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EQUIPES NOVAS

CARTA No

9

EQUIPES DE NOSSA SENHORA SÃO PAULO -

1977


"Quem, depois de deitar a mão ao arado, olha para trás, não ~tá. apto para o Reino de Deus". Lucas, 9, 62

"Esquecido do que fica para trás e lançando-me para aquilo que tenho na frente, continuo a minha corrida, ol.lhar fixo na meta, rumo à. palma, à. qual Deus lá no alto me chama em Cristo Jesus". Fil. 3, 13-14


EDITORIAL

"APóLOGO"

Por ser, segundo dizem, multo elucidativo, quero voltar a falar-vos do apólogo que conte! às equipes parisienses durante um dos seus encontros gerais. A Senhora Fulana de Tal vem ao gabinete do Diretor matricular o seu filho Alberto. - Senhor Diretor, espero que .x-ncorde em o Alberto não vir à aula aos sábados à tarde. O meu marido preocupa-se muito com a educação estética do filho e Insiste em que ele visite, todos os sábados, os museus :le Paris. -Peço !men...<-a desculpa, minha Senhora, mas é-me !mpossivel aceder ao seu pedido. A ;noosa. tarde livre é a de quinta-feira. - E por que não ao sábado? A escolha de quinta-feira é arbitrária. - Concordo consigo. A sra. prefere o sábado; o farmacêutico, sem dúvida, prefere a segunda-feira, porque nesse dia fecha a loja e poderia !r passear com os filhos; outros... 1!: preciso escolher. Os mesmos - seis meses depois. - Com grande pesar, minha Senhora, não posso continuar a ter aqui o Alberto. Apesar de todas as no.ssas observações, chega normalmente atrasado na parte da tarde.

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- Senhor Diretor, o meu marido e eu achamos que uma hora de sesta depois do almoço é necessária para um certo equllibrio físico e psíquico. Aliás, tem de reconhecer que o trabalho do Alberto não ficou prejudicado, pois tem sido o melhor desde março. - ~ evidente que o seu trabaLho não foi prejudicado. Mas, re não defendermos a disciplina, cai-se na anarquia e todo o colégio rofrerá com isso. P~ço-lhe que compreenda. Nós queremos tomar o compromisso de levar até ao fim do curso as crianças que nos são confiadas mas é preciso que os pais, pelo seu lado, tomem o compromi&.o de respeitar as nossas condições de horário, de programas e de disciplina. Terei de explicar mais? Quando um grupo de casais se liga à.s Equipes de Nossa Senhora, sentimos profundamente, na Equipe Responsável, que assumimos uma responsabilidade, que nos comprometemos a ajudá-lo na sua procura de Deus. Talvez nunca tenhais pensado nisso a sério? Mas não podemos assumir esse compromisso se não tivermos oo meios de o levar a cabo: os Estatutos e as suas obrigações. Que há uma certa arbitrariedade na escolha de algumas obrigações dos Estatutos - como no colégio a quinta-feira é verdade. Por exemplo, poderia ter-se adotado um outro ritmo para o "dever de sentar-se" (quinze dias, dois meses ... ) . Foi preciso e.scolher. Também não discuto que determinado casal possa alcançar profunda vida interior sem fazer um retiro por ano. No entanto, não se cria uma regra para os casos especiais mas para o conjunto. E, para o conjunto, pareceu-nos essencial esta obrigação do retiro anual. Admitir que alguém se possa subtrair ao seu cumprimento a pretexto de que não tem necessidade dela (aliás, discutível) é abrir a brecha por onde escapariam aqueles a quem custa cumprir esta obrigação. ~ por -4-


esse motivo que pedimos àqueles que pensam poder dispensá-la que a cumpram como todos os outros. Retomo a minha Idéia. A Equipe Responsável, quando recebe uma equipe nova, assume por Isso mesmo um comproiilisso perante ela, o comproml&o de a ajudar no caminho de Deus - e asseguro-vos que em certos momentos este compromisso não nos parece leve. No entanto, só estaremos em condições de o manter se a equipe respeitar a disciplina do Movimento. ll:: por isso que lhe pedimos que se comprometa também. Estou comencldo ser uma segurança para vós que a Equipe Responsável saiba e queira comprometer-se a ajudar-vos no caminho de Deus. Acontece o mesmo conosco, sabendo-vos "comprometidos". HENRI CAFFAREL

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DEVORADO. . . MAS NUTRITIVO

"Excelência, estou sendo devorado"... Queixava-se, recentemente, um padre junto do seu bispo. "E, meu amigo, está sendo nutritivo?", respondeu este, a quem não faltava humor. Devorado ... todos o somos ou julgamos sê-lo. O turbilhão da vida atual - em certos dias devia dizer-se o tufão - o ritmo dos negócios, arrastam-nos e cievoram-nos. Devorados pelos chamados ao telefone. Os que recebemos e os que fazemos. Devorados pelos deslocamentos exigidos pelo trabalho. O automóvel, o trem, quando não é o avião a jato. Devorados pelos lazeres. .. Devorados, quer dizer, arrastados pelos acontecimentos ou pelos homens, sem nos pertencermos já a nós mesmos. Na realidade, estranhos a nós próprios, "alienados", como dizem os marxistas. Dominados ou dominadores por uma agitação pseudo-católica. Sem nada de comum com a verdadeira ação do cristão que é apenas e realmente a irradiação de 'Cristo através do seu discípulo. Não importa que se seja devorado d&de que se seja nutritivo, como notava o nosso bispo. Desde que se leve a quem nos devora alguma coisa mais do que celulose para ruminar. Vitaminas, sim. Estão na moda. Alimentos nutritivos e assimiláveis, e não essas guloseimas que enganam o estômago e a fome. Só seremos nutritivos com uma condição: se trarumitirmos Cristo, uma "virtude", uma força Sua, como diz o Evan-

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gelho. Ora. Cristo não irradiará através de nós e por nosso Intermédio se não estivermos unidos a :Ele. Particularmente, mas não exclusivamente, pelo recolhimento e pela. oração. Agimos segundo aquilo que efetivamente somos. A trepidação atual e a febre profana. não deixam de contaminar a. nossa vida religiosa. . . . Não queremos calar-nos, temos medo do silêncio e não gostamos de rezar. O t ra.ba.l[lo é oração, diz-se, e a. ação também. com certeza.. A Igreja. ensinou-o ao mundo e não se cansa de o repetir. Mas a ação também pode ser apenas socos no ar ou ruido de metais, como diz S. Paulo. E não passa disso se não for vlvlficada pela. nossa. oração com Cristo, a oração em nós do Senhor Jesus. Para que o trabalho se torne oração é preciso haver oração pura. Neste ponto os autores espirituais, sem exceção, e qualquer que seja. a escola. a que pertençam, são unânimes ... Se a nossa atenção estiver sempre desperta, o nosso esforço sempre tenso , poderemos ser verdadeiramente devorados. :Jt mesmo multo natural que o sejamos porque despertaremos o apetite dos outros. Mas seremos sempre nutritivos porque damos o senhor Jesus. Nutritivos para os que nos devorarem, mas nós próprios alimentados por essa passagem através de nós e multas vezes sem o sabermos, de Cristo, Senhor de tod~ nós.

JEAN ROCHE, s .j .

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O COMPROMISSO NAS EQUIPES DE NOSSA SENHORA

Já há quase um ano que vocês vêm adquirindo o conhecimento concret{) da vida numa Equipe de Nossa Senhora, refletindo sobre os objetivos e métodos do Movimento, começando a cumprir as obrigações, experimentando o que é a entre-ajuda dentro de uma equipe. Ao fazê-lo, puderam tomar consciência da Importância da espirltualidade conjugal que o Movimento se propõe ajudá-los a aprofundar e a viver, e os convida a espalhar ao redor de si. Vocês estão, portanto, no momento exato para decidirem com conhecimento de causa se o seu lugar como casal é nas E.N.S. Encontram-se perante a opção que lhes foi anunciada logo na Carta N9 2: permanecer no Movimento, "comprometendo-se a jogar o jogo" ou a dar por finda uma experiência que lhes revelou que o Movimento não convém por esta ou aquela razão. Cabe-lhes agora interrogar a si mesmos e sobretudo procurar a vontade de Deus sobre o c:R.sal: "Deveremos comprometer-nos com estes casais que nos rodeiam e adotar os seus Estatutos, e entrar mais longe na vida das E.N.S."? O compromisso não é qualquer coisa de completamente novo mas a conclusão de uma experiência leal; responde a determinado chamamento. Comprometer-se a jogar o jogo não significa que já se tenha conseguido realizá-lo completamente mas sim que: -

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a) Estão convencidos, depois de terem orado e refletido, que as E .N.S. podem ajudá-los neste período da. própria. vida a corresponder melhor aos chamamentos do Senhor, b) estão decididos a fazer tudo para o alcançar, utilizando os meios que o Movimento põe à sua disposição e os recursos da vida de equipe. "Assim como que parece essencial que nunca se desencoragem os casais que, cheios de boa /Vontade, têm dificuldades em cumprir as obrigações dos Estatutos, também me parece ilógico e perigoso que entrem ou permaneçam no Movimento aqueles que não concordem com os fins ou os meios, ou mesmo que, estando de acordo, não tenham vontade de fazer "jogo franco" (1) . .Encontrarão a seguir algumas 1eflexões que poderão ajudá-los a tomar uma decisão sobre o compromisso, para o prepararem e, em suma, para o viverem, ao longo dos anos. I. A SIGNIFICAÇAO PROFUNDA DO COMPROMISSO

O compromisso é, simultaneamente, uma atividade e uma atitude. - Atividade através da qual um casal escolh e, com conhecimento de causa e de maneira explícita, dar-se mais a Deus e aos outros, no e pelo Movimento. - Atitude, porque esta atividade só tem valor na medida em que é a expressão duma atitude que o casal resolve tomar e conservar enquanto fizer parte das E .N .S ., sendo evidente que tem e continua a ter sempre a liberdade de as abandonar. Poder-se-ia dizer que o comproml&o é o ato ou a atitude do casal cristão que resolve assumir plenamente o seu papel de testemunha de Deus no mundo em Q.Ue vive. (1)

"As Equipes de Nossa

~.~nhora

face ao ateismo", por H. Caffarel.

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Há um compromisso fundamental para com Deus que é o compromisso do batismo. Mas tal compromisro p~e ser ;vivido de maneiras muito diferentes. Se decidiram fazer parte das E.N.S. é porque lhes pareceu que as características deste Movimento lhes convinham. O compromisso nas Equipes é assumido pelo casal - vive-se no seio duma equipe - no Movimento. 19 Faz-se o compromi.<so enquanto casal As Equipes de Nossa Senhora (lUerem ajudar os casais a viverem melhor o sacramento do matrimônio. Assim, é no casamento e através dele, melhor compreendido e vivido, que querem chegar até Deus. O casal deve ser "Imagem de Deus", como dizia o Papa Paulo VI aos casais das Equipes presentes em Roma, em 1970. Portanto, o compromisso deve ajudar os esposos a desenvolverem, aprofundandt'-os, os laços que os unem um ao outro e a assumirem melhor a responsa;bilidade que têm um pelo outro.

29 O compromisso é feito dentro duma equipe

A lei da entre-ajuda é o ponto central da vida das Equipes de Nossa Senhora. Ora seria um contra-senso vliver sozinho a vida de membro duma equipe. Pode-se imaginar numa equipe de fu tebol, um goleiro sem os restantes companheiros da equipe? Quando um casal assume o compromisso nas Equipes está implicito que considera o fato de fazer parte duma equipe como necessário para viver esse compromisso. Conseqüentemente, se tiver de deixar a sua equipe por qualquer razão, só continuará "compromissado" na meõida em que continuar a viver a vida da equipe, quer entrando para outra, quer fundando uma nova, quer continuanda, pelo menos por algum tempo, como "correspondente" da sua equipe no caso de ser a mudança de residência que o obrigue a deixá-la. Por outro lado, o compromi&o implica a tomar a cargo reciproco os membros da equipe, tal como são, pessoas imperfeitas . . . como todos nós, aceitando cacta um deles ajudar todos os outros e pedir-lhes ajuda pe&oalmente. -10-


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O compromisso é feito dentro do Movimento Isto pressupõe que se aceita, em princípio:

- as GRANDES ORIENTAÇOES das Equipes de Nos:;a Senhora, tal como as definem, especialmente, os Estatutos e a conferência do Cônego Caffarel em Roma, sendo evidente que quando se fala de "Movimento" se pressupõe "dinamismo e evolução", em função de novas necessidades; - as OBRIGAÇOES tal como existem, e especialmente o retiro anual. Para fazer o compromisso é prec!.w estar totalmente decidido a aceitar todas as obrigações de que se descobrilam os benefícios e também as dificuldades durante o período de experiência; mas isto não implica que já se tenha conseguido inseri-los totalmente na própria vida, no dia do compromisso. - A DISCIPLINA DO MOVIMENTO e a confiança a ter naqueles que aceitam as responsabilidades, o que, aliás, implica também que os membros das equipes contribuam com as suas sugestões ou críticas construtivas. Mas este compromisso "no Movimento" implica igualmente que cada cll.\:al comprometido aceite estender a todo o Movimento a entre-ajuda fraterna de que pôde avaliar o valor a nível de sua equipe. :11: neste sentido que, logo de Início, se pede que aceite, eventualmente, a responsabilidade de tomar a cargo, espiritualmente, os casais das E.N.S. de todo o mundo. Este tomar a cargo espiritual tradl.iz-se, especialmente, pela recitação diária do Magn!f!cat. 11. MODALIDADES PRATICAS Já compreenderam, através da leitura final do editorial do Cônego Caffarel, que este ato comporta dos aspectos: fazem o compromisso perante o Movimento e o Movimento também se compromete com vocês e com a sua equipe. Assim, é perfeitamente normal que aqueles que aceitarem responsabilizarem-se pela vida das EN .S., no seu setor ou -11-


Região, também estejam dispostos a aceitar ou recusar a entrada da sua equipe no Movimento. Portanto, nenhuma equipe se poderá preparar para fazer o compromisso sem ter sido para tal convidada pelo seu Responsável de Setor. Depois de um contato com o Casal de Ligação e, seja diretamente ou por intermédio de outro casal, com o Responsável de Setor, será marcada a data de uma reunião a que poderá assistir o Responsável de Setor ou um casal por ele designado. Será a oportunidade desse casal conhecer melhor a sua equipe e de lhes dizer franca t diretamente o que pensa dela. Além disso, você tem certamente pontos a esclarecer ou aprofundar sobre a vida e as orientações do Movimento, perguntas a. fazer sobre a. organização das E.N .S., etc. Seria pena ficar ou começar com pontos mal entendidos e nada é mais út!l do que o contato direto e vivo com um casal mais antigo nas E.N.S., que possa partilhar com vocês a sua experiência. Normalmente depois desta reunião, o Responsável de Setor convida os casais da equipe a prepararem o seu compromisso. No entanto, quando achar necessário, pode ser obrigado a pedir-lhes que suspendam o compromisso. caso verifique, por exemplo, que existe desacordo com a finalidade ou métodos propostos pelo Movimento ou falta, não talvez boa vontade, mas apenas, vontade. Será então marcado um prazo, passado o qual será tomada uma decisão agora definitiva. Ill. AS

RE~õES

ESPECIAIS

Quando forem assim convidados pelo Responsável de Setor a preparar o compromisso, devem dedicar duas reuniões a este assunto. Na primeira reunião, s.erá propm.to para o tema de estudos, a reflexão sobre "0 Espirito e as Grandes Linhas do Movimento". -12-


Na segunda reunião o tema de estudos será baseado na primeira conferência do Pe. Caffarel no Brasil, sobre o sentido da reunião de equipe - e numa reflexão sobre o sentido espiritual do comprom~o. Será feita, ainda, uma partilha aprofundada sobre os meios de aperfeiçoamento e a vida da equipe. Para estas duas reuniões, serão fornecidos questionários especiais que deverão ser respondidos por escrito. Se, no decurso destas duas reuniões, um casal chega à conclusão de que, decididamente, a disciplina ou o ideal das E.N.S. não correspondem às suas aspirações ou à sua vocação, deve com toda a franqueza e simplicidade declarar que se retira. Os laços de amizade poderão evidentemente subsistir entre ele e os outros casaiS, mas seria ilógico e pouco leal que continuasse a seguir com os outros, um caminho que não lhe convém. Depois destas duas reuniões, o Responsável de Equipe envia um relatório ao Casal de Ligação, juntamente com as respostas dos casais aos temas, indicando a decisão tomada por cada um deles, bem como a data fixada para o compromisso.

Cada equipe tem plena liberdade de escolha sobre a maneira como entender levar a efeito a decisão dos casais. A cerimônia deverá ser asslstida pelo Responsável de Setor ou por um casal por ele designado e que representará o Movimento. Poderá acontecer que a equipe tenha admitido, depois de sua formação, um ou dois casais novos. Neste caso, é natural que estes casais esperem ainda algum tempo para assumir o compromlsso, sem retardar por isso o compromisso dos outros. Deverão oportunamente, também eles, tomar a decisão de permanecer na equipe, assumindo o compromisso de fidelidade aos ~tatutos, ou retirar-se da equipe. Finalmente, é preciso lembrar que o compromisso deve ser reatualizado periodicamente. 1!: para isso que as equipes devem proceder anualmente à renovação do compromisso. -13-


O compromi.<..<'O de uma equipe deverá ser imediatamente comunicado pelo Setor ao Secretário da ECIR, que pw:sará a enviar aos cw:ais a Carta Mensal normal. CONCLUSA O

Todos os cristãos são chamados à santidade, como decorrência de seu batismo. Todos os cristãos casados são chamados à santidade, no e pelo casamento. Para responder a este apelo, alguns casais cristãos resolvem ingressar nas Equipes de Noosa Senhora. Elas são um caminho entre outros, para ajudá-los a haurir do sacramento do matrimônio, não só as graças especiais que sustentam o casal na sua vida conjugal e familiar, como também e principalmente para firmar neles a vontade de melhor compreender e conhecer a Deus, melhor amá-Lo e melhor servi-Lo, assumindo, outrossim, o papel de testemuniha de Deus em meio aos homens. O compromisso é o momento oferecido aos casais para a escolha a fazer, de acordo com a própria vocação : tendo experimentado lealmente que a mística e a disciplina do Movimento os ajuda a melhor corresponderem à sua vocação, decidem engajar-se nesse caminho. Alguns haverá, também, que irão perceber que as E.N.S . nã<1 correspondem ao que nelas esperavam encontrar. Outros não estão decididos a fazer os esforços necessários. Embora por motlivos bem diversos, un.s e outros devem renunciar a continuar a experiência e deixar o Movimento. ~ preciso, portanto, considerar como normal a retirada de um ou outro cw:al por ocasião da decisão a ser tomada. Freqüentemente o que os retém, são os laços de amizade que se estabeleceram. Ora, a separação é mais fácil ao fim de 12 ou 18 me~es ; depois disso torna-se bem mais difícil. Quan to ao significado do compromi-sso, poderíamos citar aqui a definição dada por um casal membro da Equipe Responsável Internacional: "O compromisso é o gesto ou a atitude de um casal que, tendo tomado consciência de que é parte

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constitutiva do Movimento, renuncia a uma posição de espectador e se põe a serviço de Deus, da Igreja e do mundo". l: um GESTO, ou seja a concretização explícita de uma ATITUDE. l: a exteriorização por um ato, de uma atitude interior. Para um cristão, um compromisso domina todos os outros: é o batismo, que o faz membro do Corpo Mistlco de Cristo, a Igreja. Outros grandes compromissos podem suceder-se a este: seja o da Ordem, para o sacerdote; seja o do Matrimônio, para dois jovens cristãos que unem as suas vidas. Tais compromissos implicam responsabilidades peculiares. Para seu desempenho, as graças dos Sacramentos .são fontes de energias sempre renovadas, mas não dispensam a procura de meios concretos e adequados, que sustentem o esforço e preservem da rotina ou desânimo. As Equipes de Nossa Senhora propõem aos cristãos casados meios próprios para ajudá-los na sua marcha para Deus. Ingressar nas E N.S. é adotar tais meios. o "Compromisso" é, portanto, a adoção consciente de todos os meios propostos pelo Movimento para ajudar os cristãos casados a serem perseverantes no esforço de fidelidade aos dois grandes compromissos: o Batismo e o Matrimônio. Estes sacramentos são duas fontes de dinamismo para sustentar e soerguer sempre mais as nossas forças. E vamos às Equipes de Nossa senhora, movidos pela caridade fraterna, a fim de pôr em comum as nossas forças e assim corresponder mais perfeitamente à missão que nos foi confiada .

• "No fundo das almas, em certas equipes, quão diversas são as intenções! Este vem mais ou menos por causa do cônjuge, para lhe ser agradável; aquele casal, recém-chegado à cidade, está contente por fazer novas relações; outro decidiu-se -15-


porque realmente é preciso "fazer alguma coisa"; encontra-se também, muitas vezes, o caso do cJ.Sal atraído pela esperança de encontrar certo apoio para a sua vida conjugal; e talvez mesmo, em certas cidades, é de bom tom pertencer W! Equipes. Depois, há aqueles que não têm intenção alguma, só vêm por rotina, para não causar aos seus companheiros de equipe o desgosto de os ver partir. Ora, digo-lhes que nenhum desses motivos justifica a presença numa. equipe. Alguns não são maus mas nenhum é o verdadeiro, aquele que corre5ponde à razão de ser do Movimento. 1!: natural que algum destes motivos acompanhe o verdadeiro, mas não deverá ser o determinante. A única intenção verdadeira, aquela. que corresponde à finalidade das Equipes, é a vontade de compreender melhor Deus, de O amar melhor e de O servir melhor. Vem-se para a.s Equipes por Deus. O motivo de entrada., o motivo de permanência. é religioso, ou seja, relativo a Deus. 1!: forte o Movimento em que cada um dos membros só entrou depois de ter consultado Deu:$. 1!: preciso que as nossas equipes sejam fortes. Ouso acreditar que a Igreja tem necessidade delas". (H. C.)

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FATIGUEI-ME A PROCURA DE DEUS . ..

Para encontrar é preciso procurar, ter o desejo de encontrar; para desejar encontrar necessita-se acreditar que há alguma colsa a encontrar. Vocês acreditam ter ainda alguma coisa para. encontrar? Ou serão desses cristãos que, tendo adqUirido algumas noções sobre a grandeza do matrimônio, pensam que já dominam tudo sobre esse "grande mistério", para falar como S. Paulo? Que tendo assistido a alguns retiros e conferências, se contentam com os que fixaram e deixam a outros as "insondáveis riquezas de Cristo", como também diz S. Paulo? No caso de acreditarem que ainda têm mUito a encontrar - nunca termina a descoberta da verdade infinita - estarão possuídos pelo desejo de encontrar? Têm fome de luz? A inapetência espiritual é doença vulgar entre os cristãos. Não têm fome e, então, não se preocupam com a alimentação e a que tomam não lhes aproveita. A saúde espiritual reconhece-re por esse sinal, que é a fome ão conhecimento de Deus, do Seu pensamento e da Sua palavra . . . . . . . Se têm fome, procuram o alimento? Consagram, diariamente, tempo para ler as Escrituras? Sabem reservar, na vida sobrecarregada, momentos para aprofundarem a sua fé? Lê-se no livro dos Provérbios: "Fatiguei-me à procura de Deus''. E vocês? Estudam o tema mensal nesse espírito de descoberta de que eu falava?

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A discussão do tema na reunião será de tipo intelectual, ou seja, a pesquisa ardorosa das verdades de que se tem nece&idade vital? Sabem que o Conselheiro Espiritual não é apenas aquele que dispensa os sacramentos de Cristo mas também a Palavra de Deus? Na reunião apelam, freqüentemente, para ele? HENRI CAFUi'AREL

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TESTEMUNHO

"Rezarei muitas vezes pelos instruídos, os inleleclualmenle ricos, porque lhes é mais difícil apreenderem as verdades simples que os pobres compreendem por instinto. Deus quer assim evitar aos ricos a vaidade de tudo compreenderem, tudo explicarem, tudo racionalizarem e lerem sempre razão. Ele quer que não compreendamos tudo, para que possamos permanecer humildes e obedientes, para que sejamos sempre crianças perante este bocado de sombra. Mas o coração sente muito bem o que escapa à Inteligência e isto Te agradeço, Senhor. Mostra aos ricos que não é vergonha esclarecerem-se antes ao logo do Amor do que à luz da razão. E lemos por acréscimo o calor".

Durante uma sessão, após alguns membros das equipes "diplomados" se terem lamentado de que a conferência tinha sido difícil de seguir e outros terem querido arrastar o padre conferencista a uma discussão bizantina, um membro das equipes que nã<> acabou os seus estudos, entregou ao padre este texto acima. Quer sejamos ricos ou pobres, tanto no plano material como no plano Intelectual, podemos pedir ao Senhor, que nos dê perante estes mistérios a verdadeira "inteligência" de coração cristão e o espírito de infância, perante o que resta "parte de sombra" no n~o tema, num artigo, numa conferência.

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NÃO SE ESQUEÇAM DO SAL ...

Vocês já se reunem há nove ou dez meses. Fizeram a a experiência de uma vida de equipe. Apreciaram de modos diversos as exigência que as Equipes comportam. No caso do Movimento ler correspondido positivamente à expectativa, não é de temer, a curto ou longo prazo, certo torpor?

t para prevenir a mediocridade, a insipidez que lhes confiamos estas linhas de um Conselheiro Espiritual: ''Pertencemos às Equipes de Nossa senhora", "temos Estatutos " , "cumprimo-los". Cuidado! Não repousem nisto, como os Judeus na sua Lei. Chegou a hora de sacudir a sonolência; é preciso acordar, abalar a indiferença, é preciso optar, destruir a indolência, é preciso caminhar. Mesmo que acumulassem todas as "obrigações" dos Estatutos, .se faltasse o sal. Deus não as acharia a seu gosto. "Vós sois o sal da terra" (Mt. 5, 13). Jesus repete-nos o que ouviu dizer a Seu Pai. Já. encontramos no Levítico (2, 13): "Temperarás com sal tudo o que ofereceres em sacrifício, e não tirarás do teu sacrifício o sal da aliança do teu Deus . . . Em toda oferta acrescentarás .sal ". -20-


Na realidade, o sal evoca a perfeição de um dom que toma saboroso e protege da alteração. Os nômades utilizam-no nas refeições de amizade ou de aliança. Deus espera por ele em todas as nossas oferendas, das nossas pessoas e dos nossos bens. Desde o Batismo nós Lhe somos apresentados depois da imposição do sal, que ~e segue logo ao desejo da Paz. Como está adaptado ao rito da Aliança I Portanto, façam reviver em vocês a virtude do sal. Ele dá sabor às nossas relações com Deus. Na oração é o fervor da atenção : no sacrifício a perfeição da dádiva; no amor, a delicadeza, sem a qual o conjunto dos testemunhos e das dedicações deixa ao amado mais a impressão de p&o do que a de força para o coração. Ele manifesta igualmente a refeição da amizade onde a vida fraterna se exprime. A caridade dos nossos pensamentos, tão afastados da indiferença como da critica malévola. Que náuseas não teria, por vezes, o nosso próximo se tivesse de provar o que pensamos dele! O sal, nas nossas palavras, tiraria a insipidez das nossas banalidades dos lugares-comuns. Neutralizaria os fermentos da discórdia. Nos nossos silêncios, à escuta dos outros, calaria o que nos parece faltar às suas palavras para serem aceitas por todos. Nos nossos atos, corrigiria tudo o que têm de impessoal, de inexpressivo, em suma de triste. Porque o sorriso é o sal do rosto. "0 Reino dos céus, diz-nos o Senhor, é semelhante a um banquete ... " a nossa vida na terra. passa-se em prepará-lo : "Não se &queçam do sal". PAUL MARIE WECXSTEEN -21-


TESTEMUNHAS DO DEUS VIVO

Na sua conferência aos peregrinos de Roma, em Maio de 1970, o Cônego CAFF AREL começou por descrever o ateísmo como falo . Recordando uma frase do Concílio (1), mostrava, a parte de responsabilidade dos crentes, que freqüentemente apresentam uma falsa imagem de Deus. Sublinhou a seguir que o casal é chamado, de maneira especial, a ser testemunha do Deus vivo, da verdadeira imagem de Deus. Mas é preciso estar preparado. Estarão os casais? Estará o Movimento? Não de forma suficiente nem com profundidade. Daí o final de sua conferência que vão ler.

Em prioridade, parecem impor-se-nos três orientações de ordem geral : o estudo e a prática da ascese cristã, a escuta da Palavra de Deus, a prática da oração mental. Não me limitarei a definir estas orientações ; sublinharei as suas aplicações na vida visto que o perigo está sempre em nos contentarmos com idéias bonitas e por aí ficarmos. (I)

Na genese do ateísmo, também os crentes têm o seu quinhão de responsabilidade. (Gaudium et Spes) -22-


ASCESE CRISTA

Importa em primeiro lugar que o Movimento ajude os casais a darem lugar na sua vida à ascese cristã, que provisoriamente defino assim: uma imitação de Jesus Cristo na vida quotidiana. Estou convencido, na verdade, de que o desconhecimento das exigências de ascese está na origem das deficiências do Movimento. Ao dizer-vos isto, não estou tanto a censurar-vos a vós, como a mim próprio. Pensava um pouco ingenuamente, já. lá. ovão trinta anos, diante destes jovens casais vivendo um amor cristão alegre e fervoroso, que o seu entu!lia.smo bastaria para os conduzir à santidade. Depois de ter observado a sua evolução e também de ter aprofundado o pensamento de Cristo, compreendo hoje que a muitos falta conhecer as exigências evangélicas. Sem um esforço leal e corajoso para cada um purüicar o seu coração, é inútil pretender conhecer a Deus, viver de Deus e dar testemunho dEle. Cristo disse: "Bem-aventurados os de coração puro, porque verão a Deus". Disse também: "Aquele que quer ser meu discípulo tome a sua cruz de cada dia e siga-me" (Lc. 9, 23). Quando se fala de ascese, alguns pensam nem sei em que penitências dignas dos Padres do deserto. É ao mesmo tempo mais simples, mais profundo e mais alegre Em todos nós coabitam duas forças incompatíveis, o que a Escritura chama "cobiça" - ou se preferis, egoismo - a caridade, que é amor de Deus e dos nossos irmãos por Deus. No decorrer de vinte séculos de vida cristã, foram sendo elaboradas uma ciência e uma arte, que ensinam os meios para fazer triunfar a caridade wbre a cobiça, "o homem novo" sobre o "homem 'Velho", sobre o pecador que nós somos. Ê Inadmissível que nas Equipes de Nossa senhora, Movimento de Espiritualidade, os casais se não iniciem lealmente 11esta. ciência de progresso espiritual que é a ascese cristã. Mas a ascese cristã tem modalidades düerentes conforme os estados de vida : a ascese do leigo casado não deve ter as mesmas formas da dos religiosos. Infelizmente, se, no decorrer dos tempos, as regras e os meios da ascese religiosa foram -23-


largamente estudados e também, graças aos agrupamentos de leigos, se foi aperfeiçoando pouco a pouco uma asc~ da vida laica!, quase tudo está por fazer, no que respeita a uma ascese própria dos cristãos casados. Que enorme serviço poderiam prestar as Equipes de No.ssa Senhora., primeiro aos seus membros, e à Igreja em seguida, ao empreenderem este trabalho esboçado. Para o realizar, temos agora esta luz incomparárvel, que é o discurso de Paulo VI. Não desanimeis antecipadamente: a ascese cristã não é triste nem opressiva, é uma abertura ao sopro do Espírito; prepara-nos para o Pentecostes, Esse Pentecostes que cada cristão é convidado a conhecer pessoalmente. A esta orientação de ascese juntarei a nossa intenção ãe, para o futuro, dar uma Importância maior ao compromisso e à renovação anual do compromisso nas Equipes. Comprometer-se num Movimento, aceitar um quadro, submeter-se a uma disciplina, observar uma regra, é uma ascese, um meio de se precaver contra a inconstância, contrariar o nosso gosto da independência, que muitas vezes não é mais do que uma forma de orgulho e presunção, reagir contra uma tendência para •> individualismo espiritual, desinteressar-se dos outros no caminho da santidade. Mas é bem claro que, para ter o seu pleno ~entido, esta a.."Cese deve ser conscientemente escolhida e lealmente levada por diante. 1!: por isso que, para o futuro, ao fazer o compromisso e ao renOIVá-lo, deverá especüicar-se que se P.stá bem de acordo com a natureza das Equipes de No..<-.sa Senhora , as suas orientações e a sua pedagogia. Assim como me parece essencial que nunca se desencoragem os casais que, cheios de bo:l. vontade, têm düiculdades em cumprir as obrigações de n~os Estatutos, também me parece ilógico e perigoso que entrem ou permaneçam no Movimento aqueles que não concordem com os fins ou os meios, ou mesmo que estando de acordo, não tenham vontade de "fazer jogo franco ". A prática do compromisso e da sua renovação anual contribuiu largamente para a força e desenvolvimento do nosso Movimento. Mas, nestes últimos anos muitos membros das -24-


equipes têm dado a impressão de não avaliarem bem toda a sua importância. };: preciso reabilitá-lo. E o no.sro Movimento será jovem, animado, inventivo, criador, obreiro de unidade na Igreja, visto ele próprio realizar a unidade dos seus membros. ESCUTAR A PALAVRA DE DEUS

O escutar a Palavra de Deus é a segunda orientação geral que vos proponho. - A ascese, no sentido do caminho para a santidade, exige uma ativa e perseverante busca de Deus, especialmente através do estudo das Escrituras. Ora esta leitura ocupa um lugar demasiado íraco na vida pessoal dos esposos, na vida do lar, na vida de equipe. Doravante será necessário lançarmo-nos nela mais decididamente. Veremos então os milagres que a Palavra de Deus opera, pois ela é criadora: faz viver aqueles que se abrem à. sua virtude, faz surgir a alegria no lar. Parece-nos que se tantos casais, se tantos cristãos descuidam o estudo e a meditação da Palavra. de Deus é por não serem ajudados a descobri-la. Não faltam livros e revistas, é certo. mas nada substitui a procura. em comum. Razão porque, de futuro, além dos temas sobre espiritualidade conjugal, que se irão buscar no discurso de Paulo VI, todos os outros serão centrados na Palavra de Deus, fundamento de toda a vida espiritual. E ~tou convencido de que as nossas reuniões de equipe conhecerão aquele fervor que reina sempre nos cristãos reunidos para meditar as Escrituras. ORAÇAO MENTAL

A oração mental é a terceira orientação - Para encontrar Deus não ba.•ta e•cutá-Lo. é preci•o resoonder-Lhe, abrlndo e entregando à. sua Palavra o mais intimo do no<::"o ser. J,•.to exige aquela oração a que damos o nome de "oração mental". Onde falta a oração tudo definha, onde existe a oração tudo renasce, tudo amadurece. Temos de reconhecer -25-


que, se na reunião de equipe a oração ocupa um lugar de honra, o mesmo não acontece na vida pessoal da maior parte dos esposos. Longe di.s.."{)! Ora, seria vão pretender tomar-se testemunha de Deus vivo, sem se estar decidido a rezar. Só se pode testemunhar o que se conhece. Só os seres que rezam - quer sejam sábios ou sem grande cultura - não decepcionam quando falam de Deus. E só aquele que reza pode de vez em quando dizer, como Job ao dirigir-se a Deus : "Até agora conhecia-Te por ouvir dizer; agora os meus olhos viram-Te" (Jb. 42, 5). Doravante, será pedido a todos os membros do Movimento que, a partir do compromisso, consagrem diariamente à oração mental o modesto mínimo de dez minutos. Simultaneamente, a todos os escalões, far-se-á um grande esforço de iniciação na oração, para que ela se torne no que é já para muitos de vós, um encontro quotidiano com o Senhor. As Equipes, Movimento de Espiritualidade, serão logicamente um Movimento de Oração.

• "Inquieto e febril, o nosso mundo oscila entre o medo e a esperança, e grande número de jovens abordam, hesitantes, o caminho que se abre perante eles. Que isto seja para vós estimulo e apelo. Com a força de Cristo podeis e, portanto, deveis realizar grandes coisas. Meditai a Sua Pal!IIVl'a, recebei a sua graça na oração e nos sacramentos da penitência e da eucaristia, confortai-vos un.s aos outros, testemunhando com simplicidade e discrição a vossa alegria. Um homem e uma mulher que se amam, um sorriso de criança a paz de um lar; pregação sem palavras mas tão extraordinariamente persuasiva, onde qualquer homem pode já pressentir, como por transparência, o reflexo de um outro amor e o seu apelo infinito". PAULO VI -26-


RENUNCIAR AS COISAS DE MENOS IMPORTANCIA

O Pe. Caffarel, na sua conferência aos peregrinos de Roma, que acabamos de citar, convida os membros das Equipes a darem lugar na sua vida à ascese. Esta passagem de GUARDINI dá-nos orientações muito concretas sobre este assunto.

"Se um homem quiser tirar da vida - que dura tão poucos anos, pois passa tão depressa - o que ela tem de mais precioso para dar, tem de saber que só o consegue ~ renunciar às coisas menores para obter as maiores . .. O homem não é impelido para Deus pela violência. Se não fizer a sua própria educação neste sentido, se não co~­ guir à noite e de manhã, tempo para rezar, se não considerar a eolenidade do dia do Senhor como circunstância Importante, se não tiver, junto de si, o livro que mostra " A Largura e Comprimento, a Altura e a Proftmdidade" das coisas de Deus <Ef. 3, 18) , para este homem a vida desenrola-se constantemente sem que dê conta das ligeiras exortações que vêm do seu íntimo. Quando tem de estar perto de Deus, aborrece-se porque tudo lhe parece vazio. As conferências, o jornal, o rádio ensinam-lhe que os valores e as relações religiosas já não existem para o homem moderno e ele não só se sente justificado. ma.s dentro do progresso universal . . . Para se sentir em sua casa quando junto de Deus, de forma a apreciar estar -27-


numa relação com Ele, no sentimento de uma presença reall· zável. é necessário de novo "exercita1·-se" , como para qualquer assunto sério. É preciso querer fazê-lo dominando-se sem cessar : então a santa proximidade dá-se sob a forma de graça. Nós deveríamos aprender a considerar a ascese como um elemento de qualquer vida vivida com retidão. Faríamos bem em nos treinar a pôr barreiras aos nos..<'OS impulsos para conservar a justa medida, a abandonar tudo o que tem menos importância, embora .!:eja atraente, em favor do que importa mais e de tomarmos o pulso a nós próprios para nos libertarmos espiritualmente. Poder-se-ia, por exemplo .. . antes de circUlar na cidade, decidir não se deixar absorver pelos cartazes ou pelos transeuntes, mas conservar o espírito num bom pensamento ou numa liberdade tranqüila - ou poder-se-ia fechar o rádio, para que o silêncio reine no quarto - ou ficar numa noite em casa em vez de sair - ou então dizer, por vezes, "não" quando se come, bebe ou fuma - ou adotar outras atitudes semelhantes. Desde que nos tenhamos tornado atentos a isso, encontraremos, sem cessar, ocasião para um "exercício" que seja libertador: suportar a dor em vez de a reduzir logo com remédios, aceitar interiormente uma privação que por qualquer motivo seria boa, mostrar uma amabilidade serena a certa pessoa antipática ... Estas e outras atitudes semelhantes nada têm de sublime. Não se trata de jejuns rigorosos, ou de vigilias, ou de duras penitências, mas de exercícios numa vida bem conduzida, dessa verdade que a n~sa vida é diferente da de um animal. É a vida humana na qual os impulsos internos são delimitados pelo espírito numa magnífica liberdade, que é também perigO'!a. Este espírito dá-lhe todo o seu dinamismo e deve também exercer o poder ordenador através do qual a vida não é destruída mas conduzida à plenitude. ROMANO GUARDINI -28 -


A GERAÇÃO NOVA INTERPELA-NOS

"Por favor, ouçam também a interpelação da nova geração. Que não se perca na indiferenç3, depois de um momento de emoção, o trágico apelo desse estudante que há algumas semanas se suicidava pelo fogo perante os seus colegas. Depois da sua morte podia-se ler, no seu caderno, esta confissão dolorosa: "Deus . . . é difícil acreditar nEle . . . ". Seria preciso que, graças às vossas familias onde irradia a presença do "Deus bem-aventurado", do Deus Amor, já não fosse tão dificil acreditar nEle".

O Padre Caffarel terminava assim a sua conferência em Roma, em maio de 70. Pouco antes tinha recebido uma carta de um casal, citada a seguir, bem como o comentário que ele próprio fez sobre ela, na Carta das Equipes de março de 1970: " ... O jantar ~semelhava-se a muitos outros: mutismo de G . . . (rapaz de 18 anos), boa disposição de L . . . (moça de 19 anos); quanto ao mais velho, H ... (21 anos), conversava com o pai, sem convicção. sobre a situação econômica. Não sei que imponderável me !azia pressentir que este jantar seria diferente dos outros". -29-


"De fato, já pa.ssa.va muito da meia-noite quando nos separávamos, depois de uma conversa alternadamente tensa, dolorosa, apaixonada, grave, mas onde não houve violência 'Verbal. Todos acharam natural a proposta de G... para terminarmos com um Pai-Nosso e.ste serão que ficará na memória de todos como um dos momentos mais marcantes da nossa vida familiar". "O assunto - ou mais exatamente o ponto de partida desta conversa foi o suicídio de dois estudantes do liceu de Lille que, com quatro dias de intervalo, depois de terem regado com gasolina as roupas, lhes lançaram fogo, ardendo à vista dos seus camaradas. No caderno de um deles, que os jornais diziam ser cristãos militantes, o motivo do seu gesto: "Ofereço a minha vida para resgatar os erros cometidos no Biafra". O outro explicava-se numa carta: "Não podia adaptar-me a este mundo . . . " e, mais adiante, escrevia estas palavras desconcertantes: "Deus, é difícil acreditar n'Ele ... ". "Estávamos longe de pensar que estes dois suicídios que, confesso com vergonha, tinha lido no jornal quase como se fossem um acontecimento banal, tivessem tido tanta repercu..osão na alma dos nossos filhos. As suas reações foram vivas, variadas, incertas, contraditórias. Duas, no entanto, sobressaiam: uma admiração (não digo aprovação) pelos dois estudantes e uma adesão em profundidade à frase "Não podia adaptar-se a este mundo .. . ". "Falamos muito, meu marido e eu, antes de adormecermos. Nunca tinhamos sentido como nessa noite a nossa responsabilidade de adultos para com todos .:>S jovens, cristãos ou não, que não se podem habituar ao mundo que lhe oferecemos . .. ". Depois de ter recebido esta carta, soube que em multas outras casas este terrível acontecimento foi assunto de conversas familiares - por vezes violentas. Adlviniho sem dificuldade que, entre vocês, vários pais e mães sentiram um arrepio ao lerem este gesto desesperado. -30-


Quantos pais poderão dizer que esta tentação não ameaça os nossos filhos? Depois dos acidentes de estrada, dizem que é o suicídio o responsável por maior número de mortes de jovens entre os 15 e os 25 - e quantos suicídios falhados? Foi por intermédio de pais das Equipes - porque não hei-de dizê-lo - que aprendi o terrível significado da lacônica e pudica "morte acidental" que acompanha a participação da morte de um filho ou de uma filha. "Nada mais se podia fazer do que rezar. Insuficiente mas necessário". Assim termina o artigo duma das nossas jornalistas mais em voga, num jornal semanal muito pouco . .. "católico". Os rapazes de 17-18 anos acham que há certos gestos que se impõem e que devem ser públicos. Por que é que os pais não hão de também proclamar, através de um ato público, que recusam a barbaria da nossa civilização, o massacre dos inocentes no seu corpo e na sua alma (pensam principalmente na maré de erotismo), que querem trabalhar na transformação da sociedade não apenas através de dicursos? Ah, sei bem que se sentem terriveune.lte impotentes perante as montanhas que é necessário levantar - mais uma razão para pedir a Deus que intervenha "com mão forte e braço estendido". Não se pode aceitar que para os jovens só haja duas saídas: o desespero e ou o emburguesamentol HENRI CAFFAREL

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ORAÇÃO PARA A PRóXIMA REUNIÃO

TEXTO DE MEDITAÇAO (Mateus 20, 1-7)

Naquele tempo Jesus contou à multidão esta parábola: "0 Reino dos Céus é semelhante a um proprietário que saiu de manhã cedo a contratar trabalhadores para a sua vinha. E, tendo ajustado com os trabalhadores a um dinheiro por dia, mandou-os para a sua vill!ha. Saindo depois, cerca da terceira hora, viu outros que estavam na praça ociosos e dLsse-lhes: "Ide também vós para a minha vinha e dar-vos-ei o que for justo". E eles foram. Tornando a sair cerca da hora sexta. e da nona, fez o mesmo. Enfim, cerca da. undécima. hora., saindo encontrou lá outros parados e disse-lhes: "Por que estais aqui todo o dia sem fazer nada?" Responderam-lhe: "Porque ninguém nos contratou". Disse-lhes: "Ide também vós para. a minha. vinha" .

• Deus chama-nos, ao longo dos séculos, para colaborarmos na Sua obra. A aceitação desta vocação é a verdadeira oferenda que podemos fazer a Deus, através da graça de Cristo e à Sua Imagem, conforme está escrito na Epístola aos Hebreus (Heb. 10, 5-'7), segundo o salmo 40:

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Não quiseste sacrlf!clo nem oblação, mas preparaste-me um corpo. Não te agradam holocausto nem sacrifício pelos pecados. Então disse Eu : "Eis que venho - está escrito de Mim no volume do livro- para fazer, O Deus, a Tua vontade". ORAÇAO LITúRGICA (Salmo 40) Com Cristo, que faz até o fim a vontade do Pai, e que dá testemunho aos homens do amor Infinito de Deus, dizemos:

ANTíFONA (para utilizar como refrão) : Eis-me aqui, Senhor, para fazer a Tua vontade. Senhor, Deus meu, tens feito obras maravilhosas, e não há quem te seja semelhante nos Teus desígnios para conosco. Eu quereria narrá-los e proclamá-los mas são demasiadamente numerosos para que se possam contar. Não quiseste sacrifício nem oferenda, mas abriste-me os ouvidos. Não pediste holocausto e vitima pelo pecado. Então eu disse : Eis que velliho. No rolo do livro está escrito de mim : Em fazer a. tua vontade, 6 meu Deu.s, me deleito, e a . tua lei está no intimo do meu coração. Anunciei a Tua justiça na grande assembléia ; não contive os meus lábios. Senhor, Tu o sabes. Não escondi a Tua justiça no meu coração ; publique! a Tua fidelidade e o Teu socorro. Não oculte! a Tua graça e a Tua fidelidade à grande assembléia. Tu, Senhor, não afastes de mim as Tuas misericórdias; a Tua. graça e a Tua fidelidade semp:e me amparam. Glória ao Pai, ao Filho, ao Espírito Santo, agora. e sempre, ao Deus que é, que era e que vem, pelos séculos dos séculos!


EQUIPES DE NOSSA SENHORA Movimento de casais por uma espiritualidade conjugal e familiar

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ENS - Equipes Novas 1977-9  
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