseando-se em novas observações clínicas, Freud amplia as suas concepções acerca do fetichismo com a publicação de um texto excepcional, intitulado Fetichismo (1927), no qual faz, pela primeira vez com clareza, a correlação entre a perversão fetichista e um mecanismo próprio de defesa contra a castração: a Verleugnung. Nesse tempo, a perversão ganha o status de categoria clínica, fazendo série com a neurose e com a psicose.

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A releitura que Lacan faz da obra de Freud nos auxilia a compreender esses três tempos da seguinte maneira: no primeiro, Três ensaios, é um divisor de águas, ressalta que os traços de perversão que Freud descobriu na neurose desvelam apenas a natureza do gozo do sujeito e não a sua estrutura clínica. No segundo, Bate-se numa criança, a fantasia assume para Freud a estrutura irredutível de um enunciado gramatical cuja gênese se liga à história do sujeito. Lacan considera que foi por meio da análise da fantasia de espancamento que Freud fez a perversão entrar em sua verdadeira dialética analítica. No terceiro tempo, Fetichismo, Lacan isola o termo Verleugnung na obra freudiana, e a partir das descobertas de Freud, pode dar à Verleugnung um estatuto próprio que define o mecanismo da perversão. Verifica-se que há uma convergência nas teses de Freud e de Lacan sobre a perversão: o gozo perverso não define o perverso de estrutura, posto que este é o gozo de cada ser falante. Freud e Lacan nos ensinam que diagnosticar um sujeito perverso é bem mais sutil do que apenas dizer que basta um cenário de gozo perverso para que se esteja diante de um perverso. Um psicanalista não deve, portanto, definir uma estrutura no nível da fenomenologia dos sintomas; ele deve identificar como o cenário de gozo na fantasia se coloca em relação ao desejo inconsciente, pois o que diferencia a estrutura neurótica da perversa é a posição que o sujeito ocupa diante do Outro na fantasia, no jogo entre o sujeito e o seu parceiro. Sendo assim, vejamos como Lacan escreve a fantasia neurótica, em seu grafo do desejo: $◊a, onde se lê um sujeito dividido pelo significante, que está em fading diante do objeto. Digamos que, quando se escreve nesta ordem, aquele que fantasia está em fading, o que significa, a eclipse do sujeito, momento de síncope do sujeito. A elaboração desse matema permite indagar: qual seria a posição que o neurótico ocupa na fantasia, em um ato dito perverso? Lacan demonstra que o neurótico está sempre do lado do sujeito dividido, sujeito do desejo. Se todo sujeito deseja a partir de sua referência ao falo, objeto do desejo por definição, a seta que vai do $ (no lado homem) até a (no lado mulher) descreve o fato que ao desejar, todo sujeito dese­jante independentemente de seu sexo biológico, está do lado homem. Ele visa reencontrar no lugar de seu parceiro o objeto a, causa de seu desejo. Re­presentado nas fórmulas quânticas da sexuação, o sujeito referido ao falo enquanto falta, busca o objeto de sua fantasia. E a causa do desejo, ele visa enquanto Outro sexo. “Só lhe é dado atingir seu parceiro sexual, que é o Outro, por intermédio disso, de ele ser a causa de seu desejo” (LACAN, 1972-1973, p. 108), já que, para o macho – (LACAN, 1972-1973, p. 98, sic) –, o objeto a faz “o papel do que vem em lugar do parceiro que falta [e é em que constitui] o que costumamos ver surgir também no lu­gar do real, isto é, a fantasia” (LACAN, 1972-1973, p. 85). Ou seja, na relação do sujeito para com o parceiro do desejo, as fórmulas

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O que responde o psicanalista sobre a perversão?

quânticas da sexuação retomam o desenvolvimento que Lacan (1966-1967) fizera ao proferir em seu seminário sobre a lógica da fantasia, que a fantasia se compõe de $◊a – todas as relações do sujeito com o objeto a. O homem, diz Lacan, crê que aborda a mulher, mas o que ele aborda é a causa do desejo dele (a). “Aí está o ato de amor. Fazer amor é poesia. Mas, há um mundo entre a poesia e o ato. O ato de amor é a perversão po­limorfa do macho” (LACAN, 1972-1973, p. 98). Dois seminários depois, Lacan confirma e conclui que esse é o sintoma do homem. Se A Mulher não existe – ela é sempre não toda –, no lugar dela o homem vai colocar “uma mulher”, como um sintoma. E o sujeito perverso? Qual seria a posição que ele ocupa na fantasia, em seu ato perverso? Para responder a essa questão faz-se necessário tomarmos o matema da fantasia sadiana – protótipo da perversão – forjado, por Lacan, em Kant com Sade (1963, p. 786). Fig. 1

V

d

a

S

$

Nesse matema verifica-se que Lacan escreve a fantasia perversa de forma inversa: a◊$. O matema da fantasia sadiana nos leva à verificação de que o sujeito do desejo ($), em seu ato perverso está no lugar de a (objeto mais-de-gozar), movido por uma vontade de gozo (V). Daí, se dirige ao seu parceiro para dividi-lo ($), provocando nele horror e surpresa, ou seja, fazendo com que ele se depare com a falta, com a castração e, ao mesmo tempo, extraindo da sua divisão o sujeito do bruto prazer (S), revelando uma verdade que lhe é desconhecida, um gozo que é pura pulsão de morte, um para além do princípio do prazer, S (A). Vê-se assim, que o sujeito perverso desvela a sua maneira particular de se relacionar com o mal-estar da castração. O perverso ilustra que a Verleugnung designada por Freud é correlata ao matema lacaniano da perversão, ao nível de ($→ S). Na medida em que põe em jogo ao mesmo tempo a falta, a divisão do parceiro, a sua castração ($) e um prazer referido ao falo enquanto ele não falta, o desmentido da castração (S). Ao rever as fórmulas quânticas da sexuação, forjadas por Lacan (1972-1973), me dei conta de que estas poderiam me servir como um valioso instrumento para diferenciar o gozo perverso do gozo do perverso. Verifiquei que para representar o gozo perverso bastava transpor o matema da fantasia neurótica – forjado no grafo

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Martinho, Maria Helena

do desejo – para as fórmulas da sexuação; assim como para representar o gozo do perverso bastava transpor o matema da fantasia perversa – encontrada em “Kant com Sade” – para as mesmas fórmulas. Na representação do gozo perverso a seta que vai do $ até a demonstra que o homem, que está todo na função fálica, tem por parceiro o objeto a da fantasia. Encontrei aqui a perversão universal, ou seja, o objeto a da fantasia no lugar do Outro sexo. Este é o gozo que a psiquiatria tinha definido, de forma equívoca, como sendo o gozo do perverso. Na verdade, foi daí que tudo começou. Quando Freud percebeu que havia uma correlação da neurose com as perversões. Desde Freud, podemos dizer que essa perversão universal (FREUD, 1905, p. 211) está no cerne da fantasia, o que não deixa de ter relação com a observação de Lacan de que toda sexualidade humana é perversa (1975-1976, p. 149). Na realidade, a perversão universal implica colocar o objeto a da fantasia no lugar do Outro sexo. Fig. 2 Homem

Mulher

S (A ) S

a

La

Ф

Para demonstrar a representação do gozo do perverso, verifiquei que bastaria inverter a posição da seta que representa a fantasia neurótica. Melhor dizendo, se a seta plantada ali, originalmente por Lacan, fosse invertida, ou seja, se ela fosse posicionada saindo de a até $, teríamos o matema da fantasia sadiana – protótipo da estrutura perversa –, e assim, poderíamos demonstrar que o sujeito perverso, ao contrário do neurótico, não está na posição de sujeito, no todo-fálico, mas na posição de a, no não-todo fálico, como objeto causa de gozo para o Outro, como instrumento do gozo do Outro. A seta disposta dessa maneira auxiliaria a demonstrar que o perverso força o seu parceiro a fazer uma coalescência, não entre S ( A ) e a, mas entre o a e o sujeito bruto do prazer (S). Como dito, o perverso remove a barra do sujeito (S), levando-o a obter um gozo obscuro (LACAN, 1963) – a → $ → S.

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O que responde o psicanalista sobre a perversão?

Fig. 3

Homem

Mulher

S ( A) S

a

La

Ф

Em O Seminário, livro 16: de um Outro ao outro (1968-1969, p. 252), Lacan já havia constatado que o objeto a se apresenta de maneira totalmente diferente na neurose e na perversão. Na neurose, o objeto a se apresenta no nível do narcisismo secundário, sob a característica de captura imaginária. Por essa razão, para o neurótico há com o seu parceiro uma relação de complemento. O neurótico é aquele que sempre quer fazer Um com o seu parceiro. Freud já havia ensinado que para o neurótico, no amor, há uma reciprocidade, uma simetria; quem ama quer ser amado, o amor, intrinsecamente narcísico, faz Um. Já na perversão, ao contrário, há com o seu parceiro, uma relação de suplemento. O perverso é aquele que quer oferecer ao seu parceiro aquilo que ele acha que lhe falta: o gozo. Na estrutura perversa verifica-se que não há simetria entre o sujeito perverso e seus parceiros, não há uma complementaridade. O perverso age no nível do Outro e da reposição nele do objeto a, olhar ou voz, como suplemento. No sadismo e no masoquismo, observa-se que o perverso se insere na falta do Outro (A) como objeto a, mais-de-gozar, voz, para extrair do parceiro um gozo que para ele era desconhecido. Em suas fantasias perversas os sujeitos vêm ilustrar a correlação existente entre a pulsão invocante e a pulsão sádica. No voyeurismo e no exibicionismo observa-se que o perverso se insere na falta do Outro ( A ) como objeto a, mais-de-gozar, olhar, para extrair do parceiro um gozo que ele próprio desconhece. Em suas fantasias perversas os sujeitos vêm ilustrar a correlação entre a pulsão escópica, o voyeurismo e o exibicionismo. Pode-se verificar que há vários tipos de perversões. A lista das perversões se baseia de forma muito aproximada à lista das pulsões. Contudo, essa não é uma razão para imaginarmos que a perversão seja simplesmente a pulsão desenfreada, fora de controle. Sem dúvida, há perversão voyeurista, exibicionista, sádica e masoquista, mas não é a natureza da pulsão que faz a perversão; a natureza da pulsão pertence ao registro da perversão universal. O determinante de uma estrutura clínica não se situa do lado do gozo, mas do lado do sujeito.

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Martinho, Maria Helena

O que responde o psicanalista sobre a perversão? As obras de Freud e de Lacan desvelam que a complexidade que se presentifica na perversão exige do psicanalista não somente uma extrema sutileza e precisão, como também, o desafia em sua práxis e em sua ética: a ética do desejo.

referências bibliográficas FREUD, S. (1905). Tres ensayos de teoría sexual. In: Obras completas. Buenos Aires: Amorrortu, 2005. v. 7, p. 109-225. ______. (1919). Pegan a un niño. Contribución al conocimiento de la génesis de las perversiones sexuales. In: Obras completas. Buenos Aires: Amorrortu, 2006. v. 17, p. 173-201. ______. (1927). Fetichismo. In: Obras completas. Buenos Aires: Amorrortu, 2004. v. 21, p. 141-152. LACAN, J. (1957-1958). O Seminário – livro 5: As formações do inconsciente. Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1999. 531p. ______. (1958). A direção do tratamento e os princípios de seu poder. In_____: Escritos. Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1998, p. 591-653. ______. (1963). Kant com Sade. In: ______: Escritos. Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1998, p. 776-807. ______. (1968-1969). O Seminário – livro 16: de um Outro ao outro. Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2008. 412p. ______. (1972-1973). O Seminário – livro 20: mais, ainda. Tradução M. D. Magno. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1985. 201p.

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O que responde o psicanalista sobre a perversão?

resumo

Esse texto aborda a perversão a partir dos fundamentos teórico-clínicos de Freud e Lacan, destaca o movimento lógico que delimita a perversão na obra freudiana e verifica uma convergência nas teses de ambos os autores, no que se refere à diferenciação entre a perversidade e a perversão como estrutura clínica. O texto salienta que as práticas de gozo perverso não determinam a estrutura perversa. O matema da fantasia sadiana, forjado por Lacan, é tomado para demonstrar a Verleugnung freudiana, o modo que os sujeitos perversos encontram para lidar com castração da mãe/mulher. As fórmulas quânticas da sexuação, formuladas por Lacan, são utilizadas para evidenciar que a diferença entre a neurose e a perversão se explicita na estratégia de gozo que o sujeito utiliza na relação com o seu parceiro. Esse texto convoca a comunidade analítica ao debate uma vez que enuncia os impasses da clínica.

palavras-chave

Perversão, desmentido, gozo.

abstract

Departing from Freud’s and Lacan’s theoretical-clinical fundaments, the article discusses perversion, highlighting the logical move which marks perversion in Freud’s work and verifying a convergence in the propositions of both authors with regard to the differentiation between perversity and perversion as a clinical structure. The text argues that practices of perverted jouissance do not determine the perverse structure. The mathema of sadian fantasy, forged by Lacan, is taken to demonstrate the Freudian Verleugnung, the way perverse subjects find in order to deal with castration of the mother/wife. The quantic formulae of sexuation, conceived by Lacan, are used to put to evidence the fact that the difference between neurosis and perversion becomes explicit in the strategy of jouissance that the subject uses in the relationship with his/her partner. This text invites the analytical community to debate, once it expresses the deadlocks of the clinic.

keywords

Perversion, denial, jouissance.

recebido 15/02/2013

aprovado 24/02/2013

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direção do tratamento


O conhecimento do sintoma e as opções no fim da análise Gabriel Lombardi Quero compartilhar com os senhores algumas impressões de natureza histórica. Poderiam ser diferenciadas três etapas na história das instituições dedicadas à formação dos analistas. A primeira começa com a IPA e se caracteriza por uma total desconexão epistêmica entre os resultados das análises e o acesso à posição do analista. O que se avalia na IPA são os efeitos terapêuticos. Ainda que tenha havido intenção de estudar “o que se seguiu”, o período que eles chamam “pós-analítico”, isso não foi muito longe: estudos estatísticos sobre a estabilidade dos resultados terapêuticos, algumas generalidades sobre a função autoanalítica do eu no analisado.1 Com o dispositivo do passe, começa outra etapa, a que se chamaria didática, por haver acentuado as consequências didáticas do tratamento. O termo “consequências” é aqui apropriado, já que se reforçou uma concepção um pouco mecânica da psicanálise, sugerindo que uma análise concluída, levada até o fim, produziria necessariamente um analista. As outras análises, pelo contrário, terminam prematuramente, não tendo sido levadas as coisas até o final, e então os analisados se dedicam a outra coisa – e, talvez, fosse realmente melhor que se dedicassem a outra coisa. Neste segundo paradigma, a psicanálise, essencialmente didática, é concebida como uma máquina de transformar neuróticos em analistas. Isso, em minha opinião, mostra que o ato psicanalítico, ainda processado no dispositivo do passe, pode ser maciçamente desmentido: neste caso, reduzindo o passe à verificação de que a análise levou o passante a alcançar coordenadas já previstas, que figuram nos manuais da instituição, onde a máxima realização possível é converter-se em analista. Creio que a partir de uma experiência mais séria, serial e também responsável do passe, com o apoio da leitura da Nota aos italianos (LACAN, 1973/2003) e do Prefácio de 1976, de Lacan (1976/2003), estamos começando uma terceira etapa, interrogando-nos não apenas sobre os limites estruturais das análises e suas consequências mecânicas, mas também sobre as escolhas (choix, choices, elecciones) que o final promove. Essas opções podem ser de índole muito diferente, inclusive se todas elas produzem a satisfação do término da obra desconstrutiva da verdade 1 Cf. meu Seminário nas Diagonales de la opción sobre o tema Résultat des analyses et formation analytique dans l’IPA, publicado pelos Forums du Champ Lacanien, em 2001.

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lombardi, Gabriel

mentirosa. Porque esse satis (o termo francês assez deriva do latino ad satis) só é alcançado na decisão de terminar um processo que, por sua própria estrutura, tende a adiar a decisão para tomá-la com melhor conhecimento de causa, como bem explicou Freud. Mas, uma vez realizada, como toda decisão autêntica, basta-se a si mesma em sua autossuficiência de ato, e logo pode dar ou não explicações e, em geral, não as dá. Os efeitos didáticos da análise, em muitos casos, outorgam a aptidão de analista, segundo dizia Freud; mas isso não quer dizer que esta seja uma escolha forçada, que a própria análise force a passagem da aptidão à atitude de analista, ao desejo do analista, realizado no encontro com outro sujeito. A escolha de analista não deve, não pode ser uma escolha forçada, mas separada, nas ressonâncias últimas deste término que fez vibrar Colette Soler. Chamaria simplesmente a esta terceira fase de nossa experiência institucional de etapa analítica, diferenciada agora da didática, para evitar prejulgar os fins; é uma analítica sem psico-, psych-, psycho-, segundo propõe Lacan em 1976. Suficiente para ser heureux, que não é ser feliz, mas “achador”, aproveitar a oportunidade do dado que não costuma se apresentar no tempo previsto. A análise faz prevalecer, sobre a rigidez defensiva do psíquico, as chances do tíquico, do que se encontra na junção do gozo com o desejo do Outro. A distância (écart) entre consequências e sequências marca uma diferença conceitual decisiva, que permite uma interrogação de nossa experiência à altura da “Proposição” de Lacan (1967/2003), na qual o dispositivo do passe é proposto para lançar luz sobre esse momento eletivo, esse passe de analisante para analista, que não pode ser meramente efeito do ato de outro. Pode haver análise, mas, quanto a ser analista, não há qualquer possibilidade, ele escreveu na Nota aos italianos; não há uma consequência real, disse também em 8 de março de 1977 (LACAN, 197677). Ser analista não é uma consequência, é uma escolha: de desejo, de condição pulsional, de vida, também de emprego, não há por que negar esse fato. A partir dessa perspectiva, quero debruçar-me sobre a curiosa natureza do sintoma, que resiste, que se nega à escolha, a qual denuncia como forçada, que se afirma na excisão como na escolha, e isso até terminar… com a análise.

O conhecimento do sintoma O que é sintoma em psicanálise? É o conflito que está no lugar de uma escolha. É o sim e o não simultâneos da histérica, que sobe a saia com uma mão e desce com a outra. É o sim, não alternante do obsessivo, que joga a pedra e logo a recolhe, anulando seu ato lapidar. É a divisão angustiante do perverso, quando

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O conhecimento do sintoma e as opções no fim da análise

vive a urgência de um desejo que não se satisfaz com performances de fantasia. É também, embora muito diferente, a dissociação do psicótico, que testemunha suas vivências de passividade enquanto silencia sua participação ativa em uma realidade em que seu parceiro não é apenas seu perseguidor, mas também seu cúmplice – Lacan dedicava suas apresentações de doente a dialogar com o doente sobre este ponto, o de sua divisão subjetiva não delineada por dissociação. O sintoma é o que o analista encontra como ser do sujeito: divisão, em vez de decisão; extravio moral, em vez de integridade. Daí que unicamente chamamos de sintoma a uma afecção do ser eticamente hábil. E, por isso, o sintoma é “o analisável”, já que o método freudiano consiste em restituir as coordenadas, as referências, as alternativas de uma decisão pendente, que divide nossa existência em partes irreconciliáveis. Além disso, em psicanálise, se admitirmos que esse ser eticamente hábil conhece de si no sintoma, aceitamos que ele o experimenta, enquanto nós, do lado de fora, não o percebemos senão por meio de seu precário testemunho. Nós nos abstemos de dizer sobre a histérica o que diz o médico: “não tem nada”. E nos abstemos também de falar do louco com base na posição do psiquiatra, que busca automatismos, efeitos de alguma desordem orgânica, tóxica, neuroquímica, ou psíquica, efeitos de alguma causa ou de nenhuma causa, porém, em qualquer caso, tratável a partir do exterior. Se acreditarmos no que afirma Lacan (1950/1998) em seu texto sobre A causalidade psíquica, não é o automatismo senão “uma obscura decisão do ser”, o que determina a posição do louco. É nesse contexto de interrogação da causalidade no nível das escolhas do ser falante que vemos surgir, na pena de Lacan, uma definição de sintoma ao mesmo tempo precisa e elástica, válida para o sintoma em todos os seus estados e em todos os tipos clínicos: “é o que o sujeito conhece de si, sem se reconhecer nisso” (1950/1998, p, 166). Divisão subjetiva, então, como sempre que falarmos de sintoma no sentido analítico do termo. Se o sujeito não atenta para sua divisão, talvez devêssemos, então, falar de inibição e não de sintoma. Se o sujeito está na iminência de uma decisão, na certeza, pronto para a passagem da passividade à atividade, falamos de angústia, não de sintoma. Se o sujeito não está dividido, mas destituído, por estar inteiramente entregue a uma atividade satisfatória, isso tampouco é sintoma, é ato sem rodeios [ambages] – há mais formas de ser para o falasser do que o ser sujeito. A conjugação dos termos sintoma e conhecimento, que Lacan (1976-77) reproduz no Seminário L’insu,2 não é novidade, já está em sua obra em 1950; e antes ainda, no capítulo III de Inibição, sintoma e angústia (FREUD, 1926/1996), 2 Cf. aula de 16 de novembro de 1976: “Le symptôme pris dans ce sens cest, pour employer le terme de connaître, cest ce qu’on connaît, c’est même ce qu’on connaît le mieux”.

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onde a encontramos sob a metáfora do sintoma como corpo estranho, no qual o sujeito não reconhece algo de que, contudo, tem a certeza de que está nele. O termo “conhecimento” é um daqueles que Lacan tratou de evitar e até chegou a repudiar explicitamente. Quando, em 1975, define a clínica psicanalítica como o real impossível de suportar, acrescenta a cláusula: “tornando-se um dever repudiar tudo o que implica a ideia de conhecimento”, com o argumento de que a psicanálise toma o sujeito do saber, não o do conhecimento bíblico nem o do conhecimento ancestral. Entretanto, Lacan não pôde evitar de falar do conhecimento do sintoma, precisamente no ponto em que fracassa o conhecimento da mulher pelo homem, e também fracassa o saber, que fragmenta, que esquarteja, cartesianamente, os corpos, terminando com toda possibilidade de se aproximar da pergunta sobre a relação sexual entre os corpos falantes. Para seguir com a psicanálise, teve de se afastar da ciência e regressar ao nó de quatro, de cinco… A relação entre sintoma e conhecimento costuma ser algo complicado, porque o sintoma, além disso, se satisfaz em ser desconhecido. Costuma enfeitar-se e manter-se camuflado mediante outras duas formas acessórias de “conhecimento”, ambas mencionadas por Lacan (1976-77) na mesma aula de novembro de 1976: o narcisismo secundário, que extrai do sintoma um benefício ególatra; e a fantasia, que dá uma espécie de sentido ao sintoma, permitindo sentir que “vale a pena”; sentido econômico, educativo, sacrificial ou masoquista. Ambos os “conhecimentos” acessórios permitem eliminar a divisão, no primeiro caso, por integração do corpo estranho no eu; no segundo, por transformação da divisão subjetiva em desvanecimento, fading, corte do sujeito ($). Esses acessórios estabilizam o aspecto satisfatório do sintoma. “O sintoma é gozo, não esqueçam”, dizia Lacan (1962-63/2005, p. 140) em A angústia; é gozo que não pede interpretação, diferentemente do acting out. De todo modo, o sujeito-sintoma constitui o núcleo das opções pendentes do falasser, e no final da análise se revelará, sem os véus, que o narcisismo e a fantasia estendem sobre ele, como conhecimento da divisão. Um gozo partido.

O sintoma é o verdadeiramente real Como é que o sintoma, que não pede interpretação, se engata no trabalho analítico? Como tentar o sintoma com a verdade? Como morder o anzol, até o ponto de fazer do sujeito realmente dividido um real “de verdade”? O ardil freudiano, bem explícito em seus históricos clínicos, consiste em tentar o sintoma com a verdade como causa material, animá-lo a mostrar sua estrutura, seu real dividido,

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seu gozo torturado, sua in-satisfação radical, falando de outra coisa, os pais etc. A resposta é, então, a interpretação, o significante que diz outra coisa, a verdade operando como causa material com a qual o sintoma se identifica à sua maneira: mentindo, em perfeita (in)coerência com o que ele é, essa contradição vivente a que chamamos sujeito. A verdade do sintoma é que nele o real diz mentindo. Envolve o parceiro por meio da mentira, que é o realmente simbólico (LACAN, 1976-77, aula de 15 de março de 1977), o que vem no lugar da cópula que não há entre os corpos sexuados. O sintoma no sentido analítico do termo é o analisável nas neuroses, nas perversões e nas psicoses (LACAN, 1958/1998, p. 692), esses tipos de sintoma em que o real se inscreve mentindo ao parceiro, insiste Lacan (1974/2003, p. 515). Pois bem, à interpretação oportuna de sua divisão, o sintoma responde lealmente, desprendendo-se, progressiva ou abruptamente, de cada uma de suas duas coberturas imaginárias, para ir assumindo essa forma paradoxal que toma durante a análise, o atuar dividido da transferência. O agieren [fazer] transferencial é paixão do que o sujeito conhece a seu pesar, mas é também re-petição que, ainda que se pareça automática, é com-pulsiva. O sintoma de transferência é resistência e, ao mesmo tempo, motor, é passividade e atividade simultâneas; é diátese partida, mas não voz média – que seria o caso do ato, de dizer, o loquor latino. O ardil freudiano, bem explícito em seus históricos clínicos, consiste em tentar o sintoma com a verdade como causa, animá-lo a mostrar seu real dividido, seu gozo torturado, sua in-satisfação radical, cuja direção coincide com o fim lacaniano da análise (LACAN, 1976-77, aula de 16 de novembro de 1976). Como a psicanálise é coisa séria, também nós podemos fazer um uso mentiroso da verdade; a estafa epistêmica é cômoda, é tentadora. Por isso, em uma Escola de psicanálise, não devemos esquecer que a diferença entre ciência e psicanálise reside em um emprego diferente da verdade. A ciência usa a verdade como causa e logo a forclui.3 A psicanálise toma a verdade como causa material, e, de fato, da queixa toma somente a verdade.4 Por isso, Lacan (1976/2003), no Prefácio de 1976, exige fazer o contrário do que faz a ciência, pede uma hystorização da verdade mentirosa que interveio na heurística, no tempo em que fez falta ao passante para 3 É a tese bem conhecida de Lacan (1966/1998) em “Ciência e verdade”, texto incluído nos Escritos. Em um texto publicado em L’en-jeu n. 7, comentei a surpresa de Solomon Feferman, lógico atual de primeira linha, ante o estranho emprego que faz Gödel da verdade em seus teoremas dos anos 30: a emprega e logo a retira sem dizer nada; como se esta nunca tivesse estado, ou, melhor dizendo, que poderia ser substituível mediante procedimentos transfinitos, o que é mentira, já que, naturalmente, não teríamos tempo para levar isso a cabo, nem nós nem o computador mais rápido que se possa inventar. 4 Lacan afirmou, em 1974, em sua Note adressé personnellement à ceux qui sont suceptibles de désigner les passeurs. Um passador não histérico deveria barrar sua verdade para localizar outros saberes, ainda se se serviu desta para chegar à sua posição atual.

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chegar à oportunidade de sua autorização como analista. Foi graças aos espelhismos da verdade que pôde continuar o caminho da análise, até encontrar as coordenadas da decisão de saída.

O sintoma é real Voltemos ao real do sintoma, ao sintoma que vem do real. Qual é, então, seu real? Lacan o explica apelando para o real etimológico depositado na lalangue francesa e também nas outras quatro línguas oficiais de nossa Escola: é o real do reus, do culpável, do que, para conhecer, deve escindir-se, porque o que ele conhece não é reconhecível nem por ele mesmo nem pelo Outro. Como opera uma interpretação propriamente analítica, isto é, liberadora? Quando incide no real mentiroso, quando faz alvo no ser eletivo; quando opera sobre esse real do reus que é sua divisão. A interpretação apaga um sintoma se permite decidir uma ação, outro estilo de satisfação que não a divisão. Embora o sintoma se desdobre na análise e resista, e particularmente sob o atuar contraditório da transferência, a interpretação, desde a origem dos tempos, aponta para alcançar uma integridade na ação, para dissolver o saber, para tornar viável o real sem regra do ser eletivo, um real tíquico, alheio ao psíquico. O sintoma, o real do reus, é a divisão que assume o falasser ao se fazer sujeito dividido, culpável de ser eletivo e não estar à altura de sê-lo. A análise vai contra o sintoma, incitando o reus a escolher alguma opção castradora, que o separe de si, que se satisfaça na parte compartilhável da libido. Esse chamado é o desejo do analista, que, sem dúvida, se apoia em alguma satisfação sublimatória, talvez na satisfação do bem-dizer, no diálogo analítico entre o sintoma mentiroso e o intérprete sem manual. De todo modo, incluindo os testemunhos de analisados que dizem eleger a atividade de analista, costumam mostrar que fica um resto sintomático, um leîmma entre parte e todo, ou em excesso a respeito do todo, que permite oportunamente conectar com o Outro, sintomaticamente… Por isso, a psicanálise, inclusive a lacaniana, que se propôs a fazer seu o sujeito da ciência e repudiar tudo que implique a ideia de conhecimento, para tratar o reus, deve admitir regressar, como ele, ao tempo anterior ao do saber, àquele momento, este momento, o que se repete entre paraíso e queda, quando o reus prefere a fruição sem sair do programa de Deus. Daí deduzimos que nem tudo pode ser sublimado, nossos desejos e nossos gozos não terminam por se satisfazer em atos, o sintoma permanece. Admitir esse conhecimento é o fim da análise, assegura Lacan, desculpando-se, porque isso

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não leva muito longe, e por haver colocado seus seguidores nos apuros que isso implica, não se sabe bem com que resultados. O ateísmo necessário para sair, deveras, talvez não seja realizável; o que fazer, então, com o saldo irresolvido de nossos Wunsch? Lacan (1976-77) nos lança uma corda em sua aula de 16 de novembro de 1976, perguntando em que consiste este rastreio, que é a análise, para responder, e radicalmente, por fora dos ideais: “identificar-se com o sintoma tomando suas precauções, suas garantias, uma espécie de distância”. Ali está o fim da análise, nessa precaução, nessa espécie de distância, que faz do sintoma incurável uma garantia de separação, de não conformidade, de não coerência (total) com nenhum programa, inclusive se continuarmos trabalhando nele. De modo que o sintoma, o não eleger do ser eletivo, termina sendo a garantia pela qual sua eletividade essencial se afirma na existência, sua garantia real, a causa de sua responsabilidade e a de seu parceiro dialógico, que é o analista. Daí a concepção lacaniana do ato analítico: Nenhuma diferença, uma vez empreendido o processo entre o sujeito que se entrega à subversão até produzir o incurável onde o ato encontra seu fim próprio, e aquilo que do sintoma cobra um efeito revolucionário apenas por deixar de marchar ao som que lhe marca a batuta marxista. (LACAN, 1969/2003, p. 378).5 Podemos acrescentar à marxista, a batuta capitalista, ou a de qualquer instituição na qual esteja enrolado. Esse conhecimento do sintoma já não analisável é impossível de descompor em elementos últimos; tomando-se um pouco de distância, permite um saber fazer. O saber fazer com o sintoma é o saber manobrar sem manual, justificado porque tal manual não existe. É conhecimento irredutível ao saber.

Um passeio pelo Centro Pompidou Há homens de ação que não necessitaram de ajuda de um psicanalista em suas escolhas decisivas. Eu não busco, encontro – dizia Picasso, longe do neurótico, que busca e busca sem encontrar nada que valha a pena. Não é que sejam totalmente livres em suas escolhas de cada dia, porque se atêm a um estilo, tecem uma trajetória que só de vez em quando admite crise e rupturas, o período azul, logo o 5 “Pas de différence une fois le procès engagé entre el sujet qui se voue à la subversion jusqu’à produire l’incurable où l’acte trouve sa fin propre, et ce qui du symptôme prend effet révolutionnaire, seulement de ne plus marcher à la baguette dite marxiste.”

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rosa, logo o cubista. De modo que não há tampouco neles a espontaneidade absoluta da decisão, mas também a autolegislação de uma vontade curtida. Esses mesmos artistas, ademais, costumam comprazer-se em exibir alguns restos sintomáticos, versões da não relação sexual, que depositam em sua obra. Sabem fazer isso com tal maestria, que às vezes causam com seus restos o desejo de outros, que pagam dinheiro pelo que eles fizeram com seu sintoma. Passeando, semana passada pelo Centro Pompidou, encontrei versões chamativas do saber fazer com a não relação. Pareja, para seguir com o exemplo, é um quadro no qual Picasso pinta dois corpos recortados em quadrados e entalhados de outra maneira, uma espécie de quadratura de vínculo que satisfaz o olhar sexual tanto ou melhor que o encontro de um par cítrico. Vi outros exemplos em uma mostra temporária de Munch: alguma versão de O beijo, tão bem realizada, que a fusão dos rostos leva a relação até o horror da dissolução dos limites entre os corpos. E também Neve fresca na avenida, com duas figuras humanas no estilo característico do pintor, já saindo da paisagem desolada, cada uma em sua solidão fantasmagórica. Também visitei ali as instalações de Yayoi Kusama, nas quais se pode apreciar a fruição orgástica de uma mulher que coleciona quantidades exorbitantes de falos em um caldeirão gigante ou em um buraco no solo, que filma vídeos nos quais ela mesma tatua pênis de homens nus em alguma pracinha de Manhattan; e que instala, mediante um sistema de luzes e espelhos, bilhões de pontos luminosos em uma passarela escura que enfeitiça as mulheres e incomoda os homens. Fascinante, a angústia espreita o espectador. Picasso, criador e destruidor, é conhecido também por maltratar suas mulheres. Munch levou um tiro de Tulla Larsen, seu grande amor, que lhe causou una pequena stéresis, e o privou de um dedo da mão; padeceu de alucinações e permaneceu internado durante vários meses em Copenhague. Yayoi Kusama, por sua vez, trabalha ainda, sozinha, internada em um hospital psiquiátrico de Tóquio. Nem tudo foi sublimação em suas vidas, essas telas e realizações destilam ainda o suor de uma tortura incurável. Outro caso bem conhecido de saber fazer com o sintoma é o de Woody Allen; sua posição é irônica e nos incita a refletir sobre a distinção entre divisão e destituição subjetiva. Em Hollywood ending,6 a ex-mulher e atual mecenas de um diretor de cinema nova-iorquino pauperizado pergunta a ele se finalmente quer ou não fazer o filme, que poderia ser financiado por seu atual marido, um bem realizado produtor de Hollywood, e ele responde, já afetado pela cegueira histérica: “Uma parte minha quer fazer”. E a outra? – pergunta pressurosa a ex. “Aí está o problema” – responde –, “é que minha outra parte também quer fazer.” Se as 6 Título no Brasil: Dirigindo no escuro (Nota da tradutora).

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duas partes do sujeito se põem de acordo, isto é para Allen um problema. Escutei, muitas vezes, apelidarem-no de neurótico; é cair em seu ardil. Um neurótico não roda um filme por ano, nem bom nem ruim, e muito menos Manhattan, Hollywood ending, Midnight in Paris. Há ali um saber fazer com seu sintoma que não responde às coordenadas da neurose. Segundo ele mesmo, padece de duas neuroses: claustrofobia e agorafobia.

O inconsciente real de Mario Brito Concluirei recordando algumas coordenadas do final de análise relatadas por Mario Brito em Wunsch 10: Um dia, indo ao consultório de minha analista e dirigindo em – piloto automático, encontrava-me exorto em minhas elaborações e, sem perceber, passei do prédio onde estava o consultório. Fiz o retorno enquanto ria do meu ato falho. A analista tinha ficado de fora e o momento oportuno, a ocasião para passar ao ato, estava por apresentar-se. Ao tomar o elevador, não se apresentou aquela dúvida que me tinha invadido em várias oportunidades: – o consultório está no primeiro ou no segundo andar? Apesar de tantos anos indo ao mesmo lugar, e que agora se apresentara essa dúvida. Esse dia me disse: – Está no andar um, não no andar dois, ela está no um, eu também. Tudo empurrava ao fim. (BRITO, 2011, pp. 8-9). Leiam, pois é divertido, entusiasma esse relato de um saber fazer com o que apenas ele conhece em sua pele, mas que agora permite uma conexão entre conhecimento divisório e saber: o saber fazer. O dispositivo do passe lhe permitiu, não sem a intervenção do passador, tomar nota de seu ato, de sua satisfação no fracasso: eis aí o inconsciente real em ato, em ato sintomático. Tradução de Solange Fonseca Revisão de Angélia Teixeira

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referências bibliográficas BRITO, M. Passe o que passa. Wunsch: Boletim Internacional da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano, n. 10, pp. 6-12, jan. 2011. Disponível em: < http://www.champlacanien.net/public/docu/4/wunsch10.pdf >. Acesso em: 25 mai. 2013. FREUD, S. (1926). Inibições, sintomas e ansiedade. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996, Volume XX, pp. 81-174. LACAN, J. (1950). Formulações sobre a causalidade psíquica. In: Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, pp. 152-196. __________. (1958). A significação do falo. In: Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, pp. 692-703. __________. (1962-1963). O Seminário: livro 10 – A angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005. __________. (1966). A ciência e a verdade. In: Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, pp. 869-892. __________. (1967). Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola. In: Outros escritos. Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003, pp. 248-264. __________. (1969). O ato psicanalítico. In : Outros escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro : Jorge Zahar Editor, 2003, pp. 371-379. __________. (1973). Nota italiana. In : Outros escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro : Jorge Zahar Editor, 2003, pp. 311-315. __________. (1974). Televisão. In  : Outros escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro : Jorge Zahar Editor, 2003, pp. 508-543. __________. (1976). Prefácio à edição inglesa do Seminário XI. In: Outros escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003, pp. 567-569. __________. (1976-1977). Le Séminaire: Livre 24 – L’insu que sait de l’une bévue s’aile à mourre, inédito.

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resumo O autor parte de uma discussão da experiência do passe para se perguntar sobre o que possibilita ao analisando fazer uma escolha no final de análise. Em contraponto, apresenta o sintoma no início da análise como aquilo que denuncia no neurótico a impossibilidade de fazer escolha: o sintoma é o conflito que está no lugar de uma escolha. A experiência da análise vai consistir então em fazer o sintoma falar, denunciando sua verdade mentirosa, seu gozo dividido. A interpretação analítica é liberadora, pois opera sobre a divisão do sujeito, permitindo um outro estilo de satisfação que não a divisão. O sintoma, através da interpretação, é levado até o ponto de um impossível de decompor que vai restar para o sujeito a título de saber fazer. Para exemplificar esse saber fazer o autor retoma a experiência da criação artística e algumas coordenadas do final de análise extraídas do relato de um analista da escola.

palavras-chave

Passe, sintoma, interpretação.

abstract

The author departs from a discussion about the experience of the pass to question what enables the analyzed to make a choice at the end of the analysis. In contrast, he presents the symptom at the beginning of the analysis as the aspect which shows in the neurotic the impossibility of making this choice: the symptom is the conflict that takes the place of a choice. The experience of the analysis will then consist in making the symptom talk, denouncing its lying truth, its divided jouissance. The analytical interpretation is liberating, once it operates on the division of the subject, permitting another style of satisfaction other than the division. The symptom, through interpretation, is taken to the point of an impossible ability to decompose, which will remain to the individual as a know how. To exemplify this know how, the author revisits the experience of an artistic creation and some coordinates of the end of the analysis that were extracted from the narrative of a school analyst.

keywords

Pass, symptom, interpretation.

recebido 29/01/2013

aprovado 18/02/2013

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Resposta a uma letra em instância Dominique Fingermann “... Basta bascular a letra com a qual começa a palavra “pior” [pire], e teremos “dizer” [dire].”1 (LACAN, 1971-72/2012, p. 12)

1. A instância da letra Uma “lettre en instance,” em francês, é uma carta em espera, em suspenso. Diz-se também uma “lettre en souffrance”,(NT 1) no primeiro sentido de “souffrance” –sofrimento – que significa carregar, suportar, e evoca persistência, paciência, resistência. Nos dois casos, ouve-se aí algo da ordem da constância, da perseverança, da insistência, algo de uma iminência em suspenso. Uma “lettre en instance” é uma carta que não encontrou seu destinatário, Lacan precisa: “… o que enuncio, restabelecendo o texto de Poe, The Pur­loined Letter [A Carta roubada], ou seja, a carta que não chega, a carta prolongada em seu circuito” (LACAN, 1976-77/aula de 15/02/1977).2 Uma letra em instância é uma letra que não tem resposta no Outro: algo acontece que causa desconforto, ou delicia, mas abala, desconcerta, deixa estupefato, faz furo – trauma, portanto –, “sintoma, inscrito em letras de sofrimento na carne do sujeito” (LACAN, 1953/1998, p. 307).3 Letra em sofrimento, digamos, o que ameniza o pathos, dado que é desta marca que surge a unicidade consequente do sujeito suposto, desta marca, ou seja, desta “cristalização material daquilo que o condiciona como ser humano” (LACAN, 1975).4 Essa não resposta (não correspondência) é marca de origem, é aquilo que do grito não se transfere em apelo, ponto de emergência do Dizer que perdura instamente, insistentemente como aquilo que não se textura nas voltas do Dito [les tours du Dit], mas a partir daí pode forjar uma escritura. 1 “Il suffit de faire basculer la lettre qui commence le mot’pire’, ça fait ‘dire”. NT1 A expressão en souffrance, em francês, pode ser traduzida tanto por “em espera” ou “em sofrimento”, em português, de acordo com o contexto. 2 “[...] ce que j’énonce, en rétablissant le texte de Poe, The Purloined Letter, à savoir la lettre qui ne parvient pas, la lettre prolongée dans son circuit. [...].” 3 “[...] symptôme inscrit en lettre de souffrance dans la chair du sujet [...].” 4 “[...] cristallisation matérielle de ce qui le conditionne comme être humain [...].”

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fingermann, Dominique

Da letra ao escrito: entendemos assim porque Lacan (1966/1998) coloca O seminário sobre a carta-letra roubada como epígrafe de seus Escritos, sinalizando desta forma a sua prevalência sem-par. Esse seminário se anuncia tal uma “Lettre en souffrance”, letra em suspenso da qual ele não cessará de escrever o comentário no decorrer de seu ensino, como ele faz também com seu texto princeps A instância da letra (LACAN, 1957/1998), que anunciava a diz-mensão que só se confirmaria mais tarde: “guardando aí em todo caso o preço desta letra que digo que sempre chega onde deve” (LACAN, 1972/1998, p. 449).5 De fato, trata-se de uma letra que não tem resposta no Outro, mas que, todavia, chega sempre ao seu destino, como bem diz o conto de Poe; mas então o que responde, aquele que se faz destinatário dela? Por outro lado, o que constitui sua virulência? Questão que Lacan desdobra a partir de Lituraterra: “É que, para isso, seria preciso ainda desenvolver o que entendo que a carta-letra alcança, e que sempre a faz chegar a seu destino” (LACAN, 1971/2003, p. 17).6 Entre grito e escrito [cri et écrit], alguma coisa alcança, atinge, toca. Joyce desenvolveu isso, se assim pudermos dizer, em seu sintoma: o que alcança, no sentido do impacto, não é o sentido, mas o gozo. Um escrito não para ser lido, mas ouvido, como dizia Joyce (apud BIDENT, 2012) sobre Finnegans Wake: “Ah, não é de forma alguma escrito. Tampouco é feito para ser lido; é feito para ser olhado e ouvido” (p. 21).7

2. A resposta do sujeito Pode-se dizer que o sujeito é resposta à letra? A letra é gozo inconcebível, “acontecimento de corpo” que fixa que o Um é realmente sem o Outro, elemento da alíngua que vem fazer argumento à função sintoma. “... É por vieses completamente incidentes que entrará para ele aquilo que faz o três, ou seja, o Real” (aula de 12/02/1974),8 – desdobra Lacan (1973-74) no Seminário XXI – isto é, o que não faz dois, “não há relação”, “mediante o que, há coisas que se imprimirão, pela tia Yvonne, pelo avô Fulano-de-tal ou pela própria criança, ou seja, seu patético, ao saber que ela está relegada, ninguém aí compreende nada, e com razão, pois não há nada para ser compreendido” (LACAN, 5 “[...] y gardant en tout état de cause le prix de cette lettre que je dis parvenir toujours où elle doit [...]. “ 6 “[...] Car encore faudrait-il pour cela qu’on développe ce que j’entends que la lettre porte pour arriver toujours à sa destination [...].” 7 “[...] Oh, ce n’est pas écrit du tout. Ce n’est même pas fait pour être lu. C’est fait pour être regardé et entendu [...].” 8 “[...] C’est par des biais tout à fait incidents qu’entrera pour lui ce qui fait le trois, à savoir le Réel [...]”

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Resposta a uma letra em instância

1973-74/aula de 12/02/1974).9 “Encontrar-se” só, pois não há dois que sustente, não passa despercebido, isso se nota e se marca. Ao ler esta letra como seu sintoma, o Dizer inaugura o falasser, assim como a ex-sistência que só será experimentada como tal, de fato, no a posteriori de seus ditos. É a posteriori que a letra se denuncia – “se suspeita” (idem, ibidem)10 – como furada do “gozo opaco” ao qual o sujeito renuncia para, a partir daí se fazer uma razão: $<>a, a razão do fantasma. O Um do sujeito marca simultaneamente esse Gozo que ex-siste e o seu fracasso. A repetição desse Um se fará vetor da demanda, cujo Dizer impronunciável se suspeitará aquém dos Ditos, supondo “o sujeito que, como efeito de significação, é resposta do real” (LACAN, 1972/2003, p. 458).11 O sujeito é uma suposição, cujo ponto de partida é um ponto de partição: a resposta do Dizer diante da alteridade. Alguma coisa se escreve daí por diante, algo da ordem do nó, que faz laço onde não há relação. Algo verossímil se escreve então, encore, balizado de um lado pela repetição do traço que faz rastro do rastro primeiro, e por outro pela constância do objeto que “faz” letra, que faz as vezes da letra: escrita no corpo (encore) produzindo as ranhuras em que derramará o espraiar do significado (litter-rasura). É a escrita do romance que se trama assi m, desde o início do falasser a partir desta sequência: furo (trou) – letra – fala – escrito. O sofrimento do sujeito se embaralha, dá nós com seu sintoma, que ele proclama como verdade e se dedica à repetição da qual ele faz seu destino. A menos que ele encontre “um parceiro que tenha chance de responder” (LACAN, 1973/2003, p. 555)12 de outro modo a essa letra em espera [souffrance].

3. Resposta de analista: suportar a verdade, fazer valer o real A psicanálise é uma experiência que parte do sofrimento, ou melhor, da demanda de um que sofre, que como toda demanda, supõe a resposta, isso o faz blablabar, falar para um outro suposto deter sua verdade, isso o faz “ falasser”. O analista responde, antes de tudo, é esse o a priori da demanda de interpretação que a transferência lhe endereça. É por isso que é melhor se calar, para que de fala em falatório se desmoite [défriche], e se decifre [déchiffre] um texto, e se deposite um escrito, uma espécie de eco “do fato de que há um dizer” do qual testemunha sua textura pulsional. Um escrito que não é para ser lido, já que o que se leria 9 “[...] moyennant quoi il y a des choses qui s’imprimeront, par la tante Yvonne, par le grand-père Machin ou par l’enfant lui-même, à savoir son pathétique, à savoir qu’il est relégué, personne n’y comprend rien, et pour cause, il n’y a rien à comprendre.” 10 “[...] se soupçonne [...].” 11 “[...] le sujet, qui, comme effet de signification, est réponse du réel [...].” 12 “[...] un partenaire qui ait chance de répondre [...].”

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é a letra impronunciável.13 “Não seria nada mal que o ler-se fosse entendido como convém, ali onde se tem o dever de interpretar” (LACAN, 1973a/2003, p. 504).14 Sem sentido, da angústia, do sintoma, da repetição: a busca do sentido perdido faz com que, em geral, sustentar essa inclinação pela verdade seja uma resposta esperada e pouco problemática. Lacan sublinha que o analista pode colaborar com esta interpretação significativa que o dispositivo desencadeia, mas não é aqui que sua resposta específica é exigida. A verdade aligeira o sentido dos sintomas numa certa medida, mas para além da mensagem enviada e recebida, resta a letra, em espera, em suspenso. Muito rapidamente, o sentido esbarra com o sem saída (sans issue), e haja analista para sacar daí o sentido da saída, o sentido sacado (sens issu) do não sabido (insu). O impasse do sujeito suposto saber é a saída lógica do discurso histérico, mas é somente o ato do analista que pode conduzi-lo da impotência ao impossível, quando a “repetição programada” (SOLER, 2010) pelo dispositivo põe a transferência à prova, para não dizer em xeque : é preciso um parceiro que tenha chance de responder! Sublinhamos três dessas respostas específicas:

O Dizer que não “[...] o dizer se demonstra por escapar ao dito. Por conseguinte, só se assegura esse privilégio ao se formular como ‘dizer que não’ [...]. Responder assim suspende o que o dito tem de verdadeiro” (Lacan, 1972/2003, p. 452). 15 “Dizer que não” consiste em produzir o corte no sentido, que por definição é sempre verossímil. Aqui a tática da interpretação saberá diversamente burlar e desconcertar a estratégia da transferência.

O Dizer apofântico Freud já falava do valor da resistência enquanto ela des-cobria algo da ordem da ex-sitência. Pode ser que a análise chegue até o ponto de desvelar no escrito depositado nas dobras do texto, a lógica da repetição para além de seu trágico (HUGO,

13 “Por que, senão porque o judeu, desde o retorno da Babilônia, é aquele que sabe ler, isto é, que pela letra se distancia de sua fala, encontrando ali o intervalo, preciso para aí se jogar com uma interpretação?” (LACAN, 1970/2003, p. 427). “[…] Pourquoi sinon de ce que le Juif depuis le retour de Babylone, est celui qui sait lire, c’est-à-dire que de la lettre il prend distance de sa parole, trouvant là l’intervalle, juste à y jouer d’une interprétation [...].” 14 “[...] Ça ne serait déjà pas mal que se lire s’entendît comme il convient, là où on a le devoir d’interpréter [...].” 15 “[...] le dire se démontre, et d’échapper au dit. Dès lors ce privilège, il ne l’assure qu’à se formuler en ‘dire que non’. Répondre ainsi suspend ce que le dit a de véritable [...].”

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Resposta a uma letra em instância

1872/1985).16 Com efeito, esta procura repetir justamente o que lhe escapa,“ou seja, a marca primeira que não poderia se duplicar e que escorrega necessariamente” (LACAN, 1967-68, aula de 28/02/1968).17 Pode um analisante suportar um “É assim”, “É isso!” que sublinha no fato mesmo da repetição, a função da letra, que enquanto furo permite alguns clarões, uma furada do sentido e de seus constrangimentos? O fato da repetição permite topar com a possibilidade do ato. Em todo caso o analista não pode não se fazer o suporte disso. Quanto a mim, se proponho à psicanálise a carta como retida [a letra como em sofrimento / la lettre comme en souffrance], é porque nisso ela mostra seu fracasso. E é deste modo que a ilumina: quando invoco assim as Luzes, é por demonstrar onde ela faz furo. Já se sabe há muito: nada é mais importante na óptica, e a mais recente física do fóton mune-se disso. (LACAN, 1971/2003, p. 17). 18 A psicanálise esbarra na beira do furo, mas é aí mesmo que a letra pode disparar a sua pirueta e produzir uma reviravolta “There’s a crack in everything, that’s how the light gets in” (COHEN, s.d.).

O equívoco “É na medida em que nossa interpretação liga (lê), de uma outra forma, uma cadeia que é uma cadeia de articulação significante, que ela funciona” (LACAN, 1967-69, aula de 29/11/1967),19 dizia já Lacan no seminário sobre o Ato, equivocando com o verbo ler (lire/ elle lit) e o verbo ligar (lier/ elle lie). Mais do que ler e decifrar, a interpretação equívoca liga de outra forma; é essa a sua poesia, mas é, sobretudo, sua função de nó que está em jogo; ao ler as coisas de outro modo, ela as liga forçosamente de uma outra forma, muitas vezes inaudita. Feita como o sintoma, com a mesma moterialidade, um nó de significante, ela pode desfazer sua consistência. Como um lapso, ela pode denunciar sua ausência de sentido e o reduzir à sua letra. Como o chiste, ela pode ter efeito desopilante, isto é, que muda o afeto.

16 “L’homme tragique, saisi par le destin qui n’est que la logique.” 17 “[…] à savoir la marque première qui ne saurait se redoubler et qui glisse nécessairement […].” 18 “[...] Pour moi si je propose à la psychanalyse la lettre comme en souffrance, c’est qu’elle y montre son échec. Et c’est par là que je l’éclaire: quand j’invoque ainsi les lumières, c’est de démontrer où elle fait trou. On le sait depuis longtemps: rien de plus important en optique, et la plus récente physique du photon s’en arme [...].” 19 “[...] C’est dans la mesure où notre interprétation lie (lit) d’une autre façon une chaîne qui est une chaîne d’articulation signifiante, qu’elle fonctionne [...].”

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4. A responsabilidade do dizer e o uso da letra A responsabilidade do dizer é a resposta de uma análise ao Dizer que enoda a letra ao sujeito: é pelas suas sequências que se julga o ato. Ser respondedor, e responder pelo real, é a resposta que se pode apostar para um analisante que, a partir de então, se nomearia passante. É pelas suas condutas que se confirmará então sua resposta/responsabilidade ética, na medida da lógica e da poética à qual uma resposta de analista o terá levado. Assim sendo, não podemos desejar-lhe senão: Bons ventos!, isto é, Boa hora!,(NT 2) e que, então, ele faça um bom uso da letra. A letra chega ao seu destino quando ela não quer dizer mais nada, quando ela perdeu seu valor de troca, de mensagem, e que ela só retém seu valor de uso, “um não-sei-o-quê e um quase nada” que faz fixão,(NT 3) que “retém o corpo invisivelmente”. É só então que se pode fazer uso dela para qualquer outra coisa (“a prática da letra”), outra coisa que não reiterar o romance do qual pode enfim desconectar-se (se désabonner), descolar-se. E então com isso, pode “ainda”, de novo, (en-corps-encore) fazer laço e, por que não, fazer amor.

NT2 Em francês Bon Heure!, que equivoca a palavra bonheur [felicidade] e a expressão bon heur [boa hora] em francês. NT3 Tradução de fixion, neologismo forjado por Lacan (ver “L’Étourdit” In: Autres Écrits. Paris: Seuil, 2001, p. 483), que produz um equívoco entre ficção e fixação.

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Resposta a uma letra em instância

referências bibliográficas BIDENT, C. Joyce enfin libre sur scène. Magazine Littéraire. Paris: Sophie Publications, n. 515, jan., 2012. COHEN, L. Anthem. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=_e39UmEnqY8>. Acesso em: 02 jun. 2013. HUGO, V. (1872). L’année terrible. Paris: Gallimard, 1985. LACAN, J. (1953). Função e Campo da fala e da linguagem em psicanálise. In: Escritos.Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Edirtor, 1998, p. 238-324. __________. (1957). A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud. In: Escritos. Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, p. 496-536. __________. (1966). O seminário sobre A Carta Roubada. In: Escritos. Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, p. 13-68. __________. (1967-1968). Le Séminaire, livre 15 : L’Acte analytique. Inédito. __________. (1970). Radiofonia. In: Outros escritos. Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003, p. 400-447. __________. (1971). Lituraterra. In: Outros escritos. Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003, p. 15-28. __________. (1971-72). O Seminário, livro 19: ...ou pior. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2012. __________. (1972). O aturdito. In: Outros escritos. Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003, p. 448-497. __________. (1973). Introdução à edição alemã de um primeiro volume dos Escritos. In: Outros escritos. Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003, p. 550-556. __________. (1973a). Posfácio ao Seminário 11. In: Outros escritos. Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003, p. 503-507. __________. (1973-1974). Le Séminaire, livre 21: Les non-dupes errent. Inédito. __________. (1975). Yale University, Kanzer Seminar. Scilicet. Paris: Éditions Du Seuil, n. 6/7, 1975, pp.7-31. __________. (1976-1977). Le Séminaire, livre 24: L’insu que sait de l’une-bévue s’aile a mourre. Inédito. SOLER, C. La Répétition (Cours de 2009-2010). Paris: TREFLE, 2010.

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resumo

A autora, usando o equívoco do duplo significado de lettre, em francês: letra e carta, parte da letra em instância, como aquela que não encontra resposta no Outro. A letra-carta roubada, em sofrimento, a carta que não chega, em suspensão, causa, faz furo-trauma, sintoma que se inscreve na carne do sujeito. É esta a marca de origem de um sujeito, uma cristalização material e singular. Mas, a carta-letra, escrito, sem resposta sempre alcança, atinge, toca seu destino. O impacto deste alcance não é o sentido, mas o gozo. O sujeito seria uma resposta à letra, o Um sem o Outro, argumento da função sintoma. Entra-se, encontra-se, incidentalmente, no Real, onde não há relação. Perceber-se só faz marca. É o Dizer, que lê a letra como seu sintoma, que inaugura o falasser, a ex-sistência. O “gozo opaco“ denunciado, no a posteriori, pela letra, pode ser renuncido, emergindo daí a fantasia. O falasser escreve seu romance a partir da sequência: furo – letra – fala – escrito. Sofrimento, sintoma e verdade, cuja repetição o sujeito faz ser o seu destino. O analista responde à demanda de interpretação com o Dizer que não, quando produz o corte do sentido, suspendendo o que o dito tem de verdadeiro. O Dizer apofântico levaria a repetição para além, com o furo da letra, uma furada do sentido, de seus contrangimentos, a possibilidade do ato. Quanto a responder com equívoco, é como responder com poesia, já que liga-se de outra forma, inaudita, à cadeia significante. A matéria do sintoma, significante, pode assim perder consistência. A responsabilidade do dizer é a resposta do Dizer que enoda a letra ao sujeito. Um analisante passante responde pelo real. A letra chega a seu destino quando não quer dizer mais nada, o que permite fazer uso dela para outra coisa.

palavras-chave

Letra, interpretação, dizer que não, dizer apofântico, equívoco.

abstract

The author, using the misconception of the double meaning of lettre in French: letter and correspondence, starts from the instance of the letter, as that which finds no response in Other. The purloined letter-correspondence, in suffering, the letter that does not arrive, in suspension, that causes, makes a crack-trauma symptom that is written into the meat of the subject. This is the original mark of a subject, a material crystallization and unique. But the letter-correspondence, written, unanswered, always reaches, achieves, touches your destination. The impact of this reach is not the end, sense but the enjoyment. The subject could be a response to the letter, the One Without the Other, argument of symptom’s function. Comes into the Real, incidentally, where there is no relationship. perceiving it only makes a mark. Is The Saying that read the

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letter as it symptom, which inaugurates the speaking being, the ex-sistence. The “opaque enjoyment” denounced in subsequent, by the letter, renounced, hence emerging the fantasy. The speaking being writes his novel from the sequence: crack – letter – speech – written. Suffering, symptom and truth, whose repetition the subject makes it your destination. The analyst responds to the demand for interpretation with The Saying that no when the court makes the loss of sense, suspending the true. The apophantic Saying would lead the repetition beyond, with the crack letter reach a hollowed meaning, achieve the possibility of the act. How to respond with misunderstanding, is how to respond with poetry, as it turns otherwise, unheard, the significant chain. The matter of the symptom, significant, may thereby lose consistency. The responsibility of saying is the response of the Saying that makes node between the subject and the letter. An passing analysand responds by the real. The letter reaches its destination when does not mean anything, which allows to use it for something else.

keywords

Letter, interpretation, saying that no, apophantic saying, misconception.

recebido 29/01/2013

aprovado 20/02/2013

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O que responde o psicanalista? Marc Strauss É isso! Como não há psicanalista sem a psicanálise, é preciso dizer, de início, o que diz a psicanálise. Eu proponho: “Estrutura sobre o fundo de um troumatismemotériel.”(NT1) Logo, temos três asserções: 1. Estrutura implica que há decifrável. 2. Estrutura implica também que há algo impossível, que faz disso o real traumático dedutível logicamente. 3. À estrutura e sua lógica de trouma acrescenta-se o real da moterialidade, que é apreensível no campo da realidade. Acrescentemos que essa apreensão na realidade, contrariamente àquela do impossível, é por definição impossível de demonstrar logicamente e só pode ser verificada caso por caso. O que diz, então, na prática, o psicanalista, esse interlocutor que se apresenta em nome do saber da psicanálise? Digamos que seu recurso “ao que vier” é: “Ao deciframento!”. Enfim, o que responde o psicanalista àquele que quer desvendar seu saber insabido, cifrado e consequentemente fixado? Ele responde em ato, acompanha e guia o deciframento; suas pontuações desfazem as fixações. A fixação proporciona uma satisfação fantasmática que repousa sobre o valor ilusório de um sentido último possível. A fantasia vale, então, como metalinguagem da realidade. Ela visa assegurar ao sujeito um lugar no Outro. Assegurando a identificação no e para o Outro, a fantasia é cobertura e, logo, obstáculo à revelação do impossível. Mas ela é também, por esse meio, a via de acesso à sua travessia... e a seu avesso, que não quer dizer que ela tem um além. O psicanalista demonstra ao psicanalisante o impasse da metalinguagem fantasmática. Ele não afirma a seu paciente que não há metalinguagem, senão a operação tenderia a uma medição de forças, mas o faz apreender para o sujeito pelo equívoco que a interpretação introduz nos sentidos fixados. Pelo equívoco, o psicanalista lança mão da castração ao mesmo tempo em que faz aparecer a dimensão irredutível da linguagem, sua motérialidade. NT1 Neologismo de Lacan que equivoca as palavras francesas trou [furo] e traumatisme [traumatismo], e mot [palavra] e matériel [material].

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Strauss, Marc

Revela-se, assim, ao sujeito, que seu ser de representação é falta, e que seu ser de gozo, que a essa representação ex-siste, procede de seu corpo. Mais simplesmente: no registro do sentido não há última palavra nem verdade última e, menos ainda, a revelação do sentido da vida. Há, porém, para Lacan, ao longo de seu ensino, um fim à experiência analítica cujas formulações variaram, mas que sempre significam uma conclusão sobre um ponto de saber assegurado. Nós podemos resumir esse ponto: “É isso!”. Nós sabemos as declinações que Lacan propôs sobre a máxima freudiana: “Lá onde estava o Isso, Eu devo advir”. Porém, a experiência de mentira inevitável do sentido não autoriza em nada a concluir que a via não tenha sentido, como precisa Lacan no fim do texto A direção da cura, mas mostra, ao contrário, que “o desejo é carregado pela morte”.

Nada Portanto, há, ainda assim, uma última palavra que Lacan dá também. No fim da passagem citada ele fala da obra de Freud, “das dimensões do ser”, e àquela que a morte “veio apor a palavra Nada”(NT2) ... Nada, e não como o uso poderia nos fazer antecipar a palavra “Fim”. Como no cinema, por exemplo, ainda que a tela de fim tenha desaparecido ultimamente, para ser substituída por ... nada. Aliás, desde quando há essa mudança? Mas a história do cinema, por mais apaixonante que seja, não nos dispensa de questionar esse termo Nada, que diz algo bem diferente que nada. Que diz ele? Notemos, primeiramente, que não ter nada a dizer é uma experiência da vida cotidiana, mas a encontramos também no divã. No divã o paciente o diz ... Assim, na medida que seus ditos lhes escapam, ele demonstra ser sempre animado por um dizer ... o que não é pouco.(NT3) Qual é esse não-nada, chave do Nada do fim?

Experimentum mentis Para responder a essa questão, façamos uma pequena experiência mental, experimentum mentis, de Galileu, a partir de um caso. Partamos das últimas palavras pronunciadas por um pai a seu filho no leito de morte, o qual as trouxe para o divã: “Sabe, meu filho, o que está me faltando é uma mulher para ralhar”. A frase é impressionante por seu peso de verdade última. A vida desse homem teria sido, então, regrada por essa única necessidade? É, ao mesmo tempo admiráNT2 Conforme traduzido de Outros Escritos (p. 649). NT3 No original, “ce qui n’est pas rien”[não nada].

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O que responde o psicanalista ?

vel, por sua inflexível simplicidade, e patética, por sua insondável miséria. Agora, façamos nossa experiência mental mudando um pouco as coordenadas: Imaginemos que a morte bateu à porta alguns segundos antes. A fixação do sentido teria, então, sido completamente outra. O pai poderia só ter tido tempo de dizer: “Sabe, o que está me faltando é ...”. O filho teria, então, ficado na ignorância dessa falta. Ele poderia, assim, ter confortado seu sonho de que a revelação paterna poderia ser-lhe um modelo, ao passo que com a frase completa o sujeito é remetido à sua divisão de sempre, entre um estupor admirado e um escárnio penalizado. Para ser claro: “Que homem!” ao mesmo tempo que “Coitado!”. Não desenvolvamos as outras escansões que a morte poderia ter operado: deixar ao pai o tempo de proferir a primeira sílaba da última palavra: “O que está me faltando é uma mulher para ra...”. Ou então: “O que está me faltando é uma mulher ...”, o que teria imediatamente nos remetido à mãe envolvendo em seus braços a criança morta e, consequentemente, ao mito universal da terra-mãe que ilustra, para Freud, a pulsão de morte, em particular no seu texto “O tema dos três escrínios”. Nossa experiência mental produziu então, segundo os diversos casos, experiências e histórias bem diferentes. Porém, notemos que qualquer que seja o fim, mesmo no caso preciso em que o pai teve tempo de terminar a frase, o que ele diz é totalmente inútil para o filho. Que o pai se revele ridículo ou que ele continue a autorizar imaginá-lo como admirável, aquilo que ele diz não responde à questão do sujeito. Sim, o pai fez do outro sexo seu combate, um combate verbal, mas por quê? O que esperaria ele ganhar com esse combate, qual era a aposta nisso?

Dizer A psicanálise nos ensina que essa aposta é a mesma que ele havia feito ao dizer suas últimas palavras ao filho: falar a alguém. Não para não dizer nada, mas, ao contrário, para suscitar junto ao interlocutor escolhido a resposta esperada, necessária, que viria confirmar ao sujeito sua existência. Que esse interlocutor seja o Outro sexo ou o filho mostra bem que o lugar onde se coloca essa questão da existência é o próprio lugar onde não há relação, mas puro laço de fala. O que importa nessa frase, em última instância, é que até o fim o pai tenha podido encontrar um interlocutor para si, junto a quem ele se faz ouvir, ainda ... Em outras palavras, desde que ele esteja vivo, ele fala, logo, ele combate, menos a morte do que a impossibilidade de chegar, por seus ditos, ao fim daquilo que há a dizer – e que é sua vida de corpo afetado pela alíngua, na singularidade de sua existência.

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Strauss, Marc

Não é necessário, portanto, estar a ponto de morrer para ser animado por esse dizer e pela necessidade de lhe achar um endereçamento e uma forma articulada nos ditos. E o que quer dizer esse dizer? Nada, a não ser o desejo de se fazer reconhecer como homem, como falasser pelo outro a quem se endereça. E para isso é preciso, maldita necessidade, que o falasser se vista com os farrapos de um sexo; sexo pesado neste caso e, sobretudo, sendo secundário aos olhos da questão da existência. Assim, encontrar um interlocutor para si é suficiente para fazer a prova de sua existência pelo dizer que a própria existência desse interlocutor verifica. “Ele responde, logo eu disse, logo eu sou” poderia ser uma formulação do cogito lacaniano. É claro, para que o diálogo prossiga, há a necessidade de respeitar certos aspectos aos olhos da verossimilhança, que é comandada pelo mais-de-gozar da fantasia; mas, de fato, esse cogito é jogado aquém e procede, ao contrário dos mais-de-gozar, de um nada-de-sentido; ou então, ele só tem um, de sentido, o mesmo para os dois parceiros: se sustentar pelo seu gozo de existir, seu gozo de falasser.

Nada de sentido Porém, é necessário darmos, para concluir, um passo a mais. Com efeito, o nada-de-sentido no posto de comando não está reservado ao discurso analítico. É o caso também do discurso do mestre, em que o significante Unário se define, também, por não ter um sentido que justifique seu lugar. O mestre não faz semblante de saber, ele ocupa seu lugar e isso é suficiente. E se isso não é mais suficiente aos escravos, ele pode sempre se fazer ajudar pelos filósofos para mobilizar um saber que o justificará – do lado do comando, disse Lacan. Nós podemos sublinhar a homologia entre essa posição de mestre com “O que se sabe, consigo”(NT4) que assegura para Lacan o fato que se está no inconsciente – no texto Prefácio à Edição inglesa do Seminário 11. O ponto de chegada do discurso analítico seria, então, um retorno ao discurso do mestre? Por que não ... mas é um mestre bem subvertido. Com efeito, o discurso do mestre comanda necessariamente ao corpo de um outro, ao passo que, no discurso analítico é o“si”(NT5) que se ignora, que comanda pelo dizer ao sujeito que não pode nada contradizer ali. Esse “si” é, portanto, para um sujeito, o enigma que permanece para ele mesmo; enigma que nos recorda Lacan é cúmulo do saber. Assim, o analisante e o analista são ambos dois irmãos no discurso como o diz Lacan no fim da última lição de ...ou pior. Com a condição, para não cair noNT4 Conforme traduzido de Outros Escritos (p. 567). No original: “On le sait, soi”. NT5 “Soi” da expressão “On le sait, soi”.

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O que responde o psicanalista ?

vamente nos bons sentimentos, de precisar que esses irmãos não têm pai, pois o discurso, se ele carrega a função de nomeação, não tem ele mesmo um pai. O que responde, enfim, o analista ao sujeito que pode escutá-lo, sem que não seja mais necessário lhe dizer? Ele responde: “Sim, é isso, você falou”. Até o momento em que o sujeito se toca da inutilidade de continuar a fazê-lo no divã e se propõe, eventualmente, a tentar fazer dizer qualquer coisa a esse saber adquirido, tentando transmiti-lo pela experiência que dá acesso a ele. Tradução de Rita Bícego Vogelaar Revisão: Conrado Ramos e Ida Freitas

referências bibliográficas FREUD, S. (1913). O tema dos três escrínios. Rio de Janeiro: Imago, 1987. (Edição Standart Brasileira das Obras completas de S. Freud, v. XII, p. 305-315.) LACAN, J. (1958). A direção do Tratamento e os princípios de seu poder. In: Escritos. Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998, p. 591-652. _________. (1976). Prefácio à edição inglesa do Seminário 11. In: Outros escritos. Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998, p. 591-652.

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Strauss, Marc

resumo

O artigo traz uma articulação entre a lógica da interpretação e o final de análise. No início do artigo o autor levanta a questão: “O que responde o psicanalista àquele que quer desvendar seu saber insabido, cifrado e consequentemente fixado?”. E, após um criterioso desenvolvimento o autor propõe: “O analista responde: Sim, é isso, você falou. (...) até o momento em que o sujeito se toca da inutilidade de continuar a fazê-lo no divã e se propõe, eventualmente, a tentar fazer dizer qualquer coisa a esse saber adquirido, tentando transmiti-lo pela experiência que dá acesso a ele”.

palavras-chave

Interpretação, direção do tratamento, fantasia.

abstract

The author departs from a discussion about the experience of the pass to question what enables the analyzed to make a choice at the end of the analysis. In contrast, he presents the symptom at the beginning of the analysis as the aspect which shows in the neurotic the impossibility of making this choice: the symptom is the conflict that takes the place of a choice. The experience of the analysis will then consist in making the symptom talk, denouncing its lying truth, its divided jouissance. The analytical interpretation is liberating, once it operates on the division of the subject, permitting another style of satisfaction other than the division. The symptom, through interpretation, is taken to the point of an impossible ability to decompose, which will remain to the individual as a know how. To exemplify this know how, the author revisits the experience of an artistic creation and some coordinates of the end of the analysis that were extracted from the narrative of a school analyst.

keywords

Interpretation, direction of treatment, fantasy.

recebido 29/01/2013

aprovado 10/03/2013

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entrevista


Entrevista com Maria Anita Carneiro Ribeiro por Luis Achilles Rodrigues Furtado Psicanálise, autismo e saúde pública Às vésperas do aniversário de setenta anos do artigo de Leo Kanner, no qual foi apresentada a categoria nosográfica do autismo e iniciada uma polêmica que reedita questões antigas para a humanidade, vários psicanalistas foram tomados, de súbito, com propostas políticas e institucionais que excluem a contribuição de seu trabalho, especialmente com sujeitos autistas. Além de o autismo ter sido escolhido, na França, como a causa nacional de 2012, houve uma grande confusão envolvendo a produção de um documentário no qual testemunhos de psicanalistas foram recortados de forma tendenciosa pela produção do filme para desacreditar a psicanálise em relação ao seu tratamento. No mesmo sentido, aqui no Brasil, no estado de São Paulo, para a surpresa de alguns, no dia quatro de setembro de 2012, o Diário Oficial do Estado de São Paulo publica a Convocação Pública 001/2012. Tal documento trata de um “Edital de Convocação para Credenciamento de Instituições Especializadas em Atendimento a Pacientes com Transtorno do Espectro Autista (TEA), para Eventual Celebração de Contrato Ou Convênio”. Todavia, os critérios deste Edital determinam que sejam apenas instituições que trabalhem com abordagem cognitivo-comportamental, bem como os dois profissionais de psicologia que trabalharão neste convênio devem se comprometer a utilizar este método determinado pelo documento. Estes fatos, por sua vez, propiciaram o início de um intenso debate entre os especialistas que trabalham com psicanálise, autismo e psicoses infantis, e na EPFCL surgiu a ideia de uma entrevista com alguém que fosse reconhecido pelo seu trabalho e experiência. Não tardou para que a sugestão do nome de Maria Anita Carneiro Ribeiro surgisse. Numa tarde quente de sábado, logo após o carnaval, no Jardim Botânico, tive o privilégio de realizar esta entrevista. As dificuldades de traduzir para a linguagem escrita as ênfases do estilo de Maria Anita foram minimizadas pelos recursos gráficos das fontes em negrito e itálico. Assim, quando o leitor se deparar com essas palavras escritas dessa forma, tente “ouvir” a entrevistada colocando ênfase na sua voz ou pronúncia.

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A dificuldade com a voz, devido a um recente resfriado, não foi suficiente para impedir a força das palavras, seu vigor, estilo e rigor. Numa entrevista que toca também em assuntos como internação compulsória e eutanásia, a psicanalista permite a todos nós um olhar mais humilde sobre os limites de nosso trabalho, sua importância e sua ética. A ética do sujeito. A ética do um a um, do caso a caso. Ao chamar a atenção para que os psicanalistas não se amedrontem com as acusações que lhes são atribuídas, Maria Anita Carneiro Ribeiro me fez lembrar a advertência de Freud a Jung em seu texto Psicologia das Massas e Análise do Eu: “Primeiro cede-se nas palavras para, logo, ceder com as coisas”. Em nome da Equipe de Publicação da Stylus Revista de Psicanálise, agradeço a Maria Anita pela entrevista. Luis Achilles: Diante de tantas opiniões, como você pensa o autismo ou os autismos? Maria Anita: Eu ainda não entendi por que colocar no plural, quer dizer, a ideia de falar “do autismo” no plural. Eu acho que, pelo que eu entendo, né?, deriva desse entendimento que faz com que alguns psiquiatras defendam o fato de que existem vários graus de autismo. Em última instância, eu acho que um dos autistas mais graves que eu conheço seria eu, porque, pelo jeito que eu andei lendo numas revistas dessas aí de como avaliar seu grau de autismo, eu sou autista direto. Tá entendendo? De internar ontem. Ou seja, nesse sentido aí que eles falam de autismos... Quer dizer, na verdade não tem por que falar de “autismos”. Existe uma síndrome que foi detectada por Kanner, foi classificada por Kanner, como uma eclosão muito primitiva da esquizofrenia. Isso, na época que ele descobriu o autismo era assim considerada, e depois, com o andar do tempo, ele foi mudando de opinião de acordo com, digamos assim, as correntes dominantes do pensamento psiquiátrico norte-americano. Ele foi se adaptando até terminar no autismo como uma síndrome completamente contrária ao que ele dizia da primeira vez, certo? Então, existia esse autismo e existe o quadro descoberto por Asperger, que é o mesmo autismo, porém, com uma variação muito interessante e que convém demais ao discurso capitalista, que são pessoas de alta performance. Alta performance quer dizer o quê? Quer dizer que são pessoas que podem executar determinadas tarefas ou determinados cálculos, mas com o mesmo grau de sofrimento, com o mesmo grau de alienação, no sentido político da palavra e não no sentido lacaniano, né? Ou seja, o mesmo grau de distanciamento da realidade. Luis Achilles: Há doze anos você foi responsável pela importante publicação da revista Marraio, que tinha como título “Autismo, o último véu”. Que mudanças ocorreram no que tange à psicanálise, de lá para cá? O que você sublinharia nesta década? Maria Anita: Olha, eu acho que as grandes mudanças não foram, não ocorre-

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ram na psicanálise; eu acho que ocorreram no mundo, não é? E, principalmente, com a banalização do uso do computador. Porque nós sabemos, desde o estudo clássico, do caso Joey, de Bettelheim, que os autistas, que frequentemente não falam com outros seres humanos, falam com máquinas. Então, se pode ver, a popularização do computador fez com que autistas que não se ligavam a ninguém, através das máquinas falassem sozinhos ou escrevessem textos etc. Eu acho uma ironia louca chamar “rede social de autista”, autista não faz rede social. Eles falam sozinhos, mas eles falam sozinhos e acessam outros, outras pessoas que também falam sozinhas. Eles falam com a máquina, então isso trouxe outro entendimento bem mais interessante sobre a realidade dessas pessoas que se recusam a se comunicar através da palavra, se recusam a se ligar com os outros. Então, acho que a grande diferença foi isso, porque na verdade, a psicanálise não se modificou em relação a isso. O que eu sinto, inclusive eu senti... Então, eu acho que o que há, na verdade, não é uma mudança da teoria psicanalítica em relação aos autistas; e sim, talvez um excesso de cautela que os analistas estão tomando diante da pressão dos movimentos sociais encabeçados por psiquiatras organicistas e por mães e pais de autistas que acusam a psicanálise de culpar as famílias pelos casos de autismo. Isso eu acho uma coisa completamente, louca porque a primeira pessoa a atribuir a responsabilidade dos casos de autismo às mães foi Kanner. Kanner por quê? Porque deu um erro de amostragem na pesquisa dele, ele lançou uma conclamação numa revista médica pedindo às pessoas que tivessem casos de crianças com aquele tipo de comportamento que o procurassem para auxiliar na pesquisa; e, evidentemente, ele foi procurar somente por mães e pais médicos, e daí ele deduziu que todos os autistas eram filhos de pessoas que eram muito intelectuais, distanciadas, as mães eram muito ocupadas com a carreira, numa época em que a mulher raramente trabalhava fora de casa. É claro! Só as pobres coitadas médicas é que liam aquela revista. E isso causou uma primeira onda de culpabilização, mas não foi da psicanálise, foi de Kanner, psiquiatra! E em seguida teve o famoso livro do Bettelheim, “A fortaleza vazia”, foi o caso Joe que eu já citei; o menino que falava com a máquina, ou que criou o mecanismo de poder se comunicar com o mundo através da máquina, como os autistas de hoje estão usando o computador, né? E o Bettelheim realmente carregava uma culpabilização às mães. Mas é porque o Bettelheim, nós sabemos hoje, era uma pessoa profundamente comprometida; ele era egresso dos campos de concentração embora um homem genial que prestava serviços fantásticos à psicanálise e à psiquiatria. Ele terminou por se matar, por ser um homem muito conflituado. Então, não vamos chamar Kanner de psicanálise nem Bettelheim de psicanálise, pelo amor de Deus! O que os analistas fazem ­– e eu acho que deveriam continuar a fazer, apesar da pressão da opinião pública­–­­­é admitir que autistas têm pai e mãe, tanto quanto neuróticos

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e outros psicóticos. Ou seja, todas as pessoas do mundo têm pai e mãe. E o pai e a mãe têm alguma coisa a ver com a condição daquela pessoa, tá? E é assim que as coisas ocorrem. Não foi Freud quem descobriu isso não. Desde sempre, desde que existe a família nuclear, pai e mãe têm a ver com o que acontece com os filhos. É cego de nascença? Claro! Os pais têm alguma coisa a ver com isso. Como é que vai educar? Vai instruir? Vai trancar dentro de casa? Vai superproteger? Os pais têm a ver com isso. Não é porque a cegueira é deliberadamente causada pelos pais. Claro que não! Agora, eles vão ter que responder o que eles vão fazer com isso. Então não se trata de dizer: “O autismo foi causado pelos pais”, até porque a gente sabe que a partir de Freud, com a causalidade psíquica, causa e efeito não é de behaviorismo. Então, essas pessoas que entram nessa cruzada “Antipsicanálise” estão pensando o quê? Que causalidade psíquica é dar choque em bunda de rato, como Pavlov fazia? Não! Causalidade psíquica é da ordem de uma transmissão inconsciente que necessita de pelo menos três gerações. Isso é Lacan no Discurso de Encerramento da Jornada sobre as Psicoses na Infância. Então, eu acho que o que ocorre, basicamente, não é uma mudança séria na psicanálise; eu acho que o que ocorre é uma pressão muito forte que faz parte de uma vertente muito desagradável do discurso capitalista, que é o seguinte: que é as pessoas se recusarem a assumir a responsabilidade sobre sua vida, não é? Então, o modo do discurso contemporâneo é: “Tome um remédio”, “Está triste? É depressão. Tome um remédio.”, “Sua mãe morreu? É depressão. Tome o remédio!”. Está entendendo? Tem um programa de televisão, uma série americana, eu acho que as séries americanas são muito o espírito da época, é uma série cômica com um ator conhecido e chama-se “Go on”. Traduzindo livremente, porque é uma expressão idiomática, é “vai em frente”. E é sobre o grupo de autoajuda de pessoas enlutadas, pessoas que perderam entes queridos e estão frequentando um grupo de autoajuda. Isso é um problema cômico!? Porque “se você ficar triste quando perde alguma coisa, você é um panaca, e, portanto as pessoas vão rir de você, porque as pessoas tristes, veja bem, enlutadas, são idiotas, são ridículas, tá?”. Então, o que se espera é que elas façam muitas palhaçadas. Quem dirige o grupo não é nem um psicólogo, porque psicólogo é gente séria, que estuda. E sim, uma moça muito bonitinha que trabalha num guichê de uma revendedora de automóveis. Porque para atender enlutados basta qualquer idiota, ou seja, a ideia é a seguinte: “pessoas tristes são loucas, são imbecis ou são doidas”. Não importa a causa da tristeza, a tristeza é intolerável. Então, como tolerar pessoas que não se ligam, não fazem laço social? Inventando que elas fazem laço social pelo computador, inventando uma série de loucuras e, principalmente, inventando porta-vozes dessas pessoas. Porque o problema não são os autistas, o problema são os porta-vozes. Esses é que são a barra pesada.

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Luis Achilles: De que maneira a psicanálise estaria sendo questionada atualmente pelos problemas do autismo? Por que, entre os lacanianos, também não há consenso? Maria Anita: Bom, eu acho que não há consenso entre os lacanianos por uma questão histórica. O fato de que Rosine Lefort, uma grande psicanalista que a vida inteira foi assessorada pelo marido dela, Robert Lefort – a tal ponto que eles sempre assinaram juntos os textos. Rosine Lefort publica o texto sobre o caso da Marie Françoise, muito cedo, e as referências dela eram o que ela entendia da psicanálise de uma criança autista. Lacan veio a falar do autismo algum tempo depois. E Lacan se baseava estritamente no talento dele como psicanalista, no conhecimento dele da psicanálise. Porque Freud não teve conhecimento do autismo. O autismo infantil precoce é de 1943, Freud já estava morto. Tinha morrido em 1939. Então, a grande contribuição freudiana para o autismo é o nome autismo, e que não é do Kanner, é do Bleuler e que tirou de Freud, do autoerotismo; tirou o Eros do autoerotismo e deixou só a pulsão de morte na palavra autismo. Porém, Freud nada mais fez do que ser usado, não é? Lacan não. Lacan já tem alguns trechos, algumas passagens em que ele fala do autismo. Na Conferência de Genebra e notadamente nas Conferências Norte-Americanas, em que ele coloca a questão do autista diretamente ligada à relação do sujeito com a linguagem. São pessoas que levam as palavras muito a sério. Tão a sério, que não se atrevem a falar. Mas não são pessoas que não têm relação com a linguagem. Têm uma relação com a linguagem da ordem do Real. E Rosine Lefort apresenta o caso de Robert, o menino lobo, igual com o primeiro seminário de Lacan. Ela apresenta como um possível caso de autismo, porque é logo em seguida à apresentação e discussão do caso Dick, de Melaine Klein, que é um caso de autismo; logo em seguida vem a apresentação de Rosine Lefort com o caso Robert. Mas Robert, os próprios autores se dão conta de que uma vez que Robert sai da crise mais selvagem dele, o que aparece é o paranoico, igual ao presidente Schreber. Eles têm um livro muito bonito, você conhece? (pergunta ao entrevistador), Luis Achilles: O Nascimento do Outro? Maria Anita: Um livro em francês todo sobre o caso Robert... Eu teria que ver o título exato, mas é comparando o Robert, o menino lobo, com o caso do presidente Schreber, interessantíssimo. Luis Achilles: Conheço La Distinction de l’autisme, que é posterior ao O Nascimento do Outro, onde eles vão reafirmar a estrutura do autismo... Maria Anita: Exatamente. O autismo como uma a–estrutura, ou seja, como um cara ainda fora da estrutura, é assim a posição de Rosine e Robert Lefort. É: autismo a–estrutura. Que é uma posição desenvolvimentista, não é uma posição lacaniana. Mas eu sei que tem muitos lacanianos que seguem isso. Agora a posi-

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ção de Lacan é muito clara. Ele tem um momento na Conferência de Genebra em que ele diz – é na parte das perguntas –, as pessoas fazem uma porção de perguntas para ele, principalmente sobre o autismo e os fenômenos psicossomáticos, e ele vai respondendo, não é? E tem um momento em que a pessoa pergunta alguma coisa sobre o autismo e ele diz assim: “É preciso notar que os autistas, ou os ditos esquizofrênicos...”. Ou seja, ele coloca o autista como esquizofrênico, como Melanie Klein colocava. Como Leo Kanner colocava no início, antes de se tornar completamente “gagá” etc., etc... Como Pierre Bruno coloca. Ou seja, como todas as pessoas que têm uma experiência direta com o autismo colocam. Tá? Eu tive uma experiência direta com autismo, recebi durante muitos anos crianças autistas. Ultimamente é que eu não recebo, porque nenhum pai ou mãe de crianças autistas procura a psicanálise, porque a o orientação é: “Vai para o psiquiatra”, ou “vai para TCC”, ou “vai pra não sei onde”. Agora, tive muitos autistas em tratamento com relativo sucesso, diria. Bastante sucesso até, e curiosamente os maiores aliados do tratamento sempre foram as mães. Até hoje eu recebo presentes de Natal, cartõezinhos, coisas bonitinhas das mães dos meus ex-pacientes autistas. Só que eles já se perderam aí pelo mundo; em dez anos se tornaram mulheres, homens, grandes, mas eu recebo cartãozinho, presente e tudo mais. Por quê? Elas se sentiam culpadas? Claro que se sentiam culpadas! Agora, a gente se sente culpado, vamos ser honestos? A gente se sente culpado se o filho tropeça e cai e rala o joelho. Qualquer mãe se sente culpada, tá? Se ele não vai bem na prova, se ele não é a criança mais bonita do mundo, que pra gente é, né? E como é que não vai se sentir culpado? Quem é que diz que alguém não se sente culpado quando você diz: “é uma doença genética”?. Claro que você se sente culpado! Você se sente culpado de tudo! Porque pai e mãe se sentem culpados com qualquer negócio que aconteça com os filhos. Então, essa ideia, ideologia da “des-cul-pa-bi-li-za-ção”, que é uma ideologia bem de negação do sujeito, porque o sujeito freudiano é o sujeito culpado. Culpado, porque ele é edipiano, e culpado porque tem Inconsciente. E o Inconsciente é infantil, incestuoso, perverso-polimorfo. Então, ele é culpado. Agora, essa ideologia de “desculpabilizar” as pessoas é a ideologia de negar a subjetividade. “Você é uma máquina, movida pelos seus hormônios, pelos seus neuro-hormônios, sei lá por que diabo..., te entope de remédios, segue em frente e não pensa muito na vida.” É isso. Ter um filho autista implica você pensar na vida. É isso. Luis Achilles: Há dois anos, o autismo foi objeto de um programa numa grande emissora de televisão brasileira, no qual um famoso neurologista especialista no assunto utilizou a expressão “A mentira psicanalítica”, referindo-se à culpabilização dos pais. Sabemos, no entanto, que os psicanalistas são grandes responsáveis por dar as palavras aos pais e aos autistas que lhes procuram. O que você acha

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desse movimento que existe há quase trinta anos em que várias pessoas diagnosticadas com autismo começaram a publicar suas histórias? Maria Anita: Em primeiro lugar, grandes neurologistas ou grandes psiquiatras ou grandes alguma coisa não têm tempo de ir para a televisão “descer o sarrafo” em outra profissão. Grandes neurologistas, na verdade, estão cuidando de suas pesquisas neurológicas, fazendo seu trabalho bonito, bacana, e por isso eles são grandes. Um panaca que aparece num programa de televisão e gasta o tempo “descendo o sarrafo” na psicanálise, é porque a psicanálise é importante demais pra ele. Então, ele não é grande em nada, a não ser um grande tolo que não está sacando que quando a gente “desce o sarrafo” em alguma coisa é porque é muito importante para a gente, não é? E como eu disse logo no início, na primeira pergunta, o panorama em relação ao autismo mudou muito com o computador, porque os autistas falam de fato com as máquinas. Agora, o problema não é porque os autistas falam com as máquinas. O problema é o que as pessoas que organizam o material dos autistas, de fato, fazem com esse material. Porque a gente não tem acesso direto ao que os autistas, de fato, escreveram. Você tem acesso a um material organizado pela mãe, pelo pai, pelo avô, pela avó, pelo editor, pela... Você tem filmes sobre o autismo. Sobre “Minha irmã autista”, não é? Você não tem o acesso direto a eles, até porque eles são autistas. Eles não têm acesso direto a você nem a ninguém. Então, eu acho que tem que se ir com muita cautela... Luis Achilles: Quando se tem acesso, tem-se que perguntar se eles realmente são autistas... Maria Anita: Claro! Claro! Porque tem muito texto ali que é óbvio que a pessoa não é autista. Mas é um óbvio que por algum motivo está muito zangado, não quer falar com o mundo. Mas, desde que o mundo é mundo, têm pessoas que se recusam a falar com as outras e não são autistas. Meu Deus! As pessoas se esquecem que existe uma ordem religiosa muito importante das carmelitas descalças, que são mulheres que fazem votos de silêncio. Por que uma moça entra para um convento para fazer voto de silêncio, para não falar nada, durante dias e dias, e só se comunicar com Deus? Sem falar! Existem pessoas no mundo que não querem falar e não são autistas. E não existe Rede Globo ou computador ou coisa nenhuma que as obrigue a falar (risos). Nem existe porque a gente imaginar. “Só porque elas não falam são autistas.” Porque todas as carmelitas descalças são autistas... Não! Pelo contrário, podem ser pessoas maravilhosas como a que fundou a ordem, que é Santa Teresa D’Ávila, não é? Um gênio absoluto, uma mulher magnífica, que era tudo menos psicótica. E, no entanto, ela funda a ordem das descalças, daquelas que vão optar pelo silêncio e por andar de pés no chão, não é? Luis Achilles: O que você acha desse movimento de foraclusão da psicanálise no que tange às suas contribuições ao tratamento do autismo que foi deflagrado

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na França e em São Paulo? Qual teria sido a contribuição dos psicanalistas quanto a essa realidade? Maria Anita: Olha, eu não sei qual foi a contribuição dos psicanalistas quanto a essa realidade, o que a gente tem que entender é o seguinte: existe muito psicanalista imbecil. Que existe, existe. A gente vê isso, por exemplo, o número de psicanalistas que foi contra os direitos dos homossexuais. O número enorme de psicanalistas, e você sabe perfeitamente do que eu estou falando, de que, durante muito tempo, tratava-se a homossexualidade como perversão e, de repente, agora dá entrevistas “eu sou totalmente a favor do casamento homossexual!”. Por quê? Porque está na moda, não é? Mas eu sei perfeitamente que houve movimentos, e movimentos, e movimentos, de tratar a homossexualidade como uma doença, como homossexualismo. Isso dentro da psicanálise. Da mesma maneira, existem muitos psicanalistas que culpam os pais, que fazem e acontecem... Porque é óbvio que, principalmente quando os psicanalistas começam a dar declarações com certezas absolutas tipo “O autismo é isso”, “Ou não sei que é... ahhh...”, estão dizendo besteira. Porque quem tem certeza absoluta é paranoico, entende? Ou é burro ou é paranoico. A psicanálise nunca pode dizer: “A culpada é a mãe”. Isso não é psicanálise. Ou, “O culpado é o pai”, isso não é psicanálise... Porque a gente pode, sim, é conversar com os pais e saber o que eles estão pensando disso e o que é que eles pensam daquilo e sentem, e que não sabem que pensam e sentem; pode estar piorando a situação ou melhorando a situação, não é? Isso sim. Agora eu acho que deve ter havido alguma contribuição de uma meia dúzia de tontos que tenha feito alguma coisa; mas o que eu acho é que um grande perigo, isso eu disse em São Paulo e repito: é os psicanalistas ficarem aterrorizados, pararem de falar como psicanalistas, começarem a falar como criaturas acovardadas, com medo de ser acusados de culpar pai e mãe... Ah, vai tomar banho! Começar, isso é fato, eu já disse para você e repito: começar a encontrar textos escritos sobre casos de autismo em que não se fala na palavra “pai” e não se fala na palavra “mãe”. Porque a partir do momento em que os psicanalistas começaram a ser acusados de culpar pai e mãe e, eles falam mais de pai e mãe (risos). Então, o complexo de Édipo acabou, meus amores, porque não se pode mais falar de papai e mamãe, senão vamos ser acusados de culpar o pai e a mãe, é uma coisa muito louca, sem sentido, não é? Luis Achilles: No campo da saúde coletiva testemunhamos também uma série de autores que denunciam a psicanálise como uma prática elitista e burguesa. Ao mesmo tempo em que proclamam a bandeira de uma prática social que considere o sujeito na sua integralidade, rejeitam a clínica como um dispositivo ultrapassado e caro. De que maneira esse movimento está articulado no que se refere à controvérsia em torno do autismo atualmente? Maria Anita: O negócio é o seguinte: é uma contradição em termos você de-

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fender alguma coisa em nome do sujeito tomado na sua totalidade e rejeitar a psicanálise; é uma contradição de termos, porque o único sistema pensante que admite sujeito na sua totalidade é a psicanálise. Com a descoberta do Inconsciente, o resto é fantasia, o resto é uma visão parcial; não estou dizendo que não seja necessário a gente estudar visões parciais ou entrar em contato com outros profissionais que abordem outros campos. Agora, há uma contradição. A psicanálise em si é um tratamento caro, mas caro quer dizer, caro para o sujeito. Se um real é caro para ele, é isso que ele vai pagar; agora se duzentos reais são caros para ele, é isso que ele vai pagar, está entendendo? Então, a psicanálise aqui no Rio de Janeiro tem um lugar no serviço público, e tem um lugar legal no serviço público. E está mais do que claro que não é nem caro, nem elitista. Eu não sei se você se recorda, mas... Luis Achilles: Talvez mais caro seja a cronificação... Maria Anita: É... Eu não sei se você se recorda, eu não lembro exatamente em que ano foi, se foi em 94, 95, ou por aí... Eu fui interpelada por duas colegas que moravam e trabalhavam na Baixada Fluminense: “Por que não existia nenhum movimento psicanalítico, muito menos psicanalítico lacaniano na Baixada Fluminense?”. Tá? Aí, eu levei essa queixa ao colegiado da instituição a que eu pertencia na época. A maioria das pessoas riu e disse: “Você não vai pra Baixada”, então eu disse “Ah, é?! Então eu vou!”. Durante uns quatro anos ou cinco, acho que foram cinco, eu ia de quinze em quinze dias sustentar um seminário de psicanálise na Baixada Fluminense. Hoje em dia eu tenho orgulho de dizer que Nova Iguaçu é um Centro de Psicanálise Lacaniana, com psicanalistas de primeira! Eu tenho orgulho de dizer que foi isso que eu fundei lá em Nova Iguaçu. As pessoas têm uma demanda de análise enorme! É elitista? É, para a elite que demanda. Que elite é essa? É a elite que quer se analisar, é a elite que acredita no inconsciente. Agora, se essa elite é composta de pedreiro, carpinteiro, empregada doméstica, faxineira, manicure, é..., é uma elite, sim, porque há diferença de outros que acreditam no inconsciente. Que se beneficiam da análise. Eles contam sonho, eles entram em análise igual a todo mundo. Essa é a elite... Luis Achilles: Elite por se responsabilizarem por seu sintoma... Maria Anita: Exatamente! Por se responsabilizarem como sujeitos de sua vida, entende? E não passar a vida culpabilizando os outros. Luis Achilles: Como os psicanalistas poderiam contribuir no plano das políticas públicas de saúde, com sua prática e teoria? Maria Anita: Ah... (risos), isso eu não sei. Isso eu não sei realmente. Eu acho que isso é uma resposta que teria que ser uma coisa tão ambiciosa... Responder de uma forma genérica... Eu acho que cada um tem que tentar fazer a sua parte na história. Eu acho que existem pessoas mais comprometidas com o serviço

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público, como é o seu caso que tem, de alguns colegas presentes naquela reunião em São Paulo – que se questionou a Política Pública em relação ao autismo – e eu acho que tem coisas a se fazer pontualmente. O que eu disse em São Paulo foi muito radical, mas eu acho muito verdade. Está se excluindo? Tem algum documento escrito que não é para tratar com a psicanálise? Entra com um processo! Que é contra a lei brasileira. Isso é segregação, entende? Não pode! Não pode! Eu não posso passar um documento para uma rede pública dizendo que não podem usar... ah... Aspirina, porque não gosto da palavra “Aspirina”. Não! Eu não posso fazer isso. Isso é ilegal. Isso é uma coisa. Agora, outra coisa é o que cada um que está comprometido com o serviço público pode fazer. Aqui, no Rio de Janeiro, nós temos um trabalho muito interessante com um psicanalista, colega nosso, que não é do Campo Lacaniano, mas que tem um trabalho muito interessante em um CAPSi, que se chama CAPSi Pequeno Hans. Que é um trabalho com crianças autistas, num CAPSi do serviço público. É o do Luciano Elia; o trabalho dele é fantástico! Ele é um professor doutor da UERJ, e tem um trabalho brilhante; ele está mais apto a falar do que eu, eu só conheço e admiro o trabalho dele e sei que é uma pessoa fantástica. A orientação dele é lacaniana, ele não pertence nem a EBP nem ao Campo Lacaniano, mas ele tem a sua própria instituição. Luis Achilles: Neste ano de 2013, o autismo faz 70 anos, se tomarmos o artigo de Kanner como marco inaugurador dessa categoria nosográfica. O Ministério da Saúde Brasileira está realizando, até março deste ano, uma consulta pública para a revisão da “Linha de Cuidado para Atenção Integral com as pessoas com Transtorno do Espectro do Autismo e suas famílias no Sistema Único de Saúde”. De que maneira a psicanálise pode contribuir nesse cenário e, por outro lado, poderia correr o risco de se tornar uma prática higienista na interface da Saúde Coletiva? Maria Anita: Novamente é muito difícil... Mas isso que você aponta é muito curioso mesmo. Não é à toa que se desce tanto o sarrafo contra a psicanálise... Porque a psicanálise tem aquela história que Freud disse que era a peste que ele estava levando para os Estados Unidos. Se é verdade ou não, não importa. Porque é verdade, sim, na medida em que sempre tem alguém para descer o sarrafo na psicanálise. Porque ela provoca muita confusão. Ela não pode ser uma prática preventiva, não tem como você fazer uma psicologia preventiva com a psicanálise. Porque não tem como você determinar o que é transmissão inconsciente. O que a psicanálise pode colaborar é ter psicanalistas presentes na rede pública que se disponham a escutar as pessoas. Não como única salvação de assistência aos autistas, mas mais uma opção, uma escolha. E não vai ser a escolha que vai dar conta de tudo não! Porque a psicanálise dá conta do inconsciente, seja ele a céu aberto ou não. Mas só dá conta do inconsciente e mais nada! E já é muito! Chega! Eu acho que são necessários psicanalistas que se disponham a estar na rede pública, que

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Entrevista com Maria Anita Carneiro Ribeiro

se disponham a atender autistas com humildade, no sentido de saber que não são eles que vão dar as cartas, porque vão ser mais um da equipe, porque os autistas precisam da assistência de muitos profissionais. Luis Achilles: Atualmente, a grande luta em torno do autismo não é mais para destituir as hipóteses psicogênicas (que seriam aquelas atribuídas aos psicanalistas), mas acontece entre os grupos que consideram autismo como distúrbio que deve ser tratado, (grupos pró-cura) e os defensores da causa da neurodiversidade (grupos anticura). Este último grupo, composto por autistas de autofuncionamento, defende o autismo como um “jeito de ser”. A discussão tornou-se uma questão política relativa aos movimentos multiculturais e do respeito às diferenças. A seu ver, como os psicanalistas poderiam contribuir com a discussão sobre tema da inclusão social e educacional de pessoas com autismo? Maria Anita: Eu acho que os autistas, portadores de Asperger, que são esses que defendem o direito de você ser autista, de você ser diferente, têm todo direito de defender o que eles quiserem. Ninguém deve ser obrigado a nenhum tipo de tratamento. Nós estamos tendo, aqui no Rio de Janeiro, um debate dificílimo com a ideia de se internar compulsoriamente os usuários de crack, porque é um desrespeito à subjetividade, a internação compulsória. Por outro lado, a Copa vem aí, vêm as Olimpíadas e tem que limpar a casa... Os “crakudos” ficam na rua... dando péssima impressão... “O que se faz e o que não se faz?”. Mas, a psicanálise respeita a subjetividade, defende o respeito à subjetividade. Os autistas devem ser obrigados a se tratar? Nunca! Agora, o que me parece complicado é que uma pessoa por ser Asperger não pode falar em nome dos autistas que não falam. Aí é outra coisa! Cada um fale por si, cada um defenda para si o direito de não se tratar. Claro... Assim como o..., me parece, que o direito de morrer deveria ser defendido com unhas e dentes... Se você não quiser continuar vivendo? Por que não eutanásia? Entende? As pessoas têm o direito de optar por sua vida e por sua morte, por seu destino. Melhorar não pode ser uma compulsão. Freud, que advertia todo psicanalista sobre o furor sanandi, o furor de curar todo mundo. (Risos) Ele dizia que era um dos maiores perigos dos psicanalistas era sair por aí querendo curar todo mundo. Não! Você só vai tratar de quem quer se tratar. Agora, também, por outro lado, se arvorara ser porta-voz de quem se recusa a falar?! Isso é outra coisa. Luis Achilles: Acho que, por ter tido contato com muitos pais de pessoas autistas, há uma questão que sempre me ronda e que parece ser cercada de silêncio na literatura especializada. Quando lemos os textos sobre autismo, psicanalíticos ou não, sempre se fala da criança autista. E os adultos e adolescentes autistas? Onde estão? O que é possível fazer com estes casos? Maria Anita: É um problemão, não é? Não existe em nível de serviço público ou particular, um sistema de atenção ou de cuidado que possa dar conta desses

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Furtado, Luis Achilles Rodrigues

adultos autistas. As crianças autistas se tornam adultos; alguns de alguma maneira, por alguma circunstância, conseguem, com ajuda da família, e às vezes com tratamento; eu tenho ex-pacientes que de vez em quando eu tenho notícias deles... E eles conseguem levar uma vida... uma vida! Deles. Mas eles deram sorte de ter uma família suficientemente sensível para buscar tratamento num momento crucial da vida deles etc. Agora o autista adulto hoje em dia não tem muito para onde recorrer, não. Luis Achilles: Diante das diversas posições de vários autores em torno do autismo, você consegue fazer alguma relação entre essas diferenças de opinião e diferenças de escola entre os lacanianos? Maria Anita: Sim... Eu acho que, basicamente, são dois grupos. O grupo que segue orientação de Robert e Rosine Lefort, que trabalha com uma ideia bastante bizarra de “a–estrutura”, ou seja, de algo fora da estrutura. E o grupo que permanece mais próximo do pensamento de Lacan, que trabalha com a hipótese, não que não é só de Lacan. É Lacan, é Melanie Klein, é o próprio Leo Kanner, no início da clínica dele... de que o autismo é uma forma de um desencadeamento muuitíssimo precoce de uma esquizofrenia. Então, eu acho que é basicamente isso. E diante de um desencadeamento muito precoce da esquizofrenia ou de qualquer caso de psicose, o que a psicanálise tem a fazer é muito. Porque, de uma maneira geral os psicóticos são aqueles excluídos, a quem ninguém quer dar a palavra. E quando eles não querem tomar a palavra, que é o caso dos autistas, aí, realmente, é um circuito de abandono imenso. Então, eu acho que a psicanálise tem muito a fazer com os autistas e com as famílias dos autistas, e com todo mundo que gira em torno dessa forma de viver que é tão, tão, tão sofrida. Luis Achilles: Obrigado, Maria Anita.

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resenha


Resenha do livro O livro negro da Psicanálise Leandro Alves Rodrigues dos Santos O livro negro da Psicanálise: viver e pensar melhor sem Freud Criticar a Psicanálise não é tarefa fácil, especialmente quando se trata de críticas construtivas, que genuinamente visam colaborar para o aprimoramento do que está sendo objeto de um debate honesto. Porém, quando está em jogo certo tipo de crítica que se origina de outras intenções, mais questionáveis e que tem como objetivo central demolir a invenção freudiana, certamente merece um olhar menos ingênuo e mais atento. É com esse olhar que se deve ler O livro negro da Psicanálise: viver e pensar melhor sem Freud, panfleto pensado e estruturado por Catherine Meyer, com o apoio de alguns outros autores, já conhecidos na esfera do revisionismo e da crítica afetada a tudo que se refere à Psicanálise. Sendo assim, o leitor mais desavisado não deve se surpreender com o tom que se descortina nas mais de 600 páginas da edição brasileira, ainda menos extensa que a edição francesa, de mais de 800 páginas, originalmente lançada em 2005, com grande repercussão na mídia como, aliás, é peculiar a qualquer outro tipo de ataque a Freud e sua obra. Até então, não temos nenhuma novidade, talvez apenas mais um capítulo do que nos Estados Unidos usualmente se chama de Freud Bashing, ou “bater em Freud”, termo que condensa as múltiplas formas de espancamento midiático que sempre tem como última mirada desqualificar o inventor da Psicanálise e, principalmente, cobrir de desconfiança e descrédito tudo que envolve o campo psicanalítico. Seriam necessárias muitas páginas nesta resenha para descrever a sucessão de artigos que, com raras exceções, merecem ser acolhidos com deferência neste livro; pois o que se delineia, na maioria deles, especialmente em termos de enunciado recorrente, nada mais é do que uma intensa saraivada de investidas, ataques, desaprovações e censuras a tudo que diga respeito ao universo psicanalítico, temperadas com uma implacável dose de criticismo impiedoso e exarcebado, beirando a obscenidade. A estrutura central desse petardo gira em torno de um claro intuito latente, que surge nas entrelinhas e que pode ser captado pela linearidade dos capítulos, títulos e seções específicas: num primeiro momento desqualificar a Psicanálise,

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Dos Santos, Leandro Alves Rodrigues

tirando-a de seu suposto domínio hegemônico de compreensão e tratamento dos males da subjetividade humana e, posteriormente, efetuar uma troca pelas terapias comportamentais cognitivas e medicações variadas, tão típicas dessa época de certezas e respostas rápidas. Elegendo alguns recortes específicos, podemos notar que o livro se inicia com uma notável indignação: por que a Psicanálise continua viva e forte em algumas partes do mundo e, em outras, parece quase sumir, revestindo-se de notável diminuição de importância? Alguns números são apresentados, ainda que carentes de confirmações estatísticas e de fontes confiáveis, como espera a pesquisa científica séria. Um exemplo banal: um dos autores, no afã de demonstrar que a Psicanálise e os psicanalistas estão sumindo no mundo, afirma não existir mais de três mil psicanalistas em todo o planeta. Bem, basta debruçar sobre qualquer entrevista com psicanalistas que representam instituições psicanalíticas e notar que quando as descrevem, nos fazem notar que quase sempre dizem do número de associados, e comumente estes números ultrapassam centenas em cada uma delas, contabilizando todos que nelas gravitam. Uma conta rápida de multiplicação demonstrará que esse número é nitidamente subdimensionado, pois existem incontáveis instituições psicanalíticas mundo afora. Basta apenas conversar com colegas que participam de encontros mundiais de escolas de Psicanálise, e podemos notar que, ano após ano, milhares afluem a cada um desses congressos, e caso seja necessário, é sempre possível também efetuar visitas aos sites oficiais das respectivas instituições, que trazem a lista de afiliados, que parece sempre aumentar, ano após ano. Marque-se ainda ser plausível incluir também os psicanalistas que atuam de forma mais independente e que, portanto, não se filiam às escolas de Psicanálise e associações de psicanalistas mundo afora, talvez num número inapreensível. Os casos paradigmáticos de Freud, desde o começo, ainda nos estudos sobre a histeria, junto a Breuer, como por exemplo, Anna O. e Katharina, passando pelo Homem dos Lobos, Schereber e outros, são cuidadosamente esmiuçados, mas de uma perspectiva nitidamente viesada, que objetiva apenas colher elementos para comprovar a desonestidade científica e intelectual de Freud, suas manipulações cínicas dos resultados, a consequente a-cientificidade de seu método, a pouca eficácia terapêutica do tratamento psicanalítico, além das táticas por ele engendradas e depois aperfeiçoadas pelos seguidores com o fito de blindar a Psicanálise das críticas e da suposta fragilidade de sua organicidade conceitual e clínica, visto que é tão somente fruto do delírio de seu criador. Esse pressuposto básico não serve apenas como pano de fundo da obra; serve também como suporte para as estratégias de confronto endereçadas à Psicanálise e a seus grandes nomes. Começando com o próprio Sigmund Freud, passando por Jacques Lacan, Bruno Bettelheim, Françoise Dolto e outros, integrantes de um

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Resenha do livro O livro negro da psicanálise

grande conjunto de mistificadores e responsáveis por inúmeros erros, distorções propositadas, generalizações apressadas e, principalmente, de influências nefastas no imaginário popular, que na concepção de alguns autores do livro, seria presa fácil desses grandes comunicadores, portadores das “verdades” que adivinham do que o livro qualifica como mitos psicanalíticos. O clima bélico que atravessa cada um dos capítulos é permanente, não há boa vontade ou mesmo compreensão razoável que pudesse levar em consideração a época, o período histórico ou o momento particular de cada um desses grandes nomes, inclusive a condição de seres humanos, passíveis de enganos e equívocos como quaisquer outros, humanos, demasiadamente humanos. Não, a nítida má vontade que salta aos olhos a cada parágrafo é a tônica vigente, com condenações que se sucedem, quer seja apontando a vilania de Freud em analisar incestuosamente a própria filha ou tiranizar sexualmente a cunhada que dele dependia economicamente, a cegueira egocêntrica de Lacan em se pretender o portador exclusivista da “verdadeira” Psicanálise após Freud com sua legião de seguidores fascinados e alienados à sua palavra e imagem pirotécnica, a dissimulada falta de caráter de Bettelheim, impostor que mistificava curas e culpabilizava irresponsavelmente as mães dos autistas que atendia em sua clínica ou ainda a postura arrogante de Dolto, responsável pela “psicanalização” da França, em especial na educação e nas relações familiares, que supostamente passariam a depender de um manual de sobrevivência freudiano ou mesmo em tratamentos com psicanalistas que tomavam avidamente a rede francesa de serviços públicos, monopolizando a oferta terapêutica e criando uma rede circular de oferta e demanda, inescapável para os que lá chegavam em busca de ajuda específica. Por mais incrível que pareça, alguns capítulos se destacam pelo despropósito, beirando o non-sense. Num deles, é tratado o que foi chamado de “desconversão” de um jovem psiquiatra, influenciado pela Psicanálise desde o começo de sua formação acadêmica, mas que, ao tomar contato com um dos autores, é convidado a passar pela tal terapia de orientação cognitiva-comportamental, que pôs em xeque suas crenças sobre o inconsciente e outras terminologias psicanalíticas que o impediam de ajudar efetivamente seus pacientes. No final desse “tratamento”, há o coroamento do processo, para satisfação do autor, com a matrícula do jovem psiquiatra em um curso breve de TCC, que servirá como referencial teórico a partir de então, salvando-o da influência nefasta da Psicanálise. Outro capítulo traz em seu bojo algumas narrativas de pacientes que conseguiram escapar das garras dos psicanalistas, especialmente as mães de crianças autistas, ou ainda pacientes que só puderam compreender os malefícios dos quais foram vítimas após o encontro com terapeutas comportamentais e, que graças a essa técnica, alcançaram a compreensão da amplitude do perigo que corriam.

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Dos Santos, Leandro Alves Rodrigues

Sim, essa é uma das tentativas que ultrapassam o desqualificar sistemático da Psicanálise, pois tem como intuito também apontar o perigo e os graves riscos de se entregar a uma experiência psicanalítica, empreitada que causa dependência, alienação, desfaz casamentos, envenena a vida familiar e, sobretudo, enriquece os bolsos dos analistas gananciosos, que aprenderam desde a origem, com o mestre fundador, em Viena, que adorava o dinheiro. Após esse cenário de terra arrasada, chega então a parte que acaba revelando a verdade que subjazia a sucessão de ataques da artilharia pesada dos detratores da obra freudiana: o posicionamento de algo no lugar do que foi destruído, a saber, as descobertas da neurociência, os pretensos avanços das terapias comportamentais e cognitivo-comportamentais, além de um evidente destaque para os medicamentos que a psicofarmacologia, mancomunada com os interesses da indústria farmacêutica, oferta diuturnamente como solução mágica para a dureza da vida cotidiana, do mal-estar presente na divisão subjetiva do humano e do laço com o outro. Obviamente nada disso é levado em consideração, mas apenas e tão somente os aspectos funcionais do comportamento humano, bem como supostas desordens e transtornos de origem orgânica ou afins, numa questionável leitura empobrecida da condição humana. Considerar meramente este livro como um absurdo pareceria ser razoável, mas com isso estaríamos incorrendo num erro, aceitar um pseudodebate que só interessa a um lado, pois o que está em questão não é a supremacia de uma abordagem terapêutica ou outra, nem mesmo uma hierarquização dos efeitos e resultados desse ou daquele tratamento psicoterapêutico, mas sim uma intenção mais ardilosa e que precisa ser explicitada em profundidade. A principal razão do lançamento deste livro no território francês foi um movimento engendrado pelos psicoterapeutas de orientação comportamental na França, pois se sentiam alijados dos serviços públicos de saúde, bem como na mídia, quando comparados aos psicanalistas, que segundo eles, detêm o controle hegemônico nesse campo da saúde pública e nos consultórios particulares. Tal movimento visou excluir o tratamento psicanalítico, inicialmente no campo do autismo, depois ampliando esse argumento para outras demandas terapêuticas, não apenas no serviço público, bem como na relação com os convênios e planos de saúde, com uma clara conexão entre essa estratégia mercadológica e o lançamento do livro. Aliás, o termo “livro negro” remete aos crimes perpetrados contra grupos, classes ou raças durante a história da Humanidade. Coincidentemente, este livro é lançado no Brasil em 2012, e para assombro de muitos, tem início, ao menos no Estado de São Paulo, um movimento análogo ao francês, que tem como meta estipular como exclusividade a orientação comportamental-cognitiva no tratamento a autistas, em oposição ao tratamento

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Resenha do livro O livro negro da psicanálise

psicanalítico, tido como pseudocientífico, considerado ineficaz terapeuticamente e pouco produtivo em termos de quantidade de atendimentos, especialmente quando comparado à díade adestramento-medicação, símbolo da avalanche adaptacionista que deu mostras de quão virulentos podem ser os ataques. Freud, na clássica entrevista que deu à BBC, pouco antes de morrer, deixou claro que a batalha ainda não havia terminado. Suas palavras mais uma vez demonstram impressionante capacidade de antevisão. Que este livro negro chacoalhe os psicanalistas e que as respostas venham vigorosamente, pois em vez de destruir a Psicanálise, como adorariam os autores, provavelmente estão tornando-a mais forte. Um efeito rebote admirável...

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Orientações Editoriais Stylus é um periódico semestral da ESCOLA DE PSICANÁLISE DOS FÓRUNS DO CAMPO LACANIANO - BRASIL e se propõe a publicar artigos inéditos das comunidades brasileiras e internacional do Campo Lacaniano, e os artigos de outros colegas que orientam sua leitura da psicanálise principalmente pelos textos de Sigmund Freud e Jacques Lacan. Revista que aceita artigos provenientes de outros campos de saber (a arte, a ciência, a matemática, a filosofia, a topologia, a lingüística, a música, a literatura, etc.) que tomam a psicanálise como eixo de suas conexões reflexivas. Aos manuscritos encaminhados para publicação, recomendam-se as seguintes Orientações Editoriais. Serão aceitos trabalhos em inglês, francês e/ou espanhol. Se aceitos, serão traduzidos para o português. Todos os trabalhos enviados para publicação serão submetidos a apreciação de, no mínimo, dois pareceristas, membros do Conselho Editorial de Stylus (CES). A Equipe de Publicação de Stylus (EPS) poderá fazer uso de consultores ad hoc, a seu critério e do CES, omitida a identidade dos autores. Os autores serão notificados da aceitação ou não dos artigos. Os originais não serão devolvidos. O texto considerado aceito será publicado na íntegra. Os artigos assinados expressam a opinião de seus autores. A EPS avaliará a pertinência da quantidade de textos que irão compor cada número de Stylus, de modo a zelar pelo propósito dessa revista: promover o debate a respeito da psicanálise e suas conexões com os outros discursos.

Fluxo de avaliação dos artigos: 1. Recebimento do texto por e-mail pelos membros da EPS de acordo com a data divulgada na rede-epfclbrasil@yahoogrupos.com.br e na if-epfcl@champlacanien.net 2. Distribuição para parecer. 3. Encaminhamento do parecer para a reunião da EPS para decisão final. 4. Informação para o autor: se recusado, se aprovado ou se necessita de reformulação (neste caso, é definido um prazo de vinte dias, findo o qual o artigo é desconsiderado, caso o autor não o reformule apropriadamente). 5. Após a aprovação o autor deverá enviar à EPS no prazo de sete dias úteis um e-mail contendo um arquivo de seu texto, definido para impressão. 6. Direitos autorais: a aprovação dos textos implica a cessão imediata e sem ônus dos direitos autorais de publicação nesta revista, a qual terá exclusividade de

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publicá-los em primeira mão. O autor continuará a deter os direitos autorais para publicações posteriores. 7. Publicação. Nota: não haverá banco de arquivos para os números seguintes. O autor que desejar publicar deverá encaminhar seu texto a cada número de Stylus.

Serão aceitos trabalhos para as seguintes seções: Artigos: análise de um tema proposto, levando ao questionamento e/ou a novas elaborações (aproximadamente 12 laudas ou 25.200 caracteres, incluindo referências bibliográficas e notas). Ensaios: apresentação e discussão a partir da experiência psicanalítica de problemas cruciais da psicanálise no que estes concernem à transmissão da psicanálise (aproximadamente 15 laudas ou 31.500 caracteres, incluindo referências bibliográficas e notas). Resenhas: resenha crítica de livros ou teses de mestrado ou doutorado, cujo conteúdo se articule ou seja de interesse da psicanálise (aproximadamente 60 linhas (3.600 caracteres). Entrevistas: entrevista que aborde temas de psicanálise ou afins à psicanálise (aproximadamente 10 laudas ou 21.000 caracteres, incluindo referências bibliográficas e notas). Stylus possui as seguintes seções: ensaios, trabalho crítico com os conceitos, direção do tratamento, entrevista e resenhas; cabendo a EPS decidir sobre a inserção dos textos selecionados no corpo da revista.

Apresentação dos manuscritos: Formatação: Os artigos devem ser digitados em Word for Windows, versão 6.0 ou superior, com extensão (.doc), em fonte Times New Roman, tamanho 12, em folha de formato A4, com espaçamento 1,5 entre linhas, margens superior, inferior e laterais de 2 cm. Ilustrações: o número de figuras (quadros, gráficos, imagens, esquemas) deverá ser mínimo (máximo de 5 por artigo, salvo exceções, que deverão ser justificadas por escrito pelo autor e avalizadas pela EPS) e devem vir separadamente em arquivo JPEG nomeados Fig. 1, Fig. 2 e indicadas no corpo do texto o local dessas Fig.1, Fig. 2., sucessivamente. As ilustrações devem trazer abaixo um título ou legenda com a indicação da fonte, quando houver. Resumo/Abstract: todos os trabalhos (artigos, entrevistas) deverão conter um

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resumo na língua vernácula e um abstract em língua inglesa contendo de 100 a 200 palavras. Deverão trazer também um mínimo de três e um máximo de cinco palavras-chaves (português) e keywords (inglês) e a tradução do título do trabalho. As resenhas necessitam apenas das palavras-chaves e keywords.

Envio dos manuscritos: Ao enviar o artigo para a revista, o autor compromete-se a não o encaminhar para outro(s) veículo(s) de publicação, pelo prazo de seis meses, a contar da data do envio. Preferencialmente, as propostas de publicação devem ser enviadas via Internet, como anexo, para o e-mail revistastylus@yahoo.com . Alternativamente, podem ser enviadas em mídia digital, acompanhadas de três cópias impressas, para o seguinte endereço: Fórum do Campo Lacaniano –São Paulo Revista Stylus: Revista de Psicanálise da Associação de Fóruns do Campo Lacaniano Brasil Rua Lisboa, 1163. CEP 05413-001 – Pinheiros (São Paulo – SP) Os artigos devem conter os seguintes elementos:

Normas para publicação: • Primeira lauda contendo apenas o título do artigo, nome(s) do(s) autor(es), dados do(s) autor(es) [titulação, filiação institucional e referências acadêmicas e profissionais, em 10 linhas, no máximo] e endereço completo (com e-mail). • Demais laudas, numeradas consecutivamente a partir de 1 (um), repetindo o título, sem o(s) nome(s) do(s) autor(es), e contendo o texto da publicação. • No caso de investigações/desenvolvimentos teóricos, relatos de pesquisas, debates e entrevistas, deve ser incluído um resumo de no máximo trezentas palavras, ao final, na mesma língua do trabalho, acompanhado de palavras-chave (no mínimo três e no máximo sete). Após esse resumo, deve-se incluir também uma tradução do mesmo, em inglês (abstract), acompanhada da tradução do título e das palavras-chave. • No caso de entrevista, devem ser incluídos, ao final, os seguintes dados: data da entrevista, nome do entrevistador, nome do entrevistado e dados completos de identificação de ambos (titulação, filiação institucional e referências acadê-

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micas e profissionais). Opcionalmente, podem ser incluídos dados relevantes sobre o contexto em que foi realizada a entrevista. • No caso de resenhas, deve-se incluir, ao final, a referência completa da obra resenhada. As ilustrações devem ter seu lugar indicado no texto e devem ser enviadas também em anexos separados, em formato de arquivo JEPG. Devem ser nomeadas Fig. 1, Fig. 2, sucessivamente, podendo ainda ter um título sugestivo do seu conteúdo.

Sobre citações e referências bibliográficas: Indicamos a NBR 6023 da Associação Brasileira das Normas Técnicas, lançada em 2002, disponível nos seguintes endereços eletrônicos, ambos oriundos do sítio (http://www.ip.usp.br/portal/) da Biblioteca Dante Moreira Leite, do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo: Citações: (http://www.ip.usp.br/portal/images/stories/manuais/citacoesabnt.pdf) Referências bibliográficas: (http://www.ip.usp.br/portal/images/stories/manuais/ normalizacaodereferenciasabnt.pdf)

Citações no texto: 1. As citações diretas (ou textuais) devem reproduzir fielmente as palavras do autor ou o trecho do texto utilizado. Exemplo: Dessa maneira, Quinet (1991, p. 87) adverte que “não há duas pessoas que lidem com o dinheiro da mesma forma.” 2. Já as citações diretas (ou textuais) que excederem três linhas devem vir em parágrafo separado, com recuo de quatro cm da margem esquerda (além do parágrafo de 1,25cm) com letra menor do que a do texto e sem utilização de aspas. Os títulos de textos citados devem vir em itálico (sem aspas), os nomes e sobrenomes em formato normal (Lacan, Freud). Exemplo: Freud (1910, p. 130) em As perspectivas futuras da terapêutica psicanalítica, destaca um aspecto importante: Agora que um considerável número de pessoas está praticando a psicanálise e, reciprocamente, trocando observações, notamos que nenhum psicanalista avança além do quanto permitam seus próprios complexos e resistências internas; e, em conseqüência, requeremos que ele deva iniciar sua atividade por uma auto-análise e levá-la, de modo contínuo, cada vez mais profundamente, enquanto

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esteja realizando suas observações sobre seus pacientes. Qualquer um que falhe em produzir resultados numa auto-análise desse tipo deve desistir, imediatamente, de qualquer idéia de tornar-se capaz de tratar pacientes pela análise. 3. As citações indiretas devem contar as idéias daquele que escreve o texto, mas também devem referendar as ideais originais do autor citado, em letras maiúsculas. Exemplo: Lacan sempre deixou claro sua posição sobre os psicanalistas que se acomodavam frente aos mecanismos institucionais das escolas psicanalíticas daquela época, com suas burocracias e rituais questionáveis (LACAN, 1956). 4. As citações de obras antigas e reeditadas devem ser feitas da seguinte maneira: Kraepelin (1899/1999). 5. No caso de citação de artigo de autoria múltipla, as normas são as seguintes: A) até três autores – o sobrenome de todos os autores é mencionado em todas as citações, por exemplo: (Alberti e Elia, 2000). B) de quatro a seis autores – o sobrenome de todos os autores é citado na primeira citação, como acima. Da segunda citação em diante só o sobrenome do primeiro autor é mencionado, como abaixo (Alberti, et al, 2009, p. 122). C) mais de seis autores – no texto, desde a primeira citação, somente o sobrenome do primeiro autor é mencionado, mas nas referências bibliográficas os nomes de todos os autores devem ser relacionados. 6. Quando houver repetição da obra citada na seqüência deve vir indicado Ibid., p. (página citada.). 7. Quando houver citação da obra já citada porém fora da seqüência da nota, deve vir indicado o nome da obra em itálico, op. cit., p. (Kant com Sade, op. cit., p. 781-783). 8. Caso a fonte seja um website ou página eletrônica, deve-se explicitar o endereço eletrônico de acesso, entre parentêses, após a informação, (http://www.campolacanianosp.com.br/).

Notas de rodapé: 1. As notas não bibliográficas, indicações, observações ou aditamentos ao texto feitos pelo autor ou editor, devem ser reduzidas a um mínimo indispensável, ordenadas por algarismos arábicos e organizadas como nota de rodapé, ao final da página em questão.

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Referências Bibliográficas: Os títulos de livros, periódicos, relatórios, teses e trabalhos apresentados em congressos devem ser colocados em itálico. O sobrenome do(s) autor(es) deve vir em caixa alta, seguido do prenome abreviado.

1. Livros, livro de coleção: 1.1 LACAN, J. (1955) A coisa freudiana. In: LACAN, J. Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. p. 402-437 1.2 FREUD, S. (1920). Além do princípio de prazer. Tradução sob a direção de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1987. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 18, p. 17-88). 1.3 LACAN, J. (1960-61) O seminário, livro 8: A transferência. Tradução de Dulce Duque Estrada. Rio de Janeiro: Zahar, 1992. 386 p. 1.4 Lacan, J. O seminário: A Identificação (1961-1962): aula de 21 de março de 1962. Inédito. 1.5 Lacan, J. O seminário: Ato psicanalítico (1967-1968): aula de 27 de março de 1968. (Versão brasileira fora do comércio). 1.6. Lacan, J. Le séminaire: Le sinthome (1975-1976). Paris: Association freudienne internationale, 1997. (Publication hors commerce). Obs. O destaque é para o título do livro e não para o título do capítulo. Quando se referencia várias obras do mesmo autor, substitui-se o nome do autor por um traço equivalente a seis espaços. 2. Capítulo de Livro: Foucault, Michel. Du bon usage de la liberté. In: Foucault, M. Histoire de la folie à l’âge classique (p.440-482). Paris: Gallimard, 1972. 3. Artigo em periódico científico ou revista: PACHECO, A.L.P. O livro de cabeceira: da escrita como sintoma ao sintoma como letra. Stylus. Rio de Janeiro: Associação Fóruns do Campo Lacaniano, n.23, p. 37-43, 2011 4. Obras antigas com reedição em data posterior: Alighieri, D. Tutte le opere. Roma: Newton, 1993. (Originalmente publicado em 1321).

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5. Teses e dissertações: Teixeira, A. A teoria dos quatro discursos: uma elaboração formalizada da clínica psicanalítica. Rio de Janeiro, 2001. 250 f. Dissertação. (Mestrado em Teoria Psicanalítica) – Instituto de Psicologia. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2001. 6. Relatório técnico: Barros de Oliveira, M. H. Política Nacional de Saúde do Trabalhador. (Relatório Nº). Rio de Janeiro. CNPq., 1992. 7. Trabalho apresentado em congresso e publicado em anais: Trabalho apresentado em congresso e publicado em anais: FINGERMANN, D. Os tempos do sujeito do inconsciente. Trabalho apresentado no V Encontro Internacional da IF/ EPFCL. Os tempos do sujeito do inconsciente. A psicanálise no seu tempo e o tempo da psicanálise. 2008, julho; São Paulo, Brasil. 8. Obra no prelo: No lugar da data deverá constar (No prelo). 9. Autoria institucional: American Psychiatric Association. DSM-III-R, Diagnostic and statistical manual of mental disorder (3rd edition revised.) Washington, DC: Author, 1998. 10. CD ROM – Lacan, J. Le Séminaire de Caracas. X Encuentro Internacional del Campo Freudiano. Barcelona: Edicions Albert Moraleda, 1998. CD-ROM.   11. Home Page: LACAN, J. (1977). L’insu-que-sait de l’une-bévue s’aile à mourre. In: BIBLIOTECA DO CAMPO PSICANALÍTICO. Disponivel em: < www. campopsicanalitico.com.br >. Acesso em: 04 de fev. 2012. 12. Fontes eletrônicas: LERAY, P. (2011). Le reel après la passe. In: Wunsch 10. Disponível em: <http://www.champlacanien.net/public/docu/4/wunsch10. pdf>. Acesso em: 05 de abril de 2012. Outras dúvidas poderão ser sanadas consultando-se a versão original da ABNT 6023, como dito anteriormente, ou eventualmente endereçadas à Equipe de Publicação da Revista Stylus (EPS) para o e-mail revistastylus@yahoo.com.br

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Sobre os autores e tradutores Adriana Simões Marino Psicanalista. Mestre em Psicologia Clínica pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP). Especialista em Psicopatologia e Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública (FSP-USP). Faz graduação em filosofia (FFLCH-USP) e formação continuada em psicanálise pela Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano (EPFCL-SP). É docente da Escola Municipal de Saúde (EMS-SP) e das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU). E-mail: adrianamarino@usp.br

Bárbara Guatimosim Psicanalista, membro da EPFCL – Brasil. Organizadora do livro “Em torno do cartel” – Edição da AFCL, 2004. Artigos publicados em várias revistas e coletâneas de psicanálise. Mestre em Estudos literários na linha de Pesquisa, Literatura e Psicanálise, UFMG / FALE. E-mail: bguatimosim@bol.com.br

Carolina Zaffore Psicoanalista. Miembro EPFCL. Miembro de la IF (Foro Analítico del Río de la Plata, Buenos Aires, Argentina). Coordinadora del Colegio Clínico del Río de la Plata (2013-2014). Docente de la Facultad de Psicología, Universidad de Buenos Aires. Investigadora UBACyT. E-mail: czaffore@gmail.com

Cícero Alberto de Andrade Oliveira Graduado em Letras (Português/Francês) pela FFLCH-USP. Mestre em Língua e Literatura Francesa pela mesma instituição. E-mail: ciceralb@gmail.com

Colette Soler Doutora em Psicologia (Paris VII), AME da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano – França. Professora de FCCL- Paris. Autora de vários livros,

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entre os quais Psicanálise na civilização (Contracapa), O que dizia Lacan das mulheres ( JZE), O inconsciente a céu aberto na psicose ( JZE), edição bilíngue do caderno Stylus 1: O corpo falante e, dos recém lançados O inconsciente. Que é isso?(Annablume), Lacan, o inconsciente revisitado (Cia de Freud), Declinações da Angustia (Escuta) e Seminário de leitura de texto: A angústia, de Jacques Lacan (Escuta). E-mail: solc@wanadoo.fr

Conrado Ramos Psicanalista. Pós-doutor pelo Núcleo de Pesquisa Psicanálise e Sociedade do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Social da PUC/SP. Doutor em Psicologia Escolar pelo IPUSP. Membro da EPFCL e do FCL-SP. E-mail: conrado_ramos_br@yahoo.com.br

Dominique Fingermann Psicóloga. Psicanalista. AME da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano Brasil | Fórum São Paulo. Co – autora de Por causa do pior ( Iluminuras) E-mail: dfingermann@terra.com.br

Domingos Sávio Pimentel Siqueira Doutor em Letras e Linguística pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e atualmente é Professor Adjunto III da UFBA e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Língua e Cultura desta universidade. É professor de língua inglesa há três décadas e tem interesse especial em estudos voltados para a expansão do inglês como língua franca global, formação de professores de línguas e pedagogia crítica voltada para a educação linguística. E-mail: savio_siqueira@hotmail.com

Gabriel Lombardi Doutor. PhD em psicologia pela Universidade de Buenos Aires. AME da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano. Professor titular da Clínica de Adultos da Faculdade de Psicologia da Universidade de Buenos Aires e membro da Comissão de Doutorado.Diretor do Serviço de Clínica psicanalítica da UBA de Avellaneda. Investigador categoria I de Pesquisa do Ministério da Educação da República Argentina. Autor de Clínica e lógica de auto-referência. E-mail: gabriellombardi@fibertel.com.ar

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Ingrid de Figueiredo Ventura Psicóloga. Mestre em Psicologia pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano – Fórum Belém; membro da Rede de Pesquisa em Sintoma e Corporeidade, vinculada ao Fórum do Campo Lacaniano – São Paulo, à Universidade de São Paulo (USP) e à Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Membro do Grupo de Pesquisa Psicanálise, Sujeito e Instituição vinculado à UFPA. Membro da Rede Clínica Jacques Lacan do Instituto de Psicologia (USP). Participa como ouvinte do Laboratório de Teoria Social, Psicanálise e Filosofia (LATESFIP – USP). E-mail: ifigueiredoventura@gmail.com

Leandro Alves Rodrigues dos Santos Psicanalista, Membro do Fórum do Campo Lacaniano – SP e da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano. Doutor em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo, Pós doutorando em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Leonardo S. Rodríguez PhD, psicólogo clínico; membro analista da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano (École de Psychanalyse des Forums du Champ Lacanien) – Fórum de Melbourne; Membro Fundador do Centro Australiano para Psicanálise; Professor Sênior do Programa de Mestrado em Psicanálise da Universidade Victoria, Professor Sênior Adjunto na Universidade Monash, ambas na Austrália; autor da obra Psychoanalysis with Children (Psicanálise com Crianças) (London/ New York: Free Association Books, 1999) e inúmeros artigos sobre teoria e prática psicanalíticas publicados em vários idiomas. E-mail: leonardosrodriguez@bigpond.com

Luis Achilles Rodrigues Furtado Membro da EPFCL - Brasil (Fórum de Fortaleza), professor de psicanálise e psicopatologia da Universidade Federal do Ceará - Campus de Sobral, doutor em Educação, bolsista de produtividade da FUNCAP - Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico, autor do livro “Sua majetstade o autista: fascínio, intolerância e exclusão no mundo contemporâneo”. E-mail: luis_achilles@yahoo.com.br

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Maria Claudia Formigoni Psicóloga e Mestre em Psicologia Social pela PUC-SP. Especialista em Psicologia Clínica também pela PUC-SP. Especialista em Psicologia Hospitalar pelo HC-FMUSP. E-mail: mclaudiaformigoni@yahoo.com.br

Maria Helena Martinho Doutora e Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Psicanálise do IP/UERJ. Professora do Curso de Doutorado e de Mestrado em Psicanálise da UVA. Professora e Supervisora Clínica do Curso de Especialização em Psicanálise da UVA. Professora e Supervisora Clínica do Curso de Especialização em Psicologia Clínica da PUC – Rio. Coordenadora e Supervisora Clínica do SPA/UVA. Psicanalista Membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano – Brasil. Psicanalista Membro do Colegiado de Formações Clínicas do Campo Lacaniano – Rio de Janeiro. E-mail: mhmartinho@yahoo.com.br

Marc Strauss Psiquiatra. AME da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano – França. Ensinante do Collège Clinique de Paris. E-mail: strauss.m@wanadoo.fr

Raul Albino Pacheco Filho Professor Titular da Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), atuando no Curso de Psicologia e no Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Social, onde coordena o Núcleo de Pesquisa Psicanálise e Sociedade (inscrito no Diretório dos Grupos de Pesquisa no Brasil – CNPq). Psicólogo com graduação pela PUC-SP e Mestrado e Doutorado pelo Instituto de Psicologia da USP. Psicanalista Membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano (EPFCL - Brasil) e da Internacional dos Fóruns do Campo Lacaniano (Fórum de São Paulo). E-mail: raulpachecofilho@uol.com.br

Rita Vogelaar Psicanalista, psicóloga, mestre pela UFPR, Universidade Federal do Paraná, membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano e do Fórum

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do Campo Lacaniano de São Paulo, docente no Centro de Estudos Psicanalíticos e supervisora no NUPAS - Núcleo de Psicanálise e Ação Social. E-mail: rita.vogelaar@terra.com.br

Sandra Berta Psicanalista, AME da EPFCL, FCL-São Paulo. Especialista em Saúde Mental, Buenos Aires, Argentina. Mestre Doutora em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo, Brasil. E-mail: bertas@uol.com.br

Solange Mendes da Fonsêca Professora aposentada da Universidade Federal da Bahia (espanhol) e da Secretaria de Educação do Estado da Bahia (português, espanhol e francês). Licenciada em Letras Neolatinas pela Universidade Federal da Bahia. E-mail: solange_sosoh@yahoo.com.br

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stylus, m. 1. (Em geral ) Instrumento formado de haste pontiaguda. 2. (Em especial ) Estilo, ponteiro de ferro, de osso ou marfim, com uma extremidade afiada em ponta, que servia para escrever em tabuinhas enceradas, e com a outra extremidade chata, para raspar (apagar) o que se tinha escrito / / stilum vertere in tabulis, Cic., apagar (servindo-se da parte chata do estilo). 3. Composição escrita, escrito. 4. Maneira de escrever, estilo. 5. Obra literária. 6. Nome de outros utensílios: a) Sonda usada na agricultura; b) Barra de ferro ou estaca pontiaguda cravada no chão para nela se estetarem os inimigos quando atacam as linhas contrárias.


Pareceristas do número 25 Andréa Brunetto (EPFCL- Campo Grande) Andréa Franco Milagres (EPFCL- Belo Horizonte) Andréa Hortélio Fernandes (UFBA / EPFCL – Salvador) Christian Ingo Lentz Dunker (USP / EPFCL - São Paulo) Daniela Scheinkman-Chatelard (UNB / EPFCL – Brasilia) Eliane Z. Schermann (UFRJ/ EPFCL- Rio de Janeiro e Petrópolis) Elisabete Thamer (EPFCL – Paris) Eugênia Correia (Psicanalista – Natal) Graça Pamplona (EPFCL – Petrópolis) Leandro Santos ((EPFCL - São Paulo) Luis Andrade (UFPB/ EPFCL- Paraíba) Nina Araújo Leite (UNICAMP / Escola de Psicanálise de Campinas) Sonia Alberti (UERJ /EPFCL - Rio de Janeiro)


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